Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
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Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
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Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
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Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
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Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
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Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
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Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


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Três Desgraçados no Inferno grego

Íxion, Tântalo e Sísifo

O que chamamos hoje de “mitologia grega” foi, um dia, a religião politeísta dos gregos. Religiões costumam ter um céu: um paraíso, um Valhalla, um Olimpo. Mas não adianta nada ter um céu sem ter um inferno, seria como ter a cenoura sem ter o chicote.
Recontarei as histórias de três desgraçados no Inferno grego, suas terríveis penas, e, com isso, um pouco da moral grega.

 


 

1. Íxion

Íxion foi um rei que cometeu uma série de erros na vida, como atentar contra a vida de seu sogro. Entretanto, Zeus, o deus dos deuses, resolveu dar uma chance para a sua redenção, e para marcar isto, o convidou para um banquete no Olimpo, com muita pompa, fartura infindável, regado a litros de vinho da melhor qualidade.

 

Não deu outra, só podia dar errado. Depois de algumas garrafas, Íxion voltou seus olhos para a coisa mais interessante do jantar: Hera, a esposa de Zeus, a “primeira-dama” do Olimpo.

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Hera era também chamada de “mãe dos deuses”, por ela e Zeus terem dado origem a vários outros deuses. Mas não quer dizer que ela era velha, pelo menos fisicamente. Idade não fazia muito sentido, porque os deuses eram imortais, ou seja, Hera tinha toda a beleza de uma deusa grega, imortalmente conservando os seus trinta e poucos anos de idade.

Íxion começou a passar cantadas toscas e a incomodar Hera, fazendo carícias com os pés debaixo da mesa. Zeus, que não era bobo, sacou tudo, e, incomodado com a insolência do convidado, resolveu pregar uma peça. Durante a noite, Zeus criou um clone de Hera feito de nuvens e vento (não existia naquela época, mas vem à mente uma boneca inflável), e mandou a boneca para o quarto de Íxion. O pobre coitado, ao ver a boneca, enxergou Hera: deslumbrante, linda, nua, à sua disposição total. Ele não pensou duas vezes antes de mandar ver.

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Zeus condenou Íxion ao inferno, ou Hades. Sua punição foi ficar preso a uma roda de fogo, girando eternamente. Eternamente queimado, e eternamente tonto, por cobiçar a mulher do outro.

Interessante que a moral grega era assimétrica. Zeus podia cobiçar a mulher de quem quisesse. Fez isso inúmeras vezes, gerando diversos filhos fora do casamento. Inclusive, deu uma escapulida com a mulher de Íxion. Mas, fazer o mesmo com ele era pecado mortal, passível de punição eterna.
Outra coisa, Íxion não foi condenado pelos crimes na Terra, mas ao atentar contra os deuses. Era uma moral muito aristocrática: não sacaneie os poderosos!

 


 

2. Tântalo

Tântalo foi outro rei que cometeu uma série de crimes na Terra, mas tinha uma certa estima pelos deuses. E foi chamado para um banquete no Olimpo (dica: comporte-se em banquetes no Olimpo). Chegando lá, ele provou de duas delícias inacessíveis ao ser humano comum: a ambrósia e o néctar dos deuses. A ambrósia era tipo um manjar. E o néctar, um suco. Ambas provocavam uma sensação de enorme felicidade a quem os consumissem.

 

Tântalo tentou roubar a ambrósia e o néctar, para levar para a Terra e distribuir para os mortais. Não deu certo. Zeus descobriu, e o condenou ao Hades. Sua punição: a fome e a sede eternas. Ele foi para um lugar com inúmeras árvores frutíferas, porém todas as vezes em que ele tentava pegar, os frutos se recolhiam. Também tinha água doce à vontade, mas todas as vezes em que ele tentava beber, as águas fugiam dele.

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Íxion foi altruísta, ao querer dividir as maravilhas dos deuses. Mas, de novo, a moral aristocrática: o escravo não pode pegar a comida dos senhores para dividir com outros escravos.

Acho que a humanidade também está tão condenada quanto Tântalo. Em centenas de milhares de anos, sempre houve menos comida do que o necessário para viver, gerando fome. Quando finalmente surge uma época em que temos mais comida do que o que conseguimos comer, também temos que passar fome, dessa vez para não engordar!

Hoje em dia, o “néctar de frutas” é um suco com água e acúçar, se é que tem suco mesmo. Desvirtuaram o néctar.

 


 

3. Sísifo

Sísifo foi, disparado, o pior de todos. Era o mais astuto dos mortais da época, um James Bond dos mortais. Extremamente inteligente, e extremamente mau. Quebrou todas as regras do ser humano: matou convidados, engravidou mulheres por vingança, destruiu famílias.
Foi condenado ao Inferno, mas ele era tão esperto que sacaneou a morte não uma, mas duas vezes!

Na primeira vez, o Hades (deus do Inferno) veio buscá-lo. Ele seria algemado. Mas ele enganou Hades, e o algemou em seu lugar! Prendeu Hades num armário, e continou a viver normalmente, por um ano.

 

Porém, o mundo começou a ficar esquisito. Ninguém mais morria. Um soldado despedaçado no campo de batalha continuava a lutar. Hades, o deus da guerra, ficou puto com isso e foi reclamar com Hades. Chegando ao Inferno, descobriu que ele tinha sumido. Por fim, descobriram a trama de Sísifo e libertaram Hades. Sísifo foi direto ao Inferno.

Porém, Sísifo tinha uma carta na manga. Ele deu instruções para que a esposa jogasse o corpo dele no meio da cidade, sem fazer os cerimoniais fúnebres corretos.

Chegando ao Inferno, Sísifo apelou a Perséfone (esposa de Hades). Ele pediu permissão para voltar à Terra por três dias, a fim de fazer os preparativos cerimoniais e punir a esposa. Porém, era papo-furado de novo. Sísifo voltou à Terra e continuou a viver como se nada tivesse acontecido. Dessa vez, ele viveu por mais dezenas de anos, morrendo de velhice.

Finalmente, ele retornou ao Inferno. Sua punição era exemplar. Rolar uma enorme pedra morro acima, e quando ele finalmente concluísse sua missão, a pedra rolaria morro abaixo, obrigando o coitado a recomeçar tudo de novo. E Sísifo está até hoje neste ciclo infinito, de um trabalho enorme sem sentido.

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Talvez todos nós sejamos como Sísifo, condenados a trabalhar do começo ao fim, somente para descobrir que há mais trabalho a ser feito, e sem saber a causa final disto tudo. O grande escritor Albert Camus explora esta situação absurda em suas obras, como “O mito de Sísifo”, e “O Estrangeiro”.

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Uma boa fonte de histórias de mitologia é o livro “Tales of the greek heroes”, de Roger Lancelyn Green.

 

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http://www.greek-mythology-pantheon.com/hera-juno-greek-goddess-queen-of-the-gods/

http://www.greekmythology.biz/4.html

 

Como um cagão salvou o mundo da destruição total

O mundo é curioso. Às vezes, uma única pessoa aleatória tem o poder de mudar completamente o rumo da humanidade inteira.
 

Por exemplo, Hernan Cortés, o conquistador espanhol, tinha sido atacado por nativos, e estava sendo levado como prisioneiro. Cortés foi resgatado por um único soldado espanhol, que matou quatro índios. Não fosse isso, talvez a conquista das Américas demorasse 50 anos a mais, ou nem viesse a acontecer.

 

Outro exemplo. Se Pôncio Pilatos tivesse poupado Jesus, a história do cristianismo talvez fosse completamente diferente.

 

Venho contar hoje a história de uma pessoa, cujo maior ato de heroísmo foi tremer nas bases, se acovardar, e nada fazer. Isto salvou o mundo, sem ninguém ficar sabendo.

 


Bombas atômicas

 

 
Depois da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o mundo viu dois grandes vencedores: de um lado os Estados Unidos, do outro a União Soviética.

 

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Nenhuma das duas potências poderia se enfrentar diretamente, a custo de uma aniquilação mútua que não interessava a ninguém. Era como se duas pessoas tivessem uma arma apontada na cabeça da outra ao mesmo tempo.

 

A chamada “Guerra Fria” surgiu neste contexto: um embate de forças indireto, uma corrida armamentista, uma corrida espacial, a Guerra da Coreia nos anos 50 e na Guerra do Vietnã, no final dos anos 60.

 


 

O Não Herói Petrov

 

Neste contexto de segredos, rivalidade e tensão, em 26 de setembro de 1983 o tenente-coronel Stanislav Petrov estava de serviço. Era num bunker secreto numa floresta perto de Moscou. A sua missão, monitorar o sistema soviético de alerta de ataque nuclear.

 

Neste dia, ele ouviu um “bip-bip” de um sofisticado sistema de alarmes. O problema é que este “bip-bip” indicava um ataque nuclear norte-americano!

 

O sistema indicava um primeiro míssil. Depois, um segundo. No total, indicava que cinco mísseis balísticos americanos estavam a caminho!

 

As ordens eram claras. Informar imediatamente um superior no Kremlin.

 

Entretanto, não foi isso que Petrov fez. Ele tinha uma certa insegurança quanto à tecnologia de satélites, que era nova. Os mísseis terrestres não tinham captado nada. E, ele pensou, se fosse um ataque de verdade, não seria com 5 mísseis, seria com dezenas de mísseis, como se fosse o primeiro a apertar o gatilho esperando que não dê tempo do segundo reagir.

 

Mas também poderia ser um ataque real. Algum erro estratégico poderia fazer os EUA lançarem apenas 5 mísseis. Ou mais estariam por vir. Os radares de terra poderiam estar com problemas.

 

Se ele não reagisse, a União Soviética estaria perdendo minutos preciosos de contra-ataque. Se ele reagisse, possivelmente seria o fim do mundo. Petrov tremeu nas bases.

 

A equipe toda de Petrov era de soldados, apenas obedeciam ordens. Ele era o “mais antigo”, jargão militar que indica que era dele a responsabilidade de passar a informação adiante.

 

E o que Petrov fez?

 

Nada.

 

Esperou por intermináveis minutos por algum sinal mais concreto. Seu coração batia rapidamente. Ele suava muito. Um anjinho em sua cabeça dizia para ele esperar. Um demônio em sua cabeça dizia para ele fazer a ligação.

 

Uma meia hora depois, ele se convenceu de que era realmente um alarme falso. Reportou um erro no sistema de satélites. E bola para frente.

 

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A rigor, Petrov agiu errado. No meio militar, deve-se seguir ordens e passar o abacaxi para cima. Hierarquia e disciplina.

 

Fico me imaginando o que poderia acontecer se outro oficial estivesse de serviço. Um oficial com cabeça bem militar, sem nenhum conhecimento técnico. Quem conhece tecnologia sabe que sistemas novos sempre dão problemas, como identificar falsos positivos. Mas, para um leigo, os satélites eram coisas de gênios, dificilmente o leigo duvidaria de um sinal desses.

 

Este oficial seguiria o manual à risca, e ligaria dizendo: “estamos sob ataque nuclear”. As autoridades do Kremlin fariam um monte de perguntas, às quais ele responderia: “o moderníssimo sistema de satélites indicou com certeza 5 mísseis balísticos disparados da Costa Oeste dos EUA, a atingir Moscou em alguns minutos”.

 

Diante da pressão de responder em pouco tempo, e da firmeza da declaração do oficial, talvez este erro de cálculo se propagasse, fazendo os soviéticos dispararem mísseis atômicos em represália.

 

O relógio do fim do mundo relógio do fim do mundo marcaria meia-noite. Os EUA entrariam em DEFCON 0. Uma chuva de bombas varreria a Terra.
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Desenho da incrível série “Watchmen”

 

O mundo inteiro seria diferente. A humanidade regrediria alguns séculos. Conforme disse Albert Einstein:

 

“Não sei como vai ser a Terceira Guerra Mundial, mas a quarta será com paus e pedras.”

 

O Bhagavad Gita é um dos textos mais importantes da mitologia indiana. Dizem que Robert Oppenheimer, um dos cientistas chefes do Projeto Manhattan (que construiu a primeira bomba atômica), teria feito a seguinte citação do Bhagavad Gita, no primeiro teste da bomba no Novo México. Nada mais adequado para encerrar esta história:

 

“Agora me tornei a Morte, o destruidor de mundos”.

 


Links:

Aristóteles inventou a Internet e o iPhone?

Como alguém que viveu no século 3 a.C. pode influenciar a nossa vida, em plena era de iPhones, internet, computação na nuvem, inteligência artificial?

Em post anterior, comentei sobre a influência do confucionismo nos costumes, tradições e no comportamento dos japoneses, chineses e coreanos. Sem eles nem saberem, seguem muitas ideias oriundas de tempos atrás.

E no ocidente, há alguma mente poderosa que tenha influenciado fortemente a modelagem de nossos pensamentos?

Certamente, muitos nomes influenciaram fortemente a cultura ocidental. Mas um, em particular, é tema de estudos faz dois mil anos, e uma quantidade impressionante de ideias encontram raízes nele: o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.).

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Isto é tão profundo que nem sabemos desta influência, e tomamos algumas de nossas atitudes como óbvias.

Aristóteles é o meu ídolo. Ele era um grande polímata (do grego “aprendeu muito”). Escreveu sobre diversas áreas do conhecimento, com grande profundidade: lógica, política, ética, retórica. Fundou os ramos da zoologia e botânica, física e metafísica. Ele foi o Google do mundo ocidental por uns 2 mil anos.

 


Lógica
Aristóteles foi o primeiro a sistematizar o conceito de lógica. Separar os componentes, definir hipóteses e conclusões. Definir negações, contradições.

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A lógica dominante por vários milênios da história foi a lógica aristotélica. Demorou 2 mil anos até pensadores modernos preencherem as lacunas da lógica apresentada por Aristóteles.
Hoje em dia, naturalmente pensamos de forma lógica, parece até óbvio.
Mas não é óbvio. Há várias formas possíveis de se responder a uma pergunta. Seja uma pergunta ilustrativa como “Por que carregamos um guarda-chuva?”

A resposta poderia ser totalmente baseada em misticismo: Deus quis que chovesse, e que carregássemos guarda-chuva, portanto é assim e pronto.

Poderia ser baseada em tradição: sempre carregamos guarda-chuva porque nossos avós nos ensinaram assim. Não posso desrespeitar os ancestrais.

Poderia ser ditatorial: o grande líder quer assim, acate quem tiver juízo.

Poderia não ter resposta: carrego o guarda-chuva porque quero, e não sei nem quero saber sobre as razões disto.

Questionar e ser convencido após um argumento lógico está na essência do nosso modo de pensar. Imagine um tema polêmico, como a reforma na previdência. Ninguém no ocidente aceita uma resposta do tipo “Deus (Alá, Shiva, Tupã, etc) quis assim”, ou “sempre foi assim com nossos ancestrais”, “nosso querido líder King Jong Un quer assim”, ou “não sei a resposta”. Entretanto, em vários lugares do mundo respostas deste tipo são válidas e convincentes, no contexto apresentado.


Divisão, classificação, sistematização
Aristóteles era genial em pegar o conhecimento e dividir, classificar, dar nomes e analisar.
Aplicou este método em diversos temas, Ética, Felicidade, Política, Retórica, Dialética, Física, Filosofia, Poesia. O seu enfoque era sempre muito prático, realista, ao contrário do idealista Platão.

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As artes, para ele, não deveriam ser apenas algo bonito. Deveriam também ser úteis. Portanto, antecipou o conceito de design do Steve Jobs em mais de 2 mil anos.

 

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Categorizou e analisou minuciosamente os animais, criando a zoologia. Fez os mesmo com as plantas, criando a botânica. Inventou a taxonomia, método sistemático (e lógico) de classificação.

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Questionar, dividir, classificar e aplicar a lógica para chegar à conclusões, são a base primordial da ciência.


A Ciência 

O grande mérito de Aristóteles nem foi o que ele criou, mas o como criou. Ele foi o bisavô do método científico: tentar encontrar a explicação lógica dos fatos. Dividir, classificar, analisar as causas e efeitos.

Aplicando a ciência, o ocidente conseguiu progressos gigantescos, como a revolução das ideias da época do Iluminismo, e a Revolução Industrial. A partir daí, não paramos mais, chegando à revolução da Informação dos tempos atuais, aos iPhones, computação em nuvem, inteligência artificial.

 


Influente até demais

Um dos problemas que surgiram é que Aristóteles escreveu tanto sobre tudo, que ele passou a ser a referência máxima e a palavra final por milhares de anos, até a Idade Média.

Se o grande Aristóteles dizia que o Sol girava em torno da Terra, quem era esse tal de Galileu para dizer que era a Terra que girava em torno do Sol?

Lembro de um filme sombrio, o “Nome da Rosa” do autor Umberto Eco. Este se passa na Idade Média, e o enredo gira em torno de um livro de Aristóteles que estava envenenado…

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Felizmente, a Idade Média passou. Os ideais clássicos gregos originais (sem veneno) foram resgatados no Iluminismo, e a humanidade seguiu o seu curso.


Conclusão

Aristóteles foi o primeiro a escrever sobre vários temas. Ser o primeiro, sair do zero para o um, é muito mais difícil que partir do um e ir para dois. Criou a lógica e a ciência. E utilizamos este framework mental até hoje.

Não que Aristóteles tenha inventado a Internet e o iPhone. Mas se Aristóteles não tivesse existido, talvez toda a tecnologia que temos hoje estivesse a séculos de ser inventada ou talvez nunca surgisse… e ninguém estaria tendo o prazer de ler este texto 🙂 .
Este é o poder das ideias e dos ciclos virtuosos gerando outras boas ideias.

 


Links:

 

Aristóteles – Máquina de pensar

 

https://explorable.com/aristotles-zoologyhttp://www.oldandsold.com/articles31n/herbals-2.shtmlhttp://davesgarden.com/guides/articles/view/2051/

Por que um engenheiro brilhante trabalharia para a Coreia do Norte?

No último semestre do último ano da faculdade militar que fiz, um dos meus possíveis destinos era o Instituto de Aeronáutica e Espaço, na qual eu já tinha estagiado antes. É um instituto fantástico, onde eu teria acesso a quantidade gigantesca de material de pesquisa, juntamente com outras mentes de altíssimo nível. Por isso, eu queria muito ir ao IAE na época.

O detalhe era que o IAE desenvolve foguetes e lançadores. Bombas para explodir cidades e pessoas…

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Míssil Piranha, tecnologia do IAE

 

O final da história foi que o IAE não abriu vagas para o meu curso, então segui um caminho completamente diferente. Mas sempre fiquei com isso na cabeça. E se eu estivesse ajudando a fabricar armas de destruição em massa?

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O IAE é do bem. Faz veículos lançadores de satélite. E tem pessoas bastante íntegras em seu grupo. Mas, nem por isso deixa de pesquisar e desenvolver bombas.

 


 

Testes nucleares na Coreia do Norte

O famigerado estado da Coreia do Norte fez, nos últimos dias, um teste supostamente atômico no mar. É o quinto teste desde 2006, quando eles abandonaram tratativas de diálogo sobre o assunto.

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O problema é que cada teste vem performando melhor do que os anteriores, e está ficando perigoso. Este último teste atingiu um nível de destruição semelhante ao da bomba de Hiroshima, em 1945.

Uma das preocupações da comunidade internacional é a ogiva ser suficientemente pequena para caber num míssil, o que aumentaria consideravelmente o alcance dos norte-coreanos.

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Mas uma bomba não surge do nada, só porque um ditador louco quer. Para ter uma bomba, tem que ter pesquisadores brilhantes por trás disto. Engenheiros com alta capacidade de execução. Físicos que entendem as técnicas de enriquecimento radioativo. Empresas de precisão que produzem peças sofisticadas.

 

Esses físicos, engenheiros, matemáticos e administradores brilhantes têm plena consciência do que é o estado da Coreia do Norte? Se têm, mesmo assim dedicam seus esforços para ajudar?

 


 

Dilemas

Adolph Eichmann foi um dos piores nazistas da história. Era encarregado da “solução final do problema judaico na Alemanha nazista”.

 

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Adolph Eichmann

Entretanto, em seu julgamento em 1961, ele não demonstrava o menor ressentimento pela morte, direta ou indireta, de 5 milhões de judeus.

Em resumo, não me arrependo de nada.

Eu era apenas mais um cavalo puxando a carruagem, e não podia ir para a direita ou para a esquerda por causa da vontade do condutor da carroça.

Nós nos encontraremos novamente. Eu acredito em Deus. Obedeci às leis da guerra e fui fiel à minha bandeira.

A psicóloga Hannah Arendt testemunhou o julgamento. Descreve que Eichmann não parecia um monstro, mas uma pessoa comum, que a gente encontra tomando café na padaria.

Hannah citou “erros de percepção e julgamento” como possíveis causas de alguém aparentemente comum como Eichmann ser capaz de cometer tamanhas atrocidades.

 


 

Além do bem e do mal?

Obviamente, a minha opinião é que não somos cavalos sendo guiados. Temos vontade própria para contestar ordens. Podemos nos esconder em algum canto, fugir para outros países. Num caso extremo, podemos nos recusar a cumprir ordens – seríamos executados por isso, mas não cumpriríamos a mesma.

Mas, infelizmente, nada na vida é tão simples. Há vários graus de julgamento entre o bem e o mal, e talvez a nossa escolha seja o grau em que a nossa moral permite.

Eu trabalharia numa empresa que fabrica cigarros?

Seria advogado de alguém escandalosamente culpado?

Trabalharia numa empresa que recebe dinheiro público, normalmente mal empregado? (Só para constar, muitas das grandes empresas do Brasil recebem verba do BNDES)

Pagaria um guarda de trânsito que está solicitando um incentivo?

Deixaria de andar a 100 km/h quando o limite é 60 km/h e sei que não há radares?

Devolveria o troco recebido a mais por engano?

Deixaria de baixar filme pirateado? Música pirateada? Youtube com conteúdo pirateado? Software pirata?

 


 

Posfácio: Quem sou eu para criticar?

Após vários meses tentando criar a minha vaga no IAE, no final do ano de 2002 finalmente me chega a notícia de que o trabalho foi em vão: eu não iria ao IAE. Fiquei vários meses chateado, lamentando a bola que bateu na trave e foi para fora.

 

Agora, imagine que eu estivesse entrado no IAE, em 2003. E que mantivesse um desempenho fantástico, por 30 anos. E que em 2033, o Brasil tivesse um ditador comunista (algo que ainda pode acontecer, se depender do PT e partidos correlatos). E que este ditador comunista brasileiro, culpando os EUA de todos os males do mundo, resolvesse investir pesadamente num programa nuclear…

Será que eu jogaria fora 30 anos de conhecimento? Jogaria fora uma carreira inteira? Ou abracaria a causa, sendo mais uma engrenagem na grande máquina? Não sei, e graças ao rumo que a vida tomou, nunca terei que tomar tal decisão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma fábula de Esopo e uma história de Drucker

A fábula dos potes

Um pote de vaso e outro de cobre boiavam num rio.
 

Um dia, o pote de cobre foi puxado pela correnteza e bateu no vaso, quebrando uma pontinha deste.
 

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O vaso reclamou muito, e resolveu revidar. Desta vez, foi o vaso que bateu  no pote de cobre. Mas, novamente, foi o vaso que se quebrou, deixando o pote de cobre intacto.
 

O lado mais fraco sempre será prejudicado ante o confronto contra uma força desproporcionalmente superior.


 

O Monstro e o Cordeiro
 

O grande criador da Administração como ramo de estudo, Peter F. Drucker, viveu na época da Segunda Guerra Mundial e viu a ascenção dos nazistas ao poder. Ele conviveu com duas pessoas em particular: o Monstro e o Cordeiro.
 

Esta é uma das histórias de Drucker que mais me impressionaram.


 

O Monstro

Drucker chegou à Alemanha em 1927, trabalhando como trainee em um jornal. Em 1932, os nazistas estavam ganhando poder, e Drucker, preocupado, passou a procurar emprego em algum lugar fora da Alemanha.
 

Nesta época, ele escreveu dois artigos: um atacando o nazismo, e outro sobre a questão dos judeus na Alemanha. Com a ascenção dos nazistas, os artigos foram banidos e os exemplares queimados. Para Drucker, foi uma forma de “não se colocar em cima do muro”, assumir uma posição irreversível que o forçasse a sair do país imediatamente.
 

Hitler assumiu o poder em Janeiro de 1933. Algumas semanas depois, Drucker demitiu-se do jornal e estava se preparando para deixar o país. Nisto, Reinhold Hensch, um jornalista, veio falar com ele, para reconsiderar a decisão. Hensch era do partido nazista, e com a ascenção dos mesmos, ele passara a ser o homem no comando do jornal.
 

Hensch disse: “Te invejo por sair do país. Queria sair também, mas não posso. Isto tudo é insano. Estou com medo do que ouço nas reuniões do partido, sobre matar judeus e ir à guerra. Eu disse a mim mesmo que seria tudo retórica, e não dei bola. E ainda acho isso. Uma vez no poder, eles vão ver que não é bem assim, têm que mudar de ideia”.

 

Drucker: “Por que você não vai embora? Não tem nem trinta anos e não tem família que dependa de você. Tem um diploma em economia e não vai sofrer para conseguir um emprego”.

 

Hensch: “É fácil para você falar. Você conhece várias línguas, esteve no exterior, é esperto. Eu nunca saí de Frankfurt e não tenho conexões – meu pai é um artesão”.

 

Drucker, furioso: “Isto é bobagem. Quem se importa com o que seu pai é? Qual a diferença que isso faz?”

 

Hensch: “Você não entende, Drucker. Não sou inteligente o suficiente. Sou nada, sou ninguém. Mas quero poder e dinheiro para ser alguém. É por isso que me juntei aos nazistas anos atrás. E agora, eu vou ser alguém!”
 

Drucker não aceitou a oferta e saiu do país. Acabou indo para Londres e depois para os Estados Unidos. Doze anos depois, Drucker leu no New York Times:
 

Reinhold Hensch, um dos mais procurados criminosos de guerra nazistas, cometeu suicídio quando capturado por tropas americanas numa casa bombardeada em Frankfurt. Hensch era um dos chefes da SS nazista com o título de Tenente-General, comandou as infames tropas de aniquilação. Ele estava a cargo da campanha de extermínio de judeus e de “outros inimigos do estado nazista”. Ele era tão cruel, feroz e sanguinário que era conhecido como “O monstro” (Das Ungeheuer) mesmo entre os seus homens.


 

O Cordeiro
 
Em Abril de 1933, Drucker encontrou “o Cordeiro”. Paul Schaeffer estava fazendo as malas. Ele tinha aceitado a oferta do “Berliner Tageblatt” para ser o editor chefe.
Schaeffer sabia muito bem o que estava acontecendo na Alemanha. A motivação dele para aceitar a posição era outra.

 

Schaeffer: “É justamente por causa deste horror que eu tenho que aceitar o trabalho. Sou o único que pode prevenir o pior. Eles precisam de mim porque tenho contatos em Londres e New York. Vão me ouvir quando eu disser que atos assim vão trazer problemas para eles.”

 

Drucker: “Mas Paul, você não tem medo que os nazistas te manipulem, aproveitem o seu prestígio respeitável para chegar ao objetivo deles?”

 

Schaeffer, indignado: “Eu não nasci ontem. Se tentarem me manipular, levanto e vou embora. Eles não vão correr o risco”.

 

Quando Schaeffer chegou a Berlin ele foi recebido com muita fanfarra. Títulos, dinheiro e honrarias sem fim. E os nazistas imediatamente passaram a usá-lo. Faziam ele dizer que não era anti-semita e que tinha bons amigos judeus.
Todas as vezes em que havia um massacre, Schaeffer era enviado para dizer que era um “exceção pontual”, que não ocorreria novamente. Quando as notícias de rearmamento alemão surgiram, Schaeffer escreveu um artigo sobre o grande desejo de paz mundial de Hitler.
 

Depois de dois anos em Berlin, quando Schaeffer já não tinha tanto prestígio e não era mais útil, ele foi liquidado e desapareceu sem deixar rastros.

 


 

Para fechar, Drucker escreve. “Os homens tornam-se instrumento do mal quando, como Hensch, acham que podem dominá-lo com a sua ambição, e como Schaeffer, juntam-se ao mal para evitar mal pior. Sempre me perguntei qual dos dois causou mais prejuízos – o Monstro ou o Cordeiro – e qual o pior pecado, o da busca por poder de Hensch ou do orgulho e arrogância de  Schaeffer?”

 


 

Este foi um resumo bem simplificado do texto completo, que se encontra no “Adventures of a Bystander”.

 

Nota: o “Adventures of a Bystander” é uma raridade. Comprei num sebo, no centro de SP, há uns 15 anos atrás. Hoje, temos a internet. Mas a versão pirata na internet é de qualidade horrível, ilegível.

10.000 sapatos para o pé esquerdo e zero para o pé direito

Conta uma história que, na Rússia comunista, uma fábrica de sapatos tinha uma meta de produção, de digamos 10.000 sapatos por mês.

Um dia, uma das máquinas quebrou, e agora eles só conseguiam produzir o pé esquerdo do sapato. Eles não iriam conseguir consertar a máquina sem perder a meta, o que significava castigo para todos: o diretor seria executado, o gerente iria para trabalhos forçados na Sibéria, o supervisor seria rebaixado para um agricultor numa fazenda coletiva, etc…

Qual foi a solução adotada? Ora, eles eram cobrados pelo volume de sapatos produzidos. Deveriam produzir 10.000 sapatos, e foi o que fizeram: produziram 10.000 sapatos para o pé esquerdo, e zero sapatos para pé direito, e consequentemente zero pares úteis de sapatos.
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Esta história é só uma ilustração da Lei de Goodhart: “Quando uma métrica torna-se uma meta, esta deixa de ser uma boa métrica”.

Quando se olha somente para um número e tenta-se atingi-lo a qualquer custo, valendo jeitinhos cá e lá, o tiro tende a sair pela culatra. Afinal, a regra básica da Economia é: “Pessoas respondem a incentivos”.

Uma das formas de se evitar isto é não ter metas tão rígidas assim, deixar uma margem. E não ter metas focadas num único objetivo local.


Se a história acima é apenas ilustrativa, a história a seguir não é.

O “Grande Salto para a Frente”, ocorreu entre 1958 e 1961 na China comunista, sob o comando de Mao Tsé Tung, e foi um dos episódios mais tristes da história da humanidade, resultando em mais de 27 milhões de pessoas mortas por inanição.
Foram várias as iniciativas catastróficas dos comunistas, mas vamos focar em duas.


Produção de Aço
Uma das metas do “Grande Salto” era a de fazer a China ter a maior produção de aço do mundo. Enquanto a Inglaterra e os Estados Unidos tinham grandes usinas siderúrgicas para a produção de aço, a estratégia chinesa era de ter usinas de quintal, pequenas o suficiente para serem operadas por camponeses simples, em todo o território chinês. Mao Tsé implantou milhares dessas micro-usinas, e para cada uma delas havia uma meta rígida de produção de aço.

 

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Fornos de quintal

Para produzir aço, é necessário minério de ferro e carbono. Minério de ferro tem que ser extraído de minas. O carbono vem da queima de florestas. Mas minério de ferro não existe em qualquer lugar, o que obrigou os camponeses a utilizar sucata. E isto também causou uma devastação das florestas, utilizadas para a produção de aço. Com o passar dos meses, a sucata foi acabando, assim como as florestas. Mas não as metas. Devido a números irreais, inflados por burocratas, supostamente a política de produção de aço em micro-usinas estava dando muito certo, o que fez com que as metas fossem aumentando, mês após mês.

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Os camponeses, sem sucata para alimentar os fornos, passaram a usar qualquer produto que tivessem em casa e que fosse de metal: a enxada para cultivar o solo, maçanetas das portas, garfos e facas. Também sem florestas para queimar, passaram a queimar o que tinham: cadeiras, portas, mesas. Ou seja, passaram a destruir valor, a fim de cumprir a meta imposta pelo governo: transformo o meu ferro de passar roupa em aço, e lamentavelmente um aço de péssima qualidade, pela produção ser caseira.


Agricultura
Outra das metas era de revolucionar a agricultura. Isto seria conseguido com novas técnicas de plantio, muito esforço da população, e caça a pássaros que atrapalhem a agricultura. Esta nova técnica de plantio era a de plantar a semente bem fundo, a até 2 m de profundidade. O esforço da população era a de plantar, cuidar, e também a de ficar espantando os pássaros.

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Camponeses trabalhando à noite

Primeiro, que esta técnica de plantio não funcionou, pura e simplesmente. Entretanto, ninguém tinha a coragem de dizer isto a Mao Tsé, sob pena de perder a cabeça. O que os burocratas faziam era reportar números fictícios, dizer que a agricultura estava muito mais produtiva do que antes. E isto fazia com que a meta de produção agrícola subisse, mês após mês.

Houve uma grande redução no número de pássaros devido a esta caça desenfreada a eles. Mas os pássaros comem outros insetos, que acabaram proliferando desenfreadamente, atacando o pouco da produção agrícola que tinha sobrevivido à desastrosa técnica revolucionária de plantio.

Diante das altas metas de produção, é natural que os camponeses protestassem. Mas os oficiais comunistas eram rígidos, chegando a torturar e matar os que não conseguissem cumprir a cota de produção.

 

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O resultado disto foi uma das maiores fomes já vividas por um país. Uma devastação maior do que uma guerra provocaria.


Este é o exemplo mais triste que conheço da Lei de Goodhart. Portanto, critico muito quem olha só para números e metas, e cobra mais números e mais metas, e tudo isso sem sair do seu escritório.

Há inúmeras fontes na internet sobre o “Grande Salto para a Frente”: vídeos, textos, depoimentos, fotos. Vale a pena conhecer mais.

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Leap_Forward

Ikkyu e o Vaso que morreu

Ikkyu e o Vaso que morreu
Conta uma lenda antiga japonesa que havia um monge chamado Ikkyu, que era muito sábio.
Desde muito pequeno, ele já apresentava sinais de uma inteligência aguda.
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Quando Ikkyu era pequeno, ele quebrou um vaso de seu mestre budista. Era um vaso extremamente valioso, que o mestre muito prezava.
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Quando o mestre chegou ao templo, Ikkyu perguntou: “Mestre, é verdade que todos têm que morrer?”
Mestre: “Sim, este é o destino inevitável de todos”
Ikkyu: “Mesmo se a gente amar muito, não tem um jeito de não morrer?”
Mestre: “Mesmo a gente amando muito, um dia vai morrer”
Ikkyu: “Mestre, o seu vaso morreu!”

Moral da História: Há várias formas de contar uma notícia ruim…
Veja também: A verdade e o Conto

Buracos negros, o início do tempo e o cérebro aprisionado

Uma breve história do tempo

 

Existe um cérebro, aprisionado num corpo inválido, que sonhou com o começo do universo.


 

 

 

No início, houve uma explosão, um Big Bang, que deu origem ao espaço e ao tempo.

 

BigBang

O universo começou a se expandir e a resfriar. Do resfriamento da energia, começou a surgir a matéria. Da matéria, surgiram as estrelas e planetas.

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As estrelas têm um ciclo de vida. Elas começam pequenas, e vão crescendo até virarem gigantes vermelhas, onde é o seu ápice. Daí, começa a decadência, se transformando em anãs vermelhas, depois em anãs brancas, até morrerem agonizantes, se transformando em um buraco negro. A morte de uma estrela é tão poderosa que suga tudo o que estiver ao redor. Nem a luz escapa.

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Isto não é um delírio qualquer. É uma teoria extremamente respeitada, escrita por um dos maiores cientistas dos últimos tempos.

 

E o cérebro aprisionado num corpo inválido é o de Stephen Hawking.

 

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O universo numa casca de noz

 

Hawking tem problemas neuro-motores que paralisam todos os músculos de seu corpo. Ele necessita de assistência ambulatorial 24 horas por dia, para fazer absolutamente tudo: comer, tomar banho, trocar de roupa, deitar, trabalhar, tomar sol, sair.

 

Hawking não consegue falar. Para se comunicar, Hawking usa um computador que capta o movimento de sua bochecha. Um cursor vai se movendo no teclado. Ele escolhe a primeira letra, e vão surgindo opções para a palavra inteira, similar a quando escrevemos num smartphone. Depois de montar uma frase inteira, ele usa um sintetizador de voz para pronunciar o que está escrito. Pode demorar vários minutos para escrever uma frase completa.

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Hawking teve que desenvolver uma capacidade de processar mentalmente fórmulas matemáticas e visualizar equações, uma vez que não conseguia escrever. Talvez por isso, suas aulas têm tantas analogias com coisas do cotidiano:

 

“Estar próximo a um Buraco Negro é como estar nas Cataratas do Niágara em uma canoa. Você consegue fugir se remar rápido o suficiente, mas se estiver muito próximo, é o fim. À medida que vai se aproximando, a correnteza torna-se mais forte.”

 

Foi assim, escolhendo cada letra com a bochecha, e visualizando equações, que ele escreveu diversos livros sobre buracos negros, explicações sobre o Big Bang, teorias sobre o início dos tempos. Escreveu e foi co-autor de mais de 10 livros, diversas aulas, vários filmes e dezenas de artigos, indo do extremamente acadêmico ao extremamente didático.

 

O livro “Uma breve história do tempo” vendeu mais de 10 milhões de exemplares em 20 anos, introduzindo ao leitor leigo o mundo da cosmologia. É um dos marcos da divulgação científica.

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Epílogo

 

As pessoas (incluindo os autores deste texto) vivem reclamando que não têm tempo, energia, recursos para lutar por seus objetivos. Nesses momentos, Hawking vem à lembrança.

 

Stephen Hawking não consegue utilizar sua mãos nem seus pés. Não consegue falar, não tem vida própria. Mas, mesmo assim, conseguiu ser um dos maiores cientistas e um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos.

 

Hawking é a prova de que as limitações estão em nossa mente, e não no corpo.

 

 

 

 

Arnaldo Gunzi

 

Colaboração do meu amigo João Silva

 


 

 

 

Vídeos e links relacionados

 

http://www.hawking.org.uk/

 

https://www.youtube.com/watch?v=UErbwiJH1dI

 

 

 

 

 

 

 

A Teoria de Tudo

 

 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222221/trailer-19540179/

 

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Sérgio Moro prender Lula? Agradeça à Revolução Francesa.

É março de 2016, e sem dúvida alguma estamos em uma época turbulenta. A presidente da República nomeando um ex-presidente como ministro, foro privilegiado, o corajoso juiz Sérgio Moro investigando figurões graúdos da política, etc.

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Juiz Sérgio Moro

 

“Mas, se o presidente manda no Brasil, porque ele não manda parar a investigação?” – Já ouvi esta pergunta mais de uma vez, então vale a pena explorar a questão.

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“Pixuleco”

 

Um juiz pode sim investigar o poder executivo e prender um ex-presidente, por causa da Teoria da Separação dos Poderes.

 


 

Teoria da Separação de Poderes

Um ser humano com poder absoluto pode cometer abuso de autoridade. Se alguém com poder absoluto cometer um crime, ele pode mudar a lei para que o crime não seja mais crime, e absolver a si mesmo pelo crime não cometido. Ele nunca estará errado. Estará sempre dentro da lei. Em ditaduras absolutistas acontece exatamente isto – o ditador está além do bem e do mal. Exemplo era o Iraque de Saddam Hussein. O filho de Saddam, Uday, era conhecido pelo extremo desprezo pela vida humana. Poderia executar alguém simplesmente por não gostar dele. Leia a nota de rodapé.

Partindo do pressuposto que o poder absoluto é ruim, o modelo tripartite divide os poderes em executivo, legislativo e judiciário.

  • O executivo administra o país;
  • O legislativo cria as leis;
  • O judiciário julga.

Note que quem cria leis não julga, quem julga não cria, quem administra não cria nem julga, e os que criam e julgam não administram – é um equilíbrio de poderes.

O presidente não manda no Brasil, ele é apenas um executivo, um CEO. O presidente é um administrador eleito para gerenciar o país, que tem poderes para fazer muita coisa, mas não tudo.

A separação de poderes tem raízes em Platão, Aristóteles, Locke e dezenas de outros grandes pensadores. Mas um divisor de águas foi o modelo tripartite do Barão de Montesquieu, adotado após a Revolução Francesa.

 

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A França teve séculos de reis com poderes absolutos, tendo o seu ápice em Luis XIV, o Rei -Sol, que proferiu as famosas palavras: “O Estado sou Eu”.

Décadas depois, a França estava quebrada financeiramente, o que ajudou a iniciar a Revolução. Foi um período inspirado por ideias liberais, foi o precursor do declínio das monarquias e substituição por repúblicas, estas pautadas pela Independência de Poderes. A grande maioria das repúblicas atuais tem como base o modelo de três poderes de Montesquieu.

A Revolução Francesa foi uma época extremamente complicada, com guerras e revoluções atrás de revoluções, até chegar em Napoleão. Mas a Revolução deixou legados importantes, como o conceito de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. E, mais de 200 anos depois,  as ideias de Montesquieu permitem que a República do Brasil outorgue poderes a um juiz federal para respaldar uma investigação séria, competente contra os mais altos cargos do poder executivo do país.

Obrigado a Montesquieu, às pessoas que deram a vida na Revolução Francesa, Locke, e a todos os outros que contribuíram para que os poderes fossem independentes.

https://en.wikipedia.org/wiki/French_Revolution

 

Mapa do site

https://ideiasesquecidas.com/mapa-do-site/


 

Nota de rodapé sobre Uday Russein

Fonte: site Wait but Why

· Quando Uday era jovem, Saddam levava ele o seu irmão Qusay para assistir prisioneiros serem torturados ou executados. Uday em particular saboreava a experiência

· Imagine o garoto desagradável, mau, super rico no ensino médio, mas agora imagine que ele tem o poder de seus guarda costas para bater em você até virar uma massa de sangue, ou matar você, ou matar você e toda a sua família, num estalar de dedos.

· Na faculdade, Uday de tempos em tempos via uma garota bonita, falava para seus guarda-costas trazerem ela para o seu quarto, onde a estuprava e às vezes falava para os guarda-costas a matarem.

· Ele às vezes ia para um clube e se ele visse uma garota atrativa dançando com um homem, e isto o causasse ciúmes, ele mandava matar o homem
· Ele ficava de pé na varanda com binóculos, e quanto encontrava uma moça bonita ele mandava seus homens pegarem para ele.

· Ele era obcecado por tortura e amava experimentar diferentes formas
· Uma vez ele matou um homem que não o saudou

· Até Saddam estava assustado por Uday ser tão cruel e negligente, tanto que ele apontou o irmão mais novo Qusay para ser seu sucessor no lugar de Uday

· Isto fez Uday incrivelmente ciumento, e ele fez coisas como pegar uma garota que ele ouviu dizer que dormira com Qusay, trazer a ele, violenta-la e marca-la permanentemente com um U

· Para dar a ele alguma coisa para fazer, Saddam apontou Uday como o chefe do comitê Olímpico. Uday fez atletas que performavam mal serem torturados, às vezes trancando eles em arcas de ferro por três dias

Novo avatar e página do facebook

Informo que estou criando uma página no facebook, como um teste, em

https://www.facebook.com/Forgotten-Lore-537215646451974/

Acredito que muitas pessoas prefiram este meio de comunicação.

 


 

A Imagem do Avatar é uma homenagem ao camponês sábio Ninomyia Kinjiro.

 

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É a história de um pobre menino camponês, que trabalhava o dia todo, mas sempre usava todos os momentos possíveis para estudar – por isso a imagem de um menino carregando lenha e lendo um livro. A noite, pegava vagalumes para servir de luz para a leitura.

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Quando o menino cresceu, trabalhava muito além do normal e viajava o Japão inteiro, compartilhando seu conhecimento com senhores feudais e camponeses, aumentando a produtividade das plantações e contribuindo para a melhoria econômica de vilas inteiras.

 

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Há diversas estátuas dele em escolas de primeiro grau do Japão, como um símbolo de parcimônia, esforço e doação.

 

O índice X-Men de Inflação

O Dragão dos anos 80

Este post é para quem só conhece o Real como moeda brasileira.

Quem tem menos de 30 anos hoje não conhece na pele as garras do dragão dos anos 80, a Hiperinflação. Foi uma época de inúmeros planos econômicos, troca de moeda constante, perda de valor monetário e descrença no futuro, que só mudou com o Plano Real de Fernando Henrique Cardoso.

Eu também era muito jovem nos anos 80, mas senti alguns dos efeitos nefastos de uma hiperinflação. Não chega nem perto do que sentiram as pessoas da população economicamente ativa da época, mas mesmo assim senti.

Esta história começa em 1986. José Sarney era o primeiro presidente civil do Brasil em muitas décadas.


Plano Cruzado

Em fev 1986, Sarney anunciou o Plano Cruzado. As medidas econômicas foram congelamento de preços, troca de moeda de Cruzeiro para Cruzado, cortando 3 zeros.

 

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X-Men 1 – nov 88. Cz$ 260,00

Em nov 88, a épica revista X-Men número 1 foi lançada pela Editora Abril, a um preço de capa de Cz$ 260,00 (Cruzados).

As histórias desta época eram do fantástico roteirista Chris Claremont, e eram um mix de aventura, drama, suspense. Mas o que quero trazer para o post são somente as capas. Na verdade, somente os preços da capa. Esta era em formatinho padronizado com 80 páginas e tiragem mensal, o que faz com que a revista tenha praticamente o mesmo valor anos depois, sendo a variação de preços somente devido à inflação.

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X-Men 2 – dez 88: Cz$ 350,00

A revista X-Men n.2 já custava Cz$ 350, e no outro mês, Cz$ 450. Um aumento de 200 cruzados (80%) em 2 meses!

E, 1988, 0 plano Cruzado (e o Cruzado II) já tinha afundado completamente. O congelamento de preços não funcionou (nunca funciona), os gastos públicos não diminuíram. Foi como dar um analgésico sem tratar a causa da doença.

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X-Men 3 – jan 89: Cz$ 450,00. Brasil e a Inflação, até que a morte os separe!
Lembro-me de que neste época todo mundo era “Fiscal do Sarney”: responsável por fiscalizar se algum malvado comerciante capitalista estava aumentando preços congelados.fiscalSarney.jpg

Congelamento de preços sempre causou e sempre causará desabastecimento de produtos. Desabastecimento sempre gera um mercado negro. Imagine uma dona de casa que faz bolos para vender. Se ela gastar Cz$ 80 para fazer o bolo e coloca uma margem de Cz$ 20, o produto final terá um preço de Cz$ 100. Mas, se o bolo tiver o preço congelado a Cz$ 50, a dona vai tomar prejuízo se vender o bolo. Ela vai preferir não vender o bolo, ou não fazer o bolo – vale mais a pena comer o bolo do que trabalhar para fazer e vender o mesmo. Ou ela pode vender panquecas. Ou vender o bolo a Cz$ 100 no mercado negro, para quem realmente estiver precisando do bolo ao preço justo deste.

 

Mercado Negro não é um lugar secreto de piratas, longe da polícia. Mercado negro é qualquer lugar onde o comprador e vendedor simplesmente ignoram o congelamento e acordam o preço. Ou seja, qualquer lugar com quaisquer pessoas.

Caso descrito pelo livro “Saga Brasileira”, da jornalista Miriam Leitão. Um efeito bizarro do congelamento de preços, foi que o carro usado (sem tabela de congelamento) passou a ser mais caro do que o carro novo (preço tabelado). Mas é óbvio que ninguém conseguia comprar o carro novo na concessionária, só via mercado negro.

As três edições de X-Men em Cruzados geram o gráfico a seguir. Anualizando o índice X-Men de inflação desses dois meses, dá uma inflação de 3.300% ao ano!!

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Plano Verão

 

O Plano Verão veio em jan 1989. Mudança de Cruzado para Cruzado Novo, cortando 3 zeros, congelamento de preços (de novo, esse pessoal não aprende).

A revista X-Men n. 4 veio com o preço de capa de NCz$ 0,45  (Cruzado Novo), o que reflete exatamente o corte de três zeros do preço em Cruzados (450 Cz$).

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X-Men 4- fev 89: NCz$ 0,45. O Brasil também viveu uma jornada de horror!
O preço de NCz$ 0,45 se manteve pelos próximos dois meses. E aí, o dragão adormecido voltou, e com força total. NCz$ 0,58, NCz$ 0,75, NCz$ 1,00.

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X-Men 8 – jun 89: NCz$ 0,75
Em janeiro de 1990, a revista X-Men n. 15 já custava NCz$ 17. No mês seguinte, NCz$ 30, e no posterior, NCz$ 53. Um aumento de 8 mil % em um ano!

 

Sarney, quando questionado sobre o que poderia fazer para acabar com a inflação, disse: “Nada. É tudo culpa da crise internacional!”. Infelizmente, mais de 20 anos depois, uma certa presidenta do Brasil disse o mesmo.

 

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X-Men 17 – mar 90:  NCr$ 53. Fim da linha para o Futuro do Brasil.
Para dar um paralelo de como era a situação, imagine uma nota de 100 reais. Hoje, 100 reais compra um monte de coisas. Mas, daqui a um ano, a nota de 100 reais tem um poder de compra equivalente a 1 (um) real, e o governo tem que inventar notas de 500 reais, 1000 reais, etc. Depois que um pãozinho passa a custar 1000 reais, o governo corta três zeros, inventa uma moeda chamada “real novo” ou “real verdadeiro”, e o pãozinho passa a custar 1 real novo.

 

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1000 Cruzados passaram a valer 1 Cruzado Novo

 

Lembro-me que nesta época ninguém carregava moedas no bolso. A gente recebia um troco em moedas, e dois meses depois a moeda não valia mais nada. Era mais válido receber o troco em balas – pelo menos o açúcar da bala não evaporava com o tempo. Mas como o dono da padaria não era bobo, ele fazia questão de empurrar as moedas sem valor como troco.

 

Lembro-me também que fui ao Japão com os meus pais. E uma coisa que me chamou a atenção era a de que eles utilizavam moedas. Tudo quanto era máquina de refrigerante aceitava moedas, a moeda de 100 ienes. Hoje, mais de 20 anos depois, as moedas de 100 ienes continuam existindo no Japão.

 

As edições de X-Men em Cruzados Novos geram o gráfico a seguir, começando em NCr$ 0,45 e terminando em NCr$ 53. Anualizando o índice X-Men de inflação deste período, dá uma inflação de 8.000% ao ano!! Note que o gráfico é exponencial. Se nada fosse feito, o dragão só iria ficar cada vez mais forte.

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Plano Collor

Lembro-me bem do primeiro presidente eleito democraticamente pelo brasileiro após décadas. Lembro-me de que ele era a esperança de salvação deste povo sofrido. Lembro-me da cobertura das revistas e jornais da época, e de uma ministra chamada Zélia Cardoso de Melo.

Logo nos primeiros dias de governo, era lançado o Plano Collor 1, em março de 1990. A moeda passou de Cruzado Novo para Cruzeiro, sem corte de zeros. A primeira revista deste novo governo era a X-Men 18, com preço de Cr$ 30,00.

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X-Men 18 – abr 90: Cr$ 30,00. Amargo destino do brasileiro sob Collor.
Ocorreu nesta época uma dos experimentos econômicos mais bizarros da história: o confisco da poupança. Imagine todo o seu dinheiro guardado no banco. E imagine que agora ele não é mais seu. Aliás, é seu, mas você não pode sacá-lo, nem usá-lo para nada, e este estará sujeito à uma taxa de correção arbitrária, obviamente abaixo da inflação. Ou seja, um confisco.

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X-Men 19 – mai 90: Cr$ 30,00
A lógica é mais ou menos assim: o excesso de dinheiro em circulação causa inflação. Então, vamos tirar o dinheiro de circulação na marra, isto vai acabar com a inflação e os brasileiros vão ficar felizes.O Plano Collor 1 foi radical. Destruiu inúmeros sonhos, quebrou centenas de empresas. Tinha muita gente com dinheiro na poupança para comprar um apartamento, e que estava esperando Collor assumir para ver se os preços baixavam – ficaram sem apartamento e sem dinheiro. Foi uma época de desesperança, depressão, suicídios e ataques cardíacos. Não é nada agradável ver todo o dinheiro de uma vida confiscado. Todo mundo conhecia alguém que fora muito afetado pelo plano de Collor e Zélia.

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X-Men 20 – jun 90: Cr$ 40,00

Tirar dinheiro de circulação na marra causou uma recessão, o Brasil diminui 4% no ano. Pequenos empresários que não tinham capital de giro quebraram, porque não recebiam e tinham que pagar os salários em dia.

O plano foi tão desastrado que levou, indiretamente, à queda de Collor. O impeachment foi por uma denúncia qualquer de corrupção, mas a indignação popular foi causada mesmo pelo pior plano econômico de todos os tempos.

E o pior é que a inflação não morreu. Só deu uma acalmada no começo.

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X-Men n.30 – abr 91: Cr$ 180,00

 

Em abril de 1990, a revista X-Men n. 18 custava Cr$ 30,00. Em julho de 90, já custava Cr$ 60,00. Em dez /90, já custava Cr$ 180,00.

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X-Men n. 33 – jul 91: Cr$ 330,00. Vingança da inflação, que voltava com tudo
O governo Collor foi liberando o confisco da poupança para os setores amigos. O governo continuava a gastar como sempre. Como em todos os planos econômicos, quem pagou o pato foram os mais fracos, que não conseguiam se proteger e tiveram o dinheiro de uma vida toda preso no banco. Ao Collor I sucedeu-se o Plano Collor II, com congelamento de preços (de novo?!?!) e outras medidas que nada resolveram.

 

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X-Men n. 35 – set 91: Cr$ 430,00.O mistério da Fênix da inflação, que retorna das cinzas
Em ago/1992, a revista custava Cr$ 5.200,00, 172 vezes o valor do início do plano.

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X-Men n. 46 – ago 92: Cr$ 5.200,00. Não tinha melhor título do que Inferno!
Nesta época, eu tinha uma estratégia. Esperava dois meses para comprar a revista, com o preço corroído pela inflação. Em set/92, a editora abril cansou de remarcar os preços, e adotou uma tabela. A revista custava o valor B7 da tabela. E o jornaleiro só tinha que trocar a tabela, todos os dias, arruinando a minha estratégia de comprar revistas de meses passados.

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X-Men n. 50 – dez 92. A capa não tinha mais preço. A inflação era tão alta que desistiram de remarcar o preço.
Collor prometeu dar um tiro na inflação. Acabou dando um tiro nos brasileiros, e o dragão da inflação continuou firme e forte. Note o comportamento exponencial do gráfico do índice X-Men. Neste período, a inflação anualizada foi de 800%!

O comportamento exponencial do gráfico nem permite que se veja os números. Disponibilizei neste link os dados tabulados da série histórica da revista dos X-Men.

 

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A minha família é de ascendência japonesa. Nesta época, diversos familiares emigraram para o Japão – tornando-se dekasseguis. 80 anos depois dos japoneses emigrarem para o Brasil, a terra prometida, era a vez de seus filhos e netos retornarem para o Japão.
A insegurança econômica (não adianta acumular cruzados, pois desvalorizarão) e a insegurança jurídica (não adianta colocar no banco, pois o o governo confiscará) geraram um Brasil sem futuro. Quanto mais o futuro é imprevisível, mais gasto tudo no presente.
Se não posso guardar, tenho que consumir tudo o quanto antes. Era comum o pessoal ganhar o salário e fazer a compra do mês no mercado, estocando commodities. E o escambo (troca de mercadorias sem troca de dinheiro) tinha voltado, já que a moeda tinha cada vez menos valor.
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Espero nunca ver um pãozinho custar uma nota de 100 mil reais

Plano Real
Em fev 1994, depois do fracasso de três ministros da fazenda, Itamar Franco chamou Fernando Henrique Cardoso ao ministério da Fazenda. Ele montou uma equipe de economistas predominantemente da PUC-RJ, e adotou uma série de medidas consistentes para atacar a causa do problema da inflação.
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X-Men n. 71 – set 94: R$ 1,45

Não foi um caminho fácil, é claro. Foi necessário abrir a economia, quebrar monopólios, permitir a competição. Modernizar a estrutura produtiva, gastar somente o que se arrecada (Lei de Responsabilidade Fiscal). Muito estudo, planejamento, coragem para encarar políticos irresponsáveis, mas eis que agora o Brasil voltava aos eixos!

O mais importante de tudo: o Brasil voltou a ter futuro. Era possível planejar. Grandes investimentos poderiam ser feitos com segurança.

A história do Plano Real pode ser acompanhada no livro Saga Brasileira, da jornalista Míriam Leitão.Um efeito disto: a editora Abril voltou a publicar o valor da revista na capa.
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X-Men n. 85 -nov 95: R$ 1,90
A inflação é o mais cruel dos impostos. É a forma do governo te taxar sem colocar uma arma na sua cabeça. O problema é que são os mais fracos são os mais prejudicados. É como uma corrida em que quem aumenta primeiro sai ganhando. Quem não tem poder de barganha para negociar  aumentos fica para trás, e vai comprar tudo com preço de hoje mais caro, a partir de um salário nominal do mês retrasado.
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X-Men n. 95 – set 96: R$ 2,20
O Brasil colheu os frutos de uma moeda forte por 20 anos, o que permitiu um avanço inimaginável na economia, política, e na sociedade. Não mais troca de moedas. Não mais corte de três zeros. Não mais troca de ministro da Economia a cada meio ano, como um time que só perde troca de técnico.

 

Mais de 90 meses depois, em março de 2000, a revista X-Men n. 137 custava R$ 2,50. Para quem esperava que ela custasse 250.000 reais, aquilo era um sonho! As pessoas voltaram a usar porta-moedas, o dono da padaria voltou a empurrar balas como troco.

 

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X-Men n. 137, mar 2000: R$ 2,50. O resgate do Brasil.
Note como o índice X-Men de inflação é muito melhor para o período pós Plano Real. Em seis anos, o aumento do preço de capa foi de apenas 1 real. O comportamento exponencial já não existia mais. A moeda de 1 real existe até hoje, em 2016.

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A revista dos X-Men em formatinho acabou uns meses depois, passando a ter um outro formato, outro número de páginas, etc. Mas eu não colecionava mais as revistas nesta época.

 


 

Conclusão – a Fênix dos anos 2010

Quem viveu o período de hiperinflação provavelmente entrou com zero e saiu com zero. Apenas sobreviveu, não acumulou patrimônio.

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A Fênix ressurge das próprias cinzas
Quem sabe, se os rumos políticos e econômicos fossem menos desastrosos no passado, hoje estivéssemos num nível de desenvolvimento como o da Coreia do Sul, por exemplo.

Ousei sonhar com um Brasil de primeiro mundo, após o Plano Real. Parecia que o Brasil começava a decolar. Mas o Dragão da inflação, do desgoverno, das políticas econômicas demagogas e ineficazes, voltou das cinzas como uma Fênix, ameaçando engolir o futuro.

 

O que é possível fazer, neste contexto? Pelo menos a minha parte: trabalhar, criar novas soluções criativas para as necessidades atuais, tornar-se cada vez mais produtivo dentre as dificuldades. É para isto que trabalho, e é para isto que este espaço existe.

Arnaldo Gunzi
Fev 2016

 


 

Leitura recomendada.

Saga Brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda. Míriam Leitão.

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http://www.livrariacultura.com.br/p/saga-brasileira-22491015

 


 

Anexos:

Disponibilizei neste link os dados tabulados da série histórica da revista dos X-Men.

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