​ O velhinho ranzinza

Moro no mesmo prédio há 20 anos, e há 20 anos vejo o velhinho ranzinza, esbravejando com os porteiros, no vai-e-vem do cotidiano.

 

Ele hoje tem uns 85 anos. Há 20 anos, devia ter 65. Tem um tipo físico de descendente de alemão. Alto, cabelos brancos, usa óculos, tem um queixo quadrado, cabelos espetados. Parece alguém fechado, e com cara de bravo.
 
Sempre o via na portaria, reclamando de algo, cutucando os porteiros e o zelador. Uma mancha na parede. Um buraco na garagem. Uma necessidade de reforma no playground.
 
Sempre fiquei muito tempo trabalhando ou estudando, portanto esbarrava com o velhinho pelos corredores somente uma vez por mês. Só um “olá”.
 
Esses esporádicos encontros eram como peças de um quebra-cabeça liberadas mensalmente.
 
Ao poucos, fui percebendo. O velhinho mora sozinho. Nunca o vi com companhia alguma. Esposa? Nunca vi. Filhos? Não. Algum dia um parente veio visitá-lo? Se houve, nunca vi, baseado nesses “olás” esporádicos.
 
Com o passar dos anos, ele foi ficando mais velhinho, um pouco menos bravo, e passava mais tempo reclamando com os porteiros.
 
Nos últimos anos, ele claramente está com dificuldades motoras. Talvez por isso, ele faz uma atividade física na academia aqui perto, de manhã, mesmo nos dias mais frios. 
Também nesses últimos anos, ele tem ficado cada vez mais tempo na portaria, reclamando de algo a ser feito, espetando os porteiros. Talvez ele ache que esta é uma forma dele agregar valor a esta micro-comunidade de vizinhos.

 

Não sei no que ele trabalhava, se algum dia foi casado, se teve ou não filhos, irmãos, amigos. Mas, no fundo, é apenas uma pessoa solitária, que gosta de uma companhia, mesmo que seja ficar brigando com os porteiros, discutindo com o zelador, pegando no pé das faxineiras.

 

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, ele mesmo um velhinho extremamente ranzinza e solitário, fez uma analogia entre seres humanos e porcos-espinhos.

 

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Se os porcos-espinhos ficam perto demais, os espinhos espetam o outro, e dói. Então eles se afastam.

 

Se os porcos-espinhos estão muito longe um do outro, sentem frio. Quando estão com muito frio, querem se aproximar. E ficam assim, neste eterno vai-e-vem, vem-e-vai, de ficar entre o espinho e o frio.

 

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Talvez, no dia em que o velhinho passar dessa para melhor, quem sabe ele deixe seu apartamento de herança para o zelador, os porteiros, e as faxineiras, por serem suas únicas companhias dos últimos 20 e tantos anos.

Tufões

Estive a folhear o Tao Te Ching, e encontrei esta frase muito verdadeira.

O sábio não se desespera se surgirem tufões,
pois tufões não tardam a passar.
Uma chuva não dura o dia todo, é produzida pelo céu e pela terra.
Se tudo é tão inconstante, como não seria o homem?
Por isso, o que importa é a atitude interna.

 

 

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Vencer x Ficar em primeiro

Vencer não significa necessariamente ficar em primeiro.

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Pode-se vencer, ficando em segundo, mas competindo de forma honrada.
Pode-se vencer, ficando em qualquer colocação, se o participante fez o melhor possível, colocou todas as suas energias nisto.
Pode-se vencer ficando em último, mas completando a prova.
Nem completar a prova, mas se desenvolvendo bastante neste caminho.

Ao contrário, ficar em primeiro pode não ser vencer.
Ficar em primeiro, prejudicando os demais, não é vencer.
Ficar em primeiro, contrariando a integridade moral e ética, não é vencer.
Ficar em primeiro, às custas de saúde, família e da vida não é vencer.

Meta é diferente de métrica.

Muita gente tem uma meta, mas a busca pela métrica errada.
Maior não é necessariamente melhor.

 

A Associação dos Burros Esforçados

Um burro esforçado

Hoje, no trabalho, um colega disse que eu era inteligente. Não concordei, disse que era um “burro esforçado”, embora bastante esforçado. E que era melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Ele não entendeu nada, então estou escrevendo para explicar melhor a história.

No Instituto Tecnológico de Aeronáutica, onde fiz a graduação, existe a “Associação dos Burros Esforçados”.

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Segundo o estatuto da associação:

“Gloriosa associação daquelas infelizes criaturas de inteligência normal mas que, por se esforçarem muito, acabam passando no vestibular do ITA e tendo que conviver com os gênios da escola”.

Isto fica mais claro exemplificando o que significa “gênios da escola”.

  • Tinha um sujeito que era a perfeita definição de “sleep learning”. Chegava atrasado, dormia metade da aula. Mas, no pouco tempo em que estava acordado, apontava erros lógicos do professor e fazia perguntas não triviais. Mas isto só acontecia quando ele tirava a soneca. Quando prestava atenção na aula, não tinha ideias geniais.
  • Tinha um outro, que ficava o tempo todo jogando bola. Ou fazendo alguma outra atividade extra-curricular, como dar aulas no cursinho da cidade. Começava estudar para as provas provas meia-noite do dia anterior à mesma. E, como sempre, cravava o “L” habitual (nota máxima).
  • Tinha um que fazia a prova inteira de cabeça. Não escrevia uma linha. Só escrevia a resposta final. Até que, um dia, um professor implicou com ele, e ele passou a registrar no papel os passos intermediários de seu raciocínio, para o pobre professor entender o que se passava em sua cabeça privilegiada.

Mas nem todos era assim. Tinham as pessoas normais, que estudavam muito. Que estudavam todos os dias. Que liam a teoria, faziam os exercícios, reliam a teoria, à exaustão. Que levavam livros para casa no final de semana para estudar. Todo este trabalhão para tirar uma nota um pouco acima do mínimo necessário, e olha lá. A gloriosa “Associação dos Burros Esforçados” era para estas infelizes criaturas. Segue a página com uma explicação oficial sobre o assunto.

http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=ABE

Também tinha o burro preguiçoso, mas este em raros casos ia para frente.

E também tinha o gênio esforçado… aí, sai de baixo.


A lebre e a tartaruga

Mas, passados muitos e muitos anos, finalmente sinto que é melhor ser a Tartaruga do que a Lebre do conto de Esopo.

Isto ocorreu ao acompanhar uma aula do prof. Clóvis de Barros Filho, sobre Ética. Há várias disponíveis no youtube.

Na antiga Grécia, a ética aristotélica dizia que o melhor para o ser humano era atingir a Virtude. Ou seja, alguém de grande habilidade num determinado campo deveria atingir o seu máximo potencial, seja em música, em política, matemática, etc. Os pobres coitados que não tinham tal privilégio deveriam ajudar os iluminados a conseguirem atingir os seus objetivos. Isto significava que o lugar do escravo era como um escravo mesmo. O aristocrata era o aristocrata, não deveria fazer algo mundano como trabalhar.

Isto mudou com o pensamento de Imannuel Kant. Na moral kantiana, que é a visão moderna do mundo, cada ser humano deve se empenhar em fazer o melhor possível dentro de seus limites.

Barros compara alguns futebolistas. No São Paulo de uns anos atrás, havia o Paulo Henrique Ganso no meio-campo. Extremamente talentoso. Elegante no domínio da bola, e com passes primorosos. Cabeça erguida, grande visão de jogo. Genial. Mas preguiçoso. Ficava parado olhando a vida passar… Não corria, não marcava, nada. Era o talento sem esforço.

Já outro jogador, o Aloísio “Boi Bandido”, era grosso que só. Ruim de bola, talento zero, caneludo. Porém, corria atrás da bola sem parar, dava carrinho, ajudava na defesa depois corria para o ataque, azucrinava os adversários. O talento nulo compensado pelo esforço total.

Se fosse para o técnico Muricy Ramalho tirar alguém, ele tirava o Ganso. E, se fosse para a torcida idolatrar alguém, o “Boi Bandido” era o mais popular. O esforço predominava sobre o talento.

Esta é a vitória de Kant sobre Aristóteles.

E também porque é melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Duas notícias relacionadas com postagens recentes

1 – Bob Dylan não comparecerá para receber o Prêmio Nobel
Conforme escrito neste post, Dylan não precisa do prêmio, mas o Nobel precisa de Dylan.

 
2 – A companhia Rakuten patrocinará a equipe do Barcelona
Rakuten é a companhia que usa o inglês como língua oficial, em todos os e-mails e apresentações da empresa. Vide post.

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Roubei a ideia (bons artistas copiam, grandes artistas roubam – Pablo Picasso), e passei a enviar e-mails apenas em inglês.

Resultados:
– Até hoje leio e escrevo em inglês, com a maioria das pessoas com quem me comunico por e-mail
– Aprendi uma série de palavras, e certamente deixei de esquecer outras
– A maioria das pessoas achou uma boa ideia, mas alguns (uns 20%) não se sentiram muito confortáveis e continuaram a escrever em português

O resultado final foi muito positivo. Se não temos oportunidade de usar o inglês no dia-a-dia, que tal criar essas oportunidades?

 

 

Links:

Bob Dylan declina convite para cerimônia do Nobel: ‘Agenda cheia’

http://www.mundodeportivo.com/futbol/fc-barcelona/20161116/411905020517/noticia-md-rakuten-podria-ser-el-nuevo-sponsor-del-fc-barcelona.html

 

Bônus: Futebol Total.

https://ideiasesquecidas.com/2016/03/25/as-origens-do-futebol-total/

Qualquer um pode se tornar um Neymar com 10 mil h de esforço. Será?

10 mil horas necessárias, não suficientes

Há uma teoria de que 10 mil horas de trabalho são necessárias para atingir a maestria em qualquer área. Esta teoria das 10 mil horas foi popularizada pelo livro “Outliers”, do jornalista Malcolm Gladwell.

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Excelência para fazer tarefas complexas requer um nível mínimo de prática, a fim de que as conexões neurais se formem no cérebro. E, na média, esse nível mínimo de prática é de 10 mil horas, segundo as pesquisas citadas no livro.
Muita gente interpreta isto como se qualquer pessoa pudesse se dedicar a qualquer tarefa por 10 mil horas e se tornar “top of the world”.

 
Se eu começar a jogar bola hoje, e praticar fortemente por 10 mil horas, poderei me tornar tão craque quanto o Neymar! Bons genes ajudam, mas podem ser compensados pela vontade e disposição! Motivação!

 
Será mesmo?

 


O experimento de Dan
Teve um cara que levou a história das 10 mil horas ao pé da letra.

Dan McLaughlin era um fotógrafo, que abandonou a carreira para praticar golfe e se tornar um profissional. Ele mal tinha jogado golfe antes. Ele começou a jornada em 2010, e foi documentando seus passos num site, o The Dan Plan (http://thedanplan.com/).

 

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O experimento de Dan rendeu a ele várias aparições na TV, entrevistas, citações em livros… Imagine só, ele provar que uma pessoa comum pode se tornar um Neymar do golfe apenas com esforço próprio!

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Não entendo de golfe, mas pelos comentários, ele fez um bom progresso desde o início da jornada. Há um timer regressivo no seu site, que iniciou nas 10 mil horas e foi decrescendo…

O contador, no final de 2015 (depois de quase 5 anos de experimento) dizia que faltavam 4 mil horas.

 

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Até que ele desistiu.

O contador nunca mais se moveu.

 


 
A parede forte da realidade



O último post de Dan é de nov 2015, e dizia que ele tinha tido uma contusão nas costas. Ficaria parado por um tempo por conta disto.
Hoje, out/2016, um ano depois, e nenhuma outra postagem. Nenhuma menção de como foi a recuperação. Nenhuma explicação se ele definitivamente desistiu ou deu uma pausa.

Um antigo fã escreveu um post muito interessante, (https://thesandtrap.com/b/thrash_talk/post_mortem_on_the_dan_plan). Diz que Dan passou a vender refrigerante. Isto pode ser comprovado acessando a página a seguir, onde conta uma historinha da empresa de refrigerantes.

Our Story

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Realmente, não é nada fácil passar anos e anos buscando uma meta, sem suporte financeiro. E não tem nada errado em ele buscar algo que pague as contas.
O ex fã cita que encontrou-se com Dan, e ele tem um espírito de artista.

Dan está mais para alguém que gosta de um show, que quer se mostrar. E por isso, ele não vai deixar um post de despedida. Talvez um dia ele volte a perseguir a meta, fazendo todo o estardalhaço em cima disto.

 


 

Maratona



Na minha opinião, uma meta, principalmente uma meta difícil, tem que ser encarada como uma maratona: dosar energias, não se empolgar demais no começo, persistir.
Na minha opinião também, discursos motivacionais são estímulos de curto prazo. Têm validade limitada.
Metas de longo prazo devem ser claras, específicas. Também devem ser atingíveis. Condizentes com os seus valores. Condizentes com as suas habilidades. Pensar grande mas fazer pequeno, passo a passo. Sem show, sem alarde.

 


Validade nula



Outra coisa é que experimento de Dan não serve nem para provar nem para desprovar a teoria das 10 mil horas.

Primeiro, que Dan representa apenas uma amostra. Para qualquer teste estatístico ser válido, deve-se ter muito mais amostras, de preferência milhares.

Segundo, Dan não entendeu o espírito da coisa.

A condição das 10 mil horas é necessária, não suficiente. Ou seja, Neymar precisou jogar muita bola, talvez perto de 10 mil horas, para ser o que foi. Foi uma condição necessária. Uma pessoa qualquer pode ficar 30 mil horas jogando, que não vai chegar no nível dele. Há vários outros jogadores profissionais que estão jogando há mais tempo e não estão no nível dele. Os genes certamente fizeram a diferença.
Além disso, 10 mil é um número médio. Pode ser muito menos que 10 mil, ou muito mais, dependendo de cada pessoa.

Outra coisa que Gladwell destaca no livro é que o timing também é crucial. Bill Gates, os Beatles, além de serem extremamente competentes e terem essas 10 mil horas, também estavam no lugar certo, na hora certa, e tiveram sorte, para serem outliers (outlier = ponto fora da curva, tipo todo mundo tira menos que 5 na prova, chega um cara e tira 9,5).

Portanto, o experimento de Dan está mais para um showzinho mesmo, do que para algum experimento conclusivo, para o bem ou para o mal.

 

O Manual do Escoteiro Mirim

Na minha biblioteca particular, há uma coleção de livros que guardo até hoje: o Manual do Escoteiro Mirim.

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É a série de livros mais antiga que guardo até hoje.

São 20 volumes, completos, estrelando os sobrinhos escoteiros do Pato Donald, Margarida, Tio Patinhas, Pateta, etc… É uma espécie de enciclopédia lúdica, para crianças.

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Foi a minha mãe que comprou esta coleção, há 30 anos atrás. Mas não comprou a coleção inteira de uma vez. Era assim: toda semana, alguns fascículos da biblioteca eram publicados, e ela ia à banca de jornais comprar. Quando os fascículos completavam um livro completo, ela podia pedir para encadernar um livrinho. Então eram necessários vários meses de dedicação para completar esta coleção.

 

A coisa mais comum do mundo era alguém começar a colecionar e parar no meio. Mas ela, que sabia que eu gostava de ler, persistiu até o fim.

 

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Os livros continham capítulos sobre a natureza, jogos, mágica, jornalismo, esportes olímpicos, futebol. Sempre muito ilustrado, de fácil leitura para crianças.

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Há tempos atrás, não existia internet, nem computador pessoal. A biblioteca do Escoteiro Mirim foi para mim algo como um Google da época.

 

Recentemente, a Editora Abril começou a republicar o manual. Este pode ser encontrado nas livrarias, como no link abaixo. Hoje, com a internet, já não é mais tão legal, mas não deixa de ser uma coleção  bastante interessante.

http://www.livrariacultura.com.br/p/manual-do-escoteiro-mirim-40045899

 

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Como ser infeliz com 1 milhão de dólares

É possível ser infeliz com 1 milhão de dólares? Sim, e é muito fácil e até comum. Basta ter expectativas muito acima disto.

Se começo com 10 milhões e termino com 1 milhão, quebrei a cara.
Se sou um ricaço, herdeiro de uma fortuna e tenho uma grande pressão por sucesso, o 1 milhão é só o início da jornada.
Se tinha uma expectativa de receber vários milhões, mas terminei com 1, também quebrei a cara.

É até possível inventar uma fórmula para isto:

 

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Se a realidade for maior do que a expectativa, estou no lucro.
Se a expectativa for muito maior do que a realidade, aparentemente estou no prejuízo.

 


 

O mundo globalizado dos tempos atuais não ajuda a setar as expectativas corretas.

Num anúncio de algum produto, colocam a pessoa mais bonita do mundo, que passou por maquiagem, cabelereiro e photoshop. De repente, ela passa a ser o padrão para milhões de jovens, que nunca serão sequer parecidas.

Um jovenzinho abre uma empresa chamada “Facebook” e conquista bilhões de usuários. Passa a ser o heroi, o vencedor. Mas para cada vencedor haverá centenas de milhares de empreendimentos que fracassarão.

 


 

Mas por outro lado, é possível ser feliz com 1 real.

É algo meio estoico, meio zen-budista. Mas se a expectativa for igual a Zero, a fórmula fica assim:

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A realidade é a única coisa que temos. Se ela não for o sucesso, o que será?

 


Equilibrar pratos

A vida é como equilibrar pratos.

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Temos objetivos de curto, médio e longo prazo. Temos família, trabalho, estudos. Cuidar da saúde física. Cuidar da mente. Continuar sempre em busca do desenvolvimento pessoal. Várias demandas urgentes e não urgentes, mais importantes e menos importantes.

E temos uma quantidade finita de tempo, energia, concentração, dinheiro.

 


 

Portanto, com a quantidade finita de recurso, temos que ir priorizando alguns pratos, dando uma girada em outros que estão para cair. Às vezes, um ou outro prato cai, às vezes um outro prato é adicionado. O importante é o balanço geral, o equilíbrio entre curto e longo prazo, o equilíbrio entre o que posso fazer e o que não posso, o equilíbrio entre trabalho, estudo e família.

 

Arnaldo Gunzi

Jul 2016

Metrô sem catraca: o VLT carioca

Em 2006, fui para a cidade de Quebec, no Canadá.
Nesta cidade belíssima, dois detalhes me chamaram a atenção: as casas não tinham muros e os ônibus não tinham cobrador.

Casas sem muros
Nenhuma casa, hospital, universidade, shopping, nada tinha muro. Fiquei alojado na Universidade de Laval, e andando pelo câmpus, chegava num ponto que não sabia se havia saído da área da universidade ou não.
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Casa em Quebec
Morei muito tempo na periferia de São Paulo, onde além de um muro alto, a minha casa tinha uns pedaços de vidro cimentados em cima do muro e um cachorro Pastor Alemão grande para tomar conta da casa. Eu me perguntei quando no Brasil chegaríamos neste nível de civilidade canadense.
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Muro de casa da periferia de SP

Ônibus sem cobrador
A segunda coisa chocante que vi eram os ônibus sem cobrador. Tinha o motorista e uma caixinha para pôr o dinheiro. Não voltava troco, você tinha que colocar o valor exato. O motorista não conferia nada: se o ônibus custasse 2 dólares e o fulano colocasse 10 centavos, ninguém nunca ia saber quem foi.
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Ônibus do sistema de transporte de Quebec
Eu pensei. Se o nível de calote for baixo, menor do que o custo de pagar um cobrador para ficar na catraca, realmente é melhor para todo mundo não ter cobrador. Confiança entre as pessoas e honestidade são a chave disto tudo. A população sabe que, se não pagar, a empresa de ônibus não vai sobreviver, o que será ruim para todos. É um pensamento coletivo, ao invés de individual.

O VLT carioca
Avançando 10 anos no tempo: 2016. A cidade do Rio de Janeiro agora conta com um transporte chamado VLT: Veículo Leve sobre Trilhos. Um trenzinho de 5 vagões pequenos, ao ar livre. Chamar de metrô é exagero, está mais para super ônibus articulado.
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Ele veio para preencher alguns erros no transporte da cidade. Por exemplo, o metrô do Rio não passa pela Rodoviária. O metrô também não passa pela zona portuária. Nem pelo aeroporto Santos Dumont (mas tem uma estação a um quilômetro dele, a Cinelândia). Já o VLT faz exatamente este trajeto, e uma das ideias é que o VLT ajude na revitalização da região portuária da cidade.
E o mais curioso: o VLT carioca não tem catraca! Não tem cobrador! Tem apenas um leitor de cartão, em que o próprio passageiro passa o Rio Card.
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Como o VLT passa pelo centro do Rio, que está sendo embelezado para as Olimpíadas, fazer estações com catracas ficaria muito feio. Hoje é tudo aberto, igual a um ponto de ônibus.
E se o passageiro não passar o cartão? Há uns fiscais, que podem ver e cobrar que o passageiro passe o cartão. Mas não há tantos fiscais assim, o que significa que será muito na confiança mesmo.
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O VLT tem sensores para contar o número de passageiros. Se o calote for maior do que 10% dos passageiros, a prefeitura vai cobrir a diferença. Se este calote for consistemente alto, não vai restar outra alternativa senão levantar muros, colocar catracas e cobradores em torno das estaçõeszinhas. Quem sabe, colocar cacos de vidro no alto do muro e um Pastor Alemão também. Depois que as Olimpíadas passarem, é claro.

Pois bem, vejamos em que vai dar o experimento do transporte sem catracas. A população carioca em geral é trabalhadora e honesta. O VLT faz um percurso pequeno e pelo centro da cidade. Entretanto, há um nível de pobreza alto no RJ, e que teria que ser resolvido atacando as raízes: economia forte, educação de qualidade, etc.
Vou resgatar este post daqui a 10 anos, para comparar a expectativa com a realidade. Será que em 2026 teremos o nível de Quebec em 2006?

The girl from Ipanema

O Brasil é um gigante deitado em berço esplêndido que parece nunca acordar.

 

Um reflexo disto é que o volume de trabalhos escritos em inglês e traduzidos para o português é infinitamente maior que os na direção oposta. Dificilmente algo nascido no Brasil conquista o mundo.

 

Uma exceção é a música “Garota de Ipanema”. Esta foi composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, e é um ícone de nossa cultura. Foi traduzida para inglês nos anos 60.

 

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A versão em inglês é muito mais pobre que a original.
 
Começa assim:
“Tall and tan and young and lovely the girl from Ipanema…”

 

Algo como “alta, bronzeada e jovem e amável, a garota de Ipanema…”

 

Não chega nem perto de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa…”.
 


https://www.youtube.com/watch?v=NldPFVKYmiw

Outro trecho “When she walks, she’s like a samba” – “Quando ela anda, é como samba”.

 

Também não tem nem comparação com “o seu balançar é mais que poema, é a coisa mais linda que já vi passar”.
 


A sonoridade da versão em inglês é a mesma, mas não a letra. A letra em inglês é uma tradução. O original em português é um poema, escrito com o coração de Vinícius e a genialidade de Tom.
 
No bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, há uma rua chamada Vinícius de Moraes e um bar, onde ele e Tom Jobim se encontravam. Um dia, fiquei ali, olhando os transeuntes, o sol, o calor e o mar, e imaginado a dupla compondo a canção: “moça do corpo dourado do sol de Ipanema”, “num doce balanço a caminho do mar”, “se ela soubesse que quando ela passa o mundo todinho se enche de graça”.
 
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“The girl from Ipanema” foi cantado por Frank Sinatra e vários outros artistas. Alcançou sucesso mundial graças a esta tradução para o inglês.

 

Entretanto, se “Girl from Ipanema” é mundial, temos o privilégio de ser o único povo que consegue compreender “Garota de Ipanema” em sua essência, no original em português bem brasileiro.
 

A corrente invisível

Havia um homem preso a uma corrente invisível. Era uma corrente leve, fina e muito comprida. Tão comprida que não limitava os movimentos. O homem poderia ir para onde quisesse, sem problemas. Mas ainda assim, estava preso à corrente, e isto fazia com que ele sempre voltasse ao ponto inicial.

O homem bolou um plano. Serrou as correntes invisíveis, criou asas artificiais e saiu voando, rumo à liberdade.
Voando nos céus, o homem pôde ver as pessoas de outra perspectiva. E descobriu a verdade: Assim que ele tocasse os pés no chão e fizesse contato com outras pessoas, ele seria preso a novas correntes invisíveis. Porque todas as pessoas estavam presas a correntes invisíveis!

 

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Arnaldo Gunzi