​ Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Tenho uma biblioteca física com mais de 500 livros, e uma virtual com o triplo disto.

 

Esta é dividida em quatro macro seções: uma de exatas, outra de administração / economia, a terceira de filosofia e a quarta literatura em geral.

 

Só não tenho mais livros porque cheguei no limite físico do que cabe num apartamento.

 

Mas, suponha que estivesse me mudando para sempre para um lugar completamente novo, e tivesse que escolher apenas um único livro da biblioteca. Que livro eu levaria para uma ilha deserta, ou para um país do outro lado do mundo? 

 


 

Primeiro, o que não seria. Não seria nenhum livro técnico. Embora muito de minha formação tenha vindo desses livros, o conhecimento de matemática, engenharia e computação é puramente racional, não tem nada de emocional. Posso pegar um pdf desses livros e chegar no mesmo resultado.

 

Tenho uma coleção de livros do Peter Drucker. Fiquei fascinado por suas ideias e seu jeito de escrever. Mas não levaria um livro dele, ou algum outro de administração, pelo mesmo motivo de existir a alternativa digital. A internet acabou com a necessidade de livros físicos.

 

A área de filosofia tem muito material de qualidade. Desde livros de introdução, como o de Thomas Nagel, até a obras primas como o Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre (que nunca consegui ler, confesso). Da Política de Aristóteles até o Estrangeiro de Albert Camus, há muito material bom. Legal mesmo são as obras de Nietzsche, provocantes, insinuantes, politicamente incorretas.

 

Não levaria nenhum desses. O que eu levaria para uma ilha deserta é o “Think and Grow Rich”, de Napoleon Hill.

 

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Pense e enriqueça

 

Napoleon Hill é um escritor de 100 anos atrás, autor de livros de auto-ajuda.
A receita é clássica: força de vontade, persistência, otimismo.

 

Não leio muito livros deste tipo, justamente pela fórmula ser conhecida, e também por uma abordagem assim não ter validade científica.

 

Porém, tem horas em que toda a matemática do mundo não vale nada, a gente precisa mesmo é uma dose de esperança, que pode ter raízes reais ou ilusórias.

 

Até hoje me lembro da história de Edwin C. Barnes. Um homem falido, que tinha um único desejo ardente: trabalhar com o grande inventor Thomas Edison. Edison é famoso por ter inventado a lâmpada elétrica, mas ele fez muito mais do que isso. Ele criou um império de produtos ligados à energia elétrica.

 

Barbes viajou num trem de carga, sem bagagem, sem dinheiro, unicamente para se encontrar com Edison. E, finalmente, lá estava ele, vestido como um mendigo, na frente do homem mais rico do mundo, afirmando com convicção: “Bom dia, sr. Edison. Vim fazer negócios com você!”

 

Independentemente do que Barnes disse, o que contou para Edison foram os seus olhos.

 

Alguém com a força de vontade e a determinação irradiada pelos olhos de Barnes, disposto a arriscar toda a sua vida por uma única oportunidade, não iria falhar.

 

Edison deu uma ocupação qualquer a Barnes, algo irrelevante para ele, porém de grande importância para Barnes, por ter a chance de estar em contato com o seu sonho.

 

Meses se passaram, anos se passaram, sem novidade alguma. Um dia, Barnes viu uma oportunidade. Ninguém queria vender um equipamento chamado “Edison dictating machine”, uma espécie de gravador. Barnes colocou toda a sua energia para vender esta máquina, e foi extremamente bem sucedido, inspirando até a criação de um slogan: “Feito por Edison, instalado por Barnes”.

 

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Barnes ganhou uma fortuna, vários milhões de dólares na época – o que corrigido para hoje, daria algumas centenas de milhões.

 

Este livro, cheio de histórias de patinhos feios que viraram príncipes, é o que eu certamente levaria para uma olha deserta.

 

Pode não ser científico, e pode talvez nem funcionar.
Mas com o ser humano é o contrário: só funciona se ele acreditar.
“Mais ouro foi extraído da cabeça do ser humano do que todas as minas do mundo”. Napoleon Hill.
“O vencedor nunca desiste, o desistente nunca vence”. Napoleon Hill.
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Links:

 

O veneno da víbora não afeta um dragão

Um conselho de Nietzsche para aqueles que se incomodam com provocações alheias.


 

A picada da víbora

Um dia dormitava Zaratustra debaixo de uma figueira, pois fazia muito calor e com o braço cobria o rosto. Veio uma víbora e mordeu o seu pescoço, e ele lançou um grito de dor. Quando tirou o braço do rosto, olhou a serpente. Então a serpente reconheceu os olhos de Zaratustra, retorceu-se e quis fugir.

– Não, exclamou Zaratustra. Ainda não te agradeci! A tempo me despertaste. Grande ainda é meu caminho.

– Teu caminho agora é curto – disse tristemente a víbora – meu veneno mata.

Zaratustra pôs-se a rir.

– Quando matou a um dragão o veneno de uma serpente? -disse. Retoma o teu veneno, não és rica para dá-lo a mim. Então a víbora tornou a enroscar-se no seu pescoço e lambeu a ferida.

 

Quando Zaratustra contou esta história a seus discípulos, estes lhe perguntaram:

– E qual é, Zaratustra, a moral do conto?

Zaratustra respondeu:

– Os bons e os justos me chamam de destruidor da moral, meu conto é imoral. Mas, se tendes um inimigo, não lhe devolvais bem por mal, porque se veria humilhado: demonstrais, ao contrário, que lhe fizeste um bem. E em vez de humilhar, encoleriza-vos. E quando vos maldigam, não me agradas que queiras bendizer. Maldizei vós também!

 

Assim Falava Zaratustra – Friedrich Nietzsche.

 

Forgotten Lore

O nome deste blog, Forgotten Lore, vem do enigmático “O Corvo” (The Raven), do autor americano Edgar Allan Poe:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore

 

Este é um dos poemas mais conhecidos de Allan Poe. Foi escrito em 1845, e é citado e recitado diversas vezes ao longo da história.

https://www.eapoe.org/geninfo/zpf0003b.gif

Como o inglês dele é bem difícil, tive que ler, procurar no dicionário, reler diversas vezes para entender o poema…

No caso específico de Forgotten Lore.

Forgotten significa “esquecido”.
Lore significa “conhecimento” –  não conhecimento por conhecimento, mas um conhecimento valioso.

O significado de Lore, segundo o dictionary.com:

the body of knowledge, esp. of a traditional, anecdotal, or popular nature, on a particular subject.

(http://www.dictionary.com/browse/lore)

 

Portanto, Forgotten Lore pode ser interpretado como: Um conhecimento valioso esquecido em livros antigos.

 


 

Sonhando sonhos

O poema The Raven deve ser lido em voz alta, em inglês. Mesmo sem entender uma palavra do que está escrito, dá para perceber que este segue uma métrica bem definida e tem uma sonoridade agradável aos ouvidos.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Raven_Manet_D2.jpg

 

Além disso, tem várias outras passagens memoráveis e frases que viram citações conhecidas. Gosto muito deste trecho:

Dreaming dreams no mortal ever dared to dream before,

algo como “Sonhando sonhos que mortal nenhum jamais ousou sonhar”, em tradução livre.

Esta minha tradução é fácil de entender, mas destruiu a estrutura e a poética do texto.

Que tal a versão de alguém com um pouquinho mais de calibre?

Na tradução de Fernando Pessoa:

“tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais”

 

Machado de Assis também tem a sua tradução do Corvo:

“E sonho o que nenhum mortal há já sonhado”

 

E tem mais umas trinta traduções para o português, segundo este site que as compilou: http://www.elsonfroes.com.br/mpoe.htm

Os Simpsons também têm uma versão do corvo:

 

Vira e mexe, aparece alguma obra inspirada no Corvo, seja no cinema ou em outros meios artísticos.

Por fim, a minha preferida.

A canção “Velha roupa colorida”, de autoria de Belchior – falecido há pouco, em abril de 2017 – e imortalizada na voz de Elis Regina, faz várias citações ao “blackbird”.

Esta canção é muito bonita, mas a letra é indecifrável na primeira vez que se ouve. Mesmo ouvindo várias vezes, é difícil entender exatamente. Hoje em dia, é fácil pesquisar a letra na internet.

 

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho: Blackbird, o que se faz?
Raven never raven never raven

Blackbird me responde
Tudo já ficou pra trás
Raven never raven never raven

Assum-preto me responde
O passado nunca mais

 

Além da música ter um ritmo legal, ela é cheia de citações. Em parágrafo anterior, ela cita “She’s leaving home”, dos Beatles – em particular Paul McCartney. Também cita “Like a rolling stone”, de Bob Dylan.

O “poeta louco americano” só pode ser Allan Poe. Mas, quem sabe, também se refira a Paul McCartney – note que a sonoridade de Poe e Paul é a mesma. Enquanto o corvo é de Poe, o Blackbird é uma música de Paul – dos Beatles.

O “raven never” é uma clara mênção ao “nevermore” do poema.

Assum Preto é um pássaro preto do agreste nordestino. Mas também é uma música belíssima e triste do rei do baião, Luiz Gonzaga. Conta o tocante destino do assum preto, condenado a cantar cego, e traça um paralelo a ele mesmo, Luiz Gonzaga, quando perdeu a visão de um de seus olhos.

 

E tudo isso começou quando eu estava, um dia, folheando tomos de conhecimento esquecido…

e disse, o corvo, nunca mais!

 


Links

Original de Allan Poe
https://www.poetryfoundation.org/poems/48860/the-raven

Velha roupa colorida

https://www.letras.mus.br/elis-regina/91023/

Tradução de Fernando Pessoa
http://www.revistaprosaversoearte.com/o-corvo-edgar-allan-poe-traducao-fernando-pessoa/

Tradução de Machado de Assis
https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis)

 

 

Thanks não tem tradução

A tradução de “Thanks” para o português é “Obrigado”.
E a tradução de “Sorry”, “Excuse me”, é “Desculpe-me”.

Mas essas palavras não tem tradução.

https://www.drupal.org/files/thanks.gif

 


 

Voltei do Canadá recentemente e as pessoas ali são muito polidas. Para qualquer coisa, é um “thank you”. Para esbarrões na rua, “sorry”, “excuse me”.

Esta polidez também vale no trânsito. O pedestre atravessa na faixa de pedestres, não no meio da rua. O pedestre espera o farol para pedestres ficar verde (confesso que é um tormento ficar esperando). Por outro lado, quando o pedestre pisa na faixa, o automóvel para e espera o mesmo atravessar, sem buzinar, nada.

https://i0.wp.com/spacing.ca/toronto/wp-content/uploads/sites/4/2014/12/PedestrianButton.jpg

As regras acima valem principalmente para cidades menores (tipo Quebec City e Fredericton, que já conheci). Para Toronto, que é maiorzinha, já comecei a ver uns veículos buzinando e uns pedestres atravessando no meio da rua (seriam brasileiros?).

Engraçado que, quanto mais ao sul, a tendência é ir piorando. Nova Iorque já é um pouco pior, mas muito mais civilizado do que no Brasil.

Minha referência é a monstruosa São Paulo. É difícil fazer uma comparação direta. O Canadá tem o tamanho físico do Brasil, mas com um quinto da população. Toronto, que é uma cidade enorme para os padrões canadenses, é um quarto do tamanho de São Paulo. Se o trânsito de SP já é um caos, com gente buzinando para todo lado, pedestres atravessando a rua em qualquer ocasião possível e impossível, imagine se cada carro tivesse que esperar cada pedestre que pisasse na faixa…

 


 

Esse negócio de falar “thank you” e “sorry” toda hora viram hábito. Depois de um tempo, eu também estava falando “thank you” a torto e a direito.

Então, ocorreu algo muito estranho. No avião de volta para o  Brasil, duas aeromoças atendiam a minha fileira. Uma que falava português, e outra, que falava inglês. Quando passava a que falava inglês, eu falava “thank you” quando era servido. Quando passava a que falava português, eu não falava nada. Só fui perceber isto quando fui falar “obrigado”, mas saiu “thank you”. Daí, a conclusão de que “thank you” tem uma tradução literal, mas não tem uma tradução cultural.

Dizem que o hábito é como colocar um fiozinho de cada vez, até formar um cabo muito forte. Este é o poder do hábito.

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E, apesar de tudo isso, ainda acho que São Paulo dá de 10 a zero em Toronto, por ser muito maior, ter mais diversidade cultural, mais confusão e mais desafios.

 


 

Curiosidade 1. Na Inglaterra e na Austrália (colonização inglesa), utiliza-se a mão inglesa (a direção é no lado oposto do carro). Imaginei que no Canadá, por ser uma colônia britânica, também adotaria mão inglesa. Mas não, utilizam mão francesa. Imagino que seja por estar perto dos EUA. Os EUA, por sua vez, também foram colônia inglesa, mas como a independência se deu por força bruta, preferiram adotar a mão francesa.

 

Curiosidade 2. Este ano, o Canadá comemora 150 anos. Tinha bandeirinha em todo lugar. Mas 150 anos do que? Achei que fosse da independência. Mas não, nunca houve independência. Até hoje, o Canadá não é independente: a rainha do Canadá é a rainha da Inglaterra. Mas, na prática, a rainha não manda em nada. E os 150 anos são o aniversário da unificação das províncias canadenses num único país.

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Homenagem aos 150 anos do Canadá, na cidade de Fredericton

 

 

 

 

​ O Infinito num instante

Um bom livro é aquele em que lemos cada palavra e torcemos para que não acabe nunca.

 
Um bom filme é aquele em que assistimos cada segundo e torcemos para que não acabe nunca.
 
Uma boa música é aquela em que ouvimos cada melodia e torcemos para que não acabe nunca.
 
Um bom vinho é aquele em que apreciamos cada gota e torcemos para que não acabe nunca.
 
 Um bom momento é aquele em que desejamos que cada segundo seja uma eternidade, e que não acabe nunca.
 
Ou, conforme dizia o poetinha, “Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.
 
Uma dica para os escritores é nunca dar todo o conteúdo, mas sim, deixar na boca um gostinho de “quero mais”.
 
William Blake – Para ver o mundo
 
Ver o Mundo todo num grão de areia,
e o Céu numa flor silvestre,
Ter o Infinito na palma de sua mão
e a Eternidade em uma hora.

 

 

O novo homem voador

Um homem passou a vida inteira preso a correntes. Não correntes de ferro prendendo o corpo, mas correntes de ar, prendendo a mente. Eram correntes tênues, finas, que permitiam que ele fosse para qualquer lugar, mas de vez em quando elas se tensionavam, impedindo que ele fizesse seus desejos. Era como um cão preso a uma coleira, ele poderia andar livremente dentro de um círculo, mas as amarras o impedem de ir além do bem e do mau.  

Na verdade, não era apenas uma corrente. Eram diversas, prendendo-o de várias direções, limitando a sua liberdade sob vários aspectos, travando a sua mente, amarrando a sua liberdade.
Este homem tinha um plano. Libertar-se de todas as correntes, e se tornar um Novo Homem.
Não era fácil quebrar essas amarras. Se fossem feitas de um material físico seria muito mais simples: algumas marretadas, e pronto. Porém, correntes mentais necessitam de outro tipo de marreta, uma marreta metafísica.
O homem foi se libertando das correntes, uma a uma, ao longo de vários anos. Quando, finalmente conseguiu se libertar de todas as amarras, ele descobriu-se tão leve que podia voar!
Agora, ele era o Novo Homem Voador. Do alto, ele via todas as outras pessoas. Ele descobriu uma verdade terrível: Todas as pessoas deste mundo estão presas a correntes! Homens, mulheres, jovens, velhos, feios e bonitos, todos estão atados.
O Novo Homem Voador viu um homem com correntes vermelhas, grossas, vociferando palavras fortes contra o capital. Mas ele viu também outro homem, com correntes azuis, respondendo ao de vermelho. Ele viu uma pessoa com amarras feitas de terços, falando sobre deuses, anjos e paraíso. Outra falando de Alá, Talmud, Alcorão. Pessoas atadas a outras pessoas, com obrigações familiares e religiosas. Pessoas atadas a corporações, perseguindo lucro, EBITDA, e fugindo de punições financeiras. Pessoas atadas ao nacionalismo, orgulhosas pelo fato de ter nascido em algum país específico. Correntes morais dos mais diversos tipos, algumas mais flexíveis, outras extremamente rígidas: bem e mau, certo e errado, valores e transvaloração dos valores.

 

Desde o nascimento, as correntes são atadas às mentes dos pobres bebês, normalmente as mesmas correntes à que os pais estão presos. Os bebês vão crescendo. Na adolescência e na idade adulta conseguem se libertar de algumas dessas correntes, mas somente para se prender a outras correntes, oferecidas por outras pessoas. Não há pessoas totalmente livres. 
O Novo Homem Voador percebeu que, embora as correntes o prendessem, também davam uma certa segurança. Pensou, do alto de seu voo: “Para onde vou, uma vez que sou totalmente livre? E agora? E agora…?”
A resposta encontrada: “Agora que não tenho correntes, ninguém pode me dar esta resposta. Somente eu mesmo posso saber”. E pôs-se a voar. 

 

​ O velhinho ranzinza

Moro no mesmo prédio há 20 anos, e há 20 anos vejo o velhinho ranzinza, esbravejando com os porteiros, no vai-e-vem do cotidiano.

 

Ele hoje tem uns 85 anos. Há 20 anos, devia ter 65. Tem um tipo físico de descendente de alemão. Alto, cabelos brancos, usa óculos, tem um queixo quadrado, cabelos espetados. Parece alguém fechado, e com cara de bravo.
 
Sempre o via na portaria, reclamando de algo, cutucando os porteiros e o zelador. Uma mancha na parede. Um buraco na garagem. Uma necessidade de reforma no playground.
 
Sempre fiquei muito tempo trabalhando ou estudando, portanto esbarrava com o velhinho pelos corredores somente uma vez por mês. Só um “olá”.
 
Esses esporádicos encontros eram como peças de um quebra-cabeça liberadas mensalmente.
 
Ao poucos, fui percebendo. O velhinho mora sozinho. Nunca o vi com companhia alguma. Esposa? Nunca vi. Filhos? Não. Algum dia um parente veio visitá-lo? Se houve, nunca vi, baseado nesses “olás” esporádicos.
 
Com o passar dos anos, ele foi ficando mais velhinho, um pouco menos bravo, e passava mais tempo reclamando com os porteiros.
 
Nos últimos anos, ele claramente está com dificuldades motoras. Talvez por isso, ele faz uma atividade física na academia aqui perto, de manhã, mesmo nos dias mais frios. 
Também nesses últimos anos, ele tem ficado cada vez mais tempo na portaria, reclamando de algo a ser feito, espetando os porteiros. Talvez ele ache que esta é uma forma dele agregar valor a esta micro-comunidade de vizinhos.

 

Não sei no que ele trabalhava, se algum dia foi casado, se teve ou não filhos, irmãos, amigos. Mas, no fundo, é apenas uma pessoa solitária, que gosta de uma companhia, mesmo que seja ficar brigando com os porteiros, discutindo com o zelador, pegando no pé das faxineiras.

 

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, ele mesmo um velhinho extremamente ranzinza e solitário, fez uma analogia entre seres humanos e porcos-espinhos.

 

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Se os porcos-espinhos ficam perto demais, os espinhos espetam o outro, e dói. Então eles se afastam.

 

Se os porcos-espinhos estão muito longe um do outro, sentem frio. Quando estão com muito frio, querem se aproximar. E ficam assim, neste eterno vai-e-vem, vem-e-vai, de ficar entre o espinho e o frio.

 

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Talvez, no dia em que o velhinho passar dessa para melhor, quem sabe ele deixe seu apartamento de herança para o zelador, os porteiros, e as faxineiras, por serem suas únicas companhias dos últimos 20 e tantos anos.

Tufões

Estive a folhear o Tao Te Ching, e encontrei esta frase muito verdadeira.

O sábio não se desespera se surgirem tufões,
pois tufões não tardam a passar.
Uma chuva não dura o dia todo, é produzida pelo céu e pela terra.
Se tudo é tão inconstante, como não seria o homem?
Por isso, o que importa é a atitude interna.

 

 

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Vencer x Ficar em primeiro

Vencer não significa necessariamente ficar em primeiro.

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Pode-se vencer, ficando em segundo, mas competindo de forma honrada.
Pode-se vencer, ficando em qualquer colocação, se o participante fez o melhor possível, colocou todas as suas energias nisto.
Pode-se vencer ficando em último, mas completando a prova.
Nem completar a prova, mas se desenvolvendo bastante neste caminho.

Ao contrário, ficar em primeiro pode não ser vencer.
Ficar em primeiro, prejudicando os demais, não é vencer.
Ficar em primeiro, contrariando a integridade moral e ética, não é vencer.
Ficar em primeiro, às custas de saúde, família e da vida não é vencer.

Meta é diferente de métrica.

Muita gente tem uma meta, mas a busca pela métrica errada.
Maior não é necessariamente melhor.

 

A Associação dos Burros Esforçados

Um burro esforçado

Hoje, no trabalho, um colega disse que eu era inteligente. Não concordei, disse que era um “burro esforçado”, embora bastante esforçado. E que era melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Ele não entendeu nada, então estou escrevendo para explicar melhor a história.

No Instituto Tecnológico de Aeronáutica, onde fiz a graduação, existe a “Associação dos Burros Esforçados”.

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Segundo o estatuto da associação:

“Gloriosa associação daquelas infelizes criaturas de inteligência normal mas que, por se esforçarem muito, acabam passando no vestibular do ITA e tendo que conviver com os gênios da escola”.

Isto fica mais claro exemplificando o que significa “gênios da escola”.

  • Tinha um sujeito que era a perfeita definição de “sleep learning”. Chegava atrasado, dormia metade da aula. Mas, no pouco tempo em que estava acordado, apontava erros lógicos do professor e fazia perguntas não triviais. Mas isto só acontecia quando ele tirava a soneca. Quando prestava atenção na aula, não tinha ideias geniais.
  • Tinha um outro, que ficava o tempo todo jogando bola. Ou fazendo alguma outra atividade extra-curricular, como dar aulas no cursinho da cidade. Começava estudar para as provas provas meia-noite do dia anterior à mesma. E, como sempre, cravava o “L” habitual (nota máxima).
  • Tinha um que fazia a prova inteira de cabeça. Não escrevia uma linha. Só escrevia a resposta final. Até que, um dia, um professor implicou com ele, e ele passou a registrar no papel os passos intermediários de seu raciocínio, para o pobre professor entender o que se passava em sua cabeça privilegiada.

Mas nem todos era assim. Tinham as pessoas normais, que estudavam muito. Que estudavam todos os dias. Que liam a teoria, faziam os exercícios, reliam a teoria, à exaustão. Que levavam livros para casa no final de semana para estudar. Todo este trabalhão para tirar uma nota um pouco acima do mínimo necessário, e olha lá. A gloriosa “Associação dos Burros Esforçados” era para estas infelizes criaturas. Segue a página com uma explicação oficial sobre o assunto.

http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=ABE

Também tinha o burro preguiçoso, mas este em raros casos ia para frente.

E também tinha o gênio esforçado… aí, sai de baixo.


A lebre e a tartaruga

Mas, passados muitos e muitos anos, finalmente sinto que é melhor ser a Tartaruga do que a Lebre do conto de Esopo.

Isto ocorreu ao acompanhar uma aula do prof. Clóvis de Barros Filho, sobre Ética. Há várias disponíveis no youtube.

Na antiga Grécia, a ética aristotélica dizia que o melhor para o ser humano era atingir a Virtude. Ou seja, alguém de grande habilidade num determinado campo deveria atingir o seu máximo potencial, seja em música, em política, matemática, etc. Os pobres coitados que não tinham tal privilégio deveriam ajudar os iluminados a conseguirem atingir os seus objetivos. Isto significava que o lugar do escravo era como um escravo mesmo. O aristocrata era o aristocrata, não deveria fazer algo mundano como trabalhar.

Isto mudou com o pensamento de Imannuel Kant. Na moral kantiana, que é a visão moderna do mundo, cada ser humano deve se empenhar em fazer o melhor possível dentro de seus limites.

Barros compara alguns futebolistas. No São Paulo de uns anos atrás, havia o Paulo Henrique Ganso no meio-campo. Extremamente talentoso. Elegante no domínio da bola, e com passes primorosos. Cabeça erguida, grande visão de jogo. Genial. Mas preguiçoso. Ficava parado olhando a vida passar… Não corria, não marcava, nada. Era o talento sem esforço.

Já outro jogador, o Aloísio “Boi Bandido”, era grosso que só. Ruim de bola, talento zero, caneludo. Porém, corria atrás da bola sem parar, dava carrinho, ajudava na defesa depois corria para o ataque, azucrinava os adversários. O talento nulo compensado pelo esforço total.

Se fosse para o técnico Muricy Ramalho tirar alguém, ele tirava o Ganso. E, se fosse para a torcida idolatrar alguém, o “Boi Bandido” era o mais popular. O esforço predominava sobre o talento.

Esta é a vitória de Kant sobre Aristóteles.

E também porque é melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Duas notícias relacionadas com postagens recentes

1 – Bob Dylan não comparecerá para receber o Prêmio Nobel
Conforme escrito neste post, Dylan não precisa do prêmio, mas o Nobel precisa de Dylan.

 
2 – A companhia Rakuten patrocinará a equipe do Barcelona
Rakuten é a companhia que usa o inglês como língua oficial, em todos os e-mails e apresentações da empresa. Vide post.

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Roubei a ideia (bons artistas copiam, grandes artistas roubam – Pablo Picasso), e passei a enviar e-mails apenas em inglês.

Resultados:
– Até hoje leio e escrevo em inglês, com a maioria das pessoas com quem me comunico por e-mail
– Aprendi uma série de palavras, e certamente deixei de esquecer outras
– A maioria das pessoas achou uma boa ideia, mas alguns (uns 20%) não se sentiram muito confortáveis e continuaram a escrever em português

O resultado final foi muito positivo. Se não temos oportunidade de usar o inglês no dia-a-dia, que tal criar essas oportunidades?

 

 

Links:

Bob Dylan declina convite para cerimônia do Nobel: ‘Agenda cheia’

http://www.mundodeportivo.com/futbol/fc-barcelona/20161116/411905020517/noticia-md-rakuten-podria-ser-el-nuevo-sponsor-del-fc-barcelona.html

 

Bônus: Futebol Total.

https://ideiasesquecidas.com/2016/03/25/as-origens-do-futebol-total/

Qualquer um pode se tornar um Neymar com 10 mil h de esforço. Será?

10 mil horas necessárias, não suficientes

Há uma teoria de que 10 mil horas de trabalho são necessárias para atingir a maestria em qualquer área. Esta teoria das 10 mil horas foi popularizada pelo livro “Outliers”, do jornalista Malcolm Gladwell.

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Excelência para fazer tarefas complexas requer um nível mínimo de prática, a fim de que as conexões neurais se formem no cérebro. E, na média, esse nível mínimo de prática é de 10 mil horas, segundo as pesquisas citadas no livro.
Muita gente interpreta isto como se qualquer pessoa pudesse se dedicar a qualquer tarefa por 10 mil horas e se tornar “top of the world”.

 
Se eu começar a jogar bola hoje, e praticar fortemente por 10 mil horas, poderei me tornar tão craque quanto o Neymar! Bons genes ajudam, mas podem ser compensados pela vontade e disposição! Motivação!

 
Será mesmo?

 


O experimento de Dan
Teve um cara que levou a história das 10 mil horas ao pé da letra.

Dan McLaughlin era um fotógrafo, que abandonou a carreira para praticar golfe e se tornar um profissional. Ele mal tinha jogado golfe antes. Ele começou a jornada em 2010, e foi documentando seus passos num site, o The Dan Plan (http://thedanplan.com/).

 

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O experimento de Dan rendeu a ele várias aparições na TV, entrevistas, citações em livros… Imagine só, ele provar que uma pessoa comum pode se tornar um Neymar do golfe apenas com esforço próprio!

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Não entendo de golfe, mas pelos comentários, ele fez um bom progresso desde o início da jornada. Há um timer regressivo no seu site, que iniciou nas 10 mil horas e foi decrescendo…

O contador, no final de 2015 (depois de quase 5 anos de experimento) dizia que faltavam 4 mil horas.

 

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Até que ele desistiu.

O contador nunca mais se moveu.

 


 
A parede forte da realidade



O último post de Dan é de nov 2015, e dizia que ele tinha tido uma contusão nas costas. Ficaria parado por um tempo por conta disto.
Hoje, out/2016, um ano depois, e nenhuma outra postagem. Nenhuma menção de como foi a recuperação. Nenhuma explicação se ele definitivamente desistiu ou deu uma pausa.

Um antigo fã escreveu um post muito interessante, (https://thesandtrap.com/b/thrash_talk/post_mortem_on_the_dan_plan). Diz que Dan passou a vender refrigerante. Isto pode ser comprovado acessando a página a seguir, onde conta uma historinha da empresa de refrigerantes.

Our Story

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Realmente, não é nada fácil passar anos e anos buscando uma meta, sem suporte financeiro. E não tem nada errado em ele buscar algo que pague as contas.
O ex fã cita que encontrou-se com Dan, e ele tem um espírito de artista.

Dan está mais para alguém que gosta de um show, que quer se mostrar. E por isso, ele não vai deixar um post de despedida. Talvez um dia ele volte a perseguir a meta, fazendo todo o estardalhaço em cima disto.

 


 

Maratona



Na minha opinião, uma meta, principalmente uma meta difícil, tem que ser encarada como uma maratona: dosar energias, não se empolgar demais no começo, persistir.
Na minha opinião também, discursos motivacionais são estímulos de curto prazo. Têm validade limitada.
Metas de longo prazo devem ser claras, específicas. Também devem ser atingíveis. Condizentes com os seus valores. Condizentes com as suas habilidades. Pensar grande mas fazer pequeno, passo a passo. Sem show, sem alarde.

 


Validade nula



Outra coisa é que experimento de Dan não serve nem para provar nem para desprovar a teoria das 10 mil horas.

Primeiro, que Dan representa apenas uma amostra. Para qualquer teste estatístico ser válido, deve-se ter muito mais amostras, de preferência milhares.

Segundo, Dan não entendeu o espírito da coisa.

A condição das 10 mil horas é necessária, não suficiente. Ou seja, Neymar precisou jogar muita bola, talvez perto de 10 mil horas, para ser o que foi. Foi uma condição necessária. Uma pessoa qualquer pode ficar 30 mil horas jogando, que não vai chegar no nível dele. Há vários outros jogadores profissionais que estão jogando há mais tempo e não estão no nível dele. Os genes certamente fizeram a diferença.
Além disso, 10 mil é um número médio. Pode ser muito menos que 10 mil, ou muito mais, dependendo de cada pessoa.

Outra coisa que Gladwell destaca no livro é que o timing também é crucial. Bill Gates, os Beatles, além de serem extremamente competentes e terem essas 10 mil horas, também estavam no lugar certo, na hora certa, e tiveram sorte, para serem outliers (outlier = ponto fora da curva, tipo todo mundo tira menos que 5 na prova, chega um cara e tira 9,5).

Portanto, o experimento de Dan está mais para um showzinho mesmo, do que para algum experimento conclusivo, para o bem ou para o mal.