Incerteza de Heisenberg e rumos

O ministro Marcos Pontes fez a postagem abaixo.

Minha resposta:

Esta equação é a do Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Houve um tempo, após Newton, em que os cientistas achavam que as Leis da Física poderiam prever tudo de forma absoluta. Se eu soubesse a posição de todas as partículas do universo, um computador suficientemente poderoso poderia calcular todo o futuro e todo o passado de tudo o que existe: é o Demônio de Laplace.

Porém, um dos pilares da Física Quântica é o Princípio da Incerteza: há uma incerteza intrínseca no nível atômico mais básico do universo. Nem se houvesse um super Demônio de Laplace, seria possível calcular todo o futuro. Fazendo a analogia, nada está escrito, ninguém manda em você além de você mesmo!

O poder ilimitado corrompe de forma ilimitada?

O anel de Gyges

Uma das passagens mais intrigantes da República de Platão diz respeito à lenda do anel de Gyges.

É sobre um camponês, Gyges, que descobre um anel mágico. Girando o anel para um dos lados, ele ficava invisível, girando para o outro lado, Gyges voltava a ficar visível.

Esta é uma metáfora para o poder ilimitado. Poder subtrair o que quiser sem despertar suspeitas. Poder atacar quem quiser sem sofrer consequências. Poder fazer o que quiser sem ser punido.

Gyges utilizou o anel para seduzir a rainha, assassinar o rei e assumir o trono do reino.

O diálogo platônico, entre Glauco (irmão mais velho de Platão) e Sócrates, fazia uma questão que está aberta até hoje, e vai ficar aberta pelo resto da existência da humanidade: uma pessoa com alta moral se corromperia com poder ilimitado?

Uday Hussein

Uday Hussein foi um exemplo de pessoa que nasceu com poder ilimitado. Acompanhe:

  • Uday era o mais velho dos dois filhos de Saddam, e como tal, esperava suceder seu pai um dia
  • Quando Uday era jovem, Saddam levava ele o seu irmão Qusay para assistir prisioneiros serem torturados ou executados. Uday em particular saboreava a experiência
  • Imagine o garoto desagradável, mau, super rico no ensino médio, mas agora imagine que ele tem o poder de seus guarda costas para bater em você até virar uma massa de sangue, ou matar você, ou matar você e toda a sua família, num estalar de dedos.
  • Na faculdade, Uday de tempos em tempos via uma garota excepcionalmente bonita, falava para seus guarda-costas trazerem ela para o seu quarto, onde a estuprava e às vezes falava para os guarda-costas a matarem.
  • Ele às vezes ia para um clube e se ele visse uma garota atrativa dançando com um homem, e isto provocasse ciúmes, ele mandava matar o homem
  • Ele matou um homem por recusar a deixar Uday dançar com a sua esposa
  • Ele ficava de pé na varanda com binóculos, e quanto encontrava uma moça bonita ele mandava seus homens pegarem para ele. Uma vez ele fez isto com as filhas de 12 e 14 anos de um homem, e ele não tinha opção senão aceitar ou todos morreriam
  • Ele era obcecado por tortura e amava experimentar diferentes formas, incluindo usar uma dama de ferro que ele possuía, e colocando alguém sozinho numa sala com seu tigre mascote faminto
  • Ele matou o amigo/guarda-costas de seu pai porque Uday suspeitou que ele estava arrumando prostitutas para o seu pai
  • Uma vez ele matou um homem que não o saudou
  • Até Saddam estava assustado por Uday ser tão cruel e negligente, tanto que ele apontou o irmão mais novo Qusay para ser seu sucessor no lugar de Uday
  • Isto fez Uday incrivelmente ciumento, e ele fez coisas como pegar uma garota que ele ouviu dizer que dormira com Uday, trazer a ele, violentá-la e marcá-la permanentemente com um U
  • Para dar a ele alguma coisa para fazer, Saddam apontou Uday como o chefe do comitê Olímpico. Uday fez atletas que performavam mal serem torturados, às vezes trancando-os em arcas de ferro por três dias
  • Uday era notório no Iraque todo e universalmente odiado por todos
  • Uday e Qusay foram ambos mortos por um ataque aéreo das tropas americanas em 2003
  • Ninguém ficou triste

A minha provocação é: será que todos nós seríamos tão maus quanto Uday, se tivéssemos nascido com o mesmo poder?

Fonte do relato sobre Uday: site Wait but Why

O canalha gosta de ética

Uma reflexão interessante do prof. Clóvis de Barros Filho.

Até o sujeito mais canalha e anti-ético do mundo quer um que o mundo seja um lugar ético.

Imagine se todos fossem canalhas como o canalha em questão. Este não poderia confiar em nenhuma outra pessoa. Sua vida seria um inferno.

Para o canalha-mor se dar bem, ele precisa que as outras pessoas sejam éticas e só ele canalha.

Se até o canalha torce para que o mundo seja um lugar ético, as pessoas de bem, mais ainda!

O Daruma

O Daruma é um boneco redondo, comum na cultura japonesa.

O boneco vem com os olhos em branco. A tradição diz o seguinte: faça um desejo, e pinte um dos olhos do Daruma.

Pinte o segundo olho somente após o desejo se realizar…

Na vida real, o Bodhidharma foi um monge budista que viveu entre os séculos V e VI, na China. Diz a lenda que ele ficou 9 anos meditando com todas as suas forças, em frente a uma parede branca. Ele ficou tanto tempo imóvel que os braços e pernas apodreceram, daí o boneco ser assim: sério, bravo, sem pernas nem braços.

E o significado de pintar o olho do Daruma é o seguinte: não basta fazer um desejo e ficar esperando, é necessário correr atrás, buscar atingir esta meta com muita seriedade e trabalho, com tanto empenho quanto o Bodhidharma original. Pintar o olho do boneco é mais um compromisso do que uma superstição.

Uma dica é deixar o Daruma caolho na sua mesa de trabalho, eternamente olhando para você, relembrando-o do compromisso de pintar o segundo olho…

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia.

https://ideiasesquecidas.com/

Bônus: música infantil Daruma-san

A classe dos inúteis veio para ficar

Viajo frequentemente ao Paraná, a trabalho. É impressionante a riqueza do agronegócio na região: quilômetros sem fim de plantações de soja, milho, cana, à direita da estrada, à esquerda, ocupando cada metro quadrado útil da fértil terra roxa da região. 

O mesmo ocorre no interior paulista e em muitos outros lugares do Brasil, com outras culturas e a pecuária.

Fico imaginando quantas pessoas seriam necessárias para fazer a colheita de uma área tão imensa, do jeito antigo: debaixo do sol, com um facão, cortando cada plantinha e transportando com a ajuda de animais.

Por outro lado, basta uma volta pelo centro de uma grande cidade como São Paulo, para encontrar uma dezena de pedintes e pessoas subempregadas. Dentro do metrô, um vendedor ambulante quer empurrar um suporte de celular, minutos depois, outro ambulante vende balas. Pessoas pedindo dinheiro nas ruas, um senhor pedindo verba para comprar remédios, outro com panos de prato no semáforo, um artista de rua tocando música e pedindo trocados.

A humanidade evoluiu exponencialmente. A agricultura surgiu há cerca de 10 mil anos, o que permitiu o surgimento de grandes sociedades, em detrimento dos caçadores-coletores. A força dos animais domésticos ajudou tremendamente nesta etapa. Grandes civilizações (como Egito, Mesopotâmia, China antiga), são conhecidas há uns 5 mil anos. A revolução industrial tem cerca de 200 anos, utilizando a energia do carvão e outros combustíveis fósseis. A eletricidade tem uns 100 anos, possibilitando o surgimento de eletrodomésticos e outros aparelhos úteis na nossa vida – alguns estimam que cada um de nós tem o equivalente a 100 escravos à nossa disposição. O computador pessoal tem uns 30 anos, fazendo com que o nosso próprio cérebro seja expandido.

À medida em que a evolução ocorreu, o trabalho foi migrando da agricultura para a indústria, e depois para os serviços. Não eram mais necessárias tantas pessoas para fazer a colheita. E nem para produzir guarda-chuvas em massa – economicamente, faz mais sentido serem produzidos em larga escala na China, e transportados para cá em enormes navios de carga.

Hoje em dia, nem os serviços são mais necessários – com a automação dos serviços, não precisamos mais de atendentes, telefonistas, vendedores de enciclopédias, corretores de seguros, bancas de jornais, jornais impressos, e, num futuro próximo, nem de motoristas de carro e de caminhões.

Para competir no mundo atual, é necessário saber mais do que os algoritmos, é preciso ser capaz de executar tarefas em alto nível, agregando muito valor na cadeia.

Esta situação cria uma nova classe de pessoas, que o escritor israelense Yuval Harari define como “a classe dos inúteis”. Ele escreveu um pouco sobre o tema nos livros “Sapiens” e “Homo Deus”, e no artigo que consta no link ao final deste artigo.

A classe dos inúteis não é somente de pessoas desempregadas, vai além disso: são pessoas não-empregáveis, sem as mínimas condições de serem mais produtivas que as máquinas e os algoritmos.

Harari coloca alguns cenários a respeito. Seriam pessoas sustentadas por alguma espécie de renda mínima universal, um super-bolsa-família. Ele também coloca uma data como referência, 2050, onde já teremos um desenvolvimento intensivo de IA.

O que fazer com alguém que fica o dia inteiro sem ter o que fazer? A frustração dela pode causar intensos problemas sociais. Ser desnecessário é muito, muito pior do que ser explorado.

Uma possível solução é algo equivalente a um jogo de realidade virtual. Ele cita a religião como um jogo desses, uma fuga da realidade. A pessoa ganha pontos se rezar todos os dias e cumprir todos os ritos (e estes devem ser difíceis, como jejuar, não comer porco, rezar várias vezes ao dia), se ela não conseguir ganhar pontos, fica para trás.

Não há regra alguma na natureza que diga que comer porco é ruim, ou que é necessário rezar. Aqueles que conseguem muitos pontos ganham o jogo e vão para a próxima fase, ou para o paraíso na vida seguinte…

Harari também cita o consumismo como um jogo desses. Aquele que tem o melhor carro, a melhor casa, posta um monte de fotos de viagem no Facebook, ganha mais pontos do que quem não o faz. Ganha o jogo, mesmo que o ser humano não precise tirar uma foto na Torre Eiffel para provar para os outros que é feliz.

Ocupar as pessoas com jogos inúteis parece terrível, mas é o que a humanidade tem feito há milhares de anos, conclui o pensador.

O antigo desenho dos Jetsons sempre tinha uma cena onde o pai, George Jetson, ia trabalhar. Ele simplesmente apertava um botão e descansava, o trabalho era moleza. Talvez essa seja outra solução, pagar as pessoas para ficarem o dia todo na empresa olhando as máquinas trabalharem!

Eu não sei o que será do futuro, nem se este será tão distópico quanto cita Harari, mas sei que a classe de inúteis já existe nos dias de hoje, infelizmente. E tende a piorar em um futuro não tão distante, com o desenvolvimento de algoritmos cada vez mais poderosos.

Trilha sonora: A gente somos inútil.

Links:

https://www.theguardian.com/technology/2017/may/08/virtual-reality-religion-robots-sapiens-book

https://www.terra.com.br/noticias/dino/em-30-anos-mundo-devera-conhecer-a-classe-dos-inuteis,6aac9cf35ddd17e8b5c6dee22d80158154rtm6dm.html

O que é sucesso (meme)

Recebi este gráfico pelo Whatsapp, e achei interessante.

De certa forma, é o complemento do gráfico da felicidade, do link.

Isto me lembra uma piada que ouvi um dia: quando somos adolescentes, temos tempo e energia mas não temos dinheiro, quando adultos, temos energia e dinheiro, mas não temos tempo, quando idosos, temos tempo e dinheiro, mas não temos energia!

O mundo é regido pelos fracos

Como uma introdução ao pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche, gosto desta aula do prof. Clóvis de Barros Filho.

Pinçando alguns comentários, mas claramente a aula é muito mais poderosa na forma, no conteúdo e no humor.

O mundo é regido pelos fracos, pelas forças reativas.

Deus é o universal saciador, aquele que recompensará todas as mazelas do mundo. Quanto pior aqui neste mundo, melhor no próximo.

“Mais fácil um camelo passar no buraco da agulha do que um rico entrar no céu” é um pensamento para aqueles que não se dão bem neste mundo – porque quem se dá bem não está nem aí com isso.

Como quase todo mundo se ferra, quase todo mundo se volta a este pensamento transcendental.

As pessoas sempre falaram em Deus, isto não é prova de que Deus existe, e sim que as pessoas sempre foram tristes.

Quem é forte no mundo da vida não precisa desta ajuda transcendental. Não a vida ascética de virgens no céu, mas a vida aqui, neste mundo.

Forte ativa é a que age, e reativa é a que se contrapõe à ativa.

Ex. O caso Sócrates. Sócrates é o baixinho, corcunda, feio, que fica criticando os sofistas.

A vitória é das forças reativas, porque há um número maior destes. A força ativa é o tesão, gigantes geniais, contra as forças reativas, um monte de “cagadinhos” – um exemplo da vitória deles é a democracia.