Imãs de neodímio

Segue uma indicação lúdica, para crianças (e adultos que gostam de curiosidades).

É um conjunto de bolinhas de neodímio. Cada bolinha é bem pequena, tem 7 mm de diâmetro.

Os imãs são extremamente fortes. É só deixar um próximo ao outro que eles grudam muito forte, não é qualquer coisa que os separa.

Como todo imã, tem um positivo e um negativo. Por isso, o conjunto naturalmente forma linhas e círculos: positivo de um no negativo de outro, como uma fila indiana.

A foto a seguir é na forma bagunçada.

Comprei o conjunto de bolinhas no AliExpress. É só procurar por “Imã de neodímio” e fazer a compra. O lead-time de entrega é demorado. Foram uns três meses para chegar. O segredo é comprar e esquecer que comprou, confiando que vai chegar um dia.

Crianças muito pequenas podem perder ou engolir algum bolinha. O ideal é a criança ter 5 anos ou mais para brincar.

Quem sabe, isso ajude a aguçar a curiosidade delas para a bela ciência da Física.

Paul McCartney era um aluno medíocre na aula de música


O grande músico Paul McCartney passou pelo Brasil na última semana.

Aos 76 anos, o ex-Beatle continua a entoar com energia algumas das mais belas canções de todos os tempos.

Porém, a julgar pelas suas notas nas aulas de música, esperava-se um músico medíocre.

Paul odiava a escola de música. O seu professor nunca dava notas boas, e nem notava talento especial no jovem Paul.

Outro aluno na mesma escola de música era George Harrison – que também era julgado como um aluno mediano.

Ou seja, o professor quase reprovou metade dos Beatles em sua sala de aula!

Esta história pavorosa é contada por Sir Ken Robinson, num vídeo famoso no TED. A escola, nos moldes tradicionais, atrapalha a criatividade.

A vassoura-violino

A Av. Paulista fecha para carros aos domingos, o que a torna um belo lugar para passear.

Nela, artistas de rua a cada esquina vendem os seus sonhos, em busca de alguns trocados. Porém, esse da foto era diferente. Primeiro, a música (Bach eu acho) era muito bem tocada, bastante bonita. Segundo, ele tocava uma vassoura-violino, seja lá o que isso for.

Uma forma de se diferenciar é através da criatividade.

Sucesso ao mestre da vassoura-violino.

Origamis

Origamis são dobraduras de papel e imaginação.

Fiz uma série destes ao longo dos anos. Coloco aqui para manter a memória e a inspiração.

Tartaruga
Um “SatoruSauro”
Casinha do Totoro pequeno

A foto acima é composta de diversos papéis em formato de quadrados e triângulos intertravados.

Foguete
Icosaedro estrelado
Inspirado na torre restaurante giratório de Toronto
Ponte
Lírios
Rosa

E, para fechar um castelo:

A estratégia do logro

UMA ANTIGA LENDA

Conta uma antiga lenda que na Idade Média um homem muito religioso foi injustamente acusado de ter assassinado uma mulher. Na verdade, o autor era pessoa influente do reino e por isso, desde o primeiro momento se procurou um “bode expiatório” para acobertar o verdadeiro assassino. O homem foi levado a julgamento, já temendo o resultado: a forca. Ele sabia que tudo iria ser feito para condená-lo e que teria poucas chances de sair vivo desta história. O juiz, que também estava combinado para levar o pobre homem a morte, simulou um julgamento injusto, fazendo uma proposta ao acusado que provasse sua inocência.

Disse o juiz: sou de uma profunda religiosidade e por isso vou deixar sua sorte nas mãos do Senhor vou escrever num pedaço de papel a palavra INOCENTE e no outro pedaço a palavra CULPADO. Você sorteará um dos papéis e aquele que sair será o veredicto. O Senhor decidirá seu destino, determinou o juiz. Sem que o acusado percebesse, o juiz preparou os dois papéis, mas em ambos escreveu CULPADO de maneira que, naquele instante, não existia nenhuma chance do acusado se livrar da forca. Não havia saída. Não havia alternativa para o pobre homem.

O juiz colocou os dois papéis em uma mesa e mandou o acusado escolher um. O homem pensou alguns segundos e pressentindo a “traição” aproximou-se confiante da mesa, pegou um dos papéis e rapidamente colocou na boca e engoliu. Os presentes ao julgamento reagiram surpresos e indignados com a atitude do homem.

– Mas o que você fez? E agora? Como vamos saber qual seu veredicto?

– É muito fácil, respondeu o homem. Basta olhar o outro pedaço que sobrou e saberemos que acabei engolindo o contrário.

Imediatamente o homem foi liberado.

MORAL: Por mais difícil que seja uma situação, não deixe de acreditar até o último momento. Há sempre uma saída.

(do antigo folhetim da Viasoft News)

Plutão e a falácia narrativa

A falácia narrativa

O cérebro humano tem uma imaginação incrível, mas justamente esta capacidade de imaginar pode causar alguns “bugs”. Um deles é o de acreditar mais numa história bem contada do que na realidade…

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O planeta Plutão é o xodó dos astrônomos, o queridinho, por causa de uma história mais ou menos assim.

Nos anos 1900, o astrônomo Percival Lowell observou discrepâncias na órbita do planeta Netuno. Ele fez os cálculos e concluiu que existia um nono planeta, o planeta X, que estava interferindo na órbita de Netuno. Décadas depois, o tal planeta X foi descoberto, exatamente no local predito por Lowell. Em sua homenagem, batizaram o planeta de Plutão, que tem iniciais P e L (Percival Lowell).

 

Esta história confirmava o poder da matemática, segundo os livros didáticos.

Será?

 


 

O Rebaixamento de Plutão

Há alguns anos atrás, em 2006, o planeta Plutão foi desclassificado como um planeta de verdade. Foi rebaixado para a segunda divisão dos planetas do sistema solar, a categoria dos planetas anões.

Este fato causou uma comoção internacional. Como poderiam os cientistas, após tantos anos, tirar Plutão da série A de planetas?

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Acontece que a ciência avança com o tempo. E os astrônomos foram descobrindo mais e mais informações sobre o sistema solar.
Por exemplo, objetos como Quaoar (anunciado em 2002), Sedna (2003) e Eris (2005) têm quase o mesmo tamanho ou são até maiores do que Plutão. Descobriram o Cinturão de Kuiper, após a órbita de Netuno, que consiste em um cinturão de asteroides e que pode conter mais objetos similares a Plutão. Algumas das luas de Júpiter e Saturno são maiores do que Plutão.

 

Bom, no final das contas, o comitê da União Internacional dos Astrônomos de 2006 tinha duas opções: ou eles tiravam Plutão e ficavam com 8 planetas, ou incluíam o mesmo e ficavam com mais de 100 planetas! Os cientistas resolveram rebaixar Plutão.

 

Mas, então, tem algo errado na historinha do descobrimento de Plutão. Se este planeta é tão insignificante assim, ele não teria massa suficiente para perturbar Netuno, conforme descrito por Lowell.

E, na realidade, é isso mesmo. As estimativas iniciais de Lowell colocavam Plutão com um tamanho 12 vezes o da Terra. Medidas da massa real de Plutão, realizadas décadas seguintes, mostraram que massa real é minúscula, incapaz de perturbar Netuno.

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Mas, se não é Plutão que causa a perturbação na órbita de Netuno, o que é?

Na verdade, a perturbação que entrou no cálculo de Lowell nunca existiu. Era um erro de medida. Não foi culpa dele, mas os cálculos foram baseados numa premissa errada.

Portanto, a descoberta de Plutão foi pura coincidência. Um efeito placebo na ciência.

O rebaixamento de Plutão causou tanta comoção que, hoje em dia, alguns astrônomos defendem voltar Plutão à categoria de planeta. E, junto, também promover os outros 100 planetas da série B para a série A do campeonato de planetas. Querem virar a mesa do campeonato. Plutão é uma espécie de Fluminense planetário. Querem salvar Plutão no tapetão, no STJD espacial!

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Esta história é um exemplo do poder da imaginação humana.

Conclusão: quando for querer vender algo, tente contar uma historinha convincente junto, para aproveitar este “bug” do cérebro humano.


Leia também:
A verdade e o conto

http://csep10.phys.utk.edu/ojta_samples/course1/synthesis/perturbation/pluto-disc_tl.html

http://www.bbc.com/news/science-environment-33462184

https://www.space.com/19774-percival-lowell-biography.html

http://nineplanets.org/pluto.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Kuiper_belt

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto

Decorar muito é mais fácil do que decorar pouco

É impressionante como funciona a memória humana. É mais fácil decorar 10 fatos interligados de forma coerente, do que apenas 2 fatos.

Vejamos um exemplo. Por algum motivo, quero decorar as datas em que as bombas atômicas caíram no final da Segunda Grande Guerra.

Foram nos dias 06 e 09/08/1945.

Método decoreba pura: ficar repetindo as datas. Cinco minutos depois, não sei mais se é em seis do oito ou oito do seis.

Método do todo: Para mim, faz mais sentido pensar no todo, visualizar, correlacionar.

06 e 09 são múltiplos de 03. Aliás, 3, 6, 9 é uma progressão aritmética.
6 em Hiroshima, 9 em Nagasaki.

3 – 6 – 9

 

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Por algum motivo, minha esposa fala que agosto é o mês do desgosto, do cachorro louco. Um mês ruim, e uma coisa ruim, a bomba.

1945 é o ano do fim da Segunda Guerra, que durou de 1939 a 1945. A Alemanha tinha se entregue alguns meses antes.

A primeira bomba foi chamada de Little Boy. A segunda, de Fat Man.
Duas bombas diferentes porque duas tecnologias estavam sendo testadas, uma com urânio, outra com plutônio, substâncias radioativas.
Urano é o deus do céu na mitologia grega, Plutão, o deus do Inferno. Céu e Inferno. Algo caindo do céu e indo para o inferno.

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Plutão

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Urano

Urânio tem número atômico menor, 92, por isso, “garoto pequeno” Little Boy. Plutônio, um pouco mais pesado, “Homem gordo”, com número 94.

Talvez com uma bomba apenas o Japão não se rendesse. Materiais como urânio e plutônio eram extremamente difíceis de obter, enriquecer. Portanto, os EUA queriam mostrar que tinham mais do que uma bomba. Um “não se metam comigo”. Portanto, lançaram duas bombas.

Talvez porque decorar vários fatos obriguem o cérebro a fazer conexões cruzadas. E também, a memória é auto-reflexiva. Decorando X e correlacionando com Y, ajuda a decorar Y e correlacionar com X.

E também, mesmo esquecendo alguma dessas coisas, pelo menos ainda tenho um monte de coisas para contar.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Little_Boy

https://en.wikipedia.org/wiki/Fat_Man

 

​ E o Nobel vai para… Bob Dylan

Sempre achei o prêmio Nobel chato, totalmente fora da realidade, às vezes utópico, outras totalmente inútil. Por exemplo. Alguém se lembra de quem ganhou o prêmio de Economia ano passado? E quem ganhou o da Paz? O Obama? Não, ele ganhou em 2009.
Mas, este ano, vou citar o Nobel duas vezes. Um para o de Economia, que merece um post à parte. E o outro, é o de Literatura.

O prêmio de Literatura
Este post é sobre Bob Dylan, prêmio Nobel de Literatura. Sou grande fã de suas músicas.
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Costumo ouvir suas músicas quando tenho que fazer algum trabalho altamente criativo. Ao ouvir, me sinto numa viagem alucinante num mundo psicodélico. Pode-se dizer que 50% dos posts daqui foram escritos ao som de Dylan.
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Não tenho ideia do que ele escreveu em Literatura, nem a qualidade do que escreveu. Muito menos se merece um prêmio desses, que é de Literatura.

 

Mas tenho certeza que prêmio para Dylan vai trazer o mundo do Nobel para mais perto da realidade das pessoas comuns. O Nobel, até hoje, dava a impressão de ser um comitê de velhotes acadêmicos que faziam trabalhos sem sentido. O Nobel parecia premiar somente cientistas malucos que pesquisaram a bactéria do nariz da barata tropical. Mas um prêmio desses deve ser muito mais que isso, deve ser algo que inspire as pessoas e seja útil no cotidiano.

O objeto afere a régua
Um régua serve para medir o tamanho de um objeto. Mas, como diz o filósofo / economista Nassim Taleb, às vezes o objeto pode servir para avaliar a qualidade da régua.

 

Paradoxalmente, o Nobel para Dylan vai ser melhor para o Nobel do que para Dylan (que já ganhou tudo o que é possível em música).

 

Já que o comitê do Nobel abriu a cabeça, sugiro dois nomes para o de Literatura do ano que vem:

 

  • Neil Gaiman, pela série Sandman

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  • Alan Moore, pela série Watchmen

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Detalhe: ambas são histórias em quadrinhos.

Um novo paradigma de aprendizado: aprender por osmose

Um dia, há muito tempo atrás, eu estava ensinando matemática a uma pessoa que tinha passado pelo método de ensino Kumon.

Para quem não conhece, o método Kumon consiste em repetir as operações básicas (digamos 5 x 7) infinitas vezes, por inúmeras horas, e ir aumentando a dificuldade gradativamente. A pessoa, de tanto olhar para os números, acaba virando uma calculadora humana.

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E o meu aluno era literalmente uma calculadora humana. Fazia contas de cabeça num piscar de olhos, mais rápido do que se eu digitasse numa calculadora eletrônica.

 

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Entretanto, ele não sabia o mais importante de tudo: qual a conta a fazer. Ele sabia apenas a mecânica das operações, mas não dominava os conceitos do que tinha que ser feito para chegar na resposta correta.

Por isso, sempre fui muito crítico ao método Kumon, que se baseia na memorização e repetição. Preferia que a pessoa aprendesse a pensar, aprendesse a racionar por si só, ao invés de decorar um método de solução.

Mas hoje, mudei de ideia, ao ler o excelente artigo de Bárbara Oakley, na revista Nautil.us.

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Aprender por osmose

Bárbara Oakley conta que nunca gostou da área de exatas. Ela tinha uma dificuldade enorme com matemática no ensino básico. Por isso, ela fez letras – russo – em sua graduação. Mas um dia chegou à conclusão de que saber russo não era o que ela realmente queria, e decidiu seguir o caminho da Engenharia.

Sendo alguém que não tinha a menor capacidade de entender o raciocínio das derivadas e integrais de um curso pesado de engenharia (engenharia de produção não conta, rs), ela usou as únicas armas que tinha: memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição…

Digamos que cada pedacinho de conhecimento matemático que ela conseguia dominar separadamente fosse um “bloco de informação”.

Pouco a pouco, a partir do arsenal de “blocos de informação” que ela tinha, ela foi unindo o quebra-cabeça destes pedaços e começando a compreender o todo.

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Repetindo este mesmo processo arduamente, em alguns anos ela conseguiu remodelar o cérebro para a área de exatas.

A explicação de Oakley faz muito sentido para mim. Pensando bem, nem tudo o que aprendi estudando foi puramente raciocínio logo de início. Teve muita coisa que guardei para mim, sem entender direito o significado, e só depois de muito tempo consegui sacar a lógica deste “bloco de conhecimento”.

O cérebro humano não é um computador eletrônico, em que a informação é colocada e não muda mais. O cérebro precisa de prática, muita prática. Precisa de tempo para processar a informação. Precisa de memorização, mesmo sem saber direito para que serve. Precisa de repetição para internalizar conceitos. Precisa entender o raciocínio, mas também precisa exercitar, senão esquece.


Síntese

Como tudo na vida, não há paradigma eterno.

O filósofo alemão George Hegel (1770 – 1831) afirmava que o processo de evolução do conhecimento, a dialética, era formada da tríade Tese – Antítese – Síntese.

A minha Tese era a de que devemos entender o raciocínio, a lógica do conhecimento.

A Antítese, de Bárbara Oakley, mostrou que memorização e repetição são igualmente importantes para o aprendizado.

A Síntese é que para o aprendizado ser efetivo, devemos entender o raciocínio, mas também treinar, memorizar, e repetir este ciclo inúmeras vezes até internalizar o conhecimento.

Aprender por osmose não é tão ruim assim. Na verdade, talvez o cérebro humano só aprenda mesmo por osmose…

 

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Um sonho de mil gatos

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O gato jovem chega a uma conferência de gatos, onde estava a discursar o seu avô, o “gato sonhador”.

– Havia um tempo onde os gatos eram os mestres, e os humanos eram os nossos bichinhos de estimação. Tínhamos tudo: casa, comida, amigos. Cada um de nós ia trabalhar duro durante o dia, e a noite voltávamos para a nossa família, para cuidar de nossas esposas e filhotes. Muitas das casas tinham um humano, porque alguns de nós achávamos esses seres engraçados e inofensivos.

(Um dos gatos da plateia)
– Besteira. Pare de falar bobagem, velho gagá!

(Gato sonhador)
– Mas, um dia, mudou tudo. As nossas casas passaram a ser deles. As nossas ruas passaram a ser deles. Eles se tornaram os mestres, e nós é que viramos os bichinhos de estimação.

(Os gatos da plateia vão embora)
– Chega disto para mim. Esta história é absurda.
– Eu também vou embora. Tem uma tigela de leite quentinha e um pote de ração me esperando.


O gato jovem pergunta ao avô sonhador:
– Vovô, por que você continua a repetir a mesma história, se no final nunca te dão ouvidos?
– Pequeno, um sonho isolado não é nada. Mas o sonho de um número suficiente de gatos pode se tornar realidade. Se 1.000 gatos sonharem a mesma coisa ao mesmo tempo, podemos voltar a ser os Mestres.

 
(recontado a partir de uma história do Sandman, de Neil Gaiman)

Bicicletas motorizadas e que se dane a crise!

Um dia, ouvi uma história sobre dois velhinhos.

 

Os dois tinham sofrido com uma doença grave. Mas o primeiro, depois de alguns anos, estava alegre e saudável. Ele tinha encarado a superação da doença como uma nova oportunidade para fazer muito mais coisas boas em sua vida.

 

Enquanto isso, o segundo velhinho estava a se amargurar pelo que tinha perdido com a doença. Estava sempre a reclamar da vida, de sua saúde e das outras pessoas que não o ajudavam.

 

O Brasil atual vive uma crise econômica, política e moral. Mas a melhor postura para a crise é pensar que não há crise. A crise existe sim, mas não vou me deixar abater por ela. Vou procurar soluções ainda melhores, mais criativas, mais baratas, mais efetivas. E que se dane a crise!
 

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Toda ameaça também guarda inúmeras oportunidades.

Motos Honda

Hoje em dia, quem vê um carrão bonito da Honda não tem nem ideia de como tudo começou.

 

Soichiro Honda, o fundador da fábrica de carros Honda, teve duas fábricas destruídas pelos bombardeiros americanos na Segunda Grande Guerra (ele fazia peças de guerra para aviões e máquinas japonesas).  Com o fim da guerra, passou a fabricar motos. Na verdade, ele não começou com motos, mas sim com bicicletas motorizadas. Por que bicicletas motorizadas? Porque não não havia muita gasolina disponível, e as pessoas tinham que continuar a se locomover de alguma forma.

 

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Criar bicicletas motorizadas foi uma solução de custo muito baixo, que atendia a uma população carente de um país completamente destruído.

 

De um ponto de vista muito prático, há situações em que podemos fazer pouco, e outras em que podemos fazer muito. O meu poder é pequeno para acabar com uma crise governamental. Mas o meu poder é grande para buscar novas soluções, novas tecnologias, novas ideias, ajudar os outros e a mim mesmo, e assim, indiretamente, ajudar a passar por uma crise.

 


Nota: a lenda de que o ideograma chinês de crise significa “ameaça + oportunidade”, não é exatamente  verdadeira. Mas mesmo assim a ideia é válida.

 

Fonte: O trecho da história do Honda e a foto das bicicletas motorizadas é do livro “Honda por Honda”, Ed. Sigla, uma das raridades de minha biblioteca.

 

A Mini-Encubadora do Abraço

Esta é uma das ideias mais legais que já vi na minha vida.

Imagine um grupo de estudantes, muito jovens, num curso de inovação. O produto que saiu deste curso é uma mini-encubadora, projetada para ser utilizada em lugares pobres e remotos, como Índia, Bangladesh, Somália. Esta mini-encubadora é o “Embrace Infant Warmer”, que já foi utilizada para salvar mais de 50 mil crianças no mundo todo.

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O Desafio

Existe um curso em Stanford, da Escola de Design Thinking, que se chama Extreme Affordability. O Design Thinking é uma metologia poderosa de inovação, e a finalidade deste curso é a de construir protótipos de soluções que ajudem pessoas em países em desenvolvimento. O protótipo tem que ser feito em algumas semanas, deve ser efetivo e de custo baixo.

O desafio da equipe do Embrace (Jane Chen, Rahul Panicker, Linus Liang, Naganand Murty, Razmig Hovaghimian)
era construir uma encubadora que custasse 1% do custo de uma encubadora tradicional. Eles não entendiam absolutamente nada de medicina ou das condições de vida de lugares pobres, mas correram atrás para entender.


Encubadoras
Encubadoras são utilizadas para aquecer e proteger bebês prematuros ou que nasceram muito magros.

Um bebê recém-nascido é extremamente frágil e requer muitos cuidados. Um bebê prematuro, ou que nasceu muito magro (o normal é nascer de 3 a 4 quilos, mas tem bebês que nascem com 2 quilos!) é tão pequenino que não consegue produzir calor suficiente para se aquecer. Uma das principais causas da mortalidade destes é hipotermia. Ficar à temperatura ambiente do ar para estes pequenos é como estar mergulhado num balde de água gelada.

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Figura: encubadora tradicional

A encubadora é um equipamento que mantém o bebê aquecido aos 37 graus. Em lugares pobres e distantes, sem encubadoras, a chance de sobrevivência diminui muito.


Abordagem

Portanto, se o desafio era construir uma encubadora de baixo custo, era só pesquisar materiais mais baratos e tecnologias mais eficientes, correto?

Errado.

Um dos pilares do Design Thinking é a Empatia, que significa fazer exatamente o que o usuário precisa. Para isto, um dos alunos do curso comprou uma viagem ao Nepal, para fazer uma pesquisa de campo sobre o assunto. E ele descobriu o seguinte: Vários hospitais da região tinham encubadoras, e estas estavam ociosas. Mas, por outro lado, os problemas da mortalidade infantil existiam.

Algumas causas desta discrepância

  • Falta de conhecimento dos pais sobre a importância de se ter cuidados especiais com crianças prematuras
  • O hospital ficava longe, digamos 50 km, do vilarejo. E os pais não conseguiam ir ao hospital e deixar a criança lá por várias semanas

Portanto, apenas uma encubadora mais barata não resolvia o problema de forma efetiva. Era necessário mudar o próprio conceito de encubadora – não era o bebê ir à encubadora, mas a encubadora ir ao bebê.


O Embrace Infant Warmer

O Embrace é como se fosse um saco de dormir muito pequeno. Na base do Embrace, tem uma sacola com um gel à base de parafina. Há um equipamento elétrico que aquece o gel aos 37 graus. O gel fica aquecido por 4 horas. O custo de um Embrace é irrisório, 25 dólares. Outra vantagem é a de que permite o contato direto entre mãe e filho.

Outro pilar do Design Thinking é a prototipagem rápida, a fim de testar e evoluir o conceito. Os primeiros protótipos foram feitos, e o grupo terminou o curso de inovação com um protótipo funcional. Mas a ideia era tão legal que eles não poderiam parar por aí. Eles partiram para implementar de verdade e aperfeiçoar a solução proposta.

EmbraceWarmer
Eles fizeram parcerias com governos indianos e ONGs, e passaram a utilizar o Embrace em vilarejos distantes destes locais.
Outro passo, tão ou mais importante quanto, foi criar formas de conscientizar as mães sobre as causas da mortalidade infantil, ensinar sobre as posições corretas para aquecer o bebê com o corpo e ensinar a usar o Embrace. Ou seja, se fosse numa empresa, diria-se que eles trabalharam o produto e o processo.

O resultado é que até 2015 mais de 50 mil crianças foram ajudadas com o auxílio do Embrace, tendo potencial para ajudar milhões de outras crianças, nos lugares mais carentes do mundo.


O que eu posso fazer para ajudar?

Uma das coisas mais importantes é ter a noção de que podemos sim mudar o mundo. Uma única pessoa pode fazer a diferença, com vontade, determinação, correndo atrás. O mundo precisa de criatividade, de ideias boas, pessoas que inovem em processos, produtos, e no próprio trabalho.

No caso específico do Embrace, pode-se apoiar, acompanhar e divulgar o trabalho deles http://embraceglobal.org/embrace-warmer/.

Pode-se ajudar doando Embraces. A cada 50 dólares, pode-se doar uma Embrace e um curso de instrução para a mãe. https://giving.embraceglobal.org/checkout/donation?eid=30516


Resultados

Para um pai e para uma mãe, não existe nada mais bonito no mundo do que o sorriso do filho. Estas fotos foram tiradas do blog da Embrace.

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Embrace Débora.

EmbranceNabwami
Embrace Nabwami

EmbraceRoopa1
Embrace Roopa

Fontes:
http://embraceglobal.org/embrace-warmer/

Confiança Criativa, Tom & David Kelley