O que é um vírus?

Tenho um fascínio por design simples e efetivo. E o vírus é a mais simples e efetiva forma de vida (?) que existe, se este puder ser considerado vivo.

Um vírus é como se fosse uma semente. Não tem metabolismo. Não consome energia. Não se movimenta, não respira, não absorve nada, não expele nada. Não se reproduz sozinho.

Um vírus é basicamente código genético, um invólucro e um mecanismo de acoplamento (para grudar em alguma célula), só isso. Ou, como o imunologista Sir Peter Medawar descreveu, “um pedaço de más notícias embrulhado em proteína”.

A fim de comparação, uma bactéria tem uma estrutura: parede celular, DNA, capacidade de sintetizar proteínas e se reproduzir sozinha.

 
Para dar uma ideia, uma bactéria tem o tamanho de uns 1000 nm (nanômetros), enquanto um vírus é de uns 10 nm. Um vírus é tão pequeno que passa por filtros que pegam bactérias, e por isso, foi chamado inicialmente de “agente filtrável”.

Comparação do tamanho entre bactéria e vírus


Tal qual uma semente, ele é simplesmente carregada pelo meio em que se encontra (água, sangue, etc). Como não gasta energia, se não tiver nada que o destrua, ele pode ficar anos simplesmente sem fazer nada, até encontrar um ambiente favorável (no caso, uma célula de um ser vivo). Daí, a ação começa. O mecanismo de acoplamento liga o vírus à célula, e tal como uma seringa, injeta o código genético dentro do invólucro.



O código genético que o vírus carrega pode ser um DNA ou um RNA, tendo algo entre 2 e 200 genes (para comparação, uma pessoa como eu e você tem uns 20 mil genes).

O código genético do vírus sequestra os recursos da célula, fazendo-a reproduzir cópias do vírus, tal qual uma fábrica desenfreada.

Chega num ponto em que as réplicas são tantas que a célula explode, expelindo o vírus por todo ambiente e contaminando outras partes do corpo.

Há várias teorias para o surgimento do vírus. Talvez uma célula sadia que foi perdendo funções, até chegar ao básico do básico. Ou um pedaço de DNA que encontrou um invólucro.

A polêmica sobre o vírus ser vivo ou não. Um vírus não processa energia. Não absorve outras substâncias, nem expele. Ele depende de sequestrar recursos de outras células, para produzir mais vírus. Na verdade, ser vivo ou não depende da própria definição de vida, que é tênue para este caso extremo.

Só encapsular o DNA não basta. Vírus que não tiver alta capacidade de transmissão não vai conseguir se propagar. Outro que não tiver alta capacidade de reprodução não vai ser tão agressivo. Darwinismo puro, quem não consegue se reproduzir fica para trás. Isto inclui outros tratos como resistência a antivirais, atacar ou se esconder do sistema imune. Fazer o hospedeiro tossir, espirrar e salivar, de forma a aumentar a chance de infectar outros.

Ocorre que o vírus é tão simples que pode mutar facilmente o código genético. A taxa de mutação pode ser muito alta. Estima-se 1% de mutação por ano no caso do HIV.

Normalmente temos uma imagem ruim de vírus, que causam doenças. Entretanto, a grande maioria não faz nada. É um jogo muito melhor parasitar o hospedeiro sem ele nem saber. É um jogo muito ruim matar o hospedeiro – pelo menos, matar rápido demais, porque não vai dar tempo dele transmitir a outrem. Há uma diversidade espantosa de vírus, chegando a 100 milhões de tipos diferentes, parasitando tudo quando é forma de vida.

Vírus são muito frágeis para viver fora do corpo do hospedeiro, e não conseguem penetram a camada externa da pele, mas uma abrasão microscópica é suficiente. Ou levar o mesmo à boca, ao nariz.

Sobre vacinas, a primeira tentativa de prevenir contra a varíola (smallpox) foi a inoculação, usada na China e Índia centenas de anos antes de alcançar a Europa nos anos 1700. A técnica envolvia coçar a pele com uma agulha embebida de pus de uma lesão por varíola. Diferente do vírus adquirido por inalação, aquela produzia uma infecção na pele, mas era seguida por uma imunidade de longo prazo.

A técnica acima tinha uma taxa de mortalidade de 1-2%, comparada com uma taxa de 10-20% pela via aérea. Por isso, foi amplamente utilizada, até o desenvolvimento da vacina, no começo do século 19. Esta teve história semelhante: quem pegava a varíola da vaca (cowpox) tinha chance enorme de sobreviver, e ficava imune à forma perigosa da varíola. Os cientistas testaram a teoria, e cultivaram o cowpox em larga escala, a fim de imunizar as pessoas. A vacina foi sendo aperfeiçoada, e a varíola foi erradicada da face da Terra.

Sobre o coronavírus.

Eu acho este extremamente perigoso, por alguns motivos. A taxa de transmissão é alta. A mortalidade é menor que a de outros, como o ebola. Entretanto, ainda assim é considerável.

Alguns subestimam, dizendo que é muito pânico para nada, que doenças comuns matam muito mais gente. Entretanto, eles estão olhando para casos passados e para efeitos de primeira ordem.

Uma doença que mata o hospedeiro rápido demais é relativamente fácil de ser reconhecida, isolada e controlada. Já o novo Covid19 pode passar desapercebida por muitos, que vão continuar transmitindo a mesma.

Na Itália, em três semanas o número de casos passou de 3 pessoas a 10 mil, com 631 mortes. Uma grande percentagem (80%) das pessoas não sente grandes sintomas e podem ficar em casa. 20% precisam ir a um hospital, desses, uns 6% precisam de leitos de UTI. Dos que vão à UTI, uns 4% se recuperam.

Dada a grande velocidade com que isso acontece, 6% é muita coisa!

Por onde passa, o coronavírus lota hospitais. Aquele vídeo da construção do hospital na China não foi por acaso.

Efeitos de segunda ordem: UTIs lotadas, pessoas agonizando nos corredores. Médicos e enfermeiros também estão sendo vítimas deste vírus, desfalcando duplamente a frente de combate.

Os recursos são escassos, portanto pessoas com outras doenças vão ficar sem acesso a tratamento médico.

Outro efeito de segunda ordem é esse vírus mutar para uma variedade mais perigosa ainda (lembra o jogo Plague Inc., é bem interessante).

Se o vírus está causando estragos em países desenvolvidos, imagine no Brasil, com a nossa desorganização! O potencial de estrago real é grande, a curto prazo – depois destas preocupações iniciais, desenvolvimento de vacinas, conhecimento maior do vírus, a tendência é voltar ao normal.

Como diz o filósofo Nassim Taleb, é melhor superreagir do que reagir menos do que o necessário.

Links:

Plague Inc. Neste joguinho, você é uma doença (escolha ser vírus, bactéria, fungo), e tem o objetivo de eliminar a humanidade antes deles te eliminarem. Comece num país populoso de terceiro mundo. Primeiro, seja muito transmissível sem sintomas. Vá desenvolvendo resistência ao frio, calor, vacinas, ganhando letalidade, e aumentando a capacidade de mutação.

https://www.ndemiccreations.com/en/22-plague-inc

Fernando Reinach. Artigo sobre o coronavírus.

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,brincando-com-fogo,70003227993

Vírus, a short introduction

https://www.amazon.com/Viruses-Introduction-Dorothy-H-Crawford/dp/0199574855

Sobre Cisnes Negros https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros

Sobre DNA

https://ideiasesquecidas.com/2017/07/11/%e2%80%8b-%e2%80%8bo-livro-de-receitas-de-1-gigabyte/

TTC Understanding the science for tomorrow

https://www.thegreatcourses.com/courses/understanding-the-science-for-tomorrow-myth-and-reality.html

Iludidos pelo acaso

Uma boa surpresa é encontrar nas livrarias o relançamento do livro “Iludidos pelo acaso” (Fooled by Randomness), do meu autor favorito: Nassim Taleb.

Fooled by Randomness foi publicado em meados dos anos 2000. Mostra como a aleatoriedade afeta diversos aspectos de nossa vida. É um ensaio para o ápice, o magnum opus de Taleb, que seria a publicação seguinte: A Lógica do Cisne Negro; e, posteriormente, Antifrágil – coisas que ganham com a desordem.

Em Iludidos pelo acaso, Taleb ainda não é o Taleb: sem inventar termos e conceitos (ex. o termo Cisne Negro, efeito Lindy), sem criticar abertamente figurões da academia, da política e da economia (há uma fila de desafetos: Steve Pinker, Richard Thaler, Nate Silver, Susan Sontag, e por aí vai), sem comprar briga em temas polêmicos (como plantações geneticamente modificadas).

Porém, tem o DNA do mesmo, dizendo em essência, o mesmo que viria depois no Cisne Negro: não conhecemos o mundo em que vivemos, não conseguimos prever o futuro, apenas nos preparar para ele.

Vale a pena ler cada frase deste livro.

A página pessoal oficial de Nassim Taleb é o Fooledbyrandomness.com

https://fooledbyrandomness.com/

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

​Skin in the Game (Pele no Jogo), de Nassim Taleb

Nassim Taleb é a mente destoante dos tempos modernos, o Nietzche de Wall Street. Ele é daquelas pessoas polarizantes: ou você ama muito ou você odeia muito.

Ele é libanês, radicado nos Estados Unidos, tendo trabalhado como trader por muitos anos, e testado suas ideias sobre o que (não) conhecemos sobre risco. O novo livro de Nassim Taleb, Skin in the Game, segue na esteira das ideias do Cisne Negro e de Antifrágil.

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Está tudo interligado. Um Cisne Negro é um evento de baixa probabilidade e alto impacto, e a questão é que tal evento tem mais chance de acontecer do que os nossos modelos conseguem medir. O conceito de antifragilidade é que há organismos que ganham com a desordem, e conseguem sobreviver e até se beneficiar de cisnes negros.

Hoje em dia, com o mundo esta ficando cada vez mais complexo, o que significa Cisnes Negros cada vez maiores. E essa complexidade é ainda mais forte por haver tantas pessoas sem a pele no jogo: o burocrata que decide intervenção no Iraque, o político que entende somente as consequências de primeira ordem, as corporações que são “grandes demais para falhar” e usam dinheiro público para sobreviver. Se der tudo certo, ok, venci. Se der errado, grito “foi um cisne negro” e com isso justifico socializar as perdas.

Seguem algumas ideias, sem muita ordem.

Ter a pele no jogo obriga a pessoa a passar no teste do tempo, como na natureza.

Via negativa: normalmente não sabemos o que funciona, mas sabemos o que não funciona. Não dá para saber de antemão se algo vai funcionar ou não, mas dá para testar, e vamos saber o que não vai funcionar. O que não funciona é o que não passa no teste de sobrevivência, o teste do tempo.

Cicatrizes do mágico. Taleb viu um show em que o mágico usava um picador de gelo. Após o show, ele percebeu gotas de sangue caindo da mão do mágico: é um indício de que ele realmente se arriscou ao fazer o papel, de que não foi algo fake. O mágico passou a ter o respeito do autor.

Trump é Antifrágil. Os jornalistas o atacam por ele ser um empresário e ter tido prejuízo da ordem de milhões de reais. Ora, mas assim como no caso do mágico com cicatrizes, é exatamente por isso que ele é respeitado pelas pessoas comuns: ter a coragem de empreender (com o seu dinheiro, não dinheiro dos outros), falhar. Perder milhões é como mostrar as cicatrizes de ter empreendido no mundo real.

(Adendo: eu diria que Bolsonaro também é antifrágil. Quanto mais a imprensa e os adversários batem nele, mais os apoiadores o defendem).

A ordem em que as coisas acontecem conta muito. Um funcionário público que ficou rico é completamente diferente de um rico que virou funcionário público. O primeiro não teve a pele no jogo, e provavelmente se beneficiou do próprio sistema para tal. O segundo sobreviveu ao teste do tempo, que com todas as ressalvas é um bom indício, e só então foi ao serviço público.

Nunca atravesse um rio com profundidade média de 0,5 metro. Porque não é só a média que importa, mas também a variância. Um rio de 0,5 m de profundidade vai ter trechos muito mais profundos e outros bem rasos.

Sobre a “regra de prata”. A “regra de ouro” é algo como “faça aos outros somente o que você faria a si mesmo”. A “regra de prata” é a versão via negativa, mais robusta do que a primeira: “não faça aos outros o que você não faria a si mesmo”. É interessante porque realmente eu não sei o que o outro quer, mas certamente sei o que o outro não quer. Taleb aproveita para dar uma espetada no filósofo Immanuel Kant, dizendo que o seu imperativo categórico é complicadíssimo e não funciona na prática…

Jornalistas: ter o reconhecimento de jornalistas produz o oposto do que se espera. O ideal é ser ignorado, ou até mesmo odiado pelos jornalistas, aí sim é um indício de que o trabalho é bom e vai sobreviver ao teste do tempo.

O efeito Lindy. Surgiu numa cafeteria chamada Lindy, em que o pessoal da Broadway se reunia. Eles brincavam que, se uma peça já está há um mês em cartaz, ela vai durar mais um mês. A expectativa de vida é igual ao tempo já sobrevivido. E esta é uma heurística muito boa. Trabalhos clássicos dos filósofos gregos de 2 mil anos atrás vão durar muito mais do que um livro qualquer lançado hoje.

A academia virou uma competição atlética, em que o participante quer uma medalha – tendo ou não alguma utilidade prática. É um meio auto-contido, em que as referências cruzadas aos próprios trabalhos são a medida de sucesso. E uma dessas medalhas é o prêmio Nobel, que para Taleb, era melhor que não existisse, para que os pesquisadores se concentrassem em procurar soluções de verdade.

Sour grapes. Há relatos de que as pessoas, ao não conseguirem alcançar as uvas que estavam longe, imaginavam que as mesmas deveriam estar verdes. Isto inspirou o conto de Esopo, posteriormente.

A falha do Behavior Economics é modelar os tendências de comportamento de um indivíduo, sendo que isto não necessariamente vai se refletir no comportamento de um grupo de indivíduos. Taleb ataca com todas as letras Richard Thaler, que para piorar ganhou um prêmio Nobel. Mas, de forma não coerente, Taleb poupa Daniel Kahneman, o fundador da Economia comportamental, prêmio Nobel também, porém amigável às ideias do libanês.

Entre dois médicos, um todo almofadinha, com roupas caras, diplomas na parede, e outro desarrumado, gordo, barba por fazer, parecendo um açougueiro, sem diploma algum na parede, qual escolher? Para quem conhece Taleb, é claro que é o segundo, sem dúvida. Isto porque se o segundo apresenta todas as desvantagens citadas, e ainda assim está no mercado há um bom tempo, é porque este sobreviveu ao teste do tempo, e tem talento real. O primeiro pode ter aparência, mas terá competência real? A natureza não está ligando nem um pouco para a aparência física e sim para performance no mundo real.

A ditadura da minoria. Imagine um grupo de pessoas, onde uma delas não abre mão de ir para a praia, e os outros todos têm uma leve preferência a ir às montanhas. O grupo todo acaba indo para a praia, já que aquele único fulano não abre mão deste resultado. O mais intolerante vence, acaba levando o grupo todo junto.

Ser papa garante bons médicos. Quando o papa João Paulo II foi baleado, ele foi levado ao melhor hospital da região e tratado pelos melhores médicos. Ora, porque não levaram ele para uma capela, para rezar?

Já dizia Aristoteles, a inveja vem dos semelhantes, do mesmo grupo. Alguém muito pobre vai invejar o seu primo que tem um tênis novo, e não um multibiliardário como Bill Gates. É mais provável um socialista que come caviar na França falar de desigualdade social do que a classe trabalhadora, que quer mais é viver o dia-a-dia.

O intelectual idiota: são aqueles que aplaudem quando o povo vai na mesma linha deles, mas quando não entendem o resultado, dizem que é populismo. São os que não compreendem como alguém como Trump pode ter vencido as eleições. Tem um monte de intelectual idiota por aí.

Conclusão

Sinto ao ler Taleb o mesmo que ao ler Nietzsche: com um martelo, ele ataca as fundações de barro de todos os ídolos do mundo atual (os acadêmicos, os economistas, os jornalistas, os intelectuais idiotas), e os demole, um a um. Ele também prefere o êxtase de Dionísio (no caso um malandro das ruas chamado Tony Gordo, ou um médico açougueiro) ao mundo ordenado de Apolo (para Taleb, um matemático quantitativo com phD chamado Dr. John ou um médico almofadinha com diplomas na parede).

Fiel ao seu estilo, Taleb ataca tudo quanto é celebridade intelectual do nosso tempo. Steven Pinker, Richard Thaler, Thomas Piketty, Paul Krugman, usando sem parar a palavra “bullshit”. Ele também se envolveu em polêmica com Mary Beard, ao meu ver, de forma exagerada e injusta – mas este é o estilo dele, opiniões fortes, críticas e discussões.

Estes conflitos geram um monte de inimigos, mas esta é justamente a tática de Taleb. Ter a pele no jogo, ter o risco de ser processado. As pessoas gostam de líderes corajosos, que colocam a cara a tapa.

Melhor o livro ser avaliado de forma ótima por alguns e péssima por vários outros, do que todos darem uma nota média. Ele pratica a antifragilidade no mundo real.

A recomendação final é a de colocar a pele no jogo, empreender no mundo real.

Taleb é mais fácil de ler do que praticar. Porque praticar o que ele diz envolve esforço real, significa literalmente ter a pele no jogo, e muito poucos têm coragem para tal.

Leia também:

A teoria do Cisne Negro

O intelectual idiota

Um Cisne Negro paira sobre a China

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

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Ensinando pássaros a voar

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Teoria x Prática

Durante a minha infância e em toda a minha juventude, pensava que primeiro deve-se saber a teoria, estudar na faculdade, para depois fazer as coisas na prática, do modo “correto”. A teoria deveria guiar a prática. Entretanto, esta afirmação é incorreta.

 

No livro “Microeconomia”, de Pindyck e Rubinfeld, um dos exemplos dados é um lançamento de um carro da Ford: diz o autor que a empresa fez diversos estudos macroeconômicos sobre o mercado e que isto foi fundamental para o seu sucesso. Ou seja, para o autor, a teoria precedeu a prática, e o sucesso derivou da teoria.

 
Ora, este foi o exemplo mais infeliz possível. Henry Ford, o fundador da empresa de automóveis com o seu nome, era um homem eminentemente prático.
Se Ford lesse isto, rolaria de dar risadas. Ford nunca fez faculdade. Aprendeu engenharia na prática: soldando fios, emendando cabos. A Ford Motors foi fruto de muita prática, muitas tentativas, muitos erros, muito trabalho. Ford não inventou o carro nem a linha de montagem, mas ele inovou, fazendo na prática carros melhores com linhas de montagem mais eficientes. A teoria é que surgiu depois, explicando o ganho de efiência de uma linha de montagem, o efeito positivo de se ter funcionários com salários mais altos que a média, as formas de gerenciamento de Ford, etc.

 
Esta apropriação indevida do sucesso da prática para validar a teoria é o que Nassim Taleb chama de “Efeito ensinar os pássaros a voar”. Os pássaros não vão para a faculdade estudar aerodinâmica para aprender a voar. São os teóricos que estudam como os pássaros voam e formulam as teorias.

 


Dançando em torno da fogueira da verdade
Durante o mestrado, vi aulas sobre filtros adaptativos, e li vários trabalhos sobre como melhorar o grau de convergência do mesmo. Teses cada vez mais complicadas e implementações em matlab, aproximando-se cada vez mais do abstrato e fugindo da realidade.

 
Em consultoria, um cliente grande precisava de uma solução. Montei uma planilha Excel com o filtro adaptativo mais básico possível. Eles usam a planilha até hoje. O mundo real precisa de soluções boas que sejam rápidas, não de soluções ótimas que demandem muito tempo ou recursos. O mundo real tem condições de contorno que não são modeláveis. O matlab funciona no meio acadêmico, mas o fulaninho que opera a planilha na empresa não tem phD para debugar um matlab (e a empresa também não vai pagar uma fortuna para ter a licença, ou instalar Linux para rodar Octave).

 
Peter Drucker diz mais ou menos assim: se a verdade é um fogueira, estamos eternamente girando em torno dela, sem saber exatamente como ela é. Não há tempo para aprender toda a verdade. Devemos entregar resultados hoje, com o que sabemos, com o que temos.

 

Arnaldo Gunzi.

Março 2015.

George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
 
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.

Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas opiniões. Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.  

Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?   A resposta: ninguém sabe.  


Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Teoria da Reflexividade do mundo.  

Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos.  

Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc.

Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.  

E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta.

Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira, ou é apenas opinião e blá blá. São 2 páginas para colocar a teoria e 200 de lero-lero.

A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é decepcionante. Entretanto, há uma diferença crucial: Soros aplica as suas ideias na prática! Nós, mortais comuns, não conseguimos aplicar esses conceitos, como veremos a seguir.


O Soros paradoxal

Há muito a aprender com Soros.  

Nassim Taleb, no livro “Fooled by Randomness”, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de atitudes contraditórias.  

Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.

Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente.

No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado.

Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.

Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a iniciativa e demitir a pessoa. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.  

Algumas de suas opiniões têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.  


Conclusão

No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:

1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.  

2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor. As pessoas comuns não acreditam que podem mudar o mundo.

3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião. As pessoas comuns têm grande relutância em aplicar o stop loss.

Soros é um péssimo filósofo, porém um excelente homem pragmático, de negócios.


Epílogo:

Uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento (alto para mim), continuei teimando em utilizá-lo.

O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.

Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.  

Como diz o educador financeiro Bastter: “Perdeu valor, parte para outra”.    


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

Fat Tony e o dilema do prisioneiro

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Esta digressão é meio longa e viajante, é normal se ninguém entender.
Já comentei sobre o dilema do prisioneiro aqui (https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/08/24/dilema-do-prisioneiro-e-assertividade/). É o assunto mais famoso e estudado da teoria dos jogos. Dois homens estão presos. Estão incomunicáveis. Se um confessar e o outro não, o que confessou se livra e o outro fica preso por 10 anos. Se ambos confessarem, ambos ficam 5 anos. Se ninguém confessar, ambos ficam presos por seis meses.
Por outro lado, Fat Tony e Dr. John são personagem criados por Nassim Taleb, autor de Black Swan. Taleb é uma das mentes mais provocativas do mundo atual.
Dr. John é o nerd perfeito. PhD, MBA, terno e gravata, tem um emprego com carteira assinada numa grande empresa.
Fat Tony é alguém que enriqueceu na vida real, investindo em commodities. Desconfia de todas as regras da matemática, dos economistas, do mundo dos negócios. Desrespeita regras quando acha que é a coisa certa a fazer.
Como eles resolveriam o dilema do prisioneiro?
  • Dr. John: se for um jogo único, a estratégia dominante é  a de confessar, independente da ação do outro. Se for um jogo repetitivo, deve-se adotar uma estratégia do tipo tit-for-tat (olho por olho) com perdão, como o tit-for-two-tats.
  • Fat Tony: Porra, eu chamaria o meu conhecido, Don Corleon, para intermediar o acordo. Nenhum de nós confessa. A gente fica um mês preso, depois os advogados tiram a gente e ficamos limpos. Se o corno do outro prisioneiro confessar, ele se ferra.
  • Dr. John: Mas o enunciado do problema diz que eles estão incomunicáveis. Não há um terceiro elemento intermediando a negociação.
  • Fat Tony: Dane-se o enunciado. Nunca vi duas pessoas ficarem incomunicáveis. Nunca vi advogado não poder falar com cliente. Nunca vi juiz não ser influenciado pelas pessoas certas.
Quero salientar nesta história que o modo lógico de resolver problemas não se aplica 100% na realidade. A realidade tem condições de contorno e hipóteses diferentes do mundo matemático. Ficar preso ao enunciado do problema não vai gerar novas soluções.
Recomendo a leitura de Dr. John x Fat Tony, original, no livro do Cisne Negro, para entender este post.
Mas como o Black Swan tem 500 páginas, uma descrição apenas de Dr. John e Fat Tony pode ser vista aqui
Arnaldo Gunzi.
Dez/2014

Concorrente Biológico e Distúrbios Políticos

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Na história da humanidade, houve um avanço significativo no combate a doenças, com a descoberta dos antibióticos. Muita gente até previu que as doenças seriam erradicadas no futuro.

Da mesma forma, o surgimento de inseticidas poderosos (como o DDT) faziam as pessoas pensar que nunca mais haveriam problemas na lavoura.

Ledo engano. A natureza é robusta, e o homem é frágil (diria Nassim Taleb).

Décadas depois do surgimento dos antibióticos, as bactérias não só ainda existem, mas evoluíram e são imunes aos antibióticos antigos. E o mesmo ocorre com os insetos da lavoura, muitos evoluíram e ficaram imunes. Qual a solução? Criar antibióticos mais e mais poderosos, e inseticidas mais e mais fortes. Mas, aí, as bactérias irão evoluir para ficar mais resistentes ainda, etc. Um ciclo vicioso, uma guerra química e biológica que não tem perspectiva de parar.

Uma solução que vem sendo perseguida atualmente é a de desenvolver concorrentes biológicos. Investir em concorrentes naturais dos seres malignos, para ocupar o espaço destes. Ao invés de matar todas as bactérias, que tal injetar bactérias no seu corpo? Só que, ao invés de ser uma bactéria qualquer, seria uma que não faz mal ao seu corpo, e dificulta a proliferação da bactéria ruim, por ser inimigo desta.
Em termos de lavoura, é o mesmo. Ao invés de exterminar a mosca que come a sua semente, que tal colocar um monte de sapos? Ou favorecer a reprodução de uma mosca concorrente, que come outra coisa, mas que consegue reproduzir com a mosca ruim?

E em termos de distúrbios políticos? O que se vê é que, quanto mais se tenta destruir um Saddan Hussein, um Hamas, mais forte algum efeito colateral aparece. É um ciclo infinito de destruição, ressentimento e revide.

Há vários economistas que argumentam que, assim como na biologia, seria mais sábio apoiar grupos rivais dos oponentes atuais, porém benignos.

O problema é que esta abordagem não é imediata. É uma solução de médio longo prazo, mas muito mais eficaz que a pura e simples meta de destruição do inimigo.