As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.
Bahamut
Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.
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Atlas
A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.
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Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás
Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”

Mentor, mentoring, mentorship

As palavras relacionadas a “mentor” estão na moda atualmente.

O primeiro mentor da história data de mais de 3 mil anos atrás. O nome dele era Mentor. Era o professor de Telêmaco. Telêmaco era o filho de Ulisses (ou Odisseu), o herói grego da Guerra de Troia e da Odisseia.

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Fonte: https://emptysqua.re/blog/mentoring/telemachus-and-mentor.jpg

Ulisses partiu para a guerra, retornando 20 anos depois. Enquanto isso, na angústia da espera pelo retorno de Ulisses, Telêmaco recorria a Mentor para aconselhá-lo.

 

Na mitologia grega, a sabedoria não era algo do ser humano, ela vinha dos deuses. E a deusa da sabedoria era Atena.

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Quando necessário, Atena encarnava em Mentor, para colocar as palavras de sabedoria em sua boca, e assim orientar Telêmaco corretamente.

Portanto, faz 3 mil anos que precisamos de um Mentor para que a sabedoria divina chegue a nós.

Tradição oral nas lendas antigas

Muita gente elogiou o post anterior, sobre Telêmaco Borba e as aventuras de Ulisses na Ilíada e Odisseia. Principalmente quem conhece a cidade citada.

Aproveito para fazer um gancho.

Dizem que essas histórias faziam parte da tradição oral antiga muito antes de serem transcritas para o papel, por Homero. Mais especificamente, a Ilíada verdadeira teria acontecido por volta de 1200 a.C., e a transcrição de Homero, em 800 a.C. Ou seja, uns 400 anos de diferença (a história do Brasil tem 500 anos). Neste meio tempo, a história foi transmitida de geração em geração, contada e recontada de cabeça.

Mas a Ilíada tem umas 700 páginas, dezenas de capítulos, centenas de personagens e interligações entre eles (fulano é filho de alguém que é irmão de outro, etc). E a Odisseia, idem, dezenas de capítulos com tramas intrincadas.

Fico me imaginando, como seria possível alguém decorar tanta coisa?


Outras histórias da tradição oral

Há diversas outras obras monumentais que também foram passadas de geração em geração antes de serem transcritas. Dizem que as histórias infantis dos irmãos Grimm, são uma compilação de tradições orais. A história dos três reinos, obra monumental da literatura chinesa, é outro exemplo.

Em geral, lendas antigas de culturas milenares têm esta característica, de serem passadas por tradição oral, de geração em geração, já que o papel ou não existia ou era muito caro ou muito trabalhoso para escrever. Lendas judaicas, germânicas, nórdicas, persas, mesopotâmicas, japonesas, chinesas, aborígenes, incas, maias, africanas, etc.

Portanto, contar toneladas de histórias de geração em geração não é exclusividade dos gregos.


Contos ao redor da fogueira

Em tempos antigos, não havia internet, televisão, rádio, jornal, nada. Fico imaginando as pessoas sentadas ao redor de uma fogueira, após o jantar. E um contador de histórias, narrando a jornada de Odisseus contra o Cíclope, depois contando como ele se amarrou ao mastro do navio para não ceder ao canto das sereias.

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E também imagino muitas crianças, ouvindo cada parte da história com atenção, noite após noite, ano após ano. Crianças estas que crescerão, terão filhos, e recontarão as histórias antigas, acrescentando um pouquinho aqui, tirando um pouco acolá.

Provavelmente, estas histórias tiveram origens em fatos reais, numa guerra que realmente ocorrera algum dia, com pessoas reais. Mas, talvez por estimularem melhor a imaginação humana, talvez somente as versões mais fantasiosas tenham sobrevivido, com um Aquiles invulnerável com exceção do calcanhar, ou com a deusa Calipso tentando seduzir Ulisses com promessas infindáveis, ou um cavalo de madeira com guerreiros escondidos dentro dele.

Com o passar dos milênios, com o aperfeiçoamento e barateamento de tecnologias como o lápis e o papel, algumas pessoas foram transcrevendo algumas destas histórias, a fim de não esquecer, ou enviar para alguém, por exemplo.

Até chegar em um momento onde algum escriba, com meios suficientes (tempo, dinheiro, capacidade intelectual, influência) pegou dezenas de manuscritos diferentes, juntou com centenas de outros relatos orais divergentes, e compilou numa história coerente do início ao fim. Estes escribas são Homero (Ilíada e Odisseia), Irmãos Grimm (Contos de Grimm), Luo Guanzhong (O Romance dos Três Reinos), e outros Homeros equivalentes da história.

Por isso, sempre digo que o lápis, o papel e a imaginação são tecnologias muito mais importantes do que o computador, a internet e a inteligência artificial!

https://en.wikipedia.org/wiki/Iliad
https://en.wikipedia.org/wiki/Homer
https://en.wikipedia.org/wiki/Oral_tradition

Telêmaco Borba

Neste momento, estou saindo da cidade de Telêmaco Borba, no Paraná.

Não sei quem foi este tal de Telêmaco Borba, nem quando viveu, nada.

Mas conheço outro Telêmaco. De uma história de 3000 anos atrás. Telêmaco, filho do grande heroi grego Ulisses e de sua esposa Penélope.
Telêmaco nasceu no dia em que Ulisses partiu para a guerra de Troia, segundo a Ilíada de Homero. Ulisses, o mais astuto dos mortais, era o rei do pequeno estado de Ítaca, na Grécia. Imagine que nesta época, não havia um grande governo central, mas sim dezenas de cidades-estado pequenas, que viviam por si só, mas se juntavam em caso de necessidade.

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E este era um caso especial. O rei de Esparta, Menelau, convocava as cidades-estado aliadas para a guerra contra Troia.

O motivo: o príncipe Páris, troiano, tinha feito algo inimaginável. Numa visita oficial de Troia à Esparta, Páris roubou Helena, esposa de Menelau.

Helena era casada com Menelau, o rei de Esparta. E Menelau, com a ajuda do irmão Agamenon (rei de Micenas), já tinha quebrado o pau com meio mundo para ficar com Helena.

Aliás, Helena não era qualquer mortal comum. Zeus, o deus dos deuses, costumava dar uma escapadinha da esposa Hera de vez em quando, e fazer alguns filhos na Terra. Helena era filha de Zeus. A mais bela mulher que já tinha andado na face da Terra. A mais pura perfeição em pessoa. Bruna Marquezine é nota zero se comparada com Helena…

Mas acabou sendo seduzida por Páris, com a ajuda de Afrodite, a deusa do amor.

Esta história também merece um parêntesis. Numa festa de casamento de dois deuses, Éris, a deusa da discórdia, jogou um pomo de ouro no meio do salão, bem na hora em que todo mundo estava dançando. O pomo tinha um bilhete, escrito, “Para a mais bela deusa da festa”. Três deusas começaram a brigar pelo pomo de ouro: Atena, Hera e Afrodite (daí surgiu o termo “pomo da discórdia”). Como não havia consenso, deixaram o abacaxi (ou o pomo?) nas mãos de Zeus, para ele decidir. Como Zeus não é bobo, ele repassou o abacaxi para frente. Chamou um mortal, que no caso era Páris, para decidir, e ponto final.

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Páris deu o pomo para a Afrodite, deusa da beleza e do amor. Em troca, Afrodite prometeu a Páris o amor da mais bela mortal da face da Terra. E é por isso que Helena embarcou com Páris para a cidade de Troia…

Toda esta confusão para dizer que a Grécia inteira estava em guerra com Troia. Os navios partiram. O recém-nascido Telêmaco ficou aos cuidados da mãe, Penélope.

Além de Ulisses, diversos outros reis e heróis participaram da guerra. Ajax, Agamenon, Aquiles pelo lado dos gregos. Hector, Páris, rei Priam pelo lado troiano.

E a guerra de Troia foi uma tremenda guerra. Troia estava protegida por muros altos e impenetráveis. Os gregos não conseguiam estratégia que funcionasse. Foram 10 anos de guerra, com baixas pesadíssimas para ambos os lados.

Tudo parecia acabado quando Aquiles, o maior e mais poderoso dos gregos, morreu atingido por uma flecha no calcanhar, o famoso calcanhar-de-Aquiles. Dizem que a mãe de Aquiles, a ninfa Tétis, banhou-o no rio Styx, deixando-o invulnerável. Exceto num ponto, o calcanhar, que foi por onde ela o segurou.

No décimo ano de guerra, os gregos estavam exaustos e a ponto de desistir. Mas Ulisses arquiteta a primeira grande estratégia da história: o famoso cavalo de Troia. Os gregos fingem desistir da guerra e ir embora, deixando apenas um cavalo, em homenagem aos deuses. Deixaram um “presente de grego”.

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Os troianos levam o cavalo para a cidade, como um troféu, e comemoram fartamente a vitória, após tanto tempo de guerra.
À noite, os gregos descem do cavalo, e abrem os portões da cidade para a entrada do exército grego, que estava preparado e escondido. Finalmente, eles conseguiram entrar em Troia. Vitória da Grécia. Troia é varrida do mapa, não sobra pedra sobre pedra.

Helena retorna com Menelau para Esparta. Todo mundo volta para casa. Termina a Ilíada. Começa a Odisseia.

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A Odisseia tem este nome porque Ulisses era chamado de Odisseus na mitologia grega. E o livro narra a sua volta para casa, a volta para Penélope e Telêmaco.

Ulisses embarca num navio com os companheiros. A primeira parada é numa ilha. O azar foi que esta ilha era habitada por cíclopes, criaturas monstruosas com apenas um olho. Um dos cíclopes, um tal de Polifemo, aprisiona os homens de Ulisses e diz que vai devorar um por dia. Ulisses, utilizando de suas artimanhas, consegue enganar Polifemo e cegar o seu único olho. Ulisses e seus homens aproveitam a chance e vão embora rapidinho.

O problema é que os Cíclopes são filhos de Posseidon, o deus dos mares. Posseidon não fica nada feliz com a atitude de Ulisses, e faz de tudo para atrapalhar a volta do mesmo.

Ulisses passa pelas sereias (onde ele é amarrado ao mastro para ouvir o famoso canto da sereia sem se deixar levar por ela), pela feiticeira Circe (que transforma seus homens em porcos), criaturas medonhas chamadas Cilla e Caridbe, depois vai até o inferno para perguntar o caminho que ele deveria seguir. Neste momento, todos os seus homens já estão mortos, e sobra só ele.

Ulisses vai parar na ilha de Calipso. Calipso não é uma banda de música, mas um deusa que se apaixona pelo heroi. Ulisses fica 7 anos nesta ilha, onde tem tudo: o afeto de Calipso, comida e bebida à vontade, diversão, serviçais à disposição para qualquer trabalho. Mas Ulisses não estava feliz. Todos as noites, chorava na praia, querendo voltar para casa.

Zeus ordenou que Calipso ajudasse Ulisses a voltar para casa. Ela obedeceu, mas antes, fez uma proposta. Se ele aceitasse ficar com ela, Ulisses teria vida eterna e juventude eterna, além de continuar a viver como um deus em sua ilha.

A resposta de Ulisses: “Prefiro passar poucas décadas da minha vida no lugar correto do que viver a eternidade em um lugar que não é o meu”.

Assim, Ulisses deixa a ilha de Calipso. Mais algumas dezenas de dificuldades depois, Ulisses finalmente retorna para Ítaca, para os braços de Penélope, e para o seu filho Telêmaco. Foram 20 anos (10 na guerra de Troia e 10 no retorno).

E, finalmente, Ulisses conseguiu completar a sua missão. Encontrou o seu lugar na cidade de Telêmaco Borba e passou o resto de seus dias na companhia da mulher e filho, às vezes indo encontrar os amigos no bar Terapia, outras jogando vôlei no clube Harmonia. O almoço, normalmente na Tec’s. Em algumas quartas-feiras, uma pizza na Torre. E, para fechar as suas aventuras, de vez em quando um futebol na Lagoa.

Arnaldo Gunzi
Fev 2016

 

 

 

O Monte Everest de Sísifo

Vestibular

Há duas dezenas de anos atrás, estava eu a prestar vestibular. Como muitos que o fazem, eu tinha uma rotina focada nisto. Tinha aulas no cursinho de manhã, estudava um pouco mais à tarde, à noite fazia o 4o ano do curso técnico (não sei como é hoje, mas naquela época o segundo grau técnico tinha 4 anos). Aos sábados, tinha aulas o dia inteiro, focadas para um grupo com bom desempenho na parte de exatas. Acabou? Não. Aos domingos de manhã, era o dia dos simulados, provas sobre algum assunto específico ou simulando o vestibular de verdade.

Após tanto esforço, no fim do ano era a hora do vestibular….. Fiz as provas….. Passei! Tinha cumprido a minha missão. Mas e agora?


E agora?

A verdade é que fiquei os primeiros seis meses do ano seguinte, o da faculdade, bastante perdido. A rotina era diferente. Os métodos eram diferentes. E, principalmente, os objetivos eram diferentes. Demorei muito tempo até me encontrar novamente.

Antes eu tinha um objetivo claro (passar no vestibular), com um escopo precisamente delimitado (as matérias que caíam nas provas), uma forma precisa de apurar o resultado (ou passa ou não passa), um timeline (o fim do ano), sabia precisamente o que fazer, como fazer, e para qual objetivo: era seguir o script do cursinho. Depois do vestibular, o objetivo tinha zerado. Tinha que repensar de novo os objetivos, o escopo, conhecer as novas regras do jogo. E o mais aterrorizante. A vida real não tinha script pré-definido a seguir.

Por exemplo, no cursinho o material didático era muito bom. Havia exercícios bem mastigados. Então, eu ia direto nos exercícios, para aprender a teoria e ganhar tempo. Na faculdade, os livros tinham muita teoria e poucos exercícios. O meu vício em olhar só os exercícios não funcionava mais.
 
Outra: no cursinho a matéria era o que estava nos livros. Na faculdade, às vezes o professor indicava o livro texto, mas a matéria era o que ele dava em aula, baseado na experiência dele e em vários outros livros. Então, muitas vezes era importante ter a xerox de um caderno de alguém organizado. Não existia esse negócio de xerox de caderno no cursinho.

Vendo hoje em perspectiva, senti-me como Sísifo carregando a sua pedra.


A maldição de Sísifo
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Na lenda grega, Sísifo era um rei condenado a uma punição exemplar no inferno, por ter enganado Zeus. A punição de Sísifo era empurrar uma pedra enorme, montanha acima, com as mãos nuas. Após um esforço tremendo, quando a pedra estivesse muito próxima do cume da montanha, ela rolava morro abaixo, e Sísifo era obrigado a recomeçar todo o trabalho. Empurrar a pedra morro acima, só para vê-la rolar morro abaixo e recomeçar o ciclo, infinitamente.

O caso do vestibular foi um pouco diferente, já que não estamos no Inferno. Foi mais ou menos assim. Empurrei uma pedra enorme morro acima, e consegui chegar no cume da montanha. Mas, ao invés de encontrar a glória dos céus, o que encontrei foi outra montanha, muito maior, e uma pedra muito mais pesada a empurrar. Após a montanha chamada “Vestibular”, havia a montanha da “Graduação”. Esta, por sua vez, era dividida em 5 anos, ou 5 montanhas em sequência, cada montanha subdividida em matérias: “Cálculo”, “Álgebra Linear”, “Física”, etc.

Desde então, só tenho encontrado mais montanhas. Após a montanha da “Graduação”, outras montanhas como “Trabalho”, “Mudança de cidade”, “Pós graduação”, “Casamento”, “Outro trabalho”, “Primeiro filho”, e assim por diante.

Algumas vezes, a pedra rola morro abaixo, tendo que recomeçar tudo de novo. Outras vezes, a duras penas, algum morro é conquistado, só para descobrir que há muito mais montanhas após isto. Uma cadeia de montanhas, como um Monte Everest, com a diferença de que o Everest tem fim.

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Talvez muita gente se sinta assim também. Embora eu não tenha respostas, para mim algumas diretrizes fazem sentido.

  • Não há script pré-definido a seguir. O Monte Everest é diferente para cada pessoa. Cada um tem as suas próprias condições iniciais, suas próprias condições de contorno. Não tem como alguém criar um mapa do caminho e passar este mapa para outra pessoa.
  • Temos a liberdade de escolher qual o caminho a seguir, qual a montanha a atacar, mesmo podendo ter a infelicidade de não alcançá-la ou encontrar posteriormente um desfiladeiro inatingível.
  • Talvez a glória não esteja no topo da montanha. Nunca saberemos com certeza. Mas o que podemos fazer é desfrutar do caminho. Talvez a glória esteja no esforço de empurrar a pedra. Devemos nos orgulhar dos morros conquistados. Mesmo que a pedra venha a rolar morro abaixo, no final das contas.

Para quem tiver interesse, o grande escritor francês Albert Camus (1913 – 1960) explora várias ideias sobre o Mito de Sísifo e suas implicações.


Links

https://en.wikipedia.org/wiki/Sisyphus

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Myth_of_Sisyphus

 


 

Trilha sonora bônus:

Escrito ao som de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”

O couro do Leão de Nemeia

O primeiro dos 12 trabalhos de Hércules foi contra o Leão de Nemeia. Este leão era extremamente feroz, e tinha uma couraça muito dura. Tão dura que nenhuma flecha ou lança conseguia penetrar, de forma que usar armas era inútil.

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Depois de uma longa luta, Hércules conseguiu matar o Leão de Nemeia estrangulando-o com as mãos nuas.

Após vencer este grande desafio, Hércules tirou o couro pesado do animal e passou a vesti-lo, desta forma ficando mais forte ainda.


O segundo trabalho de Hércules foi contra a terrível Hidra de Lerna, um ser com cabeças de cobras, tão venenosa que o seu sangue era puro veneno. Corte uma cabeça, e duas surgirão no lugar. Corte duas cabeças, e quatro surgirão no lugar.  O jeito encontrado por Hércules foi cauterizar com fogo o local tão logo a cabeça era cortada, para impedir que outras cabeças surgissem.

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Depois que Hércules venceu a Hidra, ele banhou as suas flechas no sangue venenoso, obtendo uma arma mais forte ainda.


 
A moral da história é que Hércules se propunha a desafios enormes, e a cada difícil batalha vencida, ele tornava-se cada vez mais forte. Sempre se aprende algo ao encarar grandes desafios.

 


Obs 1. Depois que Hércules morreu, um tal de Philoctetes herdou o arco e as flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna. Na Ilíada conta-se que, já no finzinho da Guerra de Troia, Philoctetes usa as flechas envenenadas para abater Páris, o príncipe troiano que raptou Helena e começou toda a confusão.

Obs 2. Na batalha contra a Hidra, Hera envia um caranguejo para atrapalhar Hércules. O caranguejo atacou Hércules, que imediatamente deu um pisão no caranguejo, estraçalhando-o. Em homenagem ao caranguejo, Hera criou a constelação de Câncer.

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Por que um crime prescreve?

Em 2010, Paulo Maluf livrou-se de uma acusação de superfaturamento de obras durante a sua gestão na prefeitura de São Paulo, em 1996. Crimes desta natureza prescrevem em 12 anos.
 
Diante de um fato desses, vem a pergunta. O que é a prescrição? Por que ela existe?

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Um crime prescreve quando passa muito tempo para se julgar e condenar o criminoso, tanto tempo que o Estado não pode mais punir o mesmo pelo crime.
 

Ocorre no Brasil o sentimento de que a prescrição do crime é algo injusto. Realmente, casos como o ilustrado são lamentáveis.
 

Mas será que a prescrição é algo ruim na sua essência?

 
Este é um tema polêmico, e não manjo absolutamente nada da parte jurídica. A minha análise aqui é quanto à parte humana do tema, e especialmente no que se refere ao Tempo, este ente tão poderoso que influencia a todos nós, como o Cronos que devora seus filhos.

 


 

Presente, passado e futuro

O que é mais importante, o presente, o passado ou o futuro?
 

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É claro que está tudo interligado. Não dá para esquecer o passado nem ignorar o planejamento do futuro. Mas arrisco a dizer que o presente é o mais importante, simplesmente porque só podemos viver em um desses três tempos: o presente. O que fazemos no presente vira o passado. O futuro é construído a partir das ações do presente.

 
E coisas que aconteceram há muito no passado vão perdendo a importância. Imagine um fato que ocorreu há 80 anos. Seja lá o que ocorreu, passaram-se tantas coisas desde então que a influência deste diluiu-se com outros fatos.

 
Além disto, entre o passado e o futuro, prefiro focar no futuro. O passado já ocorreu e não pode mais ser mudado, mas o futuro, sim.

 

Em termos puramente econômicos e práticos, chega uma hora em que o esforço de manter o aparato jurídico do Estado ativo para um tema sai mais caro do que o efeito benéfico da punição do infrator.


Se é para ter um julgamento e uma punição, que isto seja logo, e não depois – a lei beneficia quem corre atrás, em detrimento daquele que espera demais para tomar uma ação.


A prescrição também é um instrumento que obriga as pessoas a colocarem uma pedra no passado e enterrar de vez o que ocorreu há muito tempo atrás. É um instrumento de esquecimento, que pode ser prejudicial a um indivíduo particular, mas é necessário à sociedade como um todo. Porque uma sociedade tem que olhar para frente, não pode ficar travada discutindo coisas que ocorreram no tempo de nossos avós.
 

Uma vez vi um filme, em que duas famílias russas estavam brigando, havia gerações. Uma família fazia alguma coisa, a outra retaliava alguns anos depois, e assim sucessivamente, por décadas. Chegou uma hora que eles se odiavam sem nem saber porque. Aí, um deles se cansou e disse. Chega, cansei disto. Eu perdi. A minha família vai se mudar. Pode me matar, e estamos quites. O outro pensou, e respondeu: ok, eu venci. Mas não vou te matar. Vou perdoar tudo o que aconteceu, e se você perdoar também, podemos recomeçar do zero. Quem sabe assim os nossos filhos possam viver em paz.


 

O terceiro item bom da prescrição é que o indivíduo infrator não pode ficar para sempre com uma “espada de Dâmocles” na cabeça. Um dia, ele tem que ficar livre do peso da vigilância do Estado. Se não houve capacidade de julgá-lo e condená-lo até hoje, seria uma espécie de prisão perpétua o sujeito viver esperando por uma condenação de seus erros.


 

Tribunais de fantasmas

 
Imagine um mundo em que a prescrição não existisse. Os tribunais de hoje poderiam estar abarrotados de julgamentos de fantasmas do passado, prejudicando os casos do presente.
 

Imagine que ainda estivéssemos julgando o caso do bandido da luz vermelha, de 50 anos atrás. O mesmo até já morreu, mas imagine que alguma de suas vítimas poderia ter aberto um processo contra o Estado por negligência, por exemplo. Seria um caso absolutamente legítimo, se o passado tivesse o mesmo peso do presente. Este caso fantasma estaria tomando tempo do judiciário, que poderia estar julgando casos do presente.

 
Outro problema. O direito é algo vivo, sujeito a interpretações que dependem da sociedade, e que dependem da época. Seria justo condenar alguém com o direito de hoje, sendo que este deveria ser sido julgado com o direito de 50 anos atrás?


 

Problemas e distorções

Especialmente no Brasil, parece que há crimes que prescrevem depressa demais, dando a impressão de impunidade.

E há outros crimes que não prescrevem, como os de racismo e crimes contra a humanidade.

 
O problema das prescrições não é o conceito, e sim a aplicação deles. O tempo de prescrição curto demais para alguns casos, e a demora do judiciário, tudo isto causa a sensação de injustiça na sociedade.

 
E talvez a não-prescrição seja pior que a prescrição. Há partidos políticos movidos por ideologia que querem reescrever o passado. Eles querem reabrir e reinterpretar casos há muito esquecidos, alegando que há crimes que não prescrevem, e assim reinterpretar a história.


 

Prescrição não é perdão.
 

Quando um crime prescreve, não quer dizer que o infrator é perdoado, e sim, que o Estado não tem mais instrumentos legais para puni-lo.
 


 

Aplicação prática

Normalmente, estamos muito longe do meio jurídico. Mas podemos aplicar a prescrição às nossas vidas comuns. E de duas formas:
 

1 – Com relação aos outros: Que tal perdoar (prescrição não é perdão no meio jurídico, mas que tal pensar como perdão no meio pessoal?) pessoas com quem você esteve chateado há um bom tempo atrás? Que tal recomeçar do zero algumas coisas, zerando dívidas e esquecendo ofensas?
 

2 – Com relação à si mesmo: Que tal perdoar alguns erros que você cometeu no passado? Muita gente fica se remoendo por erros cometidos. E alguns erros podem travar o futuro, como um processo antigo que não acaba, uma ferida que não sara. Que tal deixar esses erros prescreverem? Que tal mudar o comportamento e partir para construir o futuro, começando hoje, começando agora?

 

Arnaldo Gunzi
Out 2015

 


Notas:
Outros posts sobre Tempo.
https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2015/06/28/seja-pleno-em-tudo-o-que-fizer-mesmo-com-multas-de-transito/

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2015/02/15/pouco-tempo-a-solucao-e-ter-menos-tempo-ainda/

Maluf :
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=160942

Espada de Dâmocles:
http://direitopenal.awardspace.com/ed.htm

 

Cronos: Cronos (o Tempo) era um titã que foi o pai de vários deuses gregos. Mas, temendo ser destronado por um de seus filhos, ele os devorava um a um. É uma metáfora do Tempo que cria e destrói a todos.

 

 

 

 

A dança de Afrodite

Planets2013 No ensino fundamental, é bem comum um diagrama do sistema solar, com o Sol no meio, depois Mercúrio, Vênus, Terra, etc.   O que não é dito é que há milênios de conhecimento de dezenas de astrônomos e físicos embutidos neste modelo simples.


Grécia antiga   Imagine-se há 2000 anos atrás, olhando para a noite e tentando descobrir como os planetas se comportam.   Não haviam telescópios. Tudo o que se poderia fazer era olhar para o ponto no céu e anotar a posição.   Se alguém fizer este trabalho meticuloso e paciente de anotar a posição dos planetas, depois de 8 anos teria dados para montar um diagrama como o seguinte, que é o percurso de Vênus visto da Terra.   Porém, com 8 anos de observação não dá para saber se Vênus vai se comportar assim para sempre ou não. Também não dá para saber se teve erro de medida, uma vez que não tinham instrumentos. Portanto, somente com uns 36 anos de medições daria para começar em pensar em modelos. earth-venus-rose-pattern-orbital-resonance-300x291   Mas, o que a órbita acima parece? Parece uma órbita circular, com várias subórbitas menores. Aí, os gregos antigos criaram um modelo que descrevia exatamente isto: círculos maiores e subcírculos menores. Com essas fórmulas, dava para prever a posição dos planetas no céu, vista da Terra, que estaria no centro do universo.   E, porque Vênus faz uma dança tão maluca no céu? Não se sabia. A fórmula do modelo antigo apenas descrevia o resultado, e não explicava mais nada. E, para o pessoal da época, era suficiente.


Galileu, Kepler, Newton   Foram precisos séculos para que os grandes nomes da Física que conhecemos, Galileu, Kleper, apoiados em milênios de dados, reescrevessem o modelo antigo. Faria muito mais sentido que todos os planetas girassem ao redor do Sol, inclusive a Terra. E a órbita de Vênus era tão esquisita porque tanto Vênus quanto a Terra giram com velocidades diferentes em órbitas elípticas diferentes ao redor do Sol.   E foi preciso mais um gênio, um dos mais geniais de todos, Isaac Newton, para formular três leis (Inércia, ação e reação, força =massa * aceleração) que realmente explicassem a dança dos planetas. O surpreendente é que a força da gravidade que faz cair a maçã na cabeça de Newton é a mesma que faz os planetas orbitarem ao redor do Sol, é a mesma lei que rege a dança sensual de Vênus no céu.   Talvez por causa desta dança sensual nos céus, o planeta tenha sido chamado de Afrodite, a deusa do amor, pelos gregos (e Vênus pelos romanos, posteriormente)

Arnaldo Gunzi

Março/2015.


Recomendações Quadrivium: Livro com belíssimas ilustrações geométricas e planetárias. http://www.livrariacultura.com.br/p/quadrivium-42269624 http://www.takayaiwamoto.com/Earth_Moon_Sun/Harmony_Planets.html


“O Binômio de Newton é tão belo quanto a Vênus de Milo, embora haja poucos para dar com isto” – Fernando Pessoa


Bônus. Órbita de Mercúrio visto da Terra         earth_mercury     Órbita de Júpiter vista da Terra earth_jupiter

Atlas e Hércules

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Atlas carregava o mundo em suas costas.

Suas costas doíam, não tanto por causa do peso, mas pela responsabilidade. É sua a responsabilidade de sustentar muitas pessoas. Tensão demais para uma pessoa (ou um deus) só.

Atlas

Stress, dor de cabeça. Trabalho demais, 24h por dia, 7 dias por semana. Aspirinas e café. Não é possível relaxar, deve-se sempre se preocupar com o que vem a seguir. Não há hora para terminar, não há tempo a perder. Não há como dedicar-se a si mesmo, ou à família. Stress.

Um dia um visitante chegou à Atlas. Ele precisava urgentemente de um pomo dourado, para cumprir uma das 12 missões que ele tinha. O pomo dourado só existia no pomar da deusa Hera. Atlas era o único que tinha o know-how para obter o pomo.

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O visitante comprometeu-se a suportar o mundo enquanto Atlas buscava o pomo.

Atlas obteve facilmente o pomo do jardim de Zeus. Mas, no meio do caminho, ele sentiu novamente o gosto da liberdade. Não havia tensão. Não havia peso. Não havia responsabilidades. Não havia pessoas dependendo dele.

Atlas voltou ao visitante, e pediu que ele suportasse o peso do mundo por apenas mais algumas horas. Atlas disse que queria visitar a filha, para dar-lhe adeus.

O visitante prontamente concordou, disse que ele merecia essas horas como pagamento pela obtenção dos pomos. Só que o visitante pediu para Atlas segurar o mundo só um pouquinho, para que ele pudesse ajeitar a calça e segurar melhor. Depois disso, ele poderia ir visitar a filha.

Atlas segurou o mundo novamente. O visitante pegou o pomo e foi embora, para nunca mais voltar. Não falou uma palavra, nem olhou para trás, deixando novamente o peso do mundo para Atlas.

FIM.

Um conto de Akutagawa Ryunosuke

Akutagawa Ryunosuke foi um escritor japonês de grande importância. É considerado o pai das histórias curtas japoneses. Escreveu Rashomon, que depois virou um filme de Akira Kurosawa. O conto “O fio da aranha” foi escrito em 1918.
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O fio da aranha
I
Um dia Buda estava passeando às bordas do lago da Lótus no Nirvana. As flores de lótus no lago são o mais branco dos brancos e  uma fragrância indescritivelmente prazerosa perfuma constantemente a área adjacente. O dia está começando a amanhecer no Nirvana.
No caminho, Buda pára na beira do lago e é tomado de uma inesperada visão entre as pétalas de lótus flutuando na água. Uma vez que as profundezas do inferno jazem diretamente abaixo do lago da Lótus no Nirvana, os cenários terríveis podiam ser vistos através da água cristalina como se fosse através de uma lente.
Então, a figura de um homem, de nome Kandatta, contorcendo-se nas profundezas do inferno entre outros pecadores, chamou a atenção de Buda. Kandatta era um assassino, um incendiário e ladrão de alta periculosidade com diversos assaltos a si creditados. Era o homem mais perverso do mundo, portanto era o que recebia o maior castigo dentre todos os pecadores. Entretanto, Buda recordou-se de que ele fez uma única boa ação na vida. Quando Kandatta estava voltando de um assalto bem sucedido, havia uma aranha rastejando ao longo do caminho. Ele imediatamente levantou a perna, disposto a esmagar a aranha. Mas, subitamente ele reconsiderou, pensando “Não, não, apesar de ser apenas uma pequena aranha, sem dúvida ela é um ser vivo também. É uma vergonha tirar a sua vida sem razão”. No final, a aranha foi poupada.
Observando a situação no Inferno, Buda relembrou que Kandata se apiedou da aranha. Ele decidiu que, em retribuição por ter feito esta única boa ação, ele poderia tentar resgatar esse homem do Inferno. Ele encontrou nos arredores uma aranha tecendo uma bela teia cinza numa pétala de Lótus. Buda pegou a teia cuidadosamente e desceu-a entre as flores puras de Lótus direto abaixo nas profundezas do Inferno.
II
Nas profundezas do Inferno e entre outros pecadores, Kandatta estava flutuando e afundando continuamente no mar de sangue. Qualquer fosse a direção que ele olhasse, estava completamente escuro. Havia poucos sons porque aqueles que caem nesse nível de Inferno estão tão exaustos pelas torturas que nem conseguem mais gritar.
Então, surpreendentemente Kandatta olha para cima e encontra o fio da teia de aranha na sua cabeça, descendo na sua direção, vindo do distante, distante firmamento. Ele aplaude, involutariamente, de alegria. Se ele conseguisse escalar o fio, certamente fugiria do Inferno. Não, se tudo corresse bem, ele seria até capaz de adentrar o Nirvana.
Kandatta rapidamente segura firme o fio da teia com ambas as mãos e começa a escalar com toda a sua força, palmo a palmo. Ele estava acostumado com isso, uma vez que tinha sido um perigoso ladrão.
Mas a distância entre o Nirvana e o Inferno é muito grande, e escalar tamanha distância não é fácil. Kandatta se cansa, e pára para descansar um pouco. No seu descanso, ele olha para baixo.
Devido ao tanto que ele havia percorrido, o temeroso lugar onde ele estava já nem dava para ser visto. Continuando nesse ritmo, ele escaparia facilmente. Então ele grita, “Estou salvo! Finalmente salvo!”. Entretanto ele subitamente nota que, abaixo dele, como uma linha de formigas, há um incontável número de pecadores escalando também. Kandatta gela de choque e medo. Como poderia um delgado fio de aranha, que talvez não suportasse nem a ele sozinho, suportar o peso de tantos? Se o fio arrebentasse, ele, Kandatta, que a duras penas havia escalado tão longe, seria jogado de volta ao Inferno. Isso seria terrível. Enquanto isso, os pecadores, não às centenas, não aos milhares, mas como enxames, continuavam a subir o fio.
Kandatta esbravejou, “Hei, pecadores. Este fio de aranha é meu. Quem permitiu que vocês escalassem? Caiam fora! Fora!”. Kandatta começou a balançar o fio, quando este arrebentou um pouquinho acima de onde Kandatta estava pendurado. Então, ele caiu novamente ao Inferno. Num piscar de olhos estava de volta às profundezas sombrias.
III
Buda observou tudo que ocorreu, do início ao fim. Quando Kandatta finalmente afundou como uma rocha no Inferno, Buda se entristeceu. O coração sem compaixão de Kandatta o levou a tentar se salvar sozinho, e por tal ato ele caiu de volta ao Inferno. Tivesse permitido que outros se salvassem, ele também seria salvo.
No lago da Lótus no Nirvana, as flores são o mais branco dos brancos e  uma fragrância indescritivelmente prazerosa perfuma constantemente a área adjacente. Está começando a entardecer no Nirvana.
FIM
Veja também

Atlas e Hercules

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O 11o trabalho de Hercules era pegar 3 pomos das Hesperíades. Para tal, ele precisava da ajuda de Atlas.

Atlas é o titã que sustenta o mundo em suas costas. É por isso que os mapas do mundo se chamam atlas mundiais.

Somente Atlas poderia pegar os pomos. Então, eles trocaram. Hércules ficou carregando o mundo em suas costas, e Atlas ficou livre do pesado fardo de suportar o mundo por um tempo.

Atlas viu-se livre após milênios. Sentiu o delicioso sabor da liberdade, a leveza de poder respirar com tranquilidade e andar para onde quiser. Ele queria que este momento durasse infinitamente, mas em poucos minutos já tinha pego os frutos e estava de volta a falar com Hércules.

– Hércules, peguei os frutos.
– Ótimo

Mas Atlas hesitou, só de pensar em voltar a carregar o mundo em suas costas.

– Hércules, faz 3 mil anos que não vejo a minha filha. Estou com saudades dela. Estou até com saudades do marido dela, aquele vagabundo. Também queria saber que fim levou o meu cachorro. É rapidinho. Você pode carregar o mundo mais um pouco?

Hércules nem hesitou em responder.
– Claro, fica tranquilo. Você merece, depois de tudo o que fez por mim. Só que o meu calção está saindo do lugar. Você pode segurar o mundo por alguns instantes, só para eu arrumar o calção?

Atlas voltou a segurar o mundo para Hércules ajeitar a calça. E Hércules deu no pé, para nunca mais voltar.