Restaurante e escadas

Um dia, fui almoçar num restaurante mineiro,e notei algo que saltou aos olhos. A cozinha ficava num nível abaixo do salão principal, e havia uma escada (não muito larga) por onde os garçons subiam e desciam freneticamente.

stair

Fiquei imaginando o risco de acidentes: um subindo com um prato de feijoada, outro descendo com um monte de louças sujas, num dia movimentado e depois de várias horas de trabalho…

O ideal seria que a cozinha ficasse no mesmo nível do salão, mas se a restrição de espaço não permitir, mesmo assim existem soluções relativamente simples: basta um elevadorzinho para comida. É um investimento não muito caro e que resolveria permanentemente um problema de segurança.

Elevator-Lift

Por que você está fazendo isto?

POR QUE 347x210 copia

 

Há trabalhos de consultoria em que gasto dezenas de horas mas que não dão resultado efetivo algum. Por outro lado, há trabalhos em que o gasto de tempo é quase nulo, mas que dão muito resultado.

 
Um bom começo é fazer a seguinte pergunta para o operário, analista: “Por que você está fazendo isto?” “Para que serve?”, “Quem recebe esta informação vai fazer o que com isto?”

 
Dois exemplos reais:

 
1 – Um dia, eu estava vendo o operador de uma balança trabalhar. O produto chegava por uma esteira rolante. Ele pesava o produto, registrava o peso e a identificação do produto no sistema de registro da produção da fábrica.
Até aí, tudo bem.
 

Mas, depois de registrar no sistema, ele preenchia à mão, uma fichinha em papel, com a identificação do produto, peso, etc.

 
Eu: Por que você preenche à mão, sendo que já lançou no sistema a mesma informação?
Operador: Não sei, só sei que me mandaram fazer isto.

 
Esperei um outro turno, para fazer a mesma pergunta.
Eu: Para que você preenche a ficha a mão, e para que serve isto?
Operador 2: Sempre foi feito assim, e serve só para ficar arquivado.
Eu: E se acabássemos com esta ficha?
Operador 2: Eu daria graças a deus!

 
Fui falar com o coordenador:
Eu: Por que eles preenchem a ficha a mão?
Coordenador: Deve ter sido para um controle que precisamos fazer há tempos atrás. Mas hoje não precisamos mais disto. Vou mandar eles pararem.

 
Voltei dois dias depois, e, realmente, ninguém mais perdia tempo preenchendo à mão uma ficha inútil e desnecessária.
 
 

2 – Tinha um analista que preenchia uma série de informações de produção no sistema. Depois, imprimia um monte de instruções em um papel, e saía distribuindo o mesmo para os operadores da máquina.
 

Eu: Por que você imprime um monte de papel e distribui a mão? Não seria mais lógico colocar tudo no sistema?
(Depois de dezenas de explicações preliminares…)
Analista: É porque o sistema não tem o campo “observações do cliente”. Se tivesse, daria para colocar a mesma informação que vai impressa no papel para orientar o operador da máquina.
 

Eu: Então é só pedir para a TI colocar este campo?
Analista: Sim.
Eu: Então vou falar com fulano e pedir para colocar o campo.

 
Duas semanas depois, a impressão em papel com informações paralelas acabou, assim como o desperdício de tempo em redigir, imprimir e distribuir para todas as máquinas um papel com “observações do cliente”.
 

E é surpreendente como as pessoas não sabem o que estão fazendo, não sabem quais informações que geram é realmente útil para os outros, e quais informações que não geram poderiam ser úteis. E basta uma pergunta: “Por que você está fazendo isto?”

 

Cubos de gelo numa companhia aérea

Fiz uma viagem recentemente, numa certa companhia aérea brasileira, e notei o seguinte.
 

A aeromoça me ofereceu água, e colocou três cubos de gelo no copinho (de 200 ml). Os cubos de gelo eram cubos de tamanho normal, mas eram grandes para um copo pequeno desses.
 

main-qimg-3dbed7a0f8df5d82bbfbc050b7f20755

 

Tomei o copo de 200 ml em 1 minuto, e três cubos de gelo grandes não derreteram. Ainda fiquei mexendo um pouco para derreter o gelo, mas este era compacto demais para derreter tão fácil. Uns 5 minutos depois, a mesma aeromoça passou para recolher o copinho, e o gelo ainda estava inteiro.

 

Seria muito mais fácil para o usuário se a aeromoça colocasse três cubos de gelo menores com muita área superficial e pouca espessura. Este cubo derreteria muito mais rápido num copo pequeno.

 

Quanto custa fazer um cubo de gelo? O cubo de gelo é água e energia para congelar, mais energia para manter congelado, e uma fôrma que pode ser modelada para muitos formatos possíveis. O custo da água é pouco, o custo alto mesmo é o de energia. Este vem aumentando muito – senti isto na pele, com aumento de 40% na minha conta de luz da minha casa, agora em abril.

 

Portanto, com cubos menores, a empresa gastaria menos energia fazendo o cubo.

 

É um detalhe pequeno? É, mas também é a “ponta do iceberg”. Este é um detalhe que tem uma rara propriedade: ao mesmo tempo melhora o nível de serviço ao consumidor e diminui custos da empresa.

 

De detalhe em detalhe deste tipo, a galinha enche o papo. A companhia citada teve prejuízo de 1 bilhão de reais em 2014, e se afunda numa espiral descendente: custos altos, serviços ruins. Passagens baratas, para atrair clientes pelo critério preço baixo. Com menor receita, eles cortam serviços, o que faz o serviço ficar um pouco pior, e menos gente querendo voar por ela…

 

Arnaldo Gunzi

Abril/2015

Poka Yoke na enfermagem

Poka  Yoke é o termo japonês para “a prova de erros”. Ou seja, criar procedimentos que não permitam que erros aconteçam por acidentes.

De vez em quando aparece alguma notícia, de enfermeira que aplicou café com leite na veia do paciente, ou que aplicou vaselina ao invés de remédio. E, normalmente, se atribui o erro à negligência da enfermeira, falta de treinamento, salário baixo, etc.

 

Mas será que foi negligência mesmo? Ou falta de atenção? Ou simplesmente foi um erro? Imagine que milhares de pessoas passam pelo hospital por ano, e que milhares de soros são aplicados. Mesmo se a probabilidade de erro for baixa, haverá algum caso de puro erro mesmo, ainda mais porque o pacote de vaselina é muito parecido com o do soro.

Alguns desses erros não ocorreriam se o poka yoke fosse amplamente aplicado à enfermagem. Imagine, por exemplo, que o bico do pacote de vaselina fosse triangular, e o do soro comum fosse em formato de estrela. E que o encaixe do recipiente que vai aplicar o soro no paciente só aceitasse o formato de estrela. Isto automaticamente evitaria um erro grosseiro.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/1188482-os-erros-de-enfermagem.shtml

O Poka Yoke foi difundido por Shigeo Shingo, um dos criadores do método Toyota de produção. Há muito a se aprender com os ensinamentos do Sr. Shingo.
Arnaldo Gunzi
Mapa do site
Eng. Industrial numa fábrica de salsicha

Desequilíbrio de Processos

Muri, Mura, Muda

Formigas limpando o visor

Ultimo post da série.

O ferro de passar de uma empresa tinha um problema no mostrador de temperatura. Com a introdução do ferro a vapor, o vapor embaçava o visor. E ninguém estava conseguindo achar uma solução.

Shigeo Shingo imaginou algo andando na parte de dentro do visor, limpando o mesmo do vapor. E veio com a ideia de colocar álcool dentro do visor. Sendo muito volátil, o álcool evaporaria com o aumento da temperatura e limparia o visor. Solução simples e genial!

20140623-211429-76469273.jpg

Economizar energia

Um dos itens que Shingo sempre notava era a ergonomia.

Fazer com que o operador fique próximo dos itens que mais utiliza, em posição confortável.

E, se possível, que eles trabalhassem sentados. Trabalhar de pé faz com que o gasto de energia da pessoa aumente. Energia esta que poderia ser utilizada em outras coisas. No mínimo, ele vai chegar um pouco menos cansado em casa, e poder brincar mais com seus filhos.

20140623-210938-76178984.jpg

Bolinhas de gude melhoram o processo

Numa fábrica, havia um arame que era desenrolado como parte do processo.

O problema é que o arame às vezes travava no recipiente, e o operador tinha que dar uma batidinha para destravar. Shingo imaginou as mãos do operador dando uma batida, e pensou num jeito. Eles colocaram bolinhas de gude no recipiente. Assim, o próprio desenrolar do fio causa um atrito das bolinhas, a “batidinha” que evitava o travamento dos fios.

20140623-210612-75972222.jpg

Fábrica de sabão e melhorias

Numa fábrica de sabão, o processo consistia em derramar o sabão numa forma enorme, no chão.

Shingo propôs uma solução diferente. Ao invés de um único recipiente, utilizar vários recipientes em cascata. Desta forma, o processo de secagem do sabão diminui, além de ser muito mais simples e seguro manipular.

20140623-210200-75720739.jpg

Por que não criar ferramentas?

Numa fábrica, o operário precisava de um martelo e um alicate. Ele dava a martelada, depois deixava o martelo de lado e usava o alicate.

Por que não unir as duas coisas, num martelo-alicate? Poupa tempo e evita problemas na hora de trocar as ferramentas.

20140623-205648-75408203.jpg

A outra ferramenta de exemplo é alicate com um gancho. A ideia central aqui é que as ferramentas podem se adaptar ao que o operador necessita.

20140623-205840-75520255.jpg

Eng industrial e ferros de passar

Outra solução brilhante de Shingo ocorreu numa fábrica de ferros de passar.

Os ferros eram moldados e fundidos num formato de árvore. Um funcionário experiente dava uma marretada na base da árvore para separar o ferro do molde.

20140621-005542-3342432.jpg

Shingo percebeu que a marretada era num determinado ângulo. E projetou um sistema automático, onde a árvore é levado a uma certa altura (simulando a força da marretada) e guiada para cair no ângulo de quebra do molde.

20140621-005859-3539462.jpg

Desta forma, ele poupou milhares de horas de trabalho pesado dos operários da fábrica.

Eng industrial em uma fábrica de salsichas

Este e o próximo post são em homenagem a Shigeo Shingo, um dos maiores consultores do mundo em sua época.
Shingo ajudou a fundamentar e criar o modelo Toyota de produção.

Numa fábrica de salsichas, havia um processo manual de pegar as mesmas e colocar numa calha para embalagem.

20140621-004435-2675243.jpg

Shingo idealizou uma calha giratória para colocar as salsichas nas diferentes calhas, e assim eliminar trabalho manual.

Mas deu errado! Algumas vezes, a salsicha caia transversalmente às calhas, e rolava por cima da parede delas. A figura mostra o desenho desta situação.

Shingo visualizou as mãos dos funcionários resolvendo a situação. E chegou numa solução simples e brilhante. Colocou cordas sobre as calhas. As cordas movem-se em direções alternadas. Uma para frente, outra para trás. Assim, quando a salsicha cair sobre as calhas, ela vai girar e cair no lugar certo.