Além do bem e do mal – em 40 frases

O livro “Além do bem e do mal”, do explosivo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, questiona o que é o “bom” e o que é o “mal”. Segundo ele, essas definições variam de acordo com a moral utilizada.

Ele introduz o conceito de “moral dos senhores” e “moral dos escravos”. O que é “bom” para o senhor é “ruim” para os escravos, e vice-versa. Ele defende que as civilizações começaram com a moral dos senhores, até o surgimento da moral dos escravos.

É como pegar uma tabela de valores e preencher os campos bons e maus. A moral dos escravos vira a tabela de cabeça para baixo, é uma inversão completa de todos os valores.

É uma leitura densa, pesada, demorei vários meses para conseguir terminar o livro, apesar de ter menos de 200 páginas. As frases resumidas abaixo correm o risco de simplificar demais os pensamentos polêmicos do autor. Então, fica a recomendação do livro, antes das 40 frases (mais ou menos).

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É um livro que causa fascínio em uns e repulsa em outros. É encantamento ou desespero, sem meio-termo!

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Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos entendem pouco de mulheres?

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Com o risco de desagradar a ouvidos inocentes eu afirmo: o egoísmo é da essência de uma alma nobre; aquela crença inamovível de que, a um ser “tal como nós”, outros seres têm de sujeitar-se por natureza e a ele sacrificar-se.

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Toda elevação do homem foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e escravidão em algum sentido.

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Digamos, sem meias palavras, de que modo começou na Terra toda sociedade superior! Homens, bárbaros em toda terrível acepção da palavra, homens de rapina, ainda possuidores de energias de vontade e ânsias de poder intactas, arremeteram sobre raças mais fracas, mais polidas, mais pacíficas, raças comerciantes ou pastoras. A casta nobre sempre foi, no início, a casta de bárbaros: sua preponderância não estava primariamente na força física, mas na psíquica.

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Numa perambulação pelas muitas morais, encontrei traços que se revelam dois tipos básicos. Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos; acrescento que em todas as culturas superiores aparecem também tentativas de mediação entre as duas morais. No primeiro caso, os dominantes determinam o conceito de “bom”. A oposição “bom” e “ruim” significa tanto quanto “nobre” e “desprezível”. Despreza-se o covarde, o medroso, o mesquinho, o que rebaixa a si mesmo, o adulador que mendiga, e sobretudo o mentiroso.

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É diferente com o segundo tipo de moral, a moral dos escravos. Supondo que os violentados, oprimidos, prisioneiros, sofredores inseguros e cansados de si moralizem: o que terão em comum seus valores morais? Uma suspeita pessimista de toda a situação. O olhar do escravo não é favorável às virtudes do poderoso: é cético e desconfiado.

As propriedades que servem para aliviar a existência dos que sofrem são colocadas em relevo: a compaixão, a mão solícita e afável, o coração cálido, a paciência, a diligência, a humildade.

Aqui, “bom” e “mau”, no que é mau se sente poder e periculosidade, o “mau” inspira medo. O “bom”, é um homem inofensivo: é de boa índole, fácil de enganar, talvez um pouco estúpido, ou seja, um bom homem.

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A degeneração global do homem, descendo ao que os boçais socialistas veem hoje como o seu homem do futuro – como o seu ideal, essa degeneração e diminuição do homem, até tornar-se o perfeito animal de rebanho. Essa animalização do homem em bicho anão de direitos e exigências iguais é possível, não há dúvida!

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O amor ao próximo é sempre algo secundário, em parte convencional e ilusório, em relação ao temor ao próximo.

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Sobre a convicção do filósofo:

Adventavit asinus

Pulcher et fortissimus

[chegou o asno

belo e muito forte]

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Tudo o que ergue o indivíduo acima do rebanho é doravante denominado mau. A mentalidade modesta, equânime, submissa, a mediocridade dos desejos obtém fama e honra morais. 

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Os judeus, o povo eleito entre as nações, realizaram esse milagre da inversão dos valores, graças ao qual a vida na Terra adquiriu um novo e perigo atrativo por alguns milênios. Os seus profetas fundiram rico, ateu, mau, violento e sensual numa só definição. Nessa inversão dos valores, onde cabe utilizar a palavra pobre como sinônimo de santo e amigo, reside a importância do povo judeu. Com ele começa a rebelião escrava na moral.

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Demonstramos profunda incompreensão do animal de rapina e do homem de rapina (César Bórgia, por exemplo), incompreensão da natureza, ao procurar por algo doentio no âmago desses mais saudáveis monstros e criaturas tropicais, ou mesmo por um inferno que lhes seria congênito, como sempre faz todo moralistas.

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Sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, igrejas) e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram -, é justo supor que, via de regra, é inata em cada um a necessidade de obedecer, como uma espécie de consciência formal que diz, você deve absolutamente fazer isso, e se abster daquilo.

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O surgimento de Napoleão é a história da superior felicidade que este século alcançou em seus homens e momentos mais preciosos.

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Todo espírito profundo necessita de uma máscara: mais ainda, ao redor de todo espírito profundo cresce continuamente uma máscara, graças à interpretação perpetuamente falsa de cada palavra.

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Como podem ser maldosos os filósofos! Não conheço nada mais venenoso do que a piada que Epicuro fez às custas de Platão e os platônicos: chamou-se de dionysiokolakes. Significa, em primeiro lugar, “aduladores de Dionísio”, ou seja, clientes de tiranos e puxa-sacos servis; além de tudo quer dizer que “são todos atores, nada neles é autêntico” (pois dionysokolax era uma denominação popular para ator).

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Independência é algo para poucos: é prerrogativa dos fortes. Quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, demonstra que é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele entra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência.

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É inevitável que nossas mais altas intuições pareçam bobagens, delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não são feitos para elas.

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As religiões soberanas estão entre as maiores causas que mantiveram o tipo homem num degrau inferior. Destroçar os fortes, debilitar as grandes esperanças, tornar suspeita a felicidade da beleza, dobrar tudo que era altivo, viril, conquistador, dominador, todos os instintos próprios do mais elevado e mais bem logrado tipo homem, transformando-os em incerteza, tormento de consciência, autodestruição, mais ainda, converter todo o amor às coisas terrenas e ao domínio sobre a Terra em ódio a tudo terreno – esta foi a tarefa que a igreja se impôs.

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Foi uma sutileza que Deus aprendesse grego quando quis se tomar escritor – que o aprendesse melhor.

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Um povo é um rodeio que a natureza faz para chegar a 6 ou 7 homens.

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Tudo que é grande talvez tenha sido loucura no início.

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Ouço, com prazer, que o nosso Sol se dirige velozmente à constelação de Hércules: espero que o homem desta Terra siga o exemplo do Sol.

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Entre os chineses existe um provérbio que as mães ensinam às crianças de berço: “Faz pequeno o teu coração!”. Esta é, de fato, a tendência fundamental das civilizações tardias: não tenho dúvida de que a primeira coisa que um grego antigo observaria em nós, europeus modernos, seria também a autodiminuição.

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O homem que aspira a uma coisa grande considera todo aquele que lhe cruza o caminho, ou como um meio, ou como um obstáculo, ou descanso temporário.

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Os maiores acontecimentos e pensamentos são os últimos a serem compreendidos. As gerações que vivem no seu tempo não vivenciam tais acontecimentos – passam ao largo deles.

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Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido do que de ser mal compreendido. Neste caso talvez sofra sua vaidade; mas naquele sofrerá seu coração.

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Devemos nos despedir da vida como Ulisses de Nausícaa – bendizendo mais que amando.

Nota: Referência à Odisseia. Ulisses parte para o caminho de casa, agradecendo à bela Nausícaa, princesa de um reino na qual ele se abrigou após um naufrágio.

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A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma.

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Apesar daquele filósofo que, como autêntico inglês, tentou difamar o riso entre as cabeças pensantes – “o riso é uma grave enfermidade da natureza humana, que toda cabeça pensante se empenharia em superar” (Thomas Hobbes) – eu chegaria mesmo a fazer uma hierarquia dos filósofos conforme a qualidade do seu riso, colocando no topo aqueles capazes da risada de ouro.

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Eu, o derradeiro iniciado e último discípulo do deus Dionísio, talvez eu pudesse enfim, caros amigos, lhes dar de provar um pouco dessa filosofia, tanto quanto me é permitido.

Nota. Dionísio (ou Baco, para os romanos) é o deus grego do vinho, natureza, fertilidade e alegria. Representa o Caos, o êxtase, embriaguez… Nietzsche sempre se diz discípulo de Dionísio. Afinal, é do caos que nasce uma estrela.

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Posfácio

O livro “Além do bem e do mal” foi recusado por várias editoras, sendo publicada às custas do próprio autor, em 1886. A tiragem foi de 300 exemplares. Em um ano, apenas 114 tinham sido vendidos, e 66 enviados para jornais e revistas. Talvez por isso, Nietzsche tenha dito que “somente encontraria leitores por volta do ano 2000”.

Hoje, este é considerado um dos grandes livros do Século XIX, segundo o crítico Walter Kaufmann; e Nietzsche, um dos mais polêmicos filósofos de todos os tempos.

Para mais conteúdo explosivo, vide:

https://ideiasesquecidas.com/2020/04/09/o-martelo-fala/

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/03/o-anticristo-de-nietzsche-em-40-frases/

https://ideiasesquecidas.com/2017/12/13/o-crepusculo-dos-idolos-em-40-frases/

O segredo dos Dabbawallas, o melhor delivery do mundo

Na Índia, cinco mil dabbawallas (badda = caixa) entregam 200 mil marmitas, preparadas na mesma manhã na residência das pessoas e entregues no local de trabalho. À noite, a logística reversa: os dabbawallas devolvem as marmitas.

Na média, as marmitas percorrem 60 km, de bicicletas, trens, carrinhos ou a pé, envolvendo cerca de seis entregadores diferentes. Cada entregador carrega 65 kg!

Erros são inferiores a 1 em 6 milhões!

O segredo não é tecnologia. Não precisam de camadas complicadas de gerentes, nem de computadores com softwares avançados. Ninguém fez Design Sprint para desenhar o processo. Não há palestras motivacionais. O serviço existe há mais de 100 anos, com a mesma eficiência, utilizando cores e símbolos, já que boa parte dos entregadores não sabe ler.

O segredo é o comprometimento! O cliente é rei, já que entregar uma marmita errada é imperdoável, algo que mancha a imagem não só do entregador, mas do processo de entregas e da vila da onde vêm os entregadores (são quase todos do mesmo local de origem).

Um ponto que sempre comento. Muita gente sempre aponta sistemas computacionais como a solução. Para mim, é o exato oposto. O processo tem que ser bom, e depois puxar o sistema.

Processo >>> Sistema.

Links:

The secret to Mumbai’s dabbawalas | Financial Times (ft.com)

How dabbawalas became the world’s best food delivery system | The Independent | The Independent

Utter | From Dabbas to Facts! 10 Unknown Facts of Dabbawallas! | Utter (bewakoof.com)

5 regras para a vida

Cada um de nós é livre para escolher as regras que melhor cabem para guiar a sua vida.

Neste começo de ano, escolha as suas próprias regras.

Regras para a vida, de Arnaldo Gunzi.

1 – O mundo é cíclico
2 – Resultados são não-lineares
3 – O longo prazo chega um dia
4 – A felicidade está no caminho
5 – Somos feitos do que pensamos


1 – O mundo é cíclico


O mundo é cíclico. Causas geram consequências, talvez não imediatamente, mas um dia, de alguma forma, as sementes geram frutos.

É como empurrar água numa banheira: ela vai, bate na borda e retorna em seguida.

Jogamos jogos iterativos, uma, duas, centenas de milhares de vezes, com outras pessoas que habitam este planeta.


2 – Resultados são não-lineares

Ações são lineares, porém resultados são não-lineares.
Só conseguimos agir linearmente – ou seja, um pouco por dia. Mesmo fazendo muita coisa por dia, o limite é de 24h.

No entanto, esse um pouco por dia, por vários dias, num mundo cíclico, gera o efeito dos juros compostos.

Já dizia Einstein que os juros compostos são a força mais poderosa do universo. Juros sobre juros, resultados sobre resultados, crescendo exponencialmente.

O efeito é que os resultados serão invisíveis no dia-a-dia, por muito tempo, fazendo-o questionar: “Para que tanto esforço?”

Até que, um dia, os resultados chegam. É como se fosse uma função não-linear, descontínua, aos saltos.

Ciclos podem ser virtuosos ou viciosos. Ciclos virtuosos são para cima. Em geral, é muito difícil subir, temos a gravidade se opondo.

Ciclos viciosos são o oposto, para baixo. Novamente, o resultado não virá no dia, mas no acúmulo dos dias, meses e anos. Quando a pessoa percebe, está numa armadilha difícil de sair. É extremamente mais fácil descer do que subir. Tais ciclos devem ser interrompidos imediatamente, sob o risco de se tornarem intransponíveis com o tempo.

Sub-tópico: Alavancagem. Alavancar é tomar emprestado a força de outros, seja na forma de trabalho (terceirização, por exemplo), dinheiro (investimento) ou know-how. A alavancagem acelera os ciclos, é como se o expoente fosse um número maior (para bem ou para o mal).

Como disse Arquimedes: “Dê-me uma alavanca e moverei o mundo”.

Sub tópico: as regras não estão escritas. Não há um livro que contenha as regras absolutas do que vai dar certo e o que não vai.


3 – O longo prazo chega um dia


Neste mundo cíclico e não-linear, ficamos impacientemente esperando pelos resultados. Estes não virão a curto prazo, só a longo prazo.

O longo prazo pode ser vários anos. Ou décadas, muitas décadas.

No xadrez, o ser humano tem capacidade de analisar algumas poucas jogadas à frente. Já um computador pode analisar centenas de jogadas. O ser humano faz uma jogada que maximiza o resultado de curto prazo. Já um bom software pode fazer jogadas estranhas a curto prazo, porém boas a longo prazo. Hoje em dia, nenhuma pessoa consegue vencer os computadores no xadrez.

Ganhos de curto prazo podem satisfazer o nosso ego, encher os nossos receptores de prazer e satisfação. Tal como uma “escapadinha” pode gerar satisfação momentânea, porém problemas conjugais e filhos rejeitados, que se perpetuarão pelos anos vindouros.

No longo prazo, os resultados do mundo cíclico são exponenciais.


No final do dia, o longo prazo é que conta de verdade.

4 – A felicidade está no caminho


Trabalhamos, estudamos e nos esforçamos tanto para conseguir o nosso lugar ao Sol neste mundo.

O que não percebemos é que não é conquistar isso tudo que nos trará felicidade.

É como se estivéssemos escalando uma montanha, e após conseguir, avistamos outra montanha, maior ainda, e outra, e outra.

Passar pelo colégio, depois pela graduação, conseguir uma boa colocação, família, outra colocação melhor, viajar para fora, pós-graduação, resolver problemas de saúde, resolver problemas na família. São inúmeros pratos girando, e se todos estiverem ok, procuramos mais pratos para girar, até o ponto em que algum deles começa a cair.

O mito grego de Sísifo remete a um condenado pelos deuses a rolar uma pedra morro acima. É uma pedra enorme, e Sísifo faz um esforço tremendo para conseguir o feito. Porém, no exato momento em que ele consegue o objetivo, a pedra rola para baixo, para o ponto inicial, obrigando-o a começar tudo de novo, todos os dias, todas as décadas, eternamente.

O escritor francês Albert Camus reinterpretou o mito de Sísifo, acrescentando um final um pouco diferente: nota-se um leve sorriso em Sísifo, no momento em que ele está concentrado, rolando a pedra morro acima.

A felicidade está no caminho percorrido, e não no final. O momento é aqui, e agora.


5 – Somos feitos do que pensamos

Assim como o nosso corpo é constituído daquilo que comemos, a nossa mente é feita do que consumimos.

O fast-food da mente são a mídia vazia que invade as múltiplas telas de nossos lares: aquele vídeo sensacionalista, a foto da comida do restaurante bacana que o primo postou, o boato atacando x ou y, a fofoca que não melhora o mundo em nada, os famosos que mostram a bunda em troca de likes…

Consumas desgraças e serás apenas desgraça. Consumas futilidade, serás outra.

Assim como uma alimentação de qualidade necessita de tempo e esforço na preparação, bons pensamentos exigem uma quantidade enorme de trabalho para serem selecionados e digeridos. Bons livros (em papel ou digitais), bons professores, grandes nomes para seguir, bons grupos para entrar.

É como se o software modificasse o hardware. Os pensamentos (software) vão alterando as redes neurais, um pouquinho por vez, até o momento em que o cérebro todo (hardware) está reconectado com a nova realidade.

Sub tópico. Diga-me com quem andas, e direi quem és. A boa frase continua tão válida hoje quanto no passado, aliás será válida para todo o sempre. Não se associe ao vampiros emocionais que vão sugar a sua energia. Não se associe à sociopatas que querem o seu trabalho em troca de nada. Não se associe àqueles que têm satisfação em ver o outro para baixo (porque, dessa forma, sentem-se superiores). Não se associe à cínicos, pessimistas crônicos, ou pessoas de mau caráter. Associe-se a quem vai te jogar para cima.


Conclusão. O grande filósofo Friedrich Nietzsche disse algo assim. É como se estivéssemos numa margem de um rio enorme, e tivéssemos que atravessar para o outro lado. Há algumas pontes construídas ao longo do rio. Porém, utilizar a ponte tem um pedágio, e o preço é a sua alma…


Construa o seu próprio barquinho para realizar a jornada.

Por que a banana não tem sementes?

Subtítulo: A verdadeira guerra dos clones.

Como algo que não tem sementes se reproduz? A resposta é que parte dos bulbos da bananeira é cortada, fazendo mudas, que são replantadas.

A bananeira se propaga vegetativamente. Cada nova cópia é um clone estéril. A banana não faz sexo e nem tem variação genética há milênios.

Ora, mas se é assim, porque a bananeira produz frutos, se esses são inúteis? Por que gastar uma quantidade enorme de energia, produzindo frutos grandes, carnosos e sem sementes? Puramente para o deleite dos seres humanos?

A resposta é que a banana comercial dos nossos tempos é fruto de seleção artificial.

As bananas selvagens tinham sementes no seu fruto. A foto a seguir ilustra este fato.

A primeira banana comestível, sem sementes, surgiu há cerca de 10 mil anos, no sudeste asiático. O ser humano passou a cuidar desta espécie valiosa, e a carregar para onde ia, e este exército de clones o ajudou a dominar o mundo. O poder nutricional da banana foi extremamente útil na colonização das Américas.

Uma vantagem dos clones é a consistência de sua qualidade, afinal todas as cópias têm exatamente o mesmo DNA. A banana de hoje é a mesma de milênios. Nos dias de hoje, a espécie Cavendish representa 99% de todas as bananas comercializadas no mundo. No Brasil, ela é conhecida como banana nanica.

Uma grande desvantagem é a suscetibilidade à doenças, pragas ou variações climáticas. Se uma praga ataca um indivíduo, esta atacará facilmente toda a população. Isso, somado a milênios de evolução, torna a banana um alvo fácil.

Na verdade, essa história é tão consistente que já houve uma espécie de banana chamada Gros Michel, que era dominante até os anos 1950. Um fungo, o Mal-do-Pananá, dizimou as plantações dessa espécie, o que obrigou os produtores a adotarem outro clone, o Cavendish.

Entretanto, a natureza evoluiu, enquanto a banana, não. Uma evolução do fungo do Panamá ameaça a Cavendish, atualmente. É uma questão de tempo, sejam dezenas ou centenas de anos, para surgir na natureza alguma praga ou doença que dizime o nosso exército de clones.

Sem reprodução sexuada, fica extremamente difícil inserir modificações genéticas. Projetos de pesquisa para aprimorar a banana se tornam extremamente caros, com resultados incertos.

Fazendo uma analogia, para ilustrar o quão artificial foi a seleção. É como se um ET, ou um Titã, pegasse toda a população de seres humanos da Terra, escolhesse um indivíduo alto, obeso e sem testículos (digamos, 1,95 m com 250 Kg), e clonasse o mesmo indivíduo à exaustão. Como este não se reproduz, o Titã fica responsável por reproduzir clones via métodos artificiais.

Pelo indivíduo ter uma série de problemas, digamos diabetes, pressão alta, dor nas juntas (as características boas para o Titã não são necessariamente boas para a pessoa), ele deve receber uma dose maciça de cuidados, como remédios diversos.

O Titã e o exército de clones dominaram a face da Terra, a ponto de substituir quase todas as outras pessoas. Porém, a natureza é maior do que o Titã, e uma doença, digamos uma super gripe, começa a dizimar o seu clone favorito. Por todas as cópias serem iguais, a super gripe encontra um terreno fértil e abundante.

O Titã, vendo isso acontecer, primeiro dobra a dose de cuidados em seu clone (mais remédios), depois, tenta desenvolver resistência genética à gripe. Ele pega o punhado de seres humanos normais que sobraram, para estudar. O clone não consegue mais fazer sexo, há milênios, e seus parentes são pessoas mirradas de 70 Kg e 1,70 m, pouco atrativas ao Titã.

Há poucas alternativas. Ou surge outro clone interessante dessa população de seres humanos, ou ele deve pegar um gene resistente de algum desses mirradinhos e inserir em seu clone. Note que é uma tarefa extremamente complexa – seria muito mais viável se, desde o início, toda a população tivesse evoluído naturalmente.

Links.
https://www.conservationmagazine.org/2008/09/the-sterile-banana/

https://www.thedailymeal.com/eat/why-don-t-bananas-have-seeds

http://plantproject.com.br/novo/2018/08/global-a-luta-para-salvar-as-bananas/

https://www.yarabrasil.com.br/conteudo-agronomico/blog/tipos-de-bananas/

A Quest for the Gros Michel, the Great Banana of Yesteryear – Gastro Obscura (atlasobscura.com)

Curiosidade: A banana tem semente? – Estudo Prático (estudopratico.com.br)

De onde vêm as boas ideias – Steven Johnson

Um breve resumo do livro “De onde vêm as boas ideias”, de Steven Johnson. Este é um clássico no tema “Inovação”, popularizando termos como “possível adjacente” e “slow hunch”.

Temas:

  • Possível adjacente
  • Intuição lenta
  • Redes líquidas
  • Serendipidade
  • Ecossistema

Possível adjacente: a evolução ocorre passo a passo. De uma molécula simples que se junta à outra, formando células e depois organismos, até chegar nos seres vivos.

Uma ideia muito à frente do seu tempo não funciona. Se o Youtube tivesse surgido em 1995, não teria dado certo, já que nem internet de banda larga existia. Outro exemplo é o computador mecânico de Charles Babbage, 100 anos à frente dos computadores eletrônicos: não funcionou, por não ter os elementos necessários para tal.

Por outro lado, ocorrem múltiplas descobertas simultâneas,quando a invenção está no seu momento. Quem inventou o avião, Santos Dumont ou os Irmãos Wright? A relatividade geral é trabalho de Einstein, porém outros como Henri Poincaré também estavam chegando à mesma conclusão. Quando a inovação está “madura” para surgir, ela vai surgir.

Palpite lento. Não há momento “Eureka”. Ideias demoram tempo para amadurecer. Charles Darwin ficou décadas elaborando sua teoria da evolução.

Serendipidade para cruzar com outras ideias. Tentativa e erros, reciclagem e combinação de ideias antigas. Grandes palpites surgem à partir da colisão de pequenas ideias.

Por isso, a necessidade de redes líquidas. Redes de colaboração, lugares para ideias fluírem livremente.

Cidades são boas nisso. Os cafés e salões no iluminismo são um ótimo exemplo de espaço para ideias cruzarem e incubarem.

Ecossistema. Por fim, uma plataforma completa de inovação. Empresas, universidades formando mão-de-obra especializadas, regulação, capital de risco, tudo influencia de forma direta ou indireta.

Recifes de corais são o grande exemplo de ecossistema de inovação. Os corais envolvem dezenas de milhares de formas de vida diferentes. Cada forma de vida modifica o ambiente e possibilita que outras formas de vida surjam, nas suas cascas vazias ou consumindo os seus subprodutos.

Não dá para competir individualmente. A competição tem que ser sistêmica, como um ecossistema competindo com outro. Neste quesito, o Brasil está muito atrás.

Veja também:

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https://ideiasesquecidas.com/2020/07/12/6-livros-sobre-inovacao/

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/16/por-que-segredo-da-inovacao-esta-no-ecossistema/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/25/algumas-palavras-sobre-inovacao/

A mente deve ser cultivada como um jardim

Este texto é inspirado no livro, “O homem é aquilo que pensa”, do escritor britânico James Allen, publicado originalmente em 1903.

O homem é aquilo que pensa.

A mente é como um jardim. E, como todo jardim, pode ser cultivado ou abandonado.

Um jardim abandonado terá proliferação de ervas daninhas.

Um jardim cultivado dará flores e frutos.

Devemos eliminar pensamentos inúteis, perigosos, e cultivar pensamentos bons, úteis.

Nossos pensamentos se tornarão padrões e hábitos, que se transformarão em nossa personalidade. Por fim, isso influenciará nosso destino.

Mudando os nossos pensamentos, o nosso destino também mudará.

O mundo é mudado por nós, e não o oposto.

Temos a total responsabilidade por nossas vidas.

O homem é limitado apenas pelos pensamentos que escolhe.

Notas finais:

De forma similar à Allen, há outros pensadores que também citam o tema.

Há uma frase de Buda, que diz “Somos aquilo que pensamos”.

Ou Shakespeare, através de seu personagem Próspero, na obra Tempestade: “Somos feitos da matéria de nossos sonhos”.

Vejo muita gente que adora cultivar o corpo em academias, crossfit e similares. Ou em dietas, salões de beleza. Porque tanta gente cultiva o corpo e e tão poucos cultivam a mente?

Veja também:

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https://ideiasesquecidas.com/2020/10/15/o-ecossistema-faz-toda-a-diferenca/

https://ideiasesquecidas.com/2019/10/27/o-que-e-sucesso-meme/

https://ideiasesquecidas.com/2018/07/16/o-que-e-felicidade-para-mim/

Strand, Borders, Cultura e a Livraria de Lucien

Ontem, sábado, fiz provavelmente a última visita da minha vida à outrora magnífica Livraria Cultura, da Av. Paulista.

O espaço continua semelhante, fora alguns anexos que fecharam. O conteúdo, mais pobre. Antigamente, as estantes bombavam de novidades, com muito mais vida. Hoje, vários dos títulos expostos são os mesmos de anos atrás. Livros hoje lembram os discos de vinil, algo que teve a sua época, mas passou. Vão sobreviver, assim como existem discos de vinil até hoje, porém, somente em volumes menores e para consumidores de nicho.

É uma questão de tempo, para fechar de vez. Ela não conseguiu se adequar aos tempos modernos. O mesmo ocorre com a Saraiva e tantos outros. O varejo agora é digital. Amazon, Magazine Luiza, Mercado Livre são os novos titãs do pedaço.

Este é um fenômeno mundial. Hoje, vejo a notícia que a outrora magnífica livraria Strand, de Nova Iorque, também está numa situação terrível (vide links abaixo).

Fiz visitas a ela nas duas vezes em que fui passear na cidade. Era o maior sebo de livros usados do mundo. E coloca grande nisso! Era possível ficar horas ali, percorrendo as estantes, folheando passagens diversas em busca de conhecimento esquecido e de barganhas. Foi ali que comprei um livro muito especial, a biografia de Steve Jobs por Walter Isaacson, que tenho até hoje.

Foto minha na Livraria Strand, em 2008

Os tempos modernos já fizeram outras vítimas. A Borders, uma espécie de Saraiva americana, já se foi faz tempo. Tenho excelente lembrança dela, pois tinha uma Borders em Brisbane, na Austrália, onde fiquei por três meses.

A mais magnífica livraria de todas que já visitei foi a Barnes & Noble da 5ª avenida. Uma loja imensa, com corredores intermináveis. Eu me senti na biblioteca de Lucien.

Lucien é um personagem da série Sandman. É o bibliotecário do reino dos sonhos, e ele toma conta de uma biblioteca infinita.

A biblioteca de Lucien tem todos os livros escritos e não-escritos do mundo. Contém todos os tópicos já imaginados, desde os mais ingênuos até os mais profanos, por todas as pessoas que já existiram e sonharam na face da Terra…

A loja Barnes & Noble da 5a avenida fechou faz tempo. A rede Barnes & Noble ainda existe. Da última vez que visitei uma, na Califórnia, vi que ela tinha se reinventado, incorporando brinquedos, papelaria, quebra-cabeças ao seu repertório. Porém, mesmo assim ela deve ter sentido o baque da pandemia e a perda do market share para o digital.

Contudo, Strand, Borders, Cultura, Saraiva e muitas outras continuarão existindo, para todo o sempre, nas nossas lembranças. A infinidade de corredores delas será incorporada à Biblioteca de Lucien, e todos os livros estarão ali, disponíveis para todo o sempre, no mundo dos sonhos.

Trilha sonora: Meditação – Maysa Matarazzo (letra: Tom Jobim)

Veja também:

https://www.theguardian.com/us-news/2020/oct/24/the-strand-bookstore-new-york-plea-for-help

https://www.dn.pt/cultura/a-ultima-livraria-da-4-avenida-luta-pela-sobrevivencia-12958918.html

https://sandman.fandom.com/wiki/Lucien

https://ideiasesquecidas.com/2020/10/18/o-que-aprendi-vendendo-livros-pela-amazon/

Relembrando alguns posts notáveis

Cinco postagens antigas que estiveram recentemente entre os mais acessados, e valem uma releitura.

Eu sou o Mestre do meu Destino, eu sou o Comandante da minha Alma – palavras impressionantes de William Ernest Henley
https://ideiasesquecidas.com/2015/08/11/eu-sou-o-mestre-do-meu-destino-eu-sou-o-comandante-da-minha-alma-2/

Ethos, Pathos e Logos: elementos da persuasão, segundo o grande Aristóteles. É a arte de escolher o melhor argumento a cada caso com o fim de persuadir.

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/07/ethos-pathos-e-logos/

Sobre o poema Morte e Vida Severina, e a versão musicada de “Funeral de um lavrador“.
https://ideiasesquecidas.com/2018/10/14/funeral-de-um-lavrador/

Algumas reflexões sobre o famoso “negativo x negativo = positivo”.

Corolário. Um pouco da “Tabajara álgebra”, onde negativo x negativo = negativo.


https://ideiasesquecidas.com/2016/05/15/negativo-x-negativo-positivo-por-que/

Sobre Cisnes Negros. Eventos de baixa probabilidade e alto impacto, que surgem em nossas vidas. Nassim Taleb é o autor que mais admiro no mundo moderno.


https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

O Iceberg de Analytics

Reflexão. Uns 90% de qualquer (bom) trabalho em Analytics não tem relação com o modelo superlegal cheio de matemática, mas com todo o trabalho consultivo envolvido.

A grande complexidade dos problemas do mundo real não está em resolver com perfeição um problema difícil. Está em formular um problema resolvível, com os recursos existentes, a um custo (de licenças e de tempo) acessíveis.

E é por isso que projetos falham….


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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O Amor Fati no mundo atual

Amor Fati é um dos conceitos mais interessante do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Significa, simplesmente, “Amor ao destino”. Amar a sua vida, hoje, agora, do jeito que ela é, e não do jeito que você gostaria que fosse.

Estoicismo

A fórmula do amor fati é semelhante aos pensamentos do Estoicismo, escola de pensamento greco-romana.

“Não procure que tudo aconteça como você deseja, mas sim que tudo aconteça como realmente deve acontecer – então sua vida será serena”.

O único momento da vida que realmente vivemos é o agora. O passado já foi, o futuro não existe ainda.

Então devemos aceitar tudo?

Há um questionamento recorrente à este tipo de filosofia. Devemos então aceitar passivamente a nossa vida, sem questionar e sem querer mudar nada?

Sobre este ponto, gosto da visão de Nassim Taleb, dos livros Cisne Negro e Antifrágil.

Ele cita que o filósofo antigo Sêneca era bastante criticado. Por um lado, ele pregava o estoicismo. Por outro lado, ele ocupava posição importante na política e não se refreava em desfrutar do melhor que o dinheiro poderia comprar.

Taleb argumenta que Sêneca era antifrágil. Se a vida dava a ele condições, por que não a aproveitaria? Se ele viesse a perder tudo o que tinha, ele simplesmente daria de ombros e continuaria a tocar a vida daquele ponto em diante, sem ficar lamentando a má sorte e as agruras do destino.

Sêneca era, portanto, um praticante do Amor Fati.

“Lembre-se que tudo que temos nesta vida está emprestado para nós pelo Destino. Este pode reaver tudo sem nos avisar. Portanto, devemos amar nossos entes queridos, mas sempre lembrando que não há promessa que podemos cumprir para sempre.” – Sêneca, o jovem.

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/11/13/aforismos-de-seneca-sobre-a-vida/

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

https://ideiasesquecidas.com/2020/08/16/a-natureza-probabilistica-heisenberg-e-o-eterno-retorno/


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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A revista de 125 anos

Em 1895, um produtor de equipamentos agrícolas lançou a revista “The Furrow”. O conteúdo: novas técnicas agrícolas, dicas úteis, cases interessantes ao fazendeiro.

The Furrow

A revista foi um sucesso. Em meados de 1900, já tinha 4 milhões de leitores.

O nome da empresa: John Deere. Uma dos maiores do mundo no setor. E a publicação, “O sulco” em português, existe até hoje.

A revista não era um catálogo de produtos nem tinha conteúdo viesado para a empresa. Não era egoísta. O objetivo era agregar valor ao produtor rural. Daí o seu sucesso.

Quanto mais uma empresa colabora com a sociedade ao seu redor, melhor o resultado para ela mesma e para todos.

Alguns links:

https://www.deere.com.br/pt/publica%C3%A7%C3%B5es/o-sulco/