O Daruma

O Daruma é um boneco redondo, comum na cultura japonesa.

O boneco vem com os olhos em branco. A tradição diz o seguinte: faça um desejo, e pinte um dos olhos do Daruma.

Pinte o segundo olho somente após o desejo se realizar…

Na vida real, o Bodhidharma foi um monge budista que viveu entre os séculos V e VI, na China. Diz a lenda que ele ficou 9 anos meditando com todas as suas forças, em frente a uma parede branca. Ele ficou tanto tempo imóvel que os braços e pernas apodreceram, daí o boneco ser assim: sério, bravo, sem pernas nem braços.

E o significado de pintar o olho do Daruma é o seguinte: não basta fazer um desejo e ficar esperando, é necessário correr atrás, buscar atingir esta meta com muita seriedade e trabalho, com tanto empenho quanto o Bodhidharma original. Pintar o olho do boneco é mais um compromisso do que uma superstição.

Uma dica é deixar o Daruma caolho na sua mesa de trabalho, eternamente olhando para você, relembrando-o do compromisso de pintar o segundo olho…

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia.

https://ideiasesquecidas.com/

Bônus: música infantil Daruma-san

A classe dos inúteis veio para ficar

Viajo frequentemente ao Paraná, a trabalho. É impressionante a riqueza do agronegócio na região: quilômetros sem fim de plantações de soja, milho, cana, à direita da estrada, à esquerda, ocupando cada metro quadrado útil da fértil terra roxa da região. 

O mesmo ocorre no interior paulista e em muitos outros lugares do Brasil, com outras culturas e a pecuária.

Fico imaginando quantas pessoas seriam necessárias para fazer a colheita de uma área tão imensa, do jeito antigo: debaixo do sol, com um facão, cortando cada plantinha e transportando com a ajuda de animais.

Por outro lado, basta uma volta pelo centro de uma grande cidade como São Paulo, para encontrar uma dezena de pedintes e pessoas subempregadas. Dentro do metrô, um vendedor ambulante quer empurrar um suporte de celular, minutos depois, outro ambulante vende balas. Pessoas pedindo dinheiro nas ruas, um senhor pedindo verba para comprar remédios, outro com panos de prato no semáforo, um artista de rua tocando música e pedindo trocados.

A humanidade evoluiu exponencialmente. A agricultura surgiu há cerca de 10 mil anos, o que permitiu o surgimento de grandes sociedades, em detrimento dos caçadores-coletores. A força dos animais domésticos ajudou tremendamente nesta etapa. Grandes civilizações (como Egito, Mesopotâmia, China antiga), são conhecidas há uns 5 mil anos. A revolução industrial tem cerca de 200 anos, utilizando a energia do carvão e outros combustíveis fósseis. A eletricidade tem uns 100 anos, possibilitando o surgimento de eletrodomésticos e outros aparelhos úteis na nossa vida – alguns estimam que cada um de nós tem o equivalente a 100 escravos à nossa disposição. O computador pessoal tem uns 30 anos, fazendo com que o nosso próprio cérebro seja expandido.

À medida em que a evolução ocorreu, o trabalho foi migrando da agricultura para a indústria, e depois para os serviços. Não eram mais necessárias tantas pessoas para fazer a colheita. E nem para produzir guarda-chuvas em massa – economicamente, faz mais sentido serem produzidos em larga escala na China, e transportados para cá em enormes navios de carga.

Hoje em dia, nem os serviços são mais necessários – com a automação dos serviços, não precisamos mais de atendentes, telefonistas, vendedores de enciclopédias, corretores de seguros, bancas de jornais, jornais impressos, e, num futuro próximo, nem de motoristas de carro e de caminhões.

Para competir no mundo atual, é necessário saber mais do que os algoritmos, é preciso ser capaz de executar tarefas em alto nível, agregando muito valor na cadeia.

Esta situação cria uma nova classe de pessoas, que o escritor israelense Yuval Harari define como “a classe dos inúteis”. Ele escreveu um pouco sobre o tema nos livros “Sapiens” e “Homo Deus”, e no artigo que consta no link ao final deste artigo.

A classe dos inúteis não é somente de pessoas desempregadas, vai além disso: são pessoas não-empregáveis, sem as mínimas condições de serem mais produtivas que as máquinas e os algoritmos.

Harari coloca alguns cenários a respeito. Seriam pessoas sustentadas por alguma espécie de renda mínima universal, um super-bolsa-família. Ele também coloca uma data como referência, 2050, onde já teremos um desenvolvimento intensivo de IA.

O que fazer com alguém que fica o dia inteiro sem ter o que fazer? A frustração dela pode causar intensos problemas sociais. Ser desnecessário é muito, muito pior do que ser explorado.

Uma possível solução é algo equivalente a um jogo de realidade virtual. Ele cita a religião como um jogo desses, uma fuga da realidade. A pessoa ganha pontos se rezar todos os dias e cumprir todos os ritos (e estes devem ser difíceis, como jejuar, não comer porco, rezar várias vezes ao dia), se ela não conseguir ganhar pontos, fica para trás.

Não há regra alguma na natureza que diga que comer porco é ruim, ou que é necessário rezar. Aqueles que conseguem muitos pontos ganham o jogo e vão para a próxima fase, ou para o paraíso na vida seguinte…

Harari também cita o consumismo como um jogo desses. Aquele que tem o melhor carro, a melhor casa, posta um monte de fotos de viagem no Facebook, ganha mais pontos do que quem não o faz. Ganha o jogo, mesmo que o ser humano não precise tirar uma foto na Torre Eiffel para provar para os outros que é feliz.

Ocupar as pessoas com jogos inúteis parece terrível, mas é o que a humanidade tem feito há milhares de anos, conclui o pensador.

O antigo desenho dos Jetsons sempre tinha uma cena onde o pai, George Jetson, ia trabalhar. Ele simplesmente apertava um botão e descansava, o trabalho era moleza. Talvez essa seja outra solução, pagar as pessoas para ficarem o dia todo na empresa olhando as máquinas trabalharem!

Eu não sei o que será do futuro, nem se este será tão distópico quanto cita Harari, mas sei que a classe de inúteis já existe nos dias de hoje, infelizmente. E tende a piorar em um futuro não tão distante, com o desenvolvimento de algoritmos cada vez mais poderosos.

Trilha sonora: A gente somos inútil.

Links:

https://www.theguardian.com/technology/2017/may/08/virtual-reality-religion-robots-sapiens-book

https://www.terra.com.br/noticias/dino/em-30-anos-mundo-devera-conhecer-a-classe-dos-inuteis,6aac9cf35ddd17e8b5c6dee22d80158154rtm6dm.html

O que é sucesso (meme)

Recebi este gráfico pelo Whatsapp, e achei interessante.

De certa forma, é o complemento do gráfico da felicidade, do link.

Isto me lembra uma piada que ouvi um dia: quando somos adolescentes, temos tempo e energia mas não temos dinheiro, quando adultos, temos energia e dinheiro, mas não temos tempo, quando idosos, temos tempo e dinheiro, mas não temos energia!

O mundo é regido pelos fracos

Como uma introdução ao pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche, gosto desta aula do prof. Clóvis de Barros Filho.

Pinçando alguns comentários, mas claramente a aula é muito mais poderosa na forma, no conteúdo e no humor.

O mundo é regido pelos fracos, pelas forças reativas.

Deus é o universal saciador, aquele que recompensará todas as mazelas do mundo. Quanto pior aqui neste mundo, melhor no próximo.

“Mais fácil um camelo passar no buraco da agulha do que um rico entrar no céu” é um pensamento para aqueles que não se dão bem neste mundo – porque quem se dá bem não está nem aí com isso.

Como quase todo mundo se ferra, quase todo mundo se volta a este pensamento transcendental.

As pessoas sempre falaram em Deus, isto não é prova de que Deus existe, e sim que as pessoas sempre foram tristes.

Quem é forte no mundo da vida não precisa desta ajuda transcendental. Não a vida ascética de virgens no céu, mas a vida aqui, neste mundo.

Forte ativa é a que age, e reativa é a que se contrapõe à ativa.

Ex. O caso Sócrates. Sócrates é o baixinho, corcunda, feio, que fica criticando os sofistas.

A vitória é das forças reativas, porque há um número maior destes. A força ativa é o tesão, gigantes geniais, contra as forças reativas, um monte de “cagadinhos” – um exemplo da vitória deles é a democracia.

Navegadores antigos

Transcrevendo abaixo um dos poemas que mais gosto, “Navegar é preciso”, de Fernando Pessoa.

Este também é mais ou menos o meu lema de vida: viver não é necessário; o que é necessário é criar… e quero criar obras que impactem positivamente a vida das pessoas, em nível nacional.

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Nota :
“Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra

O gráfico da felicidade

O gráfico a seguir retrata a “crise da meia-idade”. É como um “U”: grande bem-estar quando criança, declinando até uns 40-50 anos, onde atinge o mínimo, e voltando a crescer a seguir.

Este gráfico é suportado por várias pesquisas e estudos. Porém, gosto mais da minha interpretação.

Quando criança, somos 100% expectativa e 0% realidade. Temos toda a liberdade do mundo para sonhar, sem compromisso algum, com toda a vida pela frente.

À medida que envelhecemos, a dura realidade vai tomando o lugar da doce esperança: faculdade, casamento, casa própria, boletos, mercado de trabalho, filhos.

Mais ou menos na meia-idade, nos damos conta que poucos dos sonhos se tornaram realidade, e não temos mais tempo para grandes novos sonhos…

Porém, a partir deste ponto mínimo, a percepção muda de novo. O negócio é aproveitar a vida, da forma que ela é. O que vier é lucro.

O grande filósofo alemão Nietzsche chamaria isto de “Amor Fati”: amor ao destino, a aceitação integral da vida.

Trilha sonora: In my life – The Beatles

Alguns links:

Quando – Daniel Pink

https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_fati

O tapa na cara e Hans Rosling

Recebi o maior tapa na cara dos últimos anos. Este foi dado por Hans Rosling, médico sueco, em seu livro Factulness.

Uma tradução literal seria “cheio de fatos”. Utilizar dados e números concretos para tirar conclusões. Óbvio? Sim. Porém, não o fazemos.

Ele começa o livro com alguns testes, do tipo “onde a maioria da população vive, em países de alta, média ou baixa renda”? Minha resposta intuitiva: Baixa renda. Resposta correta: renda Média.

Outro exemplo, qual a porcentagem de crianças de um ano que tomaram alguma vacina no mundo? A resposta é 80%, ao invés do meu chute de 50%.

Eu não sou o único a errar. Os estudantes de medicina dele também erraram. O público do TED talks (onde ele é conhecido pelo gráfico de bolhas dinâmico) também errou. O pessoal do Fórum Econômico também errou. Na verdade, as pessoas têm um viés de considerar o mundo pior do que realmente é.

Chimpanzés acertariam mais do que seres humanos, porque a resposta do chimpanzé é totalmente aleatória, e a nossa é viesada.

Do que estamos reclamando?

Rosling divide o mundo em 4 níveis, de acordo com o gráfico a seguir.

Para quem está no nível 1, ou mesmo no nível 2, um dólar a mais faz uma diferença absurdamente grande, pode ser a diferença entre almoçar ou não.

Todos que estão lendo este texto estão no nível 4, confortáveis atrás da tela de um computador, com água encanada, luz, possibilidade de estudar e trabalhar em alto nível. O mundo todo começou no nível 1, e, ao longo da história, o padrão de vida vem melhorando.

Separei algumas dicas simples para termos uma visão menos viesada do mundo.

– Dados para comparar. Ao invés de olhar apenas para o número absoluto, comparar com outros números que possam fazer sentido na análise.

– Dividir um pelo outro. Saber o número per capita pode fazer muita diferença na análise e na tomada de decisão.

– Importância dos dados. Muitas vezes, os próprios dados não existem ou não são confiáveis. Sem a medida, não é possível analisar. Ex. Rosling conta que a Suécia passou a publicar dados trimestrais sobre emissão de CO2 após sua insistência. Antes disso, eram bienais.

Um exemplo. Ajudar os pobres vai fazer com que estes gerem filhos mais pobres ainda? Não é esse o ponto. O que se vê é exatamente o oposto. Com a melhora das condições das pessoas, as famílias têm cada vez menos filhos, cada um desses com possibilidade muito maior de sobrevivência e tendência a melhorar o padrão de vida a cada geração.

Hans póstumo

De alguma forma, notei que ele escreveu de forma simples e apaixonada. Não escreveu pela fama, ou para impressionar outros acadêmicos (há muitos livros assim), mas com o genuíno interesse de mostrar a sua visão e tentar mudar o mundo para melhor.

No final do livro, fico sabendo o motivo. Hans foi diagnosticado com câncer, com poucos meses de vida. O livro foi uma corrida contra o tempo, a sua prioridade total para deixar o seu legado, a sua mensagem otimista ao mundo.

E qual o seu legado?

Ficha: Hans Rosling, Suécia, 1948 – 2017. Médico e especialista em dados.