John Rawls e a Justiça

Nota: Estou criando um “Index filosófico”, com algumas breves notas sobre os grandes pensadores do passado e do presente.

John Rawls, Estados Unidos, 1921 – 2002. Pensador da área de filosofia moral.

Posição original

A grande contribuição de Rawls diz respeito à posição original.

As pessoas costumam pensar num mundo melhor, porém fortemente influenciadas pelo que são hoje. Estamos sob um pesado “véu da ignorância”.

A posição original seria pensar neste mundo melhor, sem saber qual a posição que você ocupará. Pode ser rico, pobre, genial, burro, homem, mulher, homossexual, aleatoriamente.

A partir disto, elaborou sua teoria da justiça, que tem pilares em liberdade e igualdade.

Liberdade: direito a liberdades básicas como crença, voto e liberdade de expressão – seriam fortemente garantido.

Igualdade: mais pobres deveriam ter oportunidade. Desigualdade seria permitida se ajudasse os mais pobres – exemplo, altos executivos podem ganhar 10 mil vezes do que a média, porém só se isto fosse bom para todos. Um jogador de futebol, por exemplo, tem um talento natural que quase ninguém tem. É injusto ele ganhar 10 milhões por ano, se ninguém se beneficiar disto.

Ele inspirou pensadores atuais como Michael Sandel, escritor contemporâneo sobre a Justiça (que provavelmente estará neste index filosófico).

São contribuições importantes, concordemos ou não com as conclusões.

Raws está presente na caneca filosófica.

Fontes e links:

Uma breve história da filosofia – Nigel Warburton

https://people.wku.edu/jan.garrett/ethics/johnrawl.htm

Peter Singer

Nota: Estou criando um “Index filosófico”, com algumas breves notas sobre os grandes pensadores do passado e do presente.

Peter Singer, Austrália, 1946 – presente. Pensador da área de Filosofia moral.

Principais ideias: Defensor do direito dos animais, necessidade de doações e da eutanásia.

Sobre doações

Ao ver uma criança se afogando num lago, somos capazes de pular nele. Mas, por que poucas pessoas fazem doações, se a doação de uma quantidade pequena pode salvar muitas vidas na África, por exemplo?

Talvez seja porque o elo de ação (ou falta de) e consequência seja indireto. Outros argumentos:

  • Como saber se o dinheiro chegará às pessoas?
  • Talvez algum outro com mais recursos faça a doação
  • Será que doar não vai tornar a pessoa pior?

Porém, segundo Singer, cabe às pessoas escolherem boas instituições para doar. Há tantas pessoas necessitadas que toda ajuda é importante, não só dos mais ricos. E que é necessário não apenas doar dinheiro, mas também ajudar essas pessoas a encontrar o seu caminho.

Mensagem: você pode ter uma grande influência e fazer a diferença.

Sobre Eutanásia

A eutanásia pode ser um ato de misericórdia, se a pessoa estiver em estado vegetativo, por exemplo. Não há propósito em manter a vida neste estado.

Direito dos animais

Ele também era defensor dos animais.

Deveríamos levar em consideração a sua capacidade de sentir dor, em concordância com o filósofo utilitarista Jeremy Bentham.

Ele criou o termo “especista”, algo como racista ou sexista, mas em relação à espécie.

O seu argumento baseado na coerência. Tratar semelhantes da mesma maneira. Se maltratar animais causa mais dor do que maltratar um ser humano, é melhor maltratar um ser humano, se for possível escolher.

Num extremo. Um grupo de pessoas faz um churrasco, onde se esbalda de comer carne – numa quantidade muito além da sua necessidade como ser humano. O sofrimento animal causado valeu pelo prazer supérfluo dos humanos?

Conclusão

Peter Singer é um pensador ousado, e que recebe montanhas de críticas pelo seu posicionamento nos temas polêmicos que aborda.

Nigel Warburton o chama de “mosquito moderno”, em alusão ao “mosquito da antiguidade” (ou seja, Sócrates), que perturbava o status quo com suas ideias. Certo ou errado, concordemos ou não, ele defende suas ideias com argumentos, e esse é o espírito da filosofia.

Fontes e links:

Uma breve história da filosofia – Nigel Warburton

Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Singer

A caneca da sabedoria

A caneca da sabedoria é aquela na qual ficamos mais sábios a cada gole que tomamos. Existe isso?

Existe. A caneca filosófica. Ela contém a caricatura de vários gigantes do pensamento, na ordem cronológica em que estes deixaram sua marca neste planeta.

A filosofia é um campo do conhecimento misterioso. Ao mesmo tempo que não tem aplicação nenhuma, ela é o embasamento de tudo.

Se ela começa a ter aplicação, vira um outro campo do conhecimento – digamos física ou química, que antes eram especulações no mundo das ideias.

Por outro lado, a ciência não consegue explicar tudo. Sempre há hipóteses, na fundação de qualquer modelo. Hipóteses podem ser atacadas, e a filosofia se encontra na fundação das fundações das hipóteses.

Modo de utilização: Todas as vezes que tomar água, escolher aleatoriamente uma das figuras, e pensar nas reflexões que este trouxe à luz. Não conhece a pessoa? Melhor ainda, a tarefa é procurar a respeito…

Olho para Aristóteles e lembro que ele criou a lógica. E também, a ética aristotélica – onde o máximo da felicidade é a pessoa conseguir dedicar todo o seu pleno potencial ao seu talento, o momento de eudamonia!

Olho para Albert Camus e lembro do mito de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra enorme morro acima, só para chegar ao cume e ver a pedra rolar ladeira abaixo, para começar tudo de novo, um martírio existencialista!

Olho para Arthur Schopenhauer e vejo um velho ranzinza, misógino e pessimista, dizendo que o homem está fazendo da Terra um inferno para os animais, e que a ganância é como a água do mar, quanto mais bebemos, mais queremos.

Olho para Karl Popper e lembro que a ciência só evolui por ser falsificável – ou seja, uma teoria é apenas a melhor teoria até agora, ela não é absoluta. Uma teoria absoluta é uma pseudo-ciência, uma religião, que explica tudo sem possibilidade de constestação. Na ciência, sempre existe a chance de destruir a teoria atual por uma melhor, e é assim que o conhecimento evolui.



O meu preferido é Friedrich Nietzsche, o dinamitador, que contestou a ética, os costumes, o cristianismo, os filósofos clássicos, chamando-os de ídolos de pés de barro. Ele é um criador, e criadores são duros e fortes. Ele é uma força dionísica, do caos, contra as forças apolônias da ordem.

É do caos que nasce um estrela.

Um brinde ao mundo das ideias!

Para quem quiser comprar:
https://philosophersguild.com/

E depois?

Li uma história do Mula Nasrudin, cujo original não consigo encontrar, mas era mais ou menos assim.

Estava o Mula Nasrudin a dormir em sua rede debaixo de uma árvore, no meio da tarde, após pescar quantidade suficiente de peixes para o dia.

Um graduado em administração com MBA em Harvard estava passando pelo local, quando resolveu questioná-lo.

  • Por que você está aí, ocioso, ao invés de utilizar todo o seu dia para trabalhar?
  • Porque já pesquei o suficiente para hoje.

  • Por que você não continua pescando, para gerar um excedente de peixes e ter lucro vendendo-os no mercado?
  • O que vou fazer com o lucro?

  • Você pode acumular o lucro para comprar um barco maior e equipamentos de pesca melhores.
  • E depois?

  • Você pode aumentar a sua produtividade e pescar mais peixes em menos tempo, aumentando o seu EBITDA.
  • E depois?

  • Com aumento de sua margem EBITDA, você pode conseguir investimentos ou se associar a outros empreendedores, para comprar mais barcos e contratar mais pescadores, maximizando os ativos obtidos.
  • E depois?

  • Com o sucesso deste empreendimento inicial, você pode criar uma frota de barcos pescadores, aumentando o seu share e até chegando a dominar o mercado.
  • E depois?

  • A sua companhia pesqueira pode crescer tanto ao ponto de se tornar uma empresa global, e quem sabe, abrir o capital na bolsa de SP.
  • E depois?

  • Aí você será um homem rico. Poderá passar férias num lugar paradisíaco como este, e dormir sossegado numa rede debaixo de uma árvore, sem preocupações…
  • Então eu não preciso de nada do que você falou. Eu já estou fazendo isto.

O Mula Nasrudin convidou o graduado a se sentar, tomar uma água de côco de frente para o mar, e ficaram lá o resto da tarde, até contemplar o pôr do Sol.

Quanto eu coloco na nota?

Hoje, no táxi, pedi uma nota da corrida.

O taxista perguntou: Quanto eu coloco na nota?

Eu falei: o valor do taxímetro…

Com os aplicativos de táxi, faz tempo que não tomava táxi e eu não ouvia essa pergunta. Infelizmente, ela é bem comum.

Não dá para cobrar ética dos políticos se não fazemos o mínimo, no dia-a-dia.

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

O fardo que carregamos

Este conto é do folclore do Oriente Médio. As histórias do mulá Nasrudin combinam sabedoria e muito humor. “Mulá” significa “mestre”. Este é sobre os fardos que carregamos na nossa mente.

Um dia, Nasrudin, em sua peregrinação, encontrou um rio enorme que o impedia de continuar o caminho. Dado o tamanho do rio e agitação da água, seria impossível atravessá-lo a nado.

Então, ele juntou tudo o que podia e passou um dia e uma noite construindo uma bela e segura canoa. Na manhã seguinte, a colocou na água e conseguiu chegar ao outro lado sem maiores dificuldades.

Assim que ele estava em terra firme, amarrou a canoa em suas costas e com muito esforço e sofrimento continuou em seu caminho, em direção à floresta, se arrastando para suportar todo aquele peso.

Num momento, um passante o avistou e, curioso, perguntou:
“Senhor, por que está carregando essa canoa em meio a uma floresta?”

Nasrudin respondeu:
“Não posso deixá-la para trás. Ela me ajudou a atravessar o rio. Espero que também me ajude a atravessar a floresta.”

Assim como ilustra a história de Nasrudin, também carregamos as nossas canoas, que foram úteis em algum momento, mas certamente nos seguram no meio de uma floresta.

Conectar os pontos

Nos tempos atuais, o mundo está cada vez mais demandante e competitivo. Além disso, há dezenas de opções de caminhos a seguir, e, para piorar, todos os dias surgem novos caminhos.

Qual o caminho correto a seguir?

Este pensamento me remete à história de “conectar os pontos”, de Steve Jobs.

Achamos que alguém como Steve Jobs sempre soube o que queria fazer e aonde queria chegar. Na verdade, as histórias contadas no discurso de formatura em Stanford, em 2005, mostram uma realidade muito diferente. Ele nunca soube para onde o caminho levaria. A única confiança que ele tinha era a de que, no fundo do coração, ele sabia que estava fazendo a coisa certa.


Ligar os pontos

Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais dezoito meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei?

Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina. Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: “Apareceu um garoto. Vocês o querem?” Eles disseram: “É claro.” Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade.

E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de 6 meses, eu não podia ver valor naquilo. Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria OK. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes.

Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo. Muito do que descobri naquele época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.

Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante.

Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm.

É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.

De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.

Discurso de Steve Jobs em Stanford, 2005.

Links:

Transcrição da segunda história: sobre amor e perda

Transcrição da terceira história: sobre vida e morte

Transcrição do epílogo: Continuem famintos, continuem tolos