A Teoria dos Cisnes Negros

Um resumo das ideias poderosas de Cisnes Negros, popularizadas por Nassim Taleb: eventos de baixa probabilidade, porém alto impacto.

São duas partes. Uma com as definições, e a segunda com ações que devemos tomar.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 1

Vivemos num mundo em que não conhecemos. Esta é a premissa básica da teoria dos Cisnes Negros, popularizada pelo pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele trabalhou por muito tempo como trader no mercado financeiro, e neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo virar pó em alguns dias.

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Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, mas impacto extremamente elevado. É um outlier difícil de acontecer, mas que pode ocorrer um dia, e, se ocorrer, terá efeitos catastróficos.

Esta é a definição, mas não o problema real. O grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência de Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E, mesmo nos casos em que ocorreram, rapidamente o conhecimento humano se adapta para mostrar que o evento era previsível, não era tão aleatório assim. É o que Taleb chama de “falácia narrativa”. Um exemplo são os economistas “profetas” que afirmaram que “era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer, devido aos riscos dos títulos sub-prime”. Tudo isso a posteriori, é claro.

O termo Cisne Negro remete a uma história. No séc XVII pensava-se que todos os cisnes fossem brancos. Por mais cisnes que fossem vistos, eles eram todos brancos. Até que, na Austrália, foi descoberto o primeiro cisne negro. Apesar de milhares de anos de observações de cisnes brancos, bastou um único evento de cisne negro para derrubar a hipótese de que “todos os cisnes são brancos”. Este termo foi criado pelo filósofo inglês David Hume, nos anos 1700, justamente para demonstrar o “Problema da Indução”, ou seja, a fraqueza do nosso processo de raciocínio indutivo.

 


Não-linearidade do mundo

O mundo é não-linear.  A lei de potências governa o mundo, não a curva gaussiana de probabilidade normal.

Vale a pena pontuar alguns casos de não-linearidade histórica:  os ataques terroristas de 11/09/2001, o surgimento do Google, a crise financeira de 2008, o surgimento da internet,  o tsunami de 2004 na Indonésia. Nem a internet, nem o Google, foram previstos pelos livros de ficção científica, nem pelos acadêmicos e executivos.

Os ataques de 11/09 são um caso bastante ilustrativo. Foi algo completamente imprevisto, deixando o mundo inteiro em choque, e mudando completamente o rumo da história. O mundo ficou paranoico com o terrorismo. Dificilmente as guerras posteriores no Iraque e no Afeganistão teriam justificativas não fosse o combate ao terror.

A história é como uma caixa-preta. Conhecemos apenas os eventos da história, mas não os fatores que causaram o mesmo. Temos apenas a interpretação de historiadores, que é feita a posteriori e a partir de um ponto de vista subjetivo, não conhecemos os reais geradores dos eventos. Os eventos importantes são não-lineares. A história não rasteja, ela anda aos pulos. Entretanto, agimos como se fosse possível prever o curso da história, e pior ainda, mudá-lo.

Apesar de nossos avanços tecnológicos, ou talvez por causa deles, o futuro será governado cada vez mais por eventos extremos.

 


 

O desconhecido desconhecido

Há fatos que conhecemos, que conhecemos que desconhecemos, e os que desconhecemos que desconhecemos, e é neste domínio em que somos surpreendidos pelos cisnes negros.

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A ciência, os acadêmicos e os executivos das empresas tendem a focar no que conhecemos, e passar a falsa impressão de que não há fatos que desconhecemos que desconhecemos. Todas as soluções caem em alguma categoria dentro do conhecimento existente. É como aquela piada, do bêbado que perdera a chave do carro no meio da rua, mas procurava a mesma debaixo do poste porque era o único lugar que tinha iluminação.

O mundo conhecido, dos acadêmicos e MBAs mundo afora, é o da curva gaussiana. Ela tem erroneamente tem o nome de “curva normal”, indicando que é fenômeno normal do mundo. Mas a curva normal ignora grandes variações, joga fora o desconhecido – ignora o não-linear.  Taleb chama o mundo gaussiano de “Mediocristão”.

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O mundo real é governado pelo não-linear, exponencial, Pareto, é regido por leis de potência e pelo improvável: alguns poucos ficam com tudo, alguns eventos são ordens de magnitude maiores dos que todos os que já ocorreram,  o que desconhecemos é muito maior do que o que conhecemos. Este é o “Extremistão”, em oposição ao “Mediocristão”: o mundo escalável, exponencial, o-vencedor-leva-tudo, onde o resultado é desproporcional ao volume de trabalho, onde pode-se ficar milionário ou falido num instante.

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 O problema do Peru

Um peru é alimentado todos os dias pelo seu dono, por 1000 dias. Baseado em modelos de forecast que extrapolam o passado, ele supõe que o dia 1001 também será um dia feliz, em que será alimentado por um ser humano. Entretanto, o dia 1001 é Natal, e o peru vai para o forno.

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Assim como no problema do peru, no mundo real a mesma mão que alimenta, pode ser a da degola.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 2

Como viver num mundo em que não conhecemos?

O passado pode não modelar completamente o futuro, quando estamos no Extremistão. Não conseguimos extrair informação de onde não existe.

Há três linhas de ação, com relação a opções para cisnes negros negativos, aproveitar cisnes negros positivos, e diminuir a ocorrência de cisnes negros .


 

Opções para Cisnes Negros negativos

Aceitar que não podemos prever o futuro implica em tomar medidas de precaução contra cisnes negros negativos: seguros, opções, planos B.

Taleb, por conta de sua formação como trader, explora bastante o uso de opções. Uma opção, no mercado financeiro, é um instrumento que dá o direito, mas não a obrigação, de comprar (ou vender) uma ação, num determinado momento a um determinado preço. Este direito não é de graça, é necessário pagar uma taxa, que na linguagem dos seguros é chamada de prêmio.

O seguro de veículos (ou casa, vida) é uma opção: pagando o prêmio do seguro, tenho a opção de “vender” (recuperar grande parte do valor) o automóvel à seguradora, no caso de problemas. Tenho o direito de fazer isto, mas não a obrigação. Se eu não exercer a opção dentro de um prazo, a seguradora fica com o prêmio.

Um seguro é uma opção de venda. Há no mercado financeiro a operação inversa: uma opção de compra. Posso comprar uma ação a um determinado valor, numa determinada data futura, pagando hoje um prêmio para obter este direito.

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Em suma, ter opções de compra ou de venda, ter seguros para as coisas mais importantes, ter redundâncias, ter um estoque, uma reserva de valor, são formas de precaução contra eventos imprevistos – não podemos prever o futuro, mas nos precaver para o mesmo.

 

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Ter opções

 

A questão é que o preço do prêmio pode ser caro, e o evento pode nunca ocorrer, então muita gente opta por não ter esses seguros.

Nos dias de hoje, com a busca das empresas em enxugar custos e tornar-se eficiente, com metas de redução de custos em todo lugar, as redundâncias, seguros e estoques têm se tornado cada vez menores. Isto pode gerar um ganho no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo.

Desprezar o seguro porque o prêmio é caro e gerar ganhos de curto prazo em detrimento do longo é como contar os centavos dentro da variação da curva normal conhecida, ao invés de centenas de dólares da variação de uma curva exponencial desconhecida. É como recolher centavos à frente de um rolo compressor. É como olhar para as folhas das árvores e esquecer da floresta, ou como ficar contando as pulgas e deixar passar o elefante, é pensar pequeno e deixar escapar o grande.

A natureza é um exemplo de organismo resiliente. Os animais e plantas devem se adaptar ao meio ambiente e serem eficientes, mas também devem ser eficazes em sobreviver a longo prazo. Digamos que um mamífero tenha uma adaptação ótima ao ambiente, o que lhe permita viver sem gordura. Entretanto, suponha que esta evolução ocorreu fora de uma época glacial. Quando chegar a próxima era glacial, este mamífero não sobreviverá para deixar seus genes, ao passo que os mamíferos não tão ótimos, porém robustos, terão sobrevivido, gerando os descendentes do mundo atual.

 


 

Cisnes Negros positivos e Estratégia Barbell

Para os cisnes negros positivos, a recomendação é a oposta: expor-se ao risco. Muita exploração agressiva, tentativa e erro, participar de festas e conversar com desconhecidos completos, tentar algo que nunca fora feito antes. A grande maioria dessas tentativas vai dar em nada, mas um único acerto pode valer todas as tentativas.

Se, por um lado, uma estratégia é a de ter opções, seguros e robustez, por outro lado devemos explorar agressivamente as oportunidades, qual a proporção entre esses? Essa é a estratégia “barbell”, remetendo à imagem de uma barra de pesos: ser extremamente conservador em um extremo (digamos, 90% do investimento em títulos bastante sólidos, renda fixa, ouro) e extremamente agressivo em outro extremo (digamos 10% do investimento em opções de alta volatilidade).

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A pior estratégia é ficar 100% no meio do caminho, nem tão conservador, nem tão agressivo: não há possibilidade de um cisne negro positivo, e também há risco de ser atingido por um cisne negro negativo.

 

Investidores-anjo não sabem qual a startup que vai realmente dar certo, então tendem a investir um valor pequeno (para o investidor, não para a startup) em várias empresas iniciantes, e acompanhar a evolução desta. O capitalismo, por permitir que centenas de milhares de empreendedores criem suas empresas, e principalmente, fracassem, permite que haja espaço para o surgimento de Apples e Microsofts, ao contrário do socialismo – em que a empresa estatal nunca fracassa porque é bancada por recursos públicos.

 


 

Ter a pele no jogo

O mundo contemporâneo está ficando cada mais conectado, com pessoas se especializando cada vez mais e empresas cada vez maiores. Isto traz um aumento proporcional na complexidade dos sistemas, e um loop de feedback cada vez mais distante e indiretos – as pessoas que tomam as decisões sentem cada vez menos os efeitos dessas decisões, o que faz com que elas não tenham a “pele no jogo”.

As empresas cada vez maiores podem ficar grandes demais para cair, exigindo algum socorro governamental quando isto acontece. Na prática, ocorre a privatização dos lucros, mas a socialização dos prejuízos, uma assimetria prejudicial à sociedade como um todo.

E, por serem grandes demais para ir à bancarrota, essas empresas podem tomar ações temerárias, como vender títulos podres a fim de obter ganhos de curto prazo – aumentando o tamanho do evento Cisne Negro – e com isso colocando em risco todo o sistema financeiro mundial.

Taleb é dos que defendem que empresas não podem se tornar “too big to fail” – evitar a complexidade na fonte, ao invés de ter a tarefa impossível de lidar com esta. Ele também é forte defensor da via negativa: simplificar ao invés de complicar, diminuir ao invés de aumentar, pequeno ao invés do gigante, projetos exequíveis e falíveis passo a passo.

 


 

Conclusões

Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.

Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia.  Há desconhecidos desconhecidos que fogem ao nosso controle. É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência e as certezas e abraçar a aleatoriedade.

Para explorar oportunidades, exploração agressiva de tentativa e erro na prática (não na teoria), heurísticas, exposição (controlada) aos riscos, em domínios escaláveis (Extremistão).

Em termos de projetos, é melhor ter vários ciclos simples e rápidos de tentativa e erro no mundo real do que por um mega projeto planejado detalhe a detalhe do começo ao fim.

Vivemos em mundo que não conhecemos.

Resumo em uma frase: Não seja o peru.

 


 

Links

Vale a pena ler os seguintes livros.

 

A Lógica do Cisne Negro

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Iludidos pelo Acaso

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Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos.

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Os Falsos Profetas Científicos

O profeta do fim do mundo

Há uns 10 anos, um profeta previu que o mundo acabaria junto com a chegada de um cometa. Ele afirmava que uma divindade viria na cauda do cometa, e castigaria a humanidade pelos seus crimes. Fazia o seu discurso com tanta convicção, e com tantos detalhes de como seria o fim do mundo, que amealhou algumas dezenas de seguidores. Estes se prepararam para o fim do mundo, comprando mantimentos e equipamentos de sobrevivência.

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No dia do juízo final, reuniram-se na igreja do profeta. As horas se passaram… e nada do mundo acabar. O cometa passou, assim como as 24h do dia do juízo final… e o profeta recebeu outra mensagem de Deus! A humanidade tinha sido perdoada! Os esforços dele e dos seus seguidores comoveram Deus. Parabéns a todos pelo feito histórico!


 

Profetas estatísticos

Há alguns profetas contemporâneos, mas que se vestem de economistas e estatísticos. Confesso que adoro quando eles quebram a cara!
Um tal de Nate Silver ficou famoso mundialmente, após prever com acurácia o resultado das eleições americanas de 2008 e 2012. Dos 50 estados americanos, acertou a previsão em 49. Virou celebridade. Ele escreveu um livro, chamado “O Sinal e o Ruído”. Virou o papa da estatística. O seu método poderia prever tudo, como se fosse um dos profetas das lendas antigas. Porém, ao invés de ler as entranhas de carneiro, ou os cascos de tartaruga, Nate Silver usa fórmulas matemáticas complexas e computadores. Pode parecer sofisticado, mas para mim, é a mesma coisa que usar intestinos de bode.

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Em 2016, um evento inesperado foi como uma “bala de prata” para Silver: Donald Trump. Ele fez uma série de previsões furadas: Trump não iria nem disputar as prévias, nas prévias perderia para o adversário, nas eleições perderia para Hillary Clinton…

Alguns highlights do site dele, chamado FiveThirtyEigth:

Why Donald Trump Isn’t a Real Candidate, In One Chart

June 16, 2015

Donald Trump Is The World’s Greatest Troll

July 20, 2015

Republicans Don’t Like Donald Trump As Much As They Used To

October 2, 2015

Trump Boom Or Trump Bubble?

December 15, 2015

(Retirado de http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912)

 

Sobre alguns destes erros, Silver fez uma mea-culpa, dizendo que nem sempre usou estatística em algumas destas análises, mas que continua sendo um cara fodão, blá blá, blá, blá. Se nem estatística usou, ele deveria ser analista político, não estatístico, correto?

(http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/)

Este screnshot é do forecast final da votação presidencial, do seu site FiveThirtyEigth, prevendo que Clinton ganharia com folga:

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(http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/)
Probabilidades podem ou não acontecer. Elas não indicam que a afirmação vai ocorrer com certeza absoluta. Então, as afirmações de que Silver errou as previsões fazem pouco sentido, porque por mais que uma probabilidade seja baixa, ela pode ocorrer. Entretanto, se o critério da mídia foi endeusar fulano por acertar todas as previsões de probabilidade, temos que adotar o mesmo critério de tirar fulano do pedestal por errar as previsões. Este é o meu ponto. Não há profetas, ninguém é Deus na Terra.

 


Estatística

A estatística é uma ciência que surgiu para prever comportamentos médios, baseados em diversos comportamentos individuais. Por exemplo, cada pessoa tem uma altura. É praticamente impossível adivinhar a altura exata de uma pessoa aleatória. Mas, se soubermos a idade, o sexo e a região do mundo, através de uma curva normal de estatística podemos dar um bom chute. Um homem, de 25 anos, no Brasil, ter enorme chances de ter entre 1,60 e 1,90 de altura!

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Entretanto, probabilidade e estatística têm a) um domínio de validade, e b) são ciências incertas pela própria natureza da coisa.
O grau de confiança de afirmações estatísticas têm maior validade se o número de amostras é maior.
Nate Silver fez trabalhos estatísticos de muito sucesso no baseball. Ora, no baseball a estatística faz muito sentido: centenas de jogos, jogadores fazendo jogadas semelhantes milhares de vezes na temporada.
Nas eleições, a chance de erro é muito maior. Porque Trump e Hillary disputaram uma única eleição. Não foi uma média de 100 eleições diferentes. E nunca mais haverá de novo as mesmas eleições. As eleições de 2016 são diferentes das de 2012. E serão diferentes das de 2020.

As probabilidades não dão certezas. São apenas probabilidades, não profecias. E os estatísticos que fazem as contas, apenas analistas técnicos, não profetas. Portanto, não faz sentido nenhum estar escrito, em absolutamente todas as matérias jornalísticas sobre Nate Silver, que ele acertou 49 de 50 resultados em 2012. Ele presta um desserviço enorme à ciência, ao tirar proveito desta fama e virar um pseudo-profeta.

E todas as fórmulas complexas e programas de computadores? Ora, conforme dito, a estatística tem as suas hipóteses de validade. Usar todas estas técnicas fora do domínio de validade é como construir um arranha-céus com as melhores tecnologias e materiais do mundo, mas sob fundações de lama: um dia, vai tudo desabar. Os economistas têm até um nome para isto: falácia lúdica. Significa se enganar com fórmulas matemáticas complexas, mas não conferir as hipóteses (normalmente frágeis) de todas estas fórmulas.

Nate Silver não é nem Deus por acertar todas as previsões, nem Lixo por errar previsões importantes. É apenas um analista estatístico, e os seus resultados devem ser entendidos como tal.
Conclusão: não existem profetas. Mesmo que fulano tenha acertado 1.000 de 1.000 previsões, um dia sua máscara cairá.


Críticas de Nassim Taleb

Quando terminei de escrever o parágrafo acima, fui pesquisar algumas das reações aos forecasts de 2016.
É lógico, sempre tem aqueles que ainda endeusam Nate Silver. Cada um é livre para opinar da forma que quiser. Mas encontrei alguns tweets interessantes do pensador Nassim Taleb, autor da “Lógica do Cisne Negro”, sob a qual baseio grande partes das ideias acima e muitos posts deste espaço.

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Ele diz coisas como: as probabilidades de Silver (site FiveThirtyEigth) variam tanto que são muito estocásticas para serem probabilidades. Se a variância é tão grande assim, a probabilidade é de 50% (ou seja, pode dar igualmente qualquer coisa, a análise toda só serviu para dizer ‘não sei’).

Taleb é outro que odeia profetas. Vive brigando com alguns.

 


 

Fontes

 

Nassim Criticizes Nate Silver’s Election Predictions on Twitter

http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912

http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/

http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/

http://www.businessinsider.com/donald-trump-nate-silver-prediction-mock-polls-2016-10

https://www.pastemagazine.com/articles/2016/07/the-sudden-shocking-fall-of-nate-silver.html

http://www.smh.com.au/world/us-election/us-election-2016-statistician-nate-silvers-big-donald-trump-mistake-20161030-gseaye.html

Links

Alguns textos.


Seth Godin é um criativo escritor, e tem várias ideias provocativas. Devido à concorrência entre empresas de transporte (Uber e Lyft) nos EUA, está tendo uma corrida para baixo, de quem fornece preços menores. Ele sugere o contrário: quem cobra mais, mas oferece  serviços cada vez melhores: uma corrida para cima.

http://sethgodin.typepad.com/seths_blog/2016/06/a-dollar-more-vs-a-dollar-less.html


Alexandre Versignassi, Editor da Superinteressante, conta a história do “Trabant”, um carro que todos poderiam ter, na Rússia. O problema era que a fila de espera era de 15 anos. E compara o Trabant com o Iphone, nos dias atuais.

http://super.abril.com.br/blogs/crash/ganancia-a-arma-mais-eficiente-contra-a-pobreza/

 


 

Nassim Taleb conta como uma minoria barulhenta, digamos 5% da população, mas engajada, ativa, que ocupa os espaços da mídia, pode influenciar os resultados ante uma maioria (que tem mais o que fazer do que lutar por um assunto específico).

http://www.fooledbyrandomness.com/minority.pdf

 

 

 


 

 

 

Assimetria de resultados, termoelétricas e heróis esquecidos

O ano é 2015. O Brasil sofre uma intensa crise hídrica, uma das piores de sua história. O nível dos reservatórios cai, as hidrelétricas não conseguem mais produzir tanta energia quanto antes. É necessário ligar as caras termoelétricas, movidas a carvão. A conta de luz sobe, todo mundo reclama: “Deveriam ter feito investimento em hidrelétricas”, “Termoelétricas são altamente poluentes”. Mas o Brasil não para. Não há apagão. A crise hídrica foi superada sem maiores traumas.

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Notícia do portal G1

 

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El País

 


 

O ano é 2001. O Brasil passa por uma crise hídrica. O nível dos reservatórios cai. Não há termoelétricas. Ocorre o que ficou conhecido como “Apagão”. Sem energia para suportar toda a atividade industrial e residencial, é necessário economizar: diminuir a produção industrial, economizar no banho, desligar o ar-condicionado. Todo mundo reclama: “Deveriam ter se preparado para isto”, “O Brasil tomou um prejuízo de vários bilhões”.

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Planejamento

Fazer um bom planejamento significa antever oportunidades e prevenir gargalos futuros. Significa ir resolvendo problemas antes mesmo destes acontecerem.
Isto inclui reconhecer que não é possível planejar tudo: o futuro é incerto, sempre será uma incógnita. Se não é possível prever o futuro, nem planejar tudo, o que fazer? Ter o plano de ação traçado, alguns planos B na manga, e fazer seguros para evitar grandes impactos.

Um seguro é uma opção: pago um valor para comprar o seguro, e tenho a opção de usá-lo ou não. É igual ao seguro do carro: compro o seguro pagando um prêmio, digamos R$ 2.000. Se não usar o seguro em um ano, perco os R$ 2.000 – poderia ter usado este valor não desprezível para fazer alguma outra coisa. Mas, se for necessário usar o seguro, isto pode me salvar de um prejuízo de digamos R$ 40.000.

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O mundo não é linear. Há uma extrema assimetria nos resultados possíveis: se compro o seguro, fico R$ 2.000 mais pobre, se não compro, eu posso ter um prejuízo extremo.  A vida está sujeita a eventos extremos, de baixíssima probabilidade, mas impactos enormes. Isto é o que o pensador Nassim Taleb popularizou com o termo “Cisne Negro”.

 

Um seguro pode ser algo simples, como guardar uma reserva de dinheiro, preservar um recurso estratégico, saber o número de telefone de um amigo quando estiver no exterior.

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Nos anos 2000, após o apagão, o Brasil comprou um seguro: a construção de usinas termoelétricas. Investiu milhões para construir, e desde então arca uma taxa anual pela opção da energia: paga as termoelétricas para ficarem paradas, sem fazer nada. Muita gente criticou: “termoelétricas no Brasil, um país tropical com tantos rios? Deveria é ter mais hidroelétricas!”. “Pagar para não fazer nada? Isto é para quem é amigo do governo.”

Eis que, em 2015, o Cisne Negro da crise hídrica surgiu. O Brasil acionou o seguro: as termoelétricas. Mas não houve apagão. Não houve redução absurda na capacidade produtiva. Num país muito mais rico e complexo do que no ano 2000, os prejuízos seriam de centenas de bilhões, talvez na casa dos trilhões de reais.

Ninguém gostou que a conta de luz ficou mais cara, mas isto é porque as pessoas  não conseguem enxergar as alternativas. E a alternativa  de não pagar mais caro seria o apagão: não ter energia. É impossível controlar as chuvas e fazer chover simplesmente porque eu quero que chova.

Um dos maiores problemas do planejamento é o de que nunca terá o seu trabalho reconhecido. Se realmente antever uma oportunidade que permita que a empresa a explore, quem vai colher os frutos futuros são os que estiverem no comando da empresa neste momento. Se o planejamento resolver um problema futuro, este não mais será um problema: vai ficar no universo do que poderia ter sido, um universo que não existe.

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Segundo este “especialista”, em artigo de 2003, o Brasil não precisava de termoelétricas porque “a população estabeleceu padrões de consumo elétrico mais eficientes”

 

Mais um exemplo. Lembro que, quando eu era bem jovem, ninguém usava cinto de segurança. Os meus pais não usavam, os meus tios também não, muito menos eu. Desde então houve a educação e mudança de mentalidade em relação ao cinto de segurança. Aliado a uma simples lei, a de multar quem dirigir sem cinto, e hoje o comum é usar o cinto de segurança. Virou até automático: entro no carro, coloco o cinto e nem percebo que estou fazendo isto. Este simples medida de segurança com certeza salvou milhares de vidas desde então. Mas não sabemos quantas pessoas isto salvou, nem quem salvou, e muito menos quem foram as pessoas que lutaram para implantar esta lei e educar os cidadãos sobre os benefícios do cinto. São verdadeiros heróis esquecidos.

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Conclusão

Ninguém se lembrará daqueles que compraram o seguro para evitar a incerteza do futuro. Vão até criticá-los, por terem que pagar mais pela compra da opção. Porém, o que move pessoas assim são a certeza do dever cumprido, de que o futuro é imprevisível e que Cisnes Negros negativos podem ocorrer e quebrar a mais sólida das empresas.

 

Nota: “Roubei” o exemplo das termoelétricas de uma conversa com Cláudio Ortolan.

 

A Revolução da Ignorância

Ouvi uma pessoa dizer numa palestra que “a ciência provou que o Big Bang ocorreu há exatamente 3,8 bilhões de anos atrás”. Depois, esta mesma pessoa disse que “a ciência provou que a evolução Darwiniana está correta”.

 
BigBang
 
Fiquei revoltado com ambas as frases. Não porque eu não acredite na evolução ou no Big Bang. E nem porque a frase tem palavras tão desconexas quanto “exato” e “bilhões de anos”. Mas sim porque ambas as frases são diametralmente opostas ao próprio método científico.
 
A ciência não dá certezas absolutas. Quem coloca dogmas como verdades absolutas intransponíveis são as religiões e as ideologias. O método científico é o método da Ignorância – ter a humildade de reconhecer que não sabemos de tudo, e que temos que aprender com fatos novos que contradizem o nosso corpo de conhecimento. Este texto tentará mostrar isto.
 


 

1. O mundo pré método científico
 
No mundo pré método científico, os humanos explicavam o mundo através de deuses. O trovão era causado por um deus quando ficava enfurecido. Os mares tinham um deus, os céus, outro deus, e assim sucessivamente.

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Os deuses explicavam tudo, e praticamente todas as civilizações antigas tinham os seus mitos de criação da humanidade.
 
Nada contra religiões politeístas, mas religião e ciência são coisas distintas.


 

2. Revolução da Ignorância

Segundo as ideias do filósofo Karl Popper, em sua Lógica das Descobertas Científicas, a ciência não prova nada. A ciência apenas apresenta teorias, que são válidas enquanto não surge outra ideia melhor. Em outras palavras, a ciência é falsificável, porque podem surgir evidências de que ela é falsa.

 

A ciência não apresenta provas definitivas. E é aí a grande força da ciência, que reconhece que é incompleta e que são justamente as informações contraditórias que a ajudam a crescer.

 

A mecânica de Isaac Newton funcionou muito bem por centenas de anos. Mas alguns experimentos de medição da velocidade da luz, que contradiziam a Física da época, permitiram que a famosa Teoria da Relatividade surgisse. A Física Newtoniana não era mais a verdade absoluta. Havia agora uma teoria melhor, que vai durar até que novas observações e contradições a derrubem.
 
Apenas as religiões e ideologias apresentam afirmações intransponíveis, que explicam todos os fenômenos do mundo em dogmas auto contidos.


 

3. Cisnes Negros

Uma das implicações da ciência ser falsificável é o Problema da Indução: não importa o número de observações condizentes, mas uma única observação contraditória é suficiente para contestar a teoria.
 
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A ideia de Cisne Negro foi divulgada por Nassim Taleb. Imagine a afirmação: “Todos os Cisnes são brancos”. Não importa quantos Cisnes brancos eu veja, isto não vai provar que a Teoria está correta. Mas uma única observação de um Cisne Negro vai ser suficiente para contradizer a teoria, que deve ser substituída por outra.
 
Observe a diferença. Uma ideologia como o socialismo concentra-se em ideias fixas. Não importa quantas vezes tenha dado errado na prática, os defensores da ideologia vão sempre defender que foi a execução não seguiu a teoria, ao invés de admitir que a teoria é que deve ser modificada.


 

4. Triunfo da humildade
 
Portanto, a ciência é o triunfo da humildade de não achar que a gente sabe de tudo. Por exemplo, por mais elegante que seja a Teoria da Evolução, ela provavelmente não vai explicar tudo, forçando o surgimento de melhorias nas ideias envolvidas. O mesmo se dá em relação ao Big Bang e a todas as outras teorias. Esta própria ideia da teoria das Descobertas Científicas de Popper pode estar errada, e vir a ser substituída por outra que diga algo diferente.
 
Newton: o que sei é uma gota, o que não sei é um Oceano.

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Shakespeare, falando por meio de Hamlet : Há mais no Céu e na Terra do que sonha a nossa vã filosofia.

 

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Bibliografia interessante:

The Black Swan – Nassim Nicholas Taleb
Sapiens – Uma breve história da humanidade
Karl Popper – a Lógica das Descobertas Científicas

 

 

Como uma roda funciona?

Tipos de Equilíbrio

 

Eis uma divagação meio perdida, mas muito importante.

 

Em física, há o equilíbrio estável e o instável.

 
O equilíbrio estável é aquele em que uma pequena perturbação (um empurrãozinho) não faz mudar a posição da bolinha: ela vai e volta para o mesmo ponto.

Equilibrios

Já no equilíbrio instável, um empurrãozinho faz a bolinha sair da posição e não mais voltar: ou seja, colapsar.

 
Por que esta noção bobinha de equilíbrio é importante em física?
 

Porque normalmente os físicos modelam seus problemas em termos de equações. Um sistema de equações pode gerar várias soluções possíveis. A solução pode atender a equação (ser um ponto de equilíbrio), mas pode ser instável – ou seja, na prática é uma solução que não serve para nada. Os físicos procuram soluções estáveis para os seus problemas.

 


 

Como uma roda funciona?
 

Surpreendentemente, uma das invenções mais úteis do homem busca o equilíbrio instável, ao invés do equilíbrio estável.
 

Se você imagina uma roda numa superfície lisa, o ponto da roda em contato com o chão está numa forma de equilíbrio instável: um empurrãozinho na roda, e a roda gira, a posição muda. Mas o ponto seguinte da roda também estará num equilíbrio instável. A roda nada mais é do que uma sucessão eterna de equilíbrios instáveis.

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E é exatamente por ser uma eterna sucessão de equilíbrios instáveis que faz com que a roda seja tão útil. Imagine a bolinha em equilíbrio instável. Um empurrãozinho e ela já sai do lugar. Enquanto isso, a bolinha no equilíbrio estável precisa de um monte de energia para fugir deste estado.
 

Empurrao

A natureza é fascinante. Aquilo que parecia o seguro, o estável, torna-se pior do que o instável.


 

A vida é um equilíbrio dinâmico

 
Muita gente busca a estabilidade em suas vidas, e inveja as pessoas que a conseguiram: fazer sempre a mesma coisa, ter estabilidade no emprego, ter uma garantia de renda, etc.

 
De modo análogo ao da roda, o equilíbrio instável pode ser melhor do que o estável.

 
A vida é cheia de empurrõeszinhos e empurrõezões. Uma crise, uma mudança de política, um colapso do governo, um problema de saúde, etc.

 

Quando os empurrões acontecem, aqueles que viviam a ilusão da “estabilidade” terão que despender muita energia para se virar: eles são frágeis.

 
Aqueles já que passaram a vida toda tendo que se virar sozinhos têm mais capacidade de se virar de novo, e até se dar bem. São anti-frágeis. A “anti-fragilidade” é um termo cunhado pelo provocativo pensador Nassim Nicholas Taleb, cujas ideias e cisnes negros já foram discutidos muitas vezes neste blog.
 

Ao invés de procurar um porto seguro, tenha em mente que a vida pode dar seus empurrões. Ao invés de evitar a incerteza, que tal abraçar a incerteza? Fazer trabalhos diferentes, assumir riscos controlados, estudar coisas novas e esquecer conhecimento que não é mais válido. Assumir que muita coisa pode mudar, que o seu porto seguro não é tão seguro assim, e que Black Swans podem acontecer.

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Lembro-me de uma frase de Albert Einstein: “A vida é como andar de bicicleta, deve-se estar sempre em movimento”.

 

Arnaldo Gunzi
Julho 2015

 
 

Para abrir em caso de terremoto

No Japão existe um biscoito preparado exclusivamente para o caso de terremotos.

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É um biscoito de trigo bem seco e duro, para ficar anos sem estragar. Quase não tem tempero: se fosse muito salgado, faria a pessoa sentir sede, e não se sabe se haveria água num desastre natural.
 

É numa embalagem de metal – para aguentar fortes impactos. Tem um abridor como o de latas de refrigerante.
 

É um biscoito, mas também um retrato do trauma de ter passado por terríveis guerras, bombas atômicas, terremotos e tsunamis.

 

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Este trauma é tão forte que há tempos o Japão vive dificuldades econômicas por causa de uma cultura excessiva de poupar recursos.
 

Uma vez vi uma entrevista de duas velhinhas japonesas de mais de 70 anos, que têm mais de 1 milhão de dólares em suas contas bancárias e mesmo assim vivem em total austeridade, economizando hoje para o caso de dificuldades futuras.
 

Há culturas que são o oposto: se endividam hoje para pagar em dobro no futuro.
 

Não sei o que é certo ou não, mas sei que arte de dominar a percepção do Tempo é o maior desafio do ser humano.

A estratégia barbell e a TI bimodal

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Estratégia Barbell

O que é melhor, arriscar muito, arriscar pouco, ou ter um risco médio?
 

A maioria das pessoas intuitivamente escolhe o caminho médio. Exemplificando com finanças, trabalhar com opções na bolsa de valores é muito arriscado, gerando ganhos e perdas gigantes. Colocar na poupança é o que tem menor risco, mas gera pouco retorno. Então, as pessoas escolhem algo entre esses extremos.
 

A estratégia barbell é o oposto desse caminho médio. Barbell é um haltere de exercícios, aquele que tem dois pesos em cada ponta e uma barra no meio. A estratégia consiste em deixar a maior parte dos recursos em algo muito conservador, e colocar a parcela restante em algo extremamente volátil, ou seja, apostar nas pontas e evitar o caminho do meio.
 

Este termo foi criado por Nassim Taleb (Black Swan, Antifragile). Colocar-se na parte conservadora garante que, aconteça o que acontecer, você não quebre, sobreviva a imprevistos. Colocar uma parte dos recursos na parte arriscada te expõe aos riscos positivos, se algo der certo, impulsiona tudo.

 


 

TI bimodal

A área de TI (tecnologia da informação) é tradicionalmente lenta, pesada, cheia de processos amarrados num ERP chato.
 

Bimodal é algo que tem dois modos, dois picos em locais opostos. Teria o modo tradicional da TI, chato, lento, pesado, estruturado. Mas também teria um modo rápido: prototipagem rápida, teste de conceitos, modelos simples feitos em excel, flexíveis, desestruturados. Mais ou menos assim: a TI ágil entrega soluções simples e rápidas, testando conceitos até que o processo rode bem. Depois de alguns meses, chega a TI tradicional, para implantar soluções mais estruturadas. Um é o que abre caminho na estradas, e o outro é o que pavimenta com asfalto.
 

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O conceito de TI bimodal se encaixa bem na estratégia barbell. É um bom conceito.


 

Ágil

No começo, os trabalhos de desenvolvimento não tinham muita metodologia. Alguém sentava do lado de quem desenvolvia, pedia algo e isto era feito. O problema era que o escopo mudava, as ferramentas evoluiam, e dava um retrabalho enorme modificar tudo.
 

Aí surgiu o conceito tradicional de desenvolvimento de projetos. Havia a especificação do que deveria ser feito. Com base nessa especificação entrava o desenvolvimento. Mas o problema é que escrever a especificação demora muito, e o cliente NUNCA sabe o que quer. E não é por culpa do cliente, mas devido às circunstâncias: ele pode enxergar outras oportunidades ao longo do projeto, ou o escopo pode mudar, ou o mundo pode mudar. E, então, temos hoje a TI amarrada, que demora meses para dar uma solução que não resolve o problema do usuario.

 
Com o tempo, surgiram as metodologias ágeis: um escopo não tão especificado assim, maior interação entre quem usa e quem desenvolve, etc. Voltou a ser como era no começo de tudo, mas com um nome mais bonito e parecendo mais sofisticado.

 


 

Como implementar
 

Na prática, o que vejo atualmente é que embora o conceito de TI bimodal seja bom, a TI não vai conseguir mudar no curto prazo. A parte ágil tem muito mais características de consultoria ou de uma área de projetos, totalmente desvinculadas de TI tradicional. A TI bimodal é um bom conceito, mas na prática só vai funcionar se a parte ágil da TI tiver características muito diferentes da TI atual. A parte ágil da TI não pode ser igual a TI.

 

 

O problema do peru

 

“The turkey problem” é um termo provocativo de Nassim Taleb, que ilustra a incapacidade de se prever o futuro e a falsa confiança que dados históricos podem trazer.
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Um peru passa mil dias sendo alimentado por um humano. Cada dia a mais é uma evidência adicional de que o humano é alguém que foi feito para cuidar do peru.

 

Se tivesse um peru com doutorado em estatística, ele poderia fazer um gráfico plotando uma linha crescente nos 1000 dias. E qual seria a projeção (forecast) estatística dele para o dia 1001? A projeção seria a de que o dia 1001 seria igual a todos os outros, com o humano dando comida e cuidando da vida boa do peru.

 

Exceto que o dia 1001 é o dia de ação de graças, festa tradicional norte americana cujo prato predileto é o peru.

 

O peru foi para o forno, e o gráfico dele passou a ser algo assim:

 

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O peru tinha um conhecimento limitado do mundo e uma massa de dados históricos de 1000 dias.

 

O ser humano tem um conhecimento limitado do mundo, e tudo o que se tem são dados do passado (e projeções para o futuro). Somos todos perus.

 

Somente depois que um grande evento acontece é que surgem profetas e sabidões falando que tinham previsto isto. Foi o caso, por exemplo, do ataque às torres gêmeas, um evento ímpar que mudou completamente o mundo após ocorrer.

 

Algumas implicações para não ser um peru: assumir que não é possível prever o futuro e se precaver caso algo aconteça, considerar também os riscos ocultos que não podem ser mensurados e não confiar que novas ferramentas da moda são melhores que as existentes.

 
Não é possível adivinhar o futuro. Pode-se ter projeções, pode-se trabalhar em cenários prováveis, mas um evento extremo sempre pode ocorrer. O que é possível de ser feito é assumir proteção a risco, no caso de algum evento extremo. Por proteção a risco entende-se hedge, stop loss, seguros, estoques estratégicos.

 

Seguros como o de vida, carro, plano de saúde podem ser caros, mas podem evitar problemas ordens de grandeza mais caros no futuro.

 

Estoques são cada vez mais considerados como custos, num mundo otimizado. Mas é bom ter uma gordura, um estoque do mais importante. O próprio corpo humano é assim. Qualquer alimento sobrando vira estoque de energia, a gordura, que é tão difícil de eliminar. Temos dois pulmões, dois rins, cabelo e unhas nunca param de crescer, um monte de sistemas backup redundantes. Somos projetados para viver num mundo instável.

 


Os riscos ocultos podem ser piores que os riscos visíveis. Porque somos perus, e não conseguimos enxergar além de um limitado alcance.

 

Qual a aplicação financeira com menor risco? É quase unânime dizer que é a poupança ou títulos da dívida do governo, enquanto a bolsa de valores é o lugar de alto risco. Na verdade, o que interessa é o risco futuro, e ninguém sabe o que pode acontecer.  Colocar todos os ovos na mesma cesta é ruim, confiar somente na poupança e nos títulos do governo é ruim. Por isso, diversifico comprando outros ativos, inclusive na bolsa de valores – não busco ganhos imediatos, mas proteção e diluição de riscos a longo prazo.
 


Tem algumas palavras chave da moda, que de tempos em tempos aparecem, como Big Data, Analytics, etc.  O tal do Big data não vai servir para nada. Não é com mais dados (do passado) que vamos saber mais do futuro.

 
Não é porque o cara que inventou o método “Super Big ABCD” tem phD em Harvard e escreveu um artigo bonito (com monte de palavras complicadas, citando um monte outros caras famosos) que isto vai funcionar mesmo. O nosso peru do exemplo também tinha doutorado em estatística. Todas estas metodogias e ferramentas dão a ilusão de que se tem o mundo sob controle (riscos visíveis), quando vivemos num mundo em que há cada vez mais  eventos ocultos que não previsíveis.

O mundo é e sempre será muito maior do que a soma de todo o conhecimento da humanidade.

O consultor dos samurais, seguros e a crise hídrica

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Na entrada de diversas escolas do Japão, há a estátua de um menino carregando lenha e lendo um livro. O nome dele é Ninomiya Kinjiro, e é um símbolo de esforço, parcimônia e doação. Há um post específico narrando a história dele.
Diz a lenda que, no Japão da época, houve um período do ano que estava chovendo abaixo do esperado. O calor era o mais forte que os mais velhos tinham conhecimento. O nível dos rios estava baixo, bem mais baixo do que no mesmo período do ano passado. A colheita estava crescendo abaixo do que a tábua de cálculo de Kinjiro previa que cresceria. Dizem que Kinjiro provou uvas de uma fazenda, e elas não estavam boas. Então ele finalmente se convenceu de que havia alguma coisa errada.
Kinjiro passou a liderar uma forte campanha de racionamento de alimentos. Poupar hoje para não faltar amanhã. Diminuir o consumo hoje como um seguro para épocas seguintes.
Apesar de ser uma medida impopular, pois submetia a população aos inconvenientes de um racionamento, era o que deveria ser feito. Então, com a coragem que tal medida requeria, e com transparência total para com a população, ele conseguiu poupar a produção de alimentos.
Muitos concordavam que a época de secas estava um pouco pior do que o normal, mas esperavam que a época de chuvas fosse melhor. Mas Kinjiro era firme. Não deveriam se basear num cenário romântico, mas sim num cenário provável. E também ter um seguro. Seguros são instrumentos muito comuns no mundo financeiro, mas sua concepção pode ser estendida para outras áreas. Um seguro é um preço que pagamos hoje, para evitar ou mitigar possíveis efeitos ruins no futuro. Se o cenário ruim não ocorrer, perdemos o preço que pagamos hoje. Mas, se o pior cenário possível ocorrer, o preço que pagamos hoje é muito menor do que o efeito do pior cenário.
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Diz a lenda que o clima no Japão foi impiedoso nos anos seguintes. O vilarejo de Kinjiro sobreviveu com certa facilidade por causa do racionamento, que tinha começado anos antes. Então, outros vilarejos das redondezas buscaram o auxílio do vilarejo de Kinjiro. É como se o seguro deste tivesse coberto até mesmo alguns terceiros.
Alguns milênios depois, a mais grave crise hídrica de São Paulo dava indícios de que algo estava errado há vários meses. O governo resolveu tratar o caso sem transparência (sem assumir que deveria haver um racionamento pesado) e sem seguro (sem tomar, há meses atrás, medidas fortes para diminuir o consumo), torcendo pelo período chuvoso. Hoje, estamos no meio de janeiro, e o Cantareira está a 6,5% da capacidade, já esgotados algumas reservas de emergência. Meses úmidos como novembro, dezembro e janeiro já passaram, e nada de melhorar. Temos pela frente mais alguns poucos meses historicamente chuvosos para entrar em outro período de seca.
Haverá o colapso do sistema hídrico. Medidas como multar quem consome muito, premiar quem é frugal, admitir o racionamento, consertar vazamentos e fazer obras deveriam ter começado há vários meses, quiçá anos atrás.
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Há chance de haver problemas no sistema elétrico, pelo mesmo motivo (falta de chuvas em todo o país). O que vem salvando o sistema elétrico são as termoelétricas, estas sim construídas como um seguro para momentos como este, no governo FHC há mais de 10 anos atrás,
É impossível prever o futuro, mas é possível fazer cálculos de cenários e adquirir seguros. O preço do seguro pode não ser barato, mas é um preço muito baixo, comparado ao custo de um evento de alto impacto, um Black Swan.
Arnaldo Gunzi
Jan/2015
(por enquanto não falta água em casa, pelo reservatório daqui ser o Guarapiranga).
Bônus: a bela música “Asa Branca”

Quando olhei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de prantação
Por falta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Fat Tony e o dilema do prisioneiro

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Esta digressão é meio longa e viajante, é normal se ninguém entender.
Já comentei sobre o dilema do prisioneiro aqui (https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/08/24/dilema-do-prisioneiro-e-assertividade/). É o assunto mais famoso e estudado da teoria dos jogos. Dois homens estão presos. Estão incomunicáveis. Se um confessar e o outro não, o que confessou se livra e o outro fica preso por 10 anos. Se ambos confessarem, ambos ficam 5 anos. Se ninguém confessar, ambos ficam presos por seis meses.
Por outro lado, Fat Tony e Dr. John são personagem criados por Nassim Taleb, autor de Black Swan. Taleb é uma das mentes mais provocativas do mundo atual.
Dr. John é o nerd perfeito. PhD, MBA, terno e gravata, tem um emprego com carteira assinada numa grande empresa.
Fat Tony é alguém que enriqueceu na vida real, investindo em commodities. Desconfia de todas as regras da matemática, dos economistas, do mundo dos negócios. Desrespeita regras quando acha que é a coisa certa a fazer.
Como eles resolveriam o dilema do prisioneiro?
  • Dr. John: se for um jogo único, a estratégia dominante é  a de confessar, independente da ação do outro. Se for um jogo repetitivo, deve-se adotar uma estratégia do tipo tit-for-tat (olho por olho) com perdão, como o tit-for-two-tats.
  • Fat Tony: Porra, eu chamaria o meu conhecido, Don Corleon, para intermediar o acordo. Nenhum de nós confessa. A gente fica um mês preso, depois os advogados tiram a gente e ficamos limpos. Se o corno do outro prisioneiro confessar, ele se ferra.
  • Dr. John: Mas o enunciado do problema diz que eles estão incomunicáveis. Não há um terceiro elemento intermediando a negociação.
  • Fat Tony: Dane-se o enunciado. Nunca vi duas pessoas ficarem incomunicáveis. Nunca vi advogado não poder falar com cliente. Nunca vi juiz não ser influenciado pelas pessoas certas.
Quero salientar nesta história que o modo lógico de resolver problemas não se aplica 100% na realidade. A realidade tem condições de contorno e hipóteses diferentes do mundo matemático. Ficar preso ao enunciado do problema não vai gerar novas soluções.
Recomendo a leitura de Dr. John x Fat Tony, original, no livro do Cisne Negro, para entender este post.
Mas como o Black Swan tem 500 páginas, uma descrição apenas de Dr. John e Fat Tony pode ser vista aqui
Arnaldo Gunzi.
Dez/2014