O homem que nunca trabalhou, gastou tudo em festas, viagens e morreu pobre

A primeira vez que ouvi falar de Jorginho Guinle foi há uns 20 anos, lendo a matéria de uma revista Veja ou similar. O playboy, herdeiro do Copacabana Palace, o mais luxuoso e famoso hotel do Rio de Janeiro, gabava-se de nunca ter trabalhado, e dizia ter torrado a sua fortuna em festas, viagens, mulheres, comida, bebida, tudo do bom e do melhor que o dinheiro poderia comprar. Porém, tinha errado a conta: achava que viveria 75 anos, mas continuava saudável depois disso, quebrado, falido, sem um tostão furado no bolso (faleceu aos 88 anos, em 2004).

Lembro da reportagem ter causado uma sensação de repulsa – um sujeito assim era o oposto de tudo o que eu acreditava ser uma vida nobre, aquela de dedicação a um trabalho decente e honesto, de querer plantar sementes para outros colherem ao invés de apenas consumir todos os frutos para mim sem ter plantado nenhuma.

Ontem vi o filme “Jorginho Guinle – Só se vive uma vez”, no Prime Video. É um filme nacional, de 2019, sobre o playboy. Logo, me vem à cabeça a reportagem citada, e um pensamento do tipo “como é que o brasileiro dá valor a uma pessoa fútil assim”. Entretanto, movido pela curiosidade, assisti ao filme, eu mesmo dando valor a uma pessoa fútil assim.

A família Guinle era mais fabulosamente rica do que apenas o Copacaba Palace. O início foi com a fundação da Companhia Docas do Porto de Santos. O comércio internacional no início do século passado gerou uma fortuna imensa à família, que também investiu em uma série de outros negócios, envolvendo desde eletricidade até bancos.

Além da fortuna, havia também os contatos. O presidente Getúlio Vargas, entre outros, era frequente à mesa dos Guinle.

O filme logo foca nas desventuras de Jorge Eduardo Guinle, que segue em linha do que já foi descrito: festas, viagens caríssimas à Europa, romances com atrizes de Hollywood (Rita Hayworth, Jayne Mansfield, Marilyn Monroe, dentre uma lista grande), casamentos, joias caras, restaurantes luxuosos, champanhe da melhor qualidade.

Pertenciam à família Guinle, entre outros:

  • O Palácio das Laranjeiras, em Botafogo, residência oficial do governador do Rio de Janeiro
  • A Granja Comari, em Teresópolis, que hoje é utilizada pela Seleção Brasileira de Futebol
  • O Jóquei Clube do Rio de Janeiro
  • O hotel Copacabana Palace

A seguir o declínio gradual dos negócios da família, a morte do pai, a venda de ativos para continuar a manter o alto padrão anterior.

Lembro de uma história budista, onde havia 7 tipos de inferno. Não lembro de todos, mas para dar um exemplo, um dos infernos era o de existir alimento mas a pessoa passar fome eternamente, outro era dela ser despedaçada fisicamente todos os dias, etc. O sétimo inferno era o das vaidades infinitas: ter que estar sempre participando de festas cada vez mais luxuosas, estar preso num ciclo infindável de nunca ser rico, bonito, talentoso, bom o suficiente quanto os pares.

Nesse ponto, notei algo. Essas frases de efeito, de nunca ter trabalhado, de ser um playboy que errou na conta de quando morreria, o maior playboy do Brasil, etc, eram uma máscara. Chegou num ponto da vida em que ele interpretava um personagem de si mesmo. Talvez ele quisesse ser reconhecido pela versão ideal de playboy, talvez por sinceridade, não sei.

“Nenhum playboy de hoje pode ser meu sucessor. Todos têm um grave defeito: eles trabalham”

Pensando bem, eu acho extremamente mais honesto viver a vida de playboy e assumir isso, do que ser o hipócrita que posa de bom moço; do que fazer doações de mixaria só para suavizar a imagem; do que usar os chavões usuais de meio-ambiente e responsabilidade social apenas para a aparência. Jorginho Guinle continua não sendo um modelo a ser seguido, fique bem claro, só acho ele mais honesto do que outros ricaços na mesma situação.

Jorginho Guinle foi um epicurista de intensidade máxima.

“O segredo do bem viver é morrer sem um centavo no bolso. Mas errei o cálculo e o dinheiro acabou antes da hora”.

Obs. A trilha sonora do filme, com muito jazz e participação especial de Daniel Boaventura, é um espetáculo à parte.

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Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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