Que tal ser o dono da empresa com 1% das ações?

A estrutura acionária brasileira, mais um pouquinho de malandragem, permite que uma pessoa controle uma empresa de capital aberto com uma parcela minúscula das ações da mesma. Vejamos como.

Digamos que a companhia Tubarão Ltda, fabricante brasileira de artigos marítimos, seja uma empresa extremamente lucrativa, mas que precisa de grandes investimentos para crescer. Por conta disto, a empresa decide fazer o IPO: entrar na Bolsa de Valores de São Paulo e virar a Tubarão S.A.

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Mas o Sr. Tubarão, atual dono, não quer perder o controle da empresa. Ele reúne os outros sócios, contrata algumas consultorias, e bola uma engenharia financeira suficiente para se capitalizar, mas de tal forma que continue mandando da mesma forma que antes.

O post do educador financeiro Bastter, colado abaixo, fornece uma explicação muito interessante sobre ON e PN, mas bastante técnica. Vamos quebrar em miúdos.


Lei das S.A.

A regulação do mercado brasileiro (Lei das S.A.) permite que uma empresa de capital aberto lance ações ordinárias (ON) e ações prefenciais (PN). O máximo de ações PN é de 50% do total.

  • Quem tem ações ON manda na empresa: tem o poder de influenciar os seus rumos, guiar a estratégia da empresa.
  • Quem detém as ações PN não manda em nada. É um sócio de mentirinha, simplesmente aceita tudo o que acontece. Mas, então, por que alguém compraria uma ação preferencial?

O Bastter no post abaixo, chama de estratégia “pega-sardinha”. Quem tem ação preferencial teria preferência à distribuição de dividendos da empresa. Na prática, não é vantagem nenhuma. É só “pega-sardinha” mesmo, por citar uma doce palavra: Dividendos. Dividendos é a distribuição dos lucros da empresa aos donos das ações.

 

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Em jargão de mercado, “sardinha” é o sujeito que não manja nada e entra na bolsa achando que vai ser o próximo Warren Buffet. Ele escuta que o “amigo de alguém do trabalho” entrou na bolsa, ganhou R$ 5 milhões numa jogada, e quer fazer o mesmo.

Lê dois livros, e vai se achando o máximo:

– É só comprar na baixa e vender na alta
– É só comprar ações que pagam muito dividendos que ele está garantido, vai viver de dividendos pelo resto da vida
– Acha que tem que ficar olhando a bolsa a cada 5 min e ficar comprando e vendendo
– Não manja nada de opções, nem de outros derivativos malucos que aparecem, mas opera eles.

Portanto, o sardinha acha que a ação PN, que (supostamente) dá mais dividendos, é melhor. Já que ele não é grande o suficiente para mandar na empresa mesmo, pelo menos vai ganhar mais dinheiro.

Ou não.

Se a empresa fechar o capital, a ação ON continua valendo como uma ação da empresa. Já a ação PN vira pó, não vale nada.

O tal do tag-along é uma espécie de proteção ao minoritário, em caso dos majoritários venderem a empresa. Algumas PN nem tem tag-along, ou seja, o sardinha fica a ver navios. Mas, mesmo tendo, sempre há um jeito de quem tem poder de influência driblar algumas dessas restrições e “passar a perna” na sardinhada, conforme diz o Bastter.

Quem é controlador tem várias formas de mandar na empresa, capturar os seus lucros, e distribuir migalhas para os acionistas minoritários, afinal é ele o dono real da empresa.

Observe também que não é impossível uma empresa sair da bolsa. Muito pelo contrário. A melhor ação da BOVESPA dos últimos tempos, a Souza Cruz, fechou o capital. Era uma das poucas que realmente respeitavam o acionista minoritário.
Dava muito lucro, por causa da demanda contínua por cigarros. Não podia gastar em propaganda, nem em jornais, nem em Fórmula 1. O público fumante vem diminuindo aos poucos, então não faz sentido fazer novos investimentos. Portanto, todo o lucro ia para dividendos. E, se a empresa é só lucro e dividendos, porque dividir com todo mundo? Melhor fechar o capital e ficar tudo para os controladores.

Observe que, em outros mercados como o americano, só existe ação ON. Ou realmente é sócio da empresa, ou não é.


 

Free float

Free float são quantas ações estão realmente disponíveis para compra e venda na bolsa. Tipo, o Sr. Tubarão pode ser 50% das ON, e isto nunca vai ser vendido.
No Brasil várias ações só tem as PN no mercado. As ON ficam na mão do controlador, conforme o Bastter comenta.


 

Voltando ao Sr. Tubarão.

Ele só precisa ter 50% das ações ON para mandar na empresa. Se 1/2 das ações são ON e 1/2 são PN, ele só precisa ter 1/4 do total para mandar na empresa.

Mas, olha só. Ele, Sr. Tubarão, não precisa ter 50% das ON. Ele pode chamar sócios e amigos que também têm ações da empresa e fundar uma empresa controladora, digamos a Companhia dos Mares Oceânicos, e esta companhia ter 50% das ON.

Se o Sr. Tubarão tiver 50% da Companhia dos Mares Oceânicos, ou seja, 1/8 do total, ele vai mandar nesta, e esta vai mandar na empresa inteira.

E assim sucessivamente, com uma companhia controladora da companhia controladora, ou outras formas criativas de estruturação acionária, o Sr. Tubarão alavanca o capital da companhia dezenas de vezes, e nada muda: com uma parcela minúscula das ações ele continua a ser o manda-chuva da empresa, tocando o barco como era antes, lucrando e distribuindo só o que restar aos minoritários.

Texto do Bastter:

(www.bastter.com)

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Sócio é ON

Muitas empresas não querem perder o controle mas querem financiadores então o que elas fazem? Ficam com as ONs para elas e lançam PNs para a galera. Assim elas se financiam e não tem encheção de saco. Mas porque alguém compraria PNs? Realmente um problema então temos de inventar uma historinha. E o que mais pega sardinha? Dividendos. Boa, PNs pagam mais dividendos, assim a sardinhada vai adorar e vai nos financiar. A hora que a gente quiser, a gente passa a perna neles, quem mandou comprar PN.

Nada é garantido, mas se você quer ao menos que o controlador tenha de ser mais criativo para te ferrar, possua a mesma ação que ele, ONs. E digo mais, com exceção de bancos, so o fato da empresa possuir PNs já é um peso desnecessario mesmo que voce tenha as ONs.

Agora vejam vocês, a lei diz que a empresa tem de dar Tag Along OU preferencia nos dividendos para as PNs. Como possuir PN sem tag along é uma loucura e se tem tag along normalmente não vai ter preferencia nos dividendos, até a historinha não acontece. A pessoa achaque tem e não tem na maior parte das vezes. Sem contar que esta preferencia nos dividendos não representa nada e não serve para nada, é só uma historinha para atrair incautos para financiar as empresas que não querem oferecer ONs para o publico.

Aí vemos empresas que até parecem boas que você vai ver a composição acionaria e ta assim:

O controlador tem
61,57% das ONs e 0,04% das PNs
PN deve ser uma coisa muito boa mesmo, visto que o controlador não quer saber delas 🙂

E tem outras assim:
Free float
Ações que se encontram em circulação, ou seja, aquelas que estão à disposição para negociação no mercado, excluindo-se as pertencentes aos controladores e aquelas na tesouraria da companhia. ON:1,06% PN:63,82%

Ou seja, eles oferecem para o publico 1% das ONs e 64% das PNs. Dizem que abriram capital mas é só de brincadeirinha porque na verdade eles nao querem socios, querem so financiadores.

Não adianta a empresa ser boa só para donos e diretores, tem de ser boa para minoritarios também, senão para que você vai comprar ações.

Participe da discussão sobre o tema la na Bastter.com que nunca mais na vida você compra uma PN:

George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.
Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas ideias e opiniões.
Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.
Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?
A resposta: ninguém sabe.

Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Reflexividade do mundo.
Imagine que o mundo está funcionando atualmente. Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos do mundo.
Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc. Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.
E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta. Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira ideia, ou é apenas opinião e blá blá infinito. São 2 páginas para colocar a ideia principal e 200 de lero-lero.  Lembre-se do lado filósofo dele, muito discurso com pouca aplicabilidade.
A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é até decepcionante. É por isso que nenhum filósofo o leva a sério, não há nada novo ou diferente nessas ideias.

O Soros paradoxal
Mas o parágrafo acima não que dizer que filosofia de Soros não sirva para nada. Há muito a aprender com ele.
Nassim Taleb, em Fooled by Randomness, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de ideias e atitudes contraditórias.
Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.
Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente. No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado. Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.
Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a ideia. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.
Algumas de suas ideias têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.

Conclusão
No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:
1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.
2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, Quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor,  e não ficar falando o que todo mundo já sabe.
3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião.

Epílogo: uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento, continuei teimando em utiliza-lo. O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.
Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.
Perdeu valor, parte para outra.
Arnaldo Gunzi
Fev 2015

Pirâmides financeiras

Há 10 anos, um amigo me convidou para investir em avestruz.
Era um investimento que dava 4% ao mês (muito acima da inflação e do mercado).
Era uma oportunidade tão boa porque a avestruz era a ave do futuro. Sua carne era exportada e era muito cara. Sua pena servia para fazer fantasia do carnaval.  Aproveitava-se tudo da avestruz.
Mas eu tinha que comprar avestruz e levar para o meu apartamento? Não. Eu comprava uma avestruz filhote, ficava com um contrato em papel, e a avestruz continuava na fazenda crescendo. A empresa recomprava a avestruz quando crescesse, a uma taxa acima do mercado. A exportação de carne garantiria a viabilidade da operação. Não tinha risco.
O meu amigo que me convidou tinha ido até Goiás para ver se a fazenda existia. Lá, encontrou milhares de avestruzes, um monte de fazendeiros ricos e participou de um farto churrasco. Ele voltou de lá convencido da robustez do negócio. Colocou algumas dezenas de milhares de reais no negócio. E me chamou para entrar porque ganhava uma bonificação em avestruz quando chamasse outras pessoas.
Mês após mês, ele conferia no site o saldo da conta sempre subindo. Sempre subindo acima da bolsa. Sempre subindo astronomicamente. Até que, um dia, o site sumiu do ar. Os telefones ficaram mudos. Os responsáveis sumiram.
Pirâmides 
Pirâmides são esquemas que se baseiam não em investimentos em bolsa ou em algum outro ativo, mas meramente são sustentadas pela entrada de novos integrantes. Daí vem o nome. Somente os do topo da pirâmide ganham. Os que estão em baixo precisam da entrada de uma base cada vez maior de pessoas para lucrar.
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Como num fundo de investimentos, várias pessoas investem uma quantia de dinheiro no negócio. Mas nem todo mundo saca o dinheiro de uma vez. A maioria delas acompanha o valor investido através de extratos do site do próprio fundo. Sabendo deste comportamento,as pirâmides usam o dinheiro dos novos entrantes para remunerar as pessoas que querem sacar o dinheiro (mantendo as aparências de um fundo saudável). O problema acontece quando muita gente quer sacar o dinheiro que virtualmente tem. Aí a bolha explode.
Pelas pirâmides serem parecidas (exteriormente) com fundos de investimento, nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra.
Pirâmides conhecidas no Brasil: Boi Gordo (anos 80), Avestruz Master (anos 2000), Telexfree e BBOM (anos 2010).
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Nos EUA, as pirâmides também são chamadas de “esquema Ponzi”, em referência a um golpe deste tipo ocorrido nos anos 1900 por um criminoso chamado Charles Ponzi.
Dica para sair de roubadas:
  1. sempre que alguém disser que tem um investimento sem risco, com retornos acima do mercado, ganhos rápidos e fáceis, e está te oferecendo esta oportunidade, saia correndo. Se fosse mesmo uma oportunidade, ele não divulgaria.
  2. desta vez é diferente: a “oportunidade” acima sempre reaparece maquiada e remodelada.  As vezes te fazem vender um produto fajuto (como um suco de capim que emagrece). As vezes te fazem “trabalhar” (ex divulgar o produto diariamente no facebook e clicar num link inútil). Tudo para fugir um pouco da roubada clássica, e para dar às pessoas a oportunidade de se enganarem (porque, no fundo, elas sabem que algo está errado).
Essas pirâmides que “dão tanta esmola que o santo desconfia” são de certa forma simples de reconhecer. E se o esquema for mais sofisticado?
Pirâmide de Madoff
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Bernard Madoff abriu um fundo de investimentos como tantos outros, em Wall Street. Ele não prometia ganhos rápidos nem retornos milagrosos. Prometia apenas retornos estáveis. Já tinha idade avançada e prestígio no mercado, dando credibilidade ao fundo. Fazia filantropia e posava de bom moço.
Mas o fundo não era para qualquer um. Era apenas para clientes exclusivos e ricos. Por ele ser judeu, tinha contatos com o “circuito Judeu” dos EUA. Alguns de seus clientes eram: Steven Spielberg, Kevin Bacon, John Malkovich. Banco Santander e diversos outros fundos ao redor do mundo também investiam no fundo dele.
Os retornos eram em torno de 10% ao ano. Sempre estáveis, mesmo em crise. Pelo fundo ser tão exclusivo, e o método utilizado ser “secreto”, ele não detalhava sobre o tipo de operação era feito para garantir esses 10%.
Ora, veja que este retorno de 10% é:
  1. baixo demais para ficar evidente que era uma pirâmide, e
  2. acima do mercado no longo prazo, garantindo um motivo para clientes ricos entrarem no fundo.
Mas, como toda pirâmide, um dia o esquema desabou. Tiveram várias famílias arruinadas, perdendo tudo o que uma vida toda de trabalho duro conquistaram. Teve um cara que se suicidou, porque tudo o que a família tinha estava lá. Madoff e comparsas foram presos. Mas o estrago estava feito.
Epílogo
Certamente há muitos outros Bois gordos, avestruzes masters, Telexfrees, Madoffs por aí, à espreita.
Pirâmides sempre existiram e sempre existirão. A roupagem é sempre nova, mas o esquema é sempre similar.
Em esquemas como o de Madoff, é bem mais difícil reconhecer o golpe.
Uma forma de contornar isto é não investir uma porcentagem muito grande de seu capital em um fundo alternativo, por melhor que possa parecer. Controle de riscos, sempre.
Outra forma, bem mais difícil, é aprender como funciona o mercado de capitais, para você mesmo aplicar uma parte de seus investimentos.
Mas o principal é ter a noção de que somente com trabalho é que se consegue capital. Não é investindo em promessas milagrosas nem em pessoas carismáticas. Não existem atalhos.
Arnaldo Gunzi
Jan/2015

Dois Erros

Dois Erros

Deixar de gastar quando é necessário é um erro, porque o dinheiro existe para isso, para ser gasto quando precisa. Se não usar quando precisa, vai usar quando?

Já usar sem necessidade não é bom. É a situação inversa da versão acima.

Free Lunch

Free Lunch

O recurso é escasso e sempre vai ser. Sempre vai haver muito mais demanda do que oferta por produtos e serviços de qualidade. Se é de graça, ou é apenas uma amostra para chamar a sua atenção, ou é algo que você não pagar com dinheiro, vai pagar com TEMPO e PRODUÇÃO. Vai esperar em longas filas, para conseguir pouco produto. Além disso, não vai remunerar corretamente o talento que gera a oferta escassa, vai desestimular a concorrência saudável ou incentivar práticas ilegais das empresas para baixar o custo (trabalho sub remunerado, sonegação de impostos, jeitinhos contábeis).
É mais fácil e mais justo com todo mundo sempre tentar pagar um preço razoável pelo que você consome, nem demais nem de menos.

Fazer por Merecer

Fazer por Merecer

Ao contrário do senso popular, primeiro é necessário você trabalhar mais do que recebe, para depois receber a mais do que trabalha.
É só se colocar na posição do chefe. Você promove quem faz por merecer, e não quem fica sentado reclamando da vida.

Se dar bem

Frase sábia do Bastter*

“A pior coisa que pode acontecer é você se dar bem fazendo algo errado”

Realmente, você fazer algo errado e se dar mal logo de cara é uma bênção. Porque o sujeito vai aprender a lição. Mas, se fizer coisas erradas e se der bem, vai continuar fazendo, até chegar num ponto em que realmente vai quebrar a cara.

“Coisa errada” pode ser entrar em pirâmides, entrar em operações financeiras esquisitas, querer se dar bem com transações ilícitas, dar “jeitinho brasileiro” no cotidiano, entre outros.

 

*O Bastter é o melhor educador financeiro da atualidade, e mantém o site bastter.com.

A fórmula mágica na bolsa de valores

Fórmula de Black-Scholes:

É natural do ser humano olhar para a bolsa de valores como algo fascinante e possível de ser domado. E é natural especular sobre a existência de uma fórmula mágica, alguma coisa que diga exatamente qual será o futuro.

Pois bem, a fórmula mágica já foi inventada, já rendeu milhões aos criadores, e já causou a maior quebradeira da história.

A fórmula mágica chama-se fórmula de Black Scholes Merton para a precificação de opções. Opções são operações derivativas das ações. Uma opção é um direito de comprar ou vender uma ação, num futuro pré-determinado, a um preço combinado.

Por exemplo, digamos que uma ação da Vale está valendo R$ 25 hoje. Posso comprar uma opção de compra da mesma ação a R$ 27 para vencimento daqui a 2 meses. Como nada é de graça, vou pagar um valor para fazer esta compra, digamos de R$ 0,80 por ação. Se daqui a 2 meses a ação valer mais do que isto, digamos R$ 29, estou no lucro, porque posso comprá-la a R$ 27. Se valer menos, digamos R$ 23, não exerço a opção, perdi o investimento de R$ 0,80.

As opções têm volatilidade extremamente alta. No caso hipotético, a ação tinha valor de 25, e a opção de 0,80. Se a ação variar de 25 para 26, houve variação de 3,5%, algo normal. Nesse cenário, a opção variou de 0,80 para 1,00. Parece inofensivo, mas 0,20 em 0,80 dá 25% de ganho. Se coloquei um milhão, agora teria 250 mil a mais em um dia.

O uso de opções permitem ganhos e perdas extremas. E a fórmula de Black Scholes modela o comportamento das opções. Antes da fórmula, o modo de determinar o valor justo de uma opção era por feeling ou métodos empíricos sem muito fundamento. Robert Merton e Myron Scholes ganharam um prêmio Nobel de Economia pela fórmula (Fisher Black já tinha falecido).

Fundo de Investimentos

Merton, Scholes e um grupo de outros gênios fundaram o fundo Long Term Capital Management (LTCM), utilizando a fórmula mágica, computação pesada e todo o conhecimento destes. O fundo foi um sucesso absoluto, como um aspirador de pó sugando várias moedas dos becos do mercado. O fundo chegou a ser o maior dos EUA.

Para investir no LTCM, o mínimo era de 10 milhões de obamas. O LTCM chegou a ter 1 trilhão de dólares em jogo, em 1998.

Olha só: um fundo bilionário que tem dois caras que inventaram uma fórmula mágica e ganharam um prêmio Nobel de Economia pela fórmula. Além disso, o fundo tem um monte de outros gênios do mercado e da computação, inventando algoritmos para aplicar automaticamente os modelos. Além disso, é o maior fundo dos EUA, um monte de ricos colocam grana lá. Tem como dar errado?

Sim, tem como dar errado.

A realidade é muito maior do que qualquer fórmula, e a natureza é mais complexa do que a totalidade dos gênios da humanidade.

Toda teoria é baseada em hipóteses, e por mais bonita e sólida que seja a matemática, é uma construção numa base de lama se as hipóteses mudarem.

O LTCM era fortemente alavancado em opções, que têm extrema volatilidade (para cima ou para baixo). Eles faziam era ganhar um pouquinho em um número muito alto de apostas extremamente improváveis de ocorrer. No exemplo acima, era como se a Vale estivesse a 25 reais, e eles vendessem a opção de venda a 15 reais. Extremamente difícil de ocorrer, portanto a opção valeria pouco, digamos 1 centavo. Mas pelo modelo gaussiano de variação da ação, eles tinham probabilidade de perder só uma vez em milhão de anos. Se eles vendessem 100 milhões de opções dessas, teriam 1 milhão de lucro.

Um “Cisne Negro”, ou “Black Swan”, são eventos de baixa probabilidade e impacto extremamente alto. Este é um termo popularizado por Nassim Taleb.

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O mundo real não segue uma curva normal. Os Black Swans ocorrem com mais frequência do que o mundo gaussiano espera.

Pois bem, um Black Swan chamado “Crise da Rússia” ocorreu em 1998, levando pânico aos mercados. No exemplo, a Vale teria ido para abaixo de 15, digamos 10 reais. E sabe as 100 milhões de opções que eles venderam a 1 centavo? Agora, a diferença era de 5 reais por ação, o que equivale a 500 milhões de prejuízo. A estratégia era como se eles fizessem uma aposta: ganhariam 1 milhão em TODAS as rodadas, exceto quando perdessem. Mas quando perdessem, perderiam 500 milhões de reais.

E o Long Term Capital, altamente alavancado e tendo como base um mundo gaussiano, desabou com a crise na Rússia, uma ocorrência fora das hipóteses. O maior fundo do mundo quebrou espetacularmente. Em alguns meses, fechou as portas e teve que ter os contratos salvos pelo governo, para não quebrar o resto dos bancos (e o resto do mundo).

A matemática pesada, os inúmeros ganhos acima do mercado por alguns anos, o grupo de gênios, o Nobel de Economia, os computadores, o monte de rico colocando dinheiro, dão a sensação falsa de que é possível domar o mundo.

Vale mais a pena reconhecer que somos muito menores do que o mundo, vulneráveis, e fazer controle de riscos. Avançar passo a passo, respeitando o mundo, senão o mundo te engole.

Como diz o educador financeiro Bastter, o mercado adora contrariar quem acha que está acima dele.

O Bastter também tem outra frase interessante: “Somos todos imbecis”.

Dicas de leitura sobre o LTCM:

http://www.amazon.com/When-Genius-Failed-Long-Term-Management/dp/0375758259/ref=asap_bc?ie=UTF8

http://www.businessinsider.com/the-fall-of-long-term-capital-management-2014-7?op=1

Arnaldo Gunzi.

Objetivos financeiros

Calc

O ser humano é sempre igual. Quando se fala em renda variável (bolsa, ouro, títulos, imóveis), o objetivo do ser humano é sempre ficar rico. E este objetivo está errado.

Com a exceção de um ou outro gênio que consegue se sobressair, a grande maioria vai apenas perder, se for com o puro e simples objetivo de conseguir muito em pouco tempo. A grande maioria nem estuda o suficiente para saber o que está fazendo. Agem sem controlar riscos, visando somente a rentabilidade a curto prazo e não o montante geral a longo prazo.

Na verdade, o primeiro objetivo em renda variável deve ser o oposto: não ficar pobre.

Explico: seu primeiro objetivo deve ser acumular patrimônio em ativos reais, dando menor importância à rentabilidade e maior importância ao valor. A rentabilidade nominal de um papel pode ser ilusória, mas o valor de um ativo real, não. O título da dívida do governo é um papel sem valor intrínsico, assim como uma poupança num banco. Já um imóvel é um ativo real. A ação de uma companhia como a Vale é um ativo real, porque você é sócio de uma fatiazinha da companhia, e enquanto o Brasil for um país capitalista, isto vai ter valor financeiro, protegido pela jurisdição.

Enquanto buscar renda variável a curto prazo é um jogo de soma zero (porque o que você ganha é o que alguém perde), acumular patrimônio real é um jogo de soma positiva, porque você recebe dividendos que advém do lucro de uma companhia, que cresce com o crescimento da economia do país.

Assim, paradoxalmente como em tudo na vida, aquele que se defende com ativos reais para não ser pobre, pode ter a chance de acumular muito patrimônio, se um ou mais de seus ativos reais deslancharem. Já aquele que buscou o curto prazo vai ter vida curta, porque dificilmente um peixinho vai engolir um tubarão num jogo desses.

 

 

 

Pequenas moedas

O mundo não é linear. As vezes, achamos que uma pequena melhoria, uma pequena diferença, não vai dar em nada. Mas esta pequena melhoria pode possibilitar outra melhoria pequena, depois outra, e quando se vê, o todo está 2 vezes melhor do que o original.

No longo prazo, o poder dos juros compostos é imbatível. Deposite uma pequena moedinha por dia, e no final de um longo período, vai haver muito acumulado.