Fake Storytelling

Vi recentemente uma polêmica acerca de uma certa Bettina.

Para quem não conhece, a propaganda diz que Bettina, uma jovem de 22 anos, partiu de mil e quinhentos reais e fez um milhão de reais no mercado financeiro.

É uma propaganda de um grupo que insinua que todos conseguem fazer isto, seguindo os mandamentos deles, é claro.

O problema é que a história da Betina é fake. É apenas inspiracional. Assim é fácil… poderiam ter dito logo que ela fez 150 milhões, que era o novo George Soros, o novo Warren Buffet.

Eu já acho forçado demais pegar o best in class, a pessoa que mais ganhou de todos, e apresentar este como o benchmark, um exemplo de que todos podem chegar no mesmo nível – é claramente impossível, porque se todos fossem vencedores, todos seriam medianos, e assim não haveria vencedor.

Pegar um best in class falso é muito mais forçado… ainda mais num país onde apenas 1% dos que fazem day trade têm lucro, conforme demonstra este estudo recente: https://cointimes.com.br/e-possivel-viver-de-day-trade/.

Porque o fake storytelling provoca tantas reações negativas? Não é só inspiracional mesmo?

Minha explicação remonta à 2,4 mil anos no tempo. A Retórica de Aristóteles dizia que há três modos de persuasão: o Ethos, o Pathos e o Logos.

O Logos se refere à parte lógica do argumento para convencer alguém.

O Pathos se refere à parte emocional. É aqui que entra fortemente o storytelling. Quando é feita uma personificação, quando não é um ensinamento abstrato qualquer, mas uma pessoa de verdade, uma jovem brasileira de 22 anos, muito mais próxima de nós, afeta fortemente a emoção, o pathos. É por isso que o storytelling é tão poderoso.

O melhor agora, o Ethos. O Ethos se refere ao lastro disto tudo, à autoridade que o narrador tem para contar a história. Um George Soros tem autoridade enorme para falar qualquer coisa, concordemos ou não. Pelo menos, ele juntou alguns bilhões de dólares…

No caso citado, do fake storytelling, o Ethos caiu por terra. Que moral a personagem tem para falar sobre o tema, se ela estava apenas interpretando um papel? E, caindo o Ethos, cai também o Pathos, porque na parte emocional ninguém é pato para engolir essa historinha fake.

Portanto, ao invés de utilizar os três modos de persuasão para fortalecer a mensagem, dois deles saíram pela culatra.

É o mesmo caso da Diletto e do Suco do Bem, cases famosos pelo storytelling forçado.

O Ethos é infinitamente mais difícil de conseguir, e portanto, muito mais difícil de falsificar.

Links:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://moneytimes.com.br/felipe-miranda-bettina-gaste-a-pergunta-mais-relevante-de-todas-quem-e-o-tio-ricco/

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/07/ethos-pathos-e-logos/

O índice X-Men de Inflação

O Dragão dos anos 80

 

Este post é para quem só conhece o Real como moeda brasileira.

 

Quem tem menos de 30 anos hoje não conhece na pele as garras do dragão dos anos 80, a Hiperinflação. Foi uma época de inúmeros planos econômicos, troca de moeda constante, perda de valor monetário e descrença no futuro, que só mudou com o Plano Real de Fernando Henrique Cardoso.

 

Eu era muito jovem nos anos 80, mas senti muitos dos efeitos nefastos de uma hiperinflação. Não chega nem perto do que sentiram as pessoas da população economicamente ativa da época, como os meus pais, mas mesmo assim senti.

 

Esta história começa em 1986. José Sarney era o primeiro presidente civil do Brasil em muitas décadas.

 


 

O Plano Cruzado

 

Em fevereiro de 1986, Sarney anunciou o Plano Cruzado. As medidas econômicas foram congelamento de preços, troca de moeda de Cruzeiro para Cruzado, cortando 3 zeros.

 

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X-Men 1 – nov 88. Cz$ 260

 

 

Em novembro de 1988, a épica revista X-Men número 1 foi lançada pela Editora Abril, a um preço de capa de Cz$ 260,00 (Cruzados). Na capa, Vampira, Tempestade, Colossus, Cíclope, Kitty Pride, Wolverine e Noturno – bons tempos aqueles.

 

As histórias desta época eram do fantástico roteirista Chris Claremont, e eram um mix de aventura, drama, suspense. Mas o que quero trazer para o post são somente as capas. Na verdade, somente os preços da capa. Esta era em formatinho padronizado com 80 páginas e tiragem mensal, o que faz com que a revista tenha praticamente o mesmo valor anos depois, sendo a variação de preços devida somente à inflação.

 

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X-Men 2 – dez 88: Cz$ 350 – o povo brasileiro também sentia-se traído!

 

 

A revista X-Men n.2 já custava Cz$ 350,00. No mês seguinte, Cz$ 450,00. Um aumento de 200 cruzados (80%) em 2 meses!

 

Em 1988, o plano Cruzado (e o Cruzado II) já tinha afundado completamente. O congelamento de preços não funcionou (nunca funciona), os gastos públicos não diminuíram. Foi como dar um analgésico sem tratar a causa da doença.

 

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X-Men 3 – jan 89: Cz$ 450. O Brasil e a Inflação, até que a morte os separe!

 

 

Lembro-me de que neste época todo mundo era “Fiscal do Sarney”: responsável por fiscalizar se algum malvado comerciante capitalista estava aumentando preços congelados. Vira e mexe alguém aparecia no jornal, preso, por furar o congelamento artificial do governo.

 

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Congelamento de preços sempre causou e sempre causará desabastecimento de produtos. Desabastecimento sempre gera um mercado negro.

 

Imagine uma dona de casa que faz bolos para vender. Se ela gastar Cz$ 80 para fazer o bolo e coloca uma margem de Cz$ 20, o produto final terá um preço de Cz$ 100. Mas, se o bolo tiver o preço congelado a Cz$ 50, a dona vai tomar prejuízo se vender o bolo. Ela vai preferir não vender o bolo, ou não fazer o bolo – vale mais a pena comer o bolo do que trabalhar para fazer e vender o mesmo. Ou ela pode vender panquecas. Ou vender o bolo a Cz$ 100 no mercado negro, para quem realmente estiver precisando do bolo ao preço justo deste.

 

Mercado Negro não é um lugar secreto de piratas, longe da polícia. Mercado negro é qualquer lugar onde o comprador e vendedor simplesmente ignoram o congelamento e acordam o preço. Ou seja, qualquer lugar com quaisquer pessoas.
Caso descrito pelo livro “Saga Brasileira”, da jornalista Miriam Leitão. Um efeito bizarro do congelamento de preços, foi que o carro usado (sem tabela de congelamento) passou a ser mais caro do que o carro novo (preço tabelado). Mas é óbvio que ninguém conseguia comprar o carro novo na concessionária, só via mercado negro.

 

 

As três edições de X-Men em Cruzados geram o gráfico a seguir. Anualizando o índice X-Men de inflação desses dois meses, dá uma inflação de 3.300% ao ano!!

 

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Plano Verão

 

O Plano Verão veio em janeiro de 1989. Mudança de Cruzado para Cruzado Novo, cortando 3 zeros, congelamento de preços (de novo, esse pessoal não aprende).

 

A revista X-Men n. 4 veio com o preço de capa de NCz$ 0,45 (Cruzado Novo), o que reflete exatamente o corte de três zeros do preço em Cruzados (Cz$ 450,00).

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X-Men 4- fev 89: NCz$ 0,45. O Brasil também viveu uma jornada de horror!

 

O preço de NCz$ 0,45 se manteve pelos próximos dois meses. E aí, o dragão adormecido voltou, e com força total. NCz$ 0,58, NCz$ 0,75, NCz$ 1,00.

 

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X-Men 8 – jun 89: NCz$ 0,75. O Brasil abandonado à própria sorte!

 

Em janeiro de 1990, a revista X-Men n. 15 já custava NCz$ 17. No mês seguinte, NCz$ 30, e no posterior, NCz$ 53. Um aumento de 8 mil porcento em um ano!

 

 

Sarney, quando questionado sobre o que poderia fazer para acabar com a inflação, disse: “Nada. É tudo culpa da crise internacional!”. Infelizmente, mais de 20 anos depois, uma certa presidenta do Brasil também colocou a culpa da economia pífia numa suposta “crise internacional”.

 

 

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X-Men 17 – mar 90: NCr$ 53. Fim da linha para o Futuro do Brasil.

Para dar um paralelo de como era a situação, imagine uma nota de 100 reais. Hoje, 100 reais pode comprar um monte de coisas. Mas, daqui a um ano, a nota de 100 reais tem um poder de compra equivalente a 1 (um) real, e o governo tem que inventar notas de 500 reais, 1000 reais, etc. Depois que um pãozinho passa a custar 1000 reais, o governo corta três zeros, inventa uma moeda chamada “real novo” ou “real verdadeiro”, e o pãozinho passa a custar 1 real novo.

 

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1000 Cruzados passaram a valer 1 Cruzado Novo

 

 

Lembro-me que nesta época ninguém carregava moedas no bolso. A gente recebia um troco em moedas, e dois meses depois a moeda não valia mais nada. Era mais válido receber o troco em balas – pelo menos o açúcar da bala não evaporava com o tempo. Mas como o dono da padaria não era bobo, ele fazia questão de empurrar as moedas sem valor como troco.

 

 

Lembro-me também que fui ao Japão com os meus pais. Algo que me chamou a atenção foi que eles utilizavam moedas. Tudo quanto era máquina de refrigerante aceitava moedas, a moeda de 100 ienes. Hoje, mais de 20 anos depois, as moedas de 100 ienes continuam existindo no Japão.

 

As edições de X-Men em Cruzados Novos geram o gráfico a seguir, começando em NCr$ 0,45 e terminando em NCr$ 53,00. Anualizando o índice X-Men de inflação deste período, dá uma inflação de 8.000% ao ano!! Note que o gráfico é exponencial. Se nada fosse feito, o dragão só iria ficar cada vez mais forte.

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O Plano Collor

 

Lembro-me bem do primeiro presidente eleito democraticamente pelo brasileiro após décadas. Lembro-me de que ele era a esperança de salvação deste povo sofrido. Lembro-me da cobertura das revistas e jornais da época, e de uma ministra da Economia chamada Zélia Cardoso de Melo.

 

Logo nos primeiros dias de governo, era lançado o Plano Collor 1, em março de 1990. A moeda passou de Cruzado Novo para Cruzeiro, sem corte de zeros. A primeira revista deste novo governo era a X-Men 18, com preço de Cr$ 30,00.

 

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X-Men 18 – abr 90: Cr$ 30. Amargo destino do brasileiro sob Collor.

 

 

Ocorreu nesta época uma dos experimentos econômicos mais bizarros da história: o confisco da poupança. Imagine todo o seu dinheiro guardado no banco. E imagine que agora ele não é mais seu. Aliás, é seu, mas você não pode sacá-lo, nem usá-lo para nada, e este estará sujeito à uma taxa de correção arbitrária, obviamente abaixo da inflação. Ou seja, um confisco, na prática.

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X-Men 19 – mai 90: Cr$ 30. Brasil sob Ventos e Tempestades!

 

 

A lógica é mais ou menos assim: o excesso de dinheiro em circulação causa inflação. Então, vamos tirar o dinheiro de circulação na marra, isto vai acabar com a inflação e os brasileiros vão ficar felizes.

 

O Plano Collor 1 foi radical. Destruiu inúmeros sonhos, quebrou centenas de empresas. Tinha muita gente com dinheiro na poupança para comprar um apartamento, e que estava esperando Collor assumir para ver se os preços baixavam – ficaram sem apartamento e sem dinheiro. Foi uma época de desesperança, depressão, suicídios e ataques cardíacos. Não é nada agradável ver todo o dinheiro de uma vida confiscado. Todo mundo conhecia alguém que tinha sido muito afetado pelo plano de Collor e Zélia.

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X-Men 20 – jun 90: Cr$ 40,00

 

Tirar dinheiro de circulação na marra causou uma recessão. O PIB brasileiro encolheu 4% no ano. Pequenos empresários que não tinham capital de giro quebraram, porque não recebiam e tinham que pagar os salários em dia.

 

O plano foi tão desastrado que levou, indiretamente, à queda de Collor. O impeachment foi por uma denúncia qualquer de corrupção, mas a indignação popular foi causada mesmo pelo pior plano econômico de todos os tempos.

 

E o pior é que a inflação não morreu. Só deu uma acalmada no começo.

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X-Men n.30 – abr 91: Cr$ 180. Cerco ao sofrido povo brasileiro!

 

Em abril de 1990, a revista X-Men n. 18 custava Cr$ 30,00. Em julho de 90, já custava Cr$ 60,00. Em dez /90, já custava Cr$ 180,00.

 

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X-Men n. 33 – jul 91: Cr$ 330. Vingança da inflação, que voltava com tudo

 

O governo Collor foi liberando o confisco da poupança para os setores amigos. O governo continuava a gastar como sempre. Como em todos os planos econômicos, quem pagou o pato foram os mais fracos, que não conseguiam se proteger e tiveram o dinheiro de uma vida toda preso no banco. Ao Collor I sucedeu-se o Plano Collor II, com congelamento de preços (de novo?!?!) e outras medidas que nada resolveram.

 

 

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X-Men n. 35 – set 91: Cr$ 430,00.O mistério da Fênix da inflação, que retorna das cinzas.

 

 

Em agosto de 1992, a revista custava Cr$ 5.200,00, 172 vezes o valor do início do plano.

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X-Men n. 46 – ago 92: Cr$ 5.200. Não tinha melhor título do que Inferno!

 

Nesta época, eu tinha uma estratégia. Esperava dois meses para comprar a revista, com o preço corroído pela inflação. Em setembro de 92, a editora abril cansou de remarcar os preços, e adotou uma tabela. A revista custava o valor B7 da tabela. E o jornaleiro só tinha que trocar a tabela, todos os dias, arruinando a minha estratégia de comprar revistas de meses passados.

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X-Men n. 50 – dez 92. A capa não tinha mais preço. A inflação era tão alta que desistiram de remarcar o preço.

 

 

Collor prometeu dar um tiro na inflação. Acabou dando um tiro nos brasileiros, e o dragão da inflação continuou firme e forte. Note o comportamento exponencial do gráfico do índice X-Men. Neste período, a inflação anualizada foi de 800%!

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O comportamento exponencial do gráfico nem permite que se veja os números.

 

Disponibilizei neste link os dados tabulados da série histórica da revista dos X-Men.

 

 

A minha família é de ascendência japonesa. Nesta época, diversos familiares emigraram para o Japão – tornando-se dekasseguis. Oitenta anos depois dos japoneses emigrarem para o Brasil, a terra prometida, era a vez de seus filhos e netos retornarem para o Japão.

 

A insegurança econômica (não adianta acumular cruzados, pois desvalorizarão) e a insegurança jurídica (não adianta colocar no banco, pois o o governo confiscará) geraram um Brasil sem futuro. Quanto mais o futuro é imprevisível, mais gasto tudo no presente.
Se não posso guardar, tenho que consumir tudo o quanto antes. Era comum as pessoas ganharem o salário e fazerem no mesmo dia a compra do mês no mercado, estocando commodities. E o escambo (troca de mercadorias sem uso de dinheiro) tinha voltado, já que a moeda tinha cada vez menos valor.

 

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Imagine uma nota de 100 mil reais…

 


 

O Plano Real
Em fevereiro de 1994, depois do fracasso de três ministros da fazenda em dois anos, o presidente Itamar Franco chamou Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda. Ele montou uma equipe de economistas predominantemente da PUC-RJ, e adotou uma série de medidas consistentes para atacar a causa do problema da inflação.

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X-Men n. 71 – set 94: R$ 1,45

 

Não foi um caminho fácil, é claro. Foi necessário abrir a economia, quebrar monopólios, permitir a competição. Modernizar a estrutura produtiva, gastar somente o que fosse arrecadado (Lei de Responsabilidade Fiscal). Muito estudo, planejamento, coragem para encarar políticos irresponsáveis, mas eis que agora o Brasil voltava aos eixos!

 

O mais importante de tudo: o Brasil voltou a ter futuro. Era possível planejar. Grandes investimentos poderiam ser feitos com segurança.
A história do Plano Real pode ser acompanhada no livro Saga Brasileira, da jornalista Míriam Leitão.Um efeito disto: a editora Abril voltou a publicar o valor da revista na capa.

 

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X-Men n. 85 -nov 95: R$ 1,90

A inflação é o mais cruel dos impostos. É a forma do governo taxar sem colocar uma arma na sua cabeça. O problema é que são os mais fracos são os mais prejudicados. É como uma corrida em que quem aumenta primeiro sai ganhando. Quem não tem poder de barganha para negociar aumentos fica para trás, e vai comprar tudo com preço de hoje mais caro, a partir de um salário nominal do mês retrasado.

 

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X-Men n. 95 – set 96: R$ 2,20

 

 

O Brasil colheu os frutos de uma moeda forte por 20 anos, o que permitiu um avanço inimaginável na economia, política, e na sociedade. Não mais troca de moedas. Não mais corte de três zeros. Não mais troca de ministro da Economia a cada meio ano, como um time troca de técnico quando sofre derrota atrás de derrota.

 

Mais de 90 meses depois, em março de 2000, a revista X-Men n. 137 custava R$ 2,50. Para quem esperava que ela custasse 250.000.000 reais, aquilo era um sonho! As pessoas voltaram a usar porta-moedas, o dono da padaria voltou a empurrar balas como troco.

 

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X-Men n. 137, mar 2000: R$ 2,50. O resgate do Brasil, finalmente!

 

 

Note como o índice X-Men de inflação é muito melhor para o período pós Plano Real. Em seis anos, o aumento do preço de capa foi de apenas 1 real. O comportamento exponencial já não existia mais. A moeda de 1 real existe até hoje, em 2018.

 

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A revista dos X-Men em formatinho acabou poucos meses depois, passando a ter um outro formato, outro número de páginas, etc. Mas eu não colecionava mais as revistas nesta época.

 


 

Conclusão – a Fênix dos anos 2010

 

Quem viveu o período de hiperinflação provavelmente entrou com zero e saiu com zero. Apenas sobreviveu, não acumulou patrimônio.

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A Fênix ressurge das próprias cinzas

 

Quem sabe, se os rumos políticos e econômicos fossem menos desastrosos no passado, hoje estivéssemos num nível de desenvolvimento como o da Coreia do Sul, por exemplo.

 

Ousei sonhar com um Brasil de primeiro mundo, após o Plano Real. Parecia que o Brasil começava a decolar. Mas o Dragão da inflação, do desgoverno, das políticas econômicas demagogas e ineficazes, voltou das cinzas como uma Fênix, ameaçando engolir o futuro, nos anos 2006 – 2016.

 

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O que é possível fazer, neste contexto? Pelo menos a minha parte: trabalhar, criar novas soluções criativas para as necessidades atuais, tornar-se cada vez mais produtivo dentre as dificuldades. É para isto que trabalho, e é para isto que este espaço existe.

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2018

(Repostando a partir de original de 2016)

 

Tilha sonora. Legião Urbana, Que país é este.


 

Leitura recomendada

 

Saga Brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda. Míriam Leitão.

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http://www.livrariacultura.com.br/p/saga-brasileira-22491015

 

Veja também

Dinheiro e Termodinâmica

Telefonia nos anos 80

Crise e Oportunidade

 

Mercados desabam 0,16%???

Abro a notícia do link a seguir, dizendo que os mercados asiáticos desabaram devido às últimas notícias.

Temor com Coreia do Norte desaba fechamento de bolsas da Ásia

https://blogdaengenharia.com/wp-content/uploads/2016/01/crise-economica-blog-da-engenharia.jpg

Quando vejo o conteúdo, lá diz que a bolsa da China fechou em baixa de 0,16%, a bolsa do Japão, em baixa de 0,25%.

Desde quando uma baixa de 0,16% é desabar?


 

Algumas incorreções.

Primeiro, qualquer desses índices de mercado é composto de várias e várias ações. O Ibovespa, por exemplo, é uma carteira de 59 ações, conforme o link.

Portanto, se o índice final ficou próximo de zero, algumas ações subiram, outras desceram. Na média ponderada, deu o número citado. Portanto, o índice como número absoluto é apenas um indicativo. Não quer dizer nada, de forma absoluta.

 

Segundo, o ser humano tem uma necessidade imensa de explicar tudo. Na bolsa, cada comprador e vendedor têm os seus objetivos. É, no mínimo, superficial justificar as ações de todos os milhares de compradores, vendedores e algoritmos a partir de uma manchete de jornal espalhafatosa. Entretanto, a explicação como a dada é simples, fácil de entender e faz algum sentido, é boa para uma manchete de jornal.

Dá-se o nome de Falácia Narrativa à nossa tendência de querer explicar tudo de forma simples e que faça algum sentido. Temos muita criatividade para interpretar dados e fatos, e atribuir significado. E, assim, explica-se porque o Corinthians perdeu, porque os chineses têm olhos puxados, porque o ornitorrinco nunca surgiu no Brasil, etc…

 

Uma variação tão baixa, de 0,16%, e no índice do mercado, significa nada. O mercado andou de lado. Deu de ombros ao noticiário – não acredita nem nas bravatas do gordinho norte-coreano, nem nos latidos do magnata americano… mas dizer isto não rende cliques.

 

 

 

 

 

 

Que tal ser o dono da empresa com 1% das ações?

A estrutura acionária brasileira, mais um pouquinho de malandragem, permite que uma pessoa controle uma empresa de capital aberto com uma parcela minúscula das ações da mesma. Vejamos como.

Digamos que a companhia Tubarão Ltda, fabricante brasileira de artigos marítimos, seja uma empresa extremamente lucrativa, mas que precisa de grandes investimentos para crescer. Por conta disto, a empresa decide fazer o IPO: entrar na Bolsa de Valores de São Paulo e virar a Tubarão S.A.

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Mas o Sr. Tubarão, atual dono, não quer perder o controle da empresa. Ele reúne os outros sócios, contrata algumas consultorias, e bola uma engenharia financeira suficiente para se capitalizar, mas de tal forma que continue mandando da mesma forma que antes.

O post do educador financeiro Bastter, colado abaixo, fornece uma explicação muito interessante sobre ON e PN, mas bastante técnica. Vamos quebrar em miúdos.


Lei das S.A.

A regulação do mercado brasileiro (Lei das S.A.) permite que uma empresa de capital aberto lance ações ordinárias (ON) e ações prefenciais (PN). O máximo de ações PN é de 50% do total.

  • Quem tem ações ON manda na empresa: tem o poder de influenciar os seus rumos, guiar a estratégia da empresa.
  • Quem detém as ações PN não manda em nada. É um sócio de mentirinha, simplesmente aceita tudo o que acontece. Mas, então, por que alguém compraria uma ação preferencial?

O Bastter no post abaixo, chama de estratégia “pega-sardinha”. Quem tem ação preferencial teria preferência à distribuição de dividendos da empresa. Na prática, não é vantagem nenhuma. É só “pega-sardinha” mesmo, por citar uma doce palavra: Dividendos. Dividendos é a distribuição dos lucros da empresa aos donos das ações.

 

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Em jargão de mercado, “sardinha” é o sujeito que não manja nada e entra na bolsa achando que vai ser o próximo Warren Buffet. Ele escuta que o “amigo de alguém do trabalho” entrou na bolsa, ganhou R$ 5 milhões numa jogada, e quer fazer o mesmo.

Lê dois livros, e vai se achando o máximo:

– É só comprar na baixa e vender na alta
– É só comprar ações que pagam muito dividendos que ele está garantido, vai viver de dividendos pelo resto da vida
– Acha que tem que ficar olhando a bolsa a cada 5 min e ficar comprando e vendendo
– Não manja nada de opções, nem de outros derivativos malucos que aparecem, mas opera eles.

Portanto, o sardinha acha que a ação PN, que (supostamente) dá mais dividendos, é melhor. Já que ele não é grande o suficiente para mandar na empresa mesmo, pelo menos vai ganhar mais dinheiro.

Ou não.

Se a empresa fechar o capital, a ação ON continua valendo como uma ação da empresa. Já a ação PN vira pó, não vale nada.

O tal do tag-along é uma espécie de proteção ao minoritário, em caso dos majoritários venderem a empresa. Algumas PN nem tem tag-along, ou seja, o sardinha fica a ver navios. Mas, mesmo tendo, sempre há um jeito de quem tem poder de influência driblar algumas dessas restrições e “passar a perna” na sardinhada, conforme diz o Bastter.

Quem é controlador tem várias formas de mandar na empresa, capturar os seus lucros, e distribuir migalhas para os acionistas minoritários, afinal é ele o dono real da empresa.

Observe também que não é impossível uma empresa sair da bolsa. Muito pelo contrário. A melhor ação da BOVESPA dos últimos tempos, a Souza Cruz, fechou o capital. Era uma das poucas que realmente respeitavam o acionista minoritário.
Dava muito lucro, por causa da demanda contínua por cigarros. Não podia gastar em propaganda, nem em jornais, nem em Fórmula 1. O público fumante vem diminuindo aos poucos, então não faz sentido fazer novos investimentos. Portanto, todo o lucro ia para dividendos. E, se a empresa é só lucro e dividendos, porque dividir com todo mundo? Melhor fechar o capital e ficar tudo para os controladores.

Observe que, em outros mercados como o americano, só existe ação ON. Ou realmente é sócio da empresa, ou não é.


 

Free float

Free float são quantas ações estão realmente disponíveis para compra e venda na bolsa. Tipo, o Sr. Tubarão pode ser 50% das ON, e isto nunca vai ser vendido.
No Brasil várias ações só tem as PN no mercado. As ON ficam na mão do controlador, conforme o Bastter comenta.


 

Voltando ao Sr. Tubarão.

Ele só precisa ter 50% das ações ON para mandar na empresa. Se 1/2 das ações são ON e 1/2 são PN, ele só precisa ter 1/4 do total para mandar na empresa.

Mas, olha só. Ele, Sr. Tubarão, não precisa ter 50% das ON. Ele pode chamar sócios e amigos que também têm ações da empresa e fundar uma empresa controladora, digamos a Companhia dos Mares Oceânicos, e esta companhia ter 50% das ON.

Se o Sr. Tubarão tiver 50% da Companhia dos Mares Oceânicos, ou seja, 1/8 do total, ele vai mandar nesta, e esta vai mandar na empresa inteira.

E assim sucessivamente, com uma companhia controladora da companhia controladora, ou outras formas criativas de estruturação acionária, o Sr. Tubarão alavanca o capital da companhia dezenas de vezes, e nada muda: com uma parcela minúscula das ações ele continua a ser o manda-chuva da empresa, tocando o barco como era antes, lucrando e distribuindo só o que restar aos minoritários.

Texto do Bastter:

(www.bastter.com)

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Sócio é ON

Muitas empresas não querem perder o controle mas querem financiadores então o que elas fazem? Ficam com as ONs para elas e lançam PNs para a galera. Assim elas se financiam e não tem encheção de saco. Mas porque alguém compraria PNs? Realmente um problema então temos de inventar uma historinha. E o que mais pega sardinha? Dividendos. Boa, PNs pagam mais dividendos, assim a sardinhada vai adorar e vai nos financiar. A hora que a gente quiser, a gente passa a perna neles, quem mandou comprar PN.

Nada é garantido, mas se você quer ao menos que o controlador tenha de ser mais criativo para te ferrar, possua a mesma ação que ele, ONs. E digo mais, com exceção de bancos, so o fato da empresa possuir PNs já é um peso desnecessario mesmo que voce tenha as ONs.

Agora vejam vocês, a lei diz que a empresa tem de dar Tag Along OU preferencia nos dividendos para as PNs. Como possuir PN sem tag along é uma loucura e se tem tag along normalmente não vai ter preferencia nos dividendos, até a historinha não acontece. A pessoa achaque tem e não tem na maior parte das vezes. Sem contar que esta preferencia nos dividendos não representa nada e não serve para nada, é só uma historinha para atrair incautos para financiar as empresas que não querem oferecer ONs para o publico.

Aí vemos empresas que até parecem boas que você vai ver a composição acionaria e ta assim:

O controlador tem
61,57% das ONs e 0,04% das PNs
PN deve ser uma coisa muito boa mesmo, visto que o controlador não quer saber delas 🙂

E tem outras assim:
Free float
Ações que se encontram em circulação, ou seja, aquelas que estão à disposição para negociação no mercado, excluindo-se as pertencentes aos controladores e aquelas na tesouraria da companhia. ON:1,06% PN:63,82%

Ou seja, eles oferecem para o publico 1% das ONs e 64% das PNs. Dizem que abriram capital mas é só de brincadeirinha porque na verdade eles nao querem socios, querem so financiadores.

Não adianta a empresa ser boa só para donos e diretores, tem de ser boa para minoritarios também, senão para que você vai comprar ações.

Participe da discussão sobre o tema la na Bastter.com que nunca mais na vida você compra uma PN:

George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
 
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.

Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas opiniões. Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.  

Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?   A resposta: ninguém sabe.  


Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Teoria da Reflexividade do mundo.  

Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos.  

Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc.

Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.  

E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta.

Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira, ou é apenas opinião e blá blá. São 2 páginas para colocar a teoria e 200 de lero-lero.

A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é decepcionante. Entretanto, há uma diferença crucial: Soros aplica as suas ideias na prática! Nós, mortais comuns, não conseguimos aplicar esses conceitos, como veremos a seguir.


O Soros paradoxal

Há muito a aprender com Soros.  

Nassim Taleb, no livro “Fooled by Randomness”, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de ideias e atitudes contraditórias.  

Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.

Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente.

No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado.

Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.

Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a iniciativa e demitir a pessoa. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.  

Algumas de suas opiniões têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.  


Conclusão

No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:

1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.  

2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor. As pessoas comuns não acreditam que podem mudar o mundo.

3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião. As pessoas comuns têm grande relutância em aplicar o stop loss.

Soros é um péssimo filósofo, porém um excelente homem pragmático, de negócios.


Epílogo:

Uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento (alto para mim), continuei teimando em utilizá-lo.

O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.

Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.  

Como diz o educador financeiro Bastter: “Perdeu valor, parte para outra”.    


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

Pirâmides financeiras

Há 10 anos, um amigo me convidou para investir em avestruz.
Era um investimento que dava 4% ao mês (muito acima da inflação e do mercado).
Era uma oportunidade tão boa porque a avestruz era a ave do futuro. Sua carne era exportada e era muito cara. Sua pena servia para fazer fantasia do carnaval.  Aproveitava-se tudo da avestruz.
Mas eu tinha que comprar avestruz e levar para o meu apartamento? Não. Eu comprava uma avestruz filhote, ficava com um contrato em papel, e a avestruz continuava na fazenda crescendo. A empresa recomprava a avestruz quando crescesse, a uma taxa acima do mercado. A exportação de carne garantiria a viabilidade da operação. Não tinha risco.
O meu amigo que me convidou tinha ido até Goiás para ver se a fazenda existia. Lá, encontrou milhares de avestruzes, um monte de fazendeiros ricos e participou de um farto churrasco. Ele voltou de lá convencido da robustez do negócio. Colocou algumas dezenas de milhares de reais no negócio. E me chamou para entrar porque ganhava uma bonificação em avestruz quando chamasse outras pessoas.
Mês após mês, ele conferia no site o saldo da conta sempre subindo. Sempre subindo acima da bolsa. Sempre subindo astronomicamente. Até que, um dia, o site sumiu do ar. Os telefones ficaram mudos. Os responsáveis sumiram.
Pirâmides 
Pirâmides são esquemas que se baseiam não em investimentos em bolsa ou em algum outro ativo, mas meramente são sustentadas pela entrada de novos integrantes. Daí vem o nome. Somente os do topo da pirâmide ganham. Os que estão em baixo precisam da entrada de uma base cada vez maior de pessoas para lucrar.
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Como num fundo de investimentos, várias pessoas investem uma quantia de dinheiro no negócio. Mas nem todo mundo saca o dinheiro de uma vez. A maioria delas acompanha o valor investido através de extratos do site do próprio fundo. Sabendo deste comportamento,as pirâmides usam o dinheiro dos novos entrantes para remunerar as pessoas que querem sacar o dinheiro (mantendo as aparências de um fundo saudável). O problema acontece quando muita gente quer sacar o dinheiro que virtualmente tem. Aí a bolha explode.
Pelas pirâmides serem parecidas (exteriormente) com fundos de investimento, nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra.
Pirâmides conhecidas no Brasil: Boi Gordo (anos 80), Avestruz Master (anos 2000), Telexfree e BBOM (anos 2010).
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Nos EUA, as pirâmides também são chamadas de “esquema Ponzi”, em referência a um golpe deste tipo ocorrido nos anos 1900 por um criminoso chamado Charles Ponzi.
Dica para sair de roubadas:
  1. sempre que alguém disser que tem um investimento sem risco, com retornos acima do mercado, ganhos rápidos e fáceis, e está te oferecendo esta oportunidade, saia correndo. Se fosse mesmo uma oportunidade, ele não divulgaria.
  2. desta vez é diferente: a “oportunidade” acima sempre reaparece maquiada e remodelada.  As vezes te fazem vender um produto fajuto (como um suco de capim que emagrece). As vezes te fazem “trabalhar” (ex divulgar o produto diariamente no facebook e clicar num link inútil). Tudo para fugir um pouco da roubada clássica, e para dar às pessoas a oportunidade de se enganarem (porque, no fundo, elas sabem que algo está errado).
Essas pirâmides que “dão tanta esmola que o santo desconfia” são de certa forma simples de reconhecer. E se o esquema for mais sofisticado?
Pirâmide de Madoff
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Bernard Madoff abriu um fundo de investimentos como tantos outros, em Wall Street. Ele não prometia ganhos rápidos nem retornos milagrosos. Prometia apenas retornos estáveis. Já tinha idade avançada e prestígio no mercado, dando credibilidade ao fundo. Fazia filantropia e posava de bom moço.
Mas o fundo não era para qualquer um. Era apenas para clientes exclusivos e ricos. Por ele ser judeu, tinha contatos com o “circuito Judeu” dos EUA. Alguns de seus clientes eram: Steven Spielberg, Kevin Bacon, John Malkovich. Banco Santander e diversos outros fundos ao redor do mundo também investiam no fundo dele.
Os retornos eram em torno de 10% ao ano. Sempre estáveis, mesmo em crise. Pelo fundo ser tão exclusivo, e o método utilizado ser “secreto”, ele não detalhava sobre o tipo de operação era feito para garantir esses 10%.
Ora, veja que este retorno de 10% é:
  1. baixo demais para ficar evidente que era uma pirâmide, e
  2. acima do mercado no longo prazo, garantindo um motivo para clientes ricos entrarem no fundo.
Mas, como toda pirâmide, um dia o esquema desabou. Tiveram várias famílias arruinadas, perdendo tudo o que uma vida toda de trabalho duro conquistaram. Teve um cara que se suicidou, porque tudo o que a família tinha estava lá. Madoff e comparsas foram presos. Mas o estrago estava feito.
Epílogo
Certamente há muitos outros Bois gordos, avestruzes masters, Telexfrees, Madoffs por aí, à espreita.
Pirâmides sempre existiram e sempre existirão. A roupagem é sempre nova, mas o esquema é sempre similar.
Em esquemas como o de Madoff, é bem mais difícil reconhecer o golpe.
Uma forma de contornar isto é não investir uma porcentagem muito grande de seu capital em um fundo alternativo, por melhor que possa parecer. Controle de riscos, sempre.
Outra forma, bem mais difícil, é aprender como funciona o mercado de capitais, para você mesmo aplicar uma parte de seus investimentos.
Mas o principal é ter a noção de que somente com trabalho é que se consegue capital. Não é investindo em promessas milagrosas nem em pessoas carismáticas. Não existem atalhos.
Arnaldo Gunzi
Jan/2015