Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

A mentalidade do caranguejo

Coloque um monte de caranguejos num balde. Eles vão tentar escapar, escalando as paredes. Nisso, um caranguejo se engancha no outro, puxando para baixo o que está acima. No final, ninguém consegue sair do balde.

Daí deriva o termo “mentalidade de caranguejo” para descrever comportamento similar: fofocas e puxadas de tapete para derrubar aquele que se destaca, em especial nas corporações. “Se eu não posso, você também não pode”.



Outra história sobre caranguejo. A segunda missão de Hércules era derrotar a Hidra de Lerna, o terrível monstro de muitas cabeças. Ao cortar uma cabeça, surgiam duas no lugar.

Para ajudar a Hidra, Hera enviou um caranguejo. Este ficou atazanando Hércules na já difícil batalha contra a Hidra.  


Hércules deu um pisão no caranguejo, que se despedaçou todo.

Hera, em homenagem ao caranguejo, criou a constelação de Câncer.

Moral da história: Não seja um caranguejo. Quando aparecer algum, dê um chega-pra-lá nele.

Uma vida pacata e longa ou cheia de aventuras e curta?

Quando Aquiles era jovem, a sua mãe fez uma profecia.

O garoto iria para a Guerra de Troia, teria uma vida cheia de aventuras, seria um herói lembrado por inumeráveis gerações, porém, teria uma vida curta com uma morte brutal.

Ou, se ficasse em casa, ele seria um camponês com uma vida longa, feliz e pacata, se casaria e teria filhos, os seus filhos teriam filhos, o seu nome seria lembrado por poucas gerações e depois, esquecido para sempre…

Qual a vida que você escolheria?

Não há certo ou errado.

“Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?”
Friedrich Nietzsche.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

O que faz de Star Wars um Star Wars?

Desde que me conheço como gente, referências a Star Wars sempre estiveram no ar: o temível Darth Vader, a música contagiante da marcha imperial, a Força, a ordem dos Jedi, a determinada Princesa Leia, o sábio e icônico Mestre Yoda, um homem cachorro esquisito chamado Chewbacca co-piloto do ator Harrison Ford numa espécie de disco voador chamado Milenium Falcon, Jabba, o Hutt…

O que faz de Star Wars um sucesso fenomenal? Quais as diferenças para um filme qualquer de ficção científica? Qual o segredo de seu sucesso?

Sendo uma das séries mais populares de todos os tempos, é natural que esta pergunta tenha sido feita e refeita ao longo das últimas décadas. Este artigo é um apanhado das ideias mais interessantes. E o meu interesse é na parte screenwriting da coisa, a fim de aperfeiçoar este talento.

Antes de qualquer coisa, Star Wars não é um filme, mas sim um tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna.

Listo aqui as duas principais explicações, sendo que a primeira demandará maior tempo:

A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos
B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação


A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos

George Lucas, o criador da saga, teve enorme influência do autor Joseph Campbell, com o conceito conhecido hoje como “Jornada do Herói”. George Lucas era obcecado por este trabalho, e ele mesmo admitiu que Campbell foi o seu Yoda.

Campbell, um professor de literatura, estudou um grande número de histórias de mitologia ao redor do mundo. Na época em que ele escreveu o livro, teve grande influência do psicólogo Carl Jung.

Segundo a crença destes autores, havia uma espécie de padrão universal de comportamento, chamado de arquétipo. Por isso, todas as histórias da mitologia teriam alguma espécie de padrão, e foi isto que Campbell explicitou em seu livro, chamando o conceito de Monomito.

De modo geral, há três fases: a partida, a iniciação e o retorno. O herói começa a jornada em casa, sai para se aventurar no mundo exterior, encontrando aliados e inimigos, superando desafios de dificuldade crescente, e depois retorna ao lar, transformado e triunfante, fechando o ciclo.

A jornada do Herói de Campbell tem 17 etapas, mas listarei apenas 11 para simplificar o conceito. Tomo como referência o primeiro filme da série, Star Wars, de 1977. Este foi rebatizado décadas depois para Episódio IV – Uma nova esperança.

Capítulo I: A Partida

1 – O chamado da aventura:
Um garoto, Luke Skywalker, vive no planeta-deserto Tatooine. É um garoto diferente, que quer sair daquele lugar e explorar o universo, entretanto, o tio Owen precisa dele para cuidar da colheita.

O chamado da aventura vem quando ele encontra o robô R2D2, que está fugindo do Império com uma mensagem: “Help me, Obi-Wan Kenobi. You are my only hope”



2 – A recusa do chamado
Luke procura o velho Ben Kenobi, e inicialmente, ele recusa a se juntar à rebelião. Ele tem obrigações para com o tio. Além disso, ele era um simples camponês, como alguém assim poderia encarar o poder do Império?

O garoto fica sabendo através de Kenobi que o pai dele fora um mestre Jedi. Ao retornar à sua casa, Luke encontra o lugar em ruínas, e descobre que o Império assassinou seus tios.

3- O auxílio sobrenatural
O garoto aceita se tornar um Jedi, como o seu pai. Obi-Wan explica sobre a Força, entrega a ele o sabre de luz que fora de seu pai, e começa o treinamento para a próxima etapa da jornada.
Nota: o lendário Mestre Yoda aparece a partir do segundo filme. No primeiro, Obi-Wan é o seu mentor.

4 – A passagem pelo primeiro limiar
O primeiro teste para Luke é no espaçoporto Mos Eisley, onde Ben Kenobi recruta o auxílio de dois importantes aliados na jornada, o piloto Han Solo e o co-piloto Chewbacca.


No espaçoporto, há uma cena em que um hooligan com nariz de porco literalmente impede a passagem de Luke, querendo briga. Obi-Wan interfere, e eles atravessam este primeiro limiar, deixando Tatooine na icônica Milenium Falcon.

5 – O ventre da baleia
Os nossos heróis tinham como destino o planeta Alderaan. Mas, no momento em que eles a alcançariam, a Estrela da Morte destrói o planeta inteiro.

Após uma série de eventos, os nossos heróis acabam sugados para dentro da Estrela da Morte. Campbell chamou o estágio de “ventre da baleia”, e metaforicamente, eles acabam dentro do ventre da monstruosa construção capaz de destruir um planeta.

Capítulo II: A Iniciação

6 – O caminho de provas
Dentro da Estrela da Morte, eles enfrentam os stormtroopers e têm seus primeiros confrontos com Darth Vader.

7 – O encontro com a deusa
Luke e amigos resgatam a Princesa Leia de Darth Vader e se preparam para fugir a bordo da Milenium Falcon.

Um pouco antes da fuga, Luke presencia a morte de seu mentor, Obi-Wan Kenobi, pelas mãos de Darth Vader. Ele agora está maduro para seguir sozinho em sua jornada.

8 – A apoteose
Luke, Leia, Solo se juntam ao restante da rebelião, onde juntos enfrentam mais uma série de desafios. O plano é atacar o ponto fraco da Estrela da Morte, revelado no esquema arquivado no robô R2D2.

Nenhum dos outros aliados consegue sucesso neste ataque. As baixas são muitas, com o poderoso Darth Vader barrando todas as tentativas de ataque. A Estrela da Morte prepara o disparo final, que vai destruir para sempre a base rebelde…

Com o auxílio de todos os seus colegas, inclusive uma ajuda providencial de Han Solo, Luke consegue dar um único tiro certeiro no calcanhar-de-Aquiles da monstruosa contrução, que causa o colapso da mesma e salva a causa rebelde da destruição total.

9 – A bênção última
Para Campbell, esta é uma espécie de Morte e Ressurreição. O herói morre de seu mundo atual, e renasce em seu novo mundo. Este momento é quando Luke, segundos antes de seu tiro final, abandona a medição dos instrumentos de sua nave e confia plenamente na Força, lembrando dos ensinamentos de seu mentor Ben Kenobi. Somente com a Força é possível cumprir a missão.

Capítulo III: O Retorno

10 – A passagem pelo limiar do retorno
Luke retorna à base rebelde, sendo recebido pelos seus amigos com festa.
Na obra de Campbell, há uma representação deste limiar, na forma de um elixir. No caso, o elixir é o próprio sucesso da missão.

11 – Senhor de dois mundos
Luke retorna como o Senhor de dois mundos, agora conhecendo a Força, sendo recebido com honrarias pela Princesa e aliados.

George Lucas escreveu e reescreveu o roteiro inúmeras vezes, pensando nos detalhes, na narrativa e construção de seu filme.


B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação

O segundo grande fator do sucesso é o grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação.


A extrema imaginação na criação dos cenários e personagens. A Trilha sonora espetacular – não há quem não reconheça e não se deixe contagiar pelas mesmas. Por fim, os efeitos visuais e sonoros, sempre à frente de seu tempo.

Além disso, Lucas buscou uma série de fontes de inspiração.

De Akira Kurosawa, o filme “The hidden fortress” é narrado por dois personagens secundários, algo como o R2D2 e C3PO japoneses. Também se inspirou nos duelos de espada, e no ator favorito dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune. O capacete de Darth Vader é baseado num capacete samurai.

Das cenas de Velho Oeste, como a do bar no espaçoporto.

Ele se inspirou também em Flash Gordon, que também era no espaço, com naves, tinha a sua bela e forte princesa, etc.

Os personagens são tão icônicos que até roubam a cena. Darth Vader é infinitamente mais memorável que Luke Skywalker. Han Solo, o anti-herói, paquerador e durão, idem. Nem se fala do Mestre Yoda, que virou sinônimo de sabedoria. Até personagens secundários com pouquíssima participação, como Boba Fett e Jabba o Hutt são cultuados pelos fãs.

Mas Star Wars é diferente de um filme sci-fi. O tom não é de um filme futurista, mas sim de uma mitologia.

Não é uma briga de robôs que pode ocorrer num futuro distante. É uma história que ocorreu há muito muito tempo atrás, numa galáxia muito distante.

Não é um briga de Skrulls x Krees num universo paralelo aleatório. É a resistência obstinada de um pequeno grupo rebelde, lutando contra o poderio imenso de um Império! É a Força versus o lado Negro da Força, algo místico, mágico, espiritual que pode estar na vida de todos nós!

Tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna Star Wars é. Muito bem sucedida ele foi.


Para escrever este post, assisti (novamente) a trilogia original, a trilogia do Anakin Skiwalker e o primeiro filme da nova era, além de ler o Herói de mil faces do Joseph Campbell. Tarefas muito divertidas, diga-se de passagem.

E que a Força esteja com você!

Atualização. Hoje, Maio de 2020, todos os filmes do Star Wars (os 3 originais, os 3 da década de 2000, os três mais recentes) estão no Amazon Prime Video.

Links:

https://www.audible.com/pd/Screenwriting-101-Mastering-the-Art-of-Story-Audiobook/B0778Q1BHY?qid=1551523943&sr=1-1&ref=a_search_c3_lProduct_1_1&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=GH85VXN6AA5SWNX0DZZ4&

http://www.bbc.com/culture/story/20160104-the-film-star-wars-stole-from

http://www.moongadget.com/origins/flash.html

https://www.shmoop.com/hero-with-a-thousand-faces/summary.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hero%27s_journey

https://screenwriting.io/what-is-the-heros-journey/

https://www.historyextra.com/period/modern/star-wars-why-did-the-film-make-history/

http://www.thecinessential.com/zachary/2018/4/5/the-hero-awakens-a-comparison-of-journeys-in-star-wars

Pigmaleão

Na mitologia grega, Pigmaleão foi um escultor que dedicou todos os esforços para esculpir a mulher que ele considerava perfeita.

 

Pigmaleão trabalhou com esmero em sua obra, por infindáveis horas, preocupando-se com cada mínimo detalhe.

 

A belíssima estátua recebeu o nome de Galateia. O escultor apaixonou-se de tal forma pelo seu trabalho que passou a tratá-la como um ser humano de verdade, dando-lhe presentes, carinho, e considerando-a como a sua esposa de verdade.

 

A deusa Vênus apiedou-se de Pigmaleão. Ela procurou entre as mulheres alguma que fosse tão perfeita quanto Galateia, mas não encontrou mortal à altura. Daí, Vênus deu vida à estátua. Galateia se tornou uma mulher de carne e osso e se casou com Pigmaleão.

 

https://resizing.flixster.com/FqeoVABQVqTsLIl0Ady55VcxMHc=/1920x1080/v1.bjs1ODU1NjE7ajsxNzc4MTsxMjAwOzE5MjA7MTA4MA
O mito de Pigmaleão inspirou a peça “My fair lady”

Este mito é comumente associado à ideia de profecia auto-realizável. Se dedicarmos paixão suficiente em nosso trabalho, qualquer seja, conseguiremos fazer com que este seja tudo o que esperamos dele.

 

 

De modo geral, é simples perceber quando um trabalho foi feito com paixão ou quando foi feito de forma burocrática. A dica é sempre fazer o melhor trabalho possível, dedicando o máximo carinho e paixão, e o resultado com certeza virá.

 

 


 

Links

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Pigmale%C3%A3o

https://www.infoescola.com/mitologia-grega/pigmaliao-e-galateia/

http://hbrbr.uol.com.br/o-lider-pigmaleao/

O complexo de Cassandra

O “complexo de Cassandra” é quando alguém sabe o que está prestes a acontecer, avisa a todos, porém ninguém acredita.

 

O termo é baseado na lenda grega que remonta à Guerra de Troia, descrita na Ilíada de Homero.

 

Cassandra era a filha de Prius, rei da cidade de Troia. Sendo ela muito linda, despertou a paixão do deus Apolo, que a fim de cortejá-la, deu-lhe o dom da profecia.

Entretanto, Cassandra recusou o amor de Apolo, o que causou a ira do deus. Por vingança, ele a amaldiçoou. Ela seria capaz de prever o futuro, entretanto, ninguém acreditaria nela.

Dois exemplos:
– Cassandra previu que o sequestro de Helena por Páris causaria a Guerra de Troia, e advertiu o príncipe a não ir a Esparta – e, é claro, foi ignorada.
– Ela previu que o famoso Cavalo de Troia causaria a ruína da cidade, e lutou para que os troianos não colocassem o mesmo para dentro dos portões – e, obviamente, foi ignorada.

 

Em geral, pessoas que têm a capacidade de fazer análises globais e longo prazo sofrem deste efeito Cassandra – têm uma boa ideia dos efeitos, entretanto não conseguem lutar contra a maioria, que vê apenas o curto prazo, e apenas o local.

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Vide também

 

O Cavalo de Troia das histórias


Post da série para Iniciantes – aproveitando que a Wikipédia já não explica nada de forma simples e objetiva.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Cassandra

https://www.britannica.com/topic/Cassandra-Greek-mythology

 

 

​O olho da sabedoria

O deus máximo da mitologia nórdica é Odin, e ele é cego de um olho.

Como Odin perdeu o olho?

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Odin sempre buscou obsessivamente a sabedoria.

Nesta busca, ele chegou ao poço de Mimir, aos pés da árvore da vida YggDrasil. Lá vivia Mimir, um ser que tinha todo o conhecimento do cosmos, conseguido devido à água do poço.

Odin pediu para beber a água do poço da sabedoria. Mimir respondeu que havia um preço extremamente alto a ser pago.

“Qual o preço?”, perguntou Odin.

“Um de seus olhos”, disse Mimir.

Odin não hesitou. Arrancou um de seus olhos, sem se importar com a dor, e bebeu a água da fonte da sabedoria…

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Como conseguir o olho da sabedoria?

A sabedoria vem somente após muitos sacrifícios.

O mundo real não existe, existem interpretações do mesmo.

Quem enxerga o mundo com o olho da sabedoria enxerga muito além do que os olhos podem alcançar.

Com o olho da sabedoria vemos as linhas do código-fonte que formam a matrix de nosso mundo.

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Odin pelo mestre Jack Kirby

Vemos cadeias de relações causa-efeito a níveis profundos.

Vemos o presente, entendemos o passado e projetamos o futuro.

Vemos que há situações que não conseguirmos prever, para os quais é bom ter precauções, como seguros e opções.

Compreendemos o que as pessoas realmente pensam e o que querem.

Vemos o mundo em nível global e a longo prazo.

Qualquer um de nós pode conseguir o olho da sabedoria, mas o preço é extremamente alto. É necessário muito mais do que o sacrifício de um olho. É necessário o sacrifício de sua vida.

Obter sabedoria significa uma busca incessante por novos conhecimentos: inúmeras horas estudando, lendo, procurando boas fontes de inovação.

Obter sabedoria significa trabalhar eternamente para gerar valor no mundo real.

Obter sabedoria envolve inumeráveis tentativas e erros, empreender, ser bem-sucedido e falhar, cair e levantar, reconhecer erros, pedir desculpas e evoluir.

Odin perdeu um olho físico, mas ganhou um olho metafísico.

Com tal olho, ele enxergava mais do que qualquer outra criatura da face da Terra.

Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei.

Trilha sonora: assim falou Zaratustra, Richard Strauss


Fontes:

O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Orfeu, Tom, Vinícius e Obama

 

 

Sem o mito de Orfeu, talvez o mundo nunca conhecesse a dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes e nem o ex-presidente Barack Obama…


 

Orfeu e as sereias

Orfeu é considerado o maior músico da mitologia grega. Orfeu era filho de um rei grego e de Calíope, uma das 9 musas – cada musa representa a inspiração para um dom: poesia, história, dança, comédia, etc. Calíope era a musa da poesia épica – por exemplo, como a Ilíada e a Odisseia.

Era como se Orfeu fosse um super-herói, sendo a música o seu superpoder. O poder da música era utilizado para acalmar feras e trazer a alegria aos corações humanos.

O primeiro mito de Orfeu é a sua participação na Argonáutica. Um princípe chamado Jasão reuniu um grupo de heróis para uma missão impossível, recuperar o tosão de ouro. Um tosão é tipo o couro de um carneiro, mas era um carneiro todo especial, com pelos de ouro, que daria poderes a quem o possuísse.

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Jasão contou com o apoio de Argo, que construiu o navio que leva o seu nome – Argonautas. Além disso, ele reuniu um monte de figuras importantes da mitologia grega: Castor e Pólux (a constelação de gêmeos é em homenagem a eles), Hércules, Atalanta (a única mulher), Laertes (o pai de Ulisses, da Odisseia). Orfeu foi chamado para se juntar ao grupo, primeiro porque a música era importante para ajudar a suportar uma longa jornada de meses no mar, e segundo porque sem Orfeu eles não conseguiriam passar pelas sereias.

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As sereias são as mesmas sereias da Odisseia, cujo canto enfeitiça os marinheiros e os levam à ruína. Para os Argonautas passarem por elas, Orfeu cantou uma canção mais bonita e em voz mais alta que a das sereias, desta forma evitando que os colegas fossem enfeitiçados.


Orfeu e Eurídice no inferno

Este é o mito mais conhecido de Orfeu.

No dia de seu casamento com Eurídice, ocorreu uma tragédia. Um sátiro completamente bêbado ficou encantado com a beleza de Eurídice e passou a persegui-la. Ela fugiu, mas acabou sendo picada por uma cobra e morreu pouco tempo depois.

Desolado numa tristeza sem fim, Orfeu passou vários dias tocando músicas melancólicas, até que decidiu descer ao Inferno para buscar a sua amada.

Orfeu passou pelos portões do mundo subterrâneo, deu uma moeda a Caronte para atravessar o rio Styx, passou pelo cão Cérbero e finalmente chegou à presença de Hades, o senhor do Inferno, e sua esposa, Perséfone. Então, no centro do Inferno, Orfeu cantou a música mais bela e mais triste que todos ali jamais tinham ouvido.

A música de Orfeu conseguiu tocar Hades, que em troca, permitiu que Eurídice retornasse ao mundo dos vivos. Mas com uma condição: que Orfeu não olhasse para trás, até que ambos estivessem de volta ao mundo terrestre.

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Orfeu fez toda a jornada de volta, com Eurídice seguindo-o em completo silêncio. Porém, ele cometeu o erro de olhar para trás logo após voltar ao mundo – a condição era de que ambos estivessem de volta, não apenas ele. Desta forma, ele perdeu Eurídice de novo, desta vez para sempre.

 


Orfeu da Conceição

Desde meados de 1940, o grande poeta e diplomata Vinícius de Moraes queria fazer uma peça inspirada no herói grego Orfeu, mas ambientado nas favelas cariocas e com os negros brasileiros.

Orfeu Negro, 1959

O site http://www.viniciusdemoraes.com.br tem algumas explicações sobre a motivação:

Suas incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos e trágicos dos tempos míticos.

Nesse mesmo ano, Vinícius estava passando alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba. Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato.

 

Para ajudar na parte musical do projeto de “Orfeu da Conceição”, o músico Ronaldo Bôscoli apresentou a Vinícius aquele que seria o seu maior parceiro, Tom Jobim, formando a maior dupla musical de todos os tempos.

Tom Jobim teria ouvido a proposta da peça, mas a sua pergunta de verdade era outra: “Tem um dinheirinho nisso aí?”

Vinícius e Tom fizeram as músicas do espetáculo, que estreiou em 1956.

A peça virou um filme, Orfeu Negro, dirigido pelo francês Marcel Camus, que estreiou em 1959. Este filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, mas representando a França, não o Brasil, já que toda a viabilização do filme foi por parte dos franceses, embora a filmagem e os atores fossem brasileiros.

 

O filme narra a história de Orfeu, um condutor de bonde, negro, que conhece Eurídice, uma negra vinda do sertão para viver no Rio de Janeiro. O enredo acontece no carnaval carioca, por isso, um clima com muita força, muita energia. O roteiro é inspirado no conto grego: Eurídice é perseguida por um homem estranho e morre por conta disso, Orfeu desce escadarias ao mundo inferior, canta num ritual de macumba, mas acaba não conseguindo resgatar Eurídice e ele mesmo morre no final…

 

 

 

Ninguém melhor do que o maior músico do mundo antigo, Orfeu, para unir os maiores sambistas do Brasil branco, negro, mulato, lindo como a pele macia de Oxum. Saravá, como diria o poetinha Vinícius de Moraes.


Orfeu Negro e Obama

O pai do ex-presidente Barack Obama é queniano, mas a mãe é americana, e branca.

A mãe de Obama tinha um fascínio por negros, e o filme “Orfeu Negro” era o filme favorito dela.

“Uma noite, enquanto folheava o jornal Village Voice, os olhos da minha mãe se iluminaram ao ver a propaganda de um filme, ‘Orfeu Negro’, que estava sendo exibido no centro. Minha mãe insistiu para que fossemos naquela noite; ela disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu”, conta Obama, antes de lembrar as palavras da mãe: “’Eu tinha apenas 16 anos. Foi a primeira vez que fiz algo totalmente sozinha. Senti-me tão adulta. Quando vi o filme, achei que era a coisa mais bonita que já tinha visto’, ela nos contou enquanto entrávamos no elevador.”

Mas Ann não conseguiu transmitir seu entusiasmo ao filho. “Os brasileiros negros e mulatos cantavam e dançavam e tocavam violão como aves livres de plumagem colorida. Na metade do filme, decidi que havia visto o suficiente e virei para minha mãe para ver se ela estava pronta para ir embora. Mas seu rosto estava vidrado na tela. Naquele momento, senti-me como se tivesse olhado por uma janela para seu coração, o coração de sua juventude. Percebi que o retrato de negros infantilizados que eu via, o reverso da imagem dos selvagens do (escritor britânico Joseph) Conrad, foi o que minha mãe carregou com ela até o Havaí anos atrás, um reflexo da fantasia simplista que havia sido proibida para uma garota branca, de classe média do Kansas, a promessa de uma outra vida: quente, sensual, exótica, diferente.”

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

 

 

Este é o poder da música, acalmar feras, fugir do canto da sereia, forjar parcerias memoráveis e mudar o destino das pessoas.

 


Bônus: Valsa de Eurídice

 

Monólogo de Orfeu


 

Links

http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

https://jornalggn.com.br/noticia/tom-jobim-vinicius-de-moraes-e-orfeu-da-conceicao-por-jota-a-botelho

https://www.google.com.br/search?q=orpheus+eurydice&client=ubuntu&hs=o9g&channel=fs&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjG-Iyth97YAhXHi5AKHXoyAGIQ_AUICigB&biw=1252&bih=617#imgrc=yOBlnwCJ_SxR2M:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​Prometeu e Epimeteu

Nesta virada de ano, nada mais adequado que a história da criação do homem segundo a mitologia grega. Começa com Prometeu e Epimeteu, irmãos, e titãs, raça de seres que antecederam os deuses do Olimpo.

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O primeiro tem o dom da antevisão, e o segundo, o dom da visão retrospectiva. Um olha para o futuro, e o outro, para o passado. O primeiro, muito sábio, inteligente e zeloso, o segundo, afobado, inconsequente, incauto.

Os deuses deram aos irmãos a tarefa de criar os seres vivos da Terra.

Prometeu (o que olha para o futuro) criou os seres vivos com muito cuidado a partir de argila, e a deusa Atena deu o sopro de vida a estes.

Epimeteu (o que olha para o passado) ficou com a responsabilidade de conceder um dom específico a cada animal.

Os animais pegaram a senha, ficaram numa fila, e Epimeteu foi distribuindo as habilidades: garras, velocidade, casca dura, poder de voar, etc.

O ser humano foi o último da fila, e quando chegou a sua vez, o atrapalhado Epimeteu já tinha distribuído todas as habilidades que ele tinha em mãos. Assim, o ser humano não tem garras afiadas, dentes esmagadores, velocidade arrasadora, veneno, nem nada especial.

Prometeu apiedou-se deste indefeso ser, e deu um jeito de fornecer alguma habilidade. Tornou-os eretos como os deuses. E, além disso, roubou o fogo dos deuses para dar aos homens.

O fogo permitiu que os humanos se protegessem do frio, forjassem armas, cozinhassem alimentos, ajudando a sua evolução de um macaco desajeitado a um grande caçador coletor, depois um grande agricultor.

Os deuses enfureceram-se com Prometeu. Ele foi acorrentado a uma rocha, e condenado a ter o seu fígado devorado por uma águia, todos os dias. Durante a noite, o fígado crescia, para ser devorado novamente no dia seguinte.

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O homem também sofreu a vingança de Zeus. Este criou uma bela criatura, chamada Pandora, a primeira mulher, e enviou-a a Epitemeu. Pandora tinha um espírito enganador, uma língua afiada e muita curiosidade. Epimeteu tinha sido avisado pelo precavido Prometeu a não aceitar presente algum de Zeus. Mas Pandora era de tal beleza, uma coisa tão linda, tão cheia de graça, num doce balanço a caminho do mar, que foi impossível o incauto Epimeteu resistir.

Junto com Pandora, veio uma caixa, que tinha somente uma instrução clara: não abrir. Porém, um dia, a curiosidade de Pandora foi tanta, que ela abriu a caixa, e espalhou todas as doenças por este planeta. Depois que todas as doenças se espalharam, ela viu que tinha ficado alguma coisa no fundo da caixa: a Esperança.

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O nosso benfeitor Prometeu se safou, depois de um tempo. O herói Hércules matou a águia e o libertou, numa pausa dos seus 12 trabalhos. Tendo o dom de antever o futuro, Prometeu sabia que sofreria consequências, mas também sabia que dar o fogo aos homens era a coisa certa a ser feita, e que ele mesmo se safaria no final.

E, mais do que o fogo, Prometeu deu aos homens o dom da antevisão. Todos os animais conseguem olhar apenas para o presente e o passado, como Epimeteu: juntar alimentos, sobreviver hoje e agora. Somente o ser humano tem o dom de olhar para o futuro, prever e planejar o amanhã a partir do momento presente. Este é o verdadeiro legado de Prometeu.

Veja também: o Deus Janos.

Sobre mitologia em geral, gosto muito dos livros do Rogen Lancelyn Green. Ele escreve muito bem, de forma simples. Tem de mitologia grega, nórdica, egípcia, etc.

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Links

http://www.uexpress.com/tell-me-a-story/2011/3/6/prometheus-and-epimetheus-a-greek-myth

https://www.greekmythology.com/Myths/The_Myths/Creation_of_Man_by_Prometheus/creation_of_man_by_prometheus.html

A previsão do tempo que salvou o Dia-D

Resumo: a previsão do tempo possibilitou o desembarque aliado na Normandia, no Dia D – o evento que efetivamente virou o jogo na Segunda Grande Guerra. E se a previsão estivesse errada?

A não-linearidade do clima

A história, tanto quanto a vida, é marcada por diversos eventos não-lineares, que poderiam nunca ter ocorrido, e que poderiam ter mudado o mundo da forma como o conhecemos.

Por melhor que seja o planejamento, há eventos fortuitos que fogem completamente ao domínio de conhecimento de qualquer pessoa. Dentre todos os elementos desconhecidos, um dos mais importantes é o clima. Ele pode afetar desde o passeio no fim de semana, até o desembarque de 150 mil soldados e o destino da humanidade, no Dia D.

A importância do clima é tão grande, e conhecida desde tão antigamente quanto a Arte da Guerra, de Sun Tzu:

A arte da guerra é governada por cinco fatores:
– a Lei Moral
– o Céu
– a Terra
– o Comandante
– Método e disciplina

Onde o Céu significa a noite e o dia, o frio e o calor, o tempo e as estações.

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A fim de avaliar as chances de cada lado, Sun Tzu pergunta: Com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Zhuge Liang Kongming

Embora Sun Tzu seja muito famoso no ocidente, há outro estrategista chinês que o coloca no chinelo: Zhuge Liang Kongming, da época dos Três Reinos.

Conta-se que ele tinha um conhecimento profundo do clima e da topografia.

Numa das guerras contra um reino vizinho, ele ficou meses articulando a posição de suas tropas e navios de guerra, a fim de encurralar o inimigo e utilizar fogo para destruir de vez a oposição.

O comandante inimigo nem deu bola para o posicionamento de Kongming, porque todos sabiam, desde sempre, que o vento soprava contra o exército do nosso estrategista. Se Kongming quisesse utilizar o fogo, com certeza ele mesmo se queimaria.

Depois de muita preparação, Kongming mobilizou suas tropas e as de seus aliados, para o ataque final. Toda a sua estratégia dependia do fogo – e do vento. Mas o vento soprava contra ele na véspera do ataque. Os aliados queriam desistir do ataque, mas Kongming insistiu para que fossem em frente – e prometeu a sua cabeça, caso desse tudo errado.

Pois bem, exatamente no dia do ataque, o vento virou de direção, agora soprava contra o inimigo. Kongming e aliados utilizaram a fúria do fogo, devastaram o inimigo e saíram vitoriosos.

Diz a lenda que o vento não virou por acaso. Kongming tinha lido em tomos antigos de conhecimento esquecido que o vento, no local do ataque, virava de direção um dia por ano, exatamente no dia do ataque programado!

Se a lenda de Zhuge Liang parece muito fantasiosa, vejamos o que ocorreu no desembarque na Normandia.


O Dia-D

O Dia-D é o dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocorrido em 06 de junho de 1944. É um dos eventos-chave da Segunda Grande Guerra. É a maior operação anfíbia da história da humanidade, e uma das operações mais complexas da mesma.

Resumindo uma longa história. Em meados de 1944, a Alemanha de Hitler sofreu derrotas devastadoras em seu fronte russo e africano. Os aliados italianos sofriam derrota após derrota. A expansão nazista tinha chegado ao fim, a partir de agora, eles estavam na defensiva – o que não os tornava menos perigosos.

Entretanto, todos esses teatros de guerra eram muito distantes do núcleo do poder alemão. Era necessário atacar realmente o centro do poder por outra frente, propiciando um ataque direto, encurralando os alemães.

Em 1944, todos sabiam que haveria um desembarque anglo-americano na Europa. Só não sabiam onde, e nem quando. Sobre a questão do “onde”, as duas opções eram Normandia ou Calais – locais com amplas praias para espalhar as tropas e não serem alvo fácil, próximos a portos importantes para garantir o ressuprimento, mares calmos o suficiente para facilitar o desembarque.

A Normandia foi o local escolhido, após longas análises e muita guerra de informação e desinformação, com direito a tanques de papelão, mensagens falsas, tropas fake, etc…

Sobre o “quando”: era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens – imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

O Gen. Eisenhower, responsável pela Operação Overlord, fez longos meses de planejamento, imaginando cada detalhe da invasão, cada passo a ser tomado. Ele definiu junto aos seus pares que a invasão seria no dia 5 de junho de 1944. Mas havia algo impossível de prever: o clima, o mesmo clima citado por Sun Tzu, o mesmo clima que virou o jogo para Kongming.

A mobilização para o Dia-D foi monstruosa. Mais de 2000 navios de guerra, cerca de 150 mil soldados, tropas americanas, canadenses, britânicas – uma logística de outro mundo.

Entretanto, o tempo literalmente fechou para os aliados. Uma tempestade se aproximava – ventos fortes, pouca visibilidade. Eisenhower mandou as tropas esperarem. E agora, a responsabilidade do sucesso da invasão caía sobre os ombros de um homem, o Capitão James Stagg, o meteorologista-chefe dos americanos. E a resposta dele era que era impossível fazer a previsão, naquelas condições – teria que esperar.

O que fazer? Cancelar o Dia D?

A próxima janela de tempo com todas as características necessárias só se daria dali a duas semanas. Mas desmobilizar e mobilizar novamente todas as tropas seria um completo pesadelo logístico. Além disso, seria impossível guardar segredo após a movimentação de tanta gente, eles perderiam o elemento surpresa e a guerra de desinformação. E pior, se chovesse dali a duas semanas, talvez a próxima oportunidade tivesse que esperar mais vários meses. Daria tempo suficiente para a Alemanha se defender da Rússia, da ofensiva pelo Sul e de todas as ameaças.

No dia seguinte, o meteorologista Stagg bateu no peito, e garantiu que a tempestade tinha dado uma trégua. Haveria uma brecha de pouquíssimo tempo – um dia, no máximo dois dias. Vários dos comandantes acharam muito arriscado, mesmo assim, e pediram para adiar o desembarque na Normandia. Mas Eisenhower apostou alto, colocou todas as fichas em sua versão de Kongming, e ordenou o ataque para o dia 06 de junho de 1944.

A partir daí, é história: o Dia D foi uma das operações mais bem sucedidas da humanidade, e selou o destino da Alemanha de Hitler.

Outro fato que ajudou no sucesso da operação. Os nazistas estavam muito tranquilos de que não haveria invasão alguma, porque a previsão do tempo apontava chuva forte. Mesmo após o desembarque, eles custaram a acreditar que esta fosse a operação real, e não uma isca para confundí-los.

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O que aconteceria se o tempo fosse contra?

Imagine se o meteorologista Stagg estivesse errado, e uma tempestade varresse a costa francesa?

Os aliados perderiam todo o apoio aéreo – a navegação aérea era totalmente visual naquela época. A navegação seria terrivelmente prejudicada. Mesmo se as tropas desembarcassem, a mobilidade dos equipamentos seria bastante prejudicada naquele momento crucial da invasão. Certamente, as perdas seriam estrondosamente maiores, senão catastróficas.

Não seria a primeira vez na história que uma tempestade acaba com uma invasão.
Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China no séc. XIII. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. Diz a lenda que uma tempestade destruiu os seus navios. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico sino-mongol.

Kublai dobrou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17000 marinheiros, 25000 soldados coreanos, mongóis e chineses… e, novamente, uma tempestade protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Os ventos que protegeram o Japão foram os ventos (kaze) dos deuses (kami), dando origem ao termo “kamikaze”.

Citando novamente Sun Tzu: com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Epílogo

Não por acaso, o mais poderoso deus da mitologia grega, Zeus, é o deus da chuva e do trovão.

Também não por acaso, os mais poderosos deuses da mitologia nórdica, Odin, e seu filho Thor, também são deuses do trovão.

Antigamente, os guerreiros oravam aos deuses para conseguir as vantagens dos céus.

Os deuses sorriram para os aliados, no derradeiro Dia-D, o desembarque na Normandia.


Links:

https://www.audible.com/pd/History/World-War-II-A-Military-and-Social-History-Audiobook/B00DJ8ILIS

Ver no Medium.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Normandy_landings

Normandy Landings 2017: What the D in ‘D-Day’ actually means

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan

https://www.huffingtonpost.com/2014/06/06/70th-anniversary-dday-photos_n_5445367.html

As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.

Bahamut

Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.

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Atlas

A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.

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Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás

Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”