Sapiens – os pilares da civilização

A dica desta Black Friday é o recém lançado “Sapiens – os pilares da civilização”, versão em quadrinhos da obra prima de Yuval Harari.

É o segundo volume de quatro. Este volume mostra a revolução agrícola, cerca de 12 mil anos atrás, como o homem dominou o trigo (ou será que foi o trigo que dominou o homem?), a domesticação dos animais – hoje temos mais de 5 bilhões de cabeças de gado, ovelhas e porcos, e 20 bilhões de frangos (seria isso um sucesso para os animais domésticos ou um fracasso?).

A agricultura permitiu que o ser humano se fixasse num lugar, ao invés da vida nômade, porém a armadilha da agricultura é que agora ele tinha que trabalhar exaustivamente mais do que o caçador coletor de antigamente, e o ganho de produtividade foi compensado pelo maior número de filhos a alimentar.

Os melhores locais para agricultura e o enorme trabalho de cultivo tornaram os terrenos naturalmente mais valiosos, de modo que a propriedade privada surgiu logo a seguir. Brigas entre vizinhos, também.

Os excedentes da agricultura também puderam suportar uma elite privilegiada. O Homo Sapiens demorou 300 mil anos para chegar à agricultura, e em meros poucos milênios, já surgiam grandes civilizações como a Babilônia antiga.

Para efeito de comparação:

  • Oásis de Jericó: 10 mil anos atrás, 1 mil habitantes
  • Mesopotânia: 5 mil anos atrás, 100 mil habitantes
  • Vale do Nilo: 4,5 mil anos atrás, 1 milhão de habitantes
  • Dinastia Qin (China): 2,2 mil anos atrás, 40 milhões de súditos

O trabalho tem desenhos magníficos como o seguinte.

Como fazer com que milhões e milhões de pessoas cooperem o mais pacificamente possível?

A resposta: através da ficção. O que seriam as leis, a ética social, e até as religiões, senão regras artificiais criadas pelos próprios seres humanos?

O código de Hamurabi, o do “olho por olho, dente por dente” foi um dos primeiros conjuntos de regras. A declaração de indepência americana, milênios depois, é outro exemplo.

Um último tópico neste resumo: os números. O cérebro das pessoas evoluiu para caçar e coletar, não para fazer contas exatas (até hoje, uma porcentagem enorme de pessoas têm dificuldade com matemática). Porém, a fim de organizar uma civilização gigantesca, é preciso registrar propriedades, produção, riqueza.

A invenção dos números é como se fosse um cérebro exterior, assim como a invenção da escrita.

“Sapiens” é uma obra monumental, abordando temas diversos desde o surgimento do homem até os dias atuais. É claro, para todos os tópicos há opiniões divergentes, e não precisamos concordar com tudo o que Harari descreve, precisamos mesmo é refletir sobre os temas e chegar à nossas próprias conclusões.

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Veja também:

Uma moça formosa, o último Teorema de Fermat e o Prêmio Wolfskehl

Como um amor não correspondido pode influenciar num dos teoremas mais famosos da matemática?

O alemão Paul Wolfskehl, descendente de um banqueiro, era médico de formação, porém, também estudou matemática nas universidades de Bonn e Bern, em torno de 1880.

Nessa época, ele estava terrivelmente apaixonado por uma jovem moça do seu círculo social. Contudo, já desde esta época, jovens nerds não atraíam moças formosas. Após inúmeros “foras”, ele tinha perdido totalmente as esperanças de um casamento, e também a motivação de viver…

Decidido, Wolfskehl planejou cuidadosamente o seu suícidio. Marcou data e hora exatas, testamento feito e todos outros procedimentos completos para o ritual.

Entretanto, ele tinha sido eficiente demais, e ainda faltavam várias horas para o momento previsto. Para matar o tempo, ele decidiu estudar sobre um curioso teorema que tinha acabado de ser provado.

Este era o último teorema de Pierre de Fermat, que estava fascinando matemáticos desde sua formulação, em meados de 1600.

O grande Teorema de Fermat afirma que não existem números inteiros a, b e c, para n>2, tais que:

a^n + b^n = c^n

Para n = 2, este se reduz ao famoso Teorema de Pitágoras, que todos nós estudamos no primeiro grau.

Na época de Wolfskehl, acreditava-se que o teorema tinha sido provado, pelo matemático Augustin Cauchy. Um teorema resolvido não apresenta um desafio. São os desafios das conjecturas não resolvidas que movem os matemáticos, como se fosse uma corrida do primeiro ao chegar ao topo do Everest ou ao Pólo Sul.

Na fatídica madrugada de seu suicídio, Wolfskehl passou horas concentrado, e descobriu um erro lógico na formulação de Cauchy. Com isso, o Teorema de Fermat continuava de pé!

Melhor ainda, quando Wolfskehl completou o raciocínio, o horário do suicídio já tinha passado.

Motivado pela deusa da Matemática, infinitamente mais bela do que qualquer contrapartida feminina, Wolfskehl decidiu continuar a viver.

Para a tristeza de seus parentes e de seu mordomo, Wolfskel tinha outros planos para o seu testamento. Agora, ele oferecia um prêmio de 100 mil marcos (equivalente a 1 milhão de libras em dinheiro atual), para quem decifrasse o Último Teorema de Fermat.

A notícia de que o teorema continuava não resolvido e o prêmio oferecido ajudaram a aumentar o interesse no tema, nas décadas seguintes.

O Último Teorema de Fermat foi finalmente provado cerca de 100 depois, por Andrew Wiles.

Essa história curiosa foi publicada no livro “O último teorema de Fermat”, por Simon Singh, recontada aqui com alguma simplificação aqui, algum exagero acolá.

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Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Wolfskehl

https://simonsingh.net/media/articles/maths-and-science/the-wolfskehl-prize/

Império Romano, Otomano e dos Samurais

Seguem três recomendações de séries – documentários – históricos.

Império Romano. Em três temporadas, cada temporada foca numa época. Marcus Aurelius e Comodus, Júlio César, Calígula. Em comum: rede de intrigas, luta pelo poder, assassinatos, envenenamentos, pão e circo para o povo. Muito impressionante é a segunda temporada, mostrando a ascensão e queda de Júlio César, a travessia do Rubicão, a conquista da Gália, Cleópatra e Marco Antônio.

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Ascenção do Império Otomano: a impressionante campanha de Maomé II, para a conquista da inconquistável cidade de Constantinopla. Para superar a muralha dupla separada por poços, os turcos otomanos lançaram mão de todas as estratégias possíveis: força bruta pesada, utilização dos mais caros e avançados canhões da época, espionagem, intrigas, e até mesmo, abrir um caminho de 15 km dentre a floresta para transportar navios por terra!

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A guerra dos Samurais: quando falamos da época dos samurais no Japão feudal, três nomes vêm à mente. Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu. A série acompanha a história desses três personagens, a unificação do Japão, artimanhas e estratégias, e até a tentativa de invasão da Coréia por Hideyoshi.

https://www.netflix.com/title/80237990

As três séries estão disponíveis na Netflix.

Arábia Saudita – o Poder da Geografia

Minhas notas, capítulo sobre a Arábia Saudita, do livro “O Poder da Geografia”, de Tim Marshall.

O nome do país é composto de duas partes, Arábia e Saudita.

Saud é o nome de uma família, que controlava uma região menor. A região foi vastamente expandida há uma centena de anos. Se o país é o nome de uma família, o que acontece a quem não é da Casa de Saud?

Os Saudis fazem a política, e outro grupo, Wahabis, a religião. Ambos expandiram região de influência, agregandos outros emirados menores. Isso explica a tensão que existe atualmente.

Atualmente, há 34 milhões de pessoas, religião islâmica sunita.

A Arábia Saudita cobre grande parte da península arábica. Não há muito mais do que petróleo e areia. É uma área desértica, que chega a 50 graus na sombra. É o país com a maior extensão do mundo sem um rio. Terras altas a leste, onde ficam cidades mais importantes. Ao sul, montanhas.

Nos anos 1700, a família Saud transformou o berço do estado saudita em um mercado florescente, ganhando força regional.

Fizeram um pacto com o clã Wahab. Saud domina a política, Wahab, a religião.

Para cimentar relações, casamentos.

A aliança foi se expandindo, conquistando outras regiões.

É uma das sociedades mais restritas do mundo moderno.

Perderam controle após invasão dos otomanos, em 1818. O reinado foi destruído, e foi sendo reconstruído até a retomada de Riad, em 1824.

Outra ponto baixo foi em 1890, ao perder o controle de Riad, para família Rashid. Desapareceriam da história, não fosse Abdulaziz bin Abdul Rahman Al Saud. Em 1901, sucedeu o pai, como líder da família Saud. Depois, liderou a reconquista da região e fundou o estado da Arábia Saudita em 1932.

Após a descoberta de óleo, acordos com britânicos garantiram a posição dos Saud.

Ele também arranjou casamentos com representante de todos emirados, da onde nasceram centenas de filhos, e uma rede de familiares que domina a região até hoje.

Na época da Segunda Guerra, os sauditas fizeram um acordo com os EUA. Os EUA teriam acesso ao petróleo, e a Arábia Saudita teria apoio americano para garantir as fronteiras.

Após uma rebelião com a tomada de um mosteiro em 1979, houve um encrudescimento em ativismo religioso. Aumento da participação da religião, wahabismo reforçado, mulheres com menor participação na vida social.

O petróleo financia um enorme estado de bem estar social. O óleo fundamenta as relações modernas da Arábia Saudita.

Há uma preocupação enorme no que fazer após o petróleo.

Alguns projetos incluem uma cidade autônoma, para 2030. Diversificação de investimentos: investem em startups, como a Tesla.

O maior consumo de energia é com ar condicionado. Estimativa de ser responsável por 70 por cento da energia.

Estimativa de 4/5 de uso da água, que deve acabamos em 2030. Óleo subsidia, mas sem água não tem como. Plantas de dessalinização precisam de muita energia. O fundo soberano está comprando áreas em outros países.

Como investir equilibrando os polpudos subsídios de hoje?

O que será da Arabia saudita quando acabar o petróleo?

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O Poder da Geografia – Irã

Minhas notas do capítulo sobre o Irã, do livro “O Poder da Geografia”, de Tim Marshall.

Na história, o Irã sempre foi conhecido como Pérsia, mas foi renomeada em 1935 para tentar representar minorias não persas.

Formado por áreas montanhosas e desérticas.

Persas são a maioria da população, mas há curdos, azerbaijãos, armênios, árabes e outras minorias.

Tendência a ter governo central forte para reprimir esses vários grupos.

Sobre área desértica, outra característica é a falta de água. Há apenas um rio navegável.

O Irã possui a quarta reserva de óleo do mundo. Porém, os equipamentos existentes são extremamente ineficientes, com a dificuldade adicional de existirem sanções internacionais ao país.

A energia, petróleo, é a principal produto de exportação.

O Irã atual é cheio de problemas, mas a sua história é gloriosa. A Pérsia era uma nação líder em tempos antigos.

O primeiro império persa envolveu figuras como Ciro, Dário e Xerxes, que provocaram guerras com a Grécia.

Depois disso, houve uma série de invasores, alternando impérios persas. Alexandre, o Grande. Roma. Mongóis de Gênghis Khan. Tamerlão. Turcos otomanos. Russos. Britânicos.

Após a descoberta de óleo, na Primeira Guerra, os britânicos se asseguraram de que teriam preferência para exploração, o que levou a várias trocas de poder no local – e foi essa a época da troca do nome para Irã.

Depois da Segunda Guerra, russos e britânicos exploraram a região, assegurando o óleo.

Na época da Guerra Fria, os EUA e britânicos ajudaram uma das facções iranianas a chegar ao poder, temendo que este se tornasse um país comunista.

Na revolução que ocorreu em 1979, o Aiatolá Khomeini chegou ao poder, perseguindo adversários, minorias, tolhendo liberdades.

Após a revolução, os EUA deram preferência ao Iraque, criando um estado xiita à leste do Irã (que é sunita).

A guerra Irã-Iraque, nos anos 80, durou 8 anos, 1 milhão de mortes e terminou sem alterar nada.

Após a morte de Khomeini, os sucessores continuaram a governar com mão de ferro.

Mais atualmente, o presidente Mahmoud Ahmadinejad continuou turbulência política. Aumento de isolamento e piora econômica.

Nos últimos 40 anos, também é relevante citar o desprezo a judeus e a Israel.

Atualmente, a economia continua afundando, com inflação e desemprego em alta.

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O Poder da Geografia – Austrália

Para os amigos que se interessam por Geografia e História, uma recomendação: “O Poder da Geografia”, de Tim Marshall, um dos maiores especialistas do mundo sobre o tema.

Neste livro, ele aborda a Austrália, Sahel, Grécia, Turquia, UK, Irã, Etiópia, Arábia Saudita, Espanha e o Espaço.

Segue um pequeno resumo sobre a Austrália.

A Austrália foi de lugar nenhum para ponto estratégico na história.

Perto da China, acesso aos EUA e ao Oceano Pacífico.

De ilha de prisioneiros a nação de primeiro mundo, multicultural.

Área desértica ocupa mais de 70 por cento da ilha. Todos os rios juntos tem vazão menor que Yang Tsé, por exemplo.

Sobre ondas de imigração. A primeira carga de prisioneiros chegou em 1788. Muitos brancos britânicos, depois aceitação maior de outros habitantes. A corrida do ouro ajudou a aumentar a imigração. Hoje, aumento da participação de asiáticos, como chineses, até pela proximidade.

A Austrália está sofrendo com mudanças climáticas. Seca, propensão a incêndios florestais, como um que ocorreu em 2009, piorando a poluição do ar.

Para piorar o impacto ambiental, a tendência é ir de 25 para 40 milhões de habitantes no futuro.

Sobre energia. Por ser muito plano, não há potência hídrica. Mas há abundância de carvão, que é uma indústria importante. Porém, isso agrava problemas climáticos.

Há diversos grupos de aborígenes. Desde as primeiras colônias, houve aniquilação de aborígenes, que mal eram considerados humanos, luta que continua até hoje.

A Austrália sempre se aliou a potências. UK. EUA. Agora, ascensão da China. Estudantes chineses na Austrália, são mais de 30 por cento do total. 1/3 das exportações são para a China. O futuro da Austrália pode ser cada vez mais chinês.

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Kintaro, os demônios da ficção e da vida real

Kintaro é um menino super forte, que nasceu no interior do Japão antigo. Desde sempre, ele era gentil com os animais e ajudava as outras pessoas em perigo.

Quando ele cresceu, ele partiu com outros grandes guerreiros, para combater os malvados demônios do mundo…

Este é um resumo de um livro infantil, uma história que a minha mãe contava.

Relendo o livro hoje, fico me perguntando: quem seriam esses demônios, a não ser povos rivais, nações vizinhas, pessoas como nós, mas de outros grupos?

Há inúmeros casos similares. A Bíblia fala de “Filisteus”, um povo antigo rival.

Os conquistadores europeus, para justificar a escravidão dos índios, falaram que estes não eram humanos, não tinham alma.

O filme “A Missão” ilustra um episódio: jesuítas fazendo índios cantarem, para provar que eles não eram inferiores aos europeus.

Uma passagem do livro “The Faith Instinct”:

A Moralidade não é universal. Compaixão e misericórdia são comportamentos dentro de um grupo, mas não necessariamente a outro grupo, e certamente não a um inimigo. Em relação às sociedades hostis, o comportamento humano é duro, implacável e muitas vezes genocida. Os inimigos podem ser demonizados ou considerados sub-humanos, e as restrições morais não precisam ser estendidas a eles.

E, para finalizar, o mestre Will Durant sobre o tema.

A vida é competição. Cooperamos dentro do nosso grupo, família, comunidade e nação para tornar nosso grupo mais poderoso. A cooperação é a última forma de competição. A concorrência costumava ser entre os indivíduos. Então foi ampliada, entre famílias. Depois, entre as comunidades. E assim por diante. A guerra é a forma final de competição. É a forma de uma nação se alimentar.

A propósito, Kintaro significa algo como “menino de ouro”. O primeiro kanji significa “ouro”, e o sufixo é comum em meninos. Um herói, que vai proteger o nosso povo contra os terríveis e sanguinários demônios do mundo exterior – ou será ele o demônio para os outros povos?

Nota: Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan, pela indicação do livro The Faith Instinct.

Gol da Argentina. Caniggia, 1990.

A vitória da Argentina na Copa América 2021 me trouxe à memória uma cena de 30 anos atrás.

Copa do Mundo de 1990. O Brasil em festa: Copa do Mundo! Eu era criança, e tudo era mais divertido. Ingênuo.

Era um Brasil diferente. Eu tenho a impressão de era extremamente mais patriótico do que é hoje. Todo mundo que eu conhecia torcia para o Brasil, que estava num jejum de títulos havia 20 anos.

O Brasil começou bem na Copa. Técnico Lazaroni. Grandes nomes como Muller, Careca, Branco. A seleção passou fácil pela primeira fase.

Nas oitavas, a Argentina. Tinha um tal de Maradona, muito famoso, que estava em baixa na época. Um sujeito muito louco, diziam que se drogava.

Eu não entendia nada do que estava ocorrendo, só tinha o sentimento de que o Brasil era inderrotável.

Porém, o doidão do Maradona saiu driblando todo mundo no meio campo, lançou uma bola para um certo Caniggia, que fez um belo gol no brasileiro Taffarel. Nunca tinha ouvido falar em Caniggia, depois desse dia, nunca mais esqueci esse nome.

“Ora, é só fazer dois gols”, ecoava na minha cabeça infantil. Eis que o tempo passava, e nada. Careca, nulo. Cadê o Muller? Brasil fora. Pessoas tristes, e eu sem entender nada. Era possível o Brasil perder?

Depois, comentários: o Dunga deveria ter feito falta no Maradona no início da jogada. Lazaroni foi burro, 3-5-2 não funciona, etc..

Trinta anos depois, outros nomes, outro palco, Copa América. Messi em final de carreira, não jogou nada. Neymar, até tentou. Ao invés de Caniggia, Di Maria foi o nome do jogo.

Porém, o que mudou mesmo foi a torcida. O Brasil, o mundo. Muita gente torcendo contra, transformando futebol em política e vice-versa. A grande maioria nem ligando. Ou sempre foi assim mas eu não sabia quando pequeno, não sei dizer.

Eu mudei também: o gol de Di Maria não trouxe alegria nem tristeza. Nem se compara ao gol de Caniggia.

Seja como for, era tudo muito mais divertido e ingênuo naquela época: o futebol, o Brasil e o mundo.

Batman no Japão medieval

Aproveitando o post anterior, sobre a época dos grandes samurais, segue uma história muito maluca. A série “Batman no Túnel do Tempo” mostra o homem morcego em contextos históricos diversos.

A edição “Batman – o Ninja” ocorre após a morte de Toyotomi Hideyoshi. O rival Tokugawa Ieyasu assume o poder, em detrimento de Toyotomi Hideyori, filho de Hideyoshi, que tinha uns 5 anos à época.

Batman é Bat-ninja, uma espécie de ronin – samurai sem mestre. Ele fica sem mestre após a morte de Hideyoshi. Robin é Tengu, discípulo do Bat-ninja, e que promete proteger o clã Hideyoshi.

A história se ambienta num contexto histórico real, o cerco do Castelo de Osaka. Uns 15 anos depois de Tokugawa Ieyasu assumir o poder de fato, forças opostas ao shogun unem-se a Hideyori, um postulante legítimo à posição de líder de todo o Japão. Tokugawa resolve acabar de vez com a ameaça ao seu posto, reúne aliados e, após uma série de batalhas, encurrala e aniquila Hideyori no Castelo de Osaka.

Na história em quadrinhos, Robin é um filho oculto de Hideyoshi, o cerco de Osaka está ocorrendo, mas antes disso, Hideyori quer se livrar do irmão Robin. Ambos lutam, e é Robin que assassina Hideyori, para depois, cometer hara-kiri.

Não creio que seja possível comprar essa edição hoje em dia.

É muito raro a cultura popular ocidental referenciar um fato tão distante, ocorrido na época do Japão medieval. Parabéns aos autores Chuck Dixon e Enrique Villagran pela história.

Seguem outros links sobre o tema:

https://alemdatorrez.wordpress.com/2016/03/22/batman-no-tunel-do-tempo/

https://dc.fandom.com/wiki/Tengu_(Narrow_Path)

https://en.wikipedia.org/wiki/Siege_of_Osaka

A estratégia de sobreviver aos inimigos

No Japão da época dos grandes samurais, os três nomes listados abaixo se destacavam. Há uma piada antiga, que mostra a diferença de estratégia entre eles:

Tenho um passarinho que não quer cantar. Como você faria ele cantar?

  • Oda Nobunaga: Vou bater até fazer ele cantar
  • Toyotomi Hideyoshi: Vou fazê-lo cantar
  • Tokugawa Ieyasu: Vou esperar até ele cantar.

Este texto é sobre o terceiro, que utilizou habilidade, muita inteligência e paciência, para criar uma das dinastias mais bem sucedidas da história do Japão.

Mas, primeiramente, o contexto geral.

O Japão feudal dos anos 1500 e pouco era dividido em diversos feudos (daimyo), cada qual com um clã político militar que o controlava independente dos demais. Existia a figura do Imperador, mas era apenas figurativa / espiritual – algo parecido com o papa, no ocidente.

Oda Nobugawa, por volta de 1560, começou uma campanha brutal de unificação do Japão, conquistando militarmente os outros feudos. Ele foi o primeiro grande unificador, apelidado de “Rei-demônio”, por sua força militar. Porém, Nobunaga foi emboscado numa rebelião liderada por um ex-aliado, e morreu antes de terminar a campanha de unificação do país.

Oda Nobunaga – imagem da Wikipedia

Toyotomi Hideyoshi era o mais brilhante general de Nobugawa, e venceu a disputa para sucedê-lo. Hideyoshi, nos anos seguintes, terminou de unificar o Japão, ou formando aliados ou destruindo os daimyos rebeldes. Após a unificação total do Japão, por volta de 1590, ele lançou uma campanha mal-sucedida de conquista da Coreia, em 1592.

Hideyoshi era um grande estrategista, e possivelmente o seu clã dominaria a política do Japão por diversas décadas. Porém, ele enfrentou um problema biológico: dificuldade em ter filhos para sucedê-lo. Apesar de inúmeras concubinas, só no final de sua vida ele conseguiu ter um filho – mesmo assim, a legitimidade era suspeita.

Toyotomi Hideyoshi – imagem da Wikipedia

O grande Hideyoshi faleceu em 1598, após anos doente. O seu filho, Hideyori, tinha apenas 5 anos na época. A guerra na Coreia não fazia mais sentido, e as tropas retornaram ao Japão.

Tokugawa Ieyasu estava nas sombras esse tempo todo, aliando-se primeiro a Nobunaga e depois a Hideyoshi, e fazendo o seu próprio daimyo crescer. Quando Hideyoshi se foi, ele era o mais forte candidato à sucessão, e aproveitou a oportunidade: aliou-se a outros líderes poderosos, tirou o menino Hideyori da jogada e assumiu o poder de fato do país.

Tokugawa Ieyasu – imagem da Wikipedia

Tokugawa moveu os daimyos aliados para perto dele, geograficamente, e empurrou aqueles menos confiáveis para longe, criando uma zona de segurança. Também trouxe estabilidade política e militar, com sua habilidade administrativa. Recriou o título de Shogun, e não faltavam filhos para sucedê-lo.

E é por isso o título do texto. Nobunaga fez um enorme trabalho, Hideyoshi prosseguiu, mas quem colheu os frutos foi Tokugawa.

Tokugawa ficou na dele, quando tinha alguém mais forte, esperando a oportunidade e se preparando. Quando a oportunidade surgiu, por capricho do destino, ele a agarrou.

Tokugawa literalmente venceu por ter conseguido viver mais do que os concorrentes. Observe a comparação:

  • Nobunaga viveu 47 anos
  • Hideyoshi viveu 63 anos
  • Tokugawa viveu 73 anos
  • O shogunato Tokugawa durou mais de 250 anos

Utilizando habilidade e inteligência, Tokugawa foi maior do que uma pessoa apenas – ele conseguiu criar uma dinastia. O shogunato Tokugawa foi um dos mais bem sucedidos da história, durando de 1603 até 1868, onde ocorreu a revolução Meiji – rápida expansão industrial e militar do Japão.

Essa é a estratégia da paciência: não atacar quando a situação não estiver favorável, ir se preparando para quando tiver a oportunidade. Ser impaciente na preparação, porém paciente para esperar o momento de atacar.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_shogunate

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_Ieyasu

https://en.wikipedia.org/wiki/Toyotomi_Hideyoshi

https://en.wikipedia.org/wiki/Oda_Nobunaga

Age of Samurai: Battle for Japan
https://www.netflix.com/title/80237990

As 36 Estratégias Secretas Chinesas

“Lições da história” – Will e Ariel Durant

“Lições da história”, de Will e Ariel Durant, é um dos meus livros favoritos. É pequeno, com cerca de 100 páginas, porém apresenta uma série de ideias contundentes e afirmações fortes.

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Este livro é um resumo das principais conclusões dos autores, analisando 100 séculos de história da humanidade. Eles escreveram uma das coleções mais aclamadas do mundo: A história da civilização, com 11 volumes e mais de 10 mil páginas!

Fiz um resumo no formato “cheat sheet”, uma planilha bizurada. Está disponível para download no link a seguir.

https://1drv.ms/x/s!Aumr1P3FaK7jnwzI1R3zqHUzUZGp

Veja também:

Recomendações de livros para um jovem em início de carreira (ideiasesquecidas.com)

​Recomendações de livros para recém-formados (ideiasesquecidas.com)

A Guerra de Canudos em Quadrinhos

Recomendação de leitura: A Saga de Canudos.

É uma história em quadrinhos bastante curta, ilustrando o episódio da Guerra de Canudos, e focada em seu ilustre protagonista, Antônio Conselheiro.

Os conflitos ocorreram entre 1896 e 1897, num período logo após a Proclamação da República do Brasil.

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Antônio Conselheiro era um pregador, que viajava o Nordeste do Brasil. Ele criticava duramente a República, dizendo ser materialização do AntiCristo, pelo Estado ser laico. Outro ponto eram os altos impostos para financiar o novo governo. O profeta foi ganhando seguidores, e se estabeleceu numa fazenda, batizada como “Belo Monte”, mas que ficou conhecida na história como “Canudos”.

A comunidade de Canudos cresceu ao ponto de ter 25 mil habitantes. Seus seguidores: ex-escravos (foi um período logo após a abolição da escravatura), vagabundos, pessoas sem esperança, sem nada a perder. Era uma comunidade onde toda a produção era compartilhada entre os moradores.

Canudos começou a incomodar, por ser abertamente contra a República, e também por estar crescendo.

Foram 4 ataques militares, crescentes em termos de soldados e armamento, até finalmente Canudos ser completamente destruída.

“O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão” – Antônio Conselheiro

“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, é uma das maiores obras da literatura brasileira, e narra o episódio. Lembro porque caía no vestibular, e o livro era bem difícil de entender.

“E surgia na bahia o anacoreta sombrio, os cabelos crescidos até os ombros,​ barba inculta e longa; face acaveirada; olhar fulgurante” – Euclides da Cunha.

Até hoje não sei o que significa “Anacoreta”…

Ironicamente, o sertão de Canudos realmente virou mar. O açude de Cocorobó colocou as ruínas da cidade debaixo da água.

Vale a pena conhecer um pouco mais deste episódio da cultura brasileira.

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/com-a-estiagem-cidade-de-canudos-volta-a-aparecer-apos-17-anos/