Confesso que colei

Confesso que já colei em provas do segundo grau. Isto era algo sistêmico. Quase todo mundo colava…
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Sempre gostei muito de estudar, e comecei o segundo grau estudando muito. Todas as matérias: português, matemática, física, química, geografia, história.
Com o passar do tempo, fui notando que os meus colegas colavam. Uns anotavam resumos em papeizinhos e escondiam. Outros escreviam na borracha e emprestavam a mesma para o colega do lado. E alguns passaram a me pedir cola.
Nestas circunstâncias, quem cola e não é pego (ninguém nunca foi pego) leva vantagem por estudar menos tempo. Não havia vantagem aparente em decorar um monte de conteúdo ao invés de escrever um resumo num papel e esconder no bolso.
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A Disciplina Consciente

Tive a sorte e competência de estudar o terceiro grau numa escola de enorme prestígio, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos.
 ITA
O que quero trazer aqui é um “código de honra” interno.
No ITA ninguém cola. Não tem esse negócio de escrever papeizinhos, mensagem na borracha, nada. É a Disciplina Consciente, que é ensinada dos veteranos aos calouros desde o primeiro dia em que entramos na instituição.
  • Colar é ruim para a universidade, justamente porque prejudica quem estuda sério e beneficia quem dá um jeitinho.
  • Colar é ruim para o aluno, primeiro porque é desonesto, depois porque isto se torna um hábito sem a qual ele não consegue viver sem. Quando precisar fazer algo sem colar,  vai ser muito mais difícil.
A confiança na Disciplina Consciente era uma via de mão dupla. Os professores também acreditavam na gente.
No ITA, alguns professores chegavam na sala, distribuíam a prova para cada aluno. As instruções: “Vocês têm duas horas para fazer a prova. Coloquem as mesmas neste envelope depois que terminarem”. Depois, o professor saía da sala.
Tinha uma professora nova que não acreditava muito nesta história de Disciplina Consciente. E tentou fazer uma pegadinha. Aplicou a prova, saiu da sala, e ficou espionando os alunos.
Ninguém colou.
Fez o mesmo em outras turmas, e de novo, ninguém colou. A professora passou a acreditar na gente.
A Disciplina Consciente era o orgulho dos alunos. Mas também era algo sistêmico: se ninguém cola, porque seria eu o único a fazê-lo? A pena por colar ia muito além de tirar zero na prova: significava ficar queimado com todos os colegas de todas as turmas por toda a eternidade.

Os veteranos estavam corretos
E os meus sábios veteranos estavam corretos. Não colar foi bom para a universidade e melhor ainda para mim.
O mundo é um ciclo. Recebo o que dou.
Quanto mais uma pessoa estuda de verdade, mais conhecimento ela tem e mais fácil fica estudar para as próximas provas.
Quanto mais uma pessoa cola, mais vai depender de cola no futuro.
Se eu errar, mas o processo for correto, vai ser melhor do que acertar por um caminho incorreto.
O mundo é mais rico se eu tiver as minhas próprias ideias, assumir os meus acertos e erros sem precisar dar um jeitinho brasileiro.
Tenho extremo orgulho em dizer que, nos 5 anos de engenharia de uma das escolas mais difíceis do Brasil, não vi nem um único caso de cola.

 

Arnaldo Gunzi

Veja também:
abe
stanley

 

9 comentários sobre “Confesso que colei

  1. Disciplina Consciente DC
    Passei pelo ITA, no período 1970-1974. Lá se praticava a DC. Saí de lá e, de quando em quando, comentava como funcionava. Desde entrar nos quartos de colegas, que ficavam abertos (sem chave), levar uma revista ou livro e deixar escrito atrás da porta, a não colar nas provas, etc.
    Eu sabia que não havia colado, mas como saber se colegas não haviam colado?
    Como saber se a DC era praticada por todos?
    Demorei a chegar a esta conclusão. Foi quando lembrei-me de uma prova (Motores?) que o professor estabeleceu o tempo, de uma hora, e sem consulta, para ser feito em qualquer momento, onde fosse melhor, desde que se entregasse na semana seguinte.
    Foi a minha menor nota no período do curso de engenharia (Eletrônica). Tirei 2 em 10!
    Isto só seria a garantia que eu não tinha colado.
    Mas, esta prova foi anulada pelo professor porque a curva de notas (média) foi muito baixa!
    Ou seja, os colegas também não colaram. Se tivessem colado, as notas teriam sido melhores resultando em uma curva normal e a prova, simplesmente não teria sido anulada, prejudicando aqueles que não teriam colado.
    Conclusão: A DC era praticada!

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    1. Anônimo

      Compartilho do mesmo sentimento seu, Carlos Roberto. Me formei em Eletrônica em 2015 e por sinal uma de minhas menores notas no ITA também foi em uma prova feita em casa, da matéria de computação do 2º Ano do FUND (CES-11).

      Lembro-me bem de ter passado do tempo da prova algo em torno de 1 ou 2 minutos, por descuido devido ao nervosismo. Anotei ao lado do meu nome esse deslize na prova e, além da nota baixa, tive ainda um desconto proporcional ao tempo ultrapassado. HAHAHAHA Sabia que aquilo me prejudicaria ainda mais, porém sabia também que era o correto a ser feito.

      Tenho muito orgulho de minha instituição e de que esses valores até hoje se perpetuam entre nós.

      Conclusão: A DC “É” praticada!

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  2. Também tive a honra de estudar lá, mas por um ano apenas. Numa das avaliações, entreguei a prova com muitas questões em branco. Questionada, contei ao professor os problemas de saúde pelos quais meu pai estava passando, que me impediram de estudar o suficiente e me desestabilizaram emocionalmente. O professor simplesmente me disse que poderia levar a avaliação para casa e trazer na semana seguinte! Orgulho pela confiança!

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  3. Antonio Augusto Martins Leal

    Sou um estudante do preparatório do APOGEU, e ja temos essa iniciativa, nosso coordenador entrega as provas e sai de sala, la todos ficam quietos, sentados, olhando apenas para sua prova, o que é algo bonito de se ver, pois é algo de confiança transmitida por ele e pelos alunos.

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  4. José Luiz

    Eu fazia isso com minhas turmas de oitavo ano no colégio militar de Salvador.
    É impressionante como temos a oportunidade de transmitir valores positivos aos ainda adolescentes.
    Se os professores tivéssemos a preocupação de tornar a DC uma prática comum, certamente estaríamos vivendo uma situação diferente em nosso país.

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  5. Anônimo

    Infelizmente não tive a oportunidade de estudar no ITA, mas fico feliz por nunca ter falado em prova alguma durante a graduação . Assim como você durante todo o ensino médio e fundamental eu colei bastante, acho até que nunca reprovei em biologia por causa das colas. Mas consegui entrar na graduação em um dos melhores curso do país, da área de computação, e tive a sorte de me juntar com as pessoas certas desde o primeiro período. Pois meu grupo de amigos na graduação me estimulou a nunca mais colar e estudar pra sempre ser o melhor aluno possível. Em resultado disso sei com certeza que apenas o meu grupo de amigo, eu e mais duas pessoas, foram os únicos que nunca colaram durante a graduação e acabamos o curso como os melhores aluno da turma. Quando eu leio relatos da DC do ITA me arrependendo por não ter tentando entrar lá.

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