A tartaruga do longo prazo e a lebre do curto prazo (Ou de burst em burst até o burnout)

O fluxo inexorável do longo prazo é como se fosse a tartaruga, enquanto a rápida e saltitante lebre é como se fosse o curto prazo.

A fábula clássica de Esopo mostra a lebre pulando rapidamente, depois cochilando para descansar. Enquanto isso, a tartaruga vai avançando, com o seu passinho ritmado e contínuo, passo a passo…

Imagine a lebre trabalhando duro, até tarde da noite, com uma montanha de tarefas e com a pressa de resolvê-las todas de uma vez. De burst em burst de trabalho, ele chega ao burnout – doença dos tempos modernos, completo esgotamento mental da pessoa.


A tartaruga troca o burst pela pressão firme e contínua. Investe a longo prazo, tendo a favor os juros compostos. A lebre quer maximizar o EBITDA trimestral, obter ganhos de curto prazo.

Por fim, a tartaruga do longo prazo está lá longe, andando devagar e sempre. A lebre não dá a menor bola, até que, quando percebe, a tartaruga já mordeu o seu calcanhar…

O complexo de Cassandra

O “complexo de Cassandra” é quando alguém sabe o que está prestes a acontecer, avisa a todos, porém ninguém acredita.

 

O termo é baseado na lenda grega que remonta à Guerra de Troia, descrita na Ilíada de Homero.

 

Cassandra era a filha de Prius, rei da cidade de Troia. Sendo ela muito linda, despertou a paixão do deus Apolo, que a fim de cortejá-la, deu-lhe o dom da profecia.

Entretanto, Cassandra recusou o amor de Apolo, o que causou a ira do deus. Por vingança, ele a amaldiçoou. Ela seria capaz de prever o futuro, entretanto, ninguém acreditaria nela.

Dois exemplos:
– Cassandra previu que o sequestro de Helena por Páris causaria a Guerra de Troia, e advertiu o príncipe a não ir a Esparta – e, é claro, foi ignorada.
– Ela previu que o famoso Cavalo de Troia causaria a ruína da cidade, e lutou para que os troianos não colocassem o mesmo para dentro dos portões – e, obviamente, foi ignorada.

 

Em geral, pessoas que têm a capacidade de fazer análises globais e longo prazo sofrem deste efeito Cassandra – têm uma boa ideia dos efeitos, entretanto não conseguem lutar contra a maioria, que vê apenas o curto prazo, e apenas o local.

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Vide também

 

O Cavalo de Troia das histórias


Post da série para Iniciantes – aproveitando que a Wikipédia já não explica nada de forma simples e objetiva.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Cassandra

https://www.britannica.com/topic/Cassandra-Greek-mythology

 

 

​O timing correto

Uma águia passa horas planando até que todas as condições estejam favoráveis. Quando chega o momento, o seu ataque devastador ocorre em segundos.
 
Rolar uma grande rocha morro acima é feito aos poucos, com paciência, centímetro a centímetro. Quando a rocha cai morro abaixo, salve-se quem puder.
 
Energia cinética = Energia potencial, segundo a lei da conservação de energia.

 

Para liberar em um segundo uma explosão de energia cinética, é necessário muito tempo acumulando energia potencial.
 
Vencer uma luta em um minuto requer meses de preparativos.
 
Realizar um excelente trabalho em poucos dias requer anos de excelência no assunto.
 
O impaciente vai liberar energia cinética sem potencial suficiente.
 
Vence aquele que tiver a capacidade de dominar a arte do timing correto.
 
Vence aquele que tem a paciência e a dedicação de acumular energia potencial: estudar além do que escola oferece, trabalhar com excelência, testar inovações, errar e aprender.
 
Vence aquele que sabe aplicar o potencial acumulado.
 
Vence aquele que pensa a longo prazo.
 
“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho” – Sun Tzu, a Arte da Guerra.

 

Os juros compostos são mais poderosos do que o VPL

Plantar x Colher

Existe uma assimetria importante entre plantar e colher. E o que está no meio da assimetria é um fator extremamente pesado, que se chama Tempo.

Esta semana, eu e equipe envolvida estamos completando um trabalho muito importante. Mas este trabalho não começou ontem. Começou há mais de dois anos atrás, na forma de uma ideia amplamente debatida. Esta ideia gerou os primeiros passos, que envolviam obter e tratar dados. Este primeiro passo sozinho consumiu mais de 6 meses de trabalho só para deixar tudo corretamente encaminhado.

Um segundo passo foi a criação de um protótipo que fizesse exatamente o que a gente queria. E lá se foram mais alguns meses desenvolvendo, e outros tantos testando. Por fim, finalmente traduzir este trabalho para uma plataforma mais completa, final, que envolveu outros tantos meses pensando, trabalhando, aperfeiçoando.

As pessoas chegam e saem no meio do caminho. E, quem não sabe, pode dar o crédito somente ao elo final do trabalho. Mas, para tal elo final existir, foram necessários muitos elos básicos, desde o início até o fim.

Pode-se vender a mesma ideia para duas pessoas, mas ter resultados completamente diferentes no final das contas. As coisas que dão certo, não são por acaso. Não se pode olhar apenas para o resultado final.

 


 

O EBITDA trimestral

O mundo está cada vez ficando imediatista. Mede-se o desempenho do presidente de uma empresa pelo EBITDA trimestral, da mesma forma que se mede um técnico de futebol pelo placar da rodada: se perder três jogos seguidos, troca-se o técnico. Desta forma, contanto que o EBITDA continue bom, tudo está correndo bem, mesmo que uma empresa mal intencionada esteja empurrando para debaixo do tapete uma bola de neve de adversidades que vão cobrar o seu preço num futuro não tão distante.

O grande problema do tempo é que quem planta não é necessariamente quem colhe. Aliás, os melhores investimentos são os de longo prazo, onde certamente quem colhe não é o mesmo que plantou.

O Brasil de Lula colheu os resultados do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, que domou o dragão da hiperinflação e finalmente colocou o país no rumo que ele merece trilhar. O Brasil de hoje, que quase saiu dos eixos, é fruto de 13 anos de políticas populistas, imediatistas e sem fundamento. Neste exato momento, estamos novamente entrando nos eixos, aos poucos, com um gestão muito mais responsável.

Brasil árvore frutos FHC Lula Dilma

 

O ser humano tem extrema dificuldade de conviver com o tempo. Nós valorizamos muito mais o presente do que o futuro. Isto é bastante justificável, uma vez que não existe o longo prazo para quem não sobreviver ao curto prazo. O homem de neandertal precisava comer hoje, ao invés de guardar para um inseguro amanhã. Quem garantiria que o neandertal iria sobreviver para viver o amanhã? E quem garantiria que um lobo não acharia a refeição escondida? Quanto mais incerto o futuro, mais valor tem o presente.

O economista John Keynes diria que, a longo prazo, todos nós estaremos mortos.

 


VPL

A ferramenta matemática que comprova o poder do tempo presente é o tal do Valor Presente Líquido. Uma maçã hoje vale muito mais do que uma maçã amanhã. Tanto maior a taxa de desconto, mais vale o presente ao futuro.

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Quanto maior a inflação, menos consigo saber o valor do dinheiro no futuro, portanto mais ênfase no agora. Quanto mais violenta a sociedade, menos ênfase no futuro – para que investir em estudos e num trabalho honesto, se tudo pode acabar de uma hora para outra? Melhor desfrutar do presente.

Mas o VPL não mede tudo. E o prazo de tempo além do VPL? E todo o resto que não está na conta?


 

Juros Compostos

Foi justamente a capacidade do ser humano de conseguir planejar o futuro que fez dele o que é hoje. A capacidade de poupar em tempos bons para sobreviver a tempos adversos, a capacidade de se sacrificar no presente para obter quantidades muito maiores no futuro. Estudar hoje para agregar mais valor amanhã. Um trabalho honesto e compassado ao invés de um atalho perigoso e incerto. Investir em tecnologia, sofrer um bocado por um tempo, para obter resultados muito melhores. Plantar hoje para colher amanhã.

Em contraponto ao pobre do VPL, a ferramenta que demonstra o poder do longo prazo são os Juros Compostos. Novamente, o Tempo, aquele elemento tão difícil de domar.
Os juros compostos dão retorno exponencial. Um pouquinho melhor hoje, um pouquinho melhor amanhã, passos pouco perceptíveis. Depois de um tempo, teremos um resultado centenas de vezes melhor do que aquele que ficou parado.

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Admiro muito a filosofia oriental, japonesa e chinesa, de dar muita importância ao longo prazo. Eles preferem uma solução que dê resultados melhores no futuro, mesmo sendo mais cara hoje. Eles não se importam com perdas pequenas, contanto que isto esteja alinhado com o objetivo final de longo prazo da empreitada.

Segue um pequeno texto de Akio Morita, fundador da Sony, sobre o tema Longo Prazo.

Espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

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Os juros compostos são tão poderosos que sobrepujam a condição inicial, dado tempo suficiente. Um burro esforçado pode se dar muito melhor do que alguém inteligente, mas preguiçoso.

Keynes está muito errado. O longo prazo inevitavelmente chega. No longo prazo, nossos filhos colherão os frutos que estamos plantando hoje.

Resumo em uma fórmula:

1,01^100 >>>  0,99 ^100

 

Resumo em uma frase:

Os juros compostos são a força mais poderosa do universo – Albert Einstein.

​A Guerra Santa do EBITDA

Onde está o livre arbítrio?

Adolfo foi um pai de família comum, casado, com quatro filhos. Por muito tempo, sua rotina foi acordar às seis, ir trabalhar numa fábrica e retornar à noite para brincar com os filhos.

Adolfo foi uma boa pessoa, correto?

Errado. Adolph Eichmann foi dos piores criminosos de guerra nazista. Ele foi responsável pela solução definitiva da questão judaica (ou seja, execução dos mesmos). Ele administrava a logística de deportação de judeus para guetos e campos de extermínio, na Alemanha da Segunda Grande Guerra.

A filósofa Hanna Arendt estudou a fundo o julgamento dos crimes de guerra de Eichmann, e concluiu que ele não parecia o monstro que todos esperavam. Ele parecia uma pessoa comum.

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Para a sua defesa, Eichmann dizia que estava apenas cumprindo ordens. Ele fazia aquilo que era esperado dele, e fazia com muito empenho. E isto era exatamente o mesmo que todos os outros à sua volta faziam. Vide post.

Reflexão 1: Como ele foi capaz de seguir ordens cegamente, sem levar em conta o crime praticado? Ele não poderia dizer “Não” e fugir para outro país?

E cadê o livre arbítrio dele?

 


 

Decisões e tabelas de mandamentos

Para filósofos existencialistas como Jean Paul Sartre (1905-1980), não existem regras fixas para guiar o nosso comportamento na vida. Somos nós mesmos os responsáveis pelas nossas decisões e, principalmente, pelas consequências delas.

O mundo é complexo, cheio de valores conflitantes. Tomar uma decisão “A” significa que decisões “B” e “C” não serão tomadas.

Tomar decisões e assumir responsabilidades é difícil. É muito mais simples ter uma “Tábua da Verdade”, uma “Tabela de Mandamentos”, e apenas seguir o que está escrito.

É muito mais fácil ter alguém que dita o que é certo e o que é errado: faça tudo o que está na coluna “certo”, e condene o que está na coluna “errado”.

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Religiosos radicais extremistas seguem a sua tabela de mandamentos particular. Pela sua lógica própria, amarrar bombas ao corpo e explodir os inimigos faz total sentido, é até um ato de heroísmo.

Criticamos o homem-bomba: “Mas que tolo! Ele não vê que é burrice se explodir por uma causa imaginária como esta? Ele não tem noção do sofrimento que vem causando?”

Reflexão 2: Parece ruim seguir uma Tabela de Mandamentos sem questionar. Mas será que somos tão diferentes assim de um homem-bomba, ou de um Adolph Eichmann?

 


 

EBITDA, EBITDA, EBITDA

Muitos executivos, de todos os níveis gerenciais, seguem à risca a Tabela de Mandamentos do EBITDA, – ou seja, obter lucro, resultado, EBITDA acima do orçamento. Trabalhar mais para atingir o EBITDA. Apertar fornecedores para fechar bem o mês. Cortar custos das mais diversas formas possíveis, seja demitindo funcionários, seja postergando projetos. Deixar de tomar precauções, ou seja, assumir mais riscos. Deve-se fazer o impossível para chegar no EBITDA. O objetivo é o EBITDA, a justificativa de tudo é o EBITDA.

 

Mas, e os impactos econômicos dessas decisões no longo prazo? E os impactos ambientais? E os impactos sociais?

Estes impactos são imensuráveis, impossíveis de medir. E normalmente são externalidades negativas: não entram na conta da empresa, mas entram na conta do mundo, da sociedade, de todos.

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Reflexão 3: Será que às vezes não nos cabe dizer “não”?

Será que não temos o livre arbítrio de tomar hoje a decisão mais saudável para o longo prazo (que um dia vai chegar) e pensando no global (que somos todos nós, incluindo aqueles que ainda vão nascer)?

Algum dia, quando desequilíbrios econômicos, sociais e naturais estiverem fora de controle, nossos descendentes talvez digam:

“Que tolas essas pessoas do século XXI! Elas não viam que era burrice
destruir o mundo por uma causa imaginária como o EBIDTA? Eles não tem noção do sofrimento que causaram?”

Mas o EBITDA do mês está garantido…

Plano de ação imediato: Dizer “Não” quando for necessário defender o longo prazo ou sustentar ganhos globais.

 

 

 

Escrito ao som de “The times they are a-changing”, Bob Dylan.