O duende do Tempo

Hospitais

Haverá uma época na vida em que você será saudável, mas estará sempre nos hospitais. Ou os seus filhos, pequenos, ou seus pais, que estarão velhinhos, vão precisar dos seus cuidados, de tempos em tempos.

 

É cansativo, mas estas pessoas valem qualquer pena. Tudo vale a pena se o coração não é pequeno, reinterpretando o grande poeta Fernando Pessoa.

 

Lembre-se de que você já precisou de auxílio semelhante, quando era criança. E, num futuro não muito distante, será a sua vez de necessitar da ajuda de seus pequenos.

 


 

O Duende do tempo

O Tempo tem um auxiliar. Este é um duende minúsculo, que vive junto conosco desde que nascemos.

 

Quando nós somos crianças, este duende já é adulto. Este tem a função de puxar os fios de cabelos, fazer crescer as unhas, nascer os dentes, acrescentar massa nos músculos, mudar as feições do rosto. Criar novas conexões neuronais, fazer a voz engrossar. Ele tem um trabalho à beça a ser feito. Ele não para de trabalhar, nunca.

 

Quando somos adultos, o duende já é velho, mas felizmente, há menos trabalho a ser feito. É só dar manutenção nos equipamentos do corpo, substituir células ruins por novas, regular o que está mais ou menos.

 

À medida em que as décadas passam e nós ficamos mais idosos, o duende do tempo já é um ancião, e trabalha num ritmo muito lento. Ele vai ficando esquecido, vai caducando. Ele deixa manchas na pele, pinta os fios de branco, arranca os fios de cabelo mas esquece de plantar novos. Os músculos perdem massa, e ele não consegue mais repor. Conexões neurais se perdem. Não se lembra mais como faz para rejuvenescer as células, e nem consertar os erros da visão e da audição..  …

 

É ciclo da vida, sem fim, eternamente girando.

 

Tem um ditado budista que diz:

E os filhos tornam-se pais, e os filhos tornam-se pais…

 

 

Trilha sonora: Bloco de notas de Anna Magdalena – Minueto em G maior – J. S. Bach

 

Da natureza de Escorpião

Conheço há muito tempo uma senhora, que adotou uma menina.

A senhora gostava muito da menina, sempre a tratou com o carinho de uma filha. Já a menina, não tinha o mesmo comportamento, era só rebeldia e ofensas para com a mãe adotiva.

Passados uns 15 anos, fiquei sabendo que a agora moça abandonou totalmente a mãe adotiva, indo morar na favela. Não mantém relações, não tem mais contato. Sumiu da vida da pobre senhora.

Existe uma fábula que me veio à mente, sobre a situação acima.

​ 



O sapo e o escorpião

O escorpião queria atravessar o rio, mas não havia como o fazer. Ele pediu a ajuda do sapo.

– Pode me levar ao outro lado, sapo?

O sapo, que não é bobo, retrucou.

– Mas você vai me picar com o seu ferrão venenoso

Respondeu o escorpião:

– Sapo, é claro que não. Se eu te picar no meio do rio, vou morrer também.

Como a resposta fazia sentido, o sapo concordou em levar o escorpião.

Porém, no meio do rio, o sapo sentiu o ferrão penetrando na sua pele.

– Você é maluco, escorpião? Agora nós dois vamos morrer.

– Pois é sapo. Não consegui evitar. Esta é a minha natureza.

Aforismos ditirâmbicos

De uma avó: Quando as crianças (netos) chegam em casa, acaba o sossego e começa a alegria. Quando elas partem, começa o sossego, porém, acaba a alegria.

 


 

Porque reinventar a roda:

O que não consigo criar, não consigo entender – Richard Feynman, brilhante físico americano.

 


 

Bondade x Castigo

Vi uma pessoa lamentando: “Sempre fui tão bondosa na vida, porque sou castigada com tantos infortúnios seguidos?”
Ora, se a pessoa é realmente bondosa, ela deveria estar fazendo bondades a fundo perdido, de coração, sem esperar nada em troca. Se ela faz essas bondades esperando recompensas, ela não faz por bondade, e sim, por interesse. E se ela cobra o Deus dela pelo favores, ela o está chantageando, não diferente do mafioso italiano que cobra favores de suas vítimas.

 


 

Gamificação = Inutilidade.

Vi um sistema que gamifica a participação das pessoas. A cada vez que a pessoa faz login, ganha pontos. A cada curtida, pontos. A cada comentário, pontos. A cada quiz correto, pontos. E para que servem os pontos? Para ter a chance de trocar por alguma inutilidade, como uma camiseta com o símbolo do programa, ao acumular milhares desses pontos.

O pessoal de marketing dá a este tipo de coisa o nome “gamificação”.

Será que só eu acho gamificação uma besteira?

Pessoas respondem a incentivos. Quem mais responde ao incentivo são aqueles que se prestam a “vender” o seu tempo por uma camiseta no final – inserindo um monte de ruído no sistema. Tal programa está cheio de comentários inúteis, como “Gostei”, “Muito bom”, “Excelente”, “Achei maravilhoso”, só para quem postou ganhar pontos.

A gamificação tem o efeito contrário do que deveria. Atrai os jogadores de vídeo-game, e com isso afasta aqueles que realmente querem agregar valor. É uma bestificação.

 


 

Se o cérebro fosse tão simples que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos.

If the human brain were so simple
That we could understand it,
We would be so simple
That we couldn’t.

Emerson M. Pugh, físico, no livro “The Biological Origin of Human Values”.


 

Porque ler o livro do Bill Gates não vai te fazer igual ao Bill Gates
 
Primeiro, porque este livro tem um monte de dicas, mas todas elas passaram por um filtro do que é correto ou não publicar. Não são dicas sinceras, certamente tiveram itens ruins da história do Bill que não foram publicados, enquanto itens bons foram enaltecidos.
Outra, um livro desses nunca vai dizer que, além de todo o esforço, estudo, competência, etc, ele também teve muita sorte de estar no lugar certo e ser a pessoa certa. Se o Bill tivesse nascido na África, surgiria um outro Bill Gates que não ele.
Ah, isto vale para todas as biografias, em geral. Todas sofrem do efeito retrospectiva, olhando tudo o que é bonito para dar certo no final – mas certamente há milhões de outras pessoas tão competentes, tão brilhantes quanto, que ficaram pelo caminho.
O negócio é jogar com as cartas que temos, e não com as que o tio Bill tinha.

 

Nota: “Ditirambos de Dionísio” é o nome de uma série de poemas do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O termo “Ditirambos” se refere a cânticos, e Dionísio, o deus do vinho, da loucura, do desordem.

 

 

 

 

 

 

​Campanha “Seja hostil no trânsito”

Basta um simples passeio de carro numa cidade como São Paulo, para encontrar o pior que a espécie humana tem a oferecer: carros forçando passagem, ultrapassando pela direita, entrando em qualquer brecha à sua frente, passando pelo farol vermelho, buzinas, motos cortando os carros, carros fechando motos…

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Por isso, ninguém estranha uma placa com os dizeres: “Obedeça a sinalização”. Ora, mas a sinalização não está lá para ser respeitada?

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Da mesma forma, a placa “Não feche o cruzamento”, quer dizer que pode fechar o cruzamento se não tiver a placa?

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E outra, “Não faça fila dupla”, não deveria ser algo óbvio? Aliás, não é difícil encontrar fila dupla, até tripla, nos horários de pico.

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Tantas placas assim, tratando motoristas como crianças, causam até o efeito contrário: é tanta sinalização que ninguém dá bola para isto.

Num ambiente hostil como este, é praticamente impossível não ser hostil também. Se dar a seta para entrar à esquerda não funciona, porque o carro que está na faixa da esquerda não dá passagem, o negócio é jogar o carro primeiro e dar a seta depois… Se o cruzamento fica travado por outros carros e demoro 10 min para atravessar um simples sinal, eu também vou fechar um pouquinho o cruzamento… Se todo mundo passa no amarelo, porque eu ficaria para trás?

A campanha “Seja gentil no trânsito” talvez fosse mais eficaz se fosse irônica: “Seja hostil no trânsito, e seu vizinho também o será”, “Feche o cruzamento, se todos o fizerem, ninguém mais anda nesta cidade”.

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A minha sugestão para ajudar no assunto é simples. Retirar essas placas de sinalização que deveriam ser óbvias, deixando apenas as que fazem sentido. E, começando por mim mesmo, passar a respeitar as regras do comportamento civilizado no trânsito: não forçar passagem, buzinar por qualquer coisa, fechar o cruzamento, etc… É uma gota no oceano, mas de gota em gota, quem sabe pelo menos algumas pessoas saiam do trânsito menos estressadas?

Ação: seja civilizado no trânsito.

Resposta ao “Desafio Superinteressante”

Desafio 1: Quantos ursos ao redor do buraco?
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Resposta: 6
Basta imaginar a posição central do dado como se fosse um buraco, e contar quantos ursos estão ao redor deste buraco.
Por exemplo, o número 5 tem o buraco no meio, e 4 ursos olhando ao redor.

 


Desafio 2: O quadrado da questão
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Resposta: 6.
Desta vez, a ideia é considerar somente os quatro buracos do número quatro, e ignorar os outros buracos.

​ Superinteressantes

Uma senhora chamada Teresa Doi foi uma das pessoas mais importantes na minha formação.

 

Nos anos 90, quando eu tinha uns 13 anos, ganhei uma coleção de revistas Superinteressante dessa senhora, amiga de meus pais. Tinha umas 50 revistas velhas que ela iria jogar fora. Como sempre tive a fama de ser curioso e inteligente, ela achou que isto tinha mais utilidade para mim do que para o lixão.
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E, realmente, esta coleção de revistas foi uma preciosidade para mim! Juro que li todas as revistas, devorando cada artigo, cada figura, cada gráfico. Quando criança, tinha a Biblioteca do Escoteiro Mirim.  Na pré-adolescência, essas revistas Super. E a coleção Fundamentos da Matemática Elementar, no Ensino Médio.
Os temas variavam do surgimento do CD, e de como isto iria aposentar o LP, até Aristóteles, e como o maior pensador da história achava que o cérebro servia para esfriar o sangue.
A Super daquela época era muito mais sisuda, mais técnica, do que a Super atual, que quer ser mais descolada.
Grande parte dos artigos eram sobre Física, e eu gostava principalmente das reportagens sobre Albert Einstein, de como ele imaginava-se viajando na velocidade da luz e olhando-se para o espelho: veria ele a própria imagem no espelho? Ou o paradoxo dos gêmeos: o tempo passaria mais devagar para um gêmeo viajando próximo à velocidade da luz, e quando se encontrassem novamente, o gêmeo terrestre estaria mais velho que o que viajou. Ou dos misteriosos quanta, que desafiavam o senso comum: quando observados, comportavam-se como partículas, senão, como ondas.
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Ganhei uma quantidade incrível de conhecimento, vocabulário, repertório de ideias e capacidade analítica, e usaria o máximo desse conhecimento nos anos vindouros, e até os dias de hoje.
Este blog tem mais ou menos o mesmo objetivo, o de apresentar ideias complexas de forma palatável, e possibilitar que outras pessoas tenham a mesma sensação, a mesma fome de conhecimento. Ao dividir conhecimento, na verdade o multiplicamos, como uma grande chama que forma outras chamas.
No final de cada edição da Super antiga (hoje não tem mais), havia um desafiozinho de lógica, pelo prof. Luiz Barco. Lembro de perder horas tentando resolver tais questões.
Inspirado nos desafios do prof. Barco, e para manter a tradição dos puzzles no final de casa Super, proponho dois probleminhas a seguir.
Desafio 1: Quantos ursos ao redor do buraco?
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Desafio 2: O quadrado da questão
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Respostas no próximo post.

O vagão da vida

Recontando uma história que ouvi um dia desses…

A vida é como um vagão de um trem.

No início de nossa viagem, na aurora do dia, entramos num vagão. Neste já se encontram tantas outras pessoas, algumas sentadas, outras de pé. Às vezes o vagão está cheio, outras, vazio, depende.

São os nossos pais que nos recebem, em algum canto, e lá nos estabelecemos.

Com o passar do tempo, alcançamos outra estação. Nesta, algumas pessoas desembarcam, outras embarcam. Algumas alcançam o seu destino final, outras iniciam a sua jornada. Talvez um irmãozinho ou irmãzinha embarque. Talvez algum ente querido mais velho desembarque.

Há pessoas que ficam mais próximas de nós, há outras mais distantes. Porém, isto não é fixo. Durante a jornada neste vagão, podemos nos mudar para outros locais e nos aproximar de algumas pessoas, enquanto nos afastamos de outras, a sorte é um fator decisivo.

O tempo passa, e mais e mais estações alcançamos. Pode-se ficar neste vagão da vida muito tempo, ou desembarcar após poucas estações, é o destino de cada um. Pode ser uma jornada simples e prazerosa, ou ser uma jornada turbulenta, difícil, é o destino de cada um.

A única certeza é que, cedo ou tarde, todos chegarão ao seu destino final, e desembarcarão para seguir outros caminhos.

O que podemos fazer, sabendo disso tudo?

A única coisa que podemos fazer é aproveitar a viagem, na companhia dessas tantas pessoas queridas. Dar boas-vindas aos que entrarem no vagão, desfrutar da companhia dos que já estão, relembrar com saudade dos que já desembarcaram. Dar o máximo valor ao que podemos fazer no rápido intervalo entre estações.

Na nossa vez de desembarcar, no crepúsculo do dia, podemos ter deixado saudades sinceras entre as pessoas e ter tornado o vagão um lugar melhor para conviver.

Vai ter valido a pena.

Arnaldo Gunzi, mar 2018


“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do espaço, é um prazer te encontrar neste momento, neste local” – Carl Sagan

Trilha sonora: Triste Berrante – Solange Maria e Adauto Santos.

A Corrida do Ouro (virtual ou não)

Atualmente vejo uma grande quantidade de pessoas, algumas delas brilhantes, correndo atrás da mineração de criptomoedas como o bitcoin.

Isto lembra a corrida do ouro da Califórnia, de 150 anos atrás. Ou a corrida do ouro de Serra Pelada, mais recentemente. Ou a corrida do ouro do Klondike, que aparece nas histórias do Tio Patinhas.

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Fulano de tal conseguiu riqueza em pouquíssimo tempo. Ele apareceu no jornal, por encontrar uma pepita de ouro no meio do barro. Dezenas de outros seguem atrás, com a pá no ombro e esperança no coração.

Trecho de reportagem, cuja fonte está nos links:

O ouro que brotava na Califórnia era generoso. Nos primeiros meses depois da descoberta, era possível coletar as pepitas diretamente do solo. Bastava agachar e pegar. O metal precioso era encontrado em leitos de rios e em ravinas aos borbotões. O mexicano Antônio Franco Coronel, por exemplo, abandonou o emprego de professor em Los Angeles e em três dias de mineração recolheu 4,2 kg de ouro.

 

Em pouco tempo, o rancho de John Sutter foi cercado por milhares de caçadores de fortuna. Barcos que atracavam em São Francisco, a 212 km dali, eram abandonados pelos marinheiros. Em agosto de 1848, a notícia chegou a Nova York. Em dezembro, depois de receber um pacote com pepitas, o presidente americano James Polk foi ao Congresso para anunciar o achado. Nos 5 anos que se seguiram à descoberta, 300 mil pessoas do mundo todo correram para a Califórnia.

Porém, a grande maioria vai falhar…

O avanço sobre a terra foi tão grande e rápido que em 1853 o ouro começou a escassear. Agora só se conseguia extrair o metal com bombas de sucção e esteira mecânica. O tempo do heroísmo individual havia acabado. Para Slotkin, a corrida do ouro “foi uma terrível perda de vidas e empobrecimento de pessoas, em que pouca gente fez fortuna”. De fato, James Marshall, que descobriu o ouro, morreu na miséria em 1885. Sutter também não ficou milionário – ele trocou ouro por gado e ovelhas, que acabaram roubadas por garimpeiros, e faliu em 1852.

 

Alinhado à minha concepção do que é dinheiro e riqueza, o problema principal é que tanto capital humano poderia ser direcionado para outras atividades produtivas: produzir bens e serviços, trabalhando na indústria ou comércio. O capital intelectual e computacional poderia ser utilizado para fins mais nobres, como biologia computacional, pesquisar a cura do câncer.

A verdadeira riqueza está em resolver problemas importantes do mundo real.
Ou, como disse Napoleon Hill:

“Mais ouro foi minerado do cérebro humano do que da terra”.

 

 

Fotos de Serra Pelada, do site monomaníacos:

 

 


 

Links:

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/era-industrial/a-corrida-do-ouro-da-california.phtml#.Wn6g5-cfPIU

https://www.wdl.org/pt/item/16791/

Como foi o garimpo em Serra Pelada?

http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/serra-pelada-corrida-do-ouro.htm

 

http://www.monomaniacos.com.br/historia/inferno-serra-pelada-1980/

 

Reinventar a roda e outros aforismos

Reinventar a roda

Um consenso geral é de que é perda de tempo tentar reinventar a roda. É melhor usar a roda e construir em cima desta do que tentar recomeçar do zero.

Estão errados. O único jeito que consigo aprender realmente a fundo alguma coisa é reinventando a roda. É claro que em 99% das vezes realmente vou usar o que está pronto. Mas, nos assuntos em que realmente quero trabalhar e estudar profundamente, tenho que reinventar a roda, ou seja, entender a fundação das fundações.

Não tenho vergonha de reinventar a roda.

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É por isso que, de vez em quando, saio com algumas rodas originais.

 

 


 

Duas metades

História do teatro grego de Aristófanes, de 2500 anos atrás: no início dos tempos, éramos perfeitos. Perfeitos como uma esfera. Os deuses dividiram a esfera perfeita em duas partes, incompletas em si mesmas. Desde então, temos que procurar uma outra metade para nos completar.

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Lavar as mãos

Nunca uma pessoa salvou tantas vidas e foi tão desprezado quanto o médico húngaro Ignaz ​Semmelweis. Em 1847, ele notou que a taxa de mortalidade de mulheres grávidas nos hospitais era maior do que se estas dessem a luz em casa. A medicina fazia mais mal do que bem. Semmelweis sugeriu uma medida extremamente simples: que os médicos lavassem a mão.

​Semmelweis foi desprezado pelos seus pares. Na época, a microbiologia era um assunto desconhecido. Apesar dele afirmar que lavar as dava reduzia bastante os problemas, ele não conseguiu explicar cientificamente o motivo disso dar certo ou não.

Somente anos após a sua morte, e com os estudos da teoria de germes de Louis Pasteur, é que houve aceitação geral de que realmente lavar as mãos era a forma mais básica de prevenção contra infecções.

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Estados fazem guerra e vice-versa

Uma citação interessante, atribuída ao cientista político ​Charles Tilly: “a guerra faz o estado, e estados fazem guerra”. A necessidade de se proteger de outros estados bélicos faz com que haja a necessidade de um estado forte, e um estado forte ajuda este a partir em busca da aquisição de outros estados, num ciclo sem fim.

 


O demônio de Laplace

Um experimento mental de 1814, do matemático Pierre de Laplace.

Imagine um super mega computador, ou como não existiam computadores na época, um demônio. Este computador tem o conhecimento de todas as leis da física, e também tem sensores espalhados em cada átomo do universo, ou seja, conhece a posição, velocidade, momento de inércia, temperatura de tudo o que existe.

Este supercomputador seria capaz de aplicar as leis da física e prever todo a posição futura de todas as partículas do mundo, daqui a um milhão de anos. E, da mesma forma, seria possível voltar no tempo, e dizer como foi o universo há um milhão de anos atrás.

Este experimento reflete bastante o modelo de mundo mecanicista, determinístico, linear, da época.

Há vários furos nesta teoria.

– Leis da termodinâmicas são irreversíveis, notadamente por conta do fator chamado entropia. Digamos, dá para estimar que uma percentagem da energia para mover um pêndulo vai se perder na forma de calor, mas não dá para saber exatamente qual átomo vai liberar calor – e a partir do calor, não dá para rastrear de volta a sua origem.

– Em nível quântico, também não sabemos a posição exata de um elétron – na verdade nem sabemos se existe uma posição exata. É tudo tratado de forma probabilística.

– A teoria do Caos foi um dos grandes avanços do século passado. Um matemático, Edward Lorenz, estava trabalhando em modelos de previsão do tempo. Um dia, gravou o resultado, desligou o computador, e recomeçou os cálculos no dia seguinte. O resultado da previsão deu completamente diferente do que ele tinha anteriormente. Intrigado, ele verificou o que tinha acontecido, e descobriu que uma diferença minúscula no arredondamento dos dados de entrada, digamos proporcional ao bater de asas de uma borboleta, tinha causado esta diferença abismal nos resultados (um furacão do outro lado do mundo).

Mesmo com poucas equações 100% determinísticas, uma variação pequena dos dados de entrada pode provocar alterações enormes no resultado final. Em resumo, o famoso efeito borboleta.

 

Para mim, faz muito mais sentido a afirmação diametralmente oposta: mesmo com todos os supercomputadores do mundo, e com milhões de sensores, não é possível prever o futuro.

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Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ignaz_Semmelweis

http://duckofminerva.com/2013/06/war-made-the-state-and-the-state-made-war.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Laplace%27s_demon

https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_theory

Small tips to make English a habit

These are some small, but useful, tips to make English (or other language of your choice) a habit.

  • Word of the day: There are free services in the internet that offer a daily free word, sent by e-mail. An example is Transparent Language website.

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  • In every search in Google, try to search it in English.
  • Write e-mails in English with some friends of yours. I started to do it months ago, and even now I write in English to some people.
  • Modify the settings of your computer and cell phone to English, instead of Portuguese.
  • Schedule lunch were Portuguese is forbidden.
  • If there are two books, the original in English and the translation in Portuguese, choose the first one.
  • Music in other language is a powerful way to learn new words and pronunciation. If it is too hard to understand, try children music, these are easier to comprehend.

The goal of these tips is to make English a habit, to think in English.

 

 

Carta de Antônio Paiva ao filho

Seguindo as recomendações do post anterior, li e gostei muito da carta de Antônio Paiva ao filho Gustavo Paiva, quando este partiu de Portugal com destino ao Brasil.

O original, downloadável neste link, está bastante ilegível, o que me levou a transcrever abaixo o conteúdo, com a vantagem adicional de tornar o mesmo “googlável”.

Preservei a ortografia original, em português de Portugal de 1911.

 


 

Porto, 27 de Maio de 1911

Meu querido filho Gustavo,

Vaes partir para longe do lar paterno e por isso ficarás entregue ao teu próprio arbitrio. Estás em idade de bem compreenderes o que é bom e o que é mau, de modo a pautares convenientemente a estrada que tens de percorrer.

Já sabes que a primeira qualidade do homem é ser honesto; e na carreira que vaes prosseguir deves ser trabalhador, deligente e humilde sem covardia.

Não te deves esquecer que em qualquer caza onde trabalhes o essencial para subires é que te tornes necessário. O homem que se impõe pelos seus merecimentos, mais hoje mais amanhã, consegue collocar-se, quando não seja na casa onde trabalha, será n’outra onde seus serviços sejam precizos, e d’elles tenham conhecimento.
Deves ser economico sem avareza, cuidadoso com tudo que fôr teu e com todos os serviços que te sejam confiados e fugirás quanto possível de más companhias e dos falsos amigos, que muitas vezes compromettem o nosso futuro.

Eu estou velho e não sei se o destino ainda me reservará a ventura de tornar a ver-te; seja como fôr, terei muita satisfação em saber que tu, onde quer que aches, és homem de bem, util a ti e aquelles a quem prestares os teus serviços, que sabes honrar o teu nome e portanto o de teu velho pae, e de tua família.

Comprehenderás de certo que a vida é uma lucta constante, cheia de revezes, na qual triunpham os mais aptos para o seu combate, mas também é certo que todo o homem preciza de ter sorte, que a sua boa estrella o proteja.

Ha-de levar tempo até que possas conquistar o inicio de tua independência; não deves desanimar, antes soffrer com resignação os embaraços que a cada passo encontrarás no teu caminho, mas também nunca deverás abandonar o caminho da honra e da lealdade.

Deves ser discreto em todos os teus actos reservado com todos os assumptos que requeiram reserva, pois que é uma das qualidades requeridas N’um bom comerciante. Com a tua saúde terás o maior cuidado, pois que sem ella não há combate possível.
Não deves abusar dos prazeres da meza, nem dos que facultam o bello sexo, visto que todos os excessos são prejudiciaes.

Uma couza eu te peço muito do íntimo d’alma: é que nunca te esqueças de tua família especialmente se eu vier a faltar-lhes muito cedo.

Se a fortuna te sorrir, lembra-te sempre dos teus irmãosinhos mais novos, para no devido tempo os encarreirares no meio onde te achares, sob a tua protecção e conselhos; e não te esqueças de vossas irmãs, que como mulheres poderão precizar de teu auxílio, que nunca deverás recuzar quando te for pedido.

Pelo início de tua carreira commercial n’esta praça, tenho fundadas esperanças de que virás, com o tempo, a ser homem util e por isso Deos te conceda toda a sua grande protecção, mas nunca te deves desviar do caminho da honra.

Vae pois, meu filho, levando a minha benção e as minhas grandes saudades, a par das preces ao Céo de tua saudoza e santa mãe, que tão cedo nos deixou.

Tem coragem e lucta sempre sem desanimos, com tenazcidade e honra. Se tiveres tempo, não te esqueças de illustrar o teu espirito, especialmente aprendendo linguas, pelo menos o francez e inglez, tendo eu muito pesar de que não o tenhas conseguido antes de partir.

Beija-te e abraça-te com infinita ternura o teu pae, muito amigo

ANTONIO PAIVA

​Prometeu e Epimeteu

Nesta virada de ano, nada mais adequado que a história da criação do homem segundo a mitologia grega. Começa com Prometeu e Epimeteu, irmãos, e titãs, raça de seres que antecederam os deuses do Olimpo.

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O primeiro tem o dom da antevisão, e o segundo, o dom da visão retrospectiva. Um olha para o futuro, e o outro, para o passado. O primeiro, muito sábio, inteligente e zeloso, o segundo, afobado, inconsequente, incauto.

Os deuses deram aos irmãos a tarefa de criar os seres vivos da Terra.

Prometeu (o que olha para o futuro) criou os seres vivos com muito cuidado a partir de argila, e a deusa Atena deu o sopro de vida a estes.

Epimeteu (o que olha para o passado) ficou com a responsabilidade de conceder um dom específico a cada animal.

Os animais pegaram a senha, ficaram numa fila, e Epimeteu foi distribuindo as habilidades: garras, velocidade, casca dura, poder de voar, etc.

O ser humano foi o último da fila, e quando chegou a sua vez, o atrapalhado Epimeteu já tinha distribuído todas as habilidades que ele tinha em mãos. Assim, o ser humano não tem garras afiadas, dentes esmagadores, velocidade arrasadora, veneno, nem nada especial.

Prometeu apiedou-se deste indefeso ser, e deu um jeito de fornecer alguma habilidade. Tornou-os eretos como os deuses. E, além disso, roubou o fogo dos deuses para dar aos homens.

O fogo permitiu que os humanos se protegessem do frio, forjassem armas, cozinhassem alimentos, ajudando a sua evolução de um macaco desajeitado a um grande caçador coletor, depois um grande agricultor.

Os deuses enfureceram-se com Prometeu. Ele foi acorrentado a uma rocha, e condenado a ter o seu fígado devorado por uma águia, todos os dias. Durante a noite, o fígado crescia, para ser devorado novamente no dia seguinte.

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O homem também sofreu a vingança de Zeus. Este criou uma bela criatura, chamada Pandora, a primeira mulher, e enviou-a a Epitemeu. Pandora tinha um espírito enganador, uma língua afiada e muita curiosidade. Epimeteu tinha sido avisado pelo precavido Prometeu a não aceitar presente algum de Zeus. Mas Pandora era de tal beleza, uma coisa tão linda, tão cheia de graça, num doce balanço a caminho do mar, que foi impossível o incauto Epimeteu resistir.

Junto com Pandora, veio uma caixa, que tinha somente uma instrução clara: não abrir. Porém, um dia, a curiosidade de Pandora foi tanta, que ela abriu a caixa, e espalhou todas as doenças por este planeta. Depois que todas as doenças se espalharam, ela viu que tinha ficado alguma coisa no fundo da caixa: a Esperança.

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O nosso benfeitor Prometeu se safou, depois de um tempo. O herói Hércules matou a águia e o libertou, numa pausa dos seus 12 trabalhos. Tendo o dom de antever o futuro, Prometeu sabia que sofreria consequências, mas também sabia que dar o fogo aos homens era a coisa certa a ser feita, e que ele mesmo se safaria no final.

E, mais do que o fogo, Prometeu deu aos homens o dom da antevisão. Todos os animais conseguem olhar apenas para o presente e o passado, como Epimeteu: juntar alimentos, sobreviver hoje e agora. Somente o ser humano tem o dom de olhar para o futuro, prever e planejar o amanhã a partir do momento presente. Este é o verdadeiro legado de Prometeu.

Veja também: o Deus Janos.

 


Links

http://www.uexpress.com/tell-me-a-story/2011/3/6/prometheus-and-epimetheus-a-greek-myth

https://www.greekmythology.com/Myths/The_Myths/Creation_of_Man_by_Prometheus/creation_of_man_by_prometheus.html