O time de 1 bilhão de euros e o funil estreito

Pep Guardiola é o técnico do Manchester City, time avaliado em 1 bilhão de euros. (Obs. 1 libra = 1,17 euros).

https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/08/17/city-lidera-lista-de-clubes-com-os-elencos-mais-valiosos-psg-e-o-3.htm

Já ouvi comentários do tipo: “com 1 bilhão de euros, até eu sou técnico”. Isso pode até ser verdade, um time desses joga praticamente sozinho. Porém, a pergunta de verdade a se fazer é exatamente a contrária.

Imagine o grupo de acionistas de um patrimônio tão enorme. A quem eles confiaram o comando do time? A um aventureiro qualquer? Ao Joel Santana? Ou ao Guardiola? Obviamente, o escolhido será quem já provou entregar resultados em alto nível.

É o mesmo para CEO de grandes empresas, posições importantes, etc…

Porém, isso cria um funil estreito: só tem a posição quem já entregou resultados, porém, para entregar resultados é preciso ter a posição.

Como o funil é estreito, salários e atenção da mídia tendem a focar nesses superstars, embora sempre haja uma equipe grande e talentosa “jogando sozinha”. Quanto mais estreito o funil, maior o destaque, é um efeito do tipo power law, o vencedor-leva-tudo.

É por isso que Guardiola é o técnico do time mais valioso do mundo, e não um aventureiro qualquer.

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WD40 e persistência

O extremamente eficaz WD40, utilizado para lubrificar e desingripar peças, tem uma história interessante. A sigla de seu nome significa “water displacement 40”, onde o número indica a quadragésima tentativa de criar algo útil.

Ou seja, foram 39 tentativas fracassadas… porém, a que deu certo, continua com a mesma fórmula (secreta) até hoje.

Não desista na primeira tentativa, nem na segunda. Às vezes, são necessárias mais de 40.

Gancho: Todas as vezes que você utilizar o WD-40, lembre-se da história acima.

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Prevendo Cisnes Negros (e errando a previsão)

Um dos maiores pensadores de nosso tempo é Nassim Taleb, autor de livros como “A lógica do Cisne Negro” e “Antifrágil”.

Algumas de suas ideias vêm se tornando jargão comum nos negócios e na sociedade, e como sempre acontece nesses casos, há muita gente que faz mau uso dos conceitos envolvidos. Leram e não entenderam. Ou pior, nem devem ter lido e propagam sem entender minimamente.

Dois exemplos:

1 – O meu feed de notícias mostra o seguinte artigo: “Por que eventos inesperados são chamados Cisnes Negros e como a ciência está trabalhando para predizê-los.”https://marketresearchtelecast.com/why-unexpected-events-are-called-black-swans-and-how-science-is-working-to-predict-them/151508

A chamada do artigo não faz nenhum sentido. O que Taleb afirma é exatamente o oposto: há eventos de baixa probabilidade e altíssimo impacto, impossíveis de prever.

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Não é colocando mais ciência ou mais estudos econômicos que os Cisnes Negros serão previstos, muito pelo contrário: confiança cega qualquer área do conhecimento é exatamente uma das causas de eventos extremos. Taleb é extremamente crítico a economistas, acadêmicos e consultores que sabem tudo.

A chave é reconhecer que não entendemos o mundo em que vivemos, e por isso, não deixar empresas, governos e economia tomarem proporções complexas demais, alimentando futuramente um risco catastrófico.

Não por acaso, o subtítulo de um dos livros é “Como viver num mundo que não conhecemos”.

2 – Usar “Antifrágil” no sentido de autoajuda: “Seja cada dia mais antifrágil”, “Somos uma empresa antifrágil” ou algum chavão do tipo, que não faz sentido algum.

Primeiro, uma definição. Qual o oposto de frágil? Seria “robusto”?

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Porém, “robusto” tem um problema. Se “frágil” é algo que quebra após um estresse, para o “robusto” não acontece nada. O oposto de “frágil” é algo que fica melhor após o estresse, daí o termo “Antifrágil”, criado por Taleb.

Exercícios físicos são estressores, que tornam o corpo mais forte, por exemplo. Ou o sistema imunológico do corpo humano.

Outro exemplo: as pessoas, como sociedade e não como indivíduo. O indivíduo é frágil: se ele tentar empreender e fracassar, é ele que vai arcar com boletos atrasados. Já a sociedade se beneficia da fragilidade dos indivíduos, porque aqueles que conseguirem triunfar vão gerar valor para o todo continuar evoluindo.

Qual a relação do problema do Cisnes Negros e Antifragilidade? Quanto maior o Cisne Negro, quanto maior o risco, mais frágil é o sistema. Já riscos menores, distribuídos, orgânicos, são bons, porque tornam a sociedade como um todo antifrágil.

A antifragilidade não é uma frase de motivação. Muito pelo contrário. É um convite a abraçar o caos, a empreender, é um convite ao sacrifício de arriscar e assumir as consequências dos erros na própria pele.

Para fechar, algumas frases de Taleb, no seu livro “A cama de Procusto”, ao seu estilo provocador:

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“É muito mais fácil enganar pessoas prometendo bilhões do que apenas milhões”

“Vi um painel com o economista Edmundo Phelps, que obteve o Nobel por escritos que ninguém leu, teorias que ninguém aplica e aulas que ninguém entende”.

“A imaginação do gênio vastamente supera seu intelecto; o intelecto do acadêmico vastamente supera a sua imaginação.

“O pior estrago é causado por pessoas competentes tentando fazer o bem; as boas melhorias são feitas por incompentes que não tentar fazer o bem”.

“Uma empresa tem muito a se preocupar quando o cabeça dela vem a público dizer que não há nada a se preocupar”.

“O que eles chamam de risco, eu chamo de oportunidade; mas quando eles dizem oportunidade de baixo risco, eu digo armadilha de perdedor”

“Para se tornar um filósofo, comece a andar bem devagar”.

“Felicidade: não sabemos como medir ou obter, porém sabemos como evitar tristeza”

“Acham que inteligência é sobre notar o que é relevante; num mundo complexo, inteligência consiste em ignorar o que é irrelevante”.

“Conhecimento é subtrativo, não aditivo – subtraímos o que não funciona, o que não fazer”.

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Por falta de um prego

O poema “Por falta de um prego” existe há vários séculos, e mostra que o efeito composto de diversas pequenas causas pode gerar consequências gigantescas.

Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura.

Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo.

Por falta de um cavalo, perdeu-se o cavaleiro.

Por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha.

E assim, o reino foi perdido.

Tudo por falta de um prego.

Em inglês, o poema chama-se “For want of a nail”.

For want of a nail the shoe was lost,
for want of a shoe the horse was lost,
for want of a horse the knight was lost,
for want of a knight the battle was lost,
for want of a battle the kingdom was lost.
So a kingdom was lost—all for want of a nail.

Alguns interpretam o poema como a necessidade de um planejamento meticuloso e atenção aos detalhes, já que um único detalhe pode fazer toda a diferença.

Gosto de ver de outra forma, complementar: não deixe faltar pregos! Estar sempre um pouquinho a favor da segurança. Nos dias de hoje, ter excesso de estoque é ruim, porém, as consequências devem ser analisadas: se faltar um prego, o efeito será pior do que ter um prego em excesso?

Para finalizar, um vídeo engraçado, ilustrando o efeito borboleta.

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com/

As piores frases de Nietzsche

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), é, segundo suas próprias palavras, “Dinamite pura”. É um escritor cuja pena é um martelo, que usa para derrubar ídolos, e por isso, é amado e odiado com a mesma intensidade. Descubra o motivo, na coletânea a seguir.

Atenção: conteúdo explosivo.

Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?

Deus está morto!

Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?

Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera.

Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre. Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros!

Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos entendem pouco de mulheres?

Com o risco de desagradar a ouvidos inocentes eu afirmo: o egoísmo é da essência de uma alma nobre; aquela crença inamovível de que, a um ser “tal como nós”, outros seres têm de sujeitar-se por natureza e a ele sacrificar-se.

Toda elevação do homem foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e escravidão em algum sentido.

A casta nobre sempre foi, no início, a casta de bárbaros: sua preponderância não estava primariamente na força física, mas na psíquica.

O olhar do escravo não é favorável às virtudes do poderoso: é cético e desconfiado.

O amor ao próximo é sempre algo secundário, em parte convencional e ilusório, em relação ao temor ao próximo.

Sobre a convicção do filósofo: chegou o asno, belo e muito forte.

Demonstramos profunda incompreensão do animal de rapina e do homem de rapina (César Bórgia, por exemplo), incompreensão da natureza, ao procurar por algo doentio no âmago desses mais saudáveis monstros.

Sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, igrejas) e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram.

O surgimento de Napoleão é a história da superior felicidade que este século alcançou em seus homens e momentos mais preciosos.

Independência é algo para poucos: é prerrogativa dos fortes. Quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, demonstra que é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida.

É inevitável que nossas mais altas intuições pareçam bobagens, delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não são feitos para elas.

As religiões soberanas estão entre as maiores causas que mantiveram o tipo homem num degrau inferior. Destroçar os fortes, debilitar as grandes esperanças, tornar suspeita a felicidade da beleza, dobrar tudo que era altivo.

Um povo é um rodeio que a natureza faz para chegar a 6 ou 7 homens.

Tudo que é grande talvez tenha sido loucura no início.

Ouço, com prazer, que o nosso Sol se dirige velozmente à constelação de Hércules: espero que o homem desta Terra siga o exemplo do Sol.

O homem que aspira a uma coisa grande considera todo aquele que lhe cruza o caminho, ou como um meio, ou como um obstáculo, ou descanso temporário.

Os maiores acontecimentos e pensamentos são os últimos a serem compreendidos. As gerações que vivem no seu tempo não vivenciam tais acontecimentos – passam ao largo deles.

Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido do que de ser mal compreendido. Neste caso talvez sofra sua vaidade; mas naquele sofrerá seu coração.

A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma.

Tenho uma predileção por perguntas para as quais ninguém hoje tem a coragem, a coragem para o proibido.

O que é bom? Tudo o que eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.
O que é felicidade? o sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

Os fracos e malogrados devem perecer: primeiro princípio de nosso amor aos homens.

O cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando a perceber como pecaminosos os valores supremos do espírito.

O cristianismo é chamado de religião da compaixão. A compaixão se opõe aos afetos que elevam a energia do sentimento de vida: ela tem efeito depressivo.

A compaixão se opõe à lei da evolução, que é a lei da seleção.

A compaixão é a prática do niilismo. É instrumento multiplicador da miséria e conservador de tudo o que é miserável – a compaixão persuade ao nada.

Nem a moral nem a religião, no cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade. São causas imaginárias (Deus, alma, livre-arbítrio) e efeitos imaginários (pecado, salvação, graça, castigo). Um comércio entre seres imaginários (Deus, espíritos). Um mundo de pura ficção, que falseia, desvaloriza e nega a realidade.

Eles não se denominam fracos, denominam-se “bons”. Deus-de-gente-pobre, Deus-de-pecadores, Deus-de-doentes.

Cristão é o ódio ao espírito, ao orgulho, coragem, cristão é o ódio aos sentidos.

Quanto às três virtudes cristãs, fé, amor e esperança, eu as denomino três espertezas cristãs.

O conceito de Deus falseado, o conceito de moral falseado. Os sacerdotes traduziram em termos religiosos o próprio passado de seu povo.

Simplificaram a psicologia, reduzindo-a à fórmula de “obediência ou desobediência a Deus”.

O sacerdote formula até as taxas a lhe pagar, não esquecendo os mais saborosos pedaços da carne, pois o sacerdote é um comedor de bisteca.

Deus perdoa quem faz penitência – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.

Nada de conceito de “gênio” tem algum sentido no mundo de Jesus. Falando com o rigor do fisiológico, caberia uma outra palavra – a palavra “idiota”.

A palavra “cristianismo” é um mal-entendido. No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” é o oposto do que ele viveu, um “disangelho”.

Paulo era o gênio em matéria de ódio, na lógica implacável do ódio. Simplesmente riscou o ontem, inventando uma história. Falseou a história de Israel para que ela aparecesse como pré-história: todos os profetas falaram do seu “Redentor”.

O cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno.

Que resulta disso? Que convém usar luvas ao ler o Novo Testamento.

O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência – a sadia noção de causa e efeito.

O pecado foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda elevação e nobreza do homem; o sacerdote domina mediante a invenção do pecado.

O bem-aventurado não é provado, mas apenas prometido: a bem-aventurança é ligada à condição de “crer” – a pessoa deverá ser bem-aventurada porque crê.

A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem.

Não nos enganemos: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético.

A necessidade da fé, de um sim ou não, é uma necessidade de fraqueza.

A “Lei”, a “vontade de Deus”, tudo apenas palavras para as condições sob as quais o sacerdote chega ao poder e o sustenta.

As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.

A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos.

Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-ses apanas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada.

O cristianismo foi o vampiro do Império Romano.

Eu condeno o cristianismo, faço à Igreja cristã a mais terrível das acusações que um promotor já teve nos lábios. Ela é, para mim, a maior das corrupções imagináveis.

A Igreja cristã nada deixou intacto com seu corrompimento, ela fez de todo valor um desvalor, de toda verdade uma mentira, de toda retidão uma baixeza de alma.

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

Fontes e Link da Amazon:

O Anticristo: https://amzn.to/38DgMP5

Assim falou Zaratustra: https://amzn.to/3jLkg8S

Crepúsculo dos ídolos: https://amzn.to/3tcz2bM

Além do bem e do mal: https://amzn.to/3DOxXvJ

Como (não) fraudar dados e falar sobre honestidade

Dan Ariely é um palestrante internacionalmente conhecido, autor de best seller sobre economia comportamental, figura carimbada em TED talks e tem até série na Netflix. Há alguns dias, pesquisadores investigativos publicaram evidências fortes de que um de seus estudos é fruto de fraude.

Como o autor de “A (honesta) verdade sobre a desonestidade” pode ter ele mesmo fabricado dados e conclusões? Ele e os demais envolvidos afirmam que também não sabiam da manipulação.

Independente ou não de má fé, sua imagem fica extremamente arranhada.

Vale muito a pena entender a análise investigativa completa. Foi um trabalho de “Sherlock Holmes” de informação, publicado no blog Data Colada: https://datacolada.org/98

Segue um resumo:

  • A tese de Ariely é de que assinar formulários prometendo honestidade antes de preencher os dados faz as pessoas serem mais honestas do que assinar só no final.

  • Essa tese levou diversos governos e empresas a mudarem seus formulários. O problema é que a conclusão não conseguiu ser replicada em estudos similares, o que levou os próprios autores a alertarem sobre o fato, e publicarem os dados crus do estudo original, de 2012.

  • Os dados originais eram de uma seguradora, e os clientes informavam a milhagem dos carros segurados (13.488 registros).

  • Uma distribuição comum de milhagem segue uma normal, já a distribuição de parte dos dados era mais parecida com uma uniforme, que pode ser facilmente gerada com um ‘randbetween’ do Excel.
(Figura do The Economist, sobre o artigo citado)
  • Todos os carros que apresentavam distribuição uniforme tinham valor abaixo de 50.000 milhas – o valor máximo foi 49.997. É extremamente implausível que uma distribuição até 50 mil tenha alta frequência, e não haja nenhum valor maior (ou seja, foi algo como um ‘randbetween 50.000’). Os investigadores também garantem que não teve um corte para gerar o gráfico, são os dados brutos que estão estranhos mesmo.

  • Quando uma pessoa preenche um formulário desses, ou ela realmente consulta o odômetro e anota certinho, ou dá uma arrendondada de cabeça. A frequência de números arredondados, terminando em zero, tende a ser maior. Nas bases do próprio estudo, uma base realmente tinha maior frequência em números terminando em 0. Porém, outra base tinha igual frequência em todos os dígitos (de novo, o randbetween é uma explicação fácil).
Estudo do site Data Colada
  • A fonte utilizada na tabela estava diferente, como explica este resumo da revista The Economist, baseada no artigo.
Figura da revista The Economist, sobre o artigo

Não dá para afirmar que Ariely propositalmente manipulou dados, mas algo que ele deveria ter feito, minimamente, era analisar a consistência dos mesmos.

Algumas lições, para quem trabalha com dados:

1) Nunca, de forma alguma, crie informações falsas.

2) Tenha sempre as bases de dados e o racional auditáveis.

3) Conheça bem as informações que tem, faça checagens de consistência.

Por fim, uma ótima reflexão de Sílvio Meira. Os dados não são o “novo petróleo”. Estão mais para “novo urânio”. Isso porque os dados devem ser tratados, refinados, e atingir massa crítica para gerar valor, e o descarte é um perigo, para o negócio e para o ecossistema.

Links:

https://www.timesofisrael.com/claims-swirl-around-academic-ariely-after-honesty-study-found-to-be-dishonest/amp/

https://www.economist.com/graphic-detail/2021/08/20/a-study-on-dishonesty-was-based-on-fraudulent-data

https://www.economist.com/graphic-detail/2021/08/28/how-data-detectives-spotted-fake-numbers-in-a-widely-cited-paper

Dopamina, a molécula do mais



Algumas notas sobre o livro “Dopamina, a molécula do mais”. O tema é esta molécula bastante importante para a nossa vida.

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https://moleculeofmore.com/


A Dopamina é um neurotransmissor que influi no nosso comportamento. É a molécula da surpresa, do futuro, que nos faz querer mais.

A Dopamina é obcecada por nos manter vivos: reproduzir, comer, acumular qualquer coisa que vai nos ajudar a sobreviver.

Já outros neurotransmissores como oxitocina e endorfina são moléculas do presente.

Quando a expectativa vira verdade, a dopamina perde o efeito. A dopamina é o que nos faz querer, ir atrás, só do que é novo. Sabe aquele livro velho na sua estante? Zero dopamina.


O futuro não existe, é ilusão.


A mente faz uma espécie de cálculo Expectativa x Realidade. Se a realidade for menos do que a expectativa, frustração. Se for mais do que a expectativa, alegria.


Drogas e vício sequestram o circuito de recompensas. É como um míssil de dopamina. Age de forma semelhante a vícios como em comida e sexo.

O círculo vicioso de querer mais e mais faz com que os hábitos vão mudando aos poucos. Um exemplo é beber. Uma pessoa pode adquirir o hábito de beber mais, daí vai ficar mais tempo em casa para beber, economizar para beber, e assim sucessivamente.


O vício é como o peso de elefante. O viciado sente que a droga é preferível à família, comida, abrigo, porque a dopamina representa a sobrevivência.


No caso de comida, por exemplo, há circuito no cérebro para contrabalancear o efeito do desejo. No caso de drogas, não tem esse mecanismo, o que piora o círculo vicioso.


Porque Lance Armstrong se drogou, mesmo após vencer 7 vezes o Tour de France? Uma forma de explicar é através da dopamina. Justamente por vencer tanto, ele só ficaria satisfeito se continuasse vencendo. É a perseguição que interessa. É pior perder depois de vencer, do que perder sem nunca ter vencido.

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Apenas um bronze?

Uma lição que fica para mim, na emocionante celebração da medalha de bronze de Bruno Fratus. Cara, é muito, muito difícil conseguir uma medalha.

Primeiro, você tem que ser o melhor do Brasil na modalidade. Não é o melhor do bairro. É o melhor do Brasil inteiro!

Mas só isso não basta, tem que ter nível olímpico, estar entre os melhores do esporte mundial.

Para isso, foco, treinamento incessante, exercícios. Resolver problemas extra esporte. Equilibrar as contas.

Chegando lá, você tem que enfrentar outros atletas de altíssimo nível, os melhores dos melhores do mundo em sua geração, que também dedicaram incontáveis horas de treinamento intenso.

Além de tudo o que depende de você, os deuses do Olimpo também devem estar sorrindo.

Uma contusão, um erro, um vento, um sorteio de chaves, um buraco no campo, um árbitro equivocado, tudo isso pode contar a favor ou contra.

Portanto, não é só um bronze. Não é apenas uma participação nas Olimpíadas. É o esforço de toda uma vida dedicada ao esporte.

Parabéns aos atletas brasileiros nas Olimpíadas de Tóquio 2020!

(De: https://twitter.com/EmilioSansolini/status/1421047424156676096)

Barrichello e os 99%

O episódio mais lamentável da F1 ocorreu no GP da Áustria em 2002, quando Rubens Barrichello deixou Michael Schumacher passar, claramente, na última volta, a poucos metros da linha de chegada.

Rubinho é um dos maiores pilotos da história do Brasil e da Fórmula 1. Mais de 60 pódios, 19 anos de carreira, alguém que certamente ficou milionário com o seu talento, sua habilidade e paixão. Vencer e perder é normal, tentar e não conseguir também. A grande mancha, a meu ver, foi esse episódio vergonhoso.

No link a seguir, uma entrevista recente de Rubens Barrichello (julho/2021).

Na entrevista, Rubinho cita que não havia nada no contrato para ele deixar isso acontecer (mas que no contrato do Schumacher tinha algo assim, uma preferência). Que houvera um episódio anterior, em que ele era segundo e Schumacher terceiro, e ele também tinha deixado o alemão passar. A diretoria da Ferrari tinha dito que o mesmo não ocorreria se ele fosse o primeiro.

Porém, eis que na Áustria, ele estava em primeiro e a história se repetia. Segundo Barrichello, nas últimas 8 voltas, com a equipe falando para ele passar, o diretor da Ferrari fez uma ameaça mais forte.

“Eu ouvi uma coisa grotesca que me fez pensar que seria mandado embora.” (Vide o vídeo da entrevista).

Depois de quase uma década na F1, finalmente ele estava numa equipe top. O contrato tinha acabado de ser renovado. Poucos segundos para uma decisão, na pressão de uma corrida, a 300 km/h, sem ter a consciência de isso repercutiria por décadas… Ele cedeu, na última volta, afirmando que 99% dos brasileiros fariam a mesma coisa.

E ele está certo, 99% dos brasileiros cederiam e cedem a pressões diversas, a fim de manter o trabalho que a tanto custo conseguiram. Criticar é fácil, fazer é difícil. Na prática, as pessoas cedem por muito menos.

Bom, eu iria criticar Barrichello e elogiar o grande Ayrton Senna.

Mas deixa quieto.

No fim das contas, somos todos humanos.

Um livro proibido x palavras escarradas

Uma crítica afiada de Milan Kundera, no livro “A insustentável leveza do ser”.

“Numa sociedade rica, as pessoas não têm necessidade de trabalhar com as mãos e podem consagrar-se a uma atividade intelectual.

Há cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Estes, para obterem os seus canudos, primeiro têm que fazer uma tese sobre um dado tema. E não é difícil arranjar um tema, porque basta glosar o que já foi dito. E como tudo pode ser discutido, há um número infinito de temas.

E assim, cada vez há mais e mais resmas de papel enegrecido amontoadas em arquivos ainda mais tristes do que cemitérios, porque ninguém lá entra, nem mesmo no dia de Finados. A cultura está a desaparecer numa infinidade de produtos, numa avalanche de letras, na demência da quantidade. Acredita em mim: um único livro proibido no teu antigo país tem um significado infinitamente maior do que as milhões de palavras escarradas pelas nossas universidades.”

O Buda faxineiro

Nem todo livro é bom.

Li, ou melhor, ouvi o resumo, de um livro peculiar. Falava da bênção purificadora da limpeza e de como monges budistas faziam.

Limpar o chão logo de manhã para limpar a alma. Detalhe em limpar cada canto.
Arrumar o que está desorganizado. Passar pano nos móveis. Banheiro limpo.
Roupas limpas e arrumadas. Serenidade para organizar livros. Paz de espírito ao limpar os vidros da janela.

A minha conclusão: Buda é faxineiro…

O Timoneiro, de Franz Kafka

O Timoneiro é um conto curto de Franz Kafka, metafórico e poderoso como outros contos do autor.

Reproduzo o mesmo aqui, uma tradução do mesmo em https://en.wikisource.org/wiki/Translation:The_Helmsman.


O Timoneiro

“Eu não sou o timoneiro?” Eu gritei.

“Você?” perguntou um homem alto e moreno e passou a mão sobre os olhos, como se para banir um sonho.

Eu estava de pé no leme na noite escura, a lanterna fraca acesa sobre minha cabeça e agora esse homem tinha vindo e queria me empurrar para o lado.

E como eu não quis desistir, ele colocou o pé no meu peito e me pisoteou lentamente, enquanto eu continuava a me agarrar aos raios do timão do navio e caindo, puxei-o completamente. Mas o homem o agarrou e o trouxe de volta; mim, no entanto, ele se afastou.

Logo me recuperei, caminhei até a escotilha que dava para a cabana e gritei: “Homens! Camaradas! Venham depressa! Um estranho me tirou do leme!”

Eles vieram lentamente, subindo a escada do navio, figuras cambaleantes poderosas e cansadas.

“Eu sou o timoneiro?” Eu perguntei.

Eles acenaram com a cabeça, mas só tinham olhos para o estranho, ficaram em um semicírculo em torno dele e quando ele disse ordenadamente” Não me perturbe “, eles se recompuseram, acenaram para mim e desceram novamente a escada do navio.

Que tipo de pessoas são essas? Elas pensam afinal, ou simplesmente se arrastam sem pensar pela Terra?


Recomendação de leitura. Uma interpretação em quadrinhos dos conto de Kafka, por Peter Kuper:

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