Thanks não tem tradução

A tradução de “Thanks” para o português é “Obrigado”.
E a tradução de “Sorry”, “Excuse me”, é “Desculpe-me”.

Mas essas palavras não tem tradução.

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Voltei do Canadá recentemente e as pessoas ali são muito polidas. Para qualquer coisa, é um “thank you”. Para esbarrões na rua, “sorry”, “excuse me”.

Esta polidez também vale no trânsito. O pedestre atravessa na faixa de pedestres, não no meio da rua. O pedestre espera o farol para pedestres ficar verde (confesso que é um tormento ficar esperando). Por outro lado, quando o pedestre pisa na faixa, o automóvel para e espera o mesmo atravessar, sem buzinar, nada.

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As regras acima valem principalmente para cidades menores (tipo Quebec City e Fredericton, que já conheci). Para Toronto, que é maiorzinha, já comecei a ver uns veículos buzinando e uns pedestres atravessando no meio da rua (seriam brasileiros?).

Engraçado que, quanto mais ao sul, a tendência é ir piorando. Nova Iorque já é um pouco pior, mas muito mais civilizado do que no Brasil.

Minha referência é a monstruosa São Paulo. É difícil fazer uma comparação direta. O Canadá tem o tamanho físico do Brasil, mas com um quinto da população. Toronto, que é uma cidade enorme para os padrões canadenses, é um quarto do tamanho de São Paulo. Se o trânsito de SP já é um caos, com gente buzinando para todo lado, pedestres atravessando a rua em qualquer ocasião possível e impossível, imagine se cada carro tivesse que esperar cada pedestre que pisasse na faixa…

 


 

Esse negócio de falar “thank you” e “sorry” toda hora viram hábito. Depois de um tempo, eu também estava falando “thank you” a torto e a direito.

Então, ocorreu algo muito estranho. No avião de volta para o  Brasil, duas aeromoças atendiam a minha fileira. Uma que falava português, e outra, que falava inglês. Quando passava a que falava inglês, eu falava “thank you” quando era servido. Quando passava a que falava português, eu não falava nada. Só fui perceber isto quando fui falar “obrigado”, mas saiu “thank you”. Daí, a conclusão de que “thank you” tem uma tradução literal, mas não tem uma tradução cultural.

Dizem que o hábito é como colocar um fiozinho de cada vez, até formar um cabo muito forte. Este é o poder do hábito.

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E, apesar de tudo isso, ainda acho que São Paulo dá de 10 a zero em Toronto, por ser muito maior, ter mais diversidade cultural, mais confusão e mais desafios.

 


 

Curiosidade 1. Na Inglaterra e na Austrália (colonização inglesa), utiliza-se a mão inglesa (a direção é no lado oposto do carro). Imaginei que no Canadá, por ser uma colônia britânica, também adotaria mão inglesa. Mas não, utilizam mão francesa. Imagino que seja por estar perto dos EUA. Os EUA, por sua vez, também foram colônia inglesa, mas como a independência se deu por força bruta, preferiram adotar a mão francesa.

 

Curiosidade 2. Este ano, o Canadá comemora 150 anos. Tinha bandeirinha em todo lugar. Mas 150 anos do que? Achei que fosse da independência. Mas não, nunca houve independência. Até hoje, o Canadá não é independente: a rainha do Canadá é a rainha da Inglaterra. Mas, na prática, a rainha não manda em nada. E os 150 anos são o aniversário da unificação das províncias canadenses num único país.

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Homenagem aos 150 anos do Canadá, na cidade de Fredericton

 

 

 

 

Plutão e a falácia narrativa

A falácia narrativa

O cérebro humano tem uma imaginação incrível, mas justamente esta capacidade de imaginar pode causar alguns “bugs”. Um deles é o de acreditar mais numa história bem contada do que na realidade…

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O planeta Plutão é o xodó dos astrônomos, o queridinho, por causa de uma história mais ou menos assim.

Nos anos 1900, o astrônomo Percival Lowell observou discrepâncias na órbita do planeta Netuno. Ele fez os cálculos e concluiu que existia um nono planeta, o planeta X, que estava interferindo na órbita de Netuno. Décadas depois, o tal planeta X foi descoberto, exatamente no local predito por Lowell. Em sua homenagem, batizaram o planeta de Plutão, que tem iniciais P e L (Percival Lowell).

 

Esta história confirmava o poder da matemática, segundo os livros didáticos.

Será?

 


 

O Rebaixamento de Plutão

Há alguns anos atrás, em 2006, o planeta Plutão foi desclassificado como um planeta de verdade. Foi rebaixado para a segunda divisão dos planetas do sistema solar, a categoria dos planetas anões.

Este fato causou uma comoção internacional. Como poderiam os cientistas, após tantos anos, tirar Plutão da série A de planetas?

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Acontece que a ciência avança com o tempo. E os astrônomos foram descobrindo mais e mais informações sobre o sistema solar.
Por exemplo, objetos como Quaoar (anunciado em 2002), Sedna (2003) e Eris (2005) têm quase o mesmo tamanho ou são até maiores do que Plutão. Descobriram o Cinturão de Kuiper, após a órbita de Netuno, que consiste em um cinturão de asteroides e que pode conter mais objetos similares a Plutão. Algumas das luas de Júpiter e Saturno são maiores do que Plutão.

 

Bom, no final das contas, o comitê da União Internacional dos Astrônomos de 2006 tinha duas opções: ou eles tiravam Plutão e ficavam com 8 planetas, ou incluíam o mesmo e ficavam com mais de 100 planetas! Os cientistas resolveram rebaixar Plutão.

 

Mas, então, tem algo errado na historinha do descobrimento de Plutão. Se este planeta é tão insignificante assim, ele não teria massa suficiente para perturbar Netuno, conforme descrito por Lowell.

E, na realidade, é isso mesmo. As estimativas iniciais de Lowell colocavam Plutão com um tamanho 12 vezes o da Terra. Medidas da massa real de Plutão, realizadas décadas seguintes, mostraram que massa real é minúscula, incapaz de perturbar Netuno.

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Mas, se não é Plutão que causa a perturbação na órbita de Netuno, o que é?

Na verdade, a perturbação que entrou no cálculo de Lowell nunca existiu. Era um erro de medida. Não foi culpa dele, mas os cálculos foram baseados numa premissa errada.

Portanto, a descoberta de Plutão foi pura coincidência. Um efeito placebo na ciência.

O rebaixamento de Plutão causou tanta comoção que, hoje em dia, alguns astrônomos defendem voltar Plutão à categoria de planeta. E, junto, também promover os outros 100 planetas da série B para a série A do campeonato de planetas. Querem virar a mesa do campeonato. Plutão é uma espécie de Fluminense planetário. Querem salvar Plutão no tapetão, no STJD espacial!

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Esta história é um exemplo do poder da imaginação humana.

Conclusão: quando for querer vender algo, tente contar uma historinha convincente junto, para aproveitar este “bug” do cérebro humano.


Leia também:
A verdade e o conto

http://csep10.phys.utk.edu/ojta_samples/course1/synthesis/perturbation/pluto-disc_tl.html

http://www.bbc.com/news/science-environment-33462184

https://www.space.com/19774-percival-lowell-biography.html

http://nineplanets.org/pluto.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Kuiper_belt

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto

Correlação e Comunicação

Fui procurar no Google o significado da palavra “flanador”. Encontrei isto:

Definição de Flanador

s.m. Aquele que flana.

Classe gramatical: Substantivo masculino
Separação das sílabas: fla-na-dor

Ou seja, perdi o meu tempo, continuei sem entender coisa alguma.

Procurei em outro dicionário, e obtive a mesma resposta. Tentem este exercício no Google.


Lembrei de uma dica simples e efetiva de comunicação, ensinada pelo prof. Auro Honda. Se você está explicando algo e a outra pessoa não entendeu, tente explicar de outra maneira. Não adianta repetir a mesma coisa inúmeras vezes.


Informação

Há 100% de correlação entre “flanador” e “aquele que flana”. Não há nova informação.

Para eu explicar alguma coisa nova  a alguém, tenho que usar informação com 80%, 90% de correlação. Ou seja, informação que tenha alguma coisa em comum, mas que também tenha novos elementos.

“Flanador é aquele que gosta de passear”. “Flanador é quem anda por aí sem preocupações”. “Flanador é quem gosta de devaneios”.

Nenhuma dessas definições corresponde a 100% de precisão, mas elas transmitem uma informação nova, e são muito mais claras.

Outra forma de informar é com imagens. O Google imagens ajuda muito nisto. Exemplos de flanadores:

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Loop infinito

Informação 100% precisa, correta e inútil:

“Flanador” = “aquele que flana”

“Flanar” = “verbo que indica a ação do flanador”

Arnaldo Gunzi

A não lógica da Língua Portuguesa

Quando eu era adolescente, não gostava de gramática. Isto porque as regras gramaticais não têm uma lógica, pelo menos nenhuma lógica que fizesse sentido para mim. Tem mais exceções do que regras, e agora com a nova gramática (que nem conheço direito), talvez eu esteja escrevendo mais errado do que certo.

 
É interessante notar como uma criança fala. A criança não aprende regra gramatical nenhuma, não sabe a diferença entre sujeito e objeto, ou o tempo futuro do passado do pretérito perfeito. Mas a criança assimila todas essas regras e extrapola para o uso em todo lugar.

 

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Anotei alguns “erros de português” de minha filha de 4 anos. Alguns desses são erros mesmos, outros poderiam ser chamado de erro de lógica da Língua Portuguesa.

 
Português da criança e Português “correto”

Eu sabo = Eu sei
Eu já fazi = Eu já fiz
Eu já di = Eu já dei
Eu já comei = Eu já comi

Eu tavo fazendo isso = Eu estava fazendo isso
Eu achavo que = Eu achava que

A boia cabiu = A boia coube
Meu pé esta sujado = Meu pé está sujo
Dá um sorrisa! = Dá um sorriso!
Sou campeana = Sou campeã


 

É legal também a generalização do uso de prefixos.

Quando eu destomar banho = quando eu sair do banho
Você desabaixou o jogo = você apagou o jogo


 

Perguntas que um adulto não faria.

Ouvindo Asa Branca, “Por falta d´agua perdi meu gado, morreu de sede meu alazão”:
– Por que falta água no sertão? Coitado do alazão.

Ouvindo uma cantiga sobre a cobra que não tem braço nem pé:
– Por que a cobra não tem braço nem pé?

 


Quando ela tinha 3 anos, não conseguia entender algumas figuras de linguagem:

Vizinha: Oi gatinha,
Criança: Não sou gatinha não. Sou uma pessoa.

Com 4 anos, ela já entende este tipo de abstração.

 


A gramática seria muito mais divertida se fosse mais criança: criativa, flexível, questionadora, rebelde, peralta.

Pasquale
 
Qual o problema de sentar na mesa para comer? Ou assistir o jogo? Ao meu ver, o conteúdo da mensagem vale mais do que a forma. E desaprender é mais difícil do que aprender.
 
Prefiro falar de forma errada, mas fluída, do que correta de acordo com uma lógica que não tem lógica, uma deslógica.

 

Arnaldo Gunzi.
Nov 2015.


 

Em homenagem às múmias da academia, o poetinha Vinícius de Moraes, quando contestado sobre erros gramaticais em sua música.

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/10/19/imortal-de-verdade-x-imortal-da-abl/

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Um erro de 2 mil dólares

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Fracassos de comunicação podem ensinar muito mais do que sucessos.
 
Um caso engraçado ocorreu com os meus pais.
 
O meu pai chegou e disse que queria doar 2 mil ienes a uma associação da qual faz parte.
 
Minha mãe ficou louca, dizendo que era um absurdo, muita coisa, etc.
 
O meu pai respondeu que era para ajudar num novo livro que estavam lançando, que era importante, etc.
 
Minha mãe disse que era demais, que não tinham condições de doar tal valor, etc.
 
E continuaram brigando por um tempão…
 
Depois de um tempão, ela descobriu que ele dissera 2 mil ienes, e não 2 mil dólares. 2 mil ienes equivalem a 54 reais. 2 mil dólares, a 6700 reais. Na cabeça do meu pai, ele tinha falado em 54 reais. Na cabeça da minha mãe, ele tinha falado em 6700 reais. Uma tremenda diferença…
 
Na verdade, não havia problema algum: ambos concordavam que 54 reais de doação era de bom tamanho.

 

Os dois ficaram meia hora perdendo tempo e energia apenas por um problema de comunicação. Tal problema seria facilmente resolvido, se um tentasse entender o outro, ao invés de cada um ficar defendendo sua posição.

 
Eles cometem tantos erros de comunicação que este exemplo é até didático.
 

Mas imagine um ambiente corporativo, com problemas complexos e ordem de grandeza de milhões de dólares.

Quantos problemas não poderiam ser evitados, com uma comunicação clara?

Um discurso poderoso

Henrique V é uma peça de teatro de Shakespeare, e conta a história do Rei Henrique V da Inglaterra na guerra dos 100 anos contra a França.

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Antes de uma das batalhas decisivas desta guerra, a moral dos soldados estava baixa. Eles estavam com medo, por estarem em ampla desvantagem numérica contra os franceses. Neste discurso poderoso, Henrique V consegue reerguer a moral dos soldados e conduzi-los à vitória.
 

Link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=RbvMOlpaKlA

 

Repare nos seguintes pontos:
 
– Henrique V convida a todos os que desejam ir embora a se retirar, sem penalidade alguma
– Quanto menos soldados forem, maior a glória repartida, neste dia de São Crispim
– Ele anda cumprimentando os soldados, e pedindo ajuda para subir no pedestal
– Ele cita os soldados pelo nome
– A entonação, modulação da voz de Henrique V dependendo do momento da fala
– Aqueles que derramarem o sangue na luta serão irmãos de sangue dele, do Rei da Inglaterra
 

Isto é um filme, e o Rei é um ator. Mas podemos fazer um exercício. Tente simular um discurso semelhante em voz alta, em casa, para convencer os soldados a oferecem suas vidas para lutar ao seu lado. Eu fiz uma simulação dessas, e ainda deixo muito a desejar como ator e orador…
 

Arnaldo Gunzi.
Jul 2015

 

Pense diferente

Comercial da Apple de 1997.

Isto é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados.
Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discorda-los, glorificá-los ou difamá-los.
A única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas.
Eles inventam. Eles imaginam. Eles curam. Eles exploram. Eles criam. Eles inspiram.
Eles empurram a raça humana para frente.
Talvez eles tenham que ser loucos.

Como você pode olhar para uma tela em branco e ver uma obra de arte? Ou sentar em silêncio e ouvir uma música jamais composta? Ou olhar para um planeta vermelho e ver um laboratório sobre rodas?

Enquanto alguns os vêem como loucos, nós vemos gênios. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são as que de fato, mudam.

 
Na ordem de aparição:
Albert Einstein: cientista que revolucionou a física clássica com a teoria da relatividade,
Bob Dylan: músico norte americano extremamente criativo,
Martin Luther King Jr: ativista da igualdade de direitos raciais,
Richard Branson: empresário não convencional, fundador do Grupo Virgin, que engloba mais de 400 empresas,
John Lennon: genial músico dos Beatles, autor de algumas das mais belas canções da humanidade,
Buckminster Fuller: arquiteto e inventor, conhecido pelo estudo de domos geodésicos,
Thomas Edison: inventor da lâmpada elétrica e de milhares de outras pequenas e grandes invenções,
Muhammad Ali: um dos mais lendário lutadores do história do boxe,
Ted Turner: fundador da CNN,
Maria Callas: soprano e cantora de ópera,
Mahatma Gandhi: ativista pela libertação da Índia através de métodos não violentos,
Amelia Earhart: a primeira mulher a voar atravessando o oceano Atlântico,
Alfred Hitchcock: genial cineasta dos primórdios do cinema,
Martha Graham: dançarina e coreógrafa,
Jim Henson: criador dos muppets,
Frank Lloyd Wright: um dos maiores arquitetos americanos de todos os tempos,
Pablo Picasso: pintor surrealista, capaz de mudar a realidade.

 

 

 

Links recomendados:

Discurso de Steve Jobs em Stanford

Lado criativo da tecnologia

 

 

 

 

Negociar com Godzilla

Sabe como negociar com o Godzilla?
 
O Godzilla é alguém muito poderoso, com o qual não há chance de um confronto direto. 
Para negociar com o Godzilla, é preciso ter aliados. Ganhar um amigo aqui, outro acolá, formar uma massa crítica de aliados para poder encarar o Godzilla.