O complexo de Cassandra

O “complexo de Cassandra” é quando alguém sabe o que está prestes a acontecer, avisa a todos, porém ninguém acredita.

 

O termo é baseado na lenda grega que remonta à Guerra de Troia, descrita na Ilíada de Homero.

 

Cassandra era a filha de Prius, rei da cidade de Troia. Sendo ela muito linda, despertou a paixão do deus Apolo, que a fim de cortejá-la, deu-lhe o dom da profecia.

Entretanto, Cassandra recusou o amor de Apolo, o que causou a ira do deus. Por vingança, ele a amaldiçoou. Ela seria capaz de prever o futuro, entretanto, ninguém acreditaria nela.

Dois exemplos:
– Cassandra previu que o sequestro de Helena por Páris causaria a Guerra de Troia, e advertiu o príncipe a não ir a Esparta – e, é claro, foi ignorada.
– Ela previu que o famoso Cavalo de Troia causaria a ruína da cidade, e lutou para que os troianos não colocassem o mesmo para dentro dos portões – e, obviamente, foi ignorada.

 

Em geral, pessoas que têm a capacidade de fazer análises globais e longo prazo sofrem deste efeito Cassandra – têm uma boa ideia dos efeitos, entretanto não conseguem lutar contra a maioria, que vê apenas o curto prazo, e apenas o local.

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Vide também

 

O Cavalo de Troia das histórias


Post da série para Iniciantes – aproveitando que a Wikipédia já não explica nada de forma simples e objetiva.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Cassandra

https://www.britannica.com/topic/Cassandra-Greek-mythology

 

 

​ O olho da sabedoria

O deus máximo da mitologia nórdica é Odin, e ele é cego de um olho.

Como Odin perdeu o olho?

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Odin sempre buscou obsessivamente a sabedoria.

Nesta busca, ele chegou ao poço de Mimir, aos pés da árvore da vida YggDrasil. Lá vivia Mimir, um ser que tinha todo o conhecimento do cosmos, conseguido devido à água do poço.

Odin pediu para beber a água do poço da sabedoria. Mimir respondeu que havia um preço extremamente alto a ser pago.

“Qual o preço?”, perguntou Odin.

“Um de seus olhos”, disse Mimir.

Odin não hesitou. Arrancou um de seus olhos, sem se importar com a dor, e bebeu a água da fonte da sabedoria…

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Como conseguir o olho da sabedoria?

A sabedoria vem somente após muitos sacrifícios.

O mundo real não existe, existem interpretações do mesmo.

Quem enxerga o mundo com o olho da sabedoria enxerga muito além do que os olhos podem alcançar.

Com o olho da sabedoria vemos as linhas do código-fonte que formam a matrix de nosso mundo.

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Odin pelo mestre Jack Kirby

Vemos cadeias de relações causa-efeito, causa-efeito, a níveis profundos.

Vemos o presente, entendemos o passado e projetamos o futuro.

Vemos que há situações que não conseguirmos prever, para os quais é bom ter precauções, como seguros e opções.

Compreendemos o que as pessoas realmente pensam e o que querem.

Vemos o mundo em nível global e a longo prazo.

Qualquer um de nós pode conseguir o olho da sabedoria, mas o preço é alto, extremamente alto. É necessário muito mais do que o sacrifício de um olho. É necessário o sacrifício de sua vida.

Obter sabedoria significa uma busca incessante por novos conhecimentos: inúmeras horas estudando, lendo, procurando boas fontes de inovação.

Obter sabedoria significa trabalhar eternamente para gerar valor no mundo real, interagindo com dezenas de pessoas, ajudando, aprendendo e ensinando.

Obter sabedoria envolve inumeráveis tentativas e erros, empreender, ser bem-sucedido e falhar, cair e levantar, reconhecer erros, pedir desculpas e evoluir.

Odin perdeu um olho físico, mas ganhou um olho metafísico.

Com tal olho, ele enxergava mais do que qualquer outra criatura da face da Terra.

Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei.

Trilha sonora: assim falou Zaratustra, Richard Strauss

 


 

Fontes:

https://norse-mythology.org/tales/why-odin-is-one-eyed/

https://www.audible.com/pd/History/Great-Mythologies-of-the-World-Audiobook/B013KRSIVC?ref=a_a_search_c3_lProduct_1_2&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=BZY0SQ8RHE1VHZPCR6R9&

O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Orfeu, Tom, Vinícius e Obama

 

 

Sem o mito de Orfeu, talvez o mundo nunca conhecesse a dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes e nem o ex-presidente Barack Obama…


 

Orfeu e as sereias

Orfeu é considerado o maior músico da mitologia grega. Orfeu era filho de um rei grego e de Calíope, uma das 9 musas – cada musa representa a inspiração para um dom: poesia, história, dança, comédia, etc. Calíope era a musa da poesia épica – por exemplo, como a Ilíada e a Odisseia.

Era como se Orfeu fosse um super-herói, sendo a música o seu superpoder. O poder da música era utilizado para acalmar feras e trazer a alegria aos corações humanos.

O primeiro mito de Orfeu é a sua participação na Argonáutica. Um princípe chamado Jasão reuniu um grupo de heróis para uma missão impossível, recuperar o tosão de ouro. Um tosão é tipo o couro de um carneiro, mas era um carneiro todo especial, com pelos de ouro, que daria poderes a quem o possuísse.

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Jasão contou com o apoio de Argo, que construiu o navio que leva o seu nome – Argonautas. Além disso, ele reuniu um monte de figuras importantes da mitologia grega: Castor e Pólux (a constelação de gêmeos é em homenagem a eles), Hércules, Atalanta (a única mulher), Laertes (o pai de Ulisses, da Odisseia). Orfeu foi chamado para se juntar ao grupo, primeiro porque a música era importante para ajudar a suportar uma longa jornada de meses no mar, e segundo porque sem Orfeu eles não conseguiriam passar pelas sereias.

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As sereias são as mesmas sereias da Odisseia, cujo canto enfeitiça os marinheiros e os levam à ruína. Para os Argonautas passarem por elas, Orfeu cantou uma canção mais bonita e em voz mais alta que a das sereias, desta forma evitando que os colegas fossem enfeitiçados.


Orfeu e Eurídice no inferno

Este é o mito mais conhecido de Orfeu.

No dia de seu casamento com Eurídice, ocorreu uma tragédia. Um sátiro completamente bêbado ficou encantado com a beleza de Eurídice e passou a persegui-la. Ela fugiu, mas acabou sendo picada por uma cobra e morreu pouco tempo depois.

Desolado numa tristeza sem fim, Orfeu passou vários dias tocando músicas melancólicas, até que decidiu descer ao Inferno para buscar a sua amada.

Orfeu passou pelos portões do mundo subterrâneo, deu uma moeda a Caronte para atravessar o rio Styx, passou pelo cão Cérbero e finalmente chegou à presença de Hades, o senhor do Inferno, e sua esposa, Perséfone. Então, no centro do Inferno, Orfeu cantou a música mais bela e mais triste que todos ali jamais tinham ouvido.

A música de Orfeu conseguiu tocar Hades, que em troca, permitiu que Eurídice retornasse ao mundo dos vivos. Mas com uma condição: que Orfeu não olhasse para trás, até que ambos estivessem de volta ao mundo terrestre.

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Orfeu fez toda a jornada de volta, com Eurídice seguindo-o em completo silêncio. Porém, ele cometeu o erro de olhar para trás logo após voltar ao mundo – a condição era de que ambos estivessem de volta, não apenas ele. Desta forma, ele perdeu Eurídice de novo, desta vez para sempre.

 


Orfeu da Conceição

Desde meados de 1940, o grande poeta e diplomata Vinícius de Moraes queria fazer uma peça inspirada no herói grego Orfeu, mas ambientado nas favelas cariocas e com os negros brasileiros.

Orfeu Negro, 1959

O site http://www.viniciusdemoraes.com.br tem algumas explicações sobre a motivação:

Suas incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos e trágicos dos tempos míticos.

Nesse mesmo ano, Vinícius estava passando alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba. Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato.

 

Para ajudar na parte musical do projeto de “Orfeu da Conceição”, o músico Ronaldo Bôscoli apresentou a Vinícius aquele que seria o seu maior parceiro, Tom Jobim, formando a maior dupla musical de todos os tempos.

Tom Jobim teria ouvido a proposta da peça, mas a sua pergunta de verdade era outra: “Tem um dinheirinho nisso aí?”

Vinícius e Tom fizeram as músicas do espetáculo, que estreiou em 1956.

A peça virou um filme, Orfeu Negro, dirigido pelo francês Marcel Camus, que estreiou em 1959. Este filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, mas representando a França, não o Brasil, já que toda a viabilização do filme foi por parte dos franceses, embora a filmagem e os atores fossem brasileiros.

 

O filme narra a história de Orfeu, um condutor de bonde, negro, que conhece Eurídice, uma negra vinda do sertão para viver no Rio de Janeiro. O enredo acontece no carnaval carioca, por isso, um clima com muita força, muita energia. O roteiro é inspirado no conto grego: Eurídice é perseguida por um homem estranho e morre por conta disso, Orfeu desce escadarias ao mundo inferior, canta num ritual de macumba, mas acaba não conseguindo resgatar Eurídice e ele mesmo morre no final…

 

 

 

Ninguém melhor do que o maior músico do mundo antigo, Orfeu, para unir os maiores sambistas do Brasil branco, negro, mulato, lindo como a pele macia de Oxum. Saravá, como diria o poetinha Vinícius de Moraes.


Orfeu Negro e Obama

O pai do ex-presidente Barack Obama é queniano, mas a mãe é americana, e branca.

A mãe de Obama tinha um fascínio por negros, e o filme “Orfeu Negro” era o filme favorito dela.

“Uma noite, enquanto folheava o jornal Village Voice, os olhos da minha mãe se iluminaram ao ver a propaganda de um filme, ‘Orfeu Negro’, que estava sendo exibido no centro. Minha mãe insistiu para que fossemos naquela noite; ela disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu”, conta Obama, antes de lembrar as palavras da mãe: “’Eu tinha apenas 16 anos. Foi a primeira vez que fiz algo totalmente sozinha. Senti-me tão adulta. Quando vi o filme, achei que era a coisa mais bonita que já tinha visto’, ela nos contou enquanto entrávamos no elevador.”

Mas Ann não conseguiu transmitir seu entusiasmo ao filho. “Os brasileiros negros e mulatos cantavam e dançavam e tocavam violão como aves livres de plumagem colorida. Na metade do filme, decidi que havia visto o suficiente e virei para minha mãe para ver se ela estava pronta para ir embora. Mas seu rosto estava vidrado na tela. Naquele momento, senti-me como se tivesse olhado por uma janela para seu coração, o coração de sua juventude. Percebi que o retrato de negros infantilizados que eu via, o reverso da imagem dos selvagens do (escritor britânico Joseph) Conrad, foi o que minha mãe carregou com ela até o Havaí anos atrás, um reflexo da fantasia simplista que havia sido proibida para uma garota branca, de classe média do Kansas, a promessa de uma outra vida: quente, sensual, exótica, diferente.”

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

 

 

Este é o poder da música, acalmar feras, fugir do canto da sereia, forjar parcerias memoráveis e mudar o destino das pessoas.

 


Bônus: Valsa de Eurídice

 

Monólogo de Orfeu


 

Links

http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

https://jornalggn.com.br/noticia/tom-jobim-vinicius-de-moraes-e-orfeu-da-conceicao-por-jota-a-botelho

https://www.google.com.br/search?q=orpheus+eurydice&client=ubuntu&hs=o9g&channel=fs&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjG-Iyth97YAhXHi5AKHXoyAGIQ_AUICigB&biw=1252&bih=617#imgrc=yOBlnwCJ_SxR2M:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​Prometeu e Epimeteu

Nesta virada de ano, nada mais adequado que a história da criação do homem segundo a mitologia grega. Começa com Prometeu e Epimeteu, irmãos, e titãs, raça de seres que antecederam os deuses do Olimpo.

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O primeiro tem o dom da antevisão, e o segundo, o dom da visão retrospectiva. Um olha para o futuro, e o outro, para o passado. O primeiro, muito sábio, inteligente e zeloso, o segundo, afobado, inconsequente, incauto.

Os deuses deram aos irmãos a tarefa de criar os seres vivos da Terra.

Prometeu (o que olha para o futuro) criou os seres vivos com muito cuidado a partir de argila, e a deusa Atena deu o sopro de vida a estes.

Epimeteu (o que olha para o passado) ficou com a responsabilidade de conceder um dom específico a cada animal.

Os animais pegaram a senha, ficaram numa fila, e Epimeteu foi distribuindo as habilidades: garras, velocidade, casca dura, poder de voar, etc.

O ser humano foi o último da fila, e quando chegou a sua vez, o atrapalhado Epimeteu já tinha distribuído todas as habilidades que ele tinha em mãos. Assim, o ser humano não tem garras afiadas, dentes esmagadores, velocidade arrasadora, veneno, nem nada especial.

Prometeu apiedou-se deste indefeso ser, e deu um jeito de fornecer alguma habilidade. Tornou-os eretos como os deuses. E, além disso, roubou o fogo dos deuses para dar aos homens.

O fogo permitiu que os humanos se protegessem do frio, forjassem armas, cozinhassem alimentos, ajudando a sua evolução de um macaco desajeitado a um grande caçador coletor, depois um grande agricultor.

Os deuses enfureceram-se com Prometeu. Ele foi acorrentado a uma rocha, e condenado a ter o seu fígado devorado por uma águia, todos os dias. Durante a noite, o fígado crescia, para ser devorado novamente no dia seguinte.

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O homem também sofreu a vingança de Zeus. Este criou uma bela criatura, chamada Pandora, a primeira mulher, e enviou-a a Epitemeu. Pandora tinha um espírito enganador, uma língua afiada e muita curiosidade. Epimeteu tinha sido avisado pelo precavido Prometeu a não aceitar presente algum de Zeus. Mas Pandora era de tal beleza, uma coisa tão linda, tão cheia de graça, num doce balanço a caminho do mar, que foi impossível o incauto Epimeteu resistir.

Junto com Pandora, veio uma caixa, que tinha somente uma instrução clara: não abrir. Porém, um dia, a curiosidade de Pandora foi tanta, que ela abriu a caixa, e espalhou todas as doenças por este planeta. Depois que todas as doenças se espalharam, ela viu que tinha ficado alguma coisa no fundo da caixa: a Esperança.

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O nosso benfeitor Prometeu se safou, depois de um tempo. O herói Hércules matou a águia e o libertou, numa pausa dos seus 12 trabalhos. Tendo o dom de antever o futuro, Prometeu sabia que sofreria consequências, mas também sabia que dar o fogo aos homens era a coisa certa a ser feita, e que ele mesmo se safaria no final.

E, mais do que o fogo, Prometeu deu aos homens o dom da antevisão. Todos os animais conseguem olhar apenas para o presente e o passado, como Epimeteu: juntar alimentos, sobreviver hoje e agora. Somente o ser humano tem o dom de olhar para o futuro, prever e planejar o amanhã a partir do momento presente. Este é o verdadeiro legado de Prometeu.

Veja também: o Deus Janos.

 


Links

http://www.uexpress.com/tell-me-a-story/2011/3/6/prometheus-and-epimetheus-a-greek-myth

https://www.greekmythology.com/Myths/The_Myths/Creation_of_Man_by_Prometheus/creation_of_man_by_prometheus.html

 

 

 

 

 

 

 

A previsão do tempo que salvou o Dia-D

Resumo: a previsão do tempo possibilitou o desembarque aliado na Normandia, no Dia D – o evento que efetivamente virou o jogo na Segunda Grande Guerra. E se a previsão estivesse errada?

A não-linearidade do clima

A história, tanto quanto a vida, é marcada por diversos eventos não-lineares, que poderiam nunca ter ocorrido, e que poderiam ter mudado o mundo da forma como o conhecemos.

Por melhor que seja o planejamento, há eventos fortuitos que fogem completamente ao domínio de conhecimento de qualquer pessoa. Dentre todos os elementos desconhecidos, um dos mais importantes é o clima. Ele pode afetar desde o passeio no fim de semana, até o desembarque de 150 mil soldados e o destino da humanidade, no Dia D.

A importância do clima é tão grande, e conhecida desde tão antigamente quanto a Arte da Guerra, de Sun Tzu:

A arte da guerra é governada por cinco fatores:
– a Lei Moral
– o Céu
– a Terra
– o Comandante
– Método e disciplina

Onde o Céu significa a noite e o dia, o frio e o calor, o tempo e as estações.

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A fim de avaliar as chances de cada lado, Sun Tzu pergunta: Com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Zhuge Liang Kongming

Embora Sun Tzu seja muito famoso no ocidente, há outro estrategista chinês que o coloca no chinelo: Zhuge Liang Kongming, da época dos Três Reinos.

Conta-se que ele tinha um conhecimento profundo do clima e da topografia.

Numa das guerras contra um reino vizinho, ele ficou meses articulando a posição de suas tropas e navios de guerra, a fim de encurralar o inimigo e utilizar fogo para destruir de vez a oposição.

O comandante inimigo nem deu bola para o posicionamento de Kongming, porque todos sabiam, desde sempre, que o vento soprava contra o exército do nosso estrategista. Se Kongming quisesse utilizar o fogo, com certeza ele mesmo se queimaria.

Depois de muita preparação, Kongming mobilizou suas tropas e as de seus aliados, para o ataque final. Toda a sua estratégia dependia do fogo – e do vento. Mas o vento soprava contra ele na véspera do ataque. Os aliados queriam desistir do ataque, mas Kongming insistiu para que fossem em frente – e prometeu a sua cabeça, caso desse tudo errado.

Pois bem, exatamente no dia do ataque, o vento virou de direção, agora soprava contra o inimigo. Kongming e aliados utilizaram a fúria do fogo, devastaram o inimigo e saíram vitoriosos.

Diz a lenda que o vento não virou por acaso. Kongming tinha lido em tomos antigos de conhecimento esquecido que o vento, no local do ataque, virava de direção um dia por ano, exatamente no dia do ataque programado!

Se a lenda de Zhuge Liang parece muito fantasiosa, vejamos o que ocorreu no desembarque na Normandia.


O Dia-D

O Dia-D é o dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocorrido em 06 de junho de 1944. É um dos eventos-chave da Segunda Grande Guerra. É a maior operação anfíbia da história da humanidade, e uma das operações mais complexas da mesma.

Resumindo uma longa história. Em meados de 1944, a Alemanha de Hitler sofreu derrotas devastadoras em seu fronte russo e africano. Os aliados italianos sofriam derrota após derrota. A expansão nazista tinha chegado ao fim, a partir de agora, eles estavam na defensiva – o que não os tornava menos perigosos.

Entretanto, todos esses teatros de guerra eram muito distantes do núcleo do poder alemão. Era necessário atacar realmente o centro do poder por outra frente, propiciando um ataque direto, encurralando os alemães.

Em 1944, todos sabiam que haveria um desembarque anglo-americano na Europa. Só não sabiam onde, e nem quando. Sobre a questão do “onde”, as duas opções eram Normandia ou Calais – locais com amplas praias para espalhar as tropas e não serem alvo fácil, próximos a portos importantes para garantir o ressuprimento, mares calmos o suficiente para facilitar o desembarque.

A Normandia foi o local escolhido, após longas análises e muita guerra de informação e desinformação, com direito a tanques de papelão, mensagens falsas, tropas fake, etc…

Sobre o “quando”: era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens – imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

O Gen. Eisenhower, responsável pela Operação Overlord, fez longos meses de planejamento, imaginando cada detalhe da invasão, cada passo a ser tomado. Ele definiu junto aos seus pares que a invasão seria no dia 5 de junho de 1944. Mas havia algo impossível de prever: o clima, o mesmo clima citado por Sun Tzu, o mesmo clima que virou o jogo para Kongming.

A mobilização para o Dia-D foi monstruosa. Mais de 2000 navios de guerra, cerca de 150 mil soldados, tropas americanas, canadenses, britânicas – uma logística de outro mundo.

Entretanto, o tempo literalmente fechou para os aliados. Uma tempestade se aproximava – ventos fortes, pouca visibilidade. Eisenhower mandou as tropas esperarem. E agora, a responsabilidade do sucesso da invasão caía sobre os ombros de um homem, o Capitão James Stagg, o meteorologista-chefe dos americanos. E a resposta dele era que era impossível fazer a previsão, naquelas condições – teria que esperar.

O que fazer? Cancelar o Dia D?

A próxima janela de tempo com todas as características necessárias só se daria dali a duas semanas. Mas desmobilizar e mobilizar novamente todas as tropas seria um completo pesadelo logístico. Além disso, seria impossível guardar segredo após a movimentação de tanta gente, eles perderiam o elemento surpresa e a guerra de desinformação. E pior, se chovesse dali a duas semanas, talvez a próxima oportunidade tivesse que esperar mais vários meses. Daria tempo suficiente para a Alemanha se defender da Rússia, da ofensiva pelo Sul e de todas as ameaças.

No dia seguinte, o meteorologista Stagg bateu no peito, e garantiu que a tempestade tinha dado uma trégua. Haveria uma brecha de pouquíssimo tempo – um dia, no máximo dois dias. Vários dos comandantes acharam muito arriscado, mesmo assim, e pediram para adiar o desembarque na Normandia. Mas Eisenhower apostou alto, colocou todas as fichas em sua versão de Kongming, e ordenou o ataque para o dia 06 de junho de 1944.

A partir daí, é história: o Dia D foi uma das operações mais bem sucedidas da humanidade, e selou o destino da Alemanha de Hitler.

Outro fato que ajudou no sucesso da operação. Os nazistas estavam muito tranquilos de que não haveria invasão alguma, porque a previsão do tempo apontava chuva forte. Mesmo após o desembarque, eles custaram a acreditar que esta fosse a operação real, e não uma isca para confundí-los.

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O que aconteceria se o tempo fosse contra?

Imagine se o meteorologista Stagg estivesse errado, e uma tempestade varresse a costa francesa?

Os aliados perderiam todo o apoio aéreo – a navegação aérea era totalmente visual naquela época. A navegação seria terrivelmente prejudicada. Mesmo se as tropas desembarcassem, a mobilidade dos equipamentos seria bastante prejudicada naquele momento crucial da invasão. Certamente, as perdas seriam estrondosamente maiores, senão catastróficas.

Não seria a primeira vez na história que uma tempestade acaba com uma invasão.
Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China no séc. XIII. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. Diz a lenda que uma tempestade destruiu os seus navios. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico sino-mongol.

Kublai dobrou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17000 marinheiros, 25000 soldados coreanos, mongóis e chineses… e, novamente, uma tempestade protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Os ventos que protegeram o Japão foram os ventos (kaze) dos deuses (kami), dando origem ao termo “kamikaze”.

Citando novamente Sun Tzu: com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Epílogo

Não por acaso, o mais poderoso deus da mitologia grega, Zeus, é o deus da chuva e do trovão.

Também não por acaso, os mais poderosos deuses da mitologia nórdica, Odin, e seu filho Thor, também são deuses do trovão.

Antigamente, os guerreiros oravam aos deuses para conseguir as vantagens dos céus.

Os deuses sorriram para os aliados, no derradeiro Dia-D, o desembarque na Normandia.


Links:

https://www.audible.com/pd/History/World-War-II-A-Military-and-Social-History-Audiobook/B00DJ8ILIS

View story at Medium.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Normandy_landings

Normandy Landings 2017: What the D in ‘D-Day’ actually means

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan

https://www.huffingtonpost.com/2014/06/06/70th-anniversary-dday-photos_n_5445367.html

As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.
Bahamut
Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.
https://mindijofurby.files.wordpress.com/2012/09/greekatlas.png?w=448&h=673
Atlas
A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.
https://http2.mlstatic.com/livro-atlas-geografico-escolar-edico-atualizada-D_NQ_NP_13091-MLB20071241078_032014-F.jpg
Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás
Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”

Mentor, mentoring, mentorship

As palavras relacionadas a “mentor” estão na moda atualmente.

O primeiro mentor da história data de mais de 3 mil anos atrás. O nome dele era Mentor. Era o professor de Telêmaco. Telêmaco era o filho de Ulisses (ou Odisseu), o herói grego da Guerra de Troia e da Odisseia.

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Fonte: https://emptysqua.re/blog/mentoring/telemachus-and-mentor.jpg

Ulisses partiu para a guerra, retornando 20 anos depois. Enquanto isso, na angústia da espera pelo retorno de Ulisses, Telêmaco recorria a Mentor para aconselhá-lo.

 

Na mitologia grega, a sabedoria não era algo do ser humano, ela vinha dos deuses. E a deusa da sabedoria era Atena.

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Quando necessário, Atena encarnava em Mentor, para colocar as palavras de sabedoria em sua boca, e assim orientar Telêmaco corretamente.

Portanto, faz 3 mil anos que precisamos de um Mentor para que a sabedoria divina chegue a nós.

Tradição oral nas lendas antigas

Muita gente elogiou o post anterior, sobre Telêmaco Borba e as aventuras de Ulisses na Ilíada e Odisseia. Principalmente quem conhece a cidade citada.

Aproveito para fazer um gancho.

Dizem que essas histórias faziam parte da tradição oral antiga muito antes de serem transcritas para o papel, por Homero. Mais especificamente, a Ilíada verdadeira teria acontecido por volta de 1200 a.C., e a transcrição de Homero, em 800 a.C. Ou seja, uns 400 anos de diferença (a história do Brasil tem 500 anos). Neste meio tempo, a história foi transmitida de geração em geração, contada e recontada de cabeça.

Mas a Ilíada tem umas 700 páginas, dezenas de capítulos, centenas de personagens e interligações entre eles (fulano é filho de alguém que é irmão de outro, etc). E a Odisseia, idem, dezenas de capítulos com tramas intrincadas.

Fico me imaginando, como seria possível alguém decorar tanta coisa?


Outras histórias da tradição oral

Há diversas outras obras monumentais que também foram passadas de geração em geração antes de serem transcritas. Dizem que as histórias infantis dos irmãos Grimm, são uma compilação de tradições orais. A história dos três reinos, obra monumental da literatura chinesa, é outro exemplo.

Em geral, lendas antigas de culturas milenares têm esta característica, de serem passadas por tradição oral, de geração em geração, já que o papel ou não existia ou era muito caro ou muito trabalhoso para escrever. Lendas judaicas, germânicas, nórdicas, persas, mesopotâmicas, japonesas, chinesas, aborígenes, incas, maias, africanas, etc.

Portanto, contar toneladas de histórias de geração em geração não é exclusividade dos gregos.


Contos ao redor da fogueira

Em tempos antigos, não havia internet, televisão, rádio, jornal, nada. Fico imaginando as pessoas sentadas ao redor de uma fogueira, após o jantar. E um contador de histórias, narrando a jornada de Odisseus contra o Cíclope, depois contando como ele se amarrou ao mastro do navio para não ceder ao canto das sereias.

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E também imagino muitas crianças, ouvindo cada parte da história com atenção, noite após noite, ano após ano. Crianças estas que crescerão, terão filhos, e recontarão as histórias antigas, acrescentando um pouquinho aqui, tirando um pouco acolá.

Provavelmente, estas histórias tiveram origens em fatos reais, numa guerra que realmente ocorrera algum dia, com pessoas reais. Mas, talvez por estimularem melhor a imaginação humana, talvez somente as versões mais fantasiosas tenham sobrevivido, com um Aquiles invulnerável com exceção do calcanhar, ou com a deusa Calipso tentando seduzir Ulisses com promessas infindáveis, ou um cavalo de madeira com guerreiros escondidos dentro dele.

Com o passar dos milênios, com o aperfeiçoamento e barateamento de tecnologias como o lápis e o papel, algumas pessoas foram transcrevendo algumas destas histórias, a fim de não esquecer, ou enviar para alguém, por exemplo.

Até chegar em um momento onde algum escriba, com meios suficientes (tempo, dinheiro, capacidade intelectual, influência) pegou dezenas de manuscritos diferentes, juntou com centenas de outros relatos orais divergentes, e compilou numa história coerente do início ao fim. Estes escribas são Homero (Ilíada e Odisseia), Irmãos Grimm (Contos de Grimm), Luo Guanzhong (O Romance dos Três Reinos), e outros Homeros equivalentes da história.

Por isso, sempre digo que o lápis, o papel e a imaginação são tecnologias muito mais importantes do que o computador, a internet e a inteligência artificial!

https://en.wikipedia.org/wiki/Iliad
https://en.wikipedia.org/wiki/Homer
https://en.wikipedia.org/wiki/Oral_tradition

Telêmaco Borba

Neste momento, estou saindo da cidade de Telêmaco Borba, no Paraná.

Não sei quem foi este tal de Telêmaco Borba, nem quando viveu, nada.

Mas conheço outro Telêmaco. De uma história de 3000 anos atrás. Telêmaco, filho do grande heroi grego Ulisses e de sua esposa Penélope.
Telêmaco nasceu no dia em que Ulisses partiu para a guerra de Troia, segundo a Ilíada de Homero. Ulisses, o mais astuto dos mortais, era o rei do pequeno estado de Ítaca, na Grécia. Imagine que nesta época, não havia um grande governo central, mas sim dezenas de cidades-estado pequenas, que viviam por si só, mas se juntavam em caso de necessidade.

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E este era um caso especial. O rei de Esparta, Menelau, convocava as cidades-estado aliadas para a guerra contra Troia.

O motivo: o príncipe Páris, troiano, tinha feito algo inimaginável. Numa visita oficial de Troia à Esparta, Páris roubou Helena, esposa de Menelau.

Helena era casada com Menelau, o rei de Esparta. E Menelau, com a ajuda do irmão Agamenon (rei de Micenas), já tinha quebrado o pau com meio mundo para ficar com Helena.

Aliás, Helena não era qualquer mortal comum. Zeus, o deus dos deuses, costumava dar uma escapadinha da esposa Hera de vez em quando, e fazer alguns filhos na Terra. Helena era filha de Zeus. A mais bela mulher que já tinha andado na face da Terra. A mais pura perfeição em pessoa. Bruna Marquezine é nota zero se comparada com Helena…

Mas acabou sendo seduzida por Páris, com a ajuda de Afrodite, a deusa do amor.

Esta história também merece um parêntesis. Numa festa de casamento de dois deuses, Éris, a deusa da discórdia, jogou um pomo de ouro no meio do salão, bem na hora em que todo mundo estava dançando. O pomo tinha um bilhete, escrito, “Para a mais bela deusa da festa”. Três deusas começaram a brigar pelo pomo de ouro: Atena, Hera e Afrodite (daí surgiu o termo “pomo da discórdia”). Como não havia consenso, deixaram o abacaxi (ou o pomo?) nas mãos de Zeus, para ele decidir. Como Zeus não é bobo, ele repassou o abacaxi para frente. Chamou um mortal, que no caso era Páris, para decidir, e ponto final.

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Páris deu o pomo para a Afrodite, deusa da beleza e do amor. Em troca, Afrodite prometeu a Páris o amor da mais bela mortal da face da Terra. E é por isso que Helena embarcou com Páris para a cidade de Troia…

Toda esta confusão para dizer que a Grécia inteira estava em guerra com Troia. Os navios partiram. O recém-nascido Telêmaco ficou aos cuidados da mãe, Penélope.

Além de Ulisses, diversos outros reis e heróis participaram da guerra. Ajax, Agamenon, Aquiles pelo lado dos gregos. Hector, Páris, rei Priam pelo lado troiano.

E a guerra de Troia foi uma tremenda guerra. Troia estava protegida por muros altos e impenetráveis. Os gregos não conseguiam estratégia que funcionasse. Foram 10 anos de guerra, com baixas pesadíssimas para ambos os lados.

Tudo parecia acabado quando Aquiles, o maior e mais poderoso dos gregos, morreu atingido por uma flecha no calcanhar, o famoso calcanhar-de-Aquiles. Dizem que a mãe de Aquiles, a ninfa Tétis, banhou-o no rio Styx, deixando-o invulnerável. Exceto num ponto, o calcanhar, que foi por onde ela o segurou.

No décimo ano de guerra, os gregos estavam exaustos e a ponto de desistir. Mas Ulisses arquiteta a primeira grande estratégia da história: o famoso cavalo de Troia. Os gregos fingem desistir da guerra e ir embora, deixando apenas um cavalo, em homenagem aos deuses. Deixaram um “presente de grego”.

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Os troianos levam o cavalo para a cidade, como um troféu, e comemoram fartamente a vitória, após tanto tempo de guerra.
À noite, os gregos descem do cavalo, e abrem os portões da cidade para a entrada do exército grego, que estava preparado e escondido. Finalmente, eles conseguiram entrar em Troia. Vitória da Grécia. Troia é varrida do mapa, não sobra pedra sobre pedra.

Helena retorna com Menelau para Esparta. Todo mundo volta para casa. Termina a Ilíada. Começa a Odisseia.

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A Odisseia tem este nome porque Ulisses era chamado de Odisseus na mitologia grega. E o livro narra a sua volta para casa, a volta para Penélope e Telêmaco.

Ulisses embarca num navio com os companheiros. A primeira parada é numa ilha. O azar foi que esta ilha era habitada por cíclopes, criaturas monstruosas com apenas um olho. Um dos cíclopes, um tal de Polifemo, aprisiona os homens de Ulisses e diz que vai devorar um por dia. Ulisses, utilizando de suas artimanhas, consegue enganar Polifemo e cegar o seu único olho. Ulisses e seus homens aproveitam a chance e vão embora rapidinho.

O problema é que os Cíclopes são filhos de Posseidon, o deus dos mares. Posseidon não fica nada feliz com a atitude de Ulisses, e faz de tudo para atrapalhar a volta do mesmo.

Ulisses passa pelas sereias (onde ele é amarrado ao mastro para ouvir o famoso canto da sereia sem se deixar levar por ela), pela feiticeira Circe (que transforma seus homens em porcos), criaturas medonhas chamadas Cilla e Caridbe, depois vai até o inferno para perguntar o caminho que ele deveria seguir. Neste momento, todos os seus homens já estão mortos, e sobra só ele.

Ulisses vai parar na ilha de Calipso. Calipso não é uma banda de música, mas um deusa que se apaixona pelo heroi. Ulisses fica 7 anos nesta ilha, onde tem tudo: o afeto de Calipso, comida e bebida à vontade, diversão, serviçais à disposição para qualquer trabalho. Mas Ulisses não estava feliz. Todos as noites, chorava na praia, querendo voltar para casa.

Zeus ordenou que Calipso ajudasse Ulisses a voltar para casa. Ela obedeceu, mas antes, fez uma proposta. Se ele aceitasse ficar com ela, Ulisses teria vida eterna e juventude eterna, além de continuar a viver como um deus em sua ilha.

A resposta de Ulisses: “Prefiro passar poucas décadas da minha vida no lugar correto do que viver a eternidade em um lugar que não é o meu”.

Assim, Ulisses deixa a ilha de Calipso. Mais algumas dezenas de dificuldades depois, Ulisses finalmente retorna para Ítaca, para os braços de Penélope, e para o seu filho Telêmaco. Foram 20 anos (10 na guerra de Troia e 10 no retorno).

E, finalmente, Ulisses conseguiu completar a sua missão. Encontrou o seu lugar na cidade de Telêmaco Borba e passou o resto de seus dias na companhia da mulher e filho, às vezes indo encontrar os amigos no bar Terapia, outras jogando vôlei no clube Harmonia. O almoço, normalmente na Tec’s. Em algumas quartas-feiras, uma pizza na Torre. E, para fechar as suas aventuras, de vez em quando um futebol na Lagoa.

Arnaldo Gunzi
Fev 2016

 

 

 

O Monte Everest de Sísifo

Vestibular

Há duas dezenas de anos atrás, estava eu a prestar vestibular. Como muitos que o fazem, eu tinha uma rotina focada nisto. Tinha aulas no cursinho de manhã, estudava um pouco mais à tarde, à noite fazia o 4o ano do curso técnico (não sei como é hoje, mas naquela época o segundo grau técnico tinha 4 anos). Aos sábados, tinha aulas o dia inteiro, focadas para um grupo com bom desempenho na parte de exatas. Acabou? Não. Aos domingos de manhã, era o dia dos simulados, provas sobre algum assunto específico ou simulando o vestibular de verdade.

Após tanto esforço, no fim do ano era a hora do vestibular….. Fiz as provas….. Passei! Tinha cumprido a minha missão. Mas e agora?


E agora?

A verdade é que fiquei os primeiros seis meses do ano seguinte, o da faculdade, bastante perdido. A rotina era diferente. Os métodos eram diferentes. E, principalmente, os objetivos eram diferentes. Demorei muito tempo até me encontrar novamente.

Antes eu tinha um objetivo claro (passar no vestibular), com um escopo precisamente delimitado (as matérias que caíam nas provas), uma forma precisa de apurar o resultado (ou passa ou não passa), um timeline (o fim do ano), sabia precisamente o que fazer, como fazer, e para qual objetivo: era seguir o script do cursinho. Depois do vestibular, o objetivo tinha zerado. Tinha que repensar de novo os objetivos, o escopo, conhecer as novas regras do jogo. E o mais aterrorizante. A vida real não tinha script pré-definido a seguir.

Por exemplo, no cursinho o material didático era muito bom. Havia exercícios bem mastigados. Então, eu ia direto nos exercícios, para aprender a teoria e ganhar tempo. Na faculdade, os livros tinham muita teoria e poucos exercícios. O meu vício em olhar só os exercícios não funcionava mais.
 
Outra: no cursinho a matéria era o que estava nos livros. Na faculdade, às vezes o professor indicava o livro texto, mas a matéria era o que ele dava em aula, baseado na experiência dele e em vários outros livros. Então, muitas vezes era importante ter a xerox de um caderno de alguém organizado. Não existia esse negócio de xerox de caderno no cursinho.

Vendo hoje em perspectiva, senti-me como Sísifo carregando a sua pedra.


A maldição de Sísifo
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Na lenda grega, Sísifo era um rei condenado a uma punição exemplar no inferno, por ter enganado Zeus. A punição de Sísifo era empurrar uma pedra enorme, montanha acima, com as mãos nuas. Após um esforço tremendo, quando a pedra estivesse muito próxima do cume da montanha, ela rolava morro abaixo, e Sísifo era obrigado a recomeçar todo o trabalho. Empurrar a pedra morro acima, só para vê-la rolar morro abaixo e recomeçar o ciclo, infinitamente.

O caso do vestibular foi um pouco diferente, já que não estamos no Inferno. Foi mais ou menos assim. Empurrei uma pedra enorme morro acima, e consegui chegar no cume da montanha. Mas, ao invés de encontrar a glória dos céus, o que encontrei foi outra montanha, muito maior, e uma pedra muito mais pesada a empurrar. Após a montanha chamada “Vestibular”, havia a montanha da “Graduação”. Esta, por sua vez, era dividida em 5 anos, ou 5 montanhas em sequência, cada montanha subdividida em matérias: “Cálculo”, “Álgebra Linear”, “Física”, etc.

Desde então, só tenho encontrado mais montanhas. Após a montanha da “Graduação”, outras montanhas como “Trabalho”, “Mudança de cidade”, “Pós graduação”, “Casamento”, “Outro trabalho”, “Primeiro filho”, e assim por diante.

Algumas vezes, a pedra rola morro abaixo, tendo que recomeçar tudo de novo. Outras vezes, a duras penas, algum morro é conquistado, só para descobrir que há muito mais montanhas após isto. Uma cadeia de montanhas, como um Monte Everest, com a diferença de que o Everest tem fim.

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Talvez muita gente se sinta assim também. Embora eu não tenha respostas, para mim algumas diretrizes fazem sentido.

  • Não há script pré-definido a seguir. O Monte Everest é diferente para cada pessoa. Cada um tem as suas próprias condições iniciais, suas próprias condições de contorno. Não tem como alguém criar um mapa do caminho e passar este mapa para outra pessoa.
  • Temos a liberdade de escolher qual o caminho a seguir, qual a montanha a atacar, mesmo podendo ter a infelicidade de não alcançá-la ou encontrar posteriormente um desfiladeiro inatingível.
  • Talvez a glória não esteja no topo da montanha. Nunca saberemos com certeza. Mas o que podemos fazer é desfrutar do caminho. Talvez a glória esteja no esforço de empurrar a pedra. Devemos nos orgulhar dos morros conquistados. Mesmo que a pedra venha a rolar morro abaixo, no final das contas.

Para quem tiver interesse, o grande escritor francês Albert Camus (1913 – 1960) explora várias ideias sobre o Mito de Sísifo e suas implicações.


Links

https://en.wikipedia.org/wiki/Sisyphus

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Myth_of_Sisyphus

 


 

Trilha sonora bônus:

Escrito ao som de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”

O couro do Leão de Nemeia

O primeiro dos 12 trabalhos de Hércules foi contra o Leão de Nemeia. Este leão era extremamente feroz, e tinha uma couraça muito dura. Tão dura que nenhuma flecha ou lança conseguia penetrar, de forma que usar armas era inútil.

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Depois de uma longa luta, Hércules conseguiu matar o Leão de Nemeia estrangulando-o com as mãos nuas.

Após vencer este grande desafio, Hércules tirou o couro pesado do animal e passou a vesti-lo, desta forma ficando mais forte ainda.


O segundo trabalho de Hércules foi contra a terrível Hidra de Lerna, um ser com cabeças de cobras, tão venenosa que o seu sangue era puro veneno. Corte uma cabeça, e duas surgirão no lugar. Corte duas cabeças, e quatro surgirão no lugar.  O jeito encontrado por Hércules foi cauterizar com fogo o local tão logo a cabeça era cortada, para impedir que outras cabeças surgissem.

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Depois que Hércules venceu a Hidra, ele banhou as suas flechas no sangue venenoso, obtendo uma arma mais forte ainda.


 
A moral da história é que Hércules se propunha a desafios enormes, e a cada difícil batalha vencida, ele tornava-se cada vez mais forte. Sempre se aprende algo ao encarar grandes desafios.

 


Obs 1. Depois que Hércules morreu, um tal de Philoctetes herdou o arco e as flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna. Na Ilíada conta-se que, já no finzinho da Guerra de Troia, Philoctetes usa as flechas envenenadas para abater Páris, o príncipe troiano que raptou Helena e começou toda a confusão.

Obs 2. Na batalha contra a Hidra, Hera envia um caranguejo para atrapalhar Hércules. O caranguejo atacou Hércules, que imediatamente deu um pisão no caranguejo, estraçalhando-o. Em homenagem ao caranguejo, Hera criou a constelação de Câncer.

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