Lições da História, Will Durant

Will e Ariel Durant são autores de uma das coleções de história mais aclamadas do mundo: A história da civilização, com 11 volumes e mais de 10 mil páginas!

“Lições da história” é um pequeno livro, com cerca de 100 páginas. É um resumo das principais conclusões dos autores, analisando 100 séculos de história.

Este começa com uma mea-culpa, dizendo que o historiador sempre vai se basear em opiniões e dar destaque ao extraordinário, e não à vida comum das pessoas.

Depois, vários insights interessantes sobre civilização, evolução, democracia.

O livro é de 1968, e os autores viveram no meio do século passado. Portanto, muitas de suas opiniões seriam consideradas politicamente incorretas nos dias de  hoje.

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Nosso conhecimento de qualquer evento passado é incompleto. A maioria da história é adivinhação e o resto é preconceito.

O historiador sempre simplifica demais.

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A história não pode ser uma ciência, apenas uma indústria, uma arte e uma filosofia. Uma indústria, analisando os fatos. Uma arte buscando ordem no caos. Uma filosofia buscando perspectiva e compreensão.

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Perspectiva total é uma ilusão de ótica. Devemos operar com conhecimento parcial.

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Só um tolo tentaria comprimir 100 séculos em 100 páginas de conclusões. Nós continuamos.

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A história é uma combinação dos crimes e absurdos da humanidade. Isso permitiu que cada geração prosseguisse com um patrimônio maior do que a anterior.

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Exemplo de aposta tecnológica: a invenção de aviões redefine totalmente o mundo do comércio e do comércio. Anteriormente, a água era o principal modo de comércio e ditava quais nações chegavam ao poder (aquelas com grandes margens costeiras como a Grécia e a Itália).

Então, de repente, aviões mudaram o poder para nações com enormes massas terrestres em comparação com suas costas (EUA, China, Rússia).

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A lição da história é que o homem é duro.

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A influência dos fatores geográficos diminui à medida que a tecnologia cresce. O homem, não a terra, faz civilização.

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Ideia: A tecnologia domina o meio ambiente com o passar do tempo. Essa tendência começou assim que o homem foi capaz de projetar ferramentas, uma forma de tecnologia.

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Geografia é a matriz da história. Se você vive na costa, você quase inevitavelmente se tornará um viciado do mar.

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A primeira lição biológica da história é que a vida é competição.

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A cooperação é real e se expande à medida que as tecnologias evoluem, mas principalmente por ser uma forma de competição. Cooperamos dentro do nosso grupo, família, comunidade e nação para tornar nosso grupo mais poderoso.

A cooperação é a última forma de competição.

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A segunda lição biológica da história é que a vida é a seleção.

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Do ponto de vista da natureza, todos nascemos livres e desiguais.

A natureza adora a diferença porque é o que permite que a seleção se concentre nos fortes e elimine os fracos.

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Liberdade e igualdade são inimigos eternos. Quando um falha, o outro morre.

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Só o homem abaixo da média deseja igualdade. Aquele que está consciente de estar acima da média deseja liberdade. No final, a habilidade superior tem o seu caminho.

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A terceira lição biológica da história é que a vida deve procriar.

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A natureza gosta de grandes ninhadas e da luta pela sobrevivência que acaba selecionando os poucos mais fortes.

Os recursos naturais do meio ambiente e o talento é limitado. Competição é a lei básica.

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Muito do que chamamos de inteligência é o resultado da educação individual, oportunidade e experiência.

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A concorrência costumava ser entre os indivíduos. Então foi ampliado, entre famílias. Depois foi ampliado, entre as comunidades. E assim por diante.

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As pessoas gostam de pensar que são especiais. Sem esse pouco de vaidade, podemos achar mais difícil avançar. De certa forma, a ilusão é um motivador.

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Em geral, os pobres têm os mesmos impulsos que os ricos, mas com menos oportunidade ou habilidade para implementá-los.

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A maioria imitativa segue a minoria inovadora. A história é em grande parte a batalha de algumas minorias, a qual o vencedor é então elogiado como o vencedor pela maioria.

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De cada 100 ideias novas, 99 provavelmente serão inferiores à alternativa tradicional que foi proposta para substituir.

É bom que novas ideias sejam ouvidas para o bem de poucos que podem ser usados. Mas também é bom que novas ideias sejam testadas e questionadas.

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É possível que as coisas que são vícios hoje já foram virtudes.

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É muito perigoso para um indivíduo pensar que mesmo com 30 ou 40 anos de estudo ele pode julgar e superar a sabedoria coletiva da raça humana. Velhas ideias são muito poderosas.

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Uma visão interessante sobre por que o declínio da religião é muito ruim: se a religião é a crença compartilhada que unifica uma civilização e esse sistema de crença morre, então o que manterá a civilização unida?

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Em todas as idades, as forças do indivíduo parecem ser mais importantes que as forças do grupo. Quando tudo falhar, as pessoas farão o que lhes serve melhor. Eles farão o que garantir sua sobrevivência.

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Com o passar do tempo, os filósofos tornaram-se as forças motrizes por trás das mudanças sociais em vez da igreja. E então, eventualmente, a ciência roubou esse trabalho da filosofia.

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Os homens que podem gerenciar outros homens administram os homens que só podem gerenciar as coisas. Os homens que podem gerenciar o dinheiro gerenciam tudo.

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Normalmente, os homens são julgados por sua habilidade de produzir. Exceto na guerra, quando eles são classificados com base em sua capacidade de destruir.

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A concentração de riqueza em uma pequena parcela da população é um padrão que se repete ao longo da história. Os talentos e habilidades mais valiosos estão confinados a algumas pessoas, o que significa que a riqueza mais valiosa está confinada a poucos também. Esse padrão aparece de novo e de novo.

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A liberdade é possível quando a segurança foi alcançada, mas até lá você está enfrentando a concorrência. Foi só por causa da concorrência que desenvolvemos a capacidade de criar liberdade.

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A primeira condição de liberdade é a limitação. Se a liberdade é absoluta, então ela morre no caos. A principal tarefa do governo é estabelecer a ordem.

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Pax Romana foi talvez a maior conquista da história da governança.

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Se a maioria das habilidades está contida dentro de uma minoria de homens (isto é, se algumas pessoas têm habilidades mais valiosas do que a maioria das outras), então uma regra minoritária é tão inevitável quanto uma concentração desproporcional de riqueza.

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Todo o trabalho de consumo é geralmente o preço da genialidade.

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A sanidade do indivíduo reside na continuidade de suas memórias. A sanidade do grupo reside na continuidade de suas tradições. Separe-se de qualquer um muito rápido e o caos se segue.

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Você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo, mas você pode enganar o suficiente deles para governar um grande país.

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A democracia fez menos mal e mais bem do que qualquer outra forma de governo.

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O objetivo da democracia não é tornar todos os homens iguais, mas tornar seu acesso à oportunidade mais igual. O ideal não é elevar cada homem ao poder, mas dar-lhe acesso a cada ponto de entrada onde sua aptidão e habilidade podem ser testadas. Em outras palavras, a esperança da democracia é oferecer um campo de jogo equilibrado para começar e deixar que seus talentos o levem onde puderem.

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Em que ponto a liberdade se torna excessiva? Em que ponto se torna desordem?

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A guerra parece ser uma constante entre todas as civilizações e tempos. É resultado da competição entre os grupos, assim como os indivíduos competem também.

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Se o progresso é real, não é porque somos mais ricos ou mais sábios do que os do passado, mas porque nascemos em um nível mais alto e mais acima do pedestal de nossa herança. Nascemos com os frutos de uma porção maior da herança humana.

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A natureza humana permanece a mesma. As pessoas simplesmente mudam com a revolução e voltam aos mesmos padrões subjacentes.

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Todas as gerações se rebelam contra a anterior. Em muitos aspectos, é natural e desejável.

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Quando todos são donos de tudo, ninguém cuida de nada.

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Você não pode fazer os homens iguais aprovando leis.

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A história econômica é o batimento cardíaco lento do organismo social. Não importa quem esteja no poder, os ganhos gradualmente se acumulam para os mais inteligentes e talentosos. Então, eventualmente, há alguma fratura da ordem, uma nova minoria sobe ao poder, e o padrão se repete.

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Cada vida, cada sociedade, e cada espécie é um experimento. Tudo acaba em morte eventualmente.

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Ideias são as coisas mais fortes de todas na história. Até uma arma era originalmente uma ideia.

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Na velhice, você entende como é bom que haja radicais e como é bom que haja conservadores. Os radicais fornecem o gás e os conservadores aplicam os freios. Ambas as funções são indispensáveis. Essa tensão é necessária para uma sociedade em funcionamento.

Veja também:

A história da filosofia: https://amzn.to/3eAj4Tx

Novo livro de Bill Gates: Como evitar um desastre climático (ideiasesquecidas.com)

Outros resumos de livros: Resumos Gratuitos (ideiasesquecidas.com)

A expedição Kon-Tiki

Para quem gosta de aventuras, segue a indicação de uma das histórias mais malucas de que o ser humano é capaz.

O norueguês Thor Heyerdahl queria mostrar que a colonização das ilhas Polinésias tinha origem nos indígenas da América do Sul.

Tendo vivido nas ilhas Polinésias por um período, ele notara uma corrente marítima vinda do leste. Também notou semelhança entre algumas estátuas nas Polinésias e no Peru, e culturas como a batata-doce.

Para provar o seu ponto, ele se propôs a uma aventura completamente insana: a bordo de uma jangada, construída apenas com materiais da antiguidade (toras e cordas), atravessar 8000 quilômetros de Oceano Pacífico!

Só para dar uma noção, a distância de Oiapoque ao Chuí é de 4.000 quilômetros. A jangada (nem barco era), iria de norte a sul do Brasil e voltaria, apenas sendo levada pela corrente e pelo vento!

Essa era a Expedição Kon-Tiki, em homenagem ao deus polinésio ancestral. Ocorreu em 1947.

A partir da aventura, ele publicou um livro e um documentário.

Há um filme de 2012, disponível no Prime Vídeo.

O filme é legal, é até fiel em vários pontos, porém, faz algumas dramatizações desnecessárias para uma aventura que é interessante por si só.

Prefiro o documentário original de 1950, no link a seguir.
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Há também um livro: https://amzn.to/3hQgwzB


Pincelei algumas cenas, a seguir.

A jangada foi feita utilizando 9 árvores grossas, de madeira balsa. Toras menores foram colocadas acima das toras grossas, um mastro de madeira bastante dura e uma cabana de bambu coberta com palha seca, pequena mas suficiente para os 6 tripulantes.


Somente cordas, sem pregos, sem cabo de aço. Segundo a antiga tradição polinésia, “Não devemos lutar contra a natureza. Devemos nos sujeitar a ela e ser flexíveis”.

A distância a ser percorrida do Peru para as Polinésias é muito grande. É a mesma distância do Peru até S. Francisco, ou de S. Francisco até a Islândia.

Eles também tinha um pequeno bote a remo como apoio. Na primeira vez que saíram com o bote, eles perceberam que a jangada andava rápido demais, mesmo sem as velas. Tiveram que remar com todas as forças para conseguir alcançar a mesma.

Eles utilizavam um sextante para estimar a localização. Sol, estrelas e conhecimento, só isso.

Uma das grandes objeções dos críticos era a comida. No caso dos aventureiros, eles levaram um grande estoque de ração e água, mas como um nativo faria?

O vídeo prova claramente que é possível conseguir peixe em alto-mar.

Havia muitos peixes próximos à balsa, procurando refúgio.

Peixes voadores também eram frequentes – estes pulavam na balsa à noite, e eram uma fonte constante de alimento.

A fim de justificar a parte científica da expedição, eles coletaram plâncton, alga e parasitas de peixes. Também descobriram uma nova espécie de peixe, uma espécie estranha de peixe cobra.

Em mais de uma ocasião, viram baleias próximas à jangada. Uma das vezes, parecia vir colidir diretamente com a embarcação, porém, o gigante passou por baixo, sem maiores problemas.

É claro que uma viagem dessas não poderia passar sem contratempos. Um deles foi que, somente após 45 dias de viagem, conseguiram contato no rádio amador.

Entre os contratempos, eram necessários constantes reparos na estrutura, na amarração das vigas principais, no manche.

Uma cena que fiquei em dúvida no filme, mas o documentário mostrou que era real. A fim de fazer o rádio amador pegar sinal, os tripulantes levantaram um balão com antena. O papagaio “Lolita”, o sétimo tripulante, viu o fio do balão e bicou, fazendo-os perder o mesmo.

Lolita não teve um bom destino. Após uma chuva, o mar a levou para sempre.

No documentário, eles citam que havia tubarões constantemente seguindo a jangada, principalmente atraídos por restos jogados.

Eles chegaram a pescar tubarões.


Era fácil fazer o monstro morder a isca – bastava peixe e sangue, que ele atacava cegamente – não tem medo, visto que não tem predadores. Içar o tubarão para bordo também não era difícil, porém, dentro da jangada, ele podia ficar por uns bons 45 minutos brigando – e poderia machucar alguém, com os dentes afiados.

A foto a seguir mostra que eles conseguiram pescar à vontade, apenas com instrumentos rudimentares: arpão, anzol e linha.

Após cerca de 90 dias, pássaros no céu eram o sinal de que a terra estava próxima.

Encontraram uma ilha, porém não conseguiram fazer a jangada desembarcar na mesma – afinal, tinham apenas a embarcação e uma vela.

A questão principal de uma viagem dessas não era distância, mas direção. É possível flutuar ao sabor das correntezas por 8000 kilômetros, mas não conseguiam atracar na ilha a 200 metros.

Encontraram nativos em botes alguns dias depois, porém, novamente, não conseguiram desembarcar.

Após mais alguns dias, eles tiveram que atravessar um recife de corais, para desembarcar numa ilha. A jangada foi destruída ao atravessar o recife. E a ilha estava desabitada.

Teriam eles chegado sãos e salvos? Alguma outra intercorrência machucou alguém? Teriam sido atacados por sereias, tais como Ulisses na Odisseia?

Assista o filme ou o documentário para saber. De novo, é um prato cheio para quem gosta de aventuras.

Atualmente, estou com receio até de tomar metrô, em virtude da pandemia. Imagine a coragem de ficar 101 dias isolado no mar, com futuro incerto, vizinho de tubarões e baleias!

Seguem alguns links e outras indicações:

Vi o filme no Prime Video. Como o catálogo é rotativo, destaco que foi agora em junho de 2020.
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Documentário original de 1950
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Livro Kon-Tiki: https://amzn.to/3hQgwzB

Notícia bem recente, que encontra traços de DNA sul americano nos polinésios: https://marsemfim.com.br/colonizacao-da-polinesia-dna-prova-tese-de-thor-heyerdahlt/

Outras recomendações, na mesma linha de aventuras extremas:

A incrível viagem de Shackleton. Sobre o explorador que tentou alcançar o Pólo Sul, porém teve a embarcação presa no gelo. Tiveram que sobreviver até a chegada do verão.

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O País das Sombras Longas. Como vivem os esquimós do Pólo Norte? O livro relata diversas histórias, até cruéis, deste lugar inóspito.

Mais história do Brasil Imperial

Em complemento ao post anterior, seguem três boas dicas de obras audiovisuais sobre o Brasil Império.

  • Carlota Joaquina, a princesa do Brasil. Filme de Carla Camurati, produzido em 1995. É um filme bastante divertido, com Marieta Severo e Marco Nanini. É engraçado ver esses atores jovens, para quem estava acostumado com a atuação de ambos no seriado “A Grande Família”.


O Quinto dos Infernos, mini-série da Rede Globo, de 2002. É uma versão bem caricata e divertida da história. Marcos Pasquim, Betty Lago, Humberto Martim.
http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/minisseries/o-quinto-dos-infernos.htm


Em comum a todos eles, os personagens.

D. João, indeciso, covarde e corno, decidiu pela para o Brasil em 1808 – nunca iria resistir ao grande Napoleão Bonaparte. Porém, D. João era sábio a seu modo. Com ele, o Brasil em 13 anos sofreu mais transformações do que nos 300 anos anteriores.

Carlota Joaquina, a espanhola irascível, fogosa, volúvel, odiava o marido (e vice-versa), tentando alguns golpes de estado durante sua vida.

D. Pedro I, hiperativo, aventureiro, garanhão voraz sexualmente, foi aquele que deu o Grito da Independência montado num burro (e não num belo alazão, como o quadro de Pedro Américo).

Por fim, a Imperatriz Leopoldina, culta, educada, sensível, porém sem beleza física alguma, sofreu muito em meio à corte portuguesa. É lembrada com carinho pelo povo tanto do Brasil quanto de Portugal.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

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Como um cagão salvou o mundo da destruição total

O mundo é curioso. Às vezes, uma única pessoa aleatória tem o poder de mudar completamente o rumo da humanidade inteira.
 

Por exemplo, Hernan Cortés, o conquistador espanhol, tinha sido atacado por nativos, e estava sendo levado como prisioneiro. Cortés foi resgatado por um único soldado espanhol, que matou quatro índios. Não fosse isso, talvez a conquista das Américas demorasse 50 anos a mais, ou nem viesse a acontecer.

 

Outro exemplo. Se Pôncio Pilatos tivesse poupado Jesus, a história do cristianismo talvez fosse completamente diferente.

 

Venho contar hoje a história de uma pessoa, cujo maior ato de heroísmo foi tremer nas bases, se acovardar, e nada fazer. Isto salvou o mundo, sem ninguém ficar sabendo.

 


Bombas atômicas

 

 
Depois da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o mundo viu dois grandes vencedores: de um lado os Estados Unidos, do outro a União Soviética.

 

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Nenhuma das duas potências poderia se enfrentar diretamente, a custo de uma aniquilação mútua que não interessava a ninguém. Era como se duas pessoas tivessem uma arma apontada na cabeça da outra ao mesmo tempo.

 

A chamada “Guerra Fria” surgiu neste contexto: um embate de forças indireto, uma corrida armamentista, uma corrida espacial, a Guerra da Coreia nos anos 50 e na Guerra do Vietnã, no final dos anos 60.

 


 

O Não Herói Petrov

 

Neste contexto de segredos, rivalidade e tensão, em 26 de setembro de 1983 o tenente-coronel Stanislav Petrov estava de serviço. Era num bunker secreto numa floresta perto de Moscou. A sua missão, monitorar o sistema soviético de alerta de ataque nuclear.

 

Neste dia, ele ouviu um “bip-bip” de um sofisticado sistema de alarmes. O problema é que este “bip-bip” indicava um ataque nuclear norte-americano!

 

O sistema indicava um primeiro míssil. Depois, um segundo. No total, indicava que cinco mísseis balísticos americanos estavam a caminho!

 

As ordens eram claras. Informar imediatamente um superior no Kremlin.

 

Entretanto, não foi isso que Petrov fez. Ele tinha uma certa insegurança quanto à tecnologia de satélites, que era nova. Os mísseis terrestres não tinham captado nada. E, ele pensou, se fosse um ataque de verdade, não seria com 5 mísseis, seria com dezenas de mísseis, como se fosse o primeiro a apertar o gatilho esperando que não dê tempo do segundo reagir.

 

Mas também poderia ser um ataque real. Algum erro estratégico poderia fazer os EUA lançarem apenas 5 mísseis. Ou mais estariam por vir. Os radares de terra poderiam estar com problemas.

 

Se ele não reagisse, a União Soviética estaria perdendo minutos preciosos de contra-ataque. Se ele reagisse, possivelmente seria o fim do mundo. Petrov tremeu nas bases.

 

A equipe toda de Petrov era de soldados, apenas obedeciam ordens. Ele era o “mais antigo”, jargão militar que indica que era dele a responsabilidade de passar a informação adiante.

 

E o que Petrov fez?

 

Nada.

 

Esperou por intermináveis minutos por algum sinal mais concreto. Seu coração batia rapidamente. Ele suava muito. Um anjinho em sua cabeça dizia para ele esperar. Um demônio em sua cabeça dizia para ele fazer a ligação.

 

Uma meia hora depois, ele se convenceu de que era realmente um alarme falso. Reportou um erro no sistema de satélites. E bola para frente.

 

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A rigor, Petrov agiu errado. No meio militar, deve-se seguir ordens e passar o abacaxi para cima. Hierarquia e disciplina.

 

Fico me imaginando o que poderia acontecer se outro oficial estivesse de serviço. Um oficial com cabeça bem militar, sem nenhum conhecimento técnico. Quem conhece tecnologia sabe que sistemas novos sempre dão problemas, como identificar falsos positivos. Mas, para um leigo, os satélites eram coisas de gênios, dificilmente o leigo duvidaria de um sinal desses.

 

Este oficial seguiria o manual à risca, e ligaria dizendo: “estamos sob ataque nuclear”. As autoridades do Kremlin fariam um monte de perguntas, às quais ele responderia: “o moderníssimo sistema de satélites indicou com certeza 5 mísseis balísticos disparados da Costa Oeste dos EUA, a atingir Moscou em alguns minutos”.

 

Diante da pressão de responder em pouco tempo, e da firmeza da declaração do oficial, talvez este erro de cálculo se propagasse, fazendo os soviéticos dispararem mísseis atômicos em represália.

 

O relógio do fim do mundo relógio do fim do mundo marcaria meia-noite. Os EUA entrariam em DEFCON 0. Uma chuva de bombas varreria a Terra.

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Desenho da incrível série “Watchmen”

 

O mundo inteiro seria diferente. A humanidade regrediria alguns séculos. Conforme disse Albert Einstein:

 

“Não sei como vai ser a Terceira Guerra Mundial, mas a quarta será com paus e pedras.”

 

O Bhagavad Gita é um dos textos mais importantes da mitologia indiana. Dizem que Robert Oppenheimer, um dos cientistas chefes do Projeto Manhattan (que construiu a primeira bomba atômica), teria feito a seguinte citação do Bhagavad Gita, no primeiro teste da bomba no Novo México. Nada mais adequado para encerrar esta história:

 

“Agora me tornei a Morte, o destruidor de mundos”.

 


Links:

Telesp informa: este número não existe

Hoje passei em frente a um prédio, na Rua Fagundes Dias, na Saúde – SP. Antigamente, era um prédio da Telesp.
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Me lembro muito bem deste local, porque passei por uma experiência traumática nele, no começo dos anos 90. Este post é para as pessoas mais jovens, que não viveram esta época.

 


 

Telefonia nos anos 80

A Telesp (Telecomunicações de São Paulo) era a empresa estatal responsável pelas telecomunicações em SP.

Hoje em dia, qualquer um pode comprar quase de graça um número de celular pré-pago e sair falando. Mas nos anos 80 era extremamente caro e demorado ter uma linha telefônica convencional, de telefone fixo!

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Era tão caro e tão raro, que a maioria das pessoas (inclusive os meus pais) alugava a linha telefônica. Era tão caro que as pessoas declaravam a posse da linha telefônica no imposto de renda.
Dando um chute comparativo, era como se uma linha de telefone fixo custasse R$ 20 mil. Assim como hoje tem gente que vive de aluguel de imóveis, nos anos 80 tinha gente que possuía dezenas de linhas telefônicas e vivia do aluguel de telefones.

E o gargalo não era só o preço. Mesmo se eu tivesse dinheiro para comprar, tinha que colocar o nome numa lista de espera e ficar anos esperando, para talvez ter a linha.

Para quem não tinha telefone, a alternativa eram os orelhões.

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Já usei muito os orelhões, e sempre tinha umas fichas telefônicas no meu bolso.

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Sorteio de linhas telefônicas

De tempos em tempos, a Telesp fazia um esforço para aumentar a quantidade de telefones na rede.

 

Teve uma vez no começo dos anos 90, que teve um tal de um sorteio de linhas telefônicas. Os interessados nesta promoção pegavam uma senha, a Telesp fazia o sorteio das senhas ganhadoras. Estes tinham o direito de comprar a linha telefônica com facilidades, furando a fila de anos de espera. Era algo assim. Não sei precisar exatamente o que foi, porque tinha uns 14 anos na época. Mas me lembro muito bem do que passei.

Os meus pais queriam aproveitar esta oportunidade, e a gente foi lá, pegar a tal senha para o sorteio de linhas telefônicas. Fomos ao prédio da R. Fagundes Dias. Havia uma fila quilométrica de pessoas. Nunca tinha visto tanta gente assim numa fila. Ela começava no prédio, e ia por vários quarteirões ali do bairro da Saúde. Talvez umas 5 mil pessoas. Sei que a gente foi andando para achar o final da fila e entrar nela, mas o final da fila não chegava nunca!

A minha mãe, impaciente como sempre, deu um jeito de furar a fila entre um quarteirão e outro. Entramos na fila, que andava bem rápido. Mas mesmo assim ficamos um bom tempo na fila, uma hora ou mais. Entramos no prédio da Telesp, e a única coisa que fizemos foi pegar um papel, que era a tal senha para o tal sorteio.

Obviamente, este trabalho todo foi em vão. Não fomos sorteados para obter o direito de comprar uma linha telefônica, e tivemos que esperar a privatização das telecomunicações para obter linhas telefônicas acessíveis financeiramente e de qualidade infinitamente superior ao que conhecíamos.

 

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http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-verdade-sobre-as-privatizacoes-imp-,632392

 

Com a privatização das teles, o preço de aquisição caiu a zero. A linha já não era mais um recurso escasso. Com isso, eu me lembro que a gente passou a ter dois números de telefone fixo em casa, um que tínhamos comprado meses depois do sorteio de senhas descrito acima, e outra linha quando o custo de aquisição caiu a zero – talvez por trauma do passado, minha mãe resolveu ficar com duas linhas, vai que a linha se torna escassa de novo.

Também me lembro que até poucos anos atrás o meu pai ainda declarava no imposto de renda a linha telefônica adquirida com tanto esforço nos anos 90, mesmo que na prática o valor dela fosse nulo – trauma de uma época difícil.

Fica aqui o registro do que vivi na era da telefonia estatal, que espero nunca mais repetir.
Arnaldo Gunzi

Jan 2016


 

Obs. Quando a gente discava um número errado, inexistente, a mensagem automática que a gente ouvia era “Telesp informa: este número de telefone não existe, favor consultar o catálogo telefônico ou chamar o serviço de informações”.

Outro serviço dos anos 80 muito útil era a hora certa. A gente ligava “130” para saber as horas pelo relógio mais preciso de São Paulo.

 

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Veja também:

O índice X-Men de inflação

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