Sr. Miyagi, Sr. Sulu e a Segunda Guerra

O divertido seriado Cobra Kai traz de volta os personagens do filme clássico Karate Kid, 30 anos depois.

É uma pena que o icônico Sr. Miyagi não vai voltar à série, uma vez o ator, Pat Morita, faleceu em 2005.

Mesmo assim, o Sr. Miyagi aparece em flashbacks e homenagens. Numa dessas homenagens, um detalhe me chamou a atenção: o Sr. Miyagi foi condecorado na Segunda Guerra, e pertencia ao 442º regimento do exército americano.


Acabei de ler outro livro, “Éramos chamados de inimigos”. É do ator George Takei, mais conhecido por ter interpretado o Sr. Sulu, da não menos icônica série Star Trek.

Takei narra o traumático evento em que ele e família ficaram confinados, nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. Sendo o Japão o inimigo, todos os descendentes de japoneses nos EUA foram alçados imediatamente à condição de suspeitos. Tiveram os bens tomados e foram enviados para campos de confinamento, nos anos que a guerra durou.

Obs. O ator Pat Morita também passou pelos campos de confinamento. Ele narra: “Fui de uma criança alienada a inimigo público. Virei um ‘japa’ da noite para o dia, sendo escoltado pelo FBI para um campo de internato. Foram anos enormemente difíceis para o nosso povo. Pessoas andando pelo deserto que nunca mais seriam vistas. Pessoas se enforcando… Foi horrível. Horrível…”.

Nesse meio tempo, uma solução encontrada foi fazer as pessoas jurarem fidelidade aos EUA – ou seriam mandadas de volta ao Japão. A família de Takei ficou numa situação difícil. A mãe dele se recusou a aceitar a situação, e quase foi deportada – mas sendo salva no último minuto, devido à ação de um grupo que defendia as famílias nipo-americanas.

Mesmo sofrendo essas injustiças, alguns nipo-americanos juraram fidelidade, se alistaram, e foram à guerra na Europa. Teve um regimento formado totalmente por esses, o 442º.

O 442º regimento foi um dos mais condecorados da guerra, segundo a Wikipedia: 9.486 corações roxos e 4.000 medalhas de estrela de bronze . A unidade recebeu oito Citações da Unidade Presidencial (cinco obtidas em um mês). Vinte e um de seus membros receberam medalhas de honra.

E essa é a medalha do Sr. Miyagi, no 442º regimento.


Trivia 1: Será que só eu acho o Sr. Miyagi muito parecido com Mestre Yoda? Você não dá nada quando eles aparecem, mas no decorrer da história vão revelando sua sabedoria e treinando o jovem aprendiz a superar os desafios. Jornada do herói na veia.

Trivia 2: Será que só eu acho o Luke Skywalker e o Daniel-san tremendamente insossos? Dois moleques sem graça, metidos a besta.
Darth Vader >>>>>> Luke.

Trivia 3: O bizarro Karate Kid Ohara

Eu me lembro de um seriado chamado “Karate Kid Ohara”. Passou no SBT, no final dos anos 80 ou começo dos 90, algo assim.

Tinha o ator Pat Morita, como Ohara. Só que ele era detetive… nada de caratê, ele até usava arma. Todo o resto era completamente diferente. Nunca entendi aquilo.

Naquela época, não existia Google. Agora, 30 anos depois, descobri que a série era chamada originalmente “Ohara”, com o ator Pat Morita, e não tinha nenhuma relação com o filme Karate Kid. Foi o SBT que renomeou a série, malandramente. Não adiantou de nada, porque era muito ruim, ahah.

Links:


https://en.wikipedia.org/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/22/sr-miyagi-reaprendeu-a-andar-aos-11-anos-e-quase-foi-recusado-em-karate-kid.htm

https://pt.qwe.wiki/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://thekaratekid.fandom.com/wiki/

Séries, Podcasts e Quadrinhos sobre Ditadores

Segue uma indicação bastante interessante de podcast sobre história: a série “Ditadores”, no Spotify. É excelente para quem gosta de áudiolivros, como eu.

Ela narra a história de alguns dos piores ditadores da história recente, de maneira bastante didática e em português:

  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Joseph Stálin
  • Kim Il Sung
  • Kim Jong Il

Para cada um, há dois episódios de uns 45 minutos. A série ainda está em andamento, com um lançamento por semana, sempre às terças-feiras.


Outras indicações:

Sobre Hitler, há inúmeros filmes, documentários e livros.
Sobre os demais, há um número bem menor de fontes.

1) O documentário Hitler, uma carreira, disponível na Netflix, se destaca por conter vídeos da época.

Muito interessante é ouvir o discurso real de Hitler. Mesmo sem saber alemão, é possível ler a linguagem corporal e o tom de voz da figura.

Apesar do discurso ter palavras fortes, Hitler tem um jeito afeminado. É paradoxal. A imagem que eu tinha era de um ditador tosco, um valentão – mas a imagem das filmagens é a de um político, não muito diferente dos políticos que conhecemos. Talvez por isso, muita gente não tenha levado a sério o discurso, e tenha votado nele apenas como um protesto contra a ordem vigente.


2) Hitler’s Circle of Evil.

O foco aqui é no círculo interno de Hitler, as pessoas que o ajudaram a chegar e a manter o poder. Alguns deles viriam a ser figuras chave no Terceiro Reich: Hermann Göring, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros menos conhecidos, como Dietrich Eckart (escritor que lançou as bases ideológicas do nazismo).

São 10 episódios, e conta com detalhes a história deste período.


3) Vale indicar também a propaganda mais sensacional de todos os tempos, da Folha de São Paulo de 1987.

“Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo…


4) A série “Trótski”, na Netflix, mostra a trajetória de Leon Trótski e seu papel na Revolução Russa de 1917.

A série retrata Tróstski como alguém impiedoso, disposto a sacrificar a tudo e a todos – e é o que acaba ocorrendo, a todos à sua volta.

É uma obra controversa.


5) A morte de Stálin. É uma obra em quadrinhos. Mostra episódios das últimas horas de Stálin. Retrata fortemente o medo que as pessoas ao redor sentiam.

6) Sobre a Coreia do Norte, há pouca informação. Uma fonte surpreendente é o romance gráfico PyongYang.

O desenhista Guy Deslile viveu por um tempo na Coreia do Norte. Ele era o desenhista chefe de um grupo de desenhistas norte-coreanos, na produção de animações para a TV francesa. A razão de contratarem desenhistas norte-coreanos era o custo baixo.

Guy descreveu inúmeras situações que viveu na Coreia. O fato de todas as paredes terem retratos dos grandes líderes Kim Il Sung e Kim Jong Il. Um tradutor coreano o acompanhar para todos os lugares que ia (e ele não poderia ir para qualquer lugar, somente os lugares autorizados). O fato de quase não haver iluminação nas ruas.

Ele era um dos pouquíssimos estrangeiros no país. Havia somente dois hotéis para estrangeiros, e no que ele estava, somente um dos andares funcionava.

São ilustrações belíssimas. Vale muito a pena.
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A expedição Kon-Tiki

Para quem gosta de aventuras, segue a indicação de uma das histórias mais malucas de que o ser humano é capaz.

O norueguês Thor Heyerdahl queria mostrar que a colonização das ilhas Polinésias tinha origem nos indígenas da América do Sul.

Tendo vivido nas ilhas Polinésias por um período, ele notara uma corrente marítima vinda do leste. Também notou semelhança entre algumas estátuas nas Polinésias e no Peru, e culturas como a batata-doce.

Para provar o seu ponto, ele se propôs a uma aventura completamente insana: a bordo de uma jangada, construída apenas com materiais da antiguidade (toras e cordas), atravessar 8000 quilômetros de Oceano Pacífico!

Só para dar uma noção, a distância de Oiapoque ao Chuí é de 4.000 quilômetros. A jangada (nem barco era), iria de norte a sul do Brasil e voltaria, apenas sendo levada pela corrente e pelo vento!

Essa era a Expedição Kon-Tiki, em homenagem ao deus polinésio ancestral. Ocorreu em 1947.

A partir da aventura, ele publicou um livro e um documentário.

Há um filme de 2012, disponível no Prime Vídeo.

O filme é legal, é até fiel em vários pontos, porém, faz algumas dramatizações desnecessárias para uma aventura que é interessante por si só.

Prefiro o documentário original de 1950, no link a seguir.
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Há também um livro: https://amzn.to/3hQgwzB


Pincelei algumas cenas, a seguir.

A jangada foi feita utilizando 9 árvores grossas, de madeira balsa. Toras menores foram colocadas acima das toras grossas, um mastro de madeira bastante dura e uma cabana de bambu coberta com palha seca, pequena mas suficiente para os 6 tripulantes.


Somente cordas, sem pregos, sem cabo de aço. Segundo a antiga tradição polinésia, “Não devemos lutar contra a natureza. Devemos nos sujeitar a ela e ser flexíveis”.

A distância a ser percorrida do Peru para as Polinésias é muito grande. É a mesma distância do Peru até S. Francisco, ou de S. Francisco até a Islândia.

Eles também tinha um pequeno bote a remo como apoio. Na primeira vez que saíram com o bote, eles perceberam que a jangada andava rápido demais, mesmo sem as velas. Tiveram que remar com todas as forças para conseguir alcançar a mesma.

Eles utilizavam um sextante para estimar a localização. Sol, estrelas e conhecimento, só isso.

Uma das grandes objeções dos críticos era a comida. No caso dos aventureiros, eles levaram um grande estoque de ração e água, mas como um nativo faria?

O vídeo prova claramente que é possível conseguir peixe em alto-mar.

Havia muitos peixes próximos à balsa, procurando refúgio.

Peixes voadores também eram frequentes – estes pulavam na balsa à noite, e eram uma fonte constante de alimento.

A fim de justificar a parte científica da expedição, eles coletaram plâncton, alga e parasitas de peixes. Também descobriram uma nova espécie de peixe, uma espécie estranha de peixe cobra.

Em mais de uma ocasião, viram baleias próximas à jangada. Uma das vezes, parecia vir colidir diretamente com a embarcação, porém, o gigante passou por baixo, sem maiores problemas.

É claro que uma viagem dessas não poderia passar sem contratempos. Um deles foi que, somente após 45 dias de viagem, conseguiram contato no rádio amador.

Entre os contratempos, eram necessários constantes reparos na estrutura, na amarração das vigas principais, no manche.

Uma cena que fiquei em dúvida no filme, mas o documentário mostrou que era real. A fim de fazer o rádio amador pegar sinal, os tripulantes levantaram um balão com antena. O papagaio “Lolita”, o sétimo tripulante, viu o fio do balão e bicou, fazendo-os perder o mesmo.

Lolita não teve um bom destino. Após uma chuva, o mar a levou para sempre.

No documentário, eles citam que havia tubarões constantemente seguindo a jangada, principalmente atraídos por restos jogados.

Eles chegaram a pescar tubarões.


Era fácil fazer o monstro morder a isca – bastava peixe e sangue, que ele atacava cegamente – não tem medo, visto que não tem predadores. Içar o tubarão para bordo também não era difícil, porém, dentro da jangada, ele podia ficar por uns bons 45 minutos brigando – e poderia machucar alguém, com os dentes afiados.

A foto a seguir mostra que eles conseguiram pescar à vontade, apenas com instrumentos rudimentares: arpão, anzol e linha.

Após cerca de 90 dias, pássaros no céu eram o sinal de que a terra estava próxima.

Encontraram uma ilha, porém não conseguiram fazer a jangada desembarcar na mesma – afinal, tinham apenas a embarcação e uma vela.

A questão principal de uma viagem dessas não era distância, mas direção. É possível flutuar ao sabor das correntezas por 8000 kilômetros, mas não conseguiam atracar na ilha a 200 metros.

Encontraram nativos em botes alguns dias depois, porém, novamente, não conseguiram desembarcar.

Após mais alguns dias, eles tiveram que atravessar um recife de corais, para desembarcar numa ilha. A jangada foi destruída ao atravessar o recife. E a ilha estava desabitada.

Teriam eles chegado sãos e salvos? Alguma outra intercorrência machucou alguém? Teriam sido atacados por sereias, tais como Ulisses na Odisseia?

Assista o filme ou o documentário para saber. De novo, é um prato cheio para quem gosta de aventuras.

Atualmente, estou com receio até de tomar metrô, em virtude da pandemia. Imagine a coragem de ficar 101 dias isolado no mar, com futuro incerto, vizinho de tubarões e baleias!

Seguem alguns links e outras indicações:

Vi o filme no Prime Video. Como o catálogo é rotativo, destaco que foi agora em junho de 2020.
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Documentário original de 1950
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Livro Kon-Tiki: https://amzn.to/3hQgwzB

Notícia bem recente, que encontra traços de DNA sul americano nos polinésios: https://marsemfim.com.br/colonizacao-da-polinesia-dna-prova-tese-de-thor-heyerdahlt/

Outras recomendações, na mesma linha de aventuras extremas:

A incrível viagem de Shackleton. Sobre o explorador que tentou alcançar o Pólo Sul, porém teve a embarcação presa no gelo. Tiveram que sobreviver até a chegada do verão.

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O País das Sombras Longas. Como vivem os esquimós do Pólo Norte? O livro relata diversas histórias, até cruéis, deste lugar inóspito.

Efeito borboleta, a Roda da Fortuna e as Moiras

A bola que bateu na trave. A moeda que deu coroa ao invés de cara. O número faltante da loteria…

O efeito borboleta é um termo derivado da teoria do caos. Uma borboleta batendo as asas no Brasil pode causar um furacão no Japão. Demonstra a impredictibilidade do futuro, e quão impactantes alguns eventos podem ser.

A história é não linear. Na maior parte do tempo, nada acontece. Subitamente, ocorrem grandes transformações capazes de mudar o destino de tudo, na Roda da Fortuna.

Queria narrar dois eventos na minha vida, que mudaram tudo.


1 – A prova da Fuvest de 1996

Eu estava no terceiro ano do segundo grau. Eu fiz colégio técnico, que tinha 4 anos de formação, sendo o quarto ano puramente técnico. Com 3 anos, eu já tinha tido a grade escolar normal, e poderia ir para a faculdade.

Portanto, era um resultado desejável, mas não uma obrigação passar no vestibular.

Fiz a Fuvest, para Engenharia na Escola Politécnica da USP. Era em duas fases, a primeira apenas assinalar alternativas. Tirei nota suficiente para passar para a segunda fase.

A segunda fase era composta de 5 dias de provas. Cada dia, uma ou duas matérias, e eram respostas discursivas.

Porém, cometi um erro que mudou completamente a minha vida.

Eu imaginava que a semana de provas começaria numa segunda-feira. Ia de segunda a sexta, os 5 dias da semana, perfeito, pensei. Entretanto, a primeira prova (de Português), começava realmente no domingo…

Resultado: vi pela televisão, já que na época não existia internet, que a Fuvest já tinha começado…

Fiz as demais provas, e, como esperado, fui muito bem em Matemática e Física, e na média no resto.

Sem a nota de Português, fiquei abaixo da linha de corte.

Fiz uma conta simples. Pela nota que tirei, somando uma nota média de Português, eu passaria na Fuvest naquele ano – não no curso que tinha escolhido, mas passaria.

A vida segue. Fiz o quarto ano do colégio junto com cursinho, onde aprendi matérias como Geografia, História e Química com uma profundidade extremamente maior do que tinha tido. No ano seguinte, acabei passando no ITA e na USP, optando pelo primeiro. Cinco anos depois, acabei indo para o Rio de Janeiro, onde fiquei por 8 anos e conheci a minha esposa. Trabalhei em consultoria e retornei a São Paulo, tive filhos e cá estou até hoje.

Se eu tivesse lembrado do dia da prova e passado na Fuvest, teria ido à USP em 1997, abandonando o quarto ano da escola técnica. Nunca teria vivido no RJ, nunca teria conhecido as pessoas que conheci por lá e nem trabalhado nos lugares onde trabalhei. Teria conhecido outras pessoas, feito outros trabalhos. Não entro no mérito de que seria melhor ou pior, este tipo de comparação nem faz sentido. Porém, seria uma vida completamente diferente, decidida em um único dia, mais de 20 anos atrás.


2 – A Bolsa para o Japão

Mais ou menos em 2010, eu estava cansado da vida que estava levando, e tentei duas bolsas de estudos para o Japão. Este tipo de programa tem uma frequência anual, e há diversos tipos. Eu tinha escolhido um enfoque mais acadêmico.

Há uma série de procedimentos burocráticos a fazer para pleitear essas bolsas. Documentação traduzida, cartas de recomendação, uma aceitação da faculdade no destino, exame médico. Entretanto, o que realmente contava para a escolha dos bolsistas era uma entrevista, com uma banca de professores.

Eu sempre tive um viés muito prático, de trabalhar em empresas ou consultoria em projetos na vida real. Meu lado acadêmico se resume a um mestrado e uns poucos artigos, e, realmente, eu não era um bom match para as bolsas citadas, olhando a posteriori.

Eu fui mal nas entrevistas. No final das contas, essas bolsas foram para outras pessoas.

A vida segue. Vendo hoje, pleiteei a bolsa pelos motivos errados. Queria mais uma saída honrosa para o que estava fazendo na época, do que realmente um desejo ardente de ir para o campo acadêmico num país distante. Passados alguns meses, fiz aquilo que realmente eu queria fazer. Voltei para São Paulo, mudei de colocação. Era recém-casado na época e tive a minha primeira filha em 2011.

O ponto que quero colocar aqui é o da não-linearidade. Imagine se tivessem poucos candidatos qualificados ou alguém da banca fosse com a minha cara, por acaso. Eu poderia ter obtido a bolsa, e vivido por três anos no Japão. Talvez estivesse por lá até hoje. Demoraria alguns anos a mais a ter filhos, ou nem os teria. Estaria trabalhando em algum outro lugar, impossível predizer.

Tudo isso, por conta de uma entrevista de 1h de duração… Um avaliador de mau humor… Uma borboleta que bate as asas no Brasil… Uma bola na trave… Um fio solto no tear da vida…

Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford, diz sobre ligar os pontos.

“Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.”

Mais difícil ainda de prever são os eventos que não ocorreram e poderiam ter ocorrido… se você tivesse ido naquele evento… se tivesse conversado com aquela garota simpática do outro lado… se tivesse viajado para fazer um bico no exterior nas férias de verão… Na maioria das vezes, nada diferente iria ocorrer. Em alguns poucos casos, tudo mudaria.

O mundo tem inúmeros casos de não-linearidade. Se tivesse chovido no Dia-D, talvez a operação toda fosse postergada. Se Churchill não fosse primeiro-ministro britânico, talvez Hitler tivesse conquistado a Europa. Se Genghis Khan não tivesse falecido, a Europa teria sido devastada pelos mongóis. Quem sabe?

As Moiras são três irmãs, da mitologia grega, que determinam o destino dos seres humanos. Uma faz o fio, a outra tece, e a terceira, corta. Elas utilizam a Roda da Fortuna: alguns fios são privilegiados, outros, não. Elas não são nem boas nem más, apenas fazem o seu trabalho. Uma vez tecido o destino da pessoa, nem os deuses têm o poder de alterar.

A nossa sorte é decidida por deusas caprichosas, que giram a Roda da Fortuna, que tecem a sorte das nossas vidas e escrevem no Livro do Destino.


Trilha sonora: In my life – The Beatles

Discurso de Steve Jobs em Stanford:

https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moiras

https://ideiasesquecidas.com/2017/05/01/o-novo-homem-voador/

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/27/como-a-morte-de-um-velho-bebado-salvou-a-europa-da-devastacao-total/

Scarface, Darwin e Santos Dumont

Tenho saudades da época que livrarias existiam. O lado bom é que estou revirando a minha biblioteca, e relembrando de algumas biografias em quadrinhos de excelente qualidade.

1) Scarface – Adaptação em quadrinhos

Scarface não é exatamente uma biografia de Al Capone, mas é fortemente inspirado no mesmo.

“Scarface” é mais conhecido pelo filme clássico de 1983, com o ator Al Pacino e direção de Brian de Palma. É um filmaço, um dos melhores de gângster já produzidos.

Tanto o filme quanto a versão em quadrinhos são inspirados num livro de 1930. Entretanto, o filme tem várias diferenças: Tony Montana é cubano, lida com o tráfico de drogas e os eventos acontecem em Miami, por exemplo.

Já os quadrinhos são mais fiéis à origem. Tony Guarino é inspirado no gângster Al Capone, lutando pelo domínio das ruas de Chicago com outras gangues, para contrabandear bebidas alcoólicas – numa época em que a Lei Seca proibia o consumo das mesmas. “Scarface” era o apelido de Capone, por conta de uma cicatriz em seu rosto, obtida em uma briga.

Em comum, a ambição desmesurada do personagem principal, envolvimento com mulheres sedutoras e a violência – cenas pesadas de tiroteios, traições de aliados e assassinatos.

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A versão em filme está disponível na Netflix.

2) Charles Darwin


Conta a fascinante história de Charles Darwin. Particularmente interessante é a parte de sua viagem no Beagle, o navio que percorreu o mundo, começando a viagem em 1831. É impressionante a forma meticulosa com que Darwin coletava, examinava e classificava tudo quanto era espécie de insetos, aves e animais.


Durante a missão do Beagle, Darwin passou, inclusive, pelo Brasil.


Algumas das relíquias que ele coletou na América do Sul: um crânio de uma capivara gigante, restos de tatu gigante (do tamanho de um cavalo), ossos de megatério (uma preguiça gigante), todos animais extintos há muito tempo.

Darwin escreveu o seu clássico, “A origem das espécies”, mas não pretendia publicá-lo antes de sua morte. Entretanto, em 1858 ficou sabendo do trabalho de Alfred Russel Wallace, que também tinha chegado às mesmas conclusões sobre evolução natural, por outros meios (analisando animais da Ásia e Austrália). Resolveram publicar juntos ambos os trabalhos – mas, hoje em dia, Darwin é bastante conhecido, e Wallace ficou sendo o “Rubinho Barrichelo” desta história.

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3) Santos Dumont


Conta a incrível história de Alberto Santos Dumont, o seu interesse por invenções dos mais diversos tipos, sua paixão por balões, e, é claro, a sua história com o 14-bis.

É fascinante acompanhar Santos Dumont em suas corridas de balão, improvisando e testando as mais malucas teorias para melhorar a performance dos mesmos (e vez por outra caindo e sofrendo acidentes).

Além de Santos Dumont, o livro conta um pouco da história de outros pioneiros da aviação, como os irmãos Wright, o conde Ferdinand Von Zeppelin, Ernst Archdeacon, o capitão Ferber, Engenheiro Kapférer, a maioria nem um pouco conhecida do público geral.

Isso mostra uma certa “corrida espacial” para dominar os ares. Também ilustra a teoria de que, quando uma invenção está no ponto, alguém iria inventar, cedo ou tarde – digamos, se não tivesse Einstein, David Hilbert teria descoberto a relatividade, se não tivesse Darwin, Wallace teria descoberto a evolução como visto acima, se não tivesse Santos Dumont, alguns desses outros teriam se destacado.

Outra curiosidade é que o relógio de pulso foi inventado por Cartier para Santos Dumont, para que ele visse as horas sem largar o comando do dirigível.

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Recomendo também visitar a casa de Santos Dumont em Petrópolis. Além da cidade ser extremamente bonita, tem vários pontos turísticos muito legais, como a casa da Princesa Isabel, o Palácio de Cristal, etc…

A escadaria para a casa tem espaço para apenas um pé por vez, obrigando o visitante a começar a subida com o pé direito (confesso que fiquei tonto no meio da escada). A casa é repleta de invenções estranhas, e ele era alguém de hábitos esquisitos (ex. uma cama de madeira que parecia uma mesa). A casa é muito alta e tinha um mirante também muito alto (nota-se que ele não tinha medo de altura).

Réplica do 14 Bis em Petrópolis

http://www.visitepetropolis.com/o-que-fazer/perfil/museu-casa-de-santos-dumont/


Veja também

https://ideiasesquecidas.com/2019/03/15/feynman-russell-e-filosofia/

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O Ártico é um monte de gelo inútil?

A quem interessaria a fria e inóspita região do ártico, com seus ursos polares?

Resposta: à Rússia, que fincou uma bandeira no fundo do mar e há décadas reivindica a posse de largas extensões territoriais, nesta verdadeira Terra de Ninguém. O ártico tem recursos naturais estimados em 90 bilhões de barris de petróleo, 1700 trilhões de pés cúbicos de gás, minerais como cobre e níquel, além de fazer fronteira com países de outros continentes (Canadá, Noruega, Suécia).

Os efeitos de aquecimento global tendem a derreter parte do gelo e aumentar a importância da corrida ao Ártico.

A Rússia mantém bases militares e já sugeriram renomear a região como “Mar Russo”.

Os EUA estão vários passos atrás dos russos. Um exemplo ocorreu anos atrás, em que um navio quebra-gelo russo resgatou um navio americano – um feito de colaboração entre países, porém também um indicativo de quem dá mais prioridade à área.

O ártico é um dos capítulos de “Prisioneiros da Geografia”, de Tim Marshall. O autor fala sobre geopolítica, incluindo EUA, China, Índia, África, América do Sul, explica efeitos da geografia e história dessas regiões.

Foi o livro mais interessante que li nesta pandemia. Fica a indicação.

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Versão áudiolivro:
https://www.audible.com/pd/Prisoners-of-Geography-Audiobook/B06XQ4SFN8?qid=1590034595&sr=1-2&ref=a_search_c3_lProduct_1_2&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=744A5SATE6HSMHK38ZF8

https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2007/08/070802_russia_articorg.shtml

Winston Churchill: o Destino de uma nação.

Recomendação de filme: “O Destino de uma nação” retrata um período crítico (e põe crítico nisso) da história.

Em 1940, a Alemanha nazista de Hitler tinha conquistado quase toda a Europa continental. A imparável máquina de guerra alemã tinha invadido a França. Todo o exército britânico estava encurralado em Dunquerque (França).

A Inglaterra tinha duas opções: ou negociava a paz com Hitler, ou continuava a guerra. Durante a crise, Winston Churchill foi eleito primeiro-ministro.

Churchill era favorável a continuar a guerra. Ele recebeu uma quantidade enorme de críticas dos moderados e isentões, que falavam da quantidade de soldados e civis que perderiam a vida num confronto com a Alemanha. Ele quase foi derrubado do cargo, mas prevaleceu. Bateu no peito, assumiu a responsabilidade pelas vidas que seriam perdidas, e o Império Britânico continuou na guerra.

Era o correto a ser feito: matar o mal pela raiz.

O resgate de Dunquerque foi feito, utilizando cada tonelada de aço que tivesse condições de atravessar o Canal da Mancha. O filme termina neste ponto.

“O Destino de uma nação” está disponível na Amazon Prime Vídeo, entre outras plataformas.

Um pouco de história e digressão minha: A Inglaterra estava sozinha, na época. Toda a Europa continental tinha sido tomada: Polônia, Bélgica, França. A Itália de Mussolini era aliada de Hitler. EUA e Rússia não tinham entrado na guerra. A Alemanha tinha um pacto de não-agressão com a Rússia de Stálin.

Invasões alemães até 1940

Na época, não é exagero dizer que a Alemanha tinha vencido a guerra continental. Por isso, Hitler queria a paz com a Inglaterra. Há quem diga que Hitler poupou o exército britânico em Dunquerque, como um gesto para negociar a paz.

Se, ao invés de Churchill, alguém moderado estivesse no comando inglês, este teria feito as pazes com Hitler. A história seria muito diferente. Não haveria Segunda Guerra Mundial.

Com a paz no ocidente em 1940, Hitler ganharia vários meses ou anos para se preparar para a próxima guerra e consolidar o seu poder na Europa, nos territórios da França, Polônia, Bélgica e outros países europeus.

Poucos anos depois, Hitler invadiria a Rússia. Sem a pressão da guerra em duas frentes, provavelmente venceria a guerra, ou pelo menos anexaria boa parte da Rússia. Talvez a Alemanha coordenasse ações com o Japão, que atacaria a Rússia e não os EUA – assim, seria a Rússia a ter que defender duas frentes de ataque.

Se não fosse por Churchill, talvez tivéssemos o Terceiro Reich até os dias de hoje. Seria uma superpotência nazista.

A Inglaterra pagou o preço pela ousadia. Londres sofreu terríveis bombardeios pela força aérea nazista. O Império Britânico deixou de ser um Império. Após a entrada dos EUA e da Rússia, a maré virou, e os aliados venceram o eixo, livrando o mundo do nazismo de Hitler.

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/26/a-previsao-do-tempo-que-salvou-o-dia-d/

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/19/%e2%80%8b-o-destruidor-de-mundos/

Amazon Prime Video

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O filme Dunkirk é sobre o resgate dos soldados britânicos na França. https://amzn.to/3eg4eia

O Daruma

O Daruma é um boneco redondo, comum na cultura japonesa.

O boneco vem com os olhos em branco. A tradição diz o seguinte: faça um desejo, e pinte um dos olhos do Daruma.

Pinte o segundo olho somente após o desejo se realizar…

Na vida real, o Bodhidharma foi um monge budista que viveu entre os séculos V e VI, na China. Diz a lenda que ele ficou 9 anos meditando com todas as suas forças, em frente a uma parede branca. Ele ficou tanto tempo imóvel que os braços e pernas apodreceram, daí o boneco ser assim: sério, bravo, sem pernas nem braços.

E o significado de pintar o olho do Daruma é o seguinte: não basta fazer um desejo e ficar esperando, é necessário correr atrás, buscar atingir esta meta com muita seriedade e trabalho, com tanto empenho quanto o Bodhidharma original. Pintar o olho do boneco é mais um compromisso do que uma superstição.

Uma dica é deixar o Daruma caolho na sua mesa de trabalho, eternamente olhando para você, relembrando-o do compromisso de pintar o segundo olho…

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia.

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Bônus: música infantil Daruma-san

Reportagens – Joe Sacco

Joe Sacco é um jornalista gráfico, se é que existe este termo. Ele faz reportagens e as publica na forma de história em quadrinhos.

Duas recomendações de leitura: Reportagens e Palestina.

Sacco cobriu algumas guerras. O livro “Reportagens” é uma compilação de relatos de guerra dele.

No Brasil existe um preconceito de que histórias em quadrinhos são coisa de criança. Porém, definitivamente, as reportagens mostradas não são para crianças. Há relatos bem pesados sobre a guerra nos balcãs (Sérvia – Bósnia), treinamento dos soldados no Iraque e a terrível situação dos refugiados da Chechênia, entre outros.

Muito impressionante é uma reportagem sobre o sistema de castas na Índia, onde ele acompanhou as enormes dificuldades que uma pessoa das castas mais inferiores enfrentam.

Basicamente, eles estão presos a uma armadilha de pobreza: todo o mínimo necessário (como educação) lhes é negado, pessoas de castas superiores sentem-se no direito de usar e abusar do trabalho e liberdade destes. Se lhes é dada terra em algum programa de reforma agrária, eles não conseguem a manter na prática, sob a coerção de quem detém o poder real.

Uma hora, Sacco notou que a mera presença dele como jornalista era uma ameaça à segurança dos párias da sociedade indiana, e ele teve que se retirar do local.

Outra obra do mesmo autor é sobre a Palestina.

Ele acompanha ambos os lados – israelense e palestino, conversando com as pessoas, vivendo ao lado delas. Uma das histórias é sobre uma pessoa que tinha uma casa perto da fronteira entre territórios. Sob a justificativa que a casa tinha sido utilizada como base para disparar para o lado israelense, o exército israelense derrubou não só a casa desta pessoa, mas toda uma fileira de casas adjacentes! Em outra reportagem, ele mostra um colono judeu que tem a casa alvo de tiros com muita frequência, e o medo constante vindo daí.

Felizmente o Brasil, apesar de todos os problemas, é um país em paz com os vizinhos e num estágio de desenvolvimento que permite uma vida decente à maior parte de sua população.

Links:

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=65050

https://www.minhavidaliteraria.com.br/2016/10/18/resenha-reportagens-joe-sacco/

https://www.amazon.com.br/Palestina-Joe-Sacco/dp/857616471X

https://en.qantara.de/content/joe-saccos-palestine-authentic-depiction-of-life-in-the-time-of-intifada

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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Um tango na bela e decadente Buenos Aires

Dizem que um tango é um pensamento triste que pode dançar.

Estive alguns dias na Argentina. Buenos Aires é uma cidade lindíssima, com uma cultura fantástica. Com certeza é um destino turístico que vale a pena.

Foto: Teatro Colón

É uma cidade com ar nobre, porém, decadente… É como uma bela senhora rica e culta, mas que perdeu a sua fortuna. (O oposto da China, que seria um novo-rico com hábitos da época de escassez, como lutar com unhas e dentes por cada centavo).

A foto ao fundo é a El Ateneo, uma antiga ópera transformada em livraria. Mais ou menos como a livraria Cultura do Cine Vitória, no Rio de Janeiro (que já fechou, diga-se de passagem). Buenos Aires tem diversas livrarias, teatros, espetáculos de tango.

Foto: El Ateneo

O Porto Madero é uma região nova e bela, repleto de restaurantes. O Teatro Colón é uma réplica de um teatro europeu, imponente, construído com muita plata, como disse o taxista. A região da Florida, para fazer compras etc.

A cidade tem edifícios imponentes, monumentos, uma bela arquitetura, porém, ao mesmo tempo, são prédios nitidamente velhos, marcados pelo tempo. Também é comum ver mendigos na rua, mais ou menos como nas grandes metrópoles brasileiras.


Foto: Porto Madero

Tentei trocar reais por pesos argentinos no Brasil. Não encontrei casa de câmbio, no Aeroporto de Guarulhos, que tivesse pesos. É moeda fraca. Moeda fraca queima nas mãos, você deve passar para frente o quanto antes. É prejuízo na certa, por conta da inflação.

Na Argentina, o preço de referência de itens caros, como imóveis, é dolarizado. E, no comércio, eles aceitam dólares, o dólar vale ouro – turistas devem ficar atentos à taxa de câmbio, é normal darem uma roubadinha.

O meu cartão de crédito não passou em vários lugares. Nem todo mundo lá aceita cartão com chip. O sistema bancário brasileiro é avançado, no mundo.



Foto: Restaurante & Gala en el Tango

Carne e vinho e alfajores são o melhor da cidade. O argentino come muito, come bem, bebe muito, bebe do melhor vinho, nos melhores restaurantes e nas mais belas cafeterias que uma cidade pode oferecer. Eles têm alfajores espetaculares. Qualquer outra coisa, produtos industriais, roupas, tudo é mais caro e em menor variedade do que teríamos no Brasil.

Os sindicatos são muito fortes, e os próprios trabalhadores costumam se mobilizar quando não acham a situação justa. O noticiário estava falando de greve do metrô (chamado de Subte). O Uber também enfrenta problemas, por conta da resistência dos taxistas. Já o Cabify funciona normal, eles conseguiram autorização para operar.

Há cidades industriais que têm economia, mas não tem cultura (ex. Cubatão, quem tem dinheiro vai para Santos). Buenos Aires é o oposto, tem cultura, mas não tem economia.

A Argentina é um país enorme, com grande criação de gado, soja, trigo, recursos naturais, população alfabetizada e culta. Já foi a sexta maior economia do mundo, com padrão de vida comparável à Europa.

Muitas são as causas do declínio argentino: descontrole de gastos estatais, déficit da previdência, inchaço do setor público, pouca produtividade da indústria, populismo exacerbado, problemas que também conhecemos de perto. Outra razão é que industrialmente foi superada por outros países, como o próprio Brasil e a China (esta desindustrializou o mundo todo).

Com o país em recessão há 3 anos, Macri certamente vai perder, e a Kirchner, retornar ao poder. Provavelmente, ela vai adotar medidas de curto prazo, anestésicos que não vão resolver os problemas estruturais do país, e médio prazo os problemas voltarão à tona novamente.

Fica o alerta para o Brasil: gerar riqueza real, controlar gastos, proteger a sua moeda, criar um futuro para as próximas gerações.

Trilha cinematográfica: Perfume de mulher, tango “Por una cabeza”

Um perdido entre mundos

Eu não consegui responder a uma pergunta simples do meu amigo Bruno Magro: Você se sente brasileiro ou japonês?

Sou da terceira geração de imigrantes japoneses no Brasil. Os meus avôs vieram para cá há uns 100 anos atrás. Meus pais nasceram no Brasil, porém num Brasil extremamente diferente do atual.

Eu gostaria de falar que sou brasileiro, mas não dá. A resposta é difícil – não me sinto completamente em nenhum dos mundos. Para o brasileiro, sou japonês – isto é notório, via piadinhas e apelidos principalmente na escola primária. Semana passada, até um mendigo na rua me zuou: “O japa, me dá um sushi aí”.

Foto: Kasato Maru, o primeiro navio de imigrantes japoneses no Brasil

Para o japonês (do Japão), sou brasileiro, os laços culturais que tenho são poucos e descendem de uma tradição de 100 anos atrás que não existe mais – aliás, paradoxalmente no Japão é melhor ser um estrangeiro completo do que um descendente de japonês que mal sabe falar “bom dia” na língua nativa.

O Bruno, descendente da terceira geração de italianos, tem os mesmos sentimentos… imagino que muitos descendentes de imigrantes no Brasil também passem por isso.

Este conflito começa com os primeiros imigrantes de 100 anos atrás. Eles saíram dos países de origem em crise econômica, passando fome em muitos casos, em busca da terra prometida, a terra que tudo dá, a cornucópia de fortunas. A propaganda prometia fartura e riqueza nas terras tropicais do Brasil…

Foto: Monumento em homenagem aos 80 anos da Imigração Japonesa no Brasil, na Av. 23 de maio, em São Paulo – obra de Tomie Ohtake

No Brasil, no começo dos anos 1900, as grandes fazendas estavam em busca de substitutos aos escravos, libertos oficialmente alguns anos antes, porém com o tráfico já restrito e proibido há muitas décadas.

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram em 1908, com muitas levas posteriores.

A assimetria de informação e de interesses foi um verdadeiro choque de realidade para os imigrantes pioneiros. A realidade era extremamente mais dura do que a esperança. Domar a terra, cuidar do plantio e colher era tão extenuante quanto em qualquer lugar do mundo.

Os senhores das terras, acostumados com escravos, arrumavam formas de deixar os trabalhadores com o mínimo possível, normalmente via dívidas de alimento, moradia, roupas e equipamentos.

Não foram poucos os imigrantes que esperavam ficar 5 anos no Brasil, enriquecer e retornar ao país de origem. De 5 anos, ficaram 7, 10, 15, casaram, tiveram filhos, que tiveram outros filhos, e acabaram ficando 80 anos, até o fim da vida, sem acumular fortuna alguma, na terra prometida em que plantando tudo dá.

O detalhe é que eles ficaram todo este tempo sempre de malas prontas para voltar ao país de origem, quando surgisse alguma oportunidade.

Ao invés de oportunidades, o que houve na época foi muita turbulência. A Primeira Grande Guerra, 1914 – 1918. A grande depressão, 1929, afundou a economia mundial. A ascensão do nazismo e Segunda Grande Guerra, de 1939 a 1945, em que alemães, italianos e japoneses faziam parte do “eixo do mal”. Depois disso, era tarde demais para retornar, além do que os países envolvidos estavam devastados.

Um efeito é que poucos dos imigrantes originais abraçaram completamente a cultura nativa. Na cabeça destes, o bom mesmo era o país de origem, a nação-mãe, não este lugar inóspito (e transitório) que os tratara tão mal. Este sentimento passou para os filhos, junto com todas as dificuldades de adaptação, e, com menor intensidade, para os netos.

Foto: São Paulo Shimbun. Jornal em japonês, para os japoneses que aqui viviam. Circulou até 2018

Demorei 30 anos para entender a intersecção de mundos em que vivo. Dois exemplos: linguagem e culinária.

Sobre a linguagem. Meus parentes falam um dialeto esquisito de japonês de 100 anos atrás misturado com português. É uma mistureba com elementos culturais de ambos os mundos. “Kono toalha wa sugoi encardido desu” = “Esta toalha está muito encardida”. As línguas evoluem com os povos, a língua japonesa de hoje não é a mesma dos imigrantes. Ninguém é capaz de compreender tal dialeto, apenas os descendentes.

Culinária. Minha mãe fazia, todos os dias, arroz japonês (aquele do sushi, do oniguiri) com feijão carioca. Sempre achei extremamente normal, até começar a perceber que arroz japonês não faz parte da cultura brasileira, e que feijão não faz parte da cultura japonesa.

Comentário do Bruno. A nonna dele costumava fazer macarrão com feijão, na mesma linha de mistureba de culturas.

E outro comentário do Bruno: o macarrão com feijão é bom demais, é de dar água na boca, a melhor coisa do mundo!

E é verdade, o arroz japonês com feijão é melhor coisa do mundo! É bom demais.

Eu sou o que sou. Não dá para mudar. O meu mundo é este, ambos os mundos, não um ou outro. O que devemos fazer é abraçar o melhor da cultura em que estamos, sem esquecer das tradições que fizeram o que somos hoje.

Somos as únicas pessoas no planeta inteiro com o privilégio de apreciar o macarrão com feijão e achar delicioso, somos a transição entre mundos diferentes e entre gerações tão distintas.

Para fechar, uma frase do grande astrônomo e escritor Carl Sagan:

“Na imensidão do espaço e na vastidão do tempo, é um prazer te encontrar neste local  e nesta época”.

Trilha sonora: Kon-Nichi Wa Akachan

Alguns links:

Base de dados para procurar o navio em que os antepassados chegaram: http://www.museubunkyo.org.br/ashiato/web2/imigrantes.asp

Museu histórico da imigração japonesa.

http://www.museubunkyo.org.br/acervo/index.html

Thomas Carlyle e a Teoria do Grande Homem

“A história pode ser amplamente explicada pela biografia dos grandes homens”.

Esta é a “Teoria do grande homem”, do historiador e escritor escocês Thomas Carlyle, 1795-1881.

Grandes líderes são inatos. Liderança não é uma habilidade adquirida. Grandes líderes são abençoados com inspiração divina e as características corretas, e estes fazem a diferença nos rumos da humanidade.

Ele identifica seis tipos de heróis:

  • Divindade, como Odin
  • Profeta, como Jesus
  • Poeta (como Shakespeare)
  • Sacerdote (como Luther King)
  • Homem de letras (como Rousseau)
  • e Rei (como Napoleão)

A liderança é inata, ou a pessoa é apenas um fruto do seu tempo? O líder faz mesmo a diferença, ou o time teria chegado ao mesmo resultado sem a sua ajuda? Como sempre em filosofia, há uma ideia diametralmente oposta e defendida de forma igualmente sólida por outros gigantes do pensamento, como Herbert Spencer.

Dois exemplos de líderes me vêm à cabeça. São bem posteriores à época de Carlyle, porém ilustram muito bem a teoria.

Adolf Hitler assumiu o comando de uma nação destruída pela Primeira Guerra, devastada pela hiperinflação e desemprego, e ditou os seus rumos em direção à um conflito intercontinental…

Haveria uma Segunda Guerra Mundial sem Hitler? Algum outro líder seria capaz de mobilizar a Alemanha para uma guerra?

Hitler planejava uma guerra rápida, anexar alguns estados vizinhos, consolidar sua posição e se fortalecer antes de continuar a sua estratégia de dominação. Após um início avassalador, em 1940, a Europa inteira tinha caído (como França, Polônia), a Itália era aliada do Eixo, a URSS tinha feito um tratado de não-agressão, os EUA não tinham entrado na guerra. Hitler tinha triunfado.

Somente uma nação se opunha à Alemanha na época, e esta era a Inglaterra. E, na Inglaterra, um homem foi ferrenho opositor à Hitler: Winston Churchill.

Havia duas opções: fazer um tratado de paz com a máquina de guerra alemã (posição defendida por Lord Halifax) ou continuar a oposição para deter de uma vez por todas o império do Eixo (posição defendida por Churchill). Ambos, Halifax e Churchill, concorriam ao cargo de primeiro ministro do Reino Unido.

Churchill venceu Halifax, a Inglaterra resistiu ao avanço nazista, os EUA entraram na guerra no ano seguinte, e o tratado de não-agressão com a URSS foi quebrado.

Sem Churchill, Hitler teria tido um enorme triunfo, e certamente o mundo seria muito diferente do que é hoje. Talvez, ao invés da União Europeia, tivéssemos até hoje o Terceiro Reich.

Ou não? Será que teriam surgido outras pessoas equivalentes a Hitler e Churchill?

Nunca saberemos…


Fontes e links:

https://en.wikipedia.org/wiki/May_1940_war_cabinet_crisis

A obra de Carlyle é o livro “On heroes, hero-worship and the heroic in history”, de 1841.

https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Carlyle

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_man_theory

https://www.verywellmind.com/the-great-man-theory-of-leadership-2795311

http://history.furman.edu/benson/fywbio/carlyle_great_man.htm

Index filosófico: https://ideiasesquecidas.com/index-filosofico