O ouro do Reno

Smeagol

A cada 10 anos mais ou menos, tenho o desprazer de encontrar um sujeito que só fala de dinheiro. Vou identificá-lo como “Smeagol” neste texto.

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O Smeagol chega e já começa a falar de dinheiro. Reclama que não tem dinheiro para nada. Fala sobre algum projeto mirabolante (para ganhar o precioso dinheiro), mas a seguir recorda que não tem verba para tal. Comenta que “a vida de fulano é boa, porque ele tem muito dinheiro”, ou que “beltrano comprou um Corolla novo”. Depois, pergunta sobre as minhas filhas, e onde elas estudam – pergunta a mensalidade. Finaliza perguntando quanto eu ganho…

Seu lema:

“Não quero ser feliz, quero ser rico”.

Mas poderia ser:

“Precious”, “My precious…”

Fico me imaginando o que aconteceria se ele ganhasse na Mega-Sena. Será que entraria em depressão, por não ter mais objetivo a atingir? Ou continuaria a tentar perseguir mais dinheiro?


 

Meio de troca

A definição básica de dinheiro, segundo qualquer livro de Economia: meio de troca, reserva de valor e unidade de medida. Nós, seres humanos, nos distinguimos de outros animais porque produzimos coisas úteis e trocamos uns com os outros. Aproveitamos as vantagens competitivas de cada um para nos especializarmos em fazer mais, melhor e mais barato, e depois trocamos os produtos finais com nossos semelhantes. Um produz limão, outro laranja, depois eles trocam um pouco de cada entre si – e o lugar onde isto acontece é o mercado.

À medida em que o mundo foi ficando mais complexo, ficamos cada vez mais especialistas, e cada vez mais difícil fazer as trocas. Como um analista de controladoria trocaria seus serviços contábeis por um quilo de laranja? A forma natural que surgiu para permitir tais trocas foi o dinheiro: um meio de troca aceito entre todos do mercado, uma unidade de medida que quantifica o quanto vale o trabalho do analista e quanto vale um quilo de laranja, e uma forma de guardar este valor para o futuro, se a pessoa não quiser fazer a troca agora.

Portanto, Smeagol, o dinheiro é um meio de troca, não um fim em si. E a soma daquilo que recebo na troca tem que ser equivalente ao que produzo, não posso receber sem produzir.

 


 

Alberich e Smeagol

Smeagol é um personagem da história “O Senhor dos Anéis”.

Mas Tolkien provavelmente se inspirou em outras histórias. Na mitologia germânica, que é milenar, um anão horripilante e ganancioso, Alberich, roubou o ouro guardado pelas fadas do Reno e transformou num anel, o seu precioso anel dos Nibelungos.

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O compositor Richard Wagner recontou esta história, numa ópera chamada “O Anel dos Nibelungos”.

Conclusão: não é de hoje que o precioso ouro cria os seus Smeagols.

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As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.
Bahamut
Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.
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Atlas
A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.
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Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás
Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”

Gigantes não reconhecidos

Conheci uma pessoa que não parava de vociferar, “Se a empresa investisse em mim, eu me dedicaria mais”, “Um minuto que fico a mais é um minuto não remunerado”, “por que eu tenho que tirar do meu bolso para estudar, e não a empresa pagar?” e coisas do tipo. Talvez ele se achasse um “gigante não reconhecido”.
 

Ora, por que a empresa investiria um centavo nesse sujeito? Fosse eu o responsável por alocar um investimento escasso, este seria para aquele que se destacasse mais, e não para quem reclamasse mais.
A minha visão de realidade é diametralmente oposta. Citando Napoleon Hill,
 
“Se você nunca faz além do que lhe é pedido, nunca receberá um tostão além do que foi combinado”.

 

E há tantas pessoas que fizeram muito mais do que o pedido! Alguns dos grandes trabalhos da humanidade sequer foram remunerados ou reconhecidos! Há tantos exemplos, que é fácil escolher alguns.
 


O pintor Vincent Van Gogh (cujos quadros ilustram a figura de capa deste blog) vendeu um único quadro durante a sua vida. Morreu achando-se um pintor fracassado. Hoje qualquer obra dele sua vale milhões, mas ninguém ofereceu milhões para que ele fizesse a sua obra.

 

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Quando os livros do grande Friedrich Nietzsche foram reconhecidas como geniais, ele já estava mentalmente insano. Ele mesmo já tinha escrito: “algumas pessoas já nascem póstumas”, “minhas obras são para todos e para ninguém”.

 

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J. R. Tolkien, das mega obras O Senhor dos Anéis e O Hobbit, sequer publicou tais livros em vida. Ele viveu a sua vida como alguém normal. Os manuscritos foram editadas e publicadas por um de seus filhos, após a sua morte.

 

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Ignaz Semmelweis, médico alemão, percebeu em 1847 que uma medida muito simples, lavar as mãos, poderia salvar milhares de vidas. Os médicos da época não tinham o costume de lavar as mãos, porque acreditavam que isto não influenciava na melhora ou piora dos pacientes. Semmelweis foi duramente criticado por todos os lados, entrou em depressão e morreu antes de ter a sua teoria amplamente aceita.
 
Os Concertos de Brandenburgo são uma das séries musicais mais bonitas da humanidade, autoria de Johan Sebastian Bach, em 1718.

 

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Naquela época, como hoje e sempre, conseguir um bom emprego era uma tarefa difícil, então Bach fazia as obras em homenagem a uma pessoa influente, na tentativa de colher algum dividendo com isso. No caso, em homenagem a um certo Comandante de Brandenburgo, que nem sequer agradeceu – as obras foram engavetadas e esquecidas.

 

A gente acha que uma pessoa como Bach era alguém super conceituado, com uma orquestra sinfônica de alto nível do seu lado. Mas não, ele era um mestre de capela, fazia música com o que tinha – e isto não o impediu de criar algumas das melodias mais harmônicas do universo.
 
Para fechar uma curiosidade: A série “The Great Courses” engloba algumas das melhores aulas do mundo, sobre assuntos tão diversos como história e economia. Todas as aulas do curso começam com 30 segundos do Concerto de Branderburgo número 2, reproduzido abaixo, como a trilha sonora deste post.
 
 

O velho homem voador

O texto “O novo homem voador” recebeu alguns bons elogios.

Escrevi um texto semelhante, porém muito mais simples, há uns 15 anos atrás. Na época, eu estava me desatando de algumas amarras – e me atando a outras – e me imaginei como seria alguém totalmente livre. Provavelmente poderia voar, de tão livre que seria. Então, do alto, veria que todas as pessoas estão presas por amarras.

Recentemente pensei em reescrever a história após ler uma frase de Nietzsche.

O pensador alemão Friedrich Nietzsche tem um estilo poético, aliado a ideias demolidoras, o que o faz ter citações memoráveis.
Não consigo reproduzir o estilo poético, mas ele disse algo mais ou menos assim.

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Na nossa vida, temos que atravessar um rio. Na beira do rio, há a oferta de várias barcaças e várias pontes guardadas por semi-deuses. Mas o preço da passagem é a sua alma.

A conclusão de Nietzsche. Não siga por ponte alguma. Você é responsável por construir a sua própria ponte.

Para fechar, um comentário espontâneo do meu amigo Diego Piva, ao ouvir esta história: “Mas atravessar o rio, no braço, também é osso, hein”. Pura verdade…

 

 

​Por que escrevo tão bem?

Prelúdio. Por que escrevo tão bem?

Mas que sujeito arrogante! Afirmar que escreve tão bem!

Na verdade, a frase acima é da autoria do grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ele tem um estilo poético, aliado a ideias contundentes. É um artista que usa uma martelo, e cuja habilidade é a de destruir as mais profundas convicções que temos: a moral, a bondade, a filosofia, o cristianismo.

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Nietzsche escreveu capítulos como “Por que sou tão inteligente” e “Por que escrevo bons livros”, num livro autobiográfico chamado “Ecce Homo”. Ecce Homo vem do latim, algo como “Eis o homem”. Em bom português, imagino que ele quis dizer “Esse é o cara”. Nota-se que Nietzsche é alguém para ser extremamente amado ou extremamente odiado, não tem meio-termo.

O título real deste ensaio seria “Por que escrevo este blog”.


Ato 1. Por que escrevo este blog

Por que escrevo este blog, e por que escrevo tão bem (adotando a provocação de Nietzsche)? Há algumas respostas. Uma delas: tenho algo a dizer.

Há tantas ideias porcarias espalhadas por este mundo, que as pessoas às vezes podem se deixar levar por elas, somente pelo fato de não terem a chance de ouvir ideias antagônicas.

lighthouse

Ideias são como faróis luminosos. Há faróis grandes e brilhantes, que alcançam um grande número de pessoas. E há faróis retransmissores, menores, menos brilhantes, que têm menos alcance. Até mesmo o maior e mais brilhante farol precisa da ajuda desses retransmissores, porque a luz se dissipa no tempo e no espaço. Cada um de nós é um desses faróis, temos o nosso valor ao retransmitir ideias que valem a pena ser compartilhadas.


Ato 2. Ensinar e aprender

Outro motivo para escrever é o de aprender. A melhor forma de aprender não é estudando, mas sim fazendo, praticando, ensinando. E a minha forma de ensinar é através da palavra escrita.

Para tentar criar bons argumentos, tenho um checklist. Alguns dos critérios:

  • Sempre agregar valor em textos curtos
  • Inserir alguma história que aconteceu comigo ou alguma ideia minha, para criar um ponto de vista inédito
  • Criar um “Flow”, um fluxo, um encadeamento natural de ideias do início ao fim.

Citando o grande professor Otávio Manhães (do ITA):

“Se eu não conseguir ensinar física quântica para uma empregada doméstica, não sou um bom professor”.


Ato 3. Ilhas de conhecimento

Minhas anotações em cadernos sempre foram tão bagunçadas que não serviam para nada. Ao contrário, escrever aqui é uma forma de organizar e registrar ideias. Indexar conhecimento.

Cada texto é como se fosse uma ilha, uma ilha de conhecimento. E cada comentário das pessoas que leem esses textos são novas ilhas de conhecimento. Conectar ilhas diferentes leva a novos insights. Com isso, estarei preparado quando preciso. Por exemplo, quando surgiu um convite da revista Opiniões (aqui neste link) para falar sobre planejamento florestal, eu já tinha um texto-base para guiar o texto final.

Eu gosto da imagem de ilhas de conhecimento, se conectando através de pontes de imaginação, formando novas ilhas de aplicações e continentes de inovações. Já o pesquisador Steven Johnson criou o termo “possível adjacente”. A ideia é que inovação não ocorre em saltos, mas expandindo os limites do conhecimento existente.

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Epílogo.

Para fechar, uma citação adaptada de Carl Sagan, dedicada às pessoas com quem discuti conceitos, ideias, teorias, percepções, aplicações.

Diante da imensidão do tempo e da vastidão do espaço, foi um prazer encontrar cada um dos meus amigos nesta época, neste planeta.

O ladrão de ideias

Propriedade privada

Vi num livro que o filósofo inglês John Locke (1632-1704) foi o criador do conceito de propriedade privada. Antes dele, o dono das terras era o rei. Mas por que o rei era o dono de tudo? Não era por acaso. O rei era o representante de Deus na Terra. Deus era o dono das terras, e o rei era meio que o “administrador”.

Tudo mudou com John Locke. Ele fundamentou a ideia de que a propriedade da terra poderia ser de um ser humano comum, com a teoria do valor e propriedade. “A posse de produtos e propriedades é justificada pelo trabalho exercido para produzir tais produtos benéficos à sociedade”.

E o Rei? O Rei deveria garantir a propriedade privada do indivíduo, em troca dos impostos e obrigações do cidadão. Garantir segurança jurídica neste contrato social entre o Estado e Indivíduo.

Legal, não? Mas será que Locke teve esta ideia sozinho? Ele estava sentado, e a ideia surgiu do nada em sua cabeça?

Não. Nunca é assim.

Por experiência própria, as ideias não surgem na cabeça de uma pessoa. As ideias estão no ar, uma parte na mente de uma pessoa, outra parte na mente de outra, outra parte em livros antigos, etc… E, muitas vezes, a pessoa que consegue colocar a ideia no papel leva os créditos, mas é somente um “ladrão de ideias”. Locke deve ter conversado com diversas pessoas para chegar à esta teoria. Entretanto, o crédito ficou com ele, porque a história não consegue registrar todas as pessoas que participaram da construção da ideia.


Um autêntico ladrão de ideias

Eu mesmo já levei muitos créditos por ideias que não eram minhas, sou um autêntico ladrão de ideias.

Por exemplo, teve um colega que tinha a percepção de que o estoque de material tinha baixado demais, e que a empresa tinha corrido um grande risco com isto. Simplesmente testei a percepção dele com histórico real e fiz algumas projeções numéricas de cenários, para concluir que realmente ele estava certo. Apresentamos o trabalho, que foi bem elogiado. Este colega sozinho não conseguiria fazer este estudo, por ele não dominar a técnica suficiente para colocar o trabalho no papel, mas sem ele, este estudo nem começaria.


Catalisador de ideias?

Talvez um “catalisador de ideias” seja um termo mais polido. Catalisador, das aulas de química, é um elemento que ajuda numa reação química, porém não toma parte dele.

Um exemplo famoso é o da camada de ozônio da atmosfera, que nos protege dos raios ultravioleta.

Duas moléculas de ozônio (O3) se decompõe em 3 de oxigênio (O2):

2 O3 3 O2

Mas se é isso, por que proibiram produtos com clorofluorocarbono nos anos 90?

Porque o cloro atua como um catalisador. Ele facilita a decomposição do ozônio em oxigênio:

Cl + O3 → ClO + O2
ClO + O3 → Cl + 2 O2

O cloro entra, ajuda a transformar o ozônio em oxigênio e sai da mesma forma que entrou, ou seja, pode ser reaproveitado para ajudar em milhões de reações deste tipo.

Um corretor de imóveis é um catalisador. A equação final é: vendedor vende e o comprador compra. Mas, é mais fácil o vendedor contatar um corretor, o comprador contatar um corretor, e o corretor fazer o link. Atualmente, com sites eletrônicos, só mudou a figura do corretor: ao invés de um ser humano, é um site.

Um mediador de conflitos é um catalisador. Um caso famoso é o de William Ury, que intermediou a briga entre Abílio Diniz e o grupo Casino pelo controle da empresa Pão de Açúcar.

Mas “catalisador de ideias” não é um bom termo. Porque um catalisador não faz nada. É fraco. Já “ladrão de ideias” é mais forte. Um ladrão tem que ter uma técnica, fazer um trabalho e ter uma intenção de chegar em algum lugar. Não tem que pedir, tem que roubar mesmo.


Da propriedade

Imagino John Locke, andando no mercado, e ouvindo o feirante: “Moro na minha casa há 20 anos, e o Rei me despejou para construir uma estrada. Desmatei, fiz a terraplanagem do terreno, construí tudo, e saí de mãos vazias. Por que a minha terra não é minha?”.

Agora, discutindo com algum colega especialista em direito: “Mas se a propriedade é do cara, ele é uma espécie de rei daquele pedaço de terra. E se ele for o rei daquele pedaço de terra, por qual motivo teria alguma lealdade ao Estado, ao rei de verdade?”

Agora, lendo obras como o Leviatã de Thomas Hobbes: a vida do ser humano é brutal, curta, miserável, e que necessitamos de garantias de que os contratos feitos, assim como os direitos, sejam garantidos. Para isto, cedemos parte de nossos direitos ao Estado.

Por fim, imagino Locke redigindo sua própria teoria, juntando elementos cá e lá de forma coerente, colocando no papel ideias que estão no ar, e construindo uma obra que viria a ser referência para muitos outros ladrões de ideias!

Nota: Jean Jacques Rousseau não foi citado porque ele é posterior à Locke, ou seja, ele roubou algumas das ideias descritas para desenvolver seu conceito de Contrato Social.

“Bons artistas copiam, grandes artistas roubam” – Pablo Picasso

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Links

https://en.wikipedia.org/wiki/John_Locke
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_oz%C3%B4nio-oxig%C3%AAnio
https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes

Abílio Diniz x Casino
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/william-ury-quando-nos-influenciamos-fica-facil-influenciar-os-outros.html

O novo homem voador

Um homem passou a vida inteira preso a correntes. Não correntes de ferro prendendo o corpo, mas correntes de ar, prendendo a mente. Eram correntes tênues, finas, que permitiam que ele fosse para qualquer lugar, mas de vez em quando elas se tensionavam, impedindo que ele fizesse seus desejos. Era como um cão preso a uma coleira, ele poderia andar livremente dentro de um círculo, mas as amarras o impedem de ir além do bem e do mau.  

Na verdade, não era apenas uma corrente. Eram diversas, prendendo-o de várias direções, limitando a sua liberdade sob vários aspectos, travando a sua mente, amarrando a sua liberdade.
Este homem tinha um plano. Libertar-se de todas as correntes, e se tornar um Novo Homem.
Não era fácil quebrar essas amarras. Se fossem feitas de um material físico seria muito mais simples: algumas marretadas, e pronto. Porém, correntes mentais necessitam de outro tipo de marreta, uma marreta metafísica.
O homem foi se libertando das correntes, uma a uma, ao longo de vários anos. Quando, finalmente conseguiu se libertar de todas as amarras, ele descobriu-se tão leve que podia voar!
Agora, ele era o Novo Homem Voador. Do alto, ele via todas as outras pessoas. Ele descobriu uma verdade terrível: Todas as pessoas deste mundo estão presas a correntes! Homens, mulheres, jovens, velhos, feios e bonitos, todos estão atados.
O Novo Homem Voador viu um homem com correntes vermelhas, grossas, vociferando palavras fortes contra o capital. Mas ele viu também outro homem, com correntes azuis, respondendo ao de vermelho. Ele viu uma pessoa com amarras feitas de terços, falando sobre deuses, anjos e paraíso. Outra falando de Alá, Talmud, Alcorão. Pessoas atadas a outras pessoas, com obrigações familiares e religiosas. Pessoas atadas a corporações, perseguindo lucro, EBITDA, e fugindo de punições financeiras. Pessoas atadas ao nacionalismo, orgulhosas pelo fato de ter nascido em algum país específico. Correntes morais dos mais diversos tipos, algumas mais flexíveis, outras extremamente rígidas: bem e mau, certo e errado, valores e transvaloração dos valores.

 

Desde o nascimento, as correntes são atadas às mentes dos pobres bebês, normalmente as mesmas correntes à que os pais estão presos. Os bebês vão crescendo. Na adolescência e na idade adulta conseguem se libertar de algumas dessas correntes, mas somente para se prender a outras correntes, oferecidas por outras pessoas. Não há pessoas totalmente livres. 
O Novo Homem Voador percebeu que, embora as correntes o prendessem, também davam uma certa segurança. Pensou, do alto de seu voo: “Para onde vou, uma vez que sou totalmente livre? E agora? E agora…?”
A resposta encontrada: “Agora que não tenho correntes, ninguém pode me dar esta resposta. Somente eu mesmo posso saber”. E pôs-se a voar. 

 

As pessoas são covardes, egoístas e feias

Só que não. As pessoas são corajosas, altruístas e belas.

  

Li alguns artigos recentemente, destacando cientificamente que as pessoas são covardes. Mais ou menos assim, o erro de um falso positivo é pequeno, apenas um susto: se o homem das cavernas confunde uma tartaruga com um tigre, não tem muito problema. Mas um erro de um falso negativo é enorme: se o o mesmo confunde um tigre com uma tartaruga, já era, não vai deixar os seus genes para a geração seguinte.
 

 

Outro artigo dizia que as pessoas eram egoístas primeiro, para depois, se sobrar algo, pensar em altruísmo. Quem fosse muito altruísta acabava sem comida, e tchau para os seus genes bonzinhos. O autor tinha feito um grande estudo estatístico mostrando isto.

 
 

Ora, do ponto de vista evolutivo, coisa e tal, pode até fazer sentido. Na prática, também, acho complicado confiar 100% que as pessoas sempre vão ajudar. Do ponto de vista pragmático, tenho que me defender, até certo ponto.

 
 

Entretanto, ter uma postura assim não ajuda em nada. Se um pessoa considera o mundo covarde e feio, o mundo realmente será covarde e feio para ela.
 

A partir de um certo ponto, devemos adotar a postura de que as pessoas são corajosas, altruístas, belas e sempre irão ajudar. Não tenho estudo científico nenhum, zero dados estatísticos comprovando que o altruísmos e a coragem são bons.
Tenho apenas um sentimento: a Esperança.

Por que dou esmolas?

Até os 30 anos de idade, nunca dei um centavo de esmola.

 

Moro em São Paulo e já morei no Rio de Janeiro. Nestas grandes metrópoles, o que mais se vê são pedintes: na rua, no trânsito, no ônibus, no metrô.

 

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Às vezes, dava pena. Um dia vi uma mulher de algum país latino com três filhos pequenos, próximo a uma feira-livre. Outro dia, um homem bem asseado parecia não estar mentindo quando pediu ajuda no metrô, para ele conseguir pegar um ônibus para casa – dizia que tinha sido roubado e esta era uma ajuda pontual. Mas eu mantinha a minha firme convicção de não dar esmolas.

 

Me perguntei de onde vinha tanta convicção. Era uma justificativa moral. Desde quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia: “nunca dê esmolas”. “É ruim dar esmolas, porque acostuma o mendigo”. Esta mensagem, repetida à exaustão por inúmeros anos, era a minha base moral.

 

O interessante é que, para ratificar tal regra, juntei outras regras que surgiam. No metrô de SP, de tempos em tempos o alto-falante anuncia: “Não dê esmolas no metrô. Doe para uma instituição de caridade”. Além disso, vira e mexe algum especialista conta na TV alguma história de pessoas que não aceitam ajuda de instuições porque preferem ficar nas ruas, perpetuando o ciclo.

 

“Não darás esmolas” era uma regra moral no sentido de ser um tabela de condutas a serem seguidas, do que é certo ou errado. E era o metrô que dizia para não dar esmolas e eu só seguia as ordens, justificando que, no fundo, isto era melhor para o pedinte…

 

Contudo, com o passar do tempo, passei a questionar a moral vigente até então.

 

Qual o problema em dar esmolas? É claro que se o mendigo gastar em bebidas alcoólicas ou drogas, é ruim para todo mundo. Mas, e num caso em que a pessoa parece ser idônea? E se, a mãe fugiu do interior do Peru com três filhos e veio parar em São Paulo?

 

Doar para uma instituição de caridade é muito indireto, talvez a ajuda nunca chegue para a pessoa que precisa, da forma que precisa.

 
Não acho que haja uma regra absoluta, que valha para todos os casos, “Nunca doe” ou “Sempre doe”.

Passei a dar um pouquinho de esmolas, de pouco em pouco. No início, parecia que eu estava quebrando alguma regra, me tornando um “vilão moral”. Era um conflito entre convicções passadas e reflexões presentes. Eu tinha que trocar a tabela da verdade moral que me guiara por décadas. Apagar o mandamento antigo, “Não darás esmolas”, e escrever outro, “Darás esmolas sim”.

 

Das primeiras esmolas, percebi o seguinte. Para mim, felizmente, não faz a menor falta ter um ou dois reais a menos no bolso. Tive a sorte e condições de ter uma formação educacional forte e bons trabalhos em excelentes empresas. Entretanto, para quem não tem nada, um real pode significar muito: um lanche melhor, um suco, um pouco mais de conforto. Quem não tem nada está num ciclo vicioso de não ter qualificação e não ter potencial de empregabilidade, dificultando mais ainda a fuga deste ciclo. Como ensinar a pescar amanhã, se ele não tem como sobreviver hoje?

 

Minha nova regra é: dou o que tiver de moedas e notas pequenas, se a pessoa parecer ter um mínimo de idoneidade. Às vezes, também faço doações maiores para alguma instituição ou causa em que acredito. Dar esmolas não exclui contribuições para instituições de caridade, e vice-versa.

 

Não sei o que é certo ou errado, não tenho onisciência para saber se este ato vai ajudar ou prejudicar o pedinte. Não há certo e errado absolutos, e ninguém é onisciente. Portanto, sigo as minhas convicções.

 

Fiquei muito aliviado em ter esta nova regra moral quando, esperando o ônibus num ponto, passou um velhinho de uns 80 anos vendendo um plástico de guardar crachá. Ele não era um pedinte. Tinha dificuldades em andar, e vestia roupas amarrotadas. Provavelmente era alguém sobrevivendo humildemente com uma parca aposentadoria, tentando ganhar alguns trocados a mais, após passar a vida toda trabalhando. Pela regra moral antiga, eu simplesmente não compraria o plástico de crachá, afinal, eu não estava precisando. Pela nova regra, comprei o tal plástico. O velhinho disse: “Muito obrigado, filho”.
Reflexão 

Dar esmolas é bom ou ruim?

Por que dar esmolas ou não?

O segredo para conseguir qualquer coisa

Descobri o segredo dos segredos para conseguir qualquer coisa. É o seguinte: o segredo é que não existe segredo algum. E que, mesmo fazendo tudo certo, pode dar tudo errado. Não há garantia para nada nesta vida.

 

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Primeiro, para conseguir algo, é necessário muito esforço. Muito trabalho duro, dedicação, fins de semana perdidos em prol do objetivo. Noites mal dormidas, horas e horas de empenho sem resultado aparente.

 

Também é necessário ter persistência. Continuar. Há picos de alta e vales de baixa. É o persistir nas dificuldades que faz a diferença. Continuar andando, devagar e sempre, como a tartaruga de Esopo.

 

Outra coisa necessária são os elos com outras pessoas – aliados, fornecedores, clientes, concorrentes, professores, empreendedores, operários. Obter feedback, novas ideias e sugestões para inovação, evoluir no passo do mercado.

 

Não menos importante é a crítica à realidade. Não aceitar opiniões só porque alguém se diz “especialista”. Filtrar as opiniões aderentes à realidade. Saber que tudo na vida tem prazo de validade. Aceitar a derrota quando perder, mas pensar numa forma de se reinventar. Dominar o timing do negócio.
 


Não são condições suficientes
 

Muito mais poderia ser dito, mas tudo isto são apenas condições necessárias. Não são condições suficientes. Ou seja, fazer tudo certo não garante o resultado, mas sem fazer os passos descritos, certamente não haverá resultado.
 
Qualquer um que vier com uma fórmula mágica, estará mentindo. Falsos gurus, falsos profetas, ídolos de pés de argila. Sempre haverá algum efeito colateral, algum custo oculto. Bancos cobram juros, a vida cobra a “taxa de desaforo” quando a verdade vier à tona. Não há atalhos.

 

Emagrecer comendo. Passar na prova sem estudar. Ganhar dinheiro sem trabalhar. Investir em avestruz ou boi ou num fundo que não quebra. Os 10 mandamentos para a felicidade. As 20 leis inquebráveis do sucesso. O amor de volta sem 3 dias. A fórmula mágica da bolsa de valores. Eleger o salvador da pátria que vai resolver todos os problemas: votar no PT para ele tirar dos ricos e dar para os pobres (arghh!).

 

O bom educador não diz o que aluno deve fazer, mas sim o ensina a pensar, orienta, coloca argumentos. A decisão é do aluno.
 

A verdadeira educação é a libertação. Remove as ervas daninhas, o entulho e os vermes que atacam os delicados ramos da planta. A verdadeira educação é leve calor e suave chuva. –  Friedrich Nietzsche, “Schopenhauer como educador”

 

Conclusão: Não há segredo.
 
O homem é livre, projeto de si mesmo, autor de seu destino, ele é inteiramente responsável por si mesmo. – Jean Paul Sartre, “Existencialismo é humanismo”

 


Bônus

 

Perante a Lei – um conto de Kafka
 

Um homem queria conhecer a Verdade. Perguntou a diversas pessoas onde poderia encontrá-la. Acabou chegando num portão, que ele deveria atravessar para conhecer a Verdade.
 
Um guarda, grande e forte, não permitiu a entrada do homem.
 
O homem tentou persuadi-lo, mas não obteve resultado. Tentou suborná-lo trazendo comidas e bebidas. O guarda aceitou, mas disse que só aceitaria para que ele se convencesse de que isto não adiantaria para nada.
 
Os anos foram passando, e o guarda continuava protegendo o portão.
 
Um pouco antes da morte do homem, ele perguntou ao guarda. “Durante todos esses anos, ninguém mais apareceu para entrar no portão da Verdade. Por quê?”
 
O guarda respondeu: “Porque este portão é somente seu”.
 
O homem perguntou: “Por que você guarda o portão e não me deixa entrar?”
 
O guarda respondeu: “Porque esta é a minha função”. Após a resposta, o homem morreu e o guarda fechou o portão.

 

​ Ter filhos é melhor do que viajar

Um dia, li um comentário do tipo: “viajar traz mais felicidade do que ter filhos”.

 
Não sei como um estudo assim foi feito. Medindo a quantidade de dinheiro acumulado entre quem tem ou não tem filhos? Como medir algo abstrato como “felicidade”?
 
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Permita-me discordar. Ter filhos é muito mais feliz do que viajar. Para mim é a própria felicidade. Não tem comparação.
 

Por quê?
 
Por que alguém dedicaria uma quantidade enorme de tempo, esforço e dinheiro para cuidar de uma outra pessoa? Uma pessoinha que não consegue falar, andar, fazer nada sozinha, e que vai depender de você por no mínimo uns 20 anos?
 
Este blog é muito lógico e racional. Fala sobre carros autônomos, dodecaedros mágicos, Aristóteles e Prêmios Nobel de Economia.
 
Mas, neste caso, não há explicação racional. A resposta é que o seu filho é simplesmente a coisinha mais linda que já apareceu neste mundo.
 
Realmente, dá um trabalhão. Vira a vida de cabeça para baixo, rearruma todas as prioridades, faz birra.
 
Mas ouvir aquele “papai!” ou “mamãe!” no fim do dia vale todo o esforço. Só quem é pai ou mãe consegue entender…
 
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Vencer x Ficar em primeiro

Vencer não significa necessariamente ficar em primeiro.

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Pode-se vencer, ficando em segundo, mas competindo de forma honrada.
Pode-se vencer, ficando em qualquer colocação, se o participante fez o melhor possível, colocou todas as suas energias nisto.
Pode-se vencer ficando em último, mas completando a prova.
Nem completar a prova, mas se desenvolvendo bastante neste caminho.

Ao contrário, ficar em primeiro pode não ser vencer.
Ficar em primeiro, prejudicando os demais, não é vencer.
Ficar em primeiro, contrariando a integridade moral e ética, não é vencer.
Ficar em primeiro, às custas de saúde, família e da vida não é vencer.

Meta é diferente de métrica.

Muita gente tem uma meta, mas a busca pela métrica errada.
Maior não é necessariamente melhor.