A previsão do tempo que salvou o Dia-D

Resumo: a previsão do tempo possibilitou o desembarque aliado na Normandia, no Dia D – o evento que efetivamente virou o jogo na Segunda Grande Guerra. E se a previsão estivesse errada?

A não-linearidade do clima

A história, tanto quanto a vida, é marcada por diversos eventos não-lineares, que poderiam nunca ter ocorrido, e que poderiam ter mudado o mundo da forma como o conhecemos.

Por melhor que seja o planejamento, há eventos fortuitos que fogem completamente ao domínio de conhecimento de qualquer pessoa. Dentre todos os elementos desconhecidos, um dos mais importantes é o clima. Ele pode afetar desde o passeio no fim de semana, até o desembarque de 150 mil soldados e o destino da humanidade, no Dia D.

A importância do clima é tão grande, e conhecida desde tão antigamente quanto a Arte da Guerra, de Sun Tzu:

A arte da guerra é governada por cinco fatores:
– a Lei Moral
– o Céu
– a Terra
– o Comandante
– Método e disciplina

Onde o Céu significa a noite e o dia, o frio e o calor, o tempo e as estações.

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A fim de avaliar as chances de cada lado, Sun Tzu pergunta: Com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Zhuge Liang Kongming

Embora Sun Tzu seja muito famoso no ocidente, há outro estrategista chinês que o coloca no chinelo: Zhuge Liang Kongming, da época dos Três Reinos.

Conta-se que ele tinha um conhecimento profundo do clima e da topografia.

Numa das guerras contra um reino vizinho, ele ficou meses articulando a posição de suas tropas e navios de guerra, a fim de encurralar o inimigo e utilizar fogo para destruir de vez a oposição.

O comandante inimigo nem deu bola para o posicionamento de Kongming, porque todos sabiam, desde sempre, que o vento soprava contra o exército do nosso estrategista. Se Kongming quisesse utilizar o fogo, com certeza ele mesmo se queimaria.

Depois de muita preparação, Kongming mobilizou suas tropas e as de seus aliados, para o ataque final. Toda a sua estratégia dependia do fogo – e do vento. Mas o vento soprava contra ele na véspera do ataque. Os aliados queriam desistir do ataque, mas Kongming insistiu para que fossem em frente – e prometeu a sua cabeça, caso desse tudo errado.

Pois bem, exatamente no dia do ataque, o vento virou de direção, agora soprava contra o inimigo. Kongming e aliados utilizaram a fúria do fogo, devastaram o inimigo e saíram vitoriosos.

Diz a lenda que o vento não virou por acaso. Kongming tinha lido em tomos antigos de conhecimento esquecido que o vento, no local do ataque, virava de direção um dia por ano, exatamente no dia do ataque programado!

Se a lenda de Zhuge Liang parece muito fantasiosa, vejamos o que ocorreu no desembarque na Normandia.


O Dia-D

O Dia-D é o dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocorrido em 06 de junho de 1944. É um dos eventos-chave da Segunda Grande Guerra. É a maior operação anfíbia da história da humanidade, e uma das operações mais complexas da mesma.

Resumindo uma longa história. Em meados de 1944, a Alemanha de Hitler sofreu derrotas devastadoras em seu fronte russo e africano. Os aliados italianos sofriam derrota após derrota. A expansão nazista tinha chegado ao fim, a partir de agora, eles estavam na defensiva – o que não os tornava menos perigosos.

Entretanto, todos esses teatros de guerra eram muito distantes do núcleo do poder alemão. Era necessário atacar realmente o centro do poder por outra frente, propiciando um ataque direto, encurralando os alemães.

Em 1944, todos sabiam que haveria um desembarque anglo-americano na Europa. Só não sabiam onde, e nem quando. Sobre a questão do “onde”, as duas opções eram Normandia ou Calais – locais com amplas praias para espalhar as tropas e não serem alvo fácil, próximos a portos importantes para garantir o ressuprimento, mares calmos o suficiente para facilitar o desembarque.

A Normandia foi o local escolhido, após longas análises e muita guerra de informação e desinformação, com direito a tanques de papelão, mensagens falsas, tropas fake, etc…

Sobre o “quando”: era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens – imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

O Gen. Eisenhower, responsável pela Operação Overlord, fez longos meses de planejamento, imaginando cada detalhe da invasão, cada passo a ser tomado. Ele definiu junto aos seus pares que a invasão seria no dia 5 de junho de 1944. Mas havia algo impossível de prever: o clima, o mesmo clima citado por Sun Tzu, o mesmo clima que virou o jogo para Kongming.

A mobilização para o Dia-D foi monstruosa. Mais de 2000 navios de guerra, cerca de 150 mil soldados, tropas americanas, canadenses, britânicas – uma logística de outro mundo.

Entretanto, o tempo literalmente fechou para os aliados. Uma tempestade se aproximava – ventos fortes, pouca visibilidade. Eisenhower mandou as tropas esperarem. E agora, a responsabilidade do sucesso da invasão caía sobre os ombros de um homem, o Capitão James Stagg, o meteorologista-chefe dos americanos. E a resposta dele era que era impossível fazer a previsão, naquelas condições – teria que esperar.

O que fazer? Cancelar o Dia D?

A próxima janela de tempo com todas as características necessárias só se daria dali a duas semanas. Mas desmobilizar e mobilizar novamente todas as tropas seria um completo pesadelo logístico. Além disso, seria impossível guardar segredo após a movimentação de tanta gente, eles perderiam o elemento surpresa e a guerra de desinformação. E pior, se chovesse dali a duas semanas, talvez a próxima oportunidade tivesse que esperar mais vários meses. Daria tempo suficiente para a Alemanha se defender da Rússia, da ofensiva pelo Sul e de todas as ameaças.

No dia seguinte, o meteorologista Stagg bateu no peito, e garantiu que a tempestade tinha dado uma trégua. Haveria uma brecha de pouquíssimo tempo – um dia, no máximo dois dias. Vários dos comandantes acharam muito arriscado, mesmo assim, e pediram para adiar o desembarque na Normandia. Mas Eisenhower apostou alto, colocou todas as fichas em sua versão de Kongming, e ordenou o ataque para o dia 06 de junho de 1944.

A partir daí, é história: o Dia D foi uma das operações mais bem sucedidas da humanidade, e selou o destino da Alemanha de Hitler.

Outro fato que ajudou no sucesso da operação. Os nazistas estavam muito tranquilos de que não haveria invasão alguma, porque a previsão do tempo apontava chuva forte. Mesmo após o desembarque, eles custaram a acreditar que esta fosse a operação real, e não uma isca para confundí-los.

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O que aconteceria se o tempo fosse contra?

Imagine se o meteorologista Stagg estivesse errado, e uma tempestade varresse a costa francesa?

Os aliados perderiam todo o apoio aéreo – a navegação aérea era totalmente visual naquela época. A navegação seria terrivelmente prejudicada. Mesmo se as tropas desembarcassem, a mobilidade dos equipamentos seria bastante prejudicada naquele momento crucial da invasão. Certamente, as perdas seriam estrondosamente maiores, senão catastróficas.

Não seria a primeira vez na história que uma tempestade acaba com uma invasão.
Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China no séc. XIII. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. Diz a lenda que uma tempestade destruiu os seus navios. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico sino-mongol.

Kublai dobrou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17000 marinheiros, 25000 soldados coreanos, mongóis e chineses… e, novamente, uma tempestade protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Os ventos que protegeram o Japão foram os ventos (kaze) dos deuses (kami), dando origem ao termo “kamikaze”.

Citando novamente Sun Tzu: com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Epílogo

Não por acaso, o mais poderoso deus da mitologia grega, Zeus, é o deus da chuva e do trovão.

Também não por acaso, os mais poderosos deuses da mitologia nórdica, Odin, e seu filho Thor, também são deuses do trovão.

Antigamente, os guerreiros oravam aos deuses para conseguir as vantagens dos céus.

Os deuses sorriram para os aliados, no derradeiro Dia-D, o desembarque na Normandia.


Links:

https://www.audible.com/pd/History/World-War-II-A-Military-and-Social-History-Audiobook/B00DJ8ILIS

View story at Medium.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Normandy_landings

Normandy Landings 2017: What the D in ‘D-Day’ actually means

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan

https://www.huffingtonpost.com/2014/06/06/70th-anniversary-dday-photos_n_5445367.html

​ O destruidor de mundos

O sobrevivente de duas bombas atômicas
Tsutomu Yamaguchi estava indo trabalhar no dia 06/08/1945, em Hiroshima, no Japão, quando a primeira bomba atômica da história da humanidade foi lançada, a cerca de 3 km de onde ele estava.
Apesar das queimaduras, Yamaguchi voltou a trabalhar na sua empresa após 3 dias. Ele estava em Nagasaki, no dia 09/08/1945, quando a segunda bomba atômica foi lançada, a uns 3 km do escritório da Mitsubishi.
Yamaguchi sobreviveu novamente, por incrível que pareça. Ele é a única pessoa oficialmente reconhecida pelo governo japonês como sobrevivente das duas bombas.
Ele veio a falecer décadas depois, aos 93 anos, depois de ter sobrevivido a uma guerra mundial e duas bombas atômicas, mostrando que a Dona Morte teve muito trabalho para levá-lo.

Qual o potencial de uma bomba atômica?
Sempre me perguntei qual o tamanho do estrago de uma bomba dessas.
Digamos, uma granada destrói uma sala. Uma bomba convencional destrói algo entre um prédio e um quarteirão. E uma bomba como a de Hiroshima?
O site nukemap (http://nuclearsecrecy.com/nukemap/) dá uma ideia do tamanho da destruição.
Fiz algumas simulações.
A mesma bomba de Nagasaki, em São Paulo, acabaria com todo o centro da cidade.
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A Praça da Sé e bairros próximos, como a Santa Ifigênia e a Liberdade, seriam destruídos. Do lado direito, o número de fatalidades e de feridos.

 


Tsar Bomba
Já a bomba mais poderosa do mundo atual, a Tsar Bomba (russa), detonaria toda a cidade de São Paulo, chegando até mesmo a Guarulhos, Mogi das Cruzes, Jundiaí e Santos. Com uma única bomba!
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As cores representam os raios de efeito
Bola de fogo: 6.1 km (117 km²):Máximo tamanho da detonação nuclear
Rajada de ar: 32.6 km (3,350 km²): Muitas das construções colapsam, danos são universais, fatalidades em todo lugar.

Radiação termal: 73.7 km (17,080 km²): Queimaduras de terceiro grau nas camadas de pele, que são indolores por destruir os nervos da pele. Pode causar danos severos e pode requerer amputação.

 

A Tsar é uma bomba de hidrogênio, baseada em fusão nuclear (ao invés de fissão). Para produzir energia suficiente para detonar a bomba de fusão, internamente detona-se primeiro uma bomba de fissão nuclear – isto para dar uma ideia da quantidade de energia envolvida.

 


E que tal simular uma detonação no Rio de Janeiro.
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O Fat Man chegaria até o Catete, Santa Teresa e todo o centro.
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Já a Bomba Tsar alcançaria Petrópolis, Itaguaí e Saquarema!
E nota-se que o Rio de Janeiro não é um bom alvo, porque metade do poder da bomba iria se perder no mar, visto que RJ é uma cidade litorânea.
O poder do átomo é o mesmo poder que alimenta o Sol. E este poder do Sol está nas mãos de alguns seres humanos neste planeta.
Agora fica mais claro o termo Destruição Mutuamente Assegurada: MAD em inglês.
O poder dessas bombas é tão enorme, que, se usadas pelas nações que as detêm, causariam o fim da humanidade.
Depois de destruir tantas cidades, é muito apropriada a citação de Robert Oppenheimer. Ele foi um dos cientistas chefe do Projeto Manhattan, que desenvolveu a primeira bomba atômica.
Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos.

Oppenheimer proferiu a frase após o teste bem sucedido da bomba no deserto de Nevada, em 1945. Esta é uma frase do Bragavad Gita, um épico indiano secular – Oppenheimer sabia ler e escrever em sânscrito.

 


Links:

Bônus
Bomba atômica por Vinícius de Moraes

A bomba atômica I

rio de Janeiro , 1954

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
… tu que és mulher e nada mais!

(Deusa, valsa carioca.)

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De paraquedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

A rosa de Hiroxima

rio de Janeiro , 1954

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroshima

​Bagdá, a mais bela cidade de todos os tempos

Ali Babá, um pobre lenhador árabe, esbarra com o tesouro de um grupo de ladrões, na floresta. De repente, após uma nuvem de poeira, revelam-se precisamente 40 ladrões. O tesouro dos ladrões está numa caverna, que é aberta por magia. A gruta abre-se usando-se a expressão “Abre-te, Sésamo” e fecha-se com as palavras “Fecha-te, Sésamo”. Quando os ladrões saem, Ali Babá entra na caverna, e leva parte do tesouro para casa…

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Quando éramos crianças, todos nós já ouvimos falar das histórias fantásticas de Bagdá: os contos das 1001 noites, Aladdin e sua lâmpada mágica, tapetes voadores, animais estranhos vindo dos recantos mais distantes do mundo, Sherazade e suas histórias. Conhecemos a Bagdá do mundo dos sonhos: o centro cultural, artístico, financeiro e tecnológico do mundo. Era certamente a melhor e mais avançada cidade do mundo, a mais bela capital do mundo civilizado, lá pelo ano 1000.

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A cultura ocidental atual só existe devido aos pensadores do oriente médio. A Europa, no ano 1000, era um bando de tribos isoladas, de bárbaros iletrados. Não chegava nem perto da radiante cultura persa. As obras dos grandes filósofos gregos, Platão, Aristóteles, foram traduzidas para o árabe nesta época e se mantiveram vivas na história da humanidade. E, séculos depois, os clássicos gregos foram redescobertos e transcritos para o latim. Não à toa, esta época da Europa é chamada de Idade das Trevas.

Quando eu era adolescente, comecei a me perguntar: onde fica Bagdá?

Depois de alguns outros anos, fiquei sabendo que Bagdá é a capital do Iraque.

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E o Iraque contemporâneo, ao menos de algumas centenas de anos para cá, não é nem de longe uma referência artística e cultural do mundo moderno. Mesmo antes das guerras dos dois George Bushs, o Iraque de Saddam Hussein tinha zero do charme das histórias das 1001 noites.

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De Bagdá ao Iraque

Como a Bagdá virou o Iraque é uma história de mais de 1000 anos, e certamente são muitos e muitos fatores importantes.

Porém, eu queria destacar um marco desta história. Um autêntico ponto de virada. A história da humanidade é sempre não-linear, e são exatamente esses pontos de não-linearidade que fazem a vida de centenas de milhões de pessoas mudarem para todo o sempre.

Esta não-linearidade tem um nome: Genghis Khan. E o que ele fez? Deletou Bagdá do mapa. Apagou toda a glória de Bagdá, obrigando-a a recomeçar do zero. Esta história, e algumas de suas consequências, serão narradas a seguir.

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Genghis Khan

Não estudamos a história do mundo, na escola. Para nós, o mundo se resume à Europa e aos Estados Unidos. Nunca ouvi falar de Genghis Khan nas apostilas. Entretanto, ele mudou para sempre o mundo, deixou cicatrizes que duram até os dias de hoje.

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Genghis Khan nasceu com o nome Temujin, no ano 1162, na Mongólia. A Mongólia é uma região árida, e tinha povos nômades organizados em tribos. Temujin uniu as tribos mongóis, onde “unificar” significa derrotar os outros exércitos, matar seus líderes e assumir o poder. A unificação das tribos mongóis se deu ao longo de 20 anos de batalhas. Temujin se tornou o Genghis Khan. O termo “Khan” significa algo como “rei”, e “Genghis”, “grande”.

Uma vez dominando a Mongólia (e regiões vizinhas), o grande Khan começou uma estratégia de dominação do mundo inteiro. Partiu para o oeste, dominando os povos da região da Armênia, Afeganistão e outros. Partiu para o sul, onde dominou o norte da China (um de seus descendentes, Kublai Khan, encontrou Marco Polo e tentou conquistar o Japão, numa história que um dia eu conto).

Todo exército bem sucedido tem alguma inovação tecnológica ou de processos que dá uma vantagem sobre os oponentes. No caso dos mongóis, eles dominavam duas técnicas letais: o cavalo e o arco.

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O povo mongol, nômade, praticamente nascia montado num cavalo. Um mongol tinha 100% de afinidade com o seu cavalo, eram uma coisa só. Dominar uma montaria dessas, numa guerra, significava extrema força e mobilidade.

 

Além disso, eles dominavam o arco-e-flecha. Eram treinados desde cedo nesta arte. A combinação arco-e-flecha montada num cavalo, tornava-os praticamente imbatíveis: poderiam atacar de longe sem serem atacados, poderiam ir e vir com a velocidade de um raio.

Ao longo do tempo, eles foram incorporando tecnologias assimiladas dos povos conquistados. Ao exército mongol juntaram-se engenheiros chineses e sua máquinas para o cerco de cidades. Máquinas como a catapulta para lançamento de pedras e de óleo inflamável, tecnologias para construção de fortificações e pontes, algumas armas rudimentares baseadas em pólvora.

Os mongóis eram naturalmente rudes e ferozes. Por exemplo, os mongóis não lavavam as suas roupas, o que os tornava famosos pelo mau cheiro. Outro exemplo: eles eram acostumados a comer carne crua. Para amaciar um pouco a carne crua, eles a colocavam entre suas pernas quando montados no cavalo…

 

Pois bem, para completar, o grande Khan adotava a técnica do terror para maximizar o alcance de suas conquistas. Mandava mensageiros para submeter as cidades ao seu domínio, o que significava reconhecer os mongóis como senhores, fazer contribuições de ouro, alimentos, armas e exércitos ao Khan. Quem não obedecesse era sumariamente destruído, para servir de exemplo. A cidade toda era devastada, não sobrava pedra sobre pedra. Até mesmo os civis eram brutalmente executados. Eles varreram algumas cidades do mapa, como uma cidade afegã chamada Khwarezmia, que foi completamente dizimada.

Não havia exército que conseguisse se equiparar à força dos mongóis. Não havia quem fosse mais ágil, mais experiente em batalhas, e com tanto know how de engenharia de destruição. Era melhor se render do que tentar enfrentá-los.

Em física, o momentum é igual à força vezes velocidade. Um grande momentum atropela um pequeno momentum. Na Arte da Guerra de Sun Tzu, diz-se para atacar como uma pedra esmaga um ovo. O momentum é como uma pedra enorme rolando morro abaixo.

O momentum era de Genghis Khan.

 


 

O califado Abbasid

 

O califado Abbasid foi o terceiro califado após o profeta islamico Maomé. O comandante do califado era o califa, e a cidade de Bagdá era a capital da mesma. O califado Abbasid foi estabelecido em 750.

Na época de ouro, Bagdá era a maior cidade do oriente médio, e era conhecida mundialmente como a capital do conhecimento, por abrigar instituições acadêmicas importantes.

O poder do califado estava em pleno declínio, no século XIII, após décadas de intrigas políticas, guerras e governos ruins. Havia outras forças na região, turcos e mamelucos.

Em 1242, o califa al-Mustasim assumiu o poder da cidade. Diz um cronista da época, sobre al-Mustasim.

“Sem dúvida, não tem a menor aptidão para o reinado, e a grandeza passa longe do mesmo”

 


 

Os mongóis chegam à Bagdá

 

No ano de 1258, Genghis Khan já havia morrido. O comando do império mongol era de seu neto Mongke Khan, que enviou o irmão dele, Hulagu Khan, para conquistar os povos do Oriente Médio.

Hulagu Khan levou 150 mil soldados para o Oriente Médio, e contava com o apoio de outros povos subjulgados e aliados ocasionais: exércitos da Armênia, Geórgia, etc.

Enquanto o califado estava em franco declínio, os mongóis estavam em seu auge.

O cerco de Bagdá ocorreu em 1258 e durou apenas duas semanas. O califado falhou em se preparar para a batalha, sem exército à altura. Bagdá também achava que um ataque a eles poderia mobilizar aliados islâmicos em sua defesa, o que não ocorreu.

O exército mongol destruiu os canais de irrigação, arruinando a agricultura. Saquearam e destruíram mosteiros, palácios, hospitais. Roubaram os tesouros, estupraram mulheres, aniquilaram a população civil.

Eles mantiveram o califa vivo, para assistir à execução de seu exército. Depois, enrolaram o califa num tapete, e fizeram os cavalos o pisotearem até a morte. Para ter uma ideia, o califa era para Bagdá como o papa é para a igreja católica.

Dizem os cronistas que os rios ficaram vermelhos de sangue das pessoas. Os mongóis não poupavam nem mulheres nem crianças. Estimativas variam entre 200 mil mortes à 1 milhão. Sendo que a população total de Badgá era em torno de 1 milhão de habitantes, algumas dessas estimativas são exageradas numericamente, mas de qualquer forma a perda foi enorme.

Depois das pessoas, foi a vez dos livros. As bibliotecas de Bagdá continham uma quantidade enorme de clássicos, da matemática à medicina, da história à astronomia. Os mongóis queimaram as bibliotecas e jogaram os livros nos rios. Os rios, antes vermelhos de sangue, depois ficaram pretos de tinta, levando embora em suas águas centenas de milhares de vidas e milhares de anos de conhecimento.

Uma perda irreparável. Após a devastação mongol, havia pouco o que se fazer. Não havia cidade, não havia agricultura, não haviam pessoas, não havia mais livros. Faltava gente para reerguer a cidade das cinzas.

Este evento é considerado o fim da era de ouro islâmica.

 


Quem parou os mongóis?

Pouco tempo após a devastação de Bagdá, um único evento pôs fim ao terrível avanço mongol. Outra não-linearidade na história: Mongke Khan faleceu. Era costume na época os comandantes mongóis retornarem ao país para prestar tributos. Mas, muito mais do que tributos, os generais mongóis estavam concorrendo para ver quem assumia o império. Ao parar de conquistar o mundo externo, e começar a brigar entre si, eles perderam o momentum, e foram sendo derrotados nas pontas. Era o início do fim do império mongol.

 


 

O que aconteceria se os mongóis chegassem à Europa?

Um dos maiores “What ifs” da história é o que aconteceria se os mongóis continuassem a sua marcha de terror em direção à Europa. O que aconteceria se Mongke Khan tivesse vivido mais uns 20 anos, e eles não tivessem perdido momentum?

Os mongóis provavelmente continuariam a sua marcha brutal em direção à Europa. Não havia exército que pudesse resistir ao seu poderio. Talvez um dia chegassem até a Itália, onde pegariam o papa e o colocariam num tapete para ser pisoteado pelos cavalos… e a história do mundo de hoje seria completamente diferente.

 


Os dois ovos da fênix

No belíssimo conto de Sandman chamado “Ramadã”, conhecemos a história do califa Rahum Al-Raschid e a sua formidável Bagdá. Simplesmente, a mais bela cidade de todos os tempos. Porém, ele estava preocupado em manter a sua Bagdá eternamente reluzente e radiante.

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Al Raschid faz um trato com Sandman. Ele vendeu Bagdá ao senhor dos sonhos, em troca da promessa de manter a memória da grandiosa cidade viva eternamente. Por conta disto, é possível vê-la até hoje, em toda a sua glória, tapetes voadores e histórias de 1001 noites, no mundo dos sonhos.

Nos porões do castelo de Al Raschid, descendo escadas, masmorras e entradas secretas, há uma sala cheia de ovos. Ovos de todos os pássaros do mundo, de todos os tamanhos e todos os tipos.

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Nesta sala se encontram os dois ovos da Fênix. Quando a fênix morre, ela põe dois ovos. Um deles é dourado, da onde nasce outra fênix. O outro é preto, e ninguém sabe o que nasce deste ovo.

Infelizmente, foi o ovo preto que chocou.

 


 

Links:

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Abbasid_Caliphate

https://www.thenational.ae/arts-culture/tragedy-and-glory-1.296038

http://lostislamichistory.com/mongols/

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_conquest_of_Khwarezmia

https://en.wikipedia.org/wiki/Baghdad

https://www.audible.com/pd/History/Turning-Points-in-Middle-Eastern-History-Audiobook/B01AYGLFTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
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Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
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Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
https://mydailyartdisplay.files.wordpress.com/2012/01/vincent_van_gogh_00191.jpg?w=811&h=669
Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
https://i1.wp.com/oltreuomo.com/wp-content/uploads/2014/06/filosofi-e-donne-nietzsche.jpg
Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
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Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
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Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


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Três Desgraçados no Inferno grego

Íxion, Tântalo e Sísifo

O que chamamos hoje de “mitologia grega” foi, um dia, a religião politeísta dos gregos. Religiões costumam ter um céu: um paraíso, um Valhalla, um Olimpo. Mas não adianta nada ter um céu sem ter um inferno, seria como ter a cenoura sem ter o chicote.
Recontarei as histórias de três desgraçados no Inferno grego, suas terríveis penas, e, com isso, um pouco da moral grega.

 


 

1. Íxion

Íxion foi um rei que cometeu uma série de erros na vida, como atentar contra a vida de seu sogro. Entretanto, Zeus, o deus dos deuses, resolveu dar uma chance para a sua redenção, e para marcar isto, o convidou para um banquete no Olimpo, com muita pompa, fartura infindável, regado a litros de vinho da melhor qualidade.

 

Não deu outra, só podia dar errado. Depois de algumas garrafas, Íxion voltou seus olhos para a coisa mais interessante do jantar: Hera, a esposa de Zeus, a “primeira-dama” do Olimpo.

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Hera era também chamada de “mãe dos deuses”, por ela e Zeus terem dado origem a vários outros deuses. Mas não quer dizer que ela era velha, pelo menos fisicamente. Idade não fazia muito sentido, porque os deuses eram imortais, ou seja, Hera tinha toda a beleza de uma deusa grega, imortalmente conservando os seus trinta e poucos anos de idade.

Íxion começou a passar cantadas toscas e a incomodar Hera, fazendo carícias com os pés debaixo da mesa. Zeus, que não era bobo, sacou tudo, e, incomodado com a insolência do convidado, resolveu pregar uma peça. Durante a noite, Zeus criou um clone de Hera feito de nuvens e vento (não existia naquela época, mas vem à mente uma boneca inflável), e mandou a boneca para o quarto de Íxion. O pobre coitado, ao ver a boneca, enxergou Hera: deslumbrante, linda, nua, à sua disposição total. Ele não pensou duas vezes antes de mandar ver.

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Zeus condenou Íxion ao inferno, ou Hades. Sua punição foi ficar preso a uma roda de fogo, girando eternamente. Eternamente queimado, e eternamente tonto, por cobiçar a mulher do outro.

Interessante que a moral grega era assimétrica. Zeus podia cobiçar a mulher de quem quisesse. Fez isso inúmeras vezes, gerando diversos filhos fora do casamento. Inclusive, deu uma escapulida com a mulher de Íxion. Mas, fazer o mesmo com ele era pecado mortal, passível de punição eterna.
Outra coisa, Íxion não foi condenado pelos crimes na Terra, mas ao atentar contra os deuses. Era uma moral muito aristocrática: não sacaneie os poderosos!

 


 

2. Tântalo

Tântalo foi outro rei que cometeu uma série de crimes na Terra, mas tinha uma certa estima pelos deuses. E foi chamado para um banquete no Olimpo (dica: comporte-se em banquetes no Olimpo). Chegando lá, ele provou de duas delícias inacessíveis ao ser humano comum: a ambrósia e o néctar dos deuses. A ambrósia era tipo um manjar. E o néctar, um suco. Ambas provocavam uma sensação de enorme felicidade a quem os consumissem.

 

Tântalo tentou roubar a ambrósia e o néctar, para levar para a Terra e distribuir para os mortais. Não deu certo. Zeus descobriu, e o condenou ao Hades. Sua punição: a fome e a sede eternas. Ele foi para um lugar com inúmeras árvores frutíferas, porém todas as vezes em que ele tentava pegar, os frutos se recolhiam. Também tinha água doce à vontade, mas todas as vezes em que ele tentava beber, as águas fugiam dele.

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Íxion foi altruísta, ao querer dividir as maravilhas dos deuses. Mas, de novo, a moral aristocrática: o escravo não pode pegar a comida dos senhores para dividir com outros escravos.

Acho que a humanidade também está tão condenada quanto Tântalo. Em centenas de milhares de anos, sempre houve menos comida do que o necessário para viver, gerando fome. Quando finalmente surge uma época em que temos mais comida do que o que conseguimos comer, também temos que passar fome, dessa vez para não engordar!

Hoje em dia, o “néctar de frutas” é um suco com água e acúçar, se é que tem suco mesmo. Desvirtuaram o néctar.

 


 

3. Sísifo

Sísifo foi, disparado, o pior de todos. Era o mais astuto dos mortais da época, um James Bond dos mortais. Extremamente inteligente, e extremamente mau. Quebrou todas as regras do ser humano: matou convidados, engravidou mulheres por vingança, destruiu famílias.
Foi condenado ao Inferno, mas ele era tão esperto que sacaneou a morte não uma, mas duas vezes!

Na primeira vez, o Hades (deus do Inferno) veio buscá-lo. Ele seria algemado. Mas ele enganou Hades, e o algemou em seu lugar! Prendeu Hades num armário, e continou a viver normalmente, por um ano.

 

Porém, o mundo começou a ficar esquisito. Ninguém mais morria. Um soldado despedaçado no campo de batalha continuava a lutar. Hades, o deus da guerra, ficou puto com isso e foi reclamar com Hades. Chegando ao Inferno, descobriu que ele tinha sumido. Por fim, descobriram a trama de Sísifo e libertaram Hades. Sísifo foi direto ao Inferno.

Porém, Sísifo tinha uma carta na manga. Ele deu instruções para que a esposa jogasse o corpo dele no meio da cidade, sem fazer os cerimoniais fúnebres corretos.

Chegando ao Inferno, Sísifo apelou a Perséfone (esposa de Hades). Ele pediu permissão para voltar à Terra por três dias, a fim de fazer os preparativos cerimoniais e punir a esposa. Porém, era papo-furado de novo. Sísifo voltou à Terra e continuou a viver como se nada tivesse acontecido. Dessa vez, ele viveu por mais dezenas de anos, morrendo de velhice.

Finalmente, ele retornou ao Inferno. Sua punição era exemplar. Rolar uma enorme pedra morro acima, e quando ele finalmente concluísse sua missão, a pedra rolaria morro abaixo, obrigando o coitado a recomeçar tudo de novo. E Sísifo está até hoje neste ciclo infinito, de um trabalho enorme sem sentido.

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Talvez todos nós sejamos como Sísifo, condenados a trabalhar do começo ao fim, somente para descobrir que há mais trabalho a ser feito, e sem saber a causa final disto tudo. O grande escritor Albert Camus explora esta situação absurda em suas obras, como “O mito de Sísifo”, e “O Estrangeiro”.

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Uma boa fonte de histórias de mitologia é o livro “Tales of the greek heroes”, de Roger Lancelyn Green.

 

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http://www.greek-mythology-pantheon.com/hera-juno-greek-goddess-queen-of-the-gods/

http://www.greekmythology.biz/4.html

 

Como um cagão salvou o mundo da destruição total

O mundo é curioso. Às vezes, uma única pessoa aleatória tem o poder de mudar completamente o rumo da humanidade inteira.
 

Por exemplo, Hernan Cortés, o conquistador espanhol, tinha sido atacado por nativos, e estava sendo levado como prisioneiro. Cortés foi resgatado por um único soldado espanhol, que matou quatro índios. Não fosse isso, talvez a conquista das Américas demorasse 50 anos a mais, ou nem viesse a acontecer.

 

Outro exemplo. Se Pôncio Pilatos tivesse poupado Jesus, a história do cristianismo talvez fosse completamente diferente.

 

Venho contar hoje a história de uma pessoa, cujo maior ato de heroísmo foi tremer nas bases, se acovardar, e nada fazer. Isto salvou o mundo, sem ninguém ficar sabendo.

 


Bombas atômicas

 

 
Depois da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o mundo viu dois grandes vencedores: de um lado os Estados Unidos, do outro a União Soviética.

 

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Nenhuma das duas potências poderia se enfrentar diretamente, a custo de uma aniquilação mútua que não interessava a ninguém. Era como se duas pessoas tivessem uma arma apontada na cabeça da outra ao mesmo tempo.

 

A chamada “Guerra Fria” surgiu neste contexto: um embate de forças indireto, uma corrida armamentista, uma corrida espacial, a Guerra da Coreia nos anos 50 e na Guerra do Vietnã, no final dos anos 60.

 


 

O Não Herói Petrov

 

Neste contexto de segredos, rivalidade e tensão, em 26 de setembro de 1983 o tenente-coronel Stanislav Petrov estava de serviço. Era num bunker secreto numa floresta perto de Moscou. A sua missão, monitorar o sistema soviético de alerta de ataque nuclear.

 

Neste dia, ele ouviu um “bip-bip” de um sofisticado sistema de alarmes. O problema é que este “bip-bip” indicava um ataque nuclear norte-americano!

 

O sistema indicava um primeiro míssil. Depois, um segundo. No total, indicava que cinco mísseis balísticos americanos estavam a caminho!

 

As ordens eram claras. Informar imediatamente um superior no Kremlin.

 

Entretanto, não foi isso que Petrov fez. Ele tinha uma certa insegurança quanto à tecnologia de satélites, que era nova. Os mísseis terrestres não tinham captado nada. E, ele pensou, se fosse um ataque de verdade, não seria com 5 mísseis, seria com dezenas de mísseis, como se fosse o primeiro a apertar o gatilho esperando que não dê tempo do segundo reagir.

 

Mas também poderia ser um ataque real. Algum erro estratégico poderia fazer os EUA lançarem apenas 5 mísseis. Ou mais estariam por vir. Os radares de terra poderiam estar com problemas.

 

Se ele não reagisse, a União Soviética estaria perdendo minutos preciosos de contra-ataque. Se ele reagisse, possivelmente seria o fim do mundo. Petrov tremeu nas bases.

 

A equipe toda de Petrov era de soldados, apenas obedeciam ordens. Ele era o “mais antigo”, jargão militar que indica que era dele a responsabilidade de passar a informação adiante.

 

E o que Petrov fez?

 

Nada.

 

Esperou por intermináveis minutos por algum sinal mais concreto. Seu coração batia rapidamente. Ele suava muito. Um anjinho em sua cabeça dizia para ele esperar. Um demônio em sua cabeça dizia para ele fazer a ligação.

 

Uma meia hora depois, ele se convenceu de que era realmente um alarme falso. Reportou um erro no sistema de satélites. E bola para frente.

 

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A rigor, Petrov agiu errado. No meio militar, deve-se seguir ordens e passar o abacaxi para cima. Hierarquia e disciplina.

 

Fico me imaginando o que poderia acontecer se outro oficial estivesse de serviço. Um oficial com cabeça bem militar, sem nenhum conhecimento técnico. Quem conhece tecnologia sabe que sistemas novos sempre dão problemas, como identificar falsos positivos. Mas, para um leigo, os satélites eram coisas de gênios, dificilmente o leigo duvidaria de um sinal desses.

 

Este oficial seguiria o manual à risca, e ligaria dizendo: “estamos sob ataque nuclear”. As autoridades do Kremlin fariam um monte de perguntas, às quais ele responderia: “o moderníssimo sistema de satélites indicou com certeza 5 mísseis balísticos disparados da Costa Oeste dos EUA, a atingir Moscou em alguns minutos”.

 

Diante da pressão de responder em pouco tempo, e da firmeza da declaração do oficial, talvez este erro de cálculo se propagasse, fazendo os soviéticos dispararem mísseis atômicos em represália.

 

O relógio do fim do mundo relógio do fim do mundo marcaria meia-noite. Os EUA entrariam em DEFCON 0. Uma chuva de bombas varreria a Terra.
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Desenho da incrível série “Watchmen”

 

O mundo inteiro seria diferente. A humanidade regrediria alguns séculos. Conforme disse Albert Einstein:

 

“Não sei como vai ser a Terceira Guerra Mundial, mas a quarta será com paus e pedras.”

 

O Bhagavad Gita é um dos textos mais importantes da mitologia indiana. Dizem que Robert Oppenheimer, um dos cientistas chefes do Projeto Manhattan (que construiu a primeira bomba atômica), teria feito a seguinte citação do Bhagavad Gita, no primeiro teste da bomba no Novo México. Nada mais adequado para encerrar esta história:

 

“Agora me tornei a Morte, o destruidor de mundos”.

 


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Aristóteles inventou a Internet e o iPhone?

Como alguém que viveu no século 3 a.C. pode influenciar a nossa vida, em plena era de iPhones, internet, computação na nuvem, inteligência artificial?

Em post anterior, comentei sobre a influência do confucionismo nos costumes, tradições e no comportamento dos japoneses, chineses e coreanos. Sem eles nem saberem, seguem muitas ideias oriundas de tempos atrás.

E no ocidente, há alguma mente poderosa que tenha influenciado fortemente a modelagem de nossos pensamentos?

Certamente, muitos nomes influenciaram fortemente a cultura ocidental. Mas um, em particular, é tema de estudos faz dois mil anos, e uma quantidade impressionante de ideias encontram raízes nele: o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.).

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Isto é tão profundo que nem sabemos desta influência, e tomamos algumas de nossas atitudes como óbvias.

Aristóteles é o meu ídolo. Ele era um grande polímata (do grego “aprendeu muito”). Escreveu sobre diversas áreas do conhecimento, com grande profundidade: lógica, política, ética, retórica. Fundou os ramos da zoologia e botânica, física e metafísica. Ele foi o Google do mundo ocidental por uns 2 mil anos.

 


Lógica
Aristóteles foi o primeiro a sistematizar o conceito de lógica. Separar os componentes, definir hipóteses e conclusões. Definir negações, contradições.

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A lógica dominante por vários milênios da história foi a lógica aristotélica. Demorou 2 mil anos até pensadores modernos preencherem as lacunas da lógica apresentada por Aristóteles.
Hoje em dia, naturalmente pensamos de forma lógica, parece até óbvio.
Mas não é óbvio. Há várias formas possíveis de se responder a uma pergunta. Seja uma pergunta ilustrativa como “Por que carregamos um guarda-chuva?”

A resposta poderia ser totalmente baseada em misticismo: Deus quis que chovesse, e que carregássemos guarda-chuva, portanto é assim e pronto.

Poderia ser baseada em tradição: sempre carregamos guarda-chuva porque nossos avós nos ensinaram assim. Não posso desrespeitar os ancestrais.

Poderia ser ditatorial: o grande líder quer assim, acate quem tiver juízo.

Poderia não ter resposta: carrego o guarda-chuva porque quero, e não sei nem quero saber sobre as razões disto.

Questionar e ser convencido após um argumento lógico está na essência do nosso modo de pensar. Imagine um tema polêmico, como a reforma na previdência. Ninguém no ocidente aceita uma resposta do tipo “Deus (Alá, Shiva, Tupã, etc) quis assim”, ou “sempre foi assim com nossos ancestrais”, “nosso querido líder King Jong Un quer assim”, ou “não sei a resposta”. Entretanto, em vários lugares do mundo respostas deste tipo são válidas e convincentes, no contexto apresentado.


Divisão, classificação, sistematização
Aristóteles era genial em pegar o conhecimento e dividir, classificar, dar nomes e analisar.
Aplicou este método em diversos temas, Ética, Felicidade, Política, Retórica, Dialética, Física, Filosofia, Poesia. O seu enfoque era sempre muito prático, realista, ao contrário do idealista Platão.

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As artes, para ele, não deveriam ser apenas algo bonito. Deveriam também ser úteis. Portanto, antecipou o conceito de design do Steve Jobs em mais de 2 mil anos.

 

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Categorizou e analisou minuciosamente os animais, criando a zoologia. Fez os mesmo com as plantas, criando a botânica. Inventou a taxonomia, método sistemático (e lógico) de classificação.

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Questionar, dividir, classificar e aplicar a lógica para chegar à conclusões, são a base primordial da ciência.


A Ciência 

O grande mérito de Aristóteles nem foi o que ele criou, mas o como criou. Ele foi o bisavô do método científico: tentar encontrar a explicação lógica dos fatos. Dividir, classificar, analisar as causas e efeitos.

Aplicando a ciência, o ocidente conseguiu progressos gigantescos, como a revolução das ideias da época do Iluminismo, e a Revolução Industrial. A partir daí, não paramos mais, chegando à revolução da Informação dos tempos atuais, aos iPhones, computação em nuvem, inteligência artificial.

 


Influente até demais

Um dos problemas que surgiram é que Aristóteles escreveu tanto sobre tudo, que ele passou a ser a referência máxima e a palavra final por milhares de anos, até a Idade Média.

Se o grande Aristóteles dizia que o Sol girava em torno da Terra, quem era esse tal de Galileu para dizer que era a Terra que girava em torno do Sol?

Lembro de um filme sombrio, o “Nome da Rosa” do autor Umberto Eco. Este se passa na Idade Média, e o enredo gira em torno de um livro de Aristóteles que estava envenenado…

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Felizmente, a Idade Média passou. Os ideais clássicos gregos originais (sem veneno) foram resgatados no Iluminismo, e a humanidade seguiu o seu curso.


Conclusão

Aristóteles foi o primeiro a escrever sobre vários temas. Ser o primeiro, sair do zero para o um, é muito mais difícil que partir do um e ir para dois. Criou a lógica e a ciência. E utilizamos este framework mental até hoje.

Não que Aristóteles tenha inventado a Internet e o iPhone. Mas se Aristóteles não tivesse existido, talvez toda a tecnologia que temos hoje estivesse a séculos de ser inventada ou talvez nunca surgisse… e ninguém estaria tendo o prazer de ler este texto 🙂 .
Este é o poder das ideias e dos ciclos virtuosos gerando outras boas ideias.

 


Links:

 

Aristóteles – Máquina de pensar

 

https://explorable.com/aristotles-zoologyhttp://www.oldandsold.com/articles31n/herbals-2.shtmlhttp://davesgarden.com/guides/articles/view/2051/

Por que um engenheiro brilhante trabalharia para a Coreia do Norte?

No último semestre do último ano da faculdade militar que fiz, um dos meus possíveis destinos era o Instituto de Aeronáutica e Espaço, na qual eu já tinha estagiado antes. É um instituto fantástico, onde eu teria acesso a quantidade gigantesca de material de pesquisa, juntamente com outras mentes de altíssimo nível. Por isso, eu queria muito ir ao IAE na época.

O detalhe era que o IAE desenvolve foguetes e lançadores. Bombas para explodir cidades e pessoas…

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Míssil Piranha, tecnologia do IAE

 

O final da história foi que o IAE não abriu vagas para o meu curso, então segui um caminho completamente diferente. Mas sempre fiquei com isso na cabeça. E se eu estivesse ajudando a fabricar armas de destruição em massa?

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O IAE é do bem. Faz veículos lançadores de satélite. E tem pessoas bastante íntegras em seu grupo. Mas, nem por isso deixa de pesquisar e desenvolver bombas.

 


 

Testes nucleares na Coreia do Norte

O famigerado estado da Coreia do Norte fez, nos últimos dias, um teste supostamente atômico no mar. É o quinto teste desde 2006, quando eles abandonaram tratativas de diálogo sobre o assunto.

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O problema é que cada teste vem performando melhor do que os anteriores, e está ficando perigoso. Este último teste atingiu um nível de destruição semelhante ao da bomba de Hiroshima, em 1945.

Uma das preocupações da comunidade internacional é a ogiva ser suficientemente pequena para caber num míssil, o que aumentaria consideravelmente o alcance dos norte-coreanos.

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Mas uma bomba não surge do nada, só porque um ditador louco quer. Para ter uma bomba, tem que ter pesquisadores brilhantes por trás disto. Engenheiros com alta capacidade de execução. Físicos que entendem as técnicas de enriquecimento radioativo. Empresas de precisão que produzem peças sofisticadas.

 

Esses físicos, engenheiros, matemáticos e administradores brilhantes têm plena consciência do que é o estado da Coreia do Norte? Se têm, mesmo assim dedicam seus esforços para ajudar?

 


 

Dilemas

Adolph Eichmann foi um dos piores nazistas da história. Era encarregado da “solução final do problema judaico na Alemanha nazista”.

 

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Adolph Eichmann

Entretanto, em seu julgamento em 1961, ele não demonstrava o menor ressentimento pela morte, direta ou indireta, de 5 milhões de judeus.

Em resumo, não me arrependo de nada.

Eu era apenas mais um cavalo puxando a carruagem, e não podia ir para a direita ou para a esquerda por causa da vontade do condutor da carroça.

Nós nos encontraremos novamente. Eu acredito em Deus. Obedeci às leis da guerra e fui fiel à minha bandeira.

A psicóloga Hannah Arendt testemunhou o julgamento. Descreve que Eichmann não parecia um monstro, mas uma pessoa comum, que a gente encontra tomando café na padaria.

Hannah citou “erros de percepção e julgamento” como possíveis causas de alguém aparentemente comum como Eichmann ser capaz de cometer tamanhas atrocidades.

 


 

Além do bem e do mal?

Obviamente, a minha opinião é que não somos cavalos sendo guiados. Temos vontade própria para contestar ordens. Podemos nos esconder em algum canto, fugir para outros países. Num caso extremo, podemos nos recusar a cumprir ordens – seríamos executados por isso, mas não cumpriríamos a mesma.

Mas, infelizmente, nada na vida é tão simples. Há vários graus de julgamento entre o bem e o mal, e talvez a nossa escolha seja o grau em que a nossa moral permite.

Eu trabalharia numa empresa que fabrica cigarros?

Seria advogado de alguém escandalosamente culpado?

Trabalharia numa empresa que recebe dinheiro público, normalmente mal empregado? (Só para constar, muitas das grandes empresas do Brasil recebem verba do BNDES)

Pagaria um guarda de trânsito que está solicitando um incentivo?

Deixaria de andar a 100 km/h quando o limite é 60 km/h e sei que não há radares?

Devolveria o troco recebido a mais por engano?

Deixaria de baixar filme pirateado? Música pirateada? Youtube com conteúdo pirateado? Software pirata?

 


 

Posfácio: Quem sou eu para criticar?

Após vários meses tentando criar a minha vaga no IAE, no final do ano de 2002 finalmente me chega a notícia de que o trabalho foi em vão: eu não iria ao IAE. Fiquei vários meses chateado, lamentando a bola que bateu na trave e foi para fora.

 

Agora, imagine que eu estivesse entrado no IAE, em 2003. E que mantivesse um desempenho fantástico, por 30 anos. E que em 2033, o Brasil tivesse um ditador comunista (algo que ainda pode acontecer, se depender do PT e partidos correlatos). E que este ditador comunista brasileiro, culpando os EUA de todos os males do mundo, resolvesse investir pesadamente num programa nuclear…

Será que eu jogaria fora 30 anos de conhecimento? Jogaria fora uma carreira inteira? Ou abracaria a causa, sendo mais uma engrenagem na grande máquina? Não sei, e graças ao rumo que a vida tomou, nunca terei que tomar tal decisão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma fábula de Esopo e uma história de Drucker

A fábula dos potes

Um pote de vaso e outro de cobre boiavam num rio.
 

Um dia, o pote de cobre foi puxado pela correnteza e bateu no vaso, quebrando uma pontinha deste.
 

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O vaso reclamou muito, e resolveu revidar. Desta vez, foi o vaso que bateu  no pote de cobre. Mas, novamente, foi o vaso que se quebrou, deixando o pote de cobre intacto.
 

O lado mais fraco sempre será prejudicado ante o confronto contra uma força desproporcionalmente superior.


 

O Monstro e o Cordeiro
 

O grande criador da Administração como ramo de estudo, Peter F. Drucker, viveu na época da Segunda Guerra Mundial e viu a ascenção dos nazistas ao poder. Ele conviveu com duas pessoas em particular: o Monstro e o Cordeiro.
 

Esta é uma das histórias de Drucker que mais me impressionaram.


 

O Monstro

Drucker chegou à Alemanha em 1927, trabalhando como trainee em um jornal. Em 1932, os nazistas estavam ganhando poder, e Drucker, preocupado, passou a procurar emprego em algum lugar fora da Alemanha.
 

Nesta época, ele escreveu dois artigos: um atacando o nazismo, e outro sobre a questão dos judeus na Alemanha. Com a ascenção dos nazistas, os artigos foram banidos e os exemplares queimados. Para Drucker, foi uma forma de “não se colocar em cima do muro”, assumir uma posição irreversível que o forçasse a sair do país imediatamente.
 

Hitler assumiu o poder em Janeiro de 1933. Algumas semanas depois, Drucker demitiu-se do jornal e estava se preparando para deixar o país. Nisto, Reinhold Hensch, um jornalista, veio falar com ele, para reconsiderar a decisão. Hensch era do partido nazista, e com a ascenção dos mesmos, ele passara a ser o homem no comando do jornal.
 

Hensch disse: “Te invejo por sair do país. Queria sair também, mas não posso. Isto tudo é insano. Estou com medo do que ouço nas reuniões do partido, sobre matar judeus e ir à guerra. Eu disse a mim mesmo que seria tudo retórica, e não dei bola. E ainda acho isso. Uma vez no poder, eles vão ver que não é bem assim, têm que mudar de ideia”.

 

Drucker: “Por que você não vai embora? Não tem nem trinta anos e não tem família que dependa de você. Tem um diploma em economia e não vai sofrer para conseguir um emprego”.

 

Hensch: “É fácil para você falar. Você conhece várias línguas, esteve no exterior, é esperto. Eu nunca saí de Frankfurt e não tenho conexões – meu pai é um artesão”.

 

Drucker, furioso: “Isto é bobagem. Quem se importa com o que seu pai é? Qual a diferença que isso faz?”

 

Hensch: “Você não entende, Drucker. Não sou inteligente o suficiente. Sou nada, sou ninguém. Mas quero poder e dinheiro para ser alguém. É por isso que me juntei aos nazistas anos atrás. E agora, eu vou ser alguém!”
 

Drucker não aceitou a oferta e saiu do país. Acabou indo para Londres e depois para os Estados Unidos. Doze anos depois, Drucker leu no New York Times:
 

Reinhold Hensch, um dos mais procurados criminosos de guerra nazistas, cometeu suicídio quando capturado por tropas americanas numa casa bombardeada em Frankfurt. Hensch era um dos chefes da SS nazista com o título de Tenente-General, comandou as infames tropas de aniquilação. Ele estava a cargo da campanha de extermínio de judeus e de “outros inimigos do estado nazista”. Ele era tão cruel, feroz e sanguinário que era conhecido como “O monstro” (Das Ungeheuer) mesmo entre os seus homens.


 

O Cordeiro
 
Em Abril de 1933, Drucker encontrou “o Cordeiro”. Paul Schaeffer estava fazendo as malas. Ele tinha aceitado a oferta do “Berliner Tageblatt” para ser o editor chefe.
Schaeffer sabia muito bem o que estava acontecendo na Alemanha. A motivação dele para aceitar a posição era outra.

 

Schaeffer: “É justamente por causa deste horror que eu tenho que aceitar o trabalho. Sou o único que pode prevenir o pior. Eles precisam de mim porque tenho contatos em Londres e New York. Vão me ouvir quando eu disser que atos assim vão trazer problemas para eles.”

 

Drucker: “Mas Paul, você não tem medo que os nazistas te manipulem, aproveitem o seu prestígio respeitável para chegar ao objetivo deles?”

 

Schaeffer, indignado: “Eu não nasci ontem. Se tentarem me manipular, levanto e vou embora. Eles não vão correr o risco”.

 

Quando Schaeffer chegou a Berlin ele foi recebido com muita fanfarra. Títulos, dinheiro e honrarias sem fim. E os nazistas imediatamente passaram a usá-lo. Faziam ele dizer que não era anti-semita e que tinha bons amigos judeus.
Todas as vezes em que havia um massacre, Schaeffer era enviado para dizer que era um “exceção pontual”, que não ocorreria novamente. Quando as notícias de rearmamento alemão surgiram, Schaeffer escreveu um artigo sobre o grande desejo de paz mundial de Hitler.
 

Depois de dois anos em Berlin, quando Schaeffer já não tinha tanto prestígio e não era mais útil, ele foi liquidado e desapareceu sem deixar rastros.

 


 

Para fechar, Drucker escreve. “Os homens tornam-se instrumento do mal quando, como Hensch, acham que podem dominá-lo com a sua ambição, e como Schaeffer, juntam-se ao mal para evitar mal pior. Sempre me perguntei qual dos dois causou mais prejuízos – o Monstro ou o Cordeiro – e qual o pior pecado, o da busca por poder de Hensch ou do orgulho e arrogância de  Schaeffer?”

 


 

Este foi um resumo bem simplificado do texto completo, que se encontra no “Adventures of a Bystander”.

 

Nota: o “Adventures of a Bystander” é uma raridade. Comprei num sebo, no centro de SP, há uns 15 anos atrás. Hoje, temos a internet. Mas a versão pirata na internet é de qualidade horrível, ilegível.

10.000 sapatos para o pé esquerdo e zero para o pé direito

Conta uma história que, na Rússia comunista, uma fábrica de sapatos tinha uma meta de produção, de digamos 10.000 sapatos por mês.

Um dia, uma das máquinas quebrou, e agora eles só conseguiam produzir o pé esquerdo do sapato. Eles não iriam conseguir consertar a máquina sem perder a meta, o que significava castigo para todos: o diretor seria executado, o gerente iria para trabalhos forçados na Sibéria, o supervisor seria rebaixado para um agricultor numa fazenda coletiva, etc…

Qual foi a solução adotada? Ora, eles eram cobrados pelo volume de sapatos produzidos. Deveriam produzir 10.000 sapatos, e foi o que fizeram: produziram 10.000 sapatos para o pé esquerdo, e zero sapatos para pé direito, e consequentemente zero pares úteis de sapatos.
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Esta história é só uma ilustração da Lei de Goodhart: “Quando uma métrica torna-se uma meta, esta deixa de ser uma boa métrica”.

Quando se olha somente para um número e tenta-se atingi-lo a qualquer custo, valendo jeitinhos cá e lá, o tiro tende a sair pela culatra. Afinal, a regra básica da Economia é: “Pessoas respondem a incentivos”.

Uma das formas de se evitar isto é não ter metas tão rígidas assim, deixar uma margem. E não ter metas focadas num único objetivo local.


Se a história acima é apenas ilustrativa, a história a seguir não é.

O “Grande Salto para a Frente”, ocorreu entre 1958 e 1961 na China comunista, sob o comando de Mao Tsé Tung, e foi um dos episódios mais tristes da história da humanidade, resultando em mais de 27 milhões de pessoas mortas por inanição.
Foram várias as iniciativas catastróficas dos comunistas, mas vamos focar em duas.


Produção de Aço
Uma das metas do “Grande Salto” era a de fazer a China ter a maior produção de aço do mundo. Enquanto a Inglaterra e os Estados Unidos tinham grandes usinas siderúrgicas para a produção de aço, a estratégia chinesa era de ter usinas de quintal, pequenas o suficiente para serem operadas por camponeses simples, em todo o território chinês. Mao Tsé implantou milhares dessas micro-usinas, e para cada uma delas havia uma meta rígida de produção de aço.

 

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Fornos de quintal

Para produzir aço, é necessário minério de ferro e carbono. Minério de ferro tem que ser extraído de minas. O carbono vem da queima de florestas. Mas minério de ferro não existe em qualquer lugar, o que obrigou os camponeses a utilizar sucata. E isto também causou uma devastação das florestas, utilizadas para a produção de aço. Com o passar dos meses, a sucata foi acabando, assim como as florestas. Mas não as metas. Devido a números irreais, inflados por burocratas, supostamente a política de produção de aço em micro-usinas estava dando muito certo, o que fez com que as metas fossem aumentando, mês após mês.

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Os camponeses, sem sucata para alimentar os fornos, passaram a usar qualquer produto que tivessem em casa e que fosse de metal: a enxada para cultivar o solo, maçanetas das portas, garfos e facas. Também sem florestas para queimar, passaram a queimar o que tinham: cadeiras, portas, mesas. Ou seja, passaram a destruir valor, a fim de cumprir a meta imposta pelo governo: transformo o meu ferro de passar roupa em aço, e lamentavelmente um aço de péssima qualidade, pela produção ser caseira.


Agricultura
Outra das metas era de revolucionar a agricultura. Isto seria conseguido com novas técnicas de plantio, muito esforço da população, e caça a pássaros que atrapalhem a agricultura. Esta nova técnica de plantio era a de plantar a semente bem fundo, a até 2 m de profundidade. O esforço da população era a de plantar, cuidar, e também a de ficar espantando os pássaros.

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Camponeses trabalhando à noite

Primeiro, que esta técnica de plantio não funcionou, pura e simplesmente. Entretanto, ninguém tinha a coragem de dizer isto a Mao Tsé, sob pena de perder a cabeça. O que os burocratas faziam era reportar números fictícios, dizer que a agricultura estava muito mais produtiva do que antes. E isto fazia com que a meta de produção agrícola subisse, mês após mês.

Houve uma grande redução no número de pássaros devido a esta caça desenfreada a eles. Mas os pássaros comem outros insetos, que acabaram proliferando desenfreadamente, atacando o pouco da produção agrícola que tinha sobrevivido à desastrosa técnica revolucionária de plantio.

Diante das altas metas de produção, é natural que os camponeses protestassem. Mas os oficiais comunistas eram rígidos, chegando a torturar e matar os que não conseguissem cumprir a cota de produção.

 

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O resultado disto foi uma das maiores fomes já vividas por um país. Uma devastação maior do que uma guerra provocaria.


Este é o exemplo mais triste que conheço da Lei de Goodhart. Portanto, critico muito quem olha só para números e metas, e cobra mais números e mais metas, e tudo isso sem sair do seu escritório.

Há inúmeras fontes na internet sobre o “Grande Salto para a Frente”: vídeos, textos, depoimentos, fotos. Vale a pena conhecer mais.

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Leap_Forward

Ikkyu e o Vaso que morreu

Ikkyu e o Vaso que morreu
Conta uma lenda antiga japonesa que havia um monge chamado Ikkyu, que era muito sábio.
Desde muito pequeno, ele já apresentava sinais de uma inteligência aguda.
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Quando Ikkyu era pequeno, ele quebrou um vaso de seu mestre budista. Era um vaso extremamente valioso, que o mestre muito prezava.
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Quando o mestre chegou ao templo, Ikkyu perguntou: “Mestre, é verdade que todos têm que morrer?”
Mestre: “Sim, este é o destino inevitável de todos”
Ikkyu: “Mesmo se a gente amar muito, não tem um jeito de não morrer?”
Mestre: “Mesmo a gente amando muito, um dia vai morrer”
Ikkyu: “Mestre, o seu vaso morreu!”

Moral da História: Há várias formas de contar uma notícia ruim…
Veja também: A verdade e o Conto

Buracos negros, o início do tempo e o cérebro aprisionado

Uma breve história do tempo

 

Existe um cérebro, aprisionado num corpo inválido, que sonhou com o começo do universo.


 

 

 

No início, houve uma explosão, um Big Bang, que deu origem ao espaço e ao tempo.

 

BigBang

O universo começou a se expandir e a resfriar. Do resfriamento da energia, começou a surgir a matéria. Da matéria, surgiram as estrelas e planetas.

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As estrelas têm um ciclo de vida. Elas começam pequenas, e vão crescendo até virarem gigantes vermelhas, onde é o seu ápice. Daí, começa a decadência, se transformando em anãs vermelhas, depois em anãs brancas, até morrerem agonizantes, se transformando em um buraco negro. A morte de uma estrela é tão poderosa que suga tudo o que estiver ao redor. Nem a luz escapa.

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Isto não é um delírio qualquer. É uma teoria extremamente respeitada, escrita por um dos maiores cientistas dos últimos tempos.

 

E o cérebro aprisionado num corpo inválido é o de Stephen Hawking.

 

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O universo numa casca de noz

 

Hawking tem problemas neuro-motores que paralisam todos os músculos de seu corpo. Ele necessita de assistência ambulatorial 24 horas por dia, para fazer absolutamente tudo: comer, tomar banho, trocar de roupa, deitar, trabalhar, tomar sol, sair.

 

Hawking não consegue falar. Para se comunicar, Hawking usa um computador que capta o movimento de sua bochecha. Um cursor vai se movendo no teclado. Ele escolhe a primeira letra, e vão surgindo opções para a palavra inteira, similar a quando escrevemos num smartphone. Depois de montar uma frase inteira, ele usa um sintetizador de voz para pronunciar o que está escrito. Pode demorar vários minutos para escrever uma frase completa.

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Hawking teve que desenvolver uma capacidade de processar mentalmente fórmulas matemáticas e visualizar equações, uma vez que não conseguia escrever. Talvez por isso, suas aulas têm tantas analogias com coisas do cotidiano:

 

“Estar próximo a um Buraco Negro é como estar nas Cataratas do Niágara em uma canoa. Você consegue fugir se remar rápido o suficiente, mas se estiver muito próximo, é o fim. À medida que vai se aproximando, a correnteza torna-se mais forte.”

 

Foi assim, escolhendo cada letra com a bochecha, e visualizando equações, que ele escreveu diversos livros sobre buracos negros, explicações sobre o Big Bang, teorias sobre o início dos tempos. Escreveu e foi co-autor de mais de 10 livros, diversas aulas, vários filmes e dezenas de artigos, indo do extremamente acadêmico ao extremamente didático.

 

O livro “Uma breve história do tempo” vendeu mais de 10 milhões de exemplares em 20 anos, introduzindo ao leitor leigo o mundo da cosmologia. É um dos marcos da divulgação científica.

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Epílogo

 

As pessoas (incluindo os autores deste texto) vivem reclamando que não têm tempo, energia, recursos para lutar por seus objetivos. Nesses momentos, Hawking vem à lembrança.

 

Stephen Hawking não consegue utilizar sua mãos nem seus pés. Não consegue falar, não tem vida própria. Mas, mesmo assim, conseguiu ser um dos maiores cientistas e um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos.

 

Hawking é a prova de que as limitações estão em nossa mente, e não no corpo.

 

 

 

 

Arnaldo Gunzi

 

Colaboração do meu amigo João Silva

 


 

 

 

Vídeos e links relacionados

 

http://www.hawking.org.uk/

 

https://www.youtube.com/watch?v=UErbwiJH1dI

 

 

 

 

 

 

 

A Teoria de Tudo

 

 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222221/trailer-19540179/

 

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