Os amigos do cargo e os amigos da pessoa

Segue uma história intrigante, dos meus tempos de oficial da ativa da Aeronáutica.

Com certa frequência, ocorriam comemorações de alguma data festiva.

Nessas, o comandante, um Brigadeiro 4 estrelas, vivia cercado de cupinchas numa roda animada de conversas. Ele não era um homem de muitas palavras. Tímido, fechado, ele não seria normalmente um tipo popular em festas.

Alguns meses depois, o Brigadeiro se aposentou. Mesmo aposentado, de vez em quando ele aparecia em alguma cerimônia.

A diferença é que, dessa vez, ele ficava sozinho num canto…

Nota-se que os cupinchas eram amigos do cargo, não da pessoa.

Eu prefiro um amigo que me cumprimente pelo que sou, pela afinidade de ideias e sonhos, do que uma centena que me cumprimente pelo cargo.

O mundo é como uma peça de teatro. Ora fazemos o papel do Rei, ora, o do Cavaleiro ou do Bobo da Corte. No final do dia, sem os nossos trajes, somos apenas nós mesmos.

Cultive os seus amigos de verdade.

Bônus 1: Trilha sonora – Amigos para siempre

Jose Carreras And Sarah Brightman

Bônus 2: O dia da festa

O mulá Nasrudin foi ao palácio, num dia de festança. Foi barrado na entrada pelos servos, por estar trajando roupas esfarrapadas.

O mulá voltou para casa, vestiu-se com roupas extravagantes, e dessa vez, foi aceito na entrada.

Nasrudin então começou a derramar comida e vinho em suas roupas, causando estranheza em outro convidado, que indagou, “O que você está fazendo?”

“Oh, estou alimentando a minha roupa primeiro. Afinal das contas, ela é que foi aceita na festa”.

Não se apaixone pela solução

Christopher Vogler é uma espécie de roteirista dos roteiristas de Hollywood. Numa de suas aulas, ele afirma que um criador não deve se apaixonar pela solução.

Adotar tal abordagem pode levar a becos sem saída.

Eu já quebrei a cara me apaixonando pela solução. Há uns 10 anos, eu tinha uma base de dados para processar antes de uma análise de estoques. Não era absurdamente grande, mas também não era pequena: uma dúzia de planilhas, com umas 15 mil linhas cada.

Usei a minha ferramenta favorita, Excel VBA, ao invés de algum banco SQL. Remover duplicatas, juntar bases, essas coisas. O problema foi que o Excel 2007 não aguentou: os cálculos demoravam mais de meia hora, a planilha travava, e o pior, não dava para confiar na solução (alguma fórmula está errada ou o cálculo travou no caminho?).

Mesmo após ficar evidente que não era a melhor solução, havia a dúvida – faltam poucas semanas de trabalho, se eu recomeçar do zero, vai atrasar a entrega… ledo engano. Atrasou do mesmo jeito. Tive que quebrar muita pedra, e o resultado poderia poderia ser melhor.

A dica de Vogler é fazer o contrário: apaixone-se pelo problema, independente da solução. A história tem vida própria, ela escolhe o próprio final!

Trilha sonora: O mundo anda tão complicado – Legião Urbana

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2013/12/01/a-solucao-otima-para-o-problema-errado/

https://ideiasesquecidas.com/2016/01/27/a-verdade-e-o-conto/

Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

Navegar é preciso

De todos os trabalhos que fiz, uns 50% não serviram para nada – só para gastar tempo e energia.

Outros 30% até serviram para alguma coisa, mas não tiveram impacto.

Já os 20% restantes, estão rodando até hoje, com grande impacto. É como se fossem a descoberta de uma nova rota para as Índias, em meio à tantas tentativas em vão.

É impossível saber, a priori, qual trabalho dará resultados. Um projeto promissor pode dar em nada – cometemos erros, ou não temos a competência necessária, ou simplesmente não é o momento dele. Por outro lado, um trabalho menor pode gerar inúmeras oportunidades. Só saberemos a posteriori.

O caminho é sempre fazer o melhor trabalho possível: transformar os projetos ruins em aceitáveis, os aceitáveis em memoráveis. Mesmo assim, sempre haverá os que não darão certo, e aí, bola para frente.

Depois, tratar com bastante carinho e orgulho aqueles que melhor performaram.

No fim do dia, podemos nos perguntar: Valeu a pena?

Fernando Pessoa tem a resposta:

Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador,

tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

mas nele é que espelhou o céu!

Algumas histórias do mulá Nasrudin

Nasrudin é processado

Um dia, o mulá Nasrudin disse: “Os sábios desta cidade são sabem merda nenhuma”.

O pessoal da cidade processou Nasrudin, demandando que ele provasse o que dizia ou sofresse punição.

“OK”, disse Nasrudin.

Ele deu um pedaço de papel e caneta para o público. “Cada um de vocês, escrevam o que é merda?”.

Eles escreveram e entregaram o papel ao juiz.

“O cientista escreveu que merda é uma composição de água e detritos de comida”.

“O filósofo escreveu que é uma manifestação dos ciclos de mudanças da vida”.

“O médico escreveu que é matéria descartada do corpo para boa saúde”.

Nasrudin, então, completou: “Vejam só, todos os sábios deste lugar, não sabem merda nenhuma”.

O dia da festa

Nasrudin foi ao palácio, num dia de festança. Foi barrado na entrada pelos servos, por estar trajando roupas esfarrapadas.

O mulá voltou para casa, vestiu-se com roupas extravagantes, e dessa vez, foi aceito na entrada.

Nasrudin então começou a derramar comida e vinho em suas roupas, causando estranheza em outro convidado, que indagou, “O que você está fazendo?”

“Oh, estou alimentando a minha roupa primeiro. Afinal das contas, ela é que foi aceita na festa”.

Você está correto

O juiz Nasrudin estava ouvindo um caso. Após o promotor apresentar o seu lado, Nasrudin falou, “Você está correto”.

Após o defensor explanar a sua versão, Nasrudin afirmou: “Você está correto”.

A esposa de Nasrudin estava ouvindo o caso, e afirmou, “isso não faz sentido, como ambos podem estar corretos?”

“Sabe de uma coisa”, disse Nasrudin. Você também está correta!

O pássaro que salvou a minha vida

Nasrudin estava andando no deserto, e encontrou um homem santo, que se apresentou: “Sou um místico, devotado à apreciação da vida, especialmente pássaros”.

“Que maravilha”, Nasrudin respondeu. “Sabe, um dia um pássaro salvou a minha vida”.

O homem santo gostou do mulá, e passaram horas conversando – mas, todas as vezes, Nasrudin se recusava a contar a história.

Outro dia, após diversas súplicas do homem santo, Nasrudin finalmente concordou em contar a história:


“Um dia, faz uns seis anos, eu não tinha comido há muito tempo e estava morrendo de fome. Então, peguei um passarinho numa armadilha, e assim, ele salvou a minha vida”.

Veja outras histórias do mulá Nasrudin:

https://ideiasesquecidas.com/2020/02/22/a-sabedoria-do-mula-nasrudin/

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/05/e-depois/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/06/o-fardo-que-carregamos/

Ter ou não ter, eis a questão

Interessante reflexão do velho Aristóteles (e põe velho nisso, cerca de 2300 anos atrás), em sua obra Ética a Nicômaco. Ele, já naquela época, dizia que o valor a ser pago numa transação deve ser definido a priori, ou seja, antes do comprador ter o produto ou serviço. Outra alternativa seria a posteriori: o comprador ter o serviço primeiro (digamos, uma aula), e depois, avaliar o valor a pagar.

Argumento: o ser humano dá enorme valor antes de ter algo, e pouco valor após obter o mesmo. Isso é válido inclusive para serviços que tenham gerado enorme valor, digamos, uma aula importante. Quantas são as coisas que temos em casa, guardadas inutilmente em algum canto do armário? Quantos são os bons trabalhos realizados, que por conta de já terem sido feitos, parecem muito fáceis para quem apenas consome os resultados?

Outra reflexão, agora baseado no psicólogo Daniel Kahneman. Perder algo que temos é mais doloroso do que se nunca tivéssemos tido. Ele chama isto de Efeito Dotação. Um experimento simples: um colecionador de selos paga R$ 100,00 num selo exótico – que vai ficar guardado, paradinho, em sua coleção. Um amigo dele oferece R$ 150,00 no mesmo selo. Um caminho seria ele vender e embolsar o lucro, porém, dificilmente ele o vai fazer. Ele vai ponderar o valor emocional e o trabalho que teve para conseguir o selo, a dificuldade de obter outro igual, e a conclusão é a de que não vai vender – é preferível ter o mesmo pegando poeira em sua coleção do que se desfazer.

Pior ainda, imagine outra situação, em que o amigo conseguiu comprar o selo um minuto antes dele!

Ou seja, o ser humano dá valor à algo quando não o tem, e quando o perde – e nunca quando efetivamente o tem!

Dá até para pensar num gráfico:

Por essas e outros, o autor Robert Cialdini elenca a Escassez como um dos fatores de influência. Quanto mais rara e importante alguma coisa, maior o interesse das pessoas. Ser um excelente profissional é bom, porém, ser um excelente profissional demandado pelo mercado é melhor ainda!

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2016/10/07/insights/

https://ideiasesquecidas.com/2018/01/21/%e2%80%8brecomendacoes-de-livros-para-recem-formados/

A Vaca Roxa

O livro da “Vaca roxa” faz reflexões importantes sobre produto e marketing.

Durante uma viagem à Suíça, o autor comenta que a paisagem era linda. Porém, com o passar do tempo, ficou chato. Todas as vacas eram iguais. Algumas brancas, outras malhadas, porém, nada de diferente. Seria espantoso ver uma vaca roxa, pensou.

É melhor ser notável do que ser chato. Entretanto, muitos produtos tendem a serem chatos, não correr riscos. Entretanto, neste mundo em que temos mais opções do que conseguimos testar, produtos chatos serão esquecidos.

O autor, o prolífico escritor Seth Godin, divide as eras do Marketing em três:

  • Antigamente, era o produto que contava, e o marketing era no boca-a-boca.
  • A era das grandes propagandas nos meios de massa trouxe relevância ao marketing. Com dinheiro suficiente, era possível expor qualquer produto.
  • Nos tempos atuais, há uma infinidade de canais de comunicação possíveis, além da mídia social. A grande propaganda voltou a ser o boca-a-boca (não físico, mas virtual), e o produto, o diferencial.

A primeira edição do livro foi nos anos 2000, e de lá para cá a tendência descrita só aumentou: quem assiste televisão nos dias de hoje?

Em marketing, fala-se dos 4P’s: Produto, Preço, Praça e Promoção. O Purple Cow é o quinto “P”.

O próprio livro se tornou o ícone que tenta vender. Não apresenta nenhuma grande ideia nova, porém, posiciona-se de forma inesquecível.

No lançamento, o livro vinha com uma caixa de leite. Inevitavelmente, a caixa chamava a atenção de quem não conhecia o livro, tornando-se uma peça criativa de marketing.

Em resumo:

  • Seja memorável
  • O seguro é arriscado
  • O design de um grande produto importa


Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/04/21/notas-sobre-tribos/

Link do livro na Amazon:

https://amzn.to/35sdjAB

A nova máscara da Morte Rubra

O senador Próspero é um político brasileiro de longa data. Poucos conhecem as entranhas do poder tão bem quanto ele. Ficou multimilionário trocando favores com outros políticos, favorecendo empresas que o presenteassem com agrados e utilizando a máquina pública a seu favor.

Uma pandemia mundial vinha ocorrendo, vitimando a população sem escolher entre ricos e pobres e colapsando o sistema de saúde. Por isso, o senador Próspero resolveu se refugiar em uma de suas fazendas no interior de Goiás. Seu plano era ficar ali por pelo menos 6 meses.

Já que ele não poderia fazer nada pela população sofrendo com a praga, ele iria se isolar e desfrutar do que tinha acumulado por tanto anos, pensou.

Sua fazenda tinha uma casa grande e luxuosa. Piscina, quadras de esportes. Um heliponto. Mudas frutíferas diversas, um lago para pescar, sala de musculação.

Ninguém poderia entrar ou sair após o isolamento começar. Esta era uma ordem expressa: isolamento total. Uma pessoa com a praga contaminaria a todos. Quem entrasse ali deveria ter feito testes médicos anteriormente, e só colocaria o pé para fora da propriedade após o fim da pandemia.

Para suportar 6 meses de isolamento, o senador Próspero mandou trazer todos os luxos que tinha em Brasília. Alguns caminhões trouxeram sua mudança, incluindo móveis refinados, eletrodomésticos. Valores enormes na forma de dólares, joias e ouro. Suprimentos não poderiam faltar. Foi encomendada mais de 1 tonelada de carne argentina da melhor qualidade. Mais de 500 garrafas de vinho do mundo inteiro, queijos sofisticados, frutas exóticas e o melhor que o dinheiro poderia comprar.

E as pessoas? Além dos leais serviçais de segurança e limpeza, o senador Próspero trouxe o seu chef favorito e o seu cabelereiro particular. Ele convidou duas dúzias de seus melhores amigos de farra, escolhidos a dedo. Além disso, trouxe mais de 50 acompanhantes de luxo – todos os fins de semana haveria festas suntuosas, para as quais elas deveriam estar deslumbrantes. Pensando nas festas, três de seus cantores e bandas favoritos também foram chamados…

E assim, passaram-se muitas semanas, regadas a luxo, festas, festas e festas. No mundo além do muro, a praga atingia o seu ápice, devastando os locais por onde passava. O efeito da praga era deixar cadáveres com pústulas vermelhas, enormes, por todo o rosto dos infectados, poucas horas após a contaminação – por isso, a praga era chamada de “Morte Rubra”. Mesmo quem não era afetado diretamente sofria as consequências econômicas de uma recessão brutal. Porém, dentro do muro, ninguém estava preocupado com isso, havia muito a festejar…

Um dia, o senador Próspero ficou entediado com a mesmice de sua vida ali dentro. Para a próxima festa, ele planejou algo espetacular. Seria a mais suntuosa, a melhor festa até então, e seria um baile de máscaras. Ele não economizaria nenhum recurso.

Após algumas semanas de preparação, o dia do baile de máscaras finalmente chegara. Todos os seus parceiros de farra e as acompanhantes de luxo, elegantemente vestidos, cada qual com a sua máscara, a ocupar o salão de festas de sua casa grande.

Até que, num canto do salão, as pessoas começaram a se afastar de um intruso. Gritos de assombro, tensão no ar. O senador Próspero notou a agitação estranha e foi ver o que era.

Para o seu espanto, uma das pessoas estava vestida de Morte Rubra.

– Que brincadeira é essa? Como ousa? Prendam ele! Tirem a sua máscara para sabermos quem é!

Com toda a tensão da peste no ar, vestir-se de Morte Rubra era uma brincadeira além do aceitável. O autor de tal brincadeira seria exemplarmente punido, banido para sempre de seu círculo, pensou.

Porém, nem os seguranças nem os outros convidados esboçaram reação. A pele do intruso estava rígida, cadavérica. Os seus movimentos eram não humanos, assombrados. E assim, a Morte Rubra foi andando, lentamente, pelos cômodos da casa grande.

O senado Próspero, enfurecido, decidiu ele mesmo tomar a dianteira. Pegou um punhal, aproximou-se do intruso e o atacou. Sem efeito. Tentou tirar a máscara. Nada. Não era máscara. Era a Morte Rubra em pessoa!

Só então, ele se deu conta que a Morte Rubra já estava, há muito tempo, em seu meio. O isolamento e as festas tinham até ajudado na propagação dela. Um a um, os seus convidados foram vestindo a máscara da Morte Rubra e caindo ao chão, até chegar a vez do senador Próspero…

Baseado no inigualável conto “A máscara da morte rubra”, de Edgar Alan Poe.

Napoleão em 40 frases

Napoleão Bonaparte foi um dos maiores gênios militares da história, um mestre da Arte da Guerra. Conquistou quase toda a Europa, sendo descrito como “um gigante com seus saltos esmagando muito as flores inocentes, destruindo pela força muitas coisas, indiferente ao sofrimento que causava”.

Segue um pouco de seus pensamentos, em (mais ou menos) 40 frases:

É muito melhor ter inimigos declarados do que amigos velados.

Ou abatemos o outro ou o outro nos abate.

Um ato de clemência do rei é como um jogo numa loteria, é raríssimo que ganhemos qualquer coisa.

A aristocracia tem a vantagem de concentrar a ação do governo nas mãos menos perigosas e menos inaptas do que a de um povo ignorante.

A verdadeira felicidade social consiste na harmonia e no uso pacífico das satisfações de cada indivíduo.

Um rei é às vezes forçado a cometer crimes; são crimes de sua posição.

Não há subordinação nem temor que prevaleça nos estômagos vazios.

A sorte é uma mulher, se a deixar fugir hoje, não espere encontrar amanhã.

Quando um príncipe está resolvido a punir, deve punir muitos ao mesmo tempo.

Os mais fortes não negociam, mas sim ditam as condições e são obedecidos.

Não há nada mais tirânico do que um governo que pretende ser paternal.

A glória e o bem do cidadão devem ser silenciados quando assim o requerem o interesse do Estado e o bem comum.

A liberdade civil depende da segurança da propriedade.

As revoluções são como o mais repugnante estrume que favorece o crescimento dos mais belos vegetais.

Em todos os países a religião é útil ao governo, e precisa fazer uso dela para agir sobre os homens.

Não pode existir rei sem finanças, sem meios seguros de recrutar o seu exército e sem frota.

O trono é um pedaço de madeira coberto com veludo.

É muito mais fácil fazer bravatas e ameaçar do que vencer.

Toda árvore produz o seu fruto e só se colhe o que foi plantado.

Não me ofendo quando me contradizem, mas procuro que me esclareçam.

É preciso aceitar as coisas como elas são, e não como gostaríamos que fosse.

Os discursos passam, as ações ficam.

A consciência é o refúgio inviolável da liberdade humana.

Homens superiores são crianças tantas vezes ao dia.

Os homens são tão maus que precisamos estar vigilantes em tudo.

Grandes homens são parecidos com meteoros que resplandecem e se consomem para clarear a terra.

Somos fortes quando estamos decididos e prontos para morrer.

A sabedoria requer prudência.

Por acaso o próprio Sol não tem as suas manchas?

Assim como as conspirações, as surpresas devem surgir como um raio.

Não se deve julgar um homem pela fisionomia, mas colocando-o à prova.

A coragem e a virtude conservam os Estados, os vícios o arruínam.

A vida de um cidadão pertence à pátria.

É muito melhor para o povo ter uma ordem insatisfatória do que não ter ordem nenhuma.

Os homens têm um coração, as leis, não.

Na vida tudo é sujeito a cálculo. É preciso fazer o balanço entre o bem e o mal.

Não sou feito para meia-medidas.

Com os especialistas, as coisas mais simples do mundo se tornam as mais difíceis.

Na guerra como na política, o mal só se justifica quando absolutamente necessário.

Fonte: Napoleão, Aforismos, máximas e pensamentos. Uma curiosidade: é um livrinho fino, impresso em papel jornal barato. Comprei num sebo de S. José dos Campos, por R$ 2,00, há uns 20 anos atrás.

Outros links:

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/03/o-anticristo-de-nietzsche-em-40-frases/

https://ideiasesquecidas.com/2018/05/26/steve-jobs-em-40-frases/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/02/o-tao-da-guerra-do-general-er-hu/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/23/as-36-estrategias-secretas-chinesas/

Oportunidades

Um poeminha para estes tempos tão difíceis. Foi escrito por Berton Braley, poeta norte-americano do início do século passado.

Oportunidades

Você que está com dúvidas e hesitações,

Acha que não há nenhuma chance para você, filho?

Os melhores livros ainda não foram escritos

A melhor corrida ainda não foi disputada,

A melhor trilha sonora ainda não foi criada,

A melhor música ainda não foi tocada,

Anime-se, pois o mundo é jovem!


 
Sem chance? Por que o mundo está ansioso

Por coisas que você deve criar.

A reserva de riqueza verdadeira ainda é escassa,

As necessidades são incessantes e enormes,

O mundo anseia por mais poder e beleza,

Mais riso e amor e romance,

Mais lealdade, trabalho e dever.

Sem oportunidades? Não há nada além de oportunidades!
 

Pois o melhor verso ainda não foi rimado,

A melhor casa ainda não foi planejada,

O pico mais alto ainda não foi escalado,

Os rios mais poderosos não foram atravessados.

Não se preocupe, meu caro,

As oportunidades estão apenas começando.

As melhores ocupações estão por vir,

O melhor trabalho ainda não foi feito.

Tradução livre do original: https://www.poemhunter.com/poem/opportunity-43/

A sabedoria do mulá Nasrudin

O mulá Nasrudin é um personagem de anedotas populares da região do Oriente Médio. Em geral, são contos engraçados e provocativos. Abaixo, alguns dos contos que mais gosto.

Dando um preço ao imperador

Um dia, o novo conquistador da cidade perguntou ao mulá Nasrudin:

Se eu fosse um escravo, por quanto você me venderia?

  • Eu te venderia por R$ 500,00.
  • Espere um pouco – disse o homem furioso – só as roupas que estou vestindo já custam mais de R$ 500,00!
  • Sim, e foi isso que eu levei em conta!

A inteligência depende do contexto

Um dia, o mulá Nasrudin estava a trabalhar de barqueiro, atravessando as pessoas no rio. Entrou um doutor bastante famoso, que o repreendeu por ter errado a concordância gramatical de uma frase.

  • Desculpe-me pelo erro, é que não tive a chance de estudar.
  • Estudar é bom. Eu fiz duas graduações, sou mestre e doutor em Economia, com pós-doc no MIT e em Oxford.
  • E você sabe nadar?
  • Não, por que?
  • Porque tem um furo no barco, e ele vai afundar daqui a pouco…

A falácia do custo perdido

O mulá Nasrudin estava sentado numa praça, comendo pimentas e chorando. Um amigo perguntou a razão.

  • Eu comprei esse saco de pimentas, achando que fosse amendoim.
  • E por que você não joga fora o saco?
  • Porque custou muito caro!

Especialistas para todos os lados

O mulá Nasrudin estava a construir uma casa.

Todos os amigos que o visitavam davam um pitaco: a sala deve ser maior, a janela do quarto deve dar para o norte, o teto está muito baixo, e assim sucessivamente.

Quando a casa ficou pronta, não parecia uma casa nova. Estava assimétrica, parecia uma série de puxadinhos sem harmonia.

Nasrudin, o que você fez? – perguntaram os amigos.

Ora, respondeu o mulá, eu apenas segui todos os seus conselhos!

Questão de ponto de vista

Um homem queria atravessar um rio, e viu o mulá Nasrudin na outra margem. Ele gritou:

  • Ei, amigo, como faço para chegar do outro lado do rio?
  • Você já está do outro lado, respondeu Nasrudin.

O pote

Um dia, o mulá Nasrudin pediu um pote emprestado a um amigo. Depois de um tempo, ele devolveu o pote juntamente com um pote pequeno.

  • O que é isto?, perguntou o amigo.
  • O seu pote procriou, respondeu Nasrudin.

Em outra ocasião, o mulá Nasrudin pediu novamente o pote emprestado.

Depois de um tempo, o amigo pediu o pote de volta.

  • Não dá, o seu pote morreu, disse Nasrudin.
  • Como assim? Como um pote pode morrer?
  • Ora, se você acreditou que um pote pode procriar, deve acreditar que pote pode morrer também!

A sopa da sopa da sopa

Um dia, o mulá Nasrudin recebeu a visita de um conhecido, que lhe trouxe um ganso. O mulá fez uma sopa com a ave, e compartilharam o jantar.

No dia seguinte, um parente do conhecido bateu à porta de Nasrudin, querendo partilhar da sopa (mas sem trazer nada).

E, assim sucessivamente, vieram os amigos dos parentes do conhecido original, querendo um pouco da sopa (e sem trazer ingredientes novos):

Olá, eu sou o amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que lhe trouxe o ganso.

Nasrudin prontamente o convidou para jantar, e após um tempo, trouxe uma tigela de água quente.


O que é isso? – perguntou a visita.
É o que sobrou da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa do seu amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que me trouxe o ganso!

Alguns links:

http://www.nasrudin.com.br/classicas-de-nasrudin.htm

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/05/e-depois/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/16/resposta-ao-enigma-na-teoria-da-evolucao/

Percepção x Dados

Um pequeno teste: há algo de errado com as fotos do Obama, de cabeça para baixo?

E virando a foto?

E agora, com a Mona Lisa?

(Vire o monitor, este não é gif animado).

Não vemos nada de errado nas imagens de cabeça para baixo porque a visão ocorre no cérebro, não nos olhos.

É como se os olhos captassem uma imagem, e esta fosse reconstituída no cérebro, interpolando as partes faltantes, complementando com a interpretação do contexto.

No mundo cotidiano, não vemos muitas pessoas de cabeça para baixo. Por isso, não somos especialistas em decifrar imagens deste tipo.

É neste tipo de situação que computadores, com dados frios e brutos, podem performar melhor que os seres humanos.