Ensinando pássaros a voar

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Teoria x Prática

Durante a minha infância e em toda a minha juventude, pensava que primeiro deve-se saber a teoria, estudar na faculdade, para depois fazer as coisas na prática, do modo “correto”. A teoria deveria guiar a prática. Entretanto, esta afirmação é incorreta.

 

No livro “Microeconomia”, de Pindyck e Rubinfeld, um dos exemplos dados é um lançamento de um carro da Ford: diz o autor que a empresa fez diversos estudos macroeconômicos sobre o mercado e que isto foi fundamental para o seu sucesso. Ou seja, para o autor, a teoria precedeu a prática, e o sucesso derivou da teoria.

 
Ora, este foi o exemplo mais infeliz possível. Henry Ford, o fundador da empresa de automóveis com o seu nome, era um homem eminentemente prático.
Se Ford lesse isto, rolaria de dar risadas. Ford nunca fez faculdade. Aprendeu engenharia na prática: soldando fios, emendando cabos. A Ford Motors foi fruto de muita prática, muitas tentativas, muitos erros, muito trabalho. Ford não inventou o carro nem a linha de montagem, mas ele inovou, fazendo na prática carros melhores com linhas de montagem mais eficientes. A teoria é que surgiu depois, explicando o ganho de efiência de uma linha de montagem, o efeito positivo de se ter funcionários com salários mais altos que a média, as formas de gerenciamento de Ford, etc.

 
Esta apropriação indevida do sucesso da prática para validar a teoria é o que Nassim Taleb chama de “Efeito ensinar os pássaros a voar”. Os pássaros não vão para a faculdade estudar aerodinâmica para aprender a voar. São os teóricos que estudam como os pássaros voam e formulam as teorias.

 


Dançando em torno da fogueira da verdade
Durante o mestrado, vi aulas sobre filtros adaptativos, e li vários trabalhos sobre como melhorar o grau de convergência do mesmo. Teses cada vez mais complicadas e implementações em matlab, aproximando-se cada vez mais do abstrato e fugindo da realidade.

 
Em consultoria, um cliente grande precisava de uma solução. Montei uma planilha Excel com o filtro adaptativo mais básico possível. Eles usam a planilha até hoje. O mundo real precisa de soluções boas que sejam rápidas, não de soluções ótimas que demandem muito tempo ou recursos. O mundo real tem condições de contorno que não são modeláveis. O matlab funciona no meio acadêmico, mas o fulaninho que opera a planilha na empresa não tem phD para debugar um matlab (e a empresa também não vai pagar uma fortuna para ter a licença, ou instalar Linux para rodar Octave).

 
Peter Drucker diz mais ou menos assim: se a verdade é um fogueira, estamos eternamente girando em torno dela, sem saber exatamente como ela é. Não há tempo para aprender toda a verdade. Devemos entregar resultados hoje, com o que sabemos, com o que temos.

 

Arnaldo Gunzi.

Março 2015.

George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.
Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas ideias e opiniões.
Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.
Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?
A resposta: ninguém sabe.

Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Reflexividade do mundo.
Imagine que o mundo está funcionando atualmente. Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos do mundo.
Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc. Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.
E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta. Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira ideia, ou é apenas opinião e blá blá infinito. São 2 páginas para colocar a ideia principal e 200 de lero-lero.  Lembre-se do lado filósofo dele, muito discurso com pouca aplicabilidade.
A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é até decepcionante. É por isso que nenhum filósofo o leva a sério, não há nada novo ou diferente nessas ideias.

O Soros paradoxal
Mas o parágrafo acima não que dizer que filosofia de Soros não sirva para nada. Há muito a aprender com ele.
Nassim Taleb, em Fooled by Randomness, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de ideias e atitudes contraditórias.
Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.
Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente. No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado. Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.
Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a ideia. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.
Algumas de suas ideias têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.

Conclusão
No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:
1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.
2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, Quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor,  e não ficar falando o que todo mundo já sabe.
3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião.

Epílogo: uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento, continuei teimando em utiliza-lo. O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.
Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.
Perdeu valor, parte para outra.
Arnaldo Gunzi
Fev 2015

Fat Tony e o dilema do prisioneiro

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Esta digressão é meio longa e viajante, é normal se ninguém entender.
Já comentei sobre o dilema do prisioneiro aqui (https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/08/24/dilema-do-prisioneiro-e-assertividade/). É o assunto mais famoso e estudado da teoria dos jogos. Dois homens estão presos. Estão incomunicáveis. Se um confessar e o outro não, o que confessou se livra e o outro fica preso por 10 anos. Se ambos confessarem, ambos ficam 5 anos. Se ninguém confessar, ambos ficam presos por seis meses.
Por outro lado, Fat Tony e Dr. John são personagem criados por Nassim Taleb, autor de Black Swan. Taleb é uma das mentes mais provocativas do mundo atual.
Dr. John é o nerd perfeito. PhD, MBA, terno e gravata, tem um emprego com carteira assinada numa grande empresa.
Fat Tony é alguém que enriqueceu na vida real, investindo em commodities. Desconfia de todas as regras da matemática, dos economistas, do mundo dos negócios. Desrespeita regras quando acha que é a coisa certa a fazer.
Como eles resolveriam o dilema do prisioneiro?
  • Dr. John: se for um jogo único, a estratégia dominante é  a de confessar, independente da ação do outro. Se for um jogo repetitivo, deve-se adotar uma estratégia do tipo tit-for-tat (olho por olho) com perdão, como o tit-for-two-tats.
  • Fat Tony: Porra, eu chamaria o meu conhecido, Don Corleon, para intermediar o acordo. Nenhum de nós confessa. A gente fica um mês preso, depois os advogados tiram a gente e ficamos limpos. Se o corno do outro prisioneiro confessar, ele se ferra.
  • Dr. John: Mas o enunciado do problema diz que eles estão incomunicáveis. Não há um terceiro elemento intermediando a negociação.
  • Fat Tony: Dane-se o enunciado. Nunca vi duas pessoas ficarem incomunicáveis. Nunca vi advogado não poder falar com cliente. Nunca vi juiz não ser influenciado pelas pessoas certas.
Quero salientar nesta história que o modo lógico de resolver problemas não se aplica 100% na realidade. A realidade tem condições de contorno e hipóteses diferentes do mundo matemático. Ficar preso ao enunciado do problema não vai gerar novas soluções.
Recomendo a leitura de Dr. John x Fat Tony, original, no livro do Cisne Negro, para entender este post.
Mas como o Black Swan tem 500 páginas, uma descrição apenas de Dr. John e Fat Tony pode ser vista aqui
Arnaldo Gunzi.
Dez/2014

Concorrente Biológico e Distúrbios Políticos

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Na história da humanidade, houve um avanço significativo no combate a doenças, com a descoberta dos antibióticos. Muita gente até previu que as doenças seriam erradicadas no futuro.

Da mesma forma, o surgimento de inseticidas poderosos (como o DDT) faziam as pessoas pensar que nunca mais haveriam problemas na lavoura.

Ledo engano. A natureza é robusta, e o homem é frágil (diria Nassim Taleb).

Décadas depois do surgimento dos antibióticos, as bactérias não só ainda existem, mas evoluíram e são imunes aos antibióticos antigos. E o mesmo ocorre com os insetos da lavoura, muitos evoluíram e ficaram imunes. Qual a solução? Criar antibióticos mais e mais poderosos, e inseticidas mais e mais fortes. Mas, aí, as bactérias irão evoluir para ficar mais resistentes ainda, etc. Um ciclo vicioso, uma guerra química e biológica que não tem perspectiva de parar.

Uma solução que vem sendo perseguida atualmente é a de desenvolver concorrentes biológicos. Investir em concorrentes naturais dos seres malignos, para ocupar o espaço destes. Ao invés de matar todas as bactérias, que tal injetar bactérias no seu corpo? Só que, ao invés de ser uma bactéria qualquer, seria uma que não faz mal ao seu corpo, e dificulta a proliferação da bactéria ruim, por ser inimigo desta.
Em termos de lavoura, é o mesmo. Ao invés de exterminar a mosca que come a sua semente, que tal colocar um monte de sapos? Ou favorecer a reprodução de uma mosca concorrente, que come outra coisa, mas que consegue reproduzir com a mosca ruim?

E em termos de distúrbios políticos? O que se vê é que, quanto mais se tenta destruir um Saddan Hussein, um Hamas, mais forte algum efeito colateral aparece. É um ciclo infinito de destruição, ressentimento e revide.

Há vários economistas que argumentam que, assim como na biologia, seria mais sábio apoiar grupos rivais dos oponentes atuais, porém benignos.

O problema é que esta abordagem não é imediata. É uma solução de médio longo prazo, mas muito mais eficaz que a pura e simples meta de destruição do inimigo.

Hindsight effect

É impressionante como surgem profetas, teorias da conspiração e análises táticas extremamente detalhadas depois do acontecimento. Na verdade, é da natureza do ser humano assimilar e incorporar um acontecimento “fora da curva” imediatamente depois que este ocorre, e achar que este era previsível. O nome disto é “efeito retrospectiva”, ou “hindsight effect”.

O “efeito retrospectiva” é um termo popularizado por Nassim Taleb, um dos pensadores mais polêmicos e heterodoxos da atualidade. Mas já era um efeito bem conhecido e documentado por pesquisadores como Daniel Kahneman.

Por exemplo, o 7 x 1 aplicado pela Alemanha no Brasil, em julho de 2014. Antes do jogo, ninguém em sã consciência apostaria em algo assim. Brasil era candidato ao título, pela tradição, por jogar em casa, etc.

Atençào: não estou defendendo o técnico, porque acho que a atuação foi bisonha desde o início do campeonato. Só quero enfatizar o efeito hindsight.

Depois do jogo, surgiram três grupos de pessoas: profetas, analistas e conspiracionistas.

Os profetas diziam que já sabiam que isto iria ocorrer, que a Alemanha era muito superior, que era evidente a fragilidade da defesa, que o meio campo do Brasil é ruim. Isto até é verdade, mas o que incomoda é a palavra “saber”. Com tantas inúmeras variáveis dentro e fora do campo, como é que alguém pode saber que exatamente as variáveis mencionadas seriam as determinantes?

Os analistas fazem toda a análise tática do jogo, dizendo que o Brasil perdeu o meio de campo, que foi um erro a escalação de X, etc. Mas eles sempre fazem a análise depois do jogo, e nunca antes. Olhar para o passado é fácil, e olhar para o futuro, quase impossível. E se a tática maluca do técnico em abrir completamente o jogo desse certo? Ele seria um gênio e os analistas também diriam que era o certo a fazer?

E as teorias da conspiração sempre surgem depois do evento, nunca antes. Aliás, a teoria que existia antes era de que a Copa estava comprada para o Brasil. Evidentemente, nenhuma teoria da conspiração prévia ao evento sobrevive, porque normalmente está furada.

Com o 11 de setembro de 2001 e a crise econômica de 2008, aconteceu a mesma coisa. Depois que a bolha explodiu, apareceram inúmeros profetas que diziam que era inevitável, que já tinham previsto, etc… Na verdade, muitos desses profetas vivem dizendo o tempo todo que alguma crise mundial ou catástrofe vai acontecer, mas erram em 90% do tempo. São levados a sério nas raras ocasiões em que acertam, sendo esquecidos logo depois.

O pior de tudo é que todos nós sofremos o efeito retrospectiva. É do ser humano, não dá para dizer que é coisa de desequilibrado mental.
Uma forma de evitar o efeito é escrever o que você acha que vai acontecer antes do evento, e comparar como que realmente ocorreu. Você vai se surpreender ao chegar a conclusão de que sua taxa de acerto será de 50%, próximo ao aleatório, e de que ninguém tem a capacidade de prever o futuro.

Por exemplo, antes da copa, eu achava que:
A Espanha iria muito bem, talvez até a semifinal
Brasil e Argentina fariam a final, e a Argentina seria a campeã por ter Messi
Colômbia e Chile seriam mero figurantes
Costa Rica não passaria da primeira fase
Alemanha faria uma boa campanha, mas não chegaria a final

A fórmula mágica na bolsa de valores

Fórmula de Black-Scholes:

É natural do ser humano olhar para a bolsa de valores como algo fascinante e possível de ser domado. E é natural especular sobre a existência de uma fórmula mágica, alguma coisa que diga exatamente qual será o futuro.

Pois bem, a fórmula mágica já foi inventada, já rendeu milhões aos criadores, e já causou a maior quebradeira da história.

A fórmula mágica chama-se fórmula de Black Scholes Merton para a precificação de opções. Opções são operações derivativas das ações. Uma opção é um direito de comprar ou vender uma ação, num futuro pré-determinado, a um preço combinado.

Por exemplo, digamos que uma ação da Vale está valendo R$ 25 hoje. Posso comprar uma opção de compra da mesma ação a R$ 27 para vencimento daqui a 2 meses. Como nada é de graça, vou pagar um valor para fazer esta compra, digamos de R$ 0,80 por ação. Se daqui a 2 meses a ação valer mais do que isto, digamos R$ 29, estou no lucro, porque posso comprá-la a R$ 27. Se valer menos, digamos R$ 23, não exerço a opção, perdi o investimento de R$ 0,80.

As opções têm volatilidade extremamente alta. No caso hipotético, a ação tinha valor de 25, e a opção de 0,80. Se a ação variar de 25 para 26, houve variação de 3,5%, algo normal. Nesse cenário, a opção variou de 0,80 para 1,00. Parece inofensivo, mas 0,20 em 0,80 dá 25% de ganho. Se coloquei um milhão, agora teria 250 mil a mais em um dia.

O uso de opções permitem ganhos e perdas extremas. E a fórmula de Black Scholes modela o comportamento das opções. Antes da fórmula, o modo de determinar o valor justo de uma opção era por feeling ou métodos empíricos sem muito fundamento. Robert Merton e Myron Scholes ganharam um prêmio Nobel de Economia pela fórmula (Fisher Black já tinha falecido).

Fundo de Investimentos

Merton, Scholes e um grupo de outros gênios fundaram o fundo Long Term Capital Management (LTCM), utilizando a fórmula mágica, computação pesada e todo o conhecimento destes. O fundo foi um sucesso absoluto, como um aspirador de pó sugando várias moedas dos becos do mercado. O fundo chegou a ser o maior dos EUA.

Para investir no LTCM, o mínimo era de 10 milhões de obamas. O LTCM chegou a ter 1 trilhão de dólares em jogo, em 1998.

Olha só: um fundo bilionário que tem dois caras que inventaram uma fórmula mágica e ganharam um prêmio Nobel de Economia pela fórmula. Além disso, o fundo tem um monte de outros gênios do mercado e da computação, inventando algoritmos para aplicar automaticamente os modelos. Além disso, é o maior fundo dos EUA, um monte de ricos colocam grana lá. Tem como dar errado?

Sim, tem como dar errado.

A realidade é muito maior do que qualquer fórmula, e a natureza é mais complexa do que a totalidade dos gênios da humanidade.

Toda teoria é baseada em hipóteses, e por mais bonita e sólida que seja a matemática, é uma construção numa base de lama se as hipóteses mudarem.

O LTCM era fortemente alavancado em opções, que têm extrema volatilidade (para cima ou para baixo). Eles faziam era ganhar um pouquinho em um número muito alto de apostas extremamente improváveis de ocorrer. No exemplo acima, era como se a Vale estivesse a 25 reais, e eles vendessem a opção de venda a 15 reais. Extremamente difícil de ocorrer, portanto a opção valeria pouco, digamos 1 centavo. Mas pelo modelo gaussiano de variação da ação, eles tinham probabilidade de perder só uma vez em milhão de anos. Se eles vendessem 100 milhões de opções dessas, teriam 1 milhão de lucro.

Um “Cisne Negro”, ou “Black Swan”, são eventos de baixa probabilidade e impacto extremamente alto. Este é um termo popularizado por Nassim Taleb.

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O mundo real não segue uma curva normal. Os Black Swans ocorrem com mais frequência do que o mundo gaussiano espera.

Pois bem, um Black Swan chamado “Crise da Rússia” ocorreu em 1998, levando pânico aos mercados. No exemplo, a Vale teria ido para abaixo de 15, digamos 10 reais. E sabe as 100 milhões de opções que eles venderam a 1 centavo? Agora, a diferença era de 5 reais por ação, o que equivale a 500 milhões de prejuízo. A estratégia era como se eles fizessem uma aposta: ganhariam 1 milhão em TODAS as rodadas, exceto quando perdessem. Mas quando perdessem, perderiam 500 milhões de reais.

E o Long Term Capital, altamente alavancado e tendo como base um mundo gaussiano, desabou com a crise na Rússia, uma ocorrência fora das hipóteses. O maior fundo do mundo quebrou espetacularmente. Em alguns meses, fechou as portas e teve que ter os contratos salvos pelo governo, para não quebrar o resto dos bancos (e o resto do mundo).

A matemática pesada, os inúmeros ganhos acima do mercado por alguns anos, o grupo de gênios, o Nobel de Economia, os computadores, o monte de rico colocando dinheiro, dão a sensação falsa de que é possível domar o mundo.

Vale mais a pena reconhecer que somos muito menores do que o mundo, vulneráveis, e fazer controle de riscos. Avançar passo a passo, respeitando o mundo, senão o mundo te engole.

Como diz o educador financeiro Bastter, o mercado adora contrariar quem acha que está acima dele.

O Bastter também tem outra frase interessante: “Somos todos imbecis”.

Dicas de leitura sobre o LTCM:

http://www.amazon.com/When-Genius-Failed-Long-Term-Management/dp/0375758259/ref=asap_bc?ie=UTF8

http://www.businessinsider.com/the-fall-of-long-term-capital-management-2014-7?op=1

Arnaldo Gunzi.