A sabedoria do mulá Nasrudin

O mulá Nasrudin é um personagem de anedotas populares da região do Oriente Médio. Em geral, são contos engraçados e provocativos. Abaixo, alguns dos contos que mais gosto.

Dando um preço ao imperador

Um dia, o novo conquistador da cidade perguntou ao mulá Nasrudin:

Se eu fosse um escravo, por quanto você me venderia?

  • Eu te venderia por R$ 500,00.
  • Espere um pouco – disse o homem furioso – só as roupas que estou vestindo já custam mais de R$ 500,00!
  • Sim, e foi isso que eu levei em conta!

A inteligência depende do contexto

Um dia, o mulá Nasrudin estava a trabalhar de barqueiro, atravessando as pessoas no rio. Entrou um doutor bastante famoso, que o repreendeu por ter errado a concordância gramatical de uma frase.

  • Desculpe-me pelo erro, é que não tive a chance de estudar.
  • Estudar é bom. Eu fiz duas graduações, sou mestre e doutor em Economia, com pós-doc no MIT e em Oxford.
  • E você sabe nadar?
  • Não, por que?
  • Porque tem um furo no barco, e ele vai afundar daqui a pouco…

A falácia do custo perdido

O mulá Nasrudin estava sentado numa praça, comendo pimentas e chorando. Um amigo perguntou a razão.

  • Eu comprei esse saco de pimentas, achando que fosse amendoim.
  • E por que você não joga fora o saco?
  • Porque custou muito caro!

Especialistas para todos os lados

O mulá Nasrudin estava a construir uma casa.

Todos os amigos que o visitavam davam um pitaco: a sala deve ser maior, a janela do quarto deve dar para o norte, o teto está muito baixo, e assim sucessivamente.

Quando a casa ficou pronta, não parecia uma casa nova. Estava assimétrica, parecia uma série de puxadinhos sem harmonia.

Nasrudin, o que você fez? – perguntaram os amigos.

Ora, respondeu o mulá, eu apenas segui todos os seus conselhos!

Questão de ponto de vista

Um homem queria atravessar um rio, e viu o mulá Nasrudin na outra margem. Ele gritou:

  • Ei, amigo, como faço para chegar do outro lado do rio?
  • Você já está do outro lado, respondeu Nasrudin.

O pote

Um dia, o mulá Nasrudin pediu um pote emprestado a um amigo. Depois de um tempo, ele devolveu o pote juntamente com um pote pequeno.

  • O que é isto?, perguntou o amigo.
  • O seu pote procriou, respondeu Nasrudin.

Em outra ocasião, o mulá Nasrudin pediu novamente o pote emprestado.

Depois de um tempo, o amigo pediu o pote de volta.

  • Não dá, o seu pote morreu, disse Nasrudin.
  • Como assim? Como um pote pode morrer?
  • Ora, se você acreditou que um pote pode procriar, deve acreditar que pote pode morrer também!

A sopa da sopa da sopa

Um dia, o mulá Nasrudin recebeu a visita de um conhecido, que lhe trouxe um ganso. O mulá fez uma sopa com a ave, e compartilharam o jantar.

No dia seguinte, um parente do conhecido bateu à porta de Nasrudin, querendo partilhar da sopa (mas sem trazer nada).

E, assim sucessivamente, vieram os amigos dos parentes do conhecido original, querendo um pouco da sopa (e sem trazer ingredientes novos):

Olá, eu sou o amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que lhe trouxe o ganso.

Nasrudin prontamente o convidou para jantar, e após um tempo, trouxe uma tigela de água quente.


O que é isso? – perguntou a visita.
É o que sobrou da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa da sopa do seu amigo do amigo do amigo do amigo do parente do conhecido que me trouxe o ganso!

Alguns links:

http://www.nasrudin.com.br/classicas-de-nasrudin.htm

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/05/e-depois/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/16/resposta-ao-enigma-na-teoria-da-evolucao/

Jogando xadrez com Deus

Richard Feynman, vencedor do Prêmio Nobel de Física 1965, descreve o processo de descoberta das leis da física a um jogo de xadrez jogado por Deus.

O jogo já começou e não sabemos as regras. Tentamos desvendar as regras a partir da movimentação das peças. Um peão que anda uma casa para frente. Um bispo que anda apenas na diagonal… Baseado nessas observações, criamos o nosso modelo do jogo.

Quando achamos que sabemos todas as regras, subitamente um peão alcança a oitava casa e se transforma numa rainha. Temos que mudar os nossos modelos para explicar este novo movimento, nunca visto anteriormente.

E assim, continuamos, na finitude de nossas vidas, a tentar entender os mistérios deste jogo infinito…

Trilha sonora: Se eu quiser falar com Deus – Elis Regina

Iludidos pelo acaso

Uma boa surpresa é encontrar nas livrarias o relançamento do livro “Iludidos pelo acaso” (Fooled by Randomness), do meu autor favorito: Nassim Taleb.

Fooled by Randomness foi publicado em meados dos anos 2000. Mostra como a aleatoriedade afeta diversos aspectos de nossa vida. É um ensaio para o ápice, o magnum opus de Taleb, que seria a publicação seguinte: A Lógica do Cisne Negro; e, posteriormente, Antifrágil – coisas que ganham com a desordem.

Em Iludidos pelo acaso, Taleb ainda não é o Taleb: sem inventar termos e conceitos (ex. o termo Cisne Negro, efeito Lindy), sem criticar abertamente figurões da academia, da política e da economia (há uma fila de desafetos: Steve Pinker, Richard Thaler, Nate Silver, Susan Sontag, e por aí vai), sem comprar briga em temas polêmicos (como plantações geneticamente modificadas).

Porém, tem o DNA do mesmo, dizendo em essência, o mesmo que viria depois no Cisne Negro: não conhecemos o mundo em que vivemos, não conseguimos prever o futuro, apenas nos preparar para ele.

Vale a pena ler cada frase deste livro.

A página pessoal oficial de Nassim Taleb é o Fooledbyrandomness.com

https://fooledbyrandomness.com/

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

Incerteza de Heisenberg e rumos

O ministro Marcos Pontes fez a postagem abaixo.

Minha resposta:

Esta equação é a do Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Houve um tempo, após Newton, em que os cientistas achavam que as Leis da Física poderiam prever tudo de forma absoluta. Se eu soubesse a posição de todas as partículas do universo, um computador suficientemente poderoso poderia calcular todo o futuro e todo o passado de tudo o que existe: é o Demônio de Laplace.

Porém, um dos pilares da Física Quântica é o Princípio da Incerteza: há uma incerteza intrínseca no nível atômico mais básico do universo. Nem se houvesse um super Demônio de Laplace, seria possível calcular todo o futuro. Fazendo a analogia, nada está escrito, ninguém manda em você além de você mesmo!

O poder ilimitado corrompe de forma ilimitada?

O anel de Gyges

Uma das passagens mais intrigantes da República de Platão diz respeito à lenda do anel de Gyges.

É sobre um camponês, Gyges, que descobre um anel mágico. Girando o anel para um dos lados, ele ficava invisível, girando para o outro lado, Gyges voltava a ficar visível.

Esta é uma metáfora para o poder ilimitado. Poder subtrair o que quiser sem despertar suspeitas. Poder atacar quem quiser sem sofrer consequências. Poder fazer o que quiser sem ser punido.

Gyges utilizou o anel para seduzir a rainha, assassinar o rei e assumir o trono do reino.

O diálogo platônico, entre Glauco (irmão mais velho de Platão) e Sócrates, fazia uma questão que está aberta até hoje, e vai ficar aberta pelo resto da existência da humanidade: uma pessoa com alta moral se corromperia com poder ilimitado?

Uday Hussein

Uday Hussein foi um exemplo de pessoa que nasceu com poder ilimitado. Acompanhe:

  • Uday era o mais velho dos dois filhos de Saddam, e como tal, esperava suceder seu pai um dia
  • Quando Uday era jovem, Saddam levava ele o seu irmão Qusay para assistir prisioneiros serem torturados ou executados. Uday em particular saboreava a experiência
  • Imagine o garoto desagradável, mau, super rico no ensino médio, mas agora imagine que ele tem o poder de seus guarda costas para bater em você até virar uma massa de sangue, ou matar você, ou matar você e toda a sua família, num estalar de dedos.
  • Na faculdade, Uday de tempos em tempos via uma garota excepcionalmente bonita, falava para seus guarda-costas trazerem ela para o seu quarto, onde a estuprava e às vezes falava para os guarda-costas a matarem.
  • Ele às vezes ia para um clube e se ele visse uma garota atrativa dançando com um homem, e isto provocasse ciúmes, ele mandava matar o homem
  • Ele matou um homem por recusar a deixar Uday dançar com a sua esposa
  • Ele ficava de pé na varanda com binóculos, e quanto encontrava uma moça bonita ele mandava seus homens pegarem para ele. Uma vez ele fez isto com as filhas de 12 e 14 anos de um homem, e ele não tinha opção senão aceitar ou todos morreriam
  • Ele era obcecado por tortura e amava experimentar diferentes formas, incluindo usar uma dama de ferro que ele possuía, e colocando alguém sozinho numa sala com seu tigre mascote faminto
  • Ele matou o amigo/guarda-costas de seu pai porque Uday suspeitou que ele estava arrumando prostitutas para o seu pai
  • Uma vez ele matou um homem que não o saudou
  • Até Saddam estava assustado por Uday ser tão cruel e negligente, tanto que ele apontou o irmão mais novo Qusay para ser seu sucessor no lugar de Uday
  • Isto fez Uday incrivelmente ciumento, e ele fez coisas como pegar uma garota que ele ouviu dizer que dormira com Uday, trazer a ele, violentá-la e marcá-la permanentemente com um U
  • Para dar a ele alguma coisa para fazer, Saddam apontou Uday como o chefe do comitê Olímpico. Uday fez atletas que performavam mal serem torturados, às vezes trancando-os em arcas de ferro por três dias
  • Uday era notório no Iraque todo e universalmente odiado por todos
  • Uday e Qusay foram ambos mortos por um ataque aéreo das tropas americanas em 2003
  • Ninguém ficou triste

A minha provocação é: será que todos nós seríamos tão maus quanto Uday, se tivéssemos nascido com o mesmo poder?

Fonte do relato sobre Uday: site Wait but Why

O canalha gosta de ética

Uma reflexão interessante do prof. Clóvis de Barros Filho.

Até o sujeito mais canalha e anti-ético do mundo quer um que o mundo seja um lugar ético.

Imagine se todos fossem canalhas como o canalha em questão. Este não poderia confiar em nenhuma outra pessoa. Sua vida seria um inferno.

Para o canalha-mor se dar bem, ele precisa que as outras pessoas sejam éticas e só ele canalha.

Se até o canalha torce para que o mundo seja um lugar ético, as pessoas de bem, mais ainda!

O Daruma

O Daruma é um boneco redondo, comum na cultura japonesa.

O boneco vem com os olhos em branco. A tradição diz o seguinte: faça um desejo, e pinte um dos olhos do Daruma.

Pinte o segundo olho somente após o desejo se realizar…

Na vida real, o Bodhidharma foi um monge budista que viveu entre os séculos V e VI, na China. Diz a lenda que ele ficou 9 anos meditando com todas as suas forças, em frente a uma parede branca. Ele ficou tanto tempo imóvel que os braços e pernas apodreceram, daí o boneco ser assim: sério, bravo, sem pernas nem braços.

E o significado de pintar o olho do Daruma é o seguinte: não basta fazer um desejo e ficar esperando, é necessário correr atrás, buscar atingir esta meta com muita seriedade e trabalho, com tanto empenho quanto o Bodhidharma original. Pintar o olho do boneco é mais um compromisso do que uma superstição.

Uma dica é deixar o Daruma caolho na sua mesa de trabalho, eternamente olhando para você, relembrando-o do compromisso de pintar o segundo olho…

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia.

https://ideiasesquecidas.com/

Bônus: música infantil Daruma-san