Moais e moais kavakava

O colapso da Ilha de Páscoa

Estive a conversar com meu amigo Darlon Orlamunder sobre o colapso da Ilha de Páscoa, destino turístico de uma de suas férias culturais. A Ilha de Páscoa é famosa pelas suas estátuas, os moais.

Esta ilha foi do ápice até o colapso, pelo esgotamento dos recursos naturais.

Estes são trechos de um livro bacana, porém melancólico: Colapso, do excelente historiador Jared Diamond – o mesmo que escreveu o best-seller “Guns, germs and steel”.

Ele descreve o colapso de civilizações antigas e modernas, entre elas a Ilha de Páscoa, que foi de uma população de 30 mil pessoas para menos de 1500.

Os seres humanos começaram a chegar na ilha por volta de 900 d.C, e uma população se formou ali. Não há relato escrito, porém os arqueólogos se baseiam em evidências coletadas, em diários de europeus que estiveram ali e na tradição oral do povo remanescente.

Os nativos formavam 12 territórios em diferentes pedaços da ilha.

Moais com olhos (todas as imagens aqui são da internet)

As famosas estátuas gigantes têm o nome de “moai”, e as plataformas de pedra em que elas ficam têm o nome de “ahu”. Cerca de 300 ahu foram identificados, e 113 têm moais, sendo 25 especialmente largos e elaborados.

A plataforma de pedra é o ahu

O basalto da ilha é bastante adequado para esculturas, o que facilita a construção dos moais.

Mas o que causou o colapso da ilha?

Primeiro, evidências.

A análise dos restos de lixo mostram que peixes como atum começaram a sumir da dieta, assim como diversas espécies de pássaros foram extintos na ilha – pela ação humana e desmatamento.

Especialmente forte foi o desmatamento. A madeira era utilizada para cremar corpos, fazer canoas, e áreas foram limpas para plantações. Além disso, a entrada de ratos clandestinos pelas viagens marinhas ajudou a destruir as palmeiras da ilha.

Outro fator que não ajudou em nada era uma espécie de competição entre as tribos, para ver quem erigia as estátuas maiores – exigindo mais madeira, cordas e alimentos para tal empreitada.

O desmatamento começou após a chegada humana em 900 d.C., e acabou por 1700, quando a concentração humana já havia colapsado.

Os impactos ambientais geraram consequências como a fome, declínio populacional agudo, culminando no canibalismo.

A fome é graficamente confirmada pela proliferação de estátuas chamadas moai kavakava, mostrando seres humanos famintos com costelas à mostra.

Um moai kavakava

Tradições orais mostram que os habitantes eram obcecados pelo canibalismo, sendo que um xingamento comum era algo do tipo: “Tenho a carne de sua mãe nos meus dentes”.

Por que o caso de Páscoa é tão singular?

Diamond sustenta, após longa argumentação, que a ilha de Páscoa é seca e fria, longe do Equador, além do tipo de solo não ajudar.

Tudo isto, aliado à superexploração de seus recursos, levou ao colapso desta civilização.

Esta é uma grande história de alerta a nós, em termos de desmatamento e superexploração de nossos recursos naturais.

Devido à globalização, todos os países do mundo compartilham dos mesmos recursos, afetando todos nós.

A nossa ilha é o Planeta Terra inteiro, e, tal qual os habitantes de Páscoa, não temos para onde fugir em caso de necessidade. Se uns milhares de nativos com ferramentas de pedra e músculos conseguiram acabar com a Ilha de Páscoa, o que vários bilhões de pessoas com ferramentas modernas e máquinas monstruosas podem fazer?

Pense nisto nas próximas férias à Ilha de Páscoa!


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://en.wikipedia.org/wiki/Moai_kavakava

O que faz de Star Wars um Star Wars?

Desde que me conheço como gente, referências a Star Wars sempre estiveram no ar: o temível Darth Vader, a música contagiante da marcha imperial, a Força, a ordem dos Jedi, a determinada Princesa Leia, o sábio e icônico Mestre Yoda, um homem cachorro esquisito chamado Chewbacca co-piloto do ator Harrison Ford numa espécie de disco voador chamado Milenium Falcon, Jabba, o Hutt…

O que faz de Star Wars um sucesso fenomenal? Quais as diferenças para um filme qualquer de ficção científica? Qual o segredo de seu sucesso?

Sendo uma das séries mais populares de todos os tempos, é natural que esta pergunta tenha sido feita e refeita ao longo das últimas décadas. Este artigo é um apanhado das ideias mais interessantes. E o meu interesse é na parte screenwriting da coisa, a fim de aperfeiçoar este talento.

Antes de qualquer coisa, Star Wars não é um filme, mas sim um tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna.

Listo aqui as duas principais explicações, sendo que a primeira demandará maior tempo:

A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos
B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação


A. A jornada do herói adaptada aos tempos modernos

George Lucas, o criador da saga, teve enorme influência do autor Joseph Campbell, com o conceito conhecido hoje como “Jornada do Herói”. George Lucas era obcecado por este trabalho, e ele mesmo admitiu que Campbell foi o seu Yoda.

Campbell, um professor de literatura, estudou um grande número de histórias de mitologia ao redor do mundo. Na época em que ele escreveu o livro, teve grande influência do psicólogo Carl Jung.

Segundo a crença destes autores, havia uma espécie de padrão universal de comportamento, chamado de arquétipo. Por isso, todas as histórias da mitologia teriam alguma espécie de padrão, e foi isto que Campbell explicitou em seu livro, chamando o conceito de Monomito.

De modo geral, há três fases: a partida, a iniciação e o retorno. O herói começa a jornada em casa, sai para se aventurar no mundo exterior, encontrando aliados e inimigos, superando desafios de dificuldade crescente, e depois retorna ao lar, transformado e triunfante, fechando o ciclo.

A jornada do Herói de Campbell tem 17 etapas, mas listarei apenas 11 para simplificar o conceito. Tomo como referência o primeiro filme da série, Star Wars, de 1977. Este foi rebatizado décadas depois para Episódio IV – Uma nova esperança.

Capítulo I: A Partida

1 – O chamado da aventura:
Um garoto, Luke Skywalker, vive no planeta-deserto Tatooine. É um garoto diferente, que quer sair daquele lugar e explorar o universo, entretanto, o tio Owen precisa dele para cuidar da colheita.

O chamado da aventura vem quando ele encontra o robô R2D2, que está fugindo do Império com uma mensagem: “Help me, Obi-Wan Kenobi. You are my only hope”



2 – A recusa do chamado
Luke procura o velho Ben Kenobi, e inicialmente, ele recusa a se juntar à rebelião. Ele tem obrigações para com o tio. Além disso, ele era um simples camponês, como alguém assim poderia encarar o poder do Império?

O garoto fica sabendo através de Kenobi que o pai dele fora um mestre Jedi. Ao retornar à sua casa, Luke encontra o lugar em ruínas, e descobre que o Império assassinou seus tios.

3- O auxílio sobrenatural
O garoto aceita se tornar um Jedi, como o seu pai. Obi-Wan explica sobre a Força, entrega a ele o sabre de luz que fora de seu pai, e começa o treinamento para a próxima etapa da jornada.
Nota: o lendário Mestre Yoda aparece a partir do segundo filme. No primeiro, Obi-Wan é o seu mentor.

4 – A passagem pelo primeiro limiar
O primeiro teste para Luke é no espaçoporto Mos Eisley, onde Ben Kenobi recruta o auxílio de dois importantes aliados na jornada, o piloto Han Solo e o co-piloto Chewbacca.


No espaçoporto, há uma cena em que um hooligan com nariz de porco literalmente impede a passagem de Luke, querendo briga. Obi-Wan interfere, e eles atravessam este primeiro limiar, deixando Tatooine na icônica Milenium Falcon.

5 – O ventre da baleia
Os nossos heróis tinham como destino o planeta Alderaan. Mas, no momento em que eles a alcançariam, a Estrela da Morte destrói o planeta inteiro.

Após uma série de eventos, os nossos heróis acabam sugados para dentro da Estrela da Morte. Campbell chamou o estágio de “ventre da baleia”, e metaforicamente, eles acabam dentro do ventre da monstruosa construção capaz de destruir um planeta.

Capítulo II: A Iniciação

6 – O caminho de provas
Dentro da Estrela da Morte, eles enfrentam os stormtroopers e têm seus primeiros confrontos com Darth Vader.

7 – O encontro com a deusa
Luke e amigos resgatam a Princesa Leia de Darth Vader e se preparam para fugir a bordo da Milenium Falcon.

Um pouco antes da fuga, Luke presencia a morte de seu mentor, Obi-Wan Kenobi, pelas mãos de Darth Vader. Ele agora está maduro para seguir sozinho em sua jornada.

8 – A apoteose
Luke, Leia, Solo se juntam ao restante da rebelião, onde juntos enfrentam mais uma série de desafios. O plano é atacar o ponto fraco da Estrela da Morte, revelado no esquema arquivado no robô R2D2.

Nenhum dos outros aliados consegue sucesso neste ataque. As baixas são muitas, com o poderoso Darth Vader barrando todas as tentativas de ataque. A Estrela da Morte prepara o disparo final, que vai destruir para sempre a base rebelde…

Com o auxílio de todos os seus colegas, inclusive uma ajuda providencial de Han Solo, Luke consegue dar um único tiro certeiro no calcanhar-de-Aquiles da monstruosa contrução, que causa o colapso da mesma e salva a causa rebelde da destruição total.

9 – A bênção última
Para Campbell, esta é uma espécie de Morte e Ressurreição. O herói morre de seu mundo atual, e renasce em seu novo mundo. Este momento é quando Luke, segundos antes de seu tiro final, abandona a medição dos instrumentos de sua nave e confia plenamente na Força, lembrando dos ensinamentos de seu mentor Ben Kenobi. Somente com a Força é possível cumprir a missão.

Capítulo III: O Retorno

10 – A passagem pelo limiar do retorno
Luke retorna à base rebelde, sendo recebido pelos seus amigos com festa.
Na obra de Campbell, há uma representação deste limiar, na forma de um elixir. No caso, o elixir é o próprio sucesso da missão.

11 – Senhor de dois mundos
Luke retorna como o Senhor de dois mundos, agora conhecendo a Força, sendo recebido com honrarias pela Princesa e aliados.

George Lucas escreveu e reescreveu o roteiro inúmeras vezes, pensando nos detalhes, na narrativa e construção de seu filme.


B. Grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação

O segundo grande fator do sucesso é o grande conhecimento cinematográfico da equipe de criação.


A extrema imaginação na criação dos cenários e personagens. A Trilha sonora espetacular – não há quem não reconheça e não se deixe contagiar pelas mesmas. Por fim, os efeitos visuais e sonoros, sempre à frente de seu tempo.

Além disso, Lucas buscou uma série de fontes de inspiração.

De Akira Kurosawa, o filme “The hidden fortress” é narrado por dois personagens secundários, algo como o R2D2 e C3PO japoneses. Também se inspirou nos duelos de espada, e no ator favorito dos filmes de Kurosawa, Toshiro Mifune. O capacete de Darth Vader é baseado num capacete samurai.

Das cenas de Velho Oeste, como a do bar no espaçoporto.

Ele se inspirou também em Flash Gordon, que também era no espaço, com naves, tinha a sua bela e forte princesa, etc.

Os personagens são tão icônicos que até roubam a cena. Darth Vader é infinitamente mais memorável que Luke Skywalker. Han Solo, o anti-herói, paquerador e durão, idem. Nem se fala do Mestre Yoda, que virou sinônimo de sabedoria. Até personagens secundários com pouquíssima participação, como Boba Fett e Jabba o Hutt são cultuados pelos fãs.

Mas Star Wars é diferente de um filme sci-fi. O tom não é de um filme futurista, mas sim de uma mitologia.

Não é uma briga de robôs que pode ocorrer num futuro distante. É uma história que ocorreu há muito muito tempo atrás, numa galáxia muito distante.

Não é um briga de Skrulls x Krees num universo paralelo aleatório. É a resistência obstinada de um pequeno grupo rebelde, lutando contra o poderio imenso de um Império! É a Força versus o lado Negro da Força, algo místico, mágico, espiritual que pode estar na vida de todos nós!

Tentativa deliberada de criar uma mitologia moderna Star Wars é. Muito bem sucedida ele foi.


Para escrever este post, assisti (novamente) a trilogia original, a trilogia do Anakin Skiwalker e o primeiro filme da nova era, além de ler o Herói de mil faces do Joseph Campbell. Tarefas muito divertidas, diga-se de passagem.

E que a Força esteja com você!

Links:

https://www.amazon.com.br/Her%C3%B3i-Mil-Faces-Joseph-Campbell/dp/8531502942?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_52073337753_242620863014_pla-396816552426_c_

https://www.audible.com/pd/Screenwriting-101-Mastering-the-Art-of-Story-Audiobook/B0778Q1BHY?qid=1551523943&sr=1-1&ref=a_search_c3_lProduct_1_1&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=GH85VXN6AA5SWNX0DZZ4&

http://www.bbc.com/culture/story/20160104-the-film-star-wars-stole-from

http://www.moongadget.com/origins/flash.html

https://www.shmoop.com/hero-with-a-thousand-faces/summary.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hero%27s_journey

https://www.historyextra.com/period/modern/star-wars-why-did-the-film-make-history/

http://www.thecinessential.com/zachary/2018/4/5/the-hero-awakens-a-comparison-of-journeys-in-star-wars

Mais história do Brasil Imperial

Em complemento ao post anterior, seguem três boas dicas de obras audiovisuais sobre o Brasil Império.

  • Carlota Joaquina, a princesa do Brasil. Filme de Carla Camurati, produzido em 1995. É um filme bastante divertido, com Marieta Severo e Marco Nanini. É engraçado ver esses atores jovens, para quem estava acostumado com a atuação de ambos no seriado “A Grande Família”.


O Quinto dos Infernos, mini-série da Rede Globo, de 2002. É uma versão bem caricata e divertida da história. Marcos Pasquim, Betty Lago, Humberto Martim.
http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/minisseries/o-quinto-dos-infernos.htm


Em comum a todos eles, os personagens.

D. João, indeciso, covarde e corno, decidiu pela para o Brasil em 1808 – nunca iria resistir ao grande Napoleão Bonaparte. Porém, D. João era sábio a seu modo. Com ele, o Brasil em 13 anos sofreu mais transformações do que nos 300 anos anteriores.

Carlota Joaquina, a espanhola irascível, fogosa, volúvel, odiava o marido (e vice-versa), tentando alguns golpes de estado durante sua vida.

D. Pedro I, hiperativo, aventureiro, garanhão voraz sexualmente, foi aquele que deu o Grito da Independência montado num burro (e não num belo alazão, como o quadro de Pedro Américo).

Por fim, a Imperatriz Leopoldina, culta, educada, sensível, porém sem beleza física alguma, sofreu muito em meio à corte portuguesa. É lembrada com carinho pelo povo tanto do Brasil quanto de Portugal.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

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Dicas sobre História de Brasil

Indico três bons livros sobre História do Brasil: 1808, 1822 e 1889. 

Foram escritos por Laurentino Gomes, e contam de forma divertida e leve os acontecimentos das respectivas épocas.  

O brasileiro em geral não conhece muito da própria história.

A História do Brasil é rica, porém curta, do ponto de vista econômico. Antes de 1800, era apenas uma colônia, com pouquíssima produção cultural e intelectual, e economicamente só fazia negócios (ou melhor, era explorada), por Portugal. Para se ter uma ideia, na São Paulo da época não havia moeda corrente, o comércio era feito na base do escambo. Rio de Janeiro tinha apenas 60 mil habitantes, a imensa maioria era analfabeta.

A história econômica do Brasil começa mesmo em 1808, com a chegada da família real, abertura dos portos, elevação de status à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, abertura do Banco do Brasil, etc… 

Desde então, foram 200 anos de imensas transformações políticas, culturais e sociais, que ajudam a explicar muito do Brasil atual. 

Reflexão Final: desde 1808 são apenas 190 anos até os dias de hoje. Sendo que eu tenho 40 anos, dá para dizer que vivi 1/5 da história do Brasil!!  


Veja também:

  A hiperinflação dos anos 80

  Telesp informa: este telefone não existe

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

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A entrevista do jovem Fênix

Sun Ce, o “conquistador”, governante do reino de Wu, estava em busca de talentos, quando ouviu falar de Pang Tong, o “jovem Fênix”. 

Na entrevista, o jovem Fênix se apresentou maltrapilho, parecendo um mendigo. 

O conquistador perguntou: “quais a habilidades você tem?” 

O jovem Fênix respondeu: “comer, beber, e morrer um dia, como todo mortal”.

O conquistador ficou furioso: “que tipo de habilidade é comer e beber?”.

Passou à próxima pergunta: “E o que você estuda?” 

“Estudo aquilo que parece importante estudar”, respondeu o jovem.

“Como você se compara com Zhou Yu (um general extremamente habilidoso da época)?”

“É uma comparação entre uma pérola e uma pedra” 

“Quem é a pedra e quem é a pérola?” 

“Deixo para o senhor responder”.

O conquistador ficou fulo da vida com as respostas vagas e a comparação da pérola, e dispensou o jovem Fênix.  O que o conquistador não sabia era que o rapaz era um estrategista brilhante, que anos depois se aliou a um de seus oponentes e ajudou a vencer um quantidade importante de batalhas, inclusive contra o próprio entrevistador.  

O conquistador não conseguiu enxergar além das aparências. O que ele deveria notar no jovem Fênix não era o quão belo era o seu discurso, e sim o quão efetivo ele era na prática.

Esta história é do Romance dos Três Reinos, um dos mais fantásticos livros de todos os tempos.

Um desconhecido analista júnior chamado Einstein

Albert Einstein (1879 – 1955) é o cientista mais pop de todos os tempos. Ele estampa pôsteres, camisetas, canecas e uma infinidade de produtos mundo afora. Sua foto e suas ideias aparecem com frequência em revistas de ciência popular. Vira e mexe, Einstein é tema de filmes e documentários.

 

Até a sua famosa equação, E=MC², aparece em todo lugar, embora pouquíssimos a compreendam de fato.

 

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A fascinação por ele é tanta que, depois da sua morte, o médico legista decidiu roubar o seu cérebro para descobrir o segredo da genialidade, uma história muito maluca contada no livro “Conduzindo Mr. Albert”.

 
Mas a história é não-linear, como eu gosto de explorar neste espaço.

 

No caso do nosso querido cientista alemão, há um evento que o transformou, da noite para o dia, de um obscuro analista de patentes para o maior cientista do planeta. Este evento foi a confirmação de sua teoria, por outro cientista, Arthur Eddington. Porém, há algumas pontas soltas nesta história…

 

Fosse o rumo da história um pouquinho diferente, talvez ninguém conhecesse Einstein.

 

 


Breve histórico

 
O cientista alemão Albert Einstein publicou 4 artigos em 1905, o seu ano miraculoso. Dentre os artigos, em especial uma explicação do efeito fotoelétrico (que lhe renderia o Prêmio Nobel de 1921) e um paper sobre a Teoria da Relatividade Especial.

 
Mas não foi a Teoria da Relatividade Especial que o fez famoso. O adjetivo “especial” vem de “específico”, no sentido de que a teoria valia apenas num caso restrito.

 

Einstein passaria mais 10 anos trabalhando em sua teoria, a fim de incorporar a gravidade, e aí sim, abalar as fundações do universo newtoniano.

 

Porém, como tudo na história, ele não estava sozinho nesta corrida. Um cientista como ele deve trocar informações com outros pares, a fim de ajudar e ser ajudado também. Um concorrente específico, o brilhante matemático David Hilbert (1862 – 1943), se fascinou com a Teoria da Relatividade e passou a estudá-la por conta própria.

 

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Hilbert foi um dos maiores matemáticos de todos os tempos. Eu me arriscaria a dizer que, QI contra QI, Hilbert vencia Einstein facilmente, seria proporcional a um 7 x 1. Nota – neste aspecto, o diferencial de Einstein não era a matemática, e sim a abstração física. Ele mesmo disse, um dia: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”.

 

 

Einstein publicou o seu artigo definitivo com a Teoria da Relatividade Geral em 1915. Hilbert também publicou artigos com dias de diferença, até incorporando ideias de Einstein no seu paper.

 

 


A confirmação da Teoria por Arthur Eddington
Sir Arthur Eddington (1882-1944) foi um magnífico astrofísico da época. Ele foi uma das primeiras (e únicas) pessoas do mundo a compreender a beleza e o impacto das equações de Einstein.

 
Eddington bolou um experimento, a fim de confirmar na prática as predições de Einstein. A ideia básica era medir a posição de algumas estrelas, em duas circunstâncias: com ou sem a presença do Sol. A grande massa do Sol faria com que a luz da estrela se curvasse, dando a impressão de ela estar em uma posição diferente em relação à posição real.

 

Porém, a luz do Sol ofusca completamente a luz das estrelas, de modo que este teste deveria ser feito num eclipse solar.

 

As medições foram realizadas em 1919, em dois locais: na cidade de Sobral, no Ceará, e em São Tomé e Príncipe, na África.

 

Após os cálculos serem divulgados, confirmando a teoria, voilá, Einstein passa a ser o cientista mais famoso do mundo. O período era o fim da Primeira Guerra, e um astrônomo inglês confirmar a teoria de um alemão em algo importante era uma manchete boa demais.

 
Porém, há controvérsias. A tecnologia de 1919 não era tão precisa assim, e muita gente afirma que o erro era maior do que a certeza da medição.

 

Além disso, o experimento de Sobral (que dava resultados próximos ao da física de Newton) foi descartado por problemas técnicos.

 

Eddington era fã de carteirinha da Teoria da Relatividade, o que dá a impressão de haver um certo viés confirmatório nisto tudo. Talvez, se a história fosse um pouquinho diferente, fossem eles menos corajosos, talvez Eddington e sua equipe chegassem que o resultados eram inconclusivos, deixando a confirmação para testes posteriores.

 

 

Um eclipse solar não ocorre todos os dias, sendo que testes subsequentes demorariam anos para ocorrer, digamos uma década depois. Talvez, nesse meio tempo, os cientistas passassem a dar mais destaque ao paper de Hilbert do que de Einstein, afinal Hilbert era o maior gênio da época, e Einstein, desconhecido (mesmo o Nobel veio anos depois que ele era famoso, em 1921, e não foi pela Relatividade, mas pelo efeito fotoelétrico).

 

 

A Teoria da Relatividade é correta, conforme medições posteriores comprovaram e vêm comprovando até hoje – vide a confirmação das ondas gravitacionais pelo LIGO. Porém, talvez o crédito fosse para Hilbert. Mesmo se o crédito fosse para Einstein uma década depois, talvez não tivesse o destaque midiático que teve, e seria alguém relativamente desconhecido. Por exemplo, a Física Quântica também revolucionou a ciência, contudo somente os mais nerds conhecem os nomes dos cientistas envolvidos.

 

 
Seja como for, Einstein inspira gerações de jovens apaixonados por matemática, física e ficção científica, e suas elegantes fórmulas até hoje reinam como corretas para explicar os mistérios do espaço-tempo.

 

De Charles Chaplin para Einstein: As pessoas gostam de mim porque todos me compreendem. As pessoas gostam de você porque ninguém te compreende.

 


 

Links

https://www.quora.com/Whos-the-real-father-of-general-relativity-Einstein-or-David-Hilbert

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Einstein#Artigos_do_Ano_Miraculoso
https://www.esa.int/Our_Activities/Space_Science/Studying_the_stars_testing_relativity_Sir_Arthur_Eddington
https://www.nature.com/news/2007/070910/full/070903-20.html

https://undsci.berkeley.edu/article/natural_experiments

https://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Eddington

Como a morte de um velho bêbado salvou a Europa da devastação total

A história é fortemente não-linear. Seja em nossas vidas individuais ou em nossas civilizações, há pontos de inflexão imprevisíveis que mudam totalmente o destino de milhões de pessoas…

Tenho um certo fascínio por histórias deste tipo, como a previsão do tempo que salvou o Dia-D, a destruição de Bagdá e o cagão que salvou o mundo, entre outras.

Esta é a história da morte de um único velho bêbado, que salvou a Europa e a civilização ocidental inteira. O mundo seria completamente diferente do que é hoje se este velho tivesse morrido 10 anos depois.

O ano é 1241. O velho bêbado da história é Ogodei Khan, imperador mongol na época, o Khan dos Khans.

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Ogodei era filho de Gêngis Khan, que tinha falecido em 1227.

O império mongol já tinha dominado parte da China e devastado todas as nações entre a Mongólia e a Europa.

Coronation of Ogedei Khan, 1229. (Public Domain)

Em 1241, o flagelo da morte chegou à Europa, comandado por Batu Khan (sobrinho de Ogedei).

Em abril deste ano, duas batalhas notáveis. Na primeira, os mongóis destroçaram um exército de cavaleiros cristãos fortemente armados, no Norte da Polônia.

Outra grande batalha ocorreu na Hungria, também em 1241, onde o exército mongol esmagou os húngaros do Rei Bela IV. Estima-se que 1 milhão de húngaros foram executados: tropas, nobres, cavaleiros, camponeses.

Os mongóis adentravam a Europa…


Qual o poder do exército mongol?

O exército mongol era extremamente moderno, em comparação com os outros exércitos da época.

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Eles utilizavam amplamente o arco e a flecha. Além disso, todo mongol sabia cavalgar, eles praticamente nasciam no lombo de um cavalo. Esta combinação de agilidade e ataque à distância os fazia inimigos formidáveis.

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(Esta é para o meu amigo Antenor Simão. Um Mangudai mongol do jogo Age of Empires 2)

Junte-se à isto a noção de disciplina. Os homens respondiam em uníssono aos comandos dos generais, através de um sistema de bandeiras coloridas.

 

Outro fator era a meritocracia. Nas promoções, valia mais o que o general performava na prática do que a descendência sanguínea.

 

Além de tudo isto, eles incorporavam os exércitos e engenheiros das nações conquistadas, o que acrescentava habilidades importantes ao seu arsenal de técnicas: pólvora, catapultas, máquinas de cerco, etc…

 

O timing era mongol. O resto da Europa era o próximo alvo, após alguns meses de descanso.

 


 

A morte de Ogodei Khan

 

Em dezembro de 1241, Ogodei Khan morreu inesperadamente. Alguns argumentam que o abuso em bebida alcoolica teve relação com esta morte.

 

Sendo Ogodei o Khan dos Khans, a tradição mongol exigia que os aspirantes à sua sucessão se reuníssem para decidir quem seria o próximo Khan. Esta reunião é o Kurultai. Nota: na (horrível) série “Marco Polo” da Netflix, ocorre um desses kurutais.

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Kurultai (ilustrativo) da série Marco Polo

Desta forma, no auge da máquina bélica mongol, Batu Khan interrompeu o avanço a oeste, e deu meia volta, em direção à Mongólia.

 

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Pelas distâncias serem enormes, o kurultai demorou vários anos para ocorrer – e aí, os mongóis perderam o timing de invadir a tão distante Europa, nunca mais retornando.

 

 

Os efeitos da passagem mongol pela Europa seriam devastadores. Basta comparar com Bagdá, que foi praticamente deletada do mapa. As crônicas citam que os rios ficaram vermelhos de sangue, e depois pretos de tinta dos livros que foram jogados nos rios. Bagdá retrocedeu 1000 anos, e nunca mais foi a mesma. Hoje, Bagdá é o Iraque.

 

Alguns poucos séculos depois do não confronto com os mongóis, a Europa viveu o renascimento. Galileu apontou o telescópio para os céus. Newton descobriu as leis que governavam o movimento das estrelas e dos corpos. Adam Smith teorizou sobre economia. Os países baixos lançaram os primeiros sistemas financeiros.

 

Alguns séculos depois, a Revolução Industrial, o mercantilismo, as grandes descobertas… Nada disso ocorreria, não fosse o excesso de álcool de um velho mongol…

 


Extra: Sobre a série Marco Polo, da Netflix

Como já ficou claro, eu gosto de história, e aquela série não é sobre história.

 

Achei a série pifiamente romantizada e fantasiosa demais. Marco Polo é um moleque, que acaba virando uma espécie de assessor, estrategista militar, lutador de kung-fu e conselheiro de Kublai Khan!?!?

 

Todo mundo ali luta kung-fu: o chanceler chinês Jia Sidao, a irmã do chanceler, o Marco Polo, o monge, o filho do Khan!?!?

 

O pai de Marco Polo lidera uma cruzada cristã contra os mongóis!?!?

Mas tem algumas informações interessantes. Por exemplo, a história que o pai do Kublai Khan se sacrificou para preservar a vida do irmão Ogodei também é citada em outras fontes.

 


 

Links:

O fantástico livro “E se…?”, que conta algumas histórias que poderiam ter acontecido.

https://www.ancient-origins.net/history-famous-people/ogedei-khan-0010837

https://www.sciencealert.com/scientists-finally-know-what-stopped-mongol-hordes-from-conquering-europe

https://www.reddit.com/r/AskHistorians/comments/8lszit/how_historically_accurate_was_the_notion_that_the/*

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasion_of_Europe