O caminho da solidão

O “caminho da solidão” (Dokkōdō), de Miyamoto Musashi, é um conjunto de 21 regras escritas um pouco antes de sua morte.

1 Aceite as coisas como elas são

2 Não procure o prazer físico

3 Em nenhuma circunstância dependa de um sentimento parcial

4 Pense a si mesmo com leveza; pense o mundo com profundidade

5 Evite o desejo, a vida toda

6 Não lamente o que fez

7 Não seja invejoso

8 Não se entristeça por uma separação

9 Ressentimentos e reclamações são inadequados tanto para si como para os outros

10 Não deixe se guiar pela luxúria

11 Não tenha preferências

12 Seja indiferente ao local onde reside

13 Não persiga o gosto da boa comida

14 Não carregue bens de que não necessita

15 Não aja de acordo com as crenças habituais

16 Não colecione ou pratique com armas além do necessário

17 Não tenha receio da morte

18 Não tenha a intenção de possuir objetos ou um feudo na velhice

19 Respeite Buda e os deuses sem contar com a sua ajuda

20 Você pode abandonar a sua vida, mas deve preservar a sua honra

21 Nunca se afaste do Caminho

No Ocidente, damos muito valor à posses e conquistas. Devo ter algo, possuir poder sobre outros, consumir do bom e do melhor.
Já as filosofias do Oriente, como o Tao, prezam pelo equilíbrio. Yin Yang. Duro e Macio. Forte e Fraco. Cheio e Vazio.

Para desfrutar de um chá, temos que ter uma xícara, mas só se esta tiver o vazio para podermos preenchê-la.

Uma casa deve ter paredes, teto e estrutura, porém, também deve ter o vazio interno para podermos viver nela. O pensamento ocidental tende a entulhar a casa de posses até precisarmos de uma casa maior, num ciclo infinito. Já o pensamento oriental tende a deixar a casa somente com o necessário, nada mais que isso.

Veja também:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dokk%C5%8Dd%C5%8D

Esperar, Jejuar e Pensar

“Eu sei esperar, jejuar e pensar”. O personagem Siddhartha, do romance de mesmo nome de Herman Hesse, repete inúmeras vezes a frase ao longo do livro.

Li o livro faz uns 6 anos, mas só agora essas palavras voltaram à mente. Talvez por conta do mundo moderno, pós-pandemia, que está cada vez o oposto: impaciente, faminto e impetuoso.

  • Impaciente. Mensagens instantâneas via Whatsapp, Teams, Slack. Vídeos de 15 segundos, tweets de 140 caracteres. Verificar e-mail a cada 10 minutos. Para que ler um livro se tem o YouTube?
  • Faminto, no sentido de guloso. Mais produtos, mais posses, mais dinheiro, mais sexo. Comprar comida pela internet e receber em casa. Catálogo infindável de filmes, séries e música, via streaming. O mundo ao toque de suas mãos. Ter mais views, aplausos e seguidores. Consumir. Viagens, roupas, carro, posição.
  • Impetuoso. Nesta era instantânea e delivery, é tudo ação e resultados imediatos. Para quê esperar e pensar?

Siddhartha é o nome do personagem. É uma referência clara à Siddhartha Gautama, o Buda, porém, o personagem principal não é ele, é uma pessoa de mesmo nome. De certa forma, é um romance biográfico. O Buda é inatingível, mas o personagem Siddhartha é uma pessoa comum: alguém como eu, você, ou o Herman Hesse. É alguém que começou num caminho simples, saiu ao mundo para conquistar dinheiro, posição social e os prazeres da vida. Após as conquistas, sentiu o vazio disso tudo, e voltou ao caminho ascético.

É um livro curto, umas cento e poucas páginas, e agradável de ler. Porém, mais do que um resumo da história, eu gosto da mensagem – mesmo que tenha demorado muitos anos para entendê-la.

Esperar.
Jejuar..
Pensar…

O que é e qual a importância dos dígitos significativos?

Eu sempre pego no pé das pessoas que trabalham comigo, quando vejo um número do tipo R$ 11.786.954,34. Eu pergunto: “A sua projeção tem erro na casa dos centavos?” “Mas fiz a conta e deu isso” – É uma resposta comum, à qual, acrescento: “A questão não é a conta estar correta, são os dígitos significativos”.

Dígitos ou algarismos significativos são, como o próprio nome indica, os dígitos que contém significado físico. Cada caso vai ser diferente, porém, no caso acima, era uma projeção, e dizer aproximadamente R$ 11,79 milhões fazia muito mais sentido do que especificar até os centavos.

Quando estamos lidando com fenômenos do mundo real, como medições, estimativas e projeções, há uma série de erros naturais, como:

  • Imprecisão na medida: exemplo, se estamos medindo com uma régua comum, a precisão vai ser de milímetro – não faz sentido especificar em milésimos de milímetro, porque não vai ter como alguém reproduzir tanta precisão.
  • Variação natural, incertezas: no caso da informação que estamos transmitindo sofrer variação devido a algum fator, como o dólar subir ou descer um pouco, a temperatura influenciar no comprimento medido, etc.

O curioso é que esse erro é tão comum, que até grandes instituições econômicas o cometem. Exemplo, o Índice Global de Felicidade (crédito aqui ao autor Vaclav Smil, vi esse comentário num dos livros dele).

Este é um índice que tenta mensurar a felicidade de um país, e supostamente é algo que deveria ser mais importante do que o PIB.

Segue o índice de 2020, onde o valor é medido numa escala de 0 (infeliz) a 10 (feliz). Fonte: https://worldpopulationreview.com/country-rankings/happiest-countries-in-the-world.

Os primeiros países são os nórdicos Finlândia, Dinamarca e a Suíça. Aí, nas manchetes do mundo todo, vai estar escrito: A Finlândia é o país mais feliz do mundo, seja lá o que isso for.

Aí vem a pergunta: o que significa 0,2 pontos de diferença entre Finlândia e Dinamarca? Será que se eu falar com um finlandês e um dinamarquês eu vou notar que um é 0,2 mais feliz que o outro?

Esse índice é obtido a partir de uma pesquisa, com uma amostra da população (eu particulamente nunca fui entrevistado).

O Brasil está na posição por volta de 30 dessa lista. O BR está no primeiro quartil de felicidade, dentre os cerca de 150 países. A Argentina está em 55. Chile, 42. Venezuela, 109.

Os mais infelizes são países pobres da África e o Afeganistão.

É muito claro que é melhor viver na rica e bela Finlândia do que num país miserável governado por uma ditadura sanguinária como o Zimbábue, e que o índice tem o mérito de tentar mensurar um fator importante para a nossas vidas. A crítica aqui é o uso de duas casas decimais – os países poderiam estar agrupados em categorias, por exemplo – mas aí não dá belas manchetes.

Diz o site que cerca de 2000 mil pessoas são entrevistadas por país. Se a pesquisa der o azar de entrevistar duas pessoas infelizes, é suficiente para responder pelo 0,2 de diferença!

Anote aí: No dia 18/03/2022, o índice mundial de felicidade relativo à 2021 será divulgado, e a imprensa do mundo todo vai divulgar uma informação que não faz o menor sentido: o país X, provavelmente nórdico ou a Suíça, certamente europeu, é o país mais feliz do mundo, seja lá o que isso for.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/World_Happiness_Report

https://pt.wikipedia.org/wiki/Algarismo_significativo

https://worldhappiness.report/faq

Assim Falou Zaratustra – em 40 frases

O “Assim Falou Zaratustra”, do explosivo filósofo Friedrich Nietzsche, é o meu livro favorito de todos os tempos. Nietzsche tem a incrível capacidade de derrubar “ídolos com pés de barro” utilizando uma linguagem poética imaginativa. É como ir numa viagem num país estrangeiro, onde tudo é novo, desconhecido e excitante, acompanhado de um vinho inebriante do mais forte.

Prelúdio: A abertura de “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, inspirado na obra de Nietzsche.

Sem mais delongas, uma coleção de frases do livro “Assim Falou Zaratustra”.

Quando Zaratustra completou trinta anos, abandonou sua pátria e foi para a montanha. Ali, durante dez anos, alimentou-se de seu espírito e de sua solidão, sem deles se fatigar.

Estou repleto de minha sabedoria, como a abelha que acumulou demasiado mel. Necessito de mãos que se estendam para mim. Eu devo descer, como tu, até aqueles a quem quero baixar.

Trago um presente para os homens.

Será possível? Esse santo ancião não ouviu em sua floresta que Deus está morto!

Eu vos ensino o Além-Homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo?

O que é um macaco para o homem? Algo risível ou uma dolorosa vergonha. Pois assim é o homem para o Além-Homem.

Exorto-vos, ó meus irmãos, a permanecerdes fiéis à terra, e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres.

O homem é um rio turvo. É preciso ser o mar para receber um rio turvo, sem tornar imundas as suas águas.

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Além-Homem: uma corda sobre um abismo. Perigoso passar um abismo, perigoso seguir esse caminho, perigoso olhar para trás, perigoso temer e parar.

É tempo que o homem visualize um objetivo para si.
É tempo que o homem plante a semente de sua mais alta esperança.
Ainda é seu solo bastante rico. Mas um dia, pobre e avaro será ele, e, nele, já não poderá crescer nenhuma árvore elevada.

Eu vos digo: É necessário ter o caos em si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós.

Nada perderei perdendo a vida. Nada mais fui que um animal ao qual ensinaram a dançar à força de pancadas e magros alimentos.

A vida humana é sinistra e desprovida de sentido; basta um palhaço para lhe ser fatal.

Vim para separar muitas ovelhas do rebanho. Será preciso que o povo e o rebanho se irritem contra mim; Zaratustra quer que os pastores vejam nele um ladrão.

Uma águia descrevia grandes círculos no ar e trazia suspensa uma serpente, não como presa, mas como amiga, porque ela ia enroscada ao seu pescoço – são os meus animais! – disse Zaratustra, e o seu coração encheu-se de alegria.

Três metamorfoses do espírito vos menciono: de como o espírito se muda em camelo, e em leão o camelo, e em criança, finalmente, o leão!

O espírito tornado besta de carga atira sobre si todos estes pesados fardos; e igual ao camelo, que se apressa para alcançar o deserto, também ele se apressa para alcançar o seu deserto.

E lá, na solidão extrema, produz-se a segunda metamorfose; o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade, e ser amo em seu próprio deserto.

Inocência é a criança, o esquecimento, novo começar, jogo, roda que gira sobre si mesma, primeiro movimento, santa afirmação. Tendo perdido o mundo, quer ganhar para si o seu mundo.

Todo eu sou corpo, e nada mais; a alma não é mais que um nome para chamar algo do corpo.

Irmão, quando tens uma virtude, e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.

Este pássaro construiu seu ninho em mim; por isso o quero e o estreito contra o meu coração. Agora incuba em mim seus dourados ovos.

O que gira em torno da chama da inveja, assim como o escorpião, acaba por volver contra si mesmo o aguilhão envenenado.

O homem é algo que deve ser superado. Deves, por isso, amar tuas virtudes, porque por ela perecerás.

Uma coisa é o pensamento e outra é a ação, e outra a imagem da ação. A roda da causalidade não gira entre elas.

Sou um parapeito ao longo da torrente: aquele que puder segurar-me, que o faça. Mas, vossa muleta eu não o sou.

De tudo quanto se escreve, agrada-me apenas o que alguém escreve com o próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que sangue é espírito.

Quem com sangue em máximas escreve não quer ser lido, mas guardado na memória.

Nas montanhas, o mais curto caminho vai de cimo a cimo; mas é mister pernas largas.

Há sempre um quê de loucura no amor. Mas há sempre também um quê de razão na loucura.

Os que melhor entendem de felicidade são as mariposas e as bolhas de sabão, e tudo quanto a elas se assemelha entre os homens.

Aprendi a andar; desde então corro. Aprendi a voar; desde então não quero que me empurrem para mudar de lugar.

Vós dizeis que a boa causa é que santifica a guerra? Eu vos digo: a boa guerra é que santifica qualquer causa.

Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?

Sobre o Estado. O Estado sabe mentir em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo o que diz, mente; e tudo quanto tem, foi roubado. Nele tudo é falso; morde com falsos dentes, esse mordedor. Até suas entranhas são falsas.

Sobre as moscas da praça pública. Onde começa a praça pública, começa também o ruído dos grandes cômicos e o zumbido das moscas venenosas. Não levantes mais o braço contra eles! São inumeráveis, e não é teu destino ser enxota-moscas. Inumeráveis são esses pequenos e míseros; e altivos edifícios se viram destruídos por gotas de chuva e ervas daninhas.

O homem do conhecimento não só deve saber amar a seus inimigos, mas também odiar os seus amigos.

Calmo é o fundo do mar, quem poderia suspeitar que ele contém monstros risonhos?

Quem quer aprender a voar um dia, deve desde já aprender a manter-se de pé, a andar, a correr, a saltar, a trepar e a bailar: não se aprende a voar ao primeiro alçar das asas!

Os criadores são duros.

Onde está vosso caminho? Era o que eu respondia, aos que me perguntavam o ‘caminho’. Que o ‘caminho’, na verdade…. o caminho não existe.

Assim falou Zaratustra.

O livro contém inúmeras outras anedotas (como o Veneno da Víbora e o Dragão, e o Martelo fala), além de frases de impacto nos discursos de Zaratustra. Conheço uma pessoa que chegou a estudar alemão, para conseguir ler no original, afinal toda tradução perde um pouco da essência do autor.

Assim Falou Zaratustra – Friedrich Nietzsche

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Veja também:

O Anticristo de Nietzsche em 40 frases

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

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Loja e Recomendações:

O que é Eudaimonia?

A busca pela Eudaimonia já me guiou em diversos momentos da vida, e também já me fez ler a “Ética a Nicômaco” do filósofo grego Aristóteles, que até hoje é uma das referências no tema.

Eudaimonia é um termo da filosofia grega, e significa algo como “felicidade”. Mas não é qualquer felicidade, é felicidade pela virtude. Isso porque uma pessoa pode tentar buscar felicidade por meios fugazes, como utilizar drogas ou vícios nocivos a longo prazo. Eudaimonia é uma palavra melhor do que felicidade.

Virtude de fazer aquilo para o qual você veio ao mundo para fazer. Sabedoria para que a pessoa alcance todo o seu potencial de excelência.

O ponto de vista grego era o de um universo com ordem. Uma semente de trigo gera trigo, um embrião de sapo vira um sapo. Um potencial sapateiro que alcance a excelência de ser um grande sapateiro, um potencial guerreiro que alcance a excelência de ser guerreiro, um potencial filósofo que alcance a excelência de ser filósofo.

Eudaimonia é alcançar a plenitude de seu potencial.

Para quem quiser saber mais sobre o tema e ver interpretações outras, há diversas fontes na internet. Especialmente interessantes são: o livro original de Aristóteles (descrito abaixo) e as aulas do prof. Clóvis de Barros Filho, pela sua didática.

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Prevendo Cisnes Negros (e errando a previsão)

Um dos maiores pensadores de nosso tempo é Nassim Taleb, autor de livros como “A lógica do Cisne Negro” e “Antifrágil”.

Algumas de suas ideias vêm se tornando jargão comum nos negócios e na sociedade, e como sempre acontece nesses casos, há muita gente que faz mau uso dos conceitos envolvidos. Leram e não entenderam. Ou pior, nem devem ter lido e propagam sem entender minimamente.

Dois exemplos:

1 – O meu feed de notícias mostra o seguinte artigo: “Por que eventos inesperados são chamados Cisnes Negros e como a ciência está trabalhando para predizê-los.”https://marketresearchtelecast.com/why-unexpected-events-are-called-black-swans-and-how-science-is-working-to-predict-them/151508

A chamada do artigo não faz nenhum sentido. O que Taleb afirma é exatamente o oposto: há eventos de baixa probabilidade e altíssimo impacto, impossíveis de prever.

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Não é colocando mais ciência ou mais estudos econômicos que os Cisnes Negros serão previstos, muito pelo contrário: confiança cega qualquer área do conhecimento é exatamente uma das causas de eventos extremos. Taleb é extremamente crítico a economistas, acadêmicos e consultores que sabem tudo.

A chave é reconhecer que não entendemos o mundo em que vivemos, e por isso, não deixar empresas, governos e economia tomarem proporções complexas demais, alimentando futuramente um risco catastrófico.

Não por acaso, o subtítulo de um dos livros é “Como viver num mundo que não conhecemos”.

2 – Usar “Antifrágil” no sentido de autoajuda: “Seja cada dia mais antifrágil”, “Somos uma empresa antifrágil” ou algum chavão do tipo, que não faz sentido algum.

Primeiro, uma definição. Qual o oposto de frágil? Seria “robusto”?

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Porém, “robusto” tem um problema. Se “frágil” é algo que quebra após um estresse, para o “robusto” não acontece nada. O oposto de “frágil” é algo que fica melhor após o estresse, daí o termo “Antifrágil”, criado por Taleb.

Exercícios físicos são estressores, que tornam o corpo mais forte, por exemplo. Ou o sistema imunológico do corpo humano.

Outro exemplo: as pessoas, como sociedade e não como indivíduo. O indivíduo é frágil: se ele tentar empreender e fracassar, é ele que vai arcar com boletos atrasados. Já a sociedade se beneficia da fragilidade dos indivíduos, porque aqueles que conseguirem triunfar vão gerar valor para o todo continuar evoluindo.

Qual a relação do problema do Cisnes Negros e Antifragilidade? Quanto maior o Cisne Negro, quanto maior o risco, mais frágil é o sistema. Já riscos menores, distribuídos, orgânicos, são bons, porque tornam a sociedade como um todo antifrágil.

A antifragilidade não é uma frase de motivação. Muito pelo contrário. É um convite a abraçar o caos, a empreender, é um convite ao sacrifício de arriscar e assumir as consequências dos erros na própria pele.

Para fechar, algumas frases de Taleb, no seu livro “A cama de Procusto”, ao seu estilo provocador:

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“É muito mais fácil enganar pessoas prometendo bilhões do que apenas milhões”

“Vi um painel com o economista Edmundo Phelps, que obteve o Nobel por escritos que ninguém leu, teorias que ninguém aplica e aulas que ninguém entende”.

“A imaginação do gênio vastamente supera seu intelecto; o intelecto do acadêmico vastamente supera a sua imaginação.

“O pior estrago é causado por pessoas competentes tentando fazer o bem; as boas melhorias são feitas por incompentes que não tentar fazer o bem”.

“Uma empresa tem muito a se preocupar quando o cabeça dela vem a público dizer que não há nada a se preocupar”.

“O que eles chamam de risco, eu chamo de oportunidade; mas quando eles dizem oportunidade de baixo risco, eu digo armadilha de perdedor”

“Para se tornar um filósofo, comece a andar bem devagar”.

“Felicidade: não sabemos como medir ou obter, porém sabemos como evitar tristeza”

“Acham que inteligência é sobre notar o que é relevante; num mundo complexo, inteligência consiste em ignorar o que é irrelevante”.

“Conhecimento é subtrativo, não aditivo – subtraímos o que não funciona, o que não fazer”.

Veja também:

As piores frases de Nietzsche

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), é, segundo suas próprias palavras, “Dinamite pura”. É um escritor cuja pena é um martelo, que usa para derrubar ídolos, e por isso, é amado e odiado com a mesma intensidade. Descubra o motivo, na coletânea a seguir.

Atenção: conteúdo explosivo.

Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?

Deus está morto!

Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?

Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera.

Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre. Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros!

Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos entendem pouco de mulheres?

Com o risco de desagradar a ouvidos inocentes eu afirmo: o egoísmo é da essência de uma alma nobre; aquela crença inamovível de que, a um ser “tal como nós”, outros seres têm de sujeitar-se por natureza e a ele sacrificar-se.

Toda elevação do homem foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e escravidão em algum sentido.

A casta nobre sempre foi, no início, a casta de bárbaros: sua preponderância não estava primariamente na força física, mas na psíquica.

O olhar do escravo não é favorável às virtudes do poderoso: é cético e desconfiado.

O amor ao próximo é sempre algo secundário, em parte convencional e ilusório, em relação ao temor ao próximo.

Sobre a convicção do filósofo: chegou o asno, belo e muito forte.

Demonstramos profunda incompreensão do animal de rapina e do homem de rapina (César Bórgia, por exemplo), incompreensão da natureza, ao procurar por algo doentio no âmago desses mais saudáveis monstros.

Sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, igrejas) e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram.

O surgimento de Napoleão é a história da superior felicidade que este século alcançou em seus homens e momentos mais preciosos.

Independência é algo para poucos: é prerrogativa dos fortes. Quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, demonstra que é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida.

É inevitável que nossas mais altas intuições pareçam bobagens, delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não são feitos para elas.

As religiões soberanas estão entre as maiores causas que mantiveram o tipo homem num degrau inferior. Destroçar os fortes, debilitar as grandes esperanças, tornar suspeita a felicidade da beleza, dobrar tudo que era altivo.

Um povo é um rodeio que a natureza faz para chegar a 6 ou 7 homens.

Tudo que é grande talvez tenha sido loucura no início.

Ouço, com prazer, que o nosso Sol se dirige velozmente à constelação de Hércules: espero que o homem desta Terra siga o exemplo do Sol.

O homem que aspira a uma coisa grande considera todo aquele que lhe cruza o caminho, ou como um meio, ou como um obstáculo, ou descanso temporário.

Os maiores acontecimentos e pensamentos são os últimos a serem compreendidos. As gerações que vivem no seu tempo não vivenciam tais acontecimentos – passam ao largo deles.

Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido do que de ser mal compreendido. Neste caso talvez sofra sua vaidade; mas naquele sofrerá seu coração.

A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma.

Tenho uma predileção por perguntas para as quais ninguém hoje tem a coragem, a coragem para o proibido.

O que é bom? Tudo o que eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.
O que é felicidade? o sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

Os fracos e malogrados devem perecer: primeiro princípio de nosso amor aos homens.

O cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando a perceber como pecaminosos os valores supremos do espírito.

O cristianismo é chamado de religião da compaixão. A compaixão se opõe aos afetos que elevam a energia do sentimento de vida: ela tem efeito depressivo.

A compaixão se opõe à lei da evolução, que é a lei da seleção.

A compaixão é a prática do niilismo. É instrumento multiplicador da miséria e conservador de tudo o que é miserável – a compaixão persuade ao nada.

Nem a moral nem a religião, no cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade. São causas imaginárias (Deus, alma, livre-arbítrio) e efeitos imaginários (pecado, salvação, graça, castigo). Um comércio entre seres imaginários (Deus, espíritos). Um mundo de pura ficção, que falseia, desvaloriza e nega a realidade.

Eles não se denominam fracos, denominam-se “bons”. Deus-de-gente-pobre, Deus-de-pecadores, Deus-de-doentes.

Cristão é o ódio ao espírito, ao orgulho, coragem, cristão é o ódio aos sentidos.

Quanto às três virtudes cristãs, fé, amor e esperança, eu as denomino três espertezas cristãs.

O conceito de Deus falseado, o conceito de moral falseado. Os sacerdotes traduziram em termos religiosos o próprio passado de seu povo.

Simplificaram a psicologia, reduzindo-a à fórmula de “obediência ou desobediência a Deus”.

O sacerdote formula até as taxas a lhe pagar, não esquecendo os mais saborosos pedaços da carne, pois o sacerdote é um comedor de bisteca.

Deus perdoa quem faz penitência – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.

Nada de conceito de “gênio” tem algum sentido no mundo de Jesus. Falando com o rigor do fisiológico, caberia uma outra palavra – a palavra “idiota”.

A palavra “cristianismo” é um mal-entendido. No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” é o oposto do que ele viveu, um “disangelho”.

Paulo era o gênio em matéria de ódio, na lógica implacável do ódio. Simplesmente riscou o ontem, inventando uma história. Falseou a história de Israel para que ela aparecesse como pré-história: todos os profetas falaram do seu “Redentor”.

O cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno.

Que resulta disso? Que convém usar luvas ao ler o Novo Testamento.

O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência – a sadia noção de causa e efeito.

O pecado foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda elevação e nobreza do homem; o sacerdote domina mediante a invenção do pecado.

O bem-aventurado não é provado, mas apenas prometido: a bem-aventurança é ligada à condição de “crer” – a pessoa deverá ser bem-aventurada porque crê.

A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem.

Não nos enganemos: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético.

A necessidade da fé, de um sim ou não, é uma necessidade de fraqueza.

A “Lei”, a “vontade de Deus”, tudo apenas palavras para as condições sob as quais o sacerdote chega ao poder e o sustenta.

As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.

A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos.

Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-ses apanas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada.

O cristianismo foi o vampiro do Império Romano.

Eu condeno o cristianismo, faço à Igreja cristã a mais terrível das acusações que um promotor já teve nos lábios. Ela é, para mim, a maior das corrupções imagináveis.

A Igreja cristã nada deixou intacto com seu corrompimento, ela fez de todo valor um desvalor, de toda verdade uma mentira, de toda retidão uma baixeza de alma.

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

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O Anticristo: https://amzn.to/38DgMP5

Assim falou Zaratustra: https://amzn.to/3jLkg8S

Crepúsculo dos ídolos: https://amzn.to/3tcz2bM

Além do bem e do mal: https://amzn.to/3DOxXvJ

O Estrangeiro, de Albert Camus

“O Estrangeiro” é um livro perturbador. Li há alguns anos, reli recentemente, e hesitei em colocar algum comentário neste espaço, porque a mensagem passada não é positiva. Apesar disso, são ideias profundas de um dos maiores nomes do século passado.

Albert Camus, escritor franco-argelino, escreveu este pequeno livro (por volta de 100 páginas) em 1942, e é um exemplo de sua filosofia do absurdismo.

Em poucas palavras, o absurdismo diz que a vida não tem significado, e é absurdo tentar criar significado onde não há… Ninguém está aqui para ser como o Neo, sair da Matrix e salvar o mundo. Só estamos aqui porque os nossos pais se relacionaram, a biologia cumpriu a sua parte, e nascemos.

A primeira frase do livro já mostra todo o contexto:

“Minha mãe morreu hoje. Ou talvez ontem, eu não sei. Recebi um telegrama do asilo”.

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O personagem principal, Meursault é um estrangeiro. Não por vir de algum país distante, nada disso. Ele é um estrangeiro por ser diferente das pessoas normais. Desapaixonado, não tem sentimentos, não tem ambições, é calado e indiferente.

Ele viaja ao asilo, conversa em tom monossilábico com o diretor da instituição e outros personagens. O zelador o convida a abrir o caixão e ver a mãe, e Meursault, friamente, não faz questão nenhuma de aceitar o convite.

Ele aceita um café do zelador, vela a mãe e acompanha o enterro, sem derramar uma lágrima, nem expressar qualquer palavra de nostalgia ou conforto.

No dia seguinte, o nosso herói do absurdo volta à rotina, e reencontra uma conhecida, com a qual começa a namorar.

Encontra um vizinho, que arruma briga com a amante – ele a agride fisicamente – e isso terá consequências.

Nesse meio tempo, o chefe de Meursault oferece uma vaga melhor, em Paris. O protagonista dá a sua resposta curta usual: “Não sei, tanto faz”. Afirma que a vida atual está OK, e se o chefe quisesse, ele iria, senão, está bom também.

A namorada nova também fala algumas vezes de casamento, e a resposta também é a mesma: “Não sei, tanto faz. Se você quiser eu caso.” – num tom nem feliz nem triste, completamente desprovido de emoções.

Depois de um tempo, ele, a namorada, o vizinho e mais um casal de conhecidos vai à praia. O vizinho é seguido pelo irmão da amante espancada anteriormente, chamado aqui simplesmente de “árabe”.

Após algumas confusões, Meursault atira e assassina o árabe, e por isso, vai a julgamento, meses depois.

No julgamento, os promotores chamam testemunhas do enterro da mãe, que narram como o personagem foi frio e nem chorou na ocasião.

Questionado porque ele tinha aceitado o café do zelador, sua resposta foi: “A viagem tinha sido cansativa”.

Meursault nunca negou que tinha atirado no árabe, e o promotor explorou a total falta de remorsos e emoções do réu.

Questionado sobre o motivo do assassinato do árabe, eis sua resposta: “Estava muito sol”.

Alguns dos amigos de Meursault o defenderam, sem muito sucesso. No final, ele foi condenado à morte.

Na prisão, à espera da decapitação e do resultado de um recurso, Meursault se recusa inúmeras vezes a ver um padre, mas um dia esse o visita assim mesmo.

Ao religioso, ele diz não acreditar em Deus, ao qual o padre responde que ele pode até se livrar da pena se tiver o recurso aceito, porém ele vai continuar se sentindo culpado diante de Deus.

Dessa vez, pela primeira vez na história toda, Meursault expressa alguma emoção: reage furioso. Diz que tem convicções próprias sobre a vida e a morte. Independente da causa, nada vai mudar o fato de que estamos condenados à morte. Essa vida é absurda. Ele é indiferente ao universo, o que tiver que ser, será, e ele estará feliz dessa forma….

Na mesma linha, Camus escreveu outro livro perturbador: o mito de Sísifo. É sobre o personagem grego condenado a rolar uma enorme pedra morro acima, só para ver ela desabar imediatamente após alcançar o topo.

Outro grande nome da época, Jean Paul Sartre, escreveu densas obras sobre existencialismo, na mesma linha.

Sartre é considerado o melhor filósofo, enquanto Camus, o melhor escritor.

A revista Le Monde fez uma lista dos 100 livros do século, e colocou “O Estrangeiro” em primeiro da lista.
https://en.wikipedia.org/wiki/Le_Monde%27s_100_Books_of_the_Century

Há uma versão em quadrinhos de “O Estrangeiro”: https://amzn.to/3dBuSDF

Albert Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957, “por sua importante produção literária, que ilumina com seriedade e clareza os problemas da consciência humana em nosso tempo”. Ele faleceu num acidente de carro, em 1960. Tem um filme sobre Camus no Prime Video, que não é muito empolgante, mas mostra um pouco da vida deste grande autor. (https://www.primevideo.com/detail/Albert-Camus/0KRGSCG19GY8YOD47N31CFLJOL)

Desde Sartre e Camus, poucos pensadores se destacaram em filosofias existencialistas. Imagino que seja porque é um beco sem saída. Se nada faz sentido, o que faço aqui? Melhor arrumar algum sentido, é mais produtivo.

Veja também:

Hannah Arendt e suas três fugas

A história em quadrinhos “As três fugas de Hannah Arendt: Uma tirania da verdade”, é uma biografia gráfica de Hannah Arendt, um dos principais nomes da filosofia do séc. XX.

https://amzn.to/3vlAd83

É uma leitura densa, cheia de citações a nomes famosos da filosofia e da Europa da época.

Judia em plena Alemanha de Hitler, aluna brilhante e pensadora promissora, ela tem aulas com o renomado filósofo Martin Heidegger. Ela, 17 anos, e o professor, casado, dois filhos, dobro da idade, tornam-se amantes por um período. Ambos seguem sua vida, mas têm uma relação conturbada que dura por décadas.

Com o aumento da perseguição aos judeus, ela, a mãe, e o marido (ela se casara com um homem chamado Günther Stern) fogem da Alemanha, e meses depois, emigram para os EUA.

Ela ganhou notoriedade ao propor abertamente, nos anos 1940, um exército judeu para combater o antisemitismo. Ela via o exército judeu como fundamental para garantir a liberdade dos mesmos.

Uma de suas primeiras obras de impacto foi o livro “A origem do totalitarismo”, em 1951, sobre antisemitismo e totalitarismo como partes do regime nazista de Adolf Hitler.

Para quem não conhece o que Hannah representa e o contexto, o momento histórico, será uma leitura cansativa e monótona – ela separa, casa com outro, publica livros, encontra Heidegger, briga com a mãe, etc…

O trecho que mais me chama atenção é sobre a “banalidade do mal”. É sobre o nazista Adolph Eichmann, preso em 1961 por agentes israelenses e levado a Jerusalém para julgamento. Acusado de enviar milhares de judeus aos campos de extermínio, esperamos Eichmann ser um verdadeiro monstro, um Darth Vader, um vilão caricato de filmes.

Porém, não é isso que Arendt encontra. Para ela, Eichmann era um burocrata, uma pessoa comum que se passaria por qualquer trabalhador mediano, fossem outras as circunstâncias. Alguém casado, com filhos, que lia Kant e organizava horários e disponibilidades de trens no seu trabalho (o problema que os trens levavam pessoas para campos de concentração). Justamente essa normalidade era o grande perigo. Será que todos nós não podemos virar um Eichmann, sob certas circunstâncias?

No depoimento, ele disse:

Em resumo, não me arrependo de nada.

Eu era apenas mais um cavalo puxando a carruagem, e podia ir para a direita ou para a esquerda por causa da vontade do condutor da carroça.

Nós nos encontraremos novamente. Eu acredito em Deus. Obedeci às leis da guerra e fui fiel à minha bandeira.

Arendt foi bastante criticada pela série de artigos sobre Eichmann. Alguns interpretaram que o texto estava minimizando a responsabilidade do nazista. Também falaram que ela estava colocando a culpa nas vítimas.

Para mim, ela está extremamente correta ao evidenciar o comportamento normal de Eichmann e a banalidade do mal.


Esse pensamento serve justamente para alertar sobre os perigos de obedecer ordens cegamente, sem ter o mínimo de questionamento e filosofia.

Hannah Arendt consta na minha “caneca da sabedoria”, onde, a cada gole de café, escolho um dos filósofos para brindar junto.

E é uma honra tomar um café imaginável com pensadores do porte de Sartre, Nietzsche e Arendt!

Seguem alguns links com leituras correlatas:

https://en.wikipedia.org/wiki/Adolf_Eichmann

O gráfico do sucesso e o gráfico da felicidade

Um professor que tive, há muito tempo, relatou o encontro de 20 anos de formado da sua turma. A conversa era sempre algo do tipo: “E aí, há quanto tempo! Olha só, quanto você está ganhando?”

Hoje, na minha vez de ter quase tanto tempo de formado, vejo que o comentário do professor estava correto. A pergunta não é tão explícita assim, mas envolve de alguma forma status e comparações sociais.

Lembra bastante o “Gráfico do sucesso” abaixo. Para cada faixa de idade, existem as “conquistas” desejadas, e para a faixa da meia-idade, dinheiro e status social são destaque.

Porém, mais importante do que o “Gráfico do sucesso”, é o “Gráfico da felicidade”. É basicamente a mesma curva, porém ao contrário.

Ironicamente, somos mais felizes quanto mais jovens ou mais velhos, quando não temos expectativa de nada. Quanto mais conseguimos, mais infelizes somos.

Justamente o ponto mais baixo da felicidade é quando temos tudo de tudo: ainda jovem o suficiente, com família, economicamente ativo, já em posição madura em sua ocupação…

O desafio é fazer justamente o oposto do que todo mundo faz. Quando no auge do gráfico do sucesso, não buscar mais dinheiro ou status, e sim, desfrutar do que tem, aproveitar a família e amigos, ler e viajar (difícil atualmente), e, principalmente, dedicar esforços em alguma contribuição legal a deixar como legado para as pessoas, seja um blog com ideias espertas, seja trabalho voluntário, ou alguma outra contribuição. Pelo menos, é assim que penso.

Trilha sonora: The Beatles – Money

Veja também:

Aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor do estatuto

Nos meus tempos de engenheiro da Aeronáutica, conheci um tiozinho cujo lema era

“Aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor do estatuto”.

Ele era uma espécie de office boy, e, para tudo o que a gente pedia, ele repetia a frase acima. O sentido que ele queria dar era de que éramos amigos. Ou talvez querendo cobrar o favor futuramente, sendo que nem favor era, era o trabalho dele.

Eu sempre odiei essa frase, supostamente atribuída a Getúlio Vargas. Na minha visão do mundo, talvez draconiana demais, todos deveriam seguir o estatuto, amigos ou não. Talvez seja até o contrário, os amigos é que deveriam dar o exemplo. Ao invés de cortar a fila, entrar no final dela, como todo mundo.

“Aos amigos e aos inimigos, igualmente o rigor do estatuto”, seria uma frase melhor.

Se a lei estiver irreal, que se mudem a lei, ao invés de gerenciar com base na exceção aos amigos.

Em países europeus e de primeiro mundo, isso é bem mais evidente. Se a bilheteria do trem fecha as 18h, não adianta chegar lá 18:01h e pedir para comprar, dar um jeitinho. Já era. Ponto final. A contrapartida é que a bilheteria vai estar aberta até as 18h, não vai fechar 17:30h porque o atendente quer sair mais cedo.

É até ingenuidade pensar assim, estando no país do jeitinho brasileiro, onde o bom é ser malandro e quem é certinho é bobo. Aqui, temos dois pesos, duas medidas. A lei que vale para um, não vale para outro. Se a pessoa tiver influência suficiente, pode até mudar as leis para se beneficiar. Estamos no país onde até o passado é incerto.

“As leis são como as teias de aranha que apanham os pequenos insetos e são rasgadas pelos grandes.” Sólon, legislador ateniense.

Felizmente, até hoje, quase 20 anos depois, nunca precisei lançar mão de “amizade” para cortar caminho. Talvez por sorte, talvez por não estar em situação que obrigue tal artifício.

Por fim, tenho que agradecer por isso, por existirem muitas pessoas corretas e processos que funcionam.

Veja também:

A apologia de Sócrates

Recomendação de leitura: A apologia de Sócrates.

É um texto conciso e bastante intrigante, sobre o julgamento do filósofo grego Sócrates. Acusado por seus inimigos políticos de corromper a juventude de Atenas, o texto baseia-se nos discursos de sua apologia (defesa) diante da assembleia popular da cidade.

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Uma das histórias mais famosas sobre o filósofo é contada no início do texto.

Querefonte, amigo de Sócrates, foi ao Oráculo de Delfos e perguntou quem era o homem mais sábio de todos. O Oráculo respondeu que era Sócrates.

Quando ele soube da resposta, pôs-se a refletir: “o que os deuses querem dizer com isso? Não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco”.

O filósofo foi se encontrar com outros que se passavam por sábios. “Submeti a exame essa pessoa, era um político. Eis atenienses, a impressão que ficou do exame. Ele se passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Pus-me, então a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. O resultado foi tornar-me odiado dele e de muitos dos presentes”.

Sócrates repetiu a busca com outros políticos, poetas e filósofos, sempre com a mesma conclusão: eles achavam saber de alguma coisa, mas nada sabiam. Já Sócrates, por saber que nada sabia, era um pouco mais sábio que eles.

“Me perguntei a mim mesmo, em nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem a sabedoria deles nem a sua ignorância, ou possuir, como eles, uma e outra; e respondi que me convinha ser como sou”.

Finalmente, ele interpretou a resposta do oráculo. No final das contas, a sabedoria humana tem pouco ou nenhum valor, e o nome de Sócrates como o mais sábio era apenas para pontuar isso, já que ele era único que tinha compreendido o fato.

O resto do texto continua com os argumentos de Sócrates, mas o julgamento não foi positivo. Condenado à morte em 399 a.C., Sócrates toma a cicuta (um veneno poderoso) e põe fim à própria vida, da forma com que sempre viveu: defendendo os seus ideais.

Outras frases famosas de Sócrates:

“Tudo o que sei é que nada sei”

“A vida não refletida não vale a pena ser vivida”

“Não valorize a vida, e sim, a vida bem vivida”

“O verdadeiro conhecimento vem de dentro”

“Conhece-te a ti mesmo”

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/12/14/o-anel-de-giges/

https://ideiasesquecidas.com/resumos/