Sr. Miyagi, Sr. Sulu e a Segunda Guerra

O divertido seriado Cobra Kai traz de volta os personagens do filme clássico Karate Kid, 30 anos depois.

É uma pena que o icônico Sr. Miyagi não vai voltar à série, uma vez o ator, Pat Morita, faleceu em 2005.

Mesmo assim, o Sr. Miyagi aparece em flashbacks e homenagens. Numa dessas homenagens, um detalhe me chamou a atenção: o Sr. Miyagi foi condecorado na Segunda Guerra, e pertencia ao 442º regimento do exército americano.


Acabei de ler outro livro, “Éramos chamados de inimigos”. É do ator George Takei, mais conhecido por ter interpretado o Sr. Sulu, da não menos icônica série Star Trek.

Takei narra o traumático evento em que ele e família ficaram confinados, nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. Sendo o Japão o inimigo, todos os descendentes de japoneses nos EUA foram alçados imediatamente à condição de suspeitos. Tiveram os bens tomados e foram enviados para campos de confinamento, nos anos que a guerra durou.

Obs. O ator Pat Morita também passou pelos campos de confinamento. Ele narra: “Fui de uma criança alienada a inimigo público. Virei um ‘japa’ da noite para o dia, sendo escoltado pelo FBI para um campo de internato. Foram anos enormemente difíceis para o nosso povo. Pessoas andando pelo deserto que nunca mais seriam vistas. Pessoas se enforcando… Foi horrível. Horrível…”.

Nesse meio tempo, uma solução encontrada foi fazer as pessoas jurarem fidelidade aos EUA – ou seriam mandadas de volta ao Japão. A família de Takei ficou numa situação difícil. A mãe dele se recusou a aceitar a situação, e quase foi deportada – mas sendo salva no último minuto, devido à ação de um grupo que defendia as famílias nipo-americanas.

Mesmo sofrendo essas injustiças, alguns nipo-americanos juraram fidelidade, se alistaram, e foram à guerra na Europa. Teve um regimento formado totalmente por esses, o 442º.

O 442º regimento foi um dos mais condecorados da guerra, segundo a Wikipedia: 9.486 corações roxos e 4.000 medalhas de estrela de bronze . A unidade recebeu oito Citações da Unidade Presidencial (cinco obtidas em um mês). Vinte e um de seus membros receberam medalhas de honra.

E essa é a medalha do Sr. Miyagi, no 442º regimento.


Trivia 1: Será que só eu acho o Sr. Miyagi muito parecido com Mestre Yoda? Você não dá nada quando eles aparecem, mas no decorrer da história vão revelando sua sabedoria e treinando o jovem aprendiz a superar os desafios. Jornada do herói na veia.

Trivia 2: Será que só eu acho o Luke Skywalker e o Daniel-san tremendamente insossos? Dois moleques sem graça, metidos a besta.
Darth Vader >>>>>> Luke.

Trivia 3: O bizarro Karate Kid Ohara

Eu me lembro de um seriado chamado “Karate Kid Ohara”. Passou no SBT, no final dos anos 80 ou começo dos 90, algo assim.

Tinha o ator Pat Morita, como Ohara. Só que ele era detetive… nada de caratê, ele até usava arma. Todo o resto era completamente diferente. Nunca entendi aquilo.

Naquela época, não existia Google. Agora, 30 anos depois, descobri que a série era chamada originalmente “Ohara”, com o ator Pat Morita, e não tinha nenhuma relação com o filme Karate Kid. Foi o SBT que renomeou a série, malandramente. Não adiantou de nada, porque era muito ruim, ahah.

Links:


https://en.wikipedia.org/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/22/sr-miyagi-reaprendeu-a-andar-aos-11-anos-e-quase-foi-recusado-em-karate-kid.htm

https://pt.qwe.wiki/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://thekaratekid.fandom.com/wiki/

O caranguejo-samurai Heikegani

“Kani” significa “caranguejo”, em japonês.

O Heikegani é o caranguejo de Heike. Nota-se uma certa semelhança com uma máscara de samurai.

Há uma lenda explicando o surgimento deste tipo exótico.

Em 1185, duas frotas de clãs poderosos se enfrentaram nos mares: Heike e Minamoto.
O objetivo era conquistar o poder do país todo.

O imperador (fantoche, diga-se de passagem) era um menino de 7 anos do clã Heike. Os Minamoto eram os aspirantes ao trono.

Os Heike foram derrotados, e o imperador menino se afogou no mar. Minamoto Yoritomo se tornou o primeiro Shogun, o chefe militar que exercia o poder de fato (colocando imperadores fantoche segundo a sua conveniência).

Segundo a lenda, caranguejos com a face de samurais começaram a aparecer perto do local da batalha. Seriam os guerreiros Heike, reencarnados na forma de caranguejo.

Carl Sagan menciona o caranguejo-samurai, na série Cosmos. Ele cita que tais caranguejos, quando pegos, não são comidos. Em respeito aos guerreiros antigos, são jogados de volta ao mar.

Quem desenhou o rosto de um samurai, segundo Sagan? Seria uma forma de seleção artificial. Um caranguejo comum seria comido normalmente. Um caranguejo que, aleatoriamente se parece com um ser humano, tem mais chances de ser jogado de volta ao mar…

Seja como for, os guerreiros de Heike continuam a sua batalha, até os dias de hoje.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Heikegani

Seria possível eliminar os ideogramas na China e no Japão?

(Baseado numa conversa com o Marcos Melo e depois de anos estudando essas línguas)

As línguas japonesa e chinesa são famosas pelos complicados ideogramas utilizados.

Na China, são chamados Hanzi:

English translation of 中国 ( Zhongguo / Zhōngguó ) - China in Chinese

No Japão, são chamados Kanji.

Japan | kanji symbol

Uma explicação para o surgimento desses ideogramas é que evoluíram da padronização de desenhos.

Digamos, este é o ideograma de rio:

River | kanji symbol

Este é de montanha:

The Kanji Symbol for Mounain

São formas que lembram vagamente o desenho dos substantivos em questão.

🎓 The Origin of Japanese Kanji : Awesome Conversation Topics and ...

Ideogramas de montanha, rio, árvore e Sol, na ordem.

Entretanto, nem todos os ideogramas são assim tão fáceis.

As ideias mais abstratas são montadas sobre composições de ideogramas simples. Por exemplo, amor, é um desenho composto que não remete diretamente a um desenho de um coração.

Matriz de bordado - Amor- Kanji no Elo7 | Rei Sol Bordados (AE7483)

O problema é que o número desses ideogramas é de enlouquecer. Na China, são uns 15 mil ideogramas, e no Japão, no mínimo uns 5 mil.

No ocidente, o alfabeto tem 26 letras. Faz uma diferença absurda. Em poucos meses, é possível alfabetizar uma pessoa no ocidente, já nos países citados, são necessários anos a fio decorando e utilizando os ideogramas.

A pergunta: é possível eliminar os ideogramas, utilizando apenas o alfabeto ocidental ou alguma alternativa simples?

Uma primeira resposta é que sim, há simplificações desses ideogramas hard.

Em japonês, há o hiragana e o katakana.

As diferenças entre Hiragana, Katakana, Kanji

Em chinês, a versão soft é o pin yin, ou seja, utilizar o alfabeto ocidental para descrever o fonema. 

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Um dos problemas é que a versão soft, digamos 100% pin yin, causa infinita ambiguidade.

O chinês é muito compacto, com poucas palavras dizendo muito. 

Ma pode significar mãe, cavalo, interrogação e mais uns 10 significados. A pronúncia diferencia alguns desses significados, porém, mesmo para a mesma pronúncia, há vários significados.

E é igual para vários outros hanzi. Tipo, shi, tem uns 20 hanzi para a mesma pronúncia. 

Na linguagem falada, o ser humano dá um jeito de se entender. Na língua escrita, não.

Imagine que usar hanzi é uma visão em 3d do mundo. Quando você usa 100% pin yin, você vê apenas uma dimensão. Há perda de informação.

Ou você reestrutura a língua inteira ou utiliza hanzi. Seria catastrófico simplesmente abolir o hanzi.

O kanji segue a mesma lógica – os kanji dizem infinitamente mais do que os hiragana e katakana sozinhos.

Uma historinha. Quando eu era criança, vi em algum lugar a palavra “Shinobi”. Perguntei para o meu pai, fluente em japonês, o que significava “Shinobi”. Ele respondeu: “não sei, tem que olhar o kanji”. Eu não entendi nada, porque no alfabeto ocidental, toda a informação está contida dentro da própria palavra. A explicação foi dada acima: “shinobi” sozinho pode ter inúmeros significados.


Escrever em ossos e concisão da linguagem

Não dá para entender essa explicação pelos parâmetros ocidentais que temos. Temos que entender todo o contexto. Por exemplo, a língua é compacta exatamente por ser difícil de escrever.

Os hanzi são todos curtos, monossilábicos: shi, ma, er, yi, e assim por diante.

Chinese Characters, Oracle Bones, and Calligraphy · Writing ...

A civilização chinesa é antiga. Imagine escrever um hanzi num pedaço de osso, numa pedra ou num casco de tartaruga, por exemplo. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, foi escrita em tiras de bambu, depois costuradas para formar um livro.

A bamboo version of 'The Art of War' (composed late 6th century ...

Portanto, não dava para ser prolixo. Um único caractere é difícil de escrever e tem que transmitir a maior quantidade de informação possível. Já na língua ocidental, como é barato escrever os caracteres, é mais barato escrever palavras como “interessantissimamente”. 

(O Marcos Melo contesta essa versão. A língua falada vem antes da escrita, e é a escrita que se adapta. Talvez seja uma convergência dessas duas coisas.)

O caso do Japão é muito mais evidente. A linguagem oral veio desde a origem das pessoas, e os ideogramas foram copiados da China muito tempo depois (uns 500 dC). Por isso, cada kanji tem duas ou mais pronúncias: a pronúncia japonesa original, a pronúncia chinesa, e pronúncias alternativas – e o hiragana e katakana complementam tempos verbais, sufixos, etc…

Japanese Calligraphy Of Tonkatsu Stock Illustration - Illustration ...

Um exemplo. O kanji acima, de “carne de porco”, pode ser lido como “ton” (tonkatsu). Mas também pode ser lido como “buta” (porco).

Das digressões acima, o que realmente aconteceu de verdade não sei e provavelmente nunca saberemos.

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/07/27/recomendacoes-de-livros-sobre-a-cultura-e-historia-da-china/

https://ideiasesquecidas.com/2015/10/31/os-japoneses-originais/

Macarrão com feijão

Muro de tijolos x muro de pedras

Quais as diferenças entre o estilo americano e o estilo japonês de gestão?

Nos anos 70 e 80, o mundo inteiro voltou os olhos para o Japão. Como poderia um país devastado por uma guerra mundial atingir um desenvolvimento extraordinário em algumas décadas?

Uma das empresas símbolo deste salto foi a Sony, a mesma Sony do Playstation, do canal de TV a cabo, do walkman, dos aparelhos de som.

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A Sony não se limitou ao território japonês, entrando fortemente nos Estados Unidos. Por tudo isto, o fundador da Sony, Akio Morita, teve bastante contato tanto com o estilo oriental de administração quanto o estilo ocidental.

Um dos livros mais preciosos que tenho é o “Made in Japan”, de Akio Morita, fundador da Sony. Aliás, o primeiro nome da empresa era “Tokyo Tsushin Kogyo Kabushiki Kaisha”, que obviamente era impossível de ser falado em inglês. Morita pensou em “Totsuko”, mas descobriu que ninguém nos EUA conseguia pronunciar isto. Por fim, decidiram por “Sony”, que é simples de pronunciar e tem haver com “som”.

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Vale muito a pena uma leitura detalhada. Seguem alguns excertos.


Simplicidade e Conforto
Quando visitei a Motorola, notei que os escritórios tinham ar-condicionado, mas o clima na linha de montagem era sufocante, e os ventiladores barulhentos só espalhavam o ar quente. Pensei, “Como esperar qualidade de gente que trabalha assim?”.
No Japão, os trabalhadores costumam dizer que a linha de montagem era sempre mais confortável que a casa deles. Em 1984, metade das casas tinham ar-condicionado. Mas nós da Sony, já dávamos este conforto no final dos anos 60.

Queremos que todos tenham as melhores instalações para trabalhar, mas não acreditamos em escritórios exclusivos e luxuosos. Na Sony, temos escritórios confortáveis, mas não luxuosos: nossa central é uma fábrica reformada, parece um armazém. Só que, dentro dele, temos tudo o que precisamos.


O trabalho é honroso

Os japoneses aceitam muito naturalmente a noção de que o trabalho, qualquer seja, é honroso. Ninguém vai desprezar alguém porque, depois de se aposentar os 60 anos, aceitou um trabalho muito mais modesto do que o anterior.

Os trabalhadores querem desenvolver novas habilidades. Nos EUA a pessoa é treinada para uma coisa e depois recusa outro tipo de trabalho, e enquanto isso recebe um seguro-desemprego. No Japão, não podemos nos dar a esse luxo.

Todos os empregos são basicamente os mesmos. Você tem que dar o máximo de si, seja como homem da indústria do disco, como vendedor de rua ou auxiliar de contabilidade.


Dinheiro
É um grande erro pensar que o dinheiro é a única forma de compensar uma pessoa por seu trabalho. As pessoas precisam de dinheiro, é verdade, mas também querem se sentir felizes e orgulhosas em seu trabalho.

Acredito que todos trabalhamos para ter uma espécie de satisfação pessoal íntima. A publicidade americana faz do descanso e do prazer as metas primordiais, mas no Japão não é assim. A satisfação no trabalho é tão importante quanto dinheiro.

Nosso sistema de avaliação é complexo e tem o fim de encontrar pessoas capazes, dar-lhes empregos cheios de desafios e deixar que desenvolvam suas potencialidades. A diferença não está no que pagamos, e sim no desafio e no reconhecimento que elas têm no trabalho.

Os americanos fazem as suas crianças trabalhar para ganhar sua mesada, no Japão damos o dinheiro aos nossos filhos sem exigir nada deles. Assumimos o risco de prometer segurança no emprego, e depois temos que arrumar um jeito de motivá-las continuamente.


Muro de tijolos

Na Sony a experiência nos mostrou que um empregado acostumado a trabalhar só por dinheiro se esquece de que deve trabalhar em grupo, para o grupo. É responsabilidade da gerência estimular sempre o desejo de fazer um trabalho importante, satisfatório, num clima familiar. Nós reorganizamos o trabalho de forma a aproveitar os talentos e habilidades específicas de nossos trabalhadores.

As companhias americanas parecem estruturas do tipo “parede de tijolos”, ao passo que as japonesas são “paredes de pedra”. Numa companhia americana, os planos são feitos antecipadamente, em seguida começam a procurar pessoas. Um candidato que esteja super ou mal qualificado é eliminado. Por isso, parede de tijolos: a forma de cada empregado deve se ajustar ao conjunto, do contrário não serve.

No Japão, empregamos os candidatos, e com o tempo vamos descobrindo a melhor forma de aproveitá-los. São como pedras brutas, observadas pelos gerentes. A missão é construir uma parede que combine os elementos da melhor forma possível. As pedras, às vezes, são redondas, quadradas, longas, grandes ou pequenas, mas de alguma maneira, a gerência tem que encaixá-las bem.


Decisões consensadas

As empresas japonesas são dirigidas por consenso. Atingir consenso requer preparação do terreno. Uma ideia vinda do nível médio da gerência, por exemplo, pode ser aceita e reformulada pela alta direção, que depois pede aprovação e apoio ao longo da linha, no sentido descendente. É preciso ter paciência no trato com os japoneses.

Quando os japoneses tomam uma decisão, não importa se a ideia veio da linha de montagem ou da direção geral. Nós nos empenhamos vigorosamente em implementar o projeto, livre de intrigas e puxadas de tapetes, comuns em algumas empresa ocidentais.

Este procedimento incomoda quem não o conhece. Um executivo americano considerou o sistema japonês de consenso e planejamento muito cansativo, muitas reuniões, horas e horas num sala: “Fico frustrado porque quero saber exatamente a finalidade da reunião e o que vamos decidir.”

Os gerentes americanos acreditam que são racionais, mas na verdade, são racionais apenas com os fatos que conhecem. Há muitos outros fatores desconhecidos. Ou seja, são lógicos sem bases firmes. Já os japoneses procuram ter uma visão geral do conjunto, e intuir a partir daí, assumir riscos.

A lógica fria dos cursos de administração esvazia a força do elemento humano.


Advogados

Existem nos EUA mais de 500 mil advogados, enquanto o Japão tem uns 170 mil.
Enquanto os americanos gastam muito tempo criando advogados, nós estamos mais ocupados na formação de engenheiros. Temos o dobro de engenheiros formados, o que significa, levando-se em conta o tamanho relativo dos dois países, quatro vezes a proporção de engenheiros.

Muitos processos sem sentido são gerados pelos próprios advogados. Neste país, todo mundo processa todo mundo. Casos de contingência, encarados com reserva no Japão, aqui são comuns.

Em 1970 a National Union Electric Company, com o nome de Emerson, entrou com uma queixa alegando que os fabricantes japoneses faziam dumping. Foram necessários dez anos de trabalho duro para que nossos melhores advogados conseguissem absolvição num tribunal da Filadélfia. Na ocasião, o tribunal destacou “A posição bem conhecida da Sony como o fabricante mais caro do mercado”, portanto, pouco provável de praticar dumping. O assunto, porém, se arrastou por mais dois anos, até que a sentença fosse confirmada por uma instância superior.

Estas empresas gastaram milhões de dólares em ações legais, mas falharam ao não se fazerem mais competitivas em relação aos fabricantes japoneses. Uma batalha perdida. Os únicos que lucraram foram os advogados – não os consumidores nem as empresas.


Longo Prazo

Pelas características descritas acima, espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

A principal vantagem do sistema japonês é esse sentido de uma filosofia corporativa, planejamento a longo prazo, que um novo dirigente não pode destruir.


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Akio Morita, fundador da Sony.

26 Jan 1921 – 3 Out 1999

 

​Por que os japoneses tiram o lixo do estádio?

Ou: o que um velho pensador de 2000 anos atrás, um tal de Confúcio, tem a ver comigo?
 

A cena dos japoneses tirando o lixo dos estádios ficou famosa durante a Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil sil sil.
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Mas eles fazem isto porque são educados? Pode-se dizer que sim. Mas por que a educação deles chega neste nível?

  

Os brasileiros (a maioria) também são educados. Os europeus também são educados. Os australianos, também. Mas nenhum deles tem a cultura de tirar o lixo do estádio.

  

Os japoneses fazem isto porque pensam muito no coletivo, no social, no todo. Parte-se da ideia de que eu faço parte de uma comunidade de pessoas semelhantes. Portanto, limpo o lugar para entregar o mesmo nas mesmas condições que encontrei para outra pessoa, e porque ela vai fazer o mesmo comigo. Portanto, é costume deixar os lugares limpos: escola, salas de reunião, ônibus. E por todo mundo fazer isto, todo mundo se sente na obrigação de ajudar também, num ciclo virtuoso.
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Legal. Então, se eu tentar fazer isto no Brasil, vai dar certo? Provavelmente, não. Porque é muito mais profundo que isto. As ideias não surgem do nada. A limpeza é apenas uma ponta visível da influência do confucionismo na sociedade japonesa.
 


A influência do confucionismo
 
Confúcio nasceu na China (em 500 a.C.) e influenciou fortemente a cultura oriental. É uma influência comparável à Aristóteles no ocidente: mesmo após tanto tempo, as pessoas de hoje ainda agem sob os preceitos dessas ideias, e nem sabem da onde elas vêm. Este é o poder das ideias.
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Os pilares do confucionismo incluem a valorização dos estudos, respeito aos outros, humildade, frugalidade, valorização de tradições.
Quando recebemos um presente, devemos devolver algo com valor equivalente. Quando alguém nos ajuda, ficamos em débito e um dia vamos ajudá-lo.
 
Devemos viver uma vida simples, frugal, sem ostentações. Seguir à risca a regra de ouro: não fazer a outros o que não faríamos a nós mesmos. Portanto, estamos de acordo com o confucionismo ao sermos humildes para catar o lixo, assim entregando ao próximo colega um ambiente igual àquele que nos foi entregue.

  

A valorização dos estudos também é algo muito forte no Japão. Há uma concorrência violenta para entrar nas melhores faculdades. Ninguém ali tem vergonha de dizer que estuda muito, e que gosta de estudar. É muito mais provável que o estudante deixe de jogar bola para estudar, do que o oposto. No Brasil, o inverso é verdadeiro. Esperto é aquele que passa sem estudar, que tira o mínimo e ainda colando. Esperto é o que faz gol com a mão em impedimento.
Portanto, a poesia clássica pichada no banheiro dos cursinhos também é devida à influência do confucionismo: “Enquanto você está cagando, tem um japonês estudando”.

 
Enquanto em alguns lugares do mundo o esperto é quem recebe sem trabalhar, no Japão o mais valorizado é o que trabalha sem receber. O trabalho é tão valorizado e visto com orgulho, que tem até uma palavra especial para isto: “gambaru”. É superficial traduzir “gambaru” como “trabalho duro”. O trabalho é meio que uma missão, é o mínimo que deve ser feito em retribuição ao que o universo nos forneceu.
 

Outro pilar é o do respeito à hierarquia: respeitar o mais velho, as autoridades. Respeitar os rituais da tradição. O filho respeitar o pai, a esposa respeitar o marido, o filho mais novo respeitar o mais velho. Valorizar muito a família, mesmo aquele primo que não tem nenhuma afinidade contigo. Isto se reflete em um monte de formalidades: nomes especiais para o filho mais velho, linguagem bastante formal quando me dirijo a alguma autoridade, etc.
 
Esta tradição de hierarquia é tão forte que chega até a prejudicar a inovação. Isto porque o novo surge sobre a contestação do antigo. É a “destruição criativa” como diria o economista austríaco Joseph Schumpeter. Mas, como destruir uma ideia antiga sem desrespeitar o meu querido avô já falecido, que era adepto desta ideia?
A China também tem forte influência confucionista, mas o Japão é mais radical em alguns pontos, como o da limpeza.

Por que isto tudo é importante?
 
Ok, e daí que esses alienígenas tiram o lixo do estádio? E daí que há um monte de tradições, hierarquias e formalidades?
Primeiro, que algumas das boas ideias deles podem ser aproveitadas. É o poder das ideias, formando um ciclo virtuoso, conforme já dito. Já pensou se todos os brasileiros que recebem sem trabalhar fizessem o oposto, trabalhassem sem receber? Se cada um contribuísse um pouco mais para o todo?

  

E segundo, que este é um mundo cada vez menor. É cada vez mais fácil entrar em contato, seja profissionalmente, seja socialmente, com algum colega japonês, chinês ou coreano.
E, quando isto ocorrer, é muito mais provável que um brasileiro ofenda um japonês do que o oposto. E isto vai ocorrer sem querer. O brasileiro simplesmente não vai entender o que fez de errado. Às vezes, pode ter sido algo tão simples quanto… tirar o lixo da sala de reuniões.

Links:
Recomendo o excelente áudio livro, sobre diversos pensadores do oriente:

Os japoneses originais

Na escola ensina-se muita coisa sem sentido. Mas ainda bem que o grande mérito da escola é ensinar a pensar, e principalmente ensinar a questionar.

Ouvi na escola que japoneses e chineses têm os olhos puxados porque estão num lugar que neva. A neve reflete a luz do sol, por isso, eles têm que ficar com os olhos mais fechados…

Mas eu pensava: porque os suecos não têm olhos puxados, se lá neva tanto quanto no Japão? E na Rússia, não neva não?

Faces

Chineses, japoneses e coreanos têm aparência física semelhante. Será que eles têm um ancestral comum? Se sim, foram os japoneses que ocuparam a Coreia e a China, ou foi a China que ocupou o Japão? Ou faz sentido dizer que eles têm olhos puxados porque neva?

Geografia

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O Japão é um conjunto de ilhas no mar. A Coreia é vizinha da China no continente. A Coreia é o país mais próximo geograficamente ao Japão.

O povo Ainu

As evidências arqueológicas indicam que os japoneses originais não eram os ancestrais dos japoneses de hoje. Ou melhor, havia um povo que habitava o Japão  antes dos japoneses atuais. Eles eram os Ainu.

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Os Ainu chegaram ao Japão há cerca de 10 mil anos. Talvez tenham atravessado a pé o mar que separa o continente, aproveitando uma das eras glaciais, quando o nível do mar era mais baixo. Eles se estabeleceram no Japão e formaram diversas tribos. Especula-se que foram caçadores-coletores – não havia escrita nem agricultura, não deixaram vasos nem ferramentas sofisticadas.

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O povo Ainu parece uma mistura de caucasóides com asiáticos. São muito diferentes dos japoneses atuais que todos conhecem. Eles têm longas barbas e, alguns, olhos azuis. Têm semelhanças com tibetanos. A língua Ainu é completamente diferente da língua japonesa.

Atualmente, os Ainu vivem no extremo norte do Japão, como uma minoria étnica.

Um vídeo sobre os Ainu.

As mulheres apresentam curiosas tatuagens na boca, por tradição.

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Os filhos do Sol

Há uns 3.000 anos, algo mudou drasticamente. A arqueologia encontrou objetos de metal e sinais de agricultura, assim como vasos. Diferentemente dos vasos de eras anteriores, estes pareciam muito com vasos coreanos da época. Diversos outros objetos eram de origem coreana: bronze, ferramentas, estilos de casas, porcos domesticados. Este povo dominava muito bem a agricultura: arroz, trigo, e isto deve ter ajudado a sua expansão demográfica, e provavelmente vieram em barcos, pelo mar.

Domínio da agricultura, ferramentas de metal e casas de estilo coreano não surgem de uma hora para outra. Muito menos a transformação de um povo como os ainu em japoneses atuais. O que provavelmente aconteceu foi que houve a invasão de um povo, provavelmente vindo da Coreia, ocupando as terras japonesas.

O novo povo japonês invasor foi ocupando áreas cada vez maiores do Japão, e empurrando o povo Ainu cada vez mais para lugares remotos.

A primeira crônica japonesa amplamente conhecida é de 712 d.C. Nesta época, o Japão era inquestionavelmente dominado pelos ancestrais dos japoneses modernos: cultura, linguagem, DNA.


Genética

Além das evidências arqueológicas, hoje em dia é possível fazer um “teste de paternidade” utilizando o DNA.

Em termos genéticos, os esqueletos antes de 3.000 anos atrás têm muito mais semelhança com os Ainu do que com os japoneses. Depois deste período, é o contrário. E os japoneses e coreanos da época têm muita similaridade. O “teste de paternidade” leva a crer que foram sim os coreanos que invadiram o Japão há tempos atrás e deram origem ao Japão atual.

Os japoneses têm genes majoritariamente idênticos aos coreanos, com uma percentagem pequena ainu. Quanto mais ao norte, maior esta porcentagem ainu. E, quanto mais ao sul, maior a mistura com o povo original de Okinawa, outro que tem características distintas do povo invasor. Além disso, há em menor número incidência de genes indonésios, tibetanos, etc… vide links no anexo.


Língua

Há um grande problema nesta história toda. A língua coreana atual não tem nenhuma relação com a língua japonesa atual. Se coreanos e japoneses têm similaridade genética e a antropologia conta uma história de invasão coreana no Japão antigo, como pode ser que não haja similaridade entre as línguas?

Linguas

Na figura, da esquerda para direita: coreano, japonês e chinês.

A teoria de Diamond é a seguinte. Na verdade, a Coreia de 3000 anos atrás não era uma nação única como conhecemos hoje, mas sim um aglomerado de reinos diferentes. A língua coreana atual deriva do reinado de Silla.

Talvez, no processo de unificação da Coreia, o reinado de Silla tenha vencido a guerra contra algum outro reino coreano. As línguas e culturas entre os reinos coreanos eram bastante distintas, e um destes reinos poderia ter similaridade com a língua japonesa. Pessoas deste reino resolveram fugir para algum lugar distante e levar consigo objetos, pertences e cultura, fundando uma nova nação em um território inexplorado.

Portanto, os japoneses, chineses e coreanos têm olhos puxados porque descendem uns dos outros, e não porque neva nesses lugares.

Hoje em dia, há muita rivalidade e até ódio entre Coreia e Japão, por causa de guerras e episódios como a invasão japonesa da Coreia na Segunda Grande Guerra. Mas eles descendem da mesma raiz, são irmãos na aparência, na genética e na história.


Veja também:

Artigo original de Jared Diamond

http://foreigndispatches.typepad.com/dispatches/2007/01/the_origins_of_.html

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com/

https://ideiasesquecidas.com/2017/03/18/muro-de-tijolos-x-muro-de-pedras/

https://ideiasesquecidas.com/2020/05/28/seria-possivel-eliminar-os-ideogramas-na-china-e-no-japao/

https://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_people