Uma vida pacata e longa ou cheia de aventuras e curta?

Quando Aquiles era jovem, a sua mãe fez uma profecia.

O garoto iria para a Guerra de Troia, teria uma vida cheia de aventuras, seria um herói lembrado por inumeráveis gerações, porém, teria uma vida curta com uma morte brutal.

Ou, se ficasse em casa, ele seria um camponês com uma vida longa, feliz e pacata, se casaria e teria filhos, os seus filhos teriam filhos, o seu nome seria lembrado por poucas gerações e depois, esquecido para sempre…

Qual a vida que você escolheria?

Não há certo ou errado.

“Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?”
Friedrich Nietzsche.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

O que faz de Star Wars um Star Wars?

Desde que me conheço como gente, referências a Star Wars sempre estiveram no ar: o temível Darth Vader, a música contagiante da marcha imperial, a Força, a ordem dos Jedi, a determinada Princesa Leia, o sábio e icônico Mestre Yoda, um homem cachorro esquisito chamado Chewbacca co-piloto do ator Harrison Ford numa espécie de disco voador chamado Milenium Falcon, Jabba, o Hutt…

O que faz de Star Wars um sucesso fenomenal? Quais as diferenças para um filme qualquer de ficção científica? Qual o segredo de seu sucesso?

Sendo uma das séries mais populares de todos os tempos, é natural que esta pergunta tenha sido feita e refeita ao longo das últimas décadas. Este artigo é um apanhado das ideias mais interessantes. E o meu interesse é na parte screenwriting da coisa, a fim de aperfeiçoar este talento.

Antes de qualquer coisa, Star Wars não é um filme, mas sim um tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna.

Listo aqui as duas principais explicações, sendo que a primeira demandará maior tempo:

A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos
B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação


A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos

George Lucas, o criador da saga, teve enorme influência do autor Joseph Campbell, com o conceito conhecido hoje como “Jornada do Herói”. George Lucas era obcecado por este trabalho, e ele mesmo admitiu que Campbell foi o seu Yoda.

Campbell, um professor de literatura, estudou um grande número de histórias de mitologia ao redor do mundo. Na época em que ele escreveu o livro, teve grande influência do psicólogo Carl Jung.

Segundo a crença destes autores, havia uma espécie de padrão universal de comportamento, chamado de arquétipo. Por isso, todas as histórias da mitologia teriam alguma espécie de padrão, e foi isto que Campbell explicitou em seu livro, chamando o conceito de Monomito.

De modo geral, há três fases: a partida, a iniciação e o retorno. O herói começa a jornada em casa, sai para se aventurar no mundo exterior, encontrando aliados e inimigos, superando desafios de dificuldade crescente, e depois retorna ao lar, transformado e triunfante, fechando o ciclo.

A jornada do Herói de Campbell tem 17 etapas, mas listarei apenas 11 para simplificar o conceito. Tomo como referência o primeiro filme da série, Star Wars, de 1977. Este foi rebatizado décadas depois para Episódio IV – Uma nova esperança.

Capítulo I: A Partida

1 – O chamado da aventura:
Um garoto, Luke Skywalker, vive no planeta-deserto Tatooine. É um garoto diferente, que quer sair daquele lugar e explorar o universo, entretanto, o tio Owen precisa dele para cuidar da colheita.

O chamado da aventura vem quando ele encontra o robô R2D2, que está fugindo do Império com uma mensagem: “Help me, Obi-Wan Kenobi. You are my only hope”



2 – A recusa do chamado
Luke procura o velho Ben Kenobi, e inicialmente, ele recusa a se juntar à rebelião. Ele tem obrigações para com o tio. Além disso, ele era um simples camponês, como alguém assim poderia encarar o poder do Império?

O garoto fica sabendo através de Kenobi que o pai dele fora um mestre Jedi. Ao retornar à sua casa, Luke encontra o lugar em ruínas, e descobre que o Império assassinou seus tios.

3- O auxílio sobrenatural
O garoto aceita se tornar um Jedi, como o seu pai. Obi-Wan explica sobre a Força, entrega a ele o sabre de luz que fora de seu pai, e começa o treinamento para a próxima etapa da jornada.
Nota: o lendário Mestre Yoda aparece a partir do segundo filme. No primeiro, Obi-Wan é o seu mentor.

4 – A passagem pelo primeiro limiar
O primeiro teste para Luke é no espaçoporto Mos Eisley, onde Ben Kenobi recruta o auxílio de dois importantes aliados na jornada, o piloto Han Solo e o co-piloto Chewbacca.


No espaçoporto, há uma cena em que um hooligan com nariz de porco literalmente impede a passagem de Luke, querendo briga. Obi-Wan interfere, e eles atravessam este primeiro limiar, deixando Tatooine na icônica Milenium Falcon.

5 – O ventre da baleia
Os nossos heróis tinham como destino o planeta Alderaan. Mas, no momento em que eles a alcançariam, a Estrela da Morte destrói o planeta inteiro.

Após uma série de eventos, os nossos heróis acabam sugados para dentro da Estrela da Morte. Campbell chamou o estágio de “ventre da baleia”, e metaforicamente, eles acabam dentro do ventre da monstruosa construção capaz de destruir um planeta.

Capítulo II: A Iniciação

6 – O caminho de provas
Dentro da Estrela da Morte, eles enfrentam os stormtroopers e têm seus primeiros confrontos com Darth Vader.

7 – O encontro com a deusa
Luke e amigos resgatam a Princesa Leia de Darth Vader e se preparam para fugir a bordo da Milenium Falcon.

Um pouco antes da fuga, Luke presencia a morte de seu mentor, Obi-Wan Kenobi, pelas mãos de Darth Vader. Ele agora está maduro para seguir sozinho em sua jornada.

8 – A apoteose
Luke, Leia, Solo se juntam ao restante da rebelião, onde juntos enfrentam mais uma série de desafios. O plano é atacar o ponto fraco da Estrela da Morte, revelado no esquema arquivado no robô R2D2.

Nenhum dos outros aliados consegue sucesso neste ataque. As baixas são muitas, com o poderoso Darth Vader barrando todas as tentativas de ataque. A Estrela da Morte prepara o disparo final, que vai destruir para sempre a base rebelde…

Com o auxílio de todos os seus colegas, inclusive uma ajuda providencial de Han Solo, Luke consegue dar um único tiro certeiro no calcanhar-de-Aquiles da monstruosa contrução, que causa o colapso da mesma e salva a causa rebelde da destruição total.

9 – A bênção última
Para Campbell, esta é uma espécie de Morte e Ressurreição. O herói morre de seu mundo atual, e renasce em seu novo mundo. Este momento é quando Luke, segundos antes de seu tiro final, abandona a medição dos instrumentos de sua nave e confia plenamente na Força, lembrando dos ensinamentos de seu mentor Ben Kenobi. Somente com a Força é possível cumprir a missão.

Capítulo III: O Retorno

10 – A passagem pelo limiar do retorno
Luke retorna à base rebelde, sendo recebido pelos seus amigos com festa.
Na obra de Campbell, há uma representação deste limiar, na forma de um elixir. No caso, o elixir é o próprio sucesso da missão.

11 – Senhor de dois mundos
Luke retorna como o Senhor de dois mundos, agora conhecendo a Força, sendo recebido com honrarias pela Princesa e aliados.

George Lucas escreveu e reescreveu o roteiro inúmeras vezes, pensando nos detalhes, na narrativa e construção de seu filme.


B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação

O segundo grande fator do sucesso é o grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação.


A extrema imaginação na criação dos cenários e personagens. A Trilha sonora espetacular – não há quem não reconheça e não se deixe contagiar pelas mesmas. Por fim, os efeitos visuais e sonoros, sempre à frente de seu tempo.

Além disso, Lucas buscou uma série de fontes de inspiração.

De Akira Kurosawa, o filme “The hidden fortress” é narrado por dois personagens secundários, algo como o R2D2 e C3PO japoneses. Também se inspirou nos duelos de espada, e no ator favorito dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune. O capacete de Darth Vader é baseado num capacete samurai.

Das cenas de Velho Oeste, como a do bar no espaçoporto.

Ele se inspirou também em Flash Gordon, que também era no espaço, com naves, tinha a sua bela e forte princesa, etc.

Os personagens são tão icônicos que até roubam a cena. Darth Vader é infinitamente mais memorável que Luke Skywalker. Han Solo, o anti-herói, paquerador e durão, idem. Nem se fala do Mestre Yoda, que virou sinônimo de sabedoria. Até personagens secundários com pouquíssima participação, como Boba Fett e Jabba o Hutt são cultuados pelos fãs.

Mas Star Wars é diferente de um filme sci-fi. O tom não é de um filme futurista, mas sim de uma mitologia.

Não é uma briga de robôs que pode ocorrer num futuro distante. É uma história que ocorreu há muito muito tempo atrás, numa galáxia muito distante.

Não é um briga de Skrulls x Krees num universo paralelo aleatório. É a resistência obstinada de um pequeno grupo rebelde, lutando contra o poderio imenso de um Império! É a Força versus o lado Negro da Força, algo místico, mágico, espiritual que pode estar na vida de todos nós!

Tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna Star Wars é. Muito bem sucedida ele foi.


Para escrever este post, assisti (novamente) a trilogia original, a trilogia do Anakin Skiwalker e o primeiro filme da nova era, além de ler o Herói de mil faces do Joseph Campbell. Tarefas muito divertidas, diga-se de passagem.

E que a Força esteja com você!

Links:

https://www.amazon.com.br/Her%C3%B3i-Mil-Faces-Joseph-Campbell/dp/8531502942?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_52073337753_242620863014_pla-396816552426_c_

https://www.audible.com/pd/Screenwriting-101-Mastering-the-Art-of-Story-Audiobook/B0778Q1BHY?qid=1551523943&sr=1-1&ref=a_search_c3_lProduct_1_1&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=GH85VXN6AA5SWNX0DZZ4&

http://www.bbc.com/culture/story/20160104-the-film-star-wars-stole-from

http://www.moongadget.com/origins/flash.html

https://www.shmoop.com/hero-with-a-thousand-faces/summary.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hero%27s_journey

https://www.historyextra.com/period/modern/star-wars-why-did-the-film-make-history/

http://www.thecinessential.com/zachary/2018/4/5/the-hero-awakens-a-comparison-of-journeys-in-star-wars

Pigmaleão

Na mitologia grega, Pigmaleão foi um escultor que dedicou todos os esforços para esculpir a mulher que ele considerava perfeita.

 

Pigmaleão trabalhou com esmero em sua obra, por infindáveis horas, preocupando-se com cada mínimo detalhe.

 

A belíssima estátua recebeu o nome de Galateia. O escultor apaixonou-se de tal forma pelo seu trabalho que passou a tratá-la como um ser humano de verdade, dando-lhe presentes, carinho, e considerando-a como a sua esposa de verdade.

 

A deusa Vênus apiedou-se de Pigmaleão. Ela procurou entre as mulheres alguma que fosse tão perfeita quanto Galateia, mas não encontrou mortal à altura. Daí, Vênus deu vida à estátua. Galateia se tornou uma mulher de carne e osso e se casou com Pigmaleão.

 

https://resizing.flixster.com/FqeoVABQVqTsLIl0Ady55VcxMHc=/1920x1080/v1.bjs1ODU1NjE7ajsxNzc4MTsxMjAwOzE5MjA7MTA4MA
O mito de Pigmaleão inspirou a peça “My fair lady”

Este mito é comumente associado à ideia de profecia auto-realizável. Se dedicarmos paixão suficiente em nosso trabalho, qualquer seja, conseguiremos fazer com que este seja tudo o que esperamos dele.

 

 

De modo geral, é simples perceber quando um trabalho foi feito com paixão ou quando foi feito de forma burocrática. A dica é sempre fazer o melhor trabalho possível, dedicando o máximo carinho e paixão, e o resultado com certeza virá.

 

 


 

Links

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Pigmale%C3%A3o

https://www.infoescola.com/mitologia-grega/pigmaliao-e-galateia/

http://hbrbr.uol.com.br/o-lider-pigmaleao/

O complexo de Cassandra

O “complexo de Cassandra” é quando alguém sabe o que está prestes a acontecer, avisa a todos, porém ninguém acredita.

 

O termo é baseado na lenda grega que remonta à Guerra de Troia, descrita na Ilíada de Homero.

 

Cassandra era a filha de Prius, rei da cidade de Troia. Sendo ela muito linda, despertou a paixão do deus Apolo, que a fim de cortejá-la, deu-lhe o dom da profecia.

Entretanto, Cassandra recusou o amor de Apolo, o que causou a ira do deus. Por vingança, ele a amaldiçoou. Ela seria capaz de prever o futuro, entretanto, ninguém acreditaria nela.

Dois exemplos:
– Cassandra previu que o sequestro de Helena por Páris causaria a Guerra de Troia, e advertiu o príncipe a não ir a Esparta – e, é claro, foi ignorada.
– Ela previu que o famoso Cavalo de Troia causaria a ruína da cidade, e lutou para que os troianos não colocassem o mesmo para dentro dos portões – e, obviamente, foi ignorada.

 

Em geral, pessoas que têm a capacidade de fazer análises globais e longo prazo sofrem deste efeito Cassandra – têm uma boa ideia dos efeitos, entretanto não conseguem lutar contra a maioria, que vê apenas o curto prazo, e apenas o local.

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Vide também

 

O Cavalo de Troia das histórias


Post da série para Iniciantes – aproveitando que a Wikipédia já não explica nada de forma simples e objetiva.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Cassandra

https://www.britannica.com/topic/Cassandra-Greek-mythology

 

 

​ O olho da sabedoria

O deus máximo da mitologia nórdica é Odin, e ele é cego de um olho.

Como Odin perdeu o olho?

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Odin sempre buscou obsessivamente a sabedoria.

Nesta busca, ele chegou ao poço de Mimir, aos pés da árvore da vida YggDrasil. Lá vivia Mimir, um ser que tinha todo o conhecimento do cosmos, conseguido devido à água do poço.

Odin pediu para beber a água do poço da sabedoria. Mimir respondeu que havia um preço extremamente alto a ser pago.

“Qual o preço?”, perguntou Odin.

“Um de seus olhos”, disse Mimir.

Odin não hesitou. Arrancou um de seus olhos, sem se importar com a dor, e bebeu a água da fonte da sabedoria…

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Como conseguir o olho da sabedoria?

A sabedoria vem somente após muitos sacrifícios.

O mundo real não existe, existem interpretações do mesmo.

Quem enxerga o mundo com o olho da sabedoria enxerga muito além do que os olhos podem alcançar.

Com o olho da sabedoria vemos as linhas do código-fonte que formam a matrix de nosso mundo.

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Odin pelo mestre Jack Kirby

Vemos cadeias de relações causa-efeito, causa-efeito, a níveis profundos.

Vemos o presente, entendemos o passado e projetamos o futuro.

Vemos que há situações que não conseguirmos prever, para os quais é bom ter precauções, como seguros e opções.

Compreendemos o que as pessoas realmente pensam e o que querem.

Vemos o mundo em nível global e a longo prazo.

Qualquer um de nós pode conseguir o olho da sabedoria, mas o preço é alto, extremamente alto. É necessário muito mais do que o sacrifício de um olho. É necessário o sacrifício de sua vida.

Obter sabedoria significa uma busca incessante por novos conhecimentos: inúmeras horas estudando, lendo, procurando boas fontes de inovação.

Obter sabedoria significa trabalhar eternamente para gerar valor no mundo real, interagindo com dezenas de pessoas, ajudando, aprendendo e ensinando.

Obter sabedoria envolve inumeráveis tentativas e erros, empreender, ser bem-sucedido e falhar, cair e levantar, reconhecer erros, pedir desculpas e evoluir.

Odin perdeu um olho físico, mas ganhou um olho metafísico.

Com tal olho, ele enxergava mais do que qualquer outra criatura da face da Terra.

Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei.

Trilha sonora: assim falou Zaratustra, Richard Strauss

 


 

Fontes:

https://norse-mythology.org/tales/why-odin-is-one-eyed/

https://www.audible.com/pd/History/Great-Mythologies-of-the-World-Audiobook/B013KRSIVC?ref=a_a_search_c3_lProduct_1_2&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=BZY0SQ8RHE1VHZPCR6R9&

O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Orfeu, Tom, Vinícius e Obama

 

 

Sem o mito de Orfeu, talvez o mundo nunca conhecesse a dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes e nem o ex-presidente Barack Obama…


 

Orfeu e as sereias

Orfeu é considerado o maior músico da mitologia grega. Orfeu era filho de um rei grego e de Calíope, uma das 9 musas – cada musa representa a inspiração para um dom: poesia, história, dança, comédia, etc. Calíope era a musa da poesia épica – por exemplo, como a Ilíada e a Odisseia.

Era como se Orfeu fosse um super-herói, sendo a música o seu superpoder. O poder da música era utilizado para acalmar feras e trazer a alegria aos corações humanos.

O primeiro mito de Orfeu é a sua participação na Argonáutica. Um princípe chamado Jasão reuniu um grupo de heróis para uma missão impossível, recuperar o tosão de ouro. Um tosão é tipo o couro de um carneiro, mas era um carneiro todo especial, com pelos de ouro, que daria poderes a quem o possuísse.

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Jasão contou com o apoio de Argo, que construiu o navio que leva o seu nome – Argonautas. Além disso, ele reuniu um monte de figuras importantes da mitologia grega: Castor e Pólux (a constelação de gêmeos é em homenagem a eles), Hércules, Atalanta (a única mulher), Laertes (o pai de Ulisses, da Odisseia). Orfeu foi chamado para se juntar ao grupo, primeiro porque a música era importante para ajudar a suportar uma longa jornada de meses no mar, e segundo porque sem Orfeu eles não conseguiriam passar pelas sereias.

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As sereias são as mesmas sereias da Odisseia, cujo canto enfeitiça os marinheiros e os levam à ruína. Para os Argonautas passarem por elas, Orfeu cantou uma canção mais bonita e em voz mais alta que a das sereias, desta forma evitando que os colegas fossem enfeitiçados.


Orfeu e Eurídice no inferno

Este é o mito mais conhecido de Orfeu.

No dia de seu casamento com Eurídice, ocorreu uma tragédia. Um sátiro completamente bêbado ficou encantado com a beleza de Eurídice e passou a persegui-la. Ela fugiu, mas acabou sendo picada por uma cobra e morreu pouco tempo depois.

Desolado numa tristeza sem fim, Orfeu passou vários dias tocando músicas melancólicas, até que decidiu descer ao Inferno para buscar a sua amada.

Orfeu passou pelos portões do mundo subterrâneo, deu uma moeda a Caronte para atravessar o rio Styx, passou pelo cão Cérbero e finalmente chegou à presença de Hades, o senhor do Inferno, e sua esposa, Perséfone. Então, no centro do Inferno, Orfeu cantou a música mais bela e mais triste que todos ali jamais tinham ouvido.

A música de Orfeu conseguiu tocar Hades, que em troca, permitiu que Eurídice retornasse ao mundo dos vivos. Mas com uma condição: que Orfeu não olhasse para trás, até que ambos estivessem de volta ao mundo terrestre.

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Orfeu fez toda a jornada de volta, com Eurídice seguindo-o em completo silêncio. Porém, ele cometeu o erro de olhar para trás logo após voltar ao mundo – a condição era de que ambos estivessem de volta, não apenas ele. Desta forma, ele perdeu Eurídice de novo, desta vez para sempre.

 


Orfeu da Conceição

Desde meados de 1940, o grande poeta e diplomata Vinícius de Moraes queria fazer uma peça inspirada no herói grego Orfeu, mas ambientado nas favelas cariocas e com os negros brasileiros.

Orfeu Negro, 1959

O site http://www.viniciusdemoraes.com.br tem algumas explicações sobre a motivação:

Suas incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos e trágicos dos tempos míticos.

Nesse mesmo ano, Vinícius estava passando alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba. Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato.

 

Para ajudar na parte musical do projeto de “Orfeu da Conceição”, o músico Ronaldo Bôscoli apresentou a Vinícius aquele que seria o seu maior parceiro, Tom Jobim, formando a maior dupla musical de todos os tempos.

Tom Jobim teria ouvido a proposta da peça, mas a sua pergunta de verdade era outra: “Tem um dinheirinho nisso aí?”

Vinícius e Tom fizeram as músicas do espetáculo, que estreiou em 1956.

A peça virou um filme, Orfeu Negro, dirigido pelo francês Marcel Camus, que estreiou em 1959. Este filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, mas representando a França, não o Brasil, já que toda a viabilização do filme foi por parte dos franceses, embora a filmagem e os atores fossem brasileiros.

 

O filme narra a história de Orfeu, um condutor de bonde, negro, que conhece Eurídice, uma negra vinda do sertão para viver no Rio de Janeiro. O enredo acontece no carnaval carioca, por isso, um clima com muita força, muita energia. O roteiro é inspirado no conto grego: Eurídice é perseguida por um homem estranho e morre por conta disso, Orfeu desce escadarias ao mundo inferior, canta num ritual de macumba, mas acaba não conseguindo resgatar Eurídice e ele mesmo morre no final…

 

 

 

Ninguém melhor do que o maior músico do mundo antigo, Orfeu, para unir os maiores sambistas do Brasil branco, negro, mulato, lindo como a pele macia de Oxum. Saravá, como diria o poetinha Vinícius de Moraes.


Orfeu Negro e Obama

O pai do ex-presidente Barack Obama é queniano, mas a mãe é americana, e branca.

A mãe de Obama tinha um fascínio por negros, e o filme “Orfeu Negro” era o filme favorito dela.

“Uma noite, enquanto folheava o jornal Village Voice, os olhos da minha mãe se iluminaram ao ver a propaganda de um filme, ‘Orfeu Negro’, que estava sendo exibido no centro. Minha mãe insistiu para que fossemos naquela noite; ela disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu”, conta Obama, antes de lembrar as palavras da mãe: “’Eu tinha apenas 16 anos. Foi a primeira vez que fiz algo totalmente sozinha. Senti-me tão adulta. Quando vi o filme, achei que era a coisa mais bonita que já tinha visto’, ela nos contou enquanto entrávamos no elevador.”

Mas Ann não conseguiu transmitir seu entusiasmo ao filho. “Os brasileiros negros e mulatos cantavam e dançavam e tocavam violão como aves livres de plumagem colorida. Na metade do filme, decidi que havia visto o suficiente e virei para minha mãe para ver se ela estava pronta para ir embora. Mas seu rosto estava vidrado na tela. Naquele momento, senti-me como se tivesse olhado por uma janela para seu coração, o coração de sua juventude. Percebi que o retrato de negros infantilizados que eu via, o reverso da imagem dos selvagens do (escritor britânico Joseph) Conrad, foi o que minha mãe carregou com ela até o Havaí anos atrás, um reflexo da fantasia simplista que havia sido proibida para uma garota branca, de classe média do Kansas, a promessa de uma outra vida: quente, sensual, exótica, diferente.”

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

 

 

Este é o poder da música, acalmar feras, fugir do canto da sereia, forjar parcerias memoráveis e mudar o destino das pessoas.

 


Bônus: Valsa de Eurídice

 

Monólogo de Orfeu


 

Links

http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

https://jornalggn.com.br/noticia/tom-jobim-vinicius-de-moraes-e-orfeu-da-conceicao-por-jota-a-botelho

https://www.google.com.br/search?q=orpheus+eurydice&client=ubuntu&hs=o9g&channel=fs&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjG-Iyth97YAhXHi5AKHXoyAGIQ_AUICigB&biw=1252&bih=617#imgrc=yOBlnwCJ_SxR2M: