Para que serve o segundo turno das eleições?

Todas as vezes, nessa época do ano, vem a dúvida: para que serve o segundo turno das eleições?

Resposta simples: para termos resultados mais justos.

Resposta completa abaixo.

Imagine que um país chamado Wester tem três candidatos, o Star (Lobo), o Lannis (Leão) e o Targ (Dragão) praticamente empatados nas pesquisas. Só que um candidato, o Leão, tem 1% a mais que os demais, algo assim:

  • Lobo: 33%
  • Leão: 34%
  • Dragão: 33%

Resultado: Leão vencedor! Governa Wester pelos próximos 4 anos.

A questão é que a casa de Lannis tem uma rejeição extremamente alta: 66% da população. Os outros candidatos têm rejeição menor. O Leão sozinho, contra qualquer dos outros candidatos, perderia facilmente.

Como pode um candidato rejeitado por 66% da população ser eleito em primeiro lugar? Este é o paradoxo de Condorcet.

Paradoxo de Condorcet

Este paradoxo foi notado pelo marquês de Condorcet, no século XVIII.

Embora seja uma eleição democrática, ela pode levar à uma situação em que a maioria vai rejeitar.

Levando a situação ao extremo, imagine que há 100 candidatos, cada um com exatamente 1/100 dos votos e um deles com um único voto a mais. Este seria eleito com apenas 1% dos votos!

Para evitar este tipo de situação, existe o segundo turno. Os dois melhores colocados no primeiro turno passam por nova votação.

Eleições em dois turnos no Brasil é algo mais ou menos recente. Foi instituído na constituição de 1988. Antes disso, era turno simples.

Impossibilidade de Arrow

Chama-se de “voto útil” quando os eleitores deixam de votar no seu favorito, que não tem chance de ganhar, para votar no candidato menos ruim que tem chance de ganhar. Ex. Os eleitores do Lobo votarem em Targ no turno único, por este ter mais chances de vencer. E este tipo de comportamento também mostra o poder das pesquisas de opinião, de influenciar votos.

Entretanto, mesmo com dois turnos, o “voto útil” vai continuar existindo. Imagine vários candidatos fragmentando a esquerda, por exemplo. Pode haver voto útil para que o melhor candidato da esquerda vá para o segundo turno.

Em suma, eleições em dois turnos não são perfeitas. Nem em três, nem em quatro. Sempre é possível pensar em situações onde o paradoxo do voto ainda ocorre. E este é basicamente o Teorema da Impossibilidade de Arrow: não existe sistema de votação que seja 100% perfeito.

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/

Três reflexões sobre política: fogo contra fogo, cui bono e chimpazés

Moriori x Maori: a história de um massacre

A importância de combater fogo com fogo.

O povo Moriori ocupava a ilha de Chatam, tendo iniciado a colonização da mesma por volta de 1500.

Uma população de cerca de 2000 pessoas, em 9 tribos. Eles convergiram para ser uma comunidade pacífica, onde a não-violência imperava – era a Lei de Nunuku.

Em 1835, cerca de 900 invasores de um povo Maori chegaram à ilha, em duas ondas. Eles estavam fugindo de uma derrota em sua ilha natal. Os invasores chegaram armados com facas, porém, ainda assim estavam em menor número.

Os Moriori chegaram a fazer uma assembleia, com os mais novos querendo se preparar para a guerra. Porém, no final das contas, prevaleceu o pacifismo da Lei de Nunuku: tentariam dar apoio e conviver com os invasores.

Resultado: os Maori destroçaram os nativos – cerca de 300 morreram nas guerras iniciais, centenas morreram com abusos posteriores. Sobreviventes foram escravizados e proibidos de se reproduzir.

Foram como ovelhas servidas a lobos. É uma advertência de que devemos responder à altura quando necessário.


Cui bono

“Cui bono” é uma expressão em latim, que significa “A quem isso beneficia?”.

Os jogos do poder sempre são sempre difusos. Não se deixe levar pelas aparências, por palavras bonitas ou gestos falsos. Sempre se pergunte: “quem se beneficia?”

– Robert Green – Daily Laws


Chimpanzés e política

Um capítulo do livro “Estratégia: Uma História”, conta que chimpanzé são seres políticos, quase tanto quanto o ser humano.

Enquanto há abundância de recursos, não há muitos problemas. Mas, quando há escassez de alimentos, assimetria de recursos naturais ou disputa por fêmeas, há conflitos.

Há sempre um cálculo de risco de ataque x ganho da recompensa.

Um chimpanzé sozinho, por mais forte que seja, consegue vencer apenas um ou dois chimpanzés. Não se compara à força de um bando de dezenas de indivíduos. O chimpanzé que consegue liderar os outros é o que vai triunfar.

O comportamento do líder político é similar ao de sua contraparte humana, que segura e beija bebês no meio da multidão. Este deve agradar seus aliados, apaziguar partes conflituosas e coordenar ações.

Alguns links.

https://en.wikipedia.org/wiki/Moriori_genocide

Links da Amazon:

Armas, Germes e Aço https://amzn.to/3fA2Vje

Estratégia: Uma História https://amzn.to/3fr3njX

BibliOn, os Lusíadas e os deuses romanos

Estou testando o BibliOn, a biblioteca virtual de São Paulo, lançada há poucas semanas. Confira em https://www.biblion.org.br/.

É um aplicativo de celular que permite o empréstimo de e-books e audiobooks, após um cadastro. Podemos pegar emprestado um número finito de títulos por vez (dois, no momento), e ficar com este por 15 dias, após a qual, é devolvido automaticamente. Dá para pegar emprestado de novo, porém, respeitando uma fila – se outras pessoas já tiverem reservado, a prioridade é delas – como se fosse numa biblioteca com livros físicos.

É gratuito, afinal é uma biblioteca pública. Teoricamente é só para os moradores do estado de São Paulo. Não sei como ele faz essa verificação do local – talvez por IP? De qualquer forma, como moro em SP mesmo, estou dentro da norma.

Tem uma gama interessante de títulos, e em Português. Segundo o site, 15 mil livros. Em livro virtual, peguei “O fantástico mundo dos números”, de Ian Stewart, de matemática popular.

Sobre audiolivros, as opções são menores, uns 400 títulos. Peguei “Os Lusíadas – versão anotada”, como teste. O app funciona bem, está sendo uma boa experiência.

Tinha uma vaga lembrança dos Lusíadas. Estudei no segundo grau, e em época de vestibular. Como a gente é muito jovem nessa época, não tinha percebido alguns detalhes da obra, que quero explorar a seguir.

(Print da tela do app)

Algumas reflexões sobre os Lusíadas

“Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, é o épico português mais conhecido da história. Cheio de elementos míticos, como Dom Sebastião e o gigante Adamastor, canta sobre o desbravamento dos mares por Vasco da Gama e os bravos portugueses, o povo lusitano.

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Camões viveu por volta de 1500 e pouco, que também coincide com o momento da glória portuguesa nas grandes navegações.

Logo no início dos cantos, Camões cita um conselho de deuses do Olimpo, entre eles Júpiter, Vênus, Marte, Baco. Vênus toma partido dos portugueses, Baco, defensor do oriente, o oposto.

Ei, peraí. No ano 1500, a Europa toda é cristã. Ou muçulmana, no Oriente Médio. Esse negócio de deuses gregos e romanos já tinha acabado faz muito tempo. O imperador Constantino converteu o Império Romano ao cristianismo no ano 313 d.C. Ou seja, fazia mais de mil anos que ninguém dava bola para Júpiter, Netuno, Baco.

Mais uns capítulos para frente na obra, Camões cita que os portugueses foram recebidos em Moçambique pelos mouros. Apesar de cristãos, foram confundidos por muçulmanos até Baco induzir os nativos a descobrir a fé deles e os hostilizar.

Que salada. Mistura cristãos, muçulmanos, e a antiga fé pagã, greco-romana. Por que Camões faria isso?

Uma interpretação bastante utilizada é que Camões vivia o Renascimento na Europa, onde estava na moda resgatar os antigos valores clássicos greco-romanos. Além disso, os Lusíadas foi fortemente influenciado pelos antigos clássicos homéricos. Na Ilíada, alguns dos deuses, como Atena, ficam do lado dos gregos, outros como Ares tomam o partido dos troianos. Na Odisseia, que também é um épico de viagem marítima, a deusa Atena ajuda Ulisses, ao passo que Posseidon quer se vingar do herói, por ele ter cegado seu filho – o Cíclope.

A diferença é que, na época em que a Ilíada e Odisseia ocorreram (estima-se uns 700 a.C.), os deuses citados eram realmente deuses das crenças dos gregos, enquanto religiões como o cristianismo nem existiam.

Em resumo, imagine que os Lusíadas é um épico como a Ilíada, mas com portugueses como protagonistas e 2000 anos depois, e está tudo certo.

A história de Portugal e Inês de Castro

O canto prossegue, cantando sobre a história gloriosa de Portugal: reis antigos, feitos que ficaram na história, etc.

Achei muito interessante a história de Inês de Castro, que mistura romance, traição, horror e morte. Lembrava de ter vagamente ouvido sobre isso na época do vestibular, mas não dos detalhes.

O infante Pedro I era o princípe herdeiro de Portugal, e estava casado com Dona Constança. A Inês de Castro era de uma família nobre, e era dama de honra de Dona Constança. Só que Pedro gostava mesmo era da Inês, ao invés de sua esposa oficial, e todo mundo sabia que ele se encontrava com ela às escondidas.

Quando a esposa oficial, D. Constança, faleceu no parto do futuro rei D. Fernando I, o infante Pedro aproveitou a chance para se juntar com Inês de Castro, para desgosto do pai de Pedro, Dom Afonso IV, que não gostava da relação.

D. Afonso tentou casar Pedro, que rejeitava as propostas, enquanto Inês continuava a gerar filhos de Pedro (foram 4). Isso criava um problema futuro de sucessão – será que os filhos bastardos não poderiam tentar usurpar o trono do herdeiro oficial, no futuro? Game of Thrones total.

O rei D. Afonso tentou remediar a situação executando Inês de Castro, numa ocasião em que Pedro estava em viagem.

Obviamente, Pedro não gostou nada, e foram meses de conflito até tudo voltar mais ou menos à normalidade.

Alguns anos depois, em 1357, Pedro se tornou rei de Portugal. A primeira coisa que fez foi perseguir quem ajudou a executar sua amada Inês – mandou arrancar o coração dos algozes, enquanto ele assistia. Depois, mandou exumar o corpo de Inês, a vestiu como a sua rainha e fez o rito completo de coroação dela. Imagine uma grande festa, com um cadáver sentado na cadeira ao lado do rei, e com os convidados tendo que beijar a mão da rainha já falecida há anos. Daria um bom filme na Netflix.

Até hoje, utilizamos a expressão “agora Inês é morta”, para indicar que já foi, não adianta mais.

Os Lusíadas é o mais conhecido poema da literatura portuguesa, uma obra fantástica para ler e extremamente bela e inspiradora. Vale a pena ler e reler.

“Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.”

BibliOn: https://www.biblion.org.br/

O texto integral pode ser baixado em:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000162.pdf

Veja também:

http://www.dominiopublico.gov.br

https://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro

https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Lus%C3%ADadas

Scott x Amudsen: a conquista do Polo Sul

Recomendação de podcast, com dois gigantes: Malcown Gladwell (Outliers, David e Golias) e Tim Harford (O Economista Clandestino).

O tema: a corrida pela conquista do Polo Sul. De um lado, o britânico Robert Scott, de outro, o norueguês Roald Amudsen, no começo dos anos 1900.

Expedição de Amudsen – Fonte: https://www.scientificamerican.com/article/south-pole-discovered-december-14-1911/

Os exploradores tinham abordagens completamente diferentes.

  • Scott, herói badalado pela mídia, cheia de inovações mirabolantes (como utilizar pôneis)
  • Amudsen, low profile, pouco conhecido, chegou a dizer que ia ao Polo Norte para despistar atenção

Gladwell cita a semelhança de Scott com startup badalada do Vale do Silício, cheia de ideias e com enorme financiamento.
Porém, o dinheiro não vem sozinho. Com isso, opiniões, interferências, pressão. Exemplo é que o navio quase afundou, de tanta carga que levava.

Já Amudsen apenas queria chegar ao Polo Sul da maneira mais simples e eficiente possível – como se fosse um empreendedor desconhecido. Utilizou os tradicionais cães, para transporte de trenós, por exemplo.

Quem seria estúpido o suficiente para utilizar pôneis (morreram todos) no Polo Sul, quando o tradicional é utilizar cães? Talvez os mesmos que hoje proclamem as vantagens do blockchain para problemas que um banco de dados simples resolveria.

Amudsen venceu a corrida, no final das contas. Eu achei a analogia interessante, ainda mais vindo de dois grandes nomes do pensamento da atualidade.

Link: Podcast Cautionary Tales:
https://omny.fm/shows/cautionary-tales-with-tim-harford/how-would-you-dine-with-scott-or-amundsen-malcolm

Veja também:

Algumas boas ofertas do Amazon Book Friday

O Amazon Book Friday 2022 vai do dia 18/08 ao dia 22/08, com ofertas em livros diversos.

Seguem algumas recomendações.

Box George Orwell, com três livros (A Revolução dos Bichos, 1984 e Dentro da baleia).

https://amzn.to/3QTGmDF

Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman

https://amzn.to/3c3UD1M

Armas, germes e aço, de Jared Diamond

https://amzn.to/3QDfxUu

Roube como um artista, de Austin Kleon

https://amzn.to/3dHLL2s

Por fim, Storytelling com dados, de Cole Knaflic


https://amzn.to/3dFRWUC

Todos os livros acima são excelentes, e já comentei de boa parte deles neste espaço.

Boa leitura!

Veja também:

Fields of Gold e músicas infinitas à mão

Hoje em dia, temos uma quantidade tendendo a infinito de músicas à mão, via Spotify, Deezer e similares.

É tão fácil que as novas gerações nem sabem direito como era num passado não muito distante.

Lembro de um episódio, no começo da década de 90. Eu estava na casa de um primo, e juntos, fomos à casa de outro parente dele, um primo de segundo grau, bem mais velho que nós. O objetivo: este último tinha adquirido um belo aparelho de som novo, e poderia gravar uma fita cassete de músicas para nós.

Na casa dele, havia um aparelho de som, daqueles que tinham um número enorme de botões que ninguém sabia para que serviam. Conseguia tocar discos vinil, sintonizar rádio AM / FM e tocar fita cassete. O CD não existia nessa época (ou existia, mas não era popular ainda. Viria a ser uma revolução alguns anos depois).

(Imagem ilustrativa – peguei da internet – mas não era muito diferente disso)

O aparelho de som que tinha na minha casa também conseguia gravar fitas cassete, só que eu não sabia mexer, e além disso também tinha um elemento crucial: não tinha a música. Meus pais não tinham muitos discos em casa, e como pré adolescente que eu era na época, não tinha a menor condição de comprar música.

Eu e o meu primo passamos tipo uma hora ouvindo músicas e anotando as faixas que queríamos. Ao final deste período, o anfitrião pegou as listas e gravou, um cassete para cada um, preenchidos dos dois lados da fita. Era um processo longo, porque para gravar uma hora de música, era necessário tocar essa hora de música e ir gravando simultaneamente no cassete, não havia jeito de acelerar o processo (para efeito de comparação, downloadar via torrent é extremamente mais rápido).

Pois bem, voltando para casa, e pelos próximos 5 anos mais ou menos, toquei a fita cassete algumas centenas de vezes, frente e verso, devorando cada segundo gravado naquela fita magnética.

Uma das músicas do cassete, a que mais gostei e toquei, era a doce e bela canção “Fields of Gold”, de Sting. “You’ll remember me when the west wind moves, Upon the fields of barley”. Era possível dar fast forward e fast backward na fita cassete, a fim de posicionar a fita a tocar a música desejada – ou, de modo mais mecânico, colocar um lápis em um dos buracos do cassete e girar no braço.

Fast forward algumas décadas, hoje, temos a mesma versão de “Fields of Gold” de anos atrás, além de interpretações alternativas por outros cantores (tem uma da Eva Cassidy espetacular), e também versão puramente saxofone, via Youtube, Spotify, Deezer e concorrentes.

Porém, ao mesmo tempo que temos uma quantidade infinita de músicas, o valor individual de cada uma dessas acaba diluído, tendendo a zero. É uma conta matemática. Ninguém hoje vai perder tanto tempo quanto perdi décadas atrás para gravar uma dúzia de faixas e ouvir repetidamente por anos, então a atenção por cada música diminui.

Seja como for, convido o leitor a apreciar uma bela canção, usando as tecnologias mais atuais dos dias de hoje.

Trilha sonora: Fields of Gold – Sting

Youtube
https://www.youtube.com/watch?v=KLVq0IAzh1A

Spotify
https://open.spotify.com/track/22gLGCKbFKwmgZhrpVcnFb

A neblina na estrada do futuro

Como dirigir na neblina?

Lembro de uma vez, quando tinha uns 12 anos, que visitei a casa de um parente distante. No porão da casa dele, havia sua biblioteca particular: meia dúzia de estantes de livros diversos, além de diversas caixas espalhadas pelo chão, cheias de livros. Fiquei a tarde toda maravilhado, olhando para as capas e folheando aleatoriamente páginas velhas cheias de letras e poeira. Particularmente, achei fascinante uma apostila de cursinho, que condensava matérias como Matemática, Química, História e outros temas de vestibular.

É da mesma época o joguinho Enduro, de Atari. Um carro de corrida que deve ultrapassar outros carros. Na fase normal, é mais simples, dá para ver os demais carros à distância. Contudo, há uma fase em que surge uma neblina espessa, e só dá para ver os outros carros a uma curtíssima distância.

Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que seria no futuro, dos caminhos possíveis a trilhar. É como uma espessa neblina à frente, só dá para ver alguns poucos passos possíveis e ter uma leve ideia do objetivo final. O que já sabia era que eu que gostava enormemente de estudar, de livros e conhecimento. E de temas pragmáticos, que tinham aplicação concreta na vida real.

A neblina da guerra

O teórico de guerra John Von Clausewitz cunhou o termo “neblina de guerra”, referente à informação incompleta nas decisões dos exércitos. Decisões essas que podem mudar o destino inteiro de uma nação e da história.

Dois exemplos históricos.

1 – O novíssimo e poderoso navio de guerra britânico “Prince of Wales” foi enviado ao Oceano Pacífico, alguns dias após o Japão bombardear Pearl Harbour, em 1941. O Prince of Wales foi detectado por uma escolta japonesa, e decidiu retornar ao porto de origem, por segurança. Naquela época, não tinha GPS ou satélites, então encontrar um navio no oceano era um jogo de busca exaustiva, gato e rato.

No caminho, o navio recebeu um relato de atividade dos japoneses, em terra, e não resistiu à tentação de se deslocar ao local para usar todo o poder de seus canhões no inimigo. Horas de deslocamento depois, o Prince of Wales chegou ao destino, para só então descobrir que o relatório estava errado: não tinha atividade japonesa nenhuma.

Nesse meio tempo, o navio foi avistado pelos aviões japoneses. Horas depois, uma frota de mais de 80 aviões torpedeou e afundou o Prince of Wales, que mal conseguiu revidar. Os britânicos cometeram uma série de erros, como superestimar o poderio naval e subestimar o estrago que aviões podem causar, mas não tivessem ido atrás de um relatório errado, o destino poderia ser outro.

Foi um desastre que virtualmente eliminou a oposição britânica no Pacífico.

Uma lição é separar o sinal do ruído – e isso não é fácil.

https://www.warhistoryonline.com/instant-articles/end-battleship-hms-prince-wales-repulse-sunk-10th-december-1941.html

2 – Previsão do tempo no dia D.

O desembarque na Normandia pelos aliados, em 1944, foi a maior operação anfíbia da história, com mais de 2000 navios de guerra, 150 mil soldados. Entretanto, tudo poderia mudar, por um motivo simples e difícil de prever: o clima.

Era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens.

Um desembarque em condições climáticas ruins custaria caro: imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

Para piorar, o tempo literalmente fechou, dias antes da operação. A responsabilidade caiu nos ombros do meteorologista chefe dos americanos, o Capitão James Stagg. Ele previu que o clima ia dar uma pausa, e a operação seria possível na data. Felizmente para os aliados, ele acertou.

Além da técnica, também existe a sorte: a virtú e a fortuna de Maquiavel.

O contexto da neblina de Clausewitz é militar, mas a ideia é análoga, para a neblina na estrada do futuro.

Não temos como enxergar muito longe, nesse panorama nebuloso. Temos que ter fé de que estamos ligando pontos corretamente.

Conectar os pontos

Por fim, vale a pena ver a terceira história de Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford. Ele fala sobre conectar os pontos.

“É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.”

“De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.”

Veja também:

Winston Churchill, o homem que mudou o mundo 

Adolf Hitler quase venceu a Segunda Guerra Mundial. Em 1940, a Alemanha tinha invadido a Polônia, Bélgica, Holanda. A França tinha caído, e as tropas inglesas que haviam ajudado na defesa estavam evacuando em Dunkirk (tem até um filme a respeito). 

Os EUA não tinham entrado na guerra. A Rússia tinha um pacto de não-agressão com a Alemanha. A Itália era aliada da Alemanha.  

A única oposição real ao poderio alemão era a Inglaterra. Um homem, Winston Churchill, se opôs ferrenhamente a Hitler, e levou a nação-ilha a resistir, até a situação mudar. 

Era o homem certo no momento certo no lugar certo. 

Ele entendeu, desde sempre, que era inútil negociar com Hitler. Ele também entendeu que deveria modernizar o exército, com tanques e aviões. Por tudo isso, foi taxado de extremista, nacionalista, beligerante.  

Churchill tinha um vasto conhecimento e imaginação. E habilidade para criar a partir de seu conhecimento. Ele era tão letrado que podia citar Lord Byron e Shakespeare de cabeça. Estudava história, tinha paixão. 

Churchill usava palavras como bombas. Incendiava a paixão do povo britânico, através de discursos como o “The finest hour” e o “sangue, suor e lágrimas”. 

Também teve os seus erros, como subestimar o Japão, ou confiar demasiadamente em Stalin, por exemplo. 

Como Churchill mudou o mundo e o que podemos aprender com ele? 

O começo

O jovem Winston sempre achou que estava destinado à grandeza. Modéstia não era parte de sua característica. Impaciência para alcançar a grandeza. Tinha certeza de que a fortuna estava com ele. 

Escreveu 5 livros ainda na faixa dos 20 anos, participou da guerra dos Boers, e protagonizou uma fuga épica nesta, tornando-o famoso. 

Falhou duas vezes no vestibular, porque seu interesse maior era em inglês e história, não em matérias como latim. Entrou na terceira tentativa, mas seu pai o considerava uma pessoa de pouco valor. 

Veio de uma família aristocrata, de duques britânicos. 

Buscou abertamente riscos que o pudessem colocar na rota da grandeza esperada. 

Fazia treinamento exaustivo de seus discursos. Decorava o discurso todo, podia recitar de trás para frente. Além disso, devorava um estante de livros para escrever artigos e discursos. 

“Estude história, estude história. Na história, jaz todos os segredos da política de estado.” 

“Política é tão excitante quanto a guerra. Porém, na guerra, você só pode morrer uma vez, na política, várias vezes.” 

Ao invés de esperar por sua vez no congresso, desde o começo atacava oponentes mais poderosos como Neville Chamberlain, um político da época. 

Brilhante, com 30 e poucos anos já era parlamentar em ascensão. Ele ia para onde poderia ter oportunidades de agir. 

Como Almirante da Marinha 

Churchill se tornou almirante da marinha, com 36 anos. Missão de modernizar marinha britânica, ante a evolução da marinha alemã. 

Deu dois passos ousados, antevendo o futuro. Navios mais rápidos a óleo ao invés de carvão, e armamentos maiores. 

Porém, havia um risco. A Inglaterra não tinha acesso confiável a petróleo, para os navios a óleo. Isso foi resolvido com aumento da participação na companhia Anglo Persa de petróleo, que hoje é a British Petroleum, BP. 

O segundo problema, era que o armamento de 50 polegadas não existia, era inovador demais. Se fosse esperar todo o ciclo de testes, isso significaria dois anos a mais de atraso. A solução foi crer que funcionaria, e projetar os navios já com o novo armamento. 

Ele pensava grande e ousava, quando a maioria não o faria. 

Para tal, também tinha que se livrar dos oficiais incompetentes e ficar com os mais competentes. 

Influência do almirante Fisher: “Ataque primeiro, ataque pesado, continue atacando. Sem piedade, implacável, sem remorso. Se você odeia, odeie; se você luta, lute.” 

Outra inovação arriscada, à época (cerca de 1915), também era utilização de aviões (só para comparação, o famoso voo de Santos Dumont foi em 1906). Churchill estava sempre à frente da curva.

 

Primeira grande guerra

Diante de indecisão dos políticos, assumiu a frente. Tinha juventude, energia e experiência militar. 

A marinha, armada anteriormente, estava pronta e ajudou a vencer a guerra. 

Ocorreu um erro de seu mentor, Fisher, ao atacar o estreito de Dardanelos, ao buscar vitórias fáceis que não mudam o jogo. A Inglaterra não foi bem sucedida em Dardanelos, e o erro caiu na conta de Churchill. 

Após uma ascensão meteórica, agora ele caia. 

O custo político foi abdicar da posição de almirante, e foi enviado a ocupar um cargo menor, burocrático. Em poucos meses, abdicou do cargo. Não queria uma aposentadoria remunerada de pouca importância. 

Voltou ao exército, e foi à guerra, como major. Churchill foi ridicularizado, como alguém que tinha sido chefe da Marinha poderia se rebaixar a oficial subalterno? 

Esse episódio mostra que Churchill tinha a pele no jogo. Gostava de liderar não só com palavras, mas com o exemplo. 

Outro exemplo de visão. Ele defendeu tanques, outra inovação, para se contrapor aos alemães, que estavam se armando. Na época, a infantaria ainda usava cavalos. 

Novas oportunidades 

Churchill esperou pacientemente por uma posição. 

Nesse meio tempo, ele voltou a escrever. 

Ele escreveu um livro sobre a Primeira Guerra Mundial, incorporando muito de sua visão e experiência. Ele, que gostava tanto dos livros de história, agora estava escrevendo história. 

Nota: Churchill tinha tanta capacidade narrativa que ganhou prêmio Nobel em 1953. 

E o lado escritor ajudou a carreira política. Churchill assumiu como chanceler, e uma das grandes decisões da época foi a volta ao padrão ouro. 

Era uma época de trauma da primeira guerra. Pacifismo e desarmamento estavam na mente das pessoas.  

Em contrapartida, Churchill queria se armar, ante ameaças crescente de Hitler e Stalin. 

Perante a opinião pública, Hitler projetava imagem de pacifista moderado, amante da paz, que só queria se proteger e apenas reivindicava o que era de direito. Um pensamento da época era que a Alemanha, tão maltratada depois da primeira guerra, agora para compensar poderia se armar. 

Nessa época, outra inovação era o avião Spitfire, moderno, para fazer frente à Força Aérea alemã. Episódio curioso é que houve uma campanha de doações, chegando à casa de 500 milhões dólares (atuais) para salvar o projeto. Este avião foi imprescindível na Segunda Guerra. 

O avanço de Hitler e a Segunda Guerra 

A Alemanha de Hitler avançou sobre a Áustria, e depois ameaçava a Tchecolosváquia. 

Nessa época, o primeiro-ministro britânico da época, Neville Chamberlain, encontrou Hitler três vezes, para discutir a paz. 

Hitler queria os sudetos tchecos, e tinha como justificativa proteger os alemães da região e voltar à fronteira pré-Primeira Guerra. 

Chamberlain e Hitler chegaram a um acordo, cedendo os sudetos. Chamberlain voltou à Inglaterra saudando a paz, e convicto de que Hitler pararia por aí. Mas foi um total desastre. 

Hitler anexou os sudetos, e meses depois, a Tchecolosváquia toda. Depois, partiu para a Polônia. 

Com a Rússia, a Alemanha assinou um pacto de não agressão, essencialmente partilhando a Polônia. 

Churchill, que sempre fora crítico à política de apaziguamento de Chamberlain e de outros políticos da época, estava certo.  

A agressão alemã continuou: Finlândia, Bélgica, e isso derrubou Chamberlain. Churchill assumiu, como Primeiro-Ministro inglês, aos 65 anos. 

Após a queda da linha Maginot e da França, ele sabia que seria o próximo alvo. Liderou as preparações, como concentrar os spitfires. 

Os ingleses refutaram os alemães, após resistir aos bombadeios, na famosa “Battle of Britain”. 

Após a tentativa frustrada de conquistar a Inglaterra, Churchill sabia que Hitler compensaria indo para leste. Conhecia o inimigo. 

Joseph Stalin não era confiável. Mas como inimigo dos alemães, faria exatamente o necessário, tinha objetivos alinhados. 

A ameaça de invasão passou, mas daí em diante, começou o cerco. Submarinos, navios patrulhando as fronteiras da Inglaterra. O quanto uma ilha pode sobreviver? 

A maré virou com a entrada dos EUA na guerra, após os ataques japoneses a Pearl Harbor. 

O presidente americano, Franklin Roosevelt, era como um par de Churchill, alguém com trajetória e pensamentos semelhantes. 

Agora, o grande império britânico tinha ficado pequeno com o esforço de guerra, e com a Rússia e os EUA no jogo. Churchill sabia que seu ápice tinha passado, seu grande desafio tinha sido nos anos anteriores: segurar Hitler sozinho e trazer aliados para a guerra. 

Era uma questão de tempo até os Aliados vencerem o Eixo. 

Pós Segunda Guerra 

Stalin foi um dos grandes vencedores da Segunda Guerra: Rússia ocupando leste europeu e quebrando acordos. Uma reflexão era que Hitler tinha caído, porém Stalin estava mais forte do que nunca. O mundo tinha trocado um ditador por outro. 

Após a guerra na Europa, a Inglaterra tinha dificuldades de manter a marinha. Estavam exaustos. Numa geração, duas guerras mundiais. O cidadão comum queria comida na mesa, não combater o restante da guerra no oceano Pacífico. 

Como reflexo, o partido de Churchill perdeu as eleições após a guerra. 

O primeiro-ministro seguinte foi o oposto a Churchill. Alguém sem grande destaque, nada de liderança forte. Povo queria sossego, não entrar na história. 

Fora do governo, aos 70 anos, Churchill voltou a ser escritor. Escreveu a História da Segunda Guerra. Novamente, sendo um dos protagonistas, escrevendo e participando da história. 

Após a guerra e com liderança do Partido Trabalhista inglês, não houve êxito na Inglaterra ao implantar o estado de bem-estar social. Em 1947, houve racionamento de comida e de energia. Cotas de carvão, comida, fábricas fechando, cotas de roupa. Até o sabão em falta. 

Algumas causas de problemas: empréstimos e gastos demais. 

Isso levou Churchill a pronunciar, famosamente, “O capitalismo concentra riquezas, socialismo reparte misérias”. 

Tal situação levou Churchill de volta ao cargo de Primeiro-Ministro, em 1951, ficando mais seis anos, até se licenciar por problemas de saúde. 

Conclusões

Se Churchill nunca tivesse existido, talvez a Inglaterra não estaria preparada para encarar Hitler. Talvez tivesse feito um tratado de paz em 1940, dando tempo e recursos para a Alemanha consolidar os territórios conquistados na Europa e marchar para leste sem a preocupação de dividir o seu exército. Os EUA não teriam entrado na guerra, ou entrariam muitos anos depois. O mapa geográfico da Europa seria outro, e talvez o Terceiro Reich existisse até hoje… 

Churchill atingiu seu ápice ao encarar Hitler, praticamente sozinho, e manejar a situação até conseguir virar o jogo. 

Sir Winston Churchill morreu em 24 de janeiro de 1965, aos 90 anos. 

O que a história de Churchill pode nos ensinar? Algumas pequenas reflexões. 

– Estudar muito. Ter um background literário e histórico imenso ajudou Churchill a escrever discursos, entender os inimigos e estratégias. 

– Manter a posição que acredita, de forma coerente. A maré vira a favor e contra, e houve tempos em que Churchill estava em baixa (era taxado de retrógrado, armamentista, beligerante). Porém, no final ele estava certo, e se destacou por isso. 

– Coragem para ousar e buscar riscos. Inovações como navio a óleo, o avião spitfire e tanques, valiosos tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra, demorariam anos a mais não fosse a visão e coragem de Churchill. 

– Aliados. Grande parte do sucesso de Churchill dependeu de alianças. Ele não poupou esforços ao voar para a Rússia de Stálin e os EUA de Roosevelt, para costurar alianças, e isso, com quase 70 anos! 

– Não ter vergonha de dar passos para trás. Churchill preferiu abandonar um cargo burocrático e sem importância para assumir um cargo menor na marinha, sendo ridicularizado por muitos. O conhecimento de campo e a pele no jogo mostraram-se de enorme valia no futuro. No final das contas, Churchill mudou o mundo, os que o ridicularizaram, não. 

Por fim, uma última mensagem de Winston Churchill: “Nunca, nunca, nunca desista”. 

Este conteúdo é um resumo baseado em “How Winston Churchill changed the world”, da série “The Great Courses”, além de outras fontes. 


Veja também: 

Churchill, o destino de uma nação: https://amzn.to/3aWCZHw 

O filme Dunkirk é sobre o resgate dos soldados britânicos na França. https://amzn.to/3eg4eia 

The Gathering Storm, filme sobre Churchill na HBO. 

Aforismos sobre escopo, hábitos e história

O seu escopo não se limita ao seu escopo

Um conselho que dei a um conhecido: o seu escopo não se limita ao seu escopo.

Sempre podemos fazer mais do que o papel esperado. Propor um passo a mais, uma ideia diferente. Testar uma inovação. Sugerir um novo trabalho.

Tudo isso dentro do bom senso, e combinando claramente com os outros envolvidos, é claro.

Hábitos atômicos

Eu vi um atendente de caixa com o livro “Hábitos atômicos”, do James Clear, em sua baia de trabalho. Fiz um elogio: um livro muito bom, parabenizei-o por estar lendo.

Ele perguntou se eu já tinha lido, ao qual respondi positivamente, e depois emendou: e que bom hábito você adquiriu, lendo o livro?

Pensei um pouco e disse: sou muito tímido, e naturalmente evito o contato com pessoas. Porém, adquiri o hábito de discutir sobre livros, sempre que possível.

E, ao leitor também, estou aberto a discutir sobre bons livros e ideias aleatórias em geral.

Estude história

Estou lendo sobre a vida do grande estadista Winston Churchill. Um post em futuro próximo será sobre ele. Segue aqui um pequeno preview.

Churchill dizia que, se quiser saber sobre política, devemos estudar a história.

“Estude história, estude história. Toda a política está nos livros de história.”

Saber o passado possibilita que uma espécie de superpoder, de dar um zoom out no mundo em que vivemos, para reconhecer padrões além do que podemos enxergar em uma só vida.

Bônus: Um conselho de Viktor Frankl

“Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior do que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser.”

Viktor Frankl, psicólogo austríaco que descreveu sua experiência em campos de concentração nazista, na Segunda Guerra, e as diferentes reações dos prisioneiros.


Veja também:

O que significa Kamikaze?

“Kamikaze” significa “vento divino”. “Kami” significa “Deus” e “Kaze”, “Vento”. Um vento divino a proteger a ilha do Japão.

O termo se popularizou ao final da Segunda Grande Guerra: pilotos japoneses suicidas levavam o avião, carregado de explosivos, a se chocar contra os navios americanos. Eram os kamikazes (ou camicase).

(Foto da Wikipedia)

É muito impressionante ver vídeos deste tipo de ataque. Ao invés do avião jogar bombas no navio alvo, o avião mergulha em direção ao navio e, o piloto, à morte.

Era uma época em que o Japão estava perdendo a guerra, e tinha pouquíssimos recursos em termos de aviões, bombas e armamentos. A fim de causar o maior dano possível ao oponente, eles lançaram mão dessa estratégia suicida. Era um ataque final, um último suspiro.

Em ideograma, kamikaze é a figura abaixo.

Historicamente, a ideia veio do “vento divino” que salvou o Japão da invasão sino-mongol, no século XIII.

Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China, à época. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico dos atacantes. Aí, os japoneses tiveram uma ajudinha dos deuses: uma grande tempestade durante a noite destruiu os navios inimigos.

Kublai triplicou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17.000 marinheiros, 25.000 soldados coreanos, mongóis e chineses. Dessa vez, o Japão estava mais preparado, e resistiu às tentativas de desembarque inimigo nas primeiras semanas, até que, adivinhe, houve uma enorme tempestade que afundou a esquadra invasora. Novamente, o vento dos deuses protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Até a Segunda Grande Guerra, nenhum país estrangeiro tinha conseguido invadir a ilha do Japão, criando a lenda de que seria um país protegido pelos deuses, pelo vento divino.

Veja também:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kamikaze

Dr. Strangelove e o erro de cálculo nuclear

O clássico filme “Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”, de 1964, é uma comédia sem graça, extremamente sem graça, porém genial. Genial como tudo o que Stanley Kubrick fez. É um alerta que continua válido, ainda mais para os dias de hoje, de conflito militar com uma potência detentora de armas nucleares. No Brasil, o título é “Dr. Fantástico”.

Em linhas gerais, o filme conta a história de um general americano (o general Ripper) que ordena, por si só, o lançamento de uma bomba atômica de hidrogênio na União Soviética, através de um bombardeiro B-52 subordinado a ele. O general segue todos os procedimentos para designar a missão, e os códigos para os aviadores armarem a bomba, incluindo cortar comunicações com o mundo externo, exceto se recebessem um código secreto.

Outros oficiais notam o plano, e ordenam o general Ripper a abortar a missão: porém, ele se tranca em seu escritório e comete suicídio para não revelar o código.

Nessa situação, as autoridades máximas dos EUA e URSS se comunicam em suas respectivas salas de guerra, tentando encontrar meios de parar o lançamento da bomba. O Dr. Strangelove é um ex-cientista nazista, agora conselheiro do presidente americano (foi inspirado em pelo menos 4 cientistas da vida real).

No final, há um problema no lançamento da bomba, e o aviador caubói (!!) tenta de todos os jeitos lançar a bomba de hidrogênio na URSS. Será que ele conseguiu? Não vou contar, veja o filme.

Apesar de ser uma sátira, com uma série de piadinhas infames, há uma série de conceitos sérios e imensamente provocadores.

  • Era o auge da Guerra Fria EUA X URSS, com a ameaça de uma guerra nuclear pairando no ar (eita sensação de ‘deva ju’)
  • A doutrina do “MAD”, de “destruição mútua assegurada”, foi cunhada por John Von Neumann, brilhante matemático. Como tanto os EUA quanto a URSS possuem bombas atômicas, um único ataque de qualquer um dos lados causaria retaliação imediata do outro lado, e assim sucessivamente, escalando a guerra até a destruição total de ambas as potências – e do resto do planeta, em consequência
  • Esse balanço de poderes é um dos temas principais da Teoria dos Jogos, ramo de conhecimento que lida com decisões entre dois ou mais jogadores, e teve o próprio Von Neumann como um dos fundadores
  • Uma forma assustadora de quebrar esse equilíbrio é o com “First Strike”. Um primeiro ataque, completamente devastador de um dos lados, de forma a aniquilar o inimigo, nocautear, não deixar pedra sobre pedra. Aliás, essa era a hipótese do General Ripper: dar o primeiro passo e, diante da certeza do lançamento da bomba inicial, obrigar os EUA a fazer um superataque e destruir a URSS

Interlúdio: no espírito das piadinhas sem noção do filme, o First Strike lembra o lema do Cobra Kai, os vilões do Karatê Kid: “Strike first, strike hard, no mercy”!

  • Outro conceito importante é o do “erro de cálculo”. Embora as grandes autoridades de ambos os países tenham consciência da doutrina MAD, pode ser que haja algum erro de cálculo no caminho. Alguém como o General Ripper pode burlar o sistema de forma a lançar a bomba por si só, ou algum outro problema do tipo. Por incrível que pareça, não é uma hipótese tão improvável assim. Quem garante que armas nucleares de dezenas de anos atrás, da extinta URSS, estejam em boas mãos nos dias de hoje? E quem garante que experimentos nucleares na Coréia do Norte de hoje não estão sujeitos a erros de cálculo?

O filme, além de ser um sucesso de crítica e público, teve o efeito de alertar autoridades dos EUA e de outros países, que acabaram reforçando os sistemas de segurança dessas armas capazes de mudar o mundo.

Trivia:

  • Como era usual, Kubrick fez uma pesquisa extremamente detalhada para retratar fidedignamente aeronaves, bombas e procedimentos de segurança
  • A fim de instigar o ator George Scott a fazer cenas engraçadas, Kubrick o enganou. Disse para performar exageradamente, porque seriam só treinos antes da versão final – porém, foram exatamente essas as cenas utilizadas. Scott, enfurecido, prometera nunca mais trabalhar com o diretor
  • Kubrick entrou com processo para atrapalhar um filme rival, Fail Safe, que tinha temáticas semelhantes. Deu certo, Dr. Strangelove foi lançado 9 meses antes de Fail Safe, que não teve muita repercussão
  • Kubrick é o meu cineasta favorito. O extraordinário “2001, Uma Odisseia no Espaço”, é o meu filme favorito de todos os tempos, mesmo tendo assistido dezenas de outras produções modernas, na era da Netflix. Gênio, obssessivo, perfeccionista.

Veja também:

O mundo é não-linear. Erros de cálculo ou alguns poucos eventos súbitos podem mudar o rumo de todo o futuro. Vide dois exemplos abaixo.

Sobre MAD e First Strike:

https://en.wikipedia.org/wiki/Pre-emptive_nuclear_strike#:~:text=First%20strike%20capability%20is%20a,left%20unable%20to%20continue%20war.

https://en.wikipedia.org/wiki/Mutual_assured_destruction

O sistema de Putin

Recomendação de documentário para o fim de semana: O sistema de Putin.

Este documentário, de 2007, mostra a história e ascenção ao poder do temível Vladimir Putin.

Início da carreira:

  • Começou como oficial da KGB, chegando a tenente-coronel
  • Viveu a dissolução da URSS em 1991, para ele, a “maior catástrofe geopolítica do século 20”
  • Passou a exercer cargos públicos a partir de indicação de aliados

Após a dissolução da URSS:

  • Atuou com privatizações e abertura a bancos estrangeiros
  • A Rússia de Bóris Yeltsin tornou-se dominada por oligarcas ricos a partir das privatizações, “a família”
  • Por volta de 1999, quando ficou claro que Bóris Yeltsin não conseguiria mais se reeleger devido à idade e saúde, a “família” estava à procura de alguém inofensivo e jovem, para servir de marionete
  • Putin parecia um bom candidato: era muito eficiente, não tinha tido um cargo alto à KGB, era fiel aos seus superiores… ledo engano

Primeiro-Ministro e Presidente:

  • Yeltsin nomeou Putin primeiro-ministro, após este ajudar a tirar de cena um inimigo político
  • Putin era desconhecido de todos em 1999
  • Um de seus primeiros atos foi culpar a Chechênia por ataques terroristas, e ordenar um ataque ao país
  • Ele utilizou as estatais de energia (petróleo e gás) como arma para financiamento de campanhas e para atacar inimigos
  • A partir de então, utilizou a máquina pública para se eleger presidente e não parou mais
  • Expurgou oligarcas como Bóris Berezovsky (o mesmo da obscura parceria com o Corinthians), mostrando quem mandava de verdade

O documentário é de 2007 apenas, e de lá para cá muita água rolou. Ele essencialmente comanda a Rússia até hoje, alternando entre presidente e primeiro-ministro. É, na prática, o czar da Rússia, assim como Xi Jiping é o imperador da China – o mundo dá voltas, mas a história se repete.

Putin sempre deixou claro o seu objetivo de criar uma grande Rússia. É um sujeito frio, gélido, e extremamente eficaz: promete e cumpre. Ele joga um xadrez político-militar, se preparando pacientemente o momento certo – enquanto o ocidente não está nem perto de ter a mesma capacidade.

Um trecho do documentário diz algo como “o ocidente não conhece Putin. Vai conhecer um dia, e quando isso acontecer, será tarde demais”. Palavras proféticas.

Disponível na Amazon Prime Video.
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