Um tango na bela e decadente Buenos Aires

Dizem que um tango é um pensamento triste que pode dançar.

Estive alguns dias na Argentina. Buenos Aires é uma cidade lindíssima, com uma cultura fantástica. Com certeza é um destino turístico que vale a pena.

Foto: Teatro Colón

É uma cidade com ar nobre, porém, decadente… É como uma bela senhora rica e culta, mas que perdeu a sua fortuna. (O oposto da China, que seria um novo-rico com hábitos da época de escassez, como lutar com unhas e dentes por cada centavo).

A foto ao fundo é a El Ateneo, uma antiga ópera transformada em livraria. Mais ou menos como a livraria Cultura do Cine Vitória, no Rio de Janeiro (que já fechou, diga-se de passagem). Buenos Aires tem diversas livrarias, teatros, espetáculos de tango.

Foto: El Ateneo

O Porto Madero é uma região nova e bela, repleto de restaurantes. O Teatro Colón é uma réplica de um teatro europeu, imponente, construído com muita plata, como disse o taxista. A região da Florida, para fazer compras etc.

A cidade tem edifícios imponentes, monumentos, uma bela arquitetura, porém, ao mesmo tempo, são prédios nitidamente velhos, marcados pelo tempo. Também é comum ver mendigos na rua, mais ou menos como nas grandes metrópoles brasileiras.


Foto: Porto Madero

Tentei trocar reais por pesos argentinos no Brasil. Não encontrei casa de câmbio, no Aeroporto de Guarulhos, que tivesse pesos. É moeda fraca. Moeda fraca queima nas mãos, você deve passar para frente o quanto antes. É prejuízo na certa, por conta da inflação.

Na Argentina, o preço de referência de itens caros, como imóveis, é dolarizado. E, no comércio, eles aceitam dólares, o dólar vale ouro – turistas devem ficar atentos à taxa de câmbio, é normal darem uma roubadinha.

O meu cartão de crédito não passou em vários lugares. Nem todo mundo lá aceita cartão com chip. O sistema bancário brasileiro é avançado, no mundo.



Foto: Restaurante & Gala en el Tango

Carne e vinho e alfajores são o melhor da cidade. O argentino come muito, come bem, bebe muito, bebe do melhor vinho, nos melhores restaurantes e nas mais belas cafeterias que uma cidade pode oferecer. Eles têm alfajores espetaculares. Qualquer outra coisa, produtos industriais, roupas, tudo é mais caro e em menor variedade do que teríamos no Brasil.

Os sindicatos são muito fortes, e os próprios trabalhadores costumam se mobilizar quando não acham a situação justa. O noticiário estava falando de greve do metrô (chamado de Subte). O Uber também enfrenta problemas, por conta da resistência dos taxistas. Já o Cabify funciona normal, eles conseguiram autorização para operar.

Há cidades industriais que têm economia, mas não tem cultura (ex. Cubatão, quem tem dinheiro vai para Santos). Buenos Aires é o oposto, tem cultura, mas não tem economia.

A Argentina é um país enorme, com grande criação de gado, soja, trigo, recursos naturais, população alfabetizada e culta. Já foi a sexta maior economia do mundo, com padrão de vida comparável à Europa.

Muitas são as causas do declínio argentino: descontrole de gastos estatais, déficit da previdência, inchaço do setor público, pouca produtividade da indústria, populismo exacerbado, problemas que também conhecemos de perto. Outra razão é que industrialmente foi superada por outros países, como o próprio Brasil e a China (esta desindustrializou o mundo todo).

Com o país em recessão há 3 anos, Macri certamente vai perder, e a Kirchner, retornar ao poder. Provavelmente, ela vai adotar medidas de curto prazo, anestésicos que não vão resolver os problemas estruturais do país, e médio prazo os problemas voltarão à tona novamente.

Fica o alerta para o Brasil: gerar riqueza real, controlar gastos, proteger a sua moeda, criar um futuro para as próximas gerações.

Trilha cinematográfica: Perfume de mulher, tango “Por una cabeza”

Um perdido entre mundos

Eu não consegui responder a uma pergunta simples do meu amigo Bruno Magro: Você se sente brasileiro ou japonês?

Sou da terceira geração de imigrantes japoneses no Brasil. Os meus avôs vieram para cá há uns 100 anos atrás. Meus pais nasceram no Brasil, porém num Brasil extremamente diferente do atual.

Eu gostaria de falar que sou brasileiro, mas não dá. A resposta é difícil – não me sinto completamente em nenhum dos mundos. Para o brasileiro, sou japonês – isto é notório, via piadinhas e apelidos principalmente na escola primária. Semana passada, até um mendigo na rua me zuou: “O japa, me dá um sushi aí”.

Foto: Kasato Maru, o primeiro navio de imigrantes japoneses no Brasil

Para o japonês (do Japão), sou brasileiro, os laços culturais que tenho são poucos e descendem de uma tradição de 100 anos atrás que não existe mais – aliás, paradoxalmente no Japão é melhor ser um estrangeiro completo do que um descendente de japonês que mal sabe falar “bom dia” na língua nativa.

O Bruno, descendente da terceira geração de italianos, tem os mesmos sentimentos… imagino que muitos descendentes de imigrantes no Brasil também passem por isso.

Este conflito começa com os primeiros imigrantes de 100 anos atrás. Eles saíram dos países de origem em crise econômica, passando fome em muitos casos, em busca da terra prometida, a terra que tudo dá, a cornucópia de fortunas. A propaganda prometia fartura e riqueza nas terras tropicais do Brasil…

Foto: Monumento em homenagem aos 80 anos da Imigração Japonesa no Brasil, na Av. 23 de maio, em São Paulo – obra de Tomie Ohtake

No Brasil, no começo dos anos 1900, as grandes fazendas estavam em busca de substitutos aos escravos, libertos oficialmente alguns anos antes, porém com o tráfico já restrito e proibido há muitas décadas.

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram em 1908, com muitas levas posteriores.

A assimetria de informação e de interesses foi um verdadeiro choque de realidade para os imigrantes pioneiros. A realidade era extremamente mais dura do que a esperança. Domar a terra, cuidar do plantio e colher era tão extenuante quanto em qualquer lugar do mundo.

Os senhores das terras, acostumados com escravos, arrumavam formas de deixar os trabalhadores com o mínimo possível, normalmente via dívidas de alimento, moradia, roupas e equipamentos.

Não foram poucos os imigrantes que esperavam ficar 5 anos no Brasil, enriquecer e retornar ao país de origem. De 5 anos, ficaram 7, 10, 15, casaram, tiveram filhos, que tiveram outros filhos, e acabaram ficando 80 anos, até o fim da vida, sem acumular fortuna alguma, na terra prometida em que plantando tudo dá.

O detalhe é que eles ficaram todo este tempo sempre de malas prontas para voltar ao país de origem, quando surgisse alguma oportunidade.

Ao invés de oportunidades, o que houve na época foi muita turbulência. A Primeira Grande Guerra, 1914 – 1918. A grande depressão, 1929, afundou a economia mundial. A ascensão do nazismo e Segunda Grande Guerra, de 1939 a 1945, em que alemães, italianos e japoneses faziam parte do “eixo do mal”. Depois disso, era tarde demais para retornar, além do que os países envolvidos estavam devastados.

Um efeito é que poucos dos imigrantes originais abraçaram completamente a cultura nativa. Na cabeça destes, o bom mesmo era o país de origem, a nação-mãe, não este lugar inóspito (e transitório) que os tratara tão mal. Este sentimento passou para os filhos, junto com todas as dificuldades de adaptação, e, com menor intensidade, para os netos.

Foto: São Paulo Shimbun. Jornal em japonês, para os japoneses que aqui viviam. Circulou até 2018

Demorei 30 anos para entender a intersecção de mundos em que vivo. Dois exemplos: linguagem e culinária.

Sobre a linguagem. Meus parentes falam um dialeto esquisito de japonês de 100 anos atrás misturado com português. É uma mistureba com elementos culturais de ambos os mundos. “Kono toalha wa sugoi encardido desu” = “Esta toalha está muito encardida”. As línguas evoluem com os povos, a língua japonesa de hoje não é a mesma dos imigrantes. Ninguém é capaz de compreender tal dialeto, apenas os descendentes.

Culinária. Minha mãe fazia, todos os dias, arroz japonês (aquele do sushi, do oniguiri) com feijão carioca. Sempre achei extremamente normal, até começar a perceber que arroz japonês não faz parte da cultura brasileira, e que feijão não faz parte da cultura japonesa.

Comentário do Bruno. A nonna dele costumava fazer macarrão com feijão, na mesma linha de mistureba de culturas.

E outro comentário do Bruno: o macarrão com feijão é bom demais, é de dar água na boca, a melhor coisa do mundo!

E é verdade, o arroz japonês com feijão é melhor coisa do mundo! É bom demais.

Eu sou o que sou. Não dá para mudar. O meu mundo é este, ambos os mundos, não um ou outro. O que devemos fazer é abraçar o melhor da cultura em que estamos, sem esquecer das tradições que fizeram o que somos hoje.

Somos as únicas pessoas no planeta inteiro com o privilégio de apreciar o macarrão com feijão e achar delicioso, somos a transição entre mundos diferentes e entre gerações tão distintas.

Para fechar, uma frase do grande astrônomo e escritor Carl Sagan:

“Na imensidão do espaço e na vastidão do tempo, é um prazer te encontrar neste local  e nesta época”.

Trilha sonora: Kon-Nichi Wa Akachan

Alguns links:

Base de dados para procurar o navio em que os antepassados chegaram: http://www.museubunkyo.org.br/ashiato/web2/imigrantes.asp

Museu histórico da imigração japonesa.

http://www.museubunkyo.org.br/acervo/index.html

Thomas Carlyle e a Teoria do Grande Homem

“A história pode ser amplamente explicada pela biografia dos grandes homens”.

Esta é a “Teoria do grande homem”, do historiador e escritor escocês Thomas Carlyle, 1795-1881.

Grandes líderes são inatos. Liderança não é uma habilidade adquirida. Grandes líderes são abençoados com inspiração divina e as características corretas, e estes fazem a diferença nos rumos da humanidade.

Ele identifica seis tipos de heróis:

  • Divindade, como Odin
  • Profeta, como Jesus
  • Poeta (como Shakespeare)
  • Sacerdote (como Luther King)
  • Homem de letras (como Rousseau)
  • e Rei (como Napoleão)

A liderança é inata, ou a pessoa é apenas um fruto do seu tempo? O líder faz mesmo a diferença, ou o time teria chegado ao mesmo resultado sem a sua ajuda? Como sempre em filosofia, há uma ideia diametralmente oposta e defendida de forma igualmente sólida por outros gigantes do pensamento, como Herbert Spencer.

Dois exemplos de líderes me vêm à cabeça. São bem posteriores à época de Carlyle, porém ilustram muito bem a teoria.

Adolf Hitler assumiu o comando de uma nação destruída pela Primeira Guerra, devastada pela hiperinflação e desemprego, e ditou os seus rumos em direção à um conflito intercontinental…

Haveria uma Segunda Guerra Mundial sem Hitler? Algum outro líder seria capaz de mobilizar a Alemanha para uma guerra?

Hitler planejava uma guerra rápida, anexar alguns estados vizinhos, consolidar sua posição e se fortalecer antes de continuar a sua estratégia de dominação. Após um início avassalador, em 1940, a Europa inteira tinha caído (como França, Polônia), a Itália era aliada do Eixo, a URSS tinha feito um tratado de não-agressão, os EUA não tinham entrado na guerra. Hitler tinha triunfado.

Somente uma nação se opunha à Alemanha na época, e esta era a Inglaterra. E, na Inglaterra, um homem foi ferrenho opositor à Hitler: Winston Churchill.

Havia duas opções: fazer um tratado de paz com a máquina de guerra alemã (posição defendida por Lord Halifax) ou continuar a oposição para deter de uma vez por todas o império do Eixo (posição defendida por Churchill). Ambos, Halifax e Churchill, concorriam ao cargo de primeiro ministro do Reino Unido.

Churchill venceu Halifax, a Inglaterra resistiu ao avanço nazista, os EUA entraram na guerra no ano seguinte, e o tratado de não-agressão com a URSS foi quebrado.

Sem Churchill, Hitler teria tido um enorme triunfo, e certamente o mundo seria muito diferente do que é hoje. Talvez, ao invés da União Europeia, tivéssemos até hoje o Terceiro Reich.

Ou não? Será que teriam surgido outras pessoas equivalentes a Hitler e Churchill?

Nunca saberemos…


Fontes e links:

https://en.wikipedia.org/wiki/May_1940_war_cabinet_crisis

A obra de Carlyle é o livro “On heroes, hero-worship and the heroic in history”, de 1841.

https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Carlyle

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_man_theory

https://www.verywellmind.com/the-great-man-theory-of-leadership-2795311

http://history.furman.edu/benson/fywbio/carlyle_great_man.htm

Index filosófico: https://ideiasesquecidas.com/index-filosofico


Jared Diamond e Geografia

Três recomendações de livros do fantástico autor americano Jared Diamond, 1937 – presente. Os três tratam de história, antropologia e geografia.

Armas, Germes e Aço

Este livro o tornou famoso mundialmente. Ele explica o motivo pelo qual a Europa e outros países das “latitudes sortudas” conseguiram atingir o nível atual de desenvolvimento, e outras nações, não. Ele apresenta argumentos intrigantes, baseados em muitas evidências.

O Terceiro Chimpanzé

Fala sobre a evolução humana. O primeiro chimpanzé é o chimpanzé mesmo. O segundo, o chimpanzé pigmeu. E o terceiro, o ser humano. Há pouca diferença entre o DNA dos três. Por que o ser humano se sobressaiu? Este é um livro sobre evolução, sexualidade e antropologia.

Upheaval

O mais novo livro, Upheaval (tradução: revolta ou crise) foi lançado há pouco tempo. Fala como alguns alguns países lidaram com crises e se tornaram o que são hoje. Conta trechos resumidos da história, cultura e implicações que têm até o presente, de países como a Finlândia, Japão, Alemanha e outros. É uma leitura fluída e extremamente enriquecedora. Vale muito a pena, aliás, todos os três valem muito a pena.

Diamond tem um conhecimento enciclopédico, acumulado durante os seus 82 anos de vida. Por outro lado, dada a sua idade, é improvável que continue escrevendo livros de tamanha qualidade. Vamos aproveitar enquanto é tempo.

Moais e moais kavakava

O colapso da Ilha de Páscoa

Estive a conversar com meu amigo Darlon Orlamunder sobre o colapso da Ilha de Páscoa, destino turístico de uma de suas férias culturais. A Ilha de Páscoa é famosa pelas suas estátuas, os moais.

Esta ilha foi do ápice até o colapso, pelo esgotamento dos recursos naturais.

Estes são trechos de um livro bacana, porém melancólico: Colapso, do excelente historiador Jared Diamond – o mesmo que escreveu o best-seller “Guns, germs and steel”.

Ele descreve o colapso de civilizações antigas e modernas, entre elas a Ilha de Páscoa, que foi de uma população de 30 mil pessoas para menos de 1500.

Os seres humanos começaram a chegar na ilha por volta de 900 d.C, e uma população se formou ali. Não há relato escrito, porém os arqueólogos se baseiam em evidências coletadas, em diários de europeus que estiveram ali e na tradição oral do povo remanescente.

Os nativos formavam 12 territórios em diferentes pedaços da ilha.

Moais com olhos (todas as imagens aqui são da internet)

As famosas estátuas gigantes têm o nome de “moai”, e as plataformas de pedra em que elas ficam têm o nome de “ahu”. Cerca de 300 ahu foram identificados, e 113 têm moais, sendo 25 especialmente largos e elaborados.

A plataforma de pedra é o ahu

O basalto da ilha é bastante adequado para esculturas, o que facilita a construção dos moais.

Mas o que causou o colapso da ilha?

Primeiro, evidências.

A análise dos restos de lixo mostram que peixes como atum começaram a sumir da dieta, assim como diversas espécies de pássaros foram extintos na ilha – pela ação humana e desmatamento.

Especialmente forte foi o desmatamento. A madeira era utilizada para cremar corpos, fazer canoas, e áreas foram limpas para plantações. Além disso, a entrada de ratos clandestinos pelas viagens marinhas ajudou a destruir as palmeiras da ilha.

Outro fator que não ajudou em nada era uma espécie de competição entre as tribos, para ver quem erigia as estátuas maiores – exigindo mais madeira, cordas e alimentos para tal empreitada.

O desmatamento começou após a chegada humana em 900 d.C., e acabou por 1700, quando a concentração humana já havia colapsado.

Os impactos ambientais geraram consequências como a fome, declínio populacional agudo, culminando no canibalismo.

A fome é graficamente confirmada pela proliferação de estátuas chamadas moai kavakava, mostrando seres humanos famintos com costelas à mostra.

Um moai kavakava

Tradições orais mostram que os habitantes eram obcecados pelo canibalismo, sendo que um xingamento comum era algo do tipo: “Tenho a carne de sua mãe nos meus dentes”.

Por que o caso de Páscoa é tão singular?

Diamond sustenta, após longa argumentação, que a ilha de Páscoa é seca e fria, longe do Equador, além do tipo de solo não ajudar.

Tudo isto, aliado à superexploração de seus recursos, levou ao colapso desta civilização.

Esta é uma grande história de alerta a nós, em termos de desmatamento e superexploração de nossos recursos naturais.

Devido à globalização, todos os países do mundo compartilham dos mesmos recursos, afetando todos nós.

A nossa ilha é o Planeta Terra inteiro, e, tal qual os habitantes de Páscoa, não temos para onde fugir em caso de necessidade. Se uns milhares de nativos com ferramentas de pedra e músculos conseguiram acabar com a Ilha de Páscoa, o que vários bilhões de pessoas com ferramentas modernas e máquinas monstruosas podem fazer?

Pense nisto nas próximas férias à Ilha de Páscoa!


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://en.wikipedia.org/wiki/Moai_kavakava

O que faz de Star Wars um Star Wars?

Desde que me conheço como gente, referências a Star Wars sempre estiveram no ar: o temível Darth Vader, a música contagiante da marcha imperial, a Força, a ordem dos Jedi, a determinada Princesa Leia, o sábio e icônico Mestre Yoda, um homem cachorro esquisito chamado Chewbacca co-piloto do ator Harrison Ford numa espécie de disco voador chamado Milenium Falcon, Jabba, o Hutt…

O que faz de Star Wars um sucesso fenomenal? Quais as diferenças para um filme qualquer de ficção científica? Qual o segredo de seu sucesso?

Sendo uma das séries mais populares de todos os tempos, é natural que esta pergunta tenha sido feita e refeita ao longo das últimas décadas. Este artigo é um apanhado das ideias mais interessantes. E o meu interesse é na parte screenwriting da coisa, a fim de aperfeiçoar este talento.

Antes de qualquer coisa, Star Wars não é um filme, mas sim um tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna.

Listo aqui as duas principais explicações, sendo que a primeira demandará maior tempo:

A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos
B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação


A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos

George Lucas, o criador da saga, teve enorme influência do autor Joseph Campbell, com o conceito conhecido hoje como “Jornada do Herói”. George Lucas era obcecado por este trabalho, e ele mesmo admitiu que Campbell foi o seu Yoda.

Campbell, um professor de literatura, estudou um grande número de histórias de mitologia ao redor do mundo. Na época em que ele escreveu o livro, teve grande influência do psicólogo Carl Jung.

Segundo a crença destes autores, havia uma espécie de padrão universal de comportamento, chamado de arquétipo. Por isso, todas as histórias da mitologia teriam alguma espécie de padrão, e foi isto que Campbell explicitou em seu livro, chamando o conceito de Monomito.

De modo geral, há três fases: a partida, a iniciação e o retorno. O herói começa a jornada em casa, sai para se aventurar no mundo exterior, encontrando aliados e inimigos, superando desafios de dificuldade crescente, e depois retorna ao lar, transformado e triunfante, fechando o ciclo.

A jornada do Herói de Campbell tem 17 etapas, mas listarei apenas 11 para simplificar o conceito. Tomo como referência o primeiro filme da série, Star Wars, de 1977. Este foi rebatizado décadas depois para Episódio IV – Uma nova esperança.

Capítulo I: A Partida

1 – O chamado da aventura:
Um garoto, Luke Skywalker, vive no planeta-deserto Tatooine. É um garoto diferente, que quer sair daquele lugar e explorar o universo, entretanto, o tio Owen precisa dele para cuidar da colheita.

O chamado da aventura vem quando ele encontra o robô R2D2, que está fugindo do Império com uma mensagem: “Help me, Obi-Wan Kenobi. You are my only hope”



2 – A recusa do chamado
Luke procura o velho Ben Kenobi, e inicialmente, ele recusa a se juntar à rebelião. Ele tem obrigações para com o tio. Além disso, ele era um simples camponês, como alguém assim poderia encarar o poder do Império?

O garoto fica sabendo através de Kenobi que o pai dele fora um mestre Jedi. Ao retornar à sua casa, Luke encontra o lugar em ruínas, e descobre que o Império assassinou seus tios.

3- O auxílio sobrenatural
O garoto aceita se tornar um Jedi, como o seu pai. Obi-Wan explica sobre a Força, entrega a ele o sabre de luz que fora de seu pai, e começa o treinamento para a próxima etapa da jornada.
Nota: o lendário Mestre Yoda aparece a partir do segundo filme. No primeiro, Obi-Wan é o seu mentor.

4 – A passagem pelo primeiro limiar
O primeiro teste para Luke é no espaçoporto Mos Eisley, onde Ben Kenobi recruta o auxílio de dois importantes aliados na jornada, o piloto Han Solo e o co-piloto Chewbacca.


No espaçoporto, há uma cena em que um hooligan com nariz de porco literalmente impede a passagem de Luke, querendo briga. Obi-Wan interfere, e eles atravessam este primeiro limiar, deixando Tatooine na icônica Milenium Falcon.

5 – O ventre da baleia
Os nossos heróis tinham como destino o planeta Alderaan. Mas, no momento em que eles a alcançariam, a Estrela da Morte destrói o planeta inteiro.

Após uma série de eventos, os nossos heróis acabam sugados para dentro da Estrela da Morte. Campbell chamou o estágio de “ventre da baleia”, e metaforicamente, eles acabam dentro do ventre da monstruosa construção capaz de destruir um planeta.

Capítulo II: A Iniciação

6 – O caminho de provas
Dentro da Estrela da Morte, eles enfrentam os stormtroopers e têm seus primeiros confrontos com Darth Vader.

7 – O encontro com a deusa
Luke e amigos resgatam a Princesa Leia de Darth Vader e se preparam para fugir a bordo da Milenium Falcon.

Um pouco antes da fuga, Luke presencia a morte de seu mentor, Obi-Wan Kenobi, pelas mãos de Darth Vader. Ele agora está maduro para seguir sozinho em sua jornada.

8 – A apoteose
Luke, Leia, Solo se juntam ao restante da rebelião, onde juntos enfrentam mais uma série de desafios. O plano é atacar o ponto fraco da Estrela da Morte, revelado no esquema arquivado no robô R2D2.

Nenhum dos outros aliados consegue sucesso neste ataque. As baixas são muitas, com o poderoso Darth Vader barrando todas as tentativas de ataque. A Estrela da Morte prepara o disparo final, que vai destruir para sempre a base rebelde…

Com o auxílio de todos os seus colegas, inclusive uma ajuda providencial de Han Solo, Luke consegue dar um único tiro certeiro no calcanhar-de-Aquiles da monstruosa contrução, que causa o colapso da mesma e salva a causa rebelde da destruição total.

9 – A bênção última
Para Campbell, esta é uma espécie de Morte e Ressurreição. O herói morre de seu mundo atual, e renasce em seu novo mundo. Este momento é quando Luke, segundos antes de seu tiro final, abandona a medição dos instrumentos de sua nave e confia plenamente na Força, lembrando dos ensinamentos de seu mentor Ben Kenobi. Somente com a Força é possível cumprir a missão.

Capítulo III: O Retorno

10 – A passagem pelo limiar do retorno
Luke retorna à base rebelde, sendo recebido pelos seus amigos com festa.
Na obra de Campbell, há uma representação deste limiar, na forma de um elixir. No caso, o elixir é o próprio sucesso da missão.

11 – Senhor de dois mundos
Luke retorna como o Senhor de dois mundos, agora conhecendo a Força, sendo recebido com honrarias pela Princesa e aliados.

George Lucas escreveu e reescreveu o roteiro inúmeras vezes, pensando nos detalhes, na narrativa e construção de seu filme.


B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação

O segundo grande fator do sucesso é o grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação.


A extrema imaginação na criação dos cenários e personagens. A Trilha sonora espetacular – não há quem não reconheça e não se deixe contagiar pelas mesmas. Por fim, os efeitos visuais e sonoros, sempre à frente de seu tempo.

Além disso, Lucas buscou uma série de fontes de inspiração.

De Akira Kurosawa, o filme “The hidden fortress” é narrado por dois personagens secundários, algo como o R2D2 e C3PO japoneses. Também se inspirou nos duelos de espada, e no ator favorito dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune. O capacete de Darth Vader é baseado num capacete samurai.

Das cenas de Velho Oeste, como a do bar no espaçoporto.

Ele se inspirou também em Flash Gordon, que também era no espaço, com naves, tinha a sua bela e forte princesa, etc.

Os personagens são tão icônicos que até roubam a cena. Darth Vader é infinitamente mais memorável que Luke Skywalker. Han Solo, o anti-herói, paquerador e durão, idem. Nem se fala do Mestre Yoda, que virou sinônimo de sabedoria. Até personagens secundários com pouquíssima participação, como Boba Fett e Jabba o Hutt são cultuados pelos fãs.

Mas Star Wars é diferente de um filme sci-fi. O tom não é de um filme futurista, mas sim de uma mitologia.

Não é uma briga de robôs que pode ocorrer num futuro distante. É uma história que ocorreu há muito muito tempo atrás, numa galáxia muito distante.

Não é um briga de Skrulls x Krees num universo paralelo aleatório. É a resistência obstinada de um pequeno grupo rebelde, lutando contra o poderio imenso de um Império! É a Força versus o lado Negro da Força, algo místico, mágico, espiritual que pode estar na vida de todos nós!

Tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna Star Wars é. Muito bem sucedida ele foi.


Para escrever este post, assisti (novamente) a trilogia original, a trilogia do Anakin Skiwalker e o primeiro filme da nova era, além de ler o Herói de mil faces do Joseph Campbell. Tarefas muito divertidas, diga-se de passagem.

E que a Força esteja com você!

Links:

https://www.amazon.com.br/Her%C3%B3i-Mil-Faces-Joseph-Campbell/dp/8531502942?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_52073337753_242620863014_pla-396816552426_c_

https://www.audible.com/pd/Screenwriting-101-Mastering-the-Art-of-Story-Audiobook/B0778Q1BHY?qid=1551523943&sr=1-1&ref=a_search_c3_lProduct_1_1&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=GH85VXN6AA5SWNX0DZZ4&

http://www.bbc.com/culture/story/20160104-the-film-star-wars-stole-from

http://www.moongadget.com/origins/flash.html

https://www.shmoop.com/hero-with-a-thousand-faces/summary.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hero%27s_journey

https://www.historyextra.com/period/modern/star-wars-why-did-the-film-make-history/

http://www.thecinessential.com/zachary/2018/4/5/the-hero-awakens-a-comparison-of-journeys-in-star-wars

Mais história do Brasil Imperial

Em complemento ao post anterior, seguem três boas dicas de obras audiovisuais sobre o Brasil Império.

  • Carlota Joaquina, a princesa do Brasil. Filme de Carla Camurati, produzido em 1995. É um filme bastante divertido, com Marieta Severo e Marco Nanini. É engraçado ver esses atores jovens, para quem estava acostumado com a atuação de ambos no seriado “A Grande Família”.


O Quinto dos Infernos, mini-série da Rede Globo, de 2002. É uma versão bem caricata e divertida da história. Marcos Pasquim, Betty Lago, Humberto Martim.
http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/minisseries/o-quinto-dos-infernos.htm


Em comum a todos eles, os personagens.

D. João, indeciso, covarde e corno, decidiu pela para o Brasil em 1808 – nunca iria resistir ao grande Napoleão Bonaparte. Porém, D. João era sábio a seu modo. Com ele, o Brasil em 13 anos sofreu mais transformações do que nos 300 anos anteriores.

Carlota Joaquina, a espanhola irascível, fogosa, volúvel, odiava o marido (e vice-versa), tentando alguns golpes de estado durante sua vida.

D. Pedro I, hiperativo, aventureiro, garanhão voraz sexualmente, foi aquele que deu o Grito da Independência montado num burro (e não num belo alazão, como o quadro de Pedro Américo).

Por fim, a Imperatriz Leopoldina, culta, educada, sensível, porém sem beleza física alguma, sofreu muito em meio à corte portuguesa. É lembrada com carinho pelo povo tanto do Brasil quanto de Portugal.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/