BibliOn, os Lusíadas e os deuses romanos

Estou testando o BibliOn, a biblioteca virtual de São Paulo, lançada há poucas semanas. Confira em https://www.biblion.org.br/.

É um aplicativo de celular que permite o empréstimo de e-books e audiobooks, após um cadastro. Podemos pegar emprestado um número finito de títulos por vez (dois, no momento), e ficar com este por 15 dias, após a qual, é devolvido automaticamente. Dá para pegar emprestado de novo, porém, respeitando uma fila – se outras pessoas já tiverem reservado, a prioridade é delas – como se fosse numa biblioteca com livros físicos.

É gratuito, afinal é uma biblioteca pública. Teoricamente é só para os moradores do estado de São Paulo. Não sei como ele faz essa verificação do local – talvez por IP? De qualquer forma, como moro em SP mesmo, estou dentro da norma.

Tem uma gama interessante de títulos, e em Português. Segundo o site, 15 mil livros. Em livro virtual, peguei “O fantástico mundo dos números”, de Ian Stewart, de matemática popular.

Sobre audiolivros, as opções são menores, uns 400 títulos. Peguei “Os Lusíadas – versão anotada”, como teste. O app funciona bem, está sendo uma boa experiência.

Tinha uma vaga lembrança dos Lusíadas. Estudei no segundo grau, e em época de vestibular. Como a gente é muito jovem nessa época, não tinha percebido alguns detalhes da obra, que quero explorar a seguir.

(Print da tela do app)

Algumas reflexões sobre os Lusíadas

“Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, é o épico português mais conhecido da história. Cheio de elementos míticos, como Dom Sebastião e o gigante Adamastor, canta sobre o desbravamento dos mares por Vasco da Gama e os bravos portugueses, o povo lusitano.

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Camões viveu por volta de 1500 e pouco, que também coincide com o momento da glória portuguesa nas grandes navegações.

Logo no início dos cantos, Camões cita um conselho de deuses do Olimpo, entre eles Júpiter, Vênus, Marte, Baco. Vênus toma partido dos portugueses, Baco, defensor do oriente, o oposto.

Ei, peraí. No ano 1500, a Europa toda é cristã. Ou muçulmana, no Oriente Médio. Esse negócio de deuses gregos e romanos já tinha acabado faz muito tempo. O imperador Constantino converteu o Império Romano ao cristianismo no ano 313 d.C. Ou seja, fazia mais de mil anos que ninguém dava bola para Júpiter, Netuno, Baco.

Mais uns capítulos para frente na obra, Camões cita que os portugueses foram recebidos em Moçambique pelos mouros. Apesar de cristãos, foram confundidos por muçulmanos até Baco induzir os nativos a descobrir a fé deles e os hostilizar.

Que salada. Mistura cristãos, muçulmanos, e a antiga fé pagã, greco-romana. Por que Camões faria isso?

Uma interpretação bastante utilizada é que Camões vivia o Renascimento na Europa, onde estava na moda resgatar os antigos valores clássicos greco-romanos. Além disso, os Lusíadas foi fortemente influenciado pelos antigos clássicos homéricos. Na Ilíada, alguns dos deuses, como Atena, ficam do lado dos gregos, outros como Ares tomam o partido dos troianos. Na Odisseia, que também é um épico de viagem marítima, a deusa Atena ajuda Ulisses, ao passo que Posseidon quer se vingar do herói, por ele ter cegado seu filho – o Cíclope.

A diferença é que, na época em que a Ilíada e Odisseia ocorreram (estima-se uns 700 a.C.), os deuses citados eram realmente deuses das crenças dos gregos, enquanto religiões como o cristianismo nem existiam.

Em resumo, imagine que os Lusíadas é um épico como a Ilíada, mas com portugueses como protagonistas e 2000 anos depois, e está tudo certo.

A história de Portugal e Inês de Castro

O canto prossegue, cantando sobre a história gloriosa de Portugal: reis antigos, feitos que ficaram na história, etc.

Achei muito interessante a história de Inês de Castro, que mistura romance, traição, horror e morte. Lembrava de ter vagamente ouvido sobre isso na época do vestibular, mas não dos detalhes.

O infante Pedro I era o princípe herdeiro de Portugal, e estava casado com Dona Constança. A Inês de Castro era de uma família nobre, e era dama de honra de Dona Constança. Só que Pedro gostava mesmo era da Inês, ao invés de sua esposa oficial, e todo mundo sabia que ele se encontrava com ela às escondidas.

Quando a esposa oficial, D. Constança, faleceu no parto do futuro rei D. Fernando I, o infante Pedro aproveitou a chance para se juntar com Inês de Castro, para desgosto do pai de Pedro, Dom Afonso IV, que não gostava da relação.

D. Afonso tentou casar Pedro, que rejeitava as propostas, enquanto Inês continuava a gerar filhos de Pedro (foram 4). Isso criava um problema futuro de sucessão – será que os filhos bastardos não poderiam tentar usurpar o trono do herdeiro oficial, no futuro? Game of Thrones total.

O rei D. Afonso tentou remediar a situação executando Inês de Castro, numa ocasião em que Pedro estava em viagem.

Obviamente, Pedro não gostou nada, e foram meses de conflito até tudo voltar mais ou menos à normalidade.

Alguns anos depois, em 1357, Pedro se tornou rei de Portugal. A primeira coisa que fez foi perseguir quem ajudou a executar sua amada Inês – mandou arrancar o coração dos algozes, enquanto ele assistia. Depois, mandou exumar o corpo de Inês, a vestiu como a sua rainha e fez o rito completo de coroação dela. Imagine uma grande festa, com um cadáver sentado na cadeira ao lado do rei, e com os convidados tendo que beijar a mão da rainha já falecida há anos. Daria um bom filme na Netflix.

Até hoje, utilizamos a expressão “agora Inês é morta”, para indicar que já foi, não adianta mais.

Os Lusíadas é o mais conhecido poema da literatura portuguesa, uma obra fantástica para ler e extremamente bela e inspiradora. Vale a pena ler e reler.

“Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.”

BibliOn: https://www.biblion.org.br/

O texto integral pode ser baixado em:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000162.pdf

Veja também:

http://www.dominiopublico.gov.br

https://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro

https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Lus%C3%ADadas

A sedutora Deusa da Fortuna

Muito interessante a discussão de Virtù e Fortuna, a partir da obra de Nicolau Maquiavel (1469-1527).

“Fortuna”, no sentido de sorte, destino. A ideia vem da deusa romana da sorte, a Deusa da Fortuna.

E “Virtù”, está mais para habilidade, ações a fazer, não como a virtude que conhecemos. Envolve habilidade e trabalho no sentido bom do termo, mas, também tem um outro lado. A moral de Maquiavel é comumente resumida pela frase “Os fins justificam os meios”, e a “Virtù” pode até envolver atos desagradáveis como usar a força para conter uma ameaça ao Príncipe (lembre-se de que Maquiavel escrevia olhando o ponto de vista do poder). Para o resto do texto, vamos nos ater ao lado bom da Virtù.

A seguir, Maquiavel acrescenta que dependemos de 50% da Fortuna e 50% da Virtù. A Virtù é aquilo que podemos fazer a partir de nossa própria capacidade, e Fortuna engloba tudo o que está além de nosso controle.

Seria como numa partida de poker, a Fortuna seriam as cartas que recebemos neste jogo da vida, e a Virtù a capacidade de usar as cartas que temos na mão da melhor forma possível.

Às vezes, alguém pode fazer tudo errado, mas com o sorriso da Deusa da Fortuna, ainda assim alcançar resultado interessante. E, vice-versa, alguém pode fazer exatamente tudo certo, mas ficar sem receber o beijo da Deusa da Fortuna. É como num jogo de probabilidades.

Essa discussão também lembra, de certa forma, a noção de “Burro esforçado” e de “Gênio preguiçoso”. Devido à minha formação, acabei encontrando ambos os casos ao longo da minha vida. E, posso dizer, que já vi muitos burros esforçados superando gênios preguiçosos, a longo prazo. O melhor dos mundos é ter boas cartas vindas da Fortuna, e além disso, ser alguém extremamente estudioso e batalhador.

De qualquer forma, não temos acesso à poderosa Deusa da Fortuna. As cartas já estão dadas e não cabe lamentar o que está fora do nosso controle. A parte que nos cabe é apenas a Virtù. O que vejo é que, com trabalho duro, a longo prazo, e com juros compostos a favor, aumentam as probabilidades de seduzir a bela Deusa da Fortuna.

Alguns links:

Trilha sonora:
Soldiers of Fortune – Deep Purple

O livro “Thinking in Bets”, de Annie Duke, tem temática semelhante.
https://amzn.to/3wG3YVC

O que é o efeito Urashima Taro?

A história de Urashima Taro é um dos contos populares mais famosos do Japão. É uma história para crianças, contada e recontada, de geração em geração, por mais de mil anos segundo a Wikipedia*.

Urashima Taro é um garoto, um pescador, que estava voltando para casa após um dia de pesca.

No caminho, ele notou um grupo de moleques, judiando de uma tartaruga gigante. Após algumas tentativas mal sucedidas de impedir o bulling, eles chegaram num acordo: Urashima Taro deu os peixes que ele havia pescado para os moleques, e estes foram embora.

Agradecida, a tartaruga voltou para o mar.

Alguns dias depois, quando Urashima estava pescando no mar, ele reencontrou a mesma tartaruga.

A tartaruga disse: “A princesa do mar Otohime está extremamente agradecida com a sua ação. Venha visitar o Castelo do Dragão, no fundo do mar, para que possamos retribuir”.

A tartaruga deu uma pílula para que o rapaz pudesse respirar dentro da água e o levou até o Castelo do Dragão.

A princesa Otohime e as suas belas serviçais receberam Urashima com muita pompa: ofereceram os melhores banquetes, mostraram os melhores lugares do reino submarino.

A vida de sonho do garoto estava tão boa que ele acabou ficando um ano como hóspede da princesa Otohime, no Castelo do Dragão.

Um dia, porém, ele ficou com saudades de casa e decidiu retornar. A princesa deu-lhe uma caixa de madeira com adornos de ouro, falou que a caixa o protegeria, e para ele nunca abrir.

Urashima retornou para a superfície terrestre, mas tudo estava estranho demais. As casas da vila tinham mudado, ele não encontrava mais ninguém que conhecia. A sua antiga casa já nem existia. Desesperado, ele questionou os moradores sobre o que estava acontecendo, até descobrir que mais de 100 anos tinham se passado!

Após chegar à conclusão de que 1 ano no fundo do mar tinham lhe custado 100 anos de vida, ele se lembrou da bela caixa dada pela princesa, que não era para abrir. É claro, ele abriu a caixa, da onde saiu uma fumaça branca e… puf, Urashima Taro não era mais um garoto, agora ele tinha se transformado num idoso de mais de 100 anos.

Videozinho sobre o conto:
https://www.youtube.com/watch?v=9pGT-CdThQ4

Moral da história?

Uma das primeiras perguntas que surgem é “Qual a moral da história?”

O rapaz foi recompensado por ser bom com a tartaruga, mas depois castigado por ter aproveitado a recompensa?

Na minha opinião, o problema está na pergunta. Na nossa cabeça ocidental, histórias para crianças devem ter uma “moral da história”, a julgar por fábulas de Esopo e contos do tipo. Contudo, nem todas as culturas são iguais à que temos. Para mim, o conto de Urashima Taro não tem uma “moral da história”. É um conto, cheio de imaginação, só isso, sem lição de moral.

Talvez seja na verdade uma lição de física moderna, não de moral, o que leva ao tópico seguinte.

A Teoria da Relatividade

Um dos resultados mais interessantes da Teoria da Relatividade de Einstein é o “Paradoxo dos gêmeos”. Um dos gêmeos fica na Terra, enquanto outro viaja num espaçonave, a uma velocidade próxima à da luz.

Relembrando um pouco da teoria, a velocidade da luz é constante para todos os observadores, enquanto o tempo e o espaço se curvam. No caso dos gêmeos, o tempo passa de forma diferente para ambos.

O efeito final é o seguinte: quando o gêmeo astronauta retorna para casa com quase a mesma idade da partida, o seu irmão terrestre já vai ser idoso, digamos 100 anos a mais!

Essa teoria, apesar de parecer nada intuitiva, já foi comprovada inúmeras vezes. Uma forma de comprovar é com relógios atômicos. Um fica em terra, o outro embarca num avião por algumas horas. Quando são colocados novamente um do lado do outro, o que ficou em terra vai indicar mais tempo do que o seu par que viajou em velocidade maior.

O filme “Interstellar” mostra esse efeito também. O protagonista encara as proximidades de um buraco negro, e quando retorna ao lar, a sua filha já é uma idosa, enquanto ele ainda é jovial.

Será que o Castelo do Dragão viaja na velocidade da luz? Ou o mesmo é um buraco negro? Acho que não, quando o conto foi criado, há mil anos, a teoria nem existia.

O Efeito Urashima Taro

Um último tópico.

Sabe a história da caixa dourada, com uma fumaça que envelhece a pessoa? Podemos usar a analogia, o “Efeito Urashima Taro”, para descrever algo que envelheça as pessoas a um ritmo acelerado.

Os últimos dois anos, de pandemia, incertezas e problemas em geral foram um “Efeito Urashima Taro” para muita gente.

Mas isso só acontece se abrirmos a caixa de preocupações. Se a deixarmos lá, quietinha, pouco seremos afetados!

Veja também:

*https://en.wikipedia.org/wiki/Urashima_Tar%C5%8D

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com

Loja e Recomendações:

Teseu e o labirinto do Minotauro

Segue um presente de dia das crianças: um gerador de labirintos em Excel.

A minha filha do meio adora labirintos, mas os labirintos da banca de jornais são ou muito fáceis ou muito difíceis.

Com o gerador de labirintos, é possível criar no tamanho desejado:

O algoritmo utilizado é simples. Comece com um retângulo, escolha uma linha horizontal, uma vertical aleatórias, e crie duas saídas também aleatórias.

Repita nos quatro retângulos que sobraram, e assim sucessivamente.

O resto da macro é só para pintar as bordas.

Boa diversão!

Planilha para download: https://1drv.ms/x/s!Aumr1P3FaK7jn06fAdaS-_v1O6RB

Veja também:

https://ferramentasexcelvba.wordpress.com

O Anel do Nibelungo

Forte recomendação de leitura fantástica: O Anel do Nibelungo, adaptação em quadrinhos pelo aclamado P. Craig Russell.

Link da Amazon: https://amzn.to/3dPRWik

É uma obra colossal, com quase 500 páginas, papel especial, capa dura, deve ter quase 1 kg de peso (recomendo a versão em papel, muito mais legal que em qualquer outra tela).

Russell é seguramente um dos maiores desenhistas do mundo atual. Seus trabalhos em Sandman estão entre as mais belas já obras vistas no gênero.

Pelo tema ser denso e extenso, vale uma introdução.

Tenho uma longa história de admiração pela lenda do Anel do Nibelungo.

A primeira vez que tive contato com o tema foi com a “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, utilizada no clássico filme “Apocalyse Now”, de Francis Ford Coppola. No clipe, um grupo de helicópteros americanos leva terror e aniquilação total à vilas vietnamitas. Arautos da morte: metralhadoras, bombas, destruição, sob a trilha sonora poderosa de Wagner, um encaixe audiovisual perfeito – vale a pena conferir:

A Valquíria é um dos capítulos da ópera “o Anel do Nibelungo” de Richard Wagner. Por sua vez, esta é uma coletânea de lendas nórdicas e germânicas antigas, compiladas numa narrativa completa por Wagner (é como se ele fosse um Homero em relação à Odisseia).

Wagner viveu há uns 150 anos atrás, e era contemporâneo do filósofo Friedrich Nietzsche – eram amigos, até a relação azedar e se tornarem inimigos. Pelas obras de ambos serem fortes, e germânicas, posteriormente ambas foram utilizadas pela propaganda nazista. Originalmente, não havia essa intenção, até porque eles viveram uma geração antes de Hitler.

A saga do anel tem quatro partes, e começa com “O ouro do Reno”.

Alberich, um anão horripilante, renuncia ao amor, rouba o ouro do Reno (em alusão ao rio Reno, na Alemanha), e forja um anel. Este dá poderes imensos ao possuidor.

Wotan e Loge enganam Alberich e conseguem tomar o anel, que é cedido a alguns gigantes do gelo.

A mitologia germânica tem muitos paralelos com a mitologia nórdica, do Thor.

Wotan, o pai de todos os deuses, é cego de um olho, cedido em troca de sabedoria – é claramente igual a Odin.

Loge, o traiçoeiro, é o paralelo de Loki. As deusas Freya e Friga também aparecem em ambas mitologias. O paralelo de Thor é Donner, mas ele é coadjuvante na história do anel.

Os personagens principais desta saga aparecem a seguir. A segunda parte é sobre a Valquíria, a terceira sobre o herói Siegfried, este sim o grande protagonista da história, após uma longa e tortuosa jornada. A quarta parte é o Crepúsculo dos Deuses, o fim de tudo (Não por acaso, há um livro de Nietzsche chamado o Crepúsculo dos Ídolos, onde ele detona a filosofia, o cristianismo, a moral e tudo mais que pode ser detonado).

Não só sou eu que sou fascinado por esses temas. Há alguns paralelos entre o Senhor dos Anéis e a obra de Wagner. Um anel que confere poder inimaginável ao dono, porém com uma maldição. Um anão disforme, obcecado pelo poder do anel. O autor J. R. R. Tolkien diz não ter se inspirado diretamente na obra, mas talvez tenha bebido da mesma fonte, as lendas nórdicas e germânicas originais.

Outra referência notável é o anel de Giges, presente nos diálogos de Platão. O possuidor do anel possuía o poder de se tornar invisível quando quisesse. Dessa forma, ele poderia cometer as maiores injustiças do mundo, sem ter punição (ao invés do anel, hoje em dia imagine estar no STF). Platão utilizou o conto para perguntar se há ser humano que manteria sua índole moral diante de poder infinito (a julgar pelo STF, difícil…).

Para fechar, é muito legal o making off da produção desta obra-prima. Craig Russell mostra o cuidado que teve ao fazer o trabalho. Um exemplo: ele tirou milhares de fotos de atores fazendo poses, a fim de retratar com fidelidade os desenhos. Outro exemplo: ele tinha desenho detalhado do cenário de fundo utilizado, sob vários ângulos.

Ator servindo de modelo para o desenho de Russell

É uma obra densa, épica, com arte sensacional. Um prato cheio para quem gosta do tema!


Sobre o escriba deste texto: Arnaldo Gunzi é completamente fascinado pela intersecção entre mitologia, história, cinema, filosofia e quadrinhos, como este post deve ter deixado claro!

Trilha sonora: A cavalgada das Valquírias – Richard Wagner
https://www.youtube.com/watch?v=7AlEvy0fJto

P.S. Menção honrosa à adaptação do Anel dos Nibelungos de Roy Thomas (desenhista do Conan), de 2003 – tenho ambos.

Veja também:

Por que o ano tem 12 meses?

À medida que as minhas filhas crescem, elas começam a fazer perguntas. Essa é uma boa oportunidade para captar aquelas perguntas básicas (porém difíceis) que os adultos deixam de fazer quando crescem.

(Série: perguntas que as crianças fazem)

Por que o ano tem 12 meses?

Imagine o mundo antigo, onde não existiam relógios. Como fazer para medir o tempo?

O primeiro ciclo é muito simples: sem falhar, o Sol nasce a Leste e se põe a Oeste, e chamamos tal ciclo de “dia”.

O segundo ciclo ocorre à noite: a Lua tem fases, e mais ou menos a cada 30 dias, as fases se repetem.

Um terceiro ciclo ocorre anualmente: as estações do ano, primavera, verão, outono, inverno.

Esses eram os “relógios” do mundo antigo. Embora não fosse possível medir com precisão as horas do dia, nem os dias dos meses, era evidente que o mundo passava por ciclos.

Na antiga Roma, o ano tinha 355 dias, divididos em 10 meses, mais ou menos baseado nas fases da lua.

Os meses do ano tinham nome de deuses (Janeiro – Janos, Fevereiro – Februária – um festival da época, Março – Marte). Mas, no meio da contagem, acabou a criatividade e passaram a dar número aos meses: setembro (sete), outubro (oito), novembro (nove), dezembro (dez).

Porém, 10 dias a menos no ano começava a causar problemas. Sabemos (hoje) que o ciclo da Terra ao redor do Sol tem 365 dias. Todo ano, o inverno começava 10 dias mais cedo – somando muitos anos, ninguém mais sabia direito quando começavam as estações.

Saber exatamente quando começam as estações do ano tem uma importância prática: a agricultura. Plantar no inverno não era uma boa ideia.

O imperador Júlio César, com a ajuda de seus matemáticos e astrônomos, resolveu colocar 10 dias a mais para arrumar o calendário.

De quebra, criou um mês a mais, Julho, a fim de gravar eternamente o seu nome na história, e fazer o mundo se lembrar dele a cada vez que olhasse o calendário pendurado na parede de casa.

Anos depois, o seu sucessor, César Augusto, não deixou por menos. Criou o seu próprio mês, Agosto – aliás, mudou o nome de “Sextilis” para “Agosto”. Ora, e se Julho tinha 31 dias, Agosto também deveria ter 31 dias, o umbigo de Augusto não era menor do que de Júlio.

Nas redistribuições de dias, sobrou para Fevereiro, que ficou com 28 dias…

Nota um pouco mais avançada: por que existem anos bissextos?

Porque o ciclo da Terra ao redor do Sol não é de 365 dias exatamente, e sim, de 365 dias, 5 horas, 48 minutos (e uns segundos, que vou ignorar aqui para facilitar a conta).

Ou seja, a cada ano, contabilizamos 5h 48min a menos. Para compensar, acrescentamos um dia a mais a cada 4 anos.

Porém, um dia tem 24 horas, e 5h 48min x 4 anos = 23,2h. Ou seja, com anos bissextos, colocamos 0,8 h a mais a cada 4 anos. Pode ser pouco, porém, ao acumular muitas décadas, o problema pode ficar grande no final.

Daí, a solução. A cada 100 anos, acumulamos um crédito de 0,8*100/4 = 20h. Então, se ignorarmos o ano bissexto a cada 100 anos (em 1800, 1900), teremos um déficit de 4h a cada 100 anos.

Ora, mas ainda temos um problema. 4h é muita coisa, ao acumular por centenas de anos.

Solução: a cada 400 anos, ignoramos o cancelamento do ano bissexto.

Em resumo: a cada 4 anos acrescentamos 1 dia a mais em fevereiro, exceto nos anos múltiplos de 100 que não são múltiplos de 400).

Ex. 1904, 2016, 2020, bissextos.

1900, 1800, 2100, não bissextos.

1600, 2000, 2400 bissextos.

Baita confusão. É uma conta de arredondamento: coloca 1 a cada 4 anos, não coloca 1 a cada 100 anos, coloca a cada 400 anos… Mesmo assim, não resolve o problema, talvez precisemos fazer outra reforma de calendário daqui a alguns milênios.

Esse tira-põe eterno ocorre porque a rotação da Terra ao redor de si mesma não é múltiplo da rotação da Terra ao redor do Sol.

Ou seja, apesar de nossos poderosos relógios atômicos atuais, ainda estamos presos aos ciclos da Terra e do Sol, como os romanos antigos.

Obs. Esta não é uma explicação científica, é um resumo didático para crianças.

Veja também:

Porque o verão começa no meio do verão? (ideiasesquecidas.com)

O Deus Janos (ideiasesquecidas.com)

Trilha sonora: Vivaldi – as quatro estações

(83) As quatro estações – Vivaldi – YouTube

Mitologia Nórdica

Mais algumas recomendações de leitura: Mitologia Nórdica, de Neil Gaiman, e várias histórias do Thor, de Walter Simonson.


  1. Mitologia Nórdica

Hoje em dia, temos os filmes da Marvel, porém, milênios antes de existirem telas de cinema e histórias em quadrinhos, os antigos povos escandinavos contavam histórias, ao redor de fogueiras, sobre as incríveis façanhas de Thor, o Deus do Trovão; Odin, o pai de todos os deuses; Loki, o traiçoeiro, e tantos outros.

As lendas nórdicas antigas são recontadas pelo maior tecedor de histórias da atualidade: Neil Gaiman, da série Sandman, também autor de Deuses Americanos, Stardust e Good Omens.

As histórias incluem:

  • Como o muro de Asgard foi construído? (Loki enganou um gigante do gelo para isso)
  • Por que o martelo de Thor tem um cabo tão curto? (também tem manipulação do Loki na história)
  • O casamento de Freya (a mais bela das asgardianas) com um gigante do gelo. Essa história é especialmente cômica, porque Thor se disfarça de Freya (a contragosto, plano de Loki, óbvio), e Loki vai passando a conversa no gigante até o dia do casamento.

O próprio Neil Gaiman narra trechos deste conto, em (71) Neil Gaiman reads “Freya’s Unusual Wedding” – YouTube.

  • Como Odin perdeu o seu olho?
  • A morte de Balder. O personagem Balder não aparece em nenhum dos filmes da Marvel, mas nos quadrinhos, sim, e eu gostava muito dele: um deus nobre, bastante querido por todos. Um deus diferente dos demais.
  • A história de Fenris, o terrível cão com poder de causar o Ragnarok. Na mitologia, Fenris é filho de Loki. Hela também é filha de Loki (só coisa ruim vem dele). O conto mostra como os deuses enganaram o cão, prendendo-o até o fim dos tempos (spoiler: um dos deuses teve que ceder o braço por isso). Fenris aparece em um dos filmes do Thor, porém o original da mitologia é infinitamente mais perigoso.

Gaiman sempre incorporou inúmeros elementos da mitologia nórdica (e também egípcia, grega, japonesa e de diversas outras culturas) em suas histórias. Este compilado de contos, apesar de não serem originais (afinal, são lendas de milênios), tem a pitada do gênio do autor: história bem narrada do início ao fim, linguagem contemporânea, com muito humor e drama.


2. Thor, de Walter Simonson

O meu contato com Mitologia Nórdica foi com os quadrinhos do Thor, da Marvel, nos anos 90. Foi uma fase muito boa, porque tais histórias foram escritas por Walter Simonson, um dos melhores escritores e desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.

Ouso a dizer que, sem Simonson, o Thor da Marvel seria um personagem tão sem graça quanto o Homem Formiga.

Algumas histórias do Thor de Simonson, abaixo. Hoje em dia, não sei como encontrar no formato HQ de anos atrás, porém segue a indicação assim mesmo:

A Saga de Surtur: Simonson introduziu vários elementos das antigas histórias, como Surtur e outros personagens das lendas.

Bill Raio Beta: Um alienígena digno de levantar o martelo de Thor! É um arco de histórias tão interessante que pode facilmente ser adaptado ao cinema ou à alguma minissérie.

Simonson é responsável por uma das cenas mais icônicas desta fase.

O Executor, Skurge, sempre foi um personagem de segunda linha, eternamente apaixonado (e usado como capacho) pela bela Encantor.

Thor, Balder e o exército asgardiano tiveram que descer ao Hel (Inferno), a fim de resgatar algumas almas presas injustamente. Na fuga, estavam todos encrencados com as hordas do Hel.

Skurge se ofereceu para ficar para trás, sacrificando-se para segurar as hordas por tempo suficiente para a fuga de seus companheiros. Com isso, ele ganhou o respeito de todos, inclusive de Hela, a deusa do Inferno.

Por fim, uma história sem noção, mas divertida: Simonson transformou o Deus do Trovão em sapo!

A mitologia é muito divertida, quando aliada à outros elementos lúdicos e numa linguagem contemporânea.

Boa leitura!

Veja também:

​O olho da sabedoria (ideiasesquecidas.com)

O índice X-Men de Inflação (ideiasesquecidas.com)

Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

A mentalidade do caranguejo

Coloque um monte de caranguejos num balde. Eles vão tentar escapar, escalando as paredes. Nisso, um caranguejo se engancha no outro, puxando para baixo o que está acima. No final, ninguém consegue sair do balde.

Daí deriva o termo “mentalidade de caranguejo” para descrever comportamento similar: fofocas e puxadas de tapete para derrubar aquele que se destaca, seja em corporações ou nas relações. “Se eu não posso, você também não pode”.



Outra história sobre caranguejo. A segunda missão de Hércules era derrotar a Hidra de Lerna, o terrível monstro de muitas cabeças. Ao cortar uma cabeça, surgiam duas no lugar.

Para ajudar a Hidra, Hera enviou um caranguejo. Este ficou atazanando Hércules na já difícil batalha contra a Hidra.  


Hércules deu um pisão no caranguejo, que se despedaçou todo.

Hera, em homenagem ao caranguejo, criou a constelação de Câncer.


Moral da história: Não seja um caranguejo. Quando aparecer algum, dê um chega-pra-lá nele.

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com

Loja e Recomendações:

Uma vida pacata e longa ou cheia de aventuras e curta?

Quando Aquiles era jovem, a sua mãe fez uma profecia.

O garoto iria para a Guerra de Troia, teria uma vida cheia de aventuras, seria um herói lembrado por inumeráveis gerações, porém, teria uma vida curta com uma morte brutal.

Ou, se ficasse em casa, ele seria um camponês com uma vida longa, feliz e pacata, se casaria e teria filhos, os seus filhos teriam filhos, o seu nome seria lembrado por poucas gerações e depois, esquecido para sempre…

Qual a vida que você escolheria?

Não há certo ou errado.

“Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?”
Friedrich Nietzsche.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

O que faz de Star Wars um Star Wars?

Desde que me conheço como gente, referências a Star Wars sempre estiveram no ar: o temível Darth Vader, a música contagiante da marcha imperial, a Força, a ordem dos Jedi, a determinada Princesa Leia, o sábio e icônico Mestre Yoda, um homem cachorro esquisito chamado Chewbacca co-piloto do ator Harrison Ford numa espécie de disco voador chamado Milenium Falcon, Jabba, o Hutt…

O que faz de Star Wars um sucesso fenomenal? Quais as diferenças para um filme qualquer de ficção científica? Qual o segredo de seu sucesso?

Sendo uma das séries mais populares de todos os tempos, é natural que esta pergunta tenha sido feita e refeita ao longo das últimas décadas. Este artigo é um apanhado das ideias mais interessantes. E o meu interesse é na parte screenwriting da coisa, a fim de aperfeiçoar este talento.

Antes de qualquer coisa, Star Wars não é um filme, mas sim um tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna.

Listo aqui as duas principais explicações, sendo que a primeira demandará maior tempo:

A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos
B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação


A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos

George Lucas, o criador da saga, teve enorme influência do autor Joseph Campbell, com o conceito conhecido hoje como “Jornada do Herói”. George Lucas era obcecado por este trabalho, e ele mesmo admitiu que Campbell foi o seu Yoda.

Campbell, um professor de literatura, estudou um grande número de histórias de mitologia ao redor do mundo. Na época em que ele escreveu o livro, teve grande influência do psicólogo Carl Jung.

Segundo a crença destes autores, havia uma espécie de padrão universal de comportamento, chamado de arquétipo. Por isso, todas as histórias da mitologia teriam alguma espécie de padrão, e foi isto que Campbell explicitou em seu livro, chamando o conceito de Monomito.

De modo geral, há três fases: a partida, a iniciação e o retorno. O herói começa a jornada em casa, sai para se aventurar no mundo exterior, encontrando aliados e inimigos, superando desafios de dificuldade crescente, e depois retorna ao lar, transformado e triunfante, fechando o ciclo.

A jornada do Herói de Campbell tem 17 etapas, mas listarei apenas 11 para simplificar o conceito. Tomo como referência o primeiro filme da série, Star Wars, de 1977. Este foi rebatizado décadas depois para Episódio IV – Uma nova esperança.

Capítulo I: A Partida

1 – O chamado da aventura:
Um garoto, Luke Skywalker, vive no planeta-deserto Tatooine. É um garoto diferente, que quer sair daquele lugar e explorar o universo, entretanto, o tio Owen precisa dele para cuidar da colheita.

O chamado da aventura vem quando ele encontra o robô R2D2, que está fugindo do Império com uma mensagem: “Help me, Obi-Wan Kenobi. You are my only hope”



2 – A recusa do chamado
Luke procura o velho Ben Kenobi, e inicialmente, ele recusa a se juntar à rebelião. Ele tem obrigações para com o tio. Além disso, ele era um simples camponês, como alguém assim poderia encarar o poder do Império?

O garoto fica sabendo através de Kenobi que o pai dele fora um mestre Jedi. Ao retornar à sua casa, Luke encontra o lugar em ruínas, e descobre que o Império assassinou seus tios.

3- O auxílio sobrenatural
O garoto aceita se tornar um Jedi, como o seu pai. Obi-Wan explica sobre a Força, entrega a ele o sabre de luz que fora de seu pai, e começa o treinamento para a próxima etapa da jornada.
Nota: o lendário Mestre Yoda aparece a partir do segundo filme. No primeiro, Obi-Wan é o seu mentor.

4 – A passagem pelo primeiro limiar
O primeiro teste para Luke é no espaçoporto Mos Eisley, onde Ben Kenobi recruta o auxílio de dois importantes aliados na jornada, o piloto Han Solo e o co-piloto Chewbacca.


No espaçoporto, há uma cena em que um hooligan com nariz de porco literalmente impede a passagem de Luke, querendo briga. Obi-Wan interfere, e eles atravessam este primeiro limiar, deixando Tatooine na icônica Milenium Falcon.

5 – O ventre da baleia
Os nossos heróis tinham como destino o planeta Alderaan. Mas, no momento em que eles a alcançariam, a Estrela da Morte destrói o planeta inteiro.

Após uma série de eventos, os nossos heróis acabam sugados para dentro da Estrela da Morte. Campbell chamou o estágio de “ventre da baleia”, e metaforicamente, eles acabam dentro do ventre da monstruosa construção capaz de destruir um planeta.

Capítulo II: A Iniciação

6 – O caminho de provas
Dentro da Estrela da Morte, eles enfrentam os stormtroopers e têm seus primeiros confrontos com Darth Vader.

7 – O encontro com a deusa
Luke e amigos resgatam a Princesa Leia de Darth Vader e se preparam para fugir a bordo da Milenium Falcon.

Um pouco antes da fuga, Luke presencia a morte de seu mentor, Obi-Wan Kenobi, pelas mãos de Darth Vader. Ele agora está maduro para seguir sozinho em sua jornada.

8 – A apoteose
Luke, Leia, Solo se juntam ao restante da rebelião, onde juntos enfrentam mais uma série de desafios. O plano é atacar o ponto fraco da Estrela da Morte, revelado no esquema arquivado no robô R2D2.

Nenhum dos outros aliados consegue sucesso neste ataque. As baixas são muitas, com o poderoso Darth Vader barrando todas as tentativas de ataque. A Estrela da Morte prepara o disparo final, que vai destruir para sempre a base rebelde…

Com o auxílio de todos os seus colegas, inclusive uma ajuda providencial de Han Solo, Luke consegue dar um único tiro certeiro no calcanhar-de-Aquiles da monstruosa construção, causando o colapso da mesma e salvando a causa rebelde da destruição total.

9 – A bênção última
Para Campbell, esta é uma espécie de Morte e Ressurreição. O herói morre de seu mundo atual, e renasce em seu novo mundo. Este momento é quando Luke, segundos antes de seu tiro final, abandona a medição dos instrumentos de sua nave e confia plenamente na Força, lembrando dos ensinamentos de seu mentor Ben Kenobi. Somente com a Força é possível cumprir a missão.

Capítulo III: O Retorno

10 – A passagem pelo limiar do retorno
Luke retorna à base rebelde, sendo recebido pelos seus amigos com festa.
Na obra de Campbell, há uma representação deste limiar, na forma de um elixir. No caso, o elixir é o próprio sucesso da missão.

11 – Senhor de dois mundos
Luke retorna como o Senhor de dois mundos, agora conhecendo a Força, sendo recebido com honrarias pela Princesa e aliados.

George Lucas escreveu e reescreveu o roteiro inúmeras vezes, pensando nos detalhes, na narrativa e construção de seu filme.


B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação

O segundo grande fator do sucesso é o grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação.


A extrema imaginação na criação dos cenários e personagens. A Trilha sonora espetacular – não há quem não reconheça e não se deixe contagiar pelas mesmas. Por fim, os efeitos visuais e sonoros, sempre à frente de seu tempo.

Além disso, Lucas buscou uma série de fontes de inspiração.

De Akira Kurosawa, o filme “The hidden fortress” é narrado por dois personagens secundários, algo como o R2D2 e C3PO japoneses. Também se inspirou nos duelos de espada, e no ator favorito dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune. O capacete de Darth Vader é baseado num capacete samurai.

Das cenas de Velho Oeste, como a do bar no espaçoporto.

Ele se inspirou também em Flash Gordon, que também era no espaço, com naves, tinha a sua bela e forte princesa, etc.

Os personagens são tão icônicos que até roubam a cena. Darth Vader é infinitamente mais memorável que Luke Skywalker. Han Solo, o anti-herói, paquerador e durão, idem. Nem se fala do Mestre Yoda, que virou sinônimo de sabedoria. Até personagens secundários com pouquíssima participação, como Boba Fett e Jabba o Hutt são cultuados pelos fãs.

Mas Star Wars é diferente de um filme sci-fi. O tom não é de um filme futurista, mas sim de uma mitologia.

Não é uma briga de robôs que pode ocorrer num futuro distante. É uma história que ocorreu há muito muito tempo atrás, numa galáxia muito distante.

Não é um briga de Skrulls x Krees num universo paralelo aleatório. É a resistência obstinada de um pequeno grupo rebelde, lutando contra o poderio imenso de um Império! É a Força versus o lado Negro da Força, algo místico, mágico, espiritual que pode estar na vida de todos nós!

Tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna Star Wars é. Muito bem sucedida ele foi.


Para escrever este post, assisti (novamente) a trilogia original, a trilogia do Anakin Skiwalker e o primeiro filme da nova era, além de ler o Herói de mil faces do Joseph Campbell. Tarefas muito divertidas, diga-se de passagem.

E que a Força esteja com você!

Atualização. Hoje, Maio de 2020, todos os filmes do Star Wars (os 3 originais, os 3 da década de 2000, os três mais recentes) estão no Amazon Prime Video.

Links:

https://www.audible.com/pd/Screenwriting-101-Mastering-the-Art-of-Story-Audiobook/B0778Q1BHY?qid=1551523943&sr=1-1&ref=a_search_c3_lProduct_1_1&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=GH85VXN6AA5SWNX0DZZ4&

http://www.bbc.com/culture/story/20160104-the-film-star-wars-stole-from

http://www.moongadget.com/origins/flash.html

https://www.shmoop.com/hero-with-a-thousand-faces/summary.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hero%27s_journey

What is the hero’s journey?

https://www.historyextra.com/period/modern/star-wars-why-did-the-film-make-history/

http://www.thecinessential.com/zachary/2018/4/5/the-hero-awakens-a-comparison-of-journeys-in-star-wars

How Deep Did George Lucas Go with the Hero’s Journey in Star Wars? — A Guest Blog by Tomas Pueyo

Pigmaleão

Na mitologia grega, Pigmaleão foi um escultor que dedicou todos os esforços para esculpir a mulher que ele considerava perfeita.

 

Pigmaleão trabalhou com esmero em sua obra, por infindáveis horas, preocupando-se com cada mínimo detalhe.

 

A belíssima estátua recebeu o nome de Galateia. O escultor apaixonou-se de tal forma pelo seu trabalho que passou a tratá-la como um ser humano de verdade, dando-lhe presentes, carinho, e considerando-a como a sua esposa de verdade.

 

A deusa Vênus apiedou-se de Pigmaleão. Ela procurou entre as mulheres alguma que fosse tão perfeita quanto Galateia, mas não encontrou mortal à altura. Daí, Vênus deu vida à estátua. Galateia se tornou uma mulher de carne e osso e se casou com Pigmaleão.

 

https://resizing.flixster.com/FqeoVABQVqTsLIl0Ady55VcxMHc=/1920x1080/v1.bjs1ODU1NjE7ajsxNzc4MTsxMjAwOzE5MjA7MTA4MA
O mito de Pigmaleão inspirou a peça “My fair lady”

Este mito é comumente associado à ideia de profecia auto-realizável. Se dedicarmos paixão suficiente em nosso trabalho, qualquer seja, conseguiremos fazer com que este seja tudo o que esperamos dele.

 

 

De modo geral, é simples perceber quando um trabalho foi feito com paixão ou quando foi feito de forma burocrática. A dica é sempre fazer o melhor trabalho possível, dedicando o máximo carinho e paixão, e o resultado com certeza virá.

 

 


 

Links

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Pigmale%C3%A3o

https://www.infoescola.com/mitologia-grega/pigmaliao-e-galateia/

http://hbrbr.uol.com.br/o-lider-pigmaleao/