O Daruma

O Daruma é um boneco redondo, comum na cultura japonesa.

O boneco vem com os olhos em branco. A tradição diz o seguinte: faça um desejo, e pinte um dos olhos do Daruma.

Pinte o segundo olho somente após o desejo se realizar…

Na vida real, o Bodhidharma foi um monge budista que viveu entre os séculos V e VI, na China. Diz a lenda que ele ficou 9 anos meditando com todas as suas forças, em frente a uma parede branca. Ele ficou tanto tempo imóvel que os braços e pernas apodreceram, daí o boneco ser assim: sério, bravo, sem pernas nem braços.

E o significado de pintar o olho do Daruma é o seguinte: não basta fazer um desejo e ficar esperando, é necessário correr atrás, buscar atingir esta meta com muita seriedade e trabalho, com tanto empenho quanto o Bodhidharma original. Pintar o olho do boneco é mais um compromisso do que uma superstição.

Uma dica é deixar o Daruma caolho na sua mesa de trabalho, eternamente olhando para você, relembrando-o do compromisso de pintar o segundo olho…

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia.

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Bônus: música infantil Daruma-san

Reportagens – Joe Sacco

Joe Sacco é um jornalista gráfico, se é que existe este termo. Ele faz reportagens e as publica na forma de história em quadrinhos.

Duas recomendações de leitura: Reportagens e Palestina.

Sacco cobriu algumas guerras. O livro “Reportagens” é uma compilação de relatos de guerra dele.

No Brasil existe um preconceito de que histórias em quadrinhos são coisa de criança. Porém, definitivamente, as reportagens mostradas não são para crianças. Há relatos bem pesados sobre a guerra nos balcãs (Sérvia – Bósnia), treinamento dos soldados no Iraque e a terrível situação dos refugiados da Chechênia, entre outros.

Muito impressionante é uma reportagem sobre o sistema de castas na Índia, onde ele acompanhou as enormes dificuldades que uma pessoa das castas mais inferiores enfrentam.

Basicamente, eles estão presos a uma armadilha de pobreza: todo o mínimo necessário (como educação) lhes é negado, pessoas de castas superiores sentem-se no direito de usar e abusar do trabalho e liberdade destes. Se lhes é dada terra em algum programa de reforma agrária, eles não conseguem a manter na prática, sob a coerção de quem detém o poder real.

Uma hora, Sacco notou que a mera presença dele como jornalista era uma ameaça à segurança dos párias da sociedade indiana, e ele teve que se retirar do local.

Outra obra do mesmo autor é sobre a Palestina.

Ele acompanha ambos os lados – israelense e palestino, conversando com as pessoas, vivendo ao lado delas. Uma das histórias é sobre uma pessoa que tinha uma casa perto da fronteira entre territórios. Sob a justificativa que a casa tinha sido utilizada como base para disparar para o lado israelense, o exército israelense derrubou não só a casa desta pessoa, mas toda uma fileira de casas adjacentes! Em outra reportagem, ele mostra um colono judeu que tem a casa alvo de tiros com muita frequência, e o medo constante vindo daí.

Felizmente o Brasil, apesar de todos os problemas, é um país em paz com os vizinhos e num estágio de desenvolvimento que permite uma vida decente à maior parte de sua população.

Links:

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=65050

https://www.minhavidaliteraria.com.br/2016/10/18/resenha-reportagens-joe-sacco/

https://www.amazon.com.br/Palestina-Joe-Sacco/dp/857616471X

https://en.qantara.de/content/joe-saccos-palestine-authentic-depiction-of-life-in-the-time-of-intifada

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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Um tango na bela e decadente Buenos Aires

Dizem que um tango é um pensamento triste que pode dançar.

Estive alguns dias na Argentina. Buenos Aires é uma cidade lindíssima, com uma cultura fantástica. Com certeza é um destino turístico que vale a pena.

Foto: Teatro Colón

É uma cidade com ar nobre, porém, decadente… É como uma bela senhora rica e culta, mas que perdeu a sua fortuna. (O oposto da China, que seria um novo-rico com hábitos da época de escassez, como lutar com unhas e dentes por cada centavo).

A foto ao fundo é a El Ateneo, uma antiga ópera transformada em livraria. Mais ou menos como a livraria Cultura do Cine Vitória, no Rio de Janeiro (que já fechou, diga-se de passagem). Buenos Aires tem diversas livrarias, teatros, espetáculos de tango.

Foto: El Ateneo

O Porto Madero é uma região nova e bela, repleto de restaurantes. O Teatro Colón é uma réplica de um teatro europeu, imponente, construído com muita plata, como disse o taxista. A região da Florida, para fazer compras etc.

A cidade tem edifícios imponentes, monumentos, uma bela arquitetura, porém, ao mesmo tempo, são prédios nitidamente velhos, marcados pelo tempo. Também é comum ver mendigos na rua, mais ou menos como nas grandes metrópoles brasileiras.


Foto: Porto Madero

Tentei trocar reais por pesos argentinos no Brasil. Não encontrei casa de câmbio, no Aeroporto de Guarulhos, que tivesse pesos. É moeda fraca. Moeda fraca queima nas mãos, você deve passar para frente o quanto antes. É prejuízo na certa, por conta da inflação.

Na Argentina, o preço de referência de itens caros, como imóveis, é dolarizado. E, no comércio, eles aceitam dólares, o dólar vale ouro – turistas devem ficar atentos à taxa de câmbio, é normal darem uma roubadinha.

O meu cartão de crédito não passou em vários lugares. Nem todo mundo lá aceita cartão com chip. O sistema bancário brasileiro é avançado, no mundo.



Foto: Restaurante & Gala en el Tango

Carne e vinho e alfajores são o melhor da cidade. O argentino come muito, come bem, bebe muito, bebe do melhor vinho, nos melhores restaurantes e nas mais belas cafeterias que uma cidade pode oferecer. Eles têm alfajores espetaculares. Qualquer outra coisa, produtos industriais, roupas, tudo é mais caro e em menor variedade do que teríamos no Brasil.

Os sindicatos são muito fortes, e os próprios trabalhadores costumam se mobilizar quando não acham a situação justa. O noticiário estava falando de greve do metrô (chamado de Subte). O Uber também enfrenta problemas, por conta da resistência dos taxistas. Já o Cabify funciona normal, eles conseguiram autorização para operar.

Há cidades industriais que têm economia, mas não tem cultura (ex. Cubatão, quem tem dinheiro vai para Santos). Buenos Aires é o oposto, tem cultura, mas não tem economia.

A Argentina é um país enorme, com grande criação de gado, soja, trigo, recursos naturais, população alfabetizada e culta. Já foi a sexta maior economia do mundo, com padrão de vida comparável à Europa.

Muitas são as causas do declínio argentino: descontrole de gastos estatais, déficit da previdência, inchaço do setor público, pouca produtividade da indústria, populismo exacerbado, problemas que também conhecemos de perto. Outra razão é que industrialmente foi superada por outros países, como o próprio Brasil e a China (esta desindustrializou o mundo todo).

Com o país em recessão há 3 anos, Macri certamente vai perder, e a Kirchner, retornar ao poder. Provavelmente, ela vai adotar medidas de curto prazo, anestésicos que não vão resolver os problemas estruturais do país, e médio prazo os problemas voltarão à tona novamente.

Fica o alerta para o Brasil: gerar riqueza real, controlar gastos, proteger a sua moeda, criar um futuro para as próximas gerações.

Trilha cinematográfica: Perfume de mulher, tango “Por una cabeza”

Um perdido entre mundos

Eu não consegui responder a uma pergunta simples do meu amigo Bruno Magro: Você se sente brasileiro ou japonês?

Sou da terceira geração de imigrantes japoneses no Brasil. Os meus avôs vieram para cá há uns 100 anos atrás. Meus pais nasceram no Brasil, porém num Brasil extremamente diferente do atual.

Eu gostaria de falar que sou brasileiro, mas não dá. A resposta é difícil – não me sinto completamente em nenhum dos mundos. Para o brasileiro, sou japonês – isto é notório, via piadinhas e apelidos principalmente na escola primária. Semana passada, até um mendigo na rua me zuou: “O japa, me dá um sushi aí”.

Foto: Kasato Maru, o primeiro navio de imigrantes japoneses no Brasil

Para o japonês (do Japão), sou brasileiro, os laços culturais que tenho são poucos e descendem de uma tradição de 100 anos atrás que não existe mais – aliás, paradoxalmente no Japão é melhor ser um estrangeiro completo do que um descendente de japonês que mal sabe falar “bom dia” na língua nativa.

O Bruno, descendente da terceira geração de italianos, tem os mesmos sentimentos… imagino que muitos descendentes de imigrantes no Brasil também passem por isso.

Este conflito começa com os primeiros imigrantes de 100 anos atrás. Eles saíram dos países de origem em crise econômica, passando fome em muitos casos, em busca da terra prometida, a terra que tudo dá, a cornucópia de fortunas. A propaganda prometia fartura e riqueza nas terras tropicais do Brasil…

Foto: Monumento em homenagem aos 80 anos da Imigração Japonesa no Brasil, na Av. 23 de maio, em São Paulo – obra de Tomie Ohtake

No Brasil, no começo dos anos 1900, as grandes fazendas estavam em busca de substitutos aos escravos, libertos oficialmente alguns anos antes, porém com o tráfico já restrito e proibido há muitas décadas.

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram em 1908, com muitas levas posteriores.

A assimetria de informação e de interesses foi um verdadeiro choque de realidade para os imigrantes pioneiros. A realidade era extremamente mais dura do que a esperança. Domar a terra, cuidar do plantio e colher era tão extenuante quanto em qualquer lugar do mundo.

Os senhores das terras, acostumados com escravos, arrumavam formas de deixar os trabalhadores com o mínimo possível, normalmente via dívidas de alimento, moradia, roupas e equipamentos.

Não foram poucos os imigrantes que esperavam ficar 5 anos no Brasil, enriquecer e retornar ao país de origem. De 5 anos, ficaram 7, 10, 15, casaram, tiveram filhos, que tiveram outros filhos, e acabaram ficando 80 anos, até o fim da vida, sem acumular fortuna alguma, na terra prometida em que plantando tudo dá.

O detalhe é que eles ficaram todo este tempo sempre de malas prontas para voltar ao país de origem, quando surgisse alguma oportunidade.

Ao invés de oportunidades, o que houve na época foi muita turbulência. A Primeira Grande Guerra, 1914 – 1918. A grande depressão, 1929, afundou a economia mundial. A ascensão do nazismo e Segunda Grande Guerra, de 1939 a 1945, em que alemães, italianos e japoneses faziam parte do “eixo do mal”. Depois disso, era tarde demais para retornar, além do que os países envolvidos estavam devastados.

Um efeito é que poucos dos imigrantes originais abraçaram completamente a cultura nativa. Na cabeça destes, o bom mesmo era o país de origem, a nação-mãe, não este lugar inóspito (e transitório) que os tratara tão mal. Este sentimento passou para os filhos, junto com todas as dificuldades de adaptação, e, com menor intensidade, para os netos.

Foto: São Paulo Shimbun. Jornal em japonês, para os japoneses que aqui viviam. Circulou até 2018

Demorei 30 anos para entender a intersecção de mundos em que vivo. Dois exemplos: linguagem e culinária.

Sobre a linguagem. Meus parentes falam um dialeto esquisito de japonês de 100 anos atrás misturado com português. É uma mistureba com elementos culturais de ambos os mundos. “Kono toalha wa sugoi encardido desu” = “Esta toalha está muito encardida”. As línguas evoluem com os povos, a língua japonesa de hoje não é a mesma dos imigrantes. Ninguém é capaz de compreender tal dialeto, apenas os descendentes.

Culinária. Minha mãe fazia, todos os dias, arroz japonês (aquele do sushi, do oniguiri) com feijão carioca. Sempre achei extremamente normal, até começar a perceber que arroz japonês não faz parte da cultura brasileira, e que feijão não faz parte da cultura japonesa.

Comentário do Bruno. A nonna dele costumava fazer macarrão com feijão, na mesma linha de mistureba de culturas.

E outro comentário do Bruno: o macarrão com feijão é bom demais, é de dar água na boca, a melhor coisa do mundo!

E é verdade, o arroz japonês com feijão é melhor coisa do mundo! É bom demais.

Eu sou o que sou. Não dá para mudar. O meu mundo é este, ambos os mundos, não um ou outro. O que devemos fazer é abraçar o melhor da cultura em que estamos, sem esquecer das tradições que fizeram o que somos hoje.

Somos as únicas pessoas no planeta inteiro com o privilégio de apreciar o macarrão com feijão e achar delicioso, somos a transição entre mundos diferentes e entre gerações tão distintas.

Para fechar, uma frase do grande astrônomo e escritor Carl Sagan:

“Na imensidão do espaço e na vastidão do tempo, é um prazer te encontrar neste local  e nesta época”.

Trilha sonora: Kon-Nichi Wa Akachan

Alguns links:

Base de dados para procurar o navio em que os antepassados chegaram: http://www.museubunkyo.org.br/ashiato/web2/imigrantes.asp

Museu histórico da imigração japonesa.

http://www.museubunkyo.org.br/acervo/index.html

Thomas Carlyle e a Teoria do Grande Homem

“A história pode ser amplamente explicada pela biografia dos grandes homens”.

Esta é a “Teoria do grande homem”, do historiador e escritor escocês Thomas Carlyle, 1795-1881.

Grandes líderes são inatos. Liderança não é uma habilidade adquirida. Grandes líderes são abençoados com inspiração divina e as características corretas, e estes fazem a diferença nos rumos da humanidade.

Ele identifica seis tipos de heróis:

  • Divindade, como Odin
  • Profeta, como Jesus
  • Poeta (como Shakespeare)
  • Sacerdote (como Luther King)
  • Homem de letras (como Rousseau)
  • e Rei (como Napoleão)

A liderança é inata, ou a pessoa é apenas um fruto do seu tempo? O líder faz mesmo a diferença, ou o time teria chegado ao mesmo resultado sem a sua ajuda? Como sempre em filosofia, há uma ideia diametralmente oposta e defendida de forma igualmente sólida por outros gigantes do pensamento, como Herbert Spencer.

Dois exemplos de líderes me vêm à cabeça. São bem posteriores à época de Carlyle, porém ilustram muito bem a teoria.

Adolf Hitler assumiu o comando de uma nação destruída pela Primeira Guerra, devastada pela hiperinflação e desemprego, e ditou os seus rumos em direção à um conflito intercontinental…

Haveria uma Segunda Guerra Mundial sem Hitler? Algum outro líder seria capaz de mobilizar a Alemanha para uma guerra?

Hitler planejava uma guerra rápida, anexar alguns estados vizinhos, consolidar sua posição e se fortalecer antes de continuar a sua estratégia de dominação. Após um início avassalador, em 1940, a Europa inteira tinha caído (como França, Polônia), a Itália era aliada do Eixo, a URSS tinha feito um tratado de não-agressão, os EUA não tinham entrado na guerra. Hitler tinha triunfado.

Somente uma nação se opunha à Alemanha na época, e esta era a Inglaterra. E, na Inglaterra, um homem foi ferrenho opositor à Hitler: Winston Churchill.

Havia duas opções: fazer um tratado de paz com a máquina de guerra alemã (posição defendida por Lord Halifax) ou continuar a oposição para deter de uma vez por todas o império do Eixo (posição defendida por Churchill). Ambos, Halifax e Churchill, concorriam ao cargo de primeiro ministro do Reino Unido.

Churchill venceu Halifax, a Inglaterra resistiu ao avanço nazista, os EUA entraram na guerra no ano seguinte, e o tratado de não-agressão com a URSS foi quebrado.

Sem Churchill, Hitler teria tido um enorme triunfo, e certamente o mundo seria muito diferente do que é hoje. Talvez, ao invés da União Europeia, tivéssemos até hoje o Terceiro Reich.

Ou não? Será que teriam surgido outras pessoas equivalentes a Hitler e Churchill?

Nunca saberemos…


Fontes e links:

https://en.wikipedia.org/wiki/May_1940_war_cabinet_crisis

A obra de Carlyle é o livro “On heroes, hero-worship and the heroic in history”, de 1841.

https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Carlyle

https://en.wikipedia.org/wiki/Great_man_theory

https://www.verywellmind.com/the-great-man-theory-of-leadership-2795311

http://history.furman.edu/benson/fywbio/carlyle_great_man.htm

Index filosófico: https://ideiasesquecidas.com/index-filosofico


Jared Diamond e Geografia

Três recomendações de livros do fantástico autor americano Jared Diamond, 1937 – presente. Os três tratam de história, antropologia e geografia.

Armas, Germes e Aço

Este livro o tornou famoso mundialmente. Ele explica o motivo pelo qual a Europa e outros países das “latitudes sortudas” conseguiram atingir o nível atual de desenvolvimento, e outras nações, não. Ele apresenta argumentos intrigantes, baseados em muitas evidências.

O Terceiro Chimpanzé

Fala sobre a evolução humana. O primeiro chimpanzé é o chimpanzé mesmo. O segundo, o chimpanzé pigmeu. E o terceiro, o ser humano. Há pouca diferença entre o DNA dos três. Por que o ser humano se sobressaiu? Este é um livro sobre evolução, sexualidade e antropologia.

Upheaval

O mais novo livro, Upheaval (tradução: revolta ou crise) foi lançado há pouco tempo. Fala como alguns alguns países lidaram com crises e se tornaram o que são hoje. Conta trechos resumidos da história, cultura e implicações que têm até o presente, de países como a Finlândia, Japão, Alemanha e outros. É uma leitura fluída e extremamente enriquecedora. Vale muito a pena, aliás, todos os três valem muito a pena.

Diamond tem um conhecimento enciclopédico, acumulado durante os seus 82 anos de vida. Por outro lado, dada a sua idade, é improvável que continue escrevendo livros de tamanha qualidade. Vamos aproveitar enquanto é tempo.

Moais e moais kavakava

O colapso da Ilha de Páscoa

Estive a conversar com meu amigo Darlon Orlamunder sobre o colapso da Ilha de Páscoa, destino turístico de uma de suas férias culturais. A Ilha de Páscoa é famosa pelas suas estátuas, os moais.

Esta ilha foi do ápice até o colapso, pelo esgotamento dos recursos naturais.

Estes são trechos de um livro bacana, porém melancólico: Colapso, do excelente historiador Jared Diamond – o mesmo que escreveu o best-seller “Guns, germs and steel”.

Ele descreve o colapso de civilizações antigas e modernas, entre elas a Ilha de Páscoa, que foi de uma população de 30 mil pessoas para menos de 1500.

Os seres humanos começaram a chegar na ilha por volta de 900 d.C, e uma população se formou ali. Não há relato escrito, porém os arqueólogos se baseiam em evidências coletadas, em diários de europeus que estiveram ali e na tradição oral do povo remanescente.

Os nativos formavam 12 territórios em diferentes pedaços da ilha.

Moais com olhos (todas as imagens aqui são da internet)

As famosas estátuas gigantes têm o nome de “moai”, e as plataformas de pedra em que elas ficam têm o nome de “ahu”. Cerca de 300 ahu foram identificados, e 113 têm moais, sendo 25 especialmente largos e elaborados.

A plataforma de pedra é o ahu

O basalto da ilha é bastante adequado para esculturas, o que facilita a construção dos moais.

Mas o que causou o colapso da ilha?

Primeiro, evidências.

A análise dos restos de lixo mostram que peixes como atum começaram a sumir da dieta, assim como diversas espécies de pássaros foram extintos na ilha – pela ação humana e desmatamento.

Especialmente forte foi o desmatamento. A madeira era utilizada para cremar corpos, fazer canoas, e áreas foram limpas para plantações. Além disso, a entrada de ratos clandestinos pelas viagens marinhas ajudou a destruir as palmeiras da ilha.

Outro fator que não ajudou em nada era uma espécie de competição entre as tribos, para ver quem erigia as estátuas maiores – exigindo mais madeira, cordas e alimentos para tal empreitada.

O desmatamento começou após a chegada humana em 900 d.C., e acabou por 1700, quando a concentração humana já havia colapsado.

Os impactos ambientais geraram consequências como a fome, declínio populacional agudo, culminando no canibalismo.

A fome é graficamente confirmada pela proliferação de estátuas chamadas moai kavakava, mostrando seres humanos famintos com costelas à mostra.

Um moai kavakava

Tradições orais mostram que os habitantes eram obcecados pelo canibalismo, sendo que um xingamento comum era algo do tipo: “Tenho a carne de sua mãe nos meus dentes”.

Por que o caso de Páscoa é tão singular?

Diamond sustenta, após longa argumentação, que a ilha de Páscoa é seca e fria, longe do Equador, além do tipo de solo não ajudar.

Tudo isto, aliado à superexploração de seus recursos, levou ao colapso desta civilização.

Esta é uma grande história de alerta a nós, em termos de desmatamento e superexploração de nossos recursos naturais.

Devido à globalização, todos os países do mundo compartilham dos mesmos recursos, afetando todos nós.

A nossa ilha é o Planeta Terra inteiro, e, tal qual os habitantes de Páscoa, não temos para onde fugir em caso de necessidade. Se uns milhares de nativos com ferramentas de pedra e músculos conseguiram acabar com a Ilha de Páscoa, o que vários bilhões de pessoas com ferramentas modernas e máquinas monstruosas podem fazer?

Pense nisto nas próximas férias à Ilha de Páscoa!


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://en.wikipedia.org/wiki/Moai_kavakava