As pessoas são covardes, egoístas e feias

Só que não. As pessoas são corajosas, altruístas e belas.

  

Li alguns artigos recentemente, destacando cientificamente que as pessoas são covardes. Mais ou menos assim, o erro de um falso positivo é pequeno, apenas um susto: se o homem das cavernas confunde uma tartaruga com um tigre, não tem muito problema. Mas um erro de um falso negativo é enorme: se o o mesmo confunde um tigre com uma tartaruga, já era, não vai deixar os seus genes para a geração seguinte.
 

 

Outro artigo dizia que as pessoas eram egoístas primeiro, para depois, se sobrar algo, pensar em altruísmo. Quem fosse muito altruísta acabava sem comida, e tchau para os seus genes bonzinhos. O autor tinha feito um grande estudo estatístico mostrando isto.

 
 

Ora, do ponto de vista evolutivo, coisa e tal, pode até fazer sentido. Na prática, também, acho complicado confiar 100% que as pessoas sempre vão ajudar. Do ponto de vista pragmático, tenho que me defender, até certo ponto.

 
 

Entretanto, ter uma postura assim não ajuda em nada. Se um pessoa considera o mundo covarde e feio, o mundo realmente será covarde e feio para ela.
 

A partir de um certo ponto, devemos adotar a postura de que as pessoas são corajosas, altruístas, belas e sempre irão ajudar. Não tenho estudo científico nenhum, zero dados estatísticos comprovando que o altruísmos e a coragem são bons.
Tenho apenas um sentimento: a Esperança.

Por que dou esmolas?

Até os 30 anos de idade, nunca dei um centavo de esmola.

 

Moro em São Paulo e já morei no Rio de Janeiro. Nestas grandes metrópoles, o que mais se vê são pedintes: na rua, no trânsito, no ônibus, no metrô.

 

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Às vezes, dava pena. Um dia vi uma mulher de algum país latino com três filhos pequenos, próximo a uma feira-livre. Outro dia, um homem bem asseado parecia não estar mentindo quando pediu ajuda no metrô, para ele conseguir pegar um ônibus para casa – dizia que tinha sido roubado e esta era uma ajuda pontual. Mas eu mantinha a minha firme convicção de não dar esmolas.

 

Me perguntei de onde vinha tanta convicção. Era uma justificativa moral. Desde quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia: “nunca dê esmolas”. “É ruim dar esmolas, porque acostuma o mendigo”. Esta mensagem, repetida à exaustão por inúmeros anos, era a minha base moral.

 

O interessante é que, para ratificar tal regra, juntei outras regras que surgiam. No metrô de SP, de tempos em tempos o alto-falante anuncia: “Não dê esmolas no metrô. Doe para uma instituição de caridade”. Além disso, vira e mexe algum especialista conta na TV alguma história de pessoas que não aceitam ajuda de instuições porque preferem ficar nas ruas, perpetuando o ciclo.

 

“Não darás esmolas” era uma regra moral no sentido de ser um tabela de condutas a serem seguidas, do que é certo ou errado. E era o metrô que dizia para não dar esmolas e eu só seguia as ordens, justificando que, no fundo, isto era melhor para o pedinte…

 

Contudo, com o passar do tempo, passei a questionar a moral vigente até então.

 

Qual o problema em dar esmolas? É claro que se o mendigo gastar em bebidas alcoólicas ou drogas, é ruim para todo mundo. Mas, e num caso em que a pessoa parece ser idônea? E se, a mãe fugiu do interior do Peru com três filhos e veio parar em São Paulo?

 

Doar para uma instituição de caridade é muito indireto, talvez a ajuda nunca chegue para a pessoa que precisa, da forma que precisa.

 
Não acho que haja uma regra absoluta, que valha para todos os casos, “Nunca doe” ou “Sempre doe”.

Passei a dar um pouquinho de esmolas, de pouco em pouco. No início, parecia que eu estava quebrando alguma regra, me tornando um “vilão moral”. Era um conflito entre convicções passadas e reflexões presentes. Eu tinha que trocar a tabela da verdade moral que me guiara por décadas. Apagar o mandamento antigo, “Não darás esmolas”, e escrever outro, “Darás esmolas sim”.

 

Das primeiras esmolas, percebi o seguinte. Para mim, felizmente, não faz a menor falta ter um ou dois reais a menos no bolso. Tive a sorte e condições de ter uma formação educacional forte e bons trabalhos em excelentes empresas. Entretanto, para quem não tem nada, um real pode significar muito: um lanche melhor, um suco, um pouco mais de conforto. Quem não tem nada está num ciclo vicioso de não ter qualificação e não ter potencial de empregabilidade, dificultando mais ainda a fuga deste ciclo. Como ensinar a pescar amanhã, se ele não tem como sobreviver hoje?

 

Minha nova regra é: dou o que tiver de moedas e notas pequenas, se a pessoa parecer ter um mínimo de idoneidade. Às vezes, também faço doações maiores para alguma instituição ou causa em que acredito. Dar esmolas não exclui contribuições para instituições de caridade, e vice-versa.

 

Não sei o que é certo ou errado, não tenho onisciência para saber se este ato vai ajudar ou prejudicar o pedinte. Não há certo e errado absolutos, e ninguém é onisciente. Portanto, sigo as minhas convicções.

 

Fiquei muito aliviado em ter esta nova regra moral quando, esperando o ônibus num ponto, passou um velhinho de uns 80 anos vendendo um plástico de guardar crachá. Ele não era um pedinte. Tinha dificuldades em andar, e vestia roupas amarrotadas. Provavelmente era alguém sobrevivendo humildemente com uma parca aposentadoria, tentando ganhar alguns trocados a mais, após passar a vida toda trabalhando. Pela regra moral antiga, eu simplesmente não compraria o plástico de crachá, afinal, eu não estava precisando. Pela nova regra, comprei o tal plástico. O velhinho disse: “Muito obrigado, filho”.
Reflexão 

Dar esmolas é bom ou ruim?

Por que dar esmolas ou não?

O segredo para conseguir qualquer coisa

Descobri o segredo dos segredos para conseguir qualquer coisa. É o seguinte: o segredo é que não existe segredo algum. E que, mesmo fazendo tudo certo, pode dar tudo errado. Não há garantia para nada nesta vida.

 

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Primeiro, para conseguir algo, é necessário muito esforço. Muito trabalho duro, dedicação, fins de semana perdidos em prol do objetivo. Noites mal dormidas, horas e horas de empenho sem resultado aparente.

 

Também é necessário ter persistência. Continuar. Há picos de alta e vales de baixa. É o persistir nas dificuldades que faz a diferença. Continuar andando, devagar e sempre, como a tartaruga de Esopo.

 

Outra coisa necessária são os elos com outras pessoas – aliados, fornecedores, clientes, concorrentes, professores, empreendedores, operários. Obter feedback, novas ideias e sugestões para inovação, evoluir no passo do mercado.

 

Não menos importante é a crítica à realidade. Não aceitar opiniões só porque alguém se diz “especialista”. Filtrar as opiniões aderentes à realidade. Saber que tudo na vida tem prazo de validade. Aceitar a derrota quando perder, mas pensar numa forma de se reinventar. Dominar o timing do negócio.
 


Não são condições suficientes
 

Muito mais poderia ser dito, mas tudo isto são apenas condições necessárias. Não são condições suficientes. Ou seja, fazer tudo certo não garante o resultado, mas sem fazer os passos descritos, certamente não haverá resultado.
 
Qualquer um que vier com uma fórmula mágica, estará mentindo. Falsos gurus, falsos profetas, ídolos de pés de argila. Sempre haverá algum efeito colateral, algum custo oculto. Bancos cobram juros, a vida cobra a “taxa de desaforo” quando a verdade vier à tona. Não há atalhos.

 

Emagrecer comendo. Passar na prova sem estudar. Ganhar dinheiro sem trabalhar. Investir em avestruz ou boi ou num fundo que não quebra. Os 10 mandamentos para a felicidade. As 20 leis inquebráveis do sucesso. O amor de volta sem 3 dias. A fórmula mágica da bolsa de valores. Eleger o salvador da pátria que vai resolver todos os problemas: votar no PT para ele tirar dos ricos e dar para os pobres (arghh!).

 

O bom educador não diz o que aluno deve fazer, mas sim o ensina a pensar, orienta, coloca argumentos. A decisão é do aluno.
 

A verdadeira educação é a libertação. Remove as ervas daninhas, o entulho e os vermes que atacam os delicados ramos da planta. A verdadeira educação é leve calor e suave chuva. –  Friedrich Nietzsche, “Schopenhauer como educador”

 

Conclusão: Não há segredo.
 
O homem é livre, projeto de si mesmo, autor de seu destino, ele é inteiramente responsável por si mesmo. – Jean Paul Sartre, “Existencialismo é humanismo”

 


Bônus

 

Perante a Lei – um conto de Kafka
 

Um homem queria conhecer a Verdade. Perguntou a diversas pessoas onde poderia encontrá-la. Acabou chegando num portão, que ele deveria atravessar para conhecer a Verdade.
 
Um guarda, grande e forte, não permitiu a entrada do homem.
 
O homem tentou persuadi-lo, mas não obteve resultado. Tentou suborná-lo trazendo comidas e bebidas. O guarda aceitou, mas disse que só aceitaria para que ele se convencesse de que isto não adiantaria para nada.
 
Os anos foram passando, e o guarda continuava protegendo o portão.
 
Um pouco antes da morte do homem, ele perguntou ao guarda. “Durante todos esses anos, ninguém mais apareceu para entrar no portão da Verdade. Por quê?”
 
O guarda respondeu: “Porque este portão é somente seu”.
 
O homem perguntou: “Por que você guarda o portão e não me deixa entrar?”
 
O guarda respondeu: “Porque esta é a minha função”. Após a resposta, o homem morreu e o guarda fechou o portão.

 

​ Ter filhos é melhor do que viajar

Um dia, li um comentário do tipo: “viajar traz mais felicidade do que ter filhos”.

 
Não sei como um estudo assim foi feito. Medindo a quantidade de dinheiro acumulado entre quem tem ou não tem filhos? Como medir algo abstrato como “felicidade”?
 
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Permita-me discordar. Ter filhos é muito mais feliz do que viajar. Para mim é a própria felicidade. Não tem comparação.
 

Por quê?
 
Por que alguém dedicaria uma quantidade enorme de tempo, esforço e dinheiro para cuidar de uma outra pessoa? Uma pessoinha que não consegue falar, andar, fazer nada sozinha, e que vai depender de você por no mínimo uns 20 anos?
 
Este blog é muito lógico e racional. Fala sobre carros autônomos, dodecaedros mágicos, Aristóteles e Prêmios Nobel de Economia.
 
Mas, neste caso, não há explicação racional. A resposta é que o seu filho é simplesmente a coisinha mais linda que já apareceu neste mundo.
 
Realmente, dá um trabalhão. Vira a vida de cabeça para baixo, rearruma todas as prioridades, faz birra.
 
Mas ouvir aquele “papai!” ou “mamãe!” no fim do dia vale todo o esforço. Só quem é pai ou mãe consegue entender…
 
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Vencer x Ficar em primeiro

Vencer não significa necessariamente ficar em primeiro.

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Pode-se vencer, ficando em segundo, mas competindo de forma honrada.
Pode-se vencer, ficando em qualquer colocação, se o participante fez o melhor possível, colocou todas as suas energias nisto.
Pode-se vencer ficando em último, mas completando a prova.
Nem completar a prova, mas se desenvolvendo bastante neste caminho.

Ao contrário, ficar em primeiro pode não ser vencer.
Ficar em primeiro, prejudicando os demais, não é vencer.
Ficar em primeiro, contrariando a integridade moral e ética, não é vencer.
Ficar em primeiro, às custas de saúde, família e da vida não é vencer.

Meta é diferente de métrica.

Muita gente tem uma meta, mas a busca pela métrica errada.
Maior não é necessariamente melhor.

 

A Associação dos Burros Esforçados

Um burro esforçado

Hoje, no trabalho, um colega disse que eu era inteligente. Não concordei, disse que era um “burro esforçado”, embora bastante esforçado. E que era melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

Ele não entendeu nada, então estou escrevendo para explicar melhor a história.

No Instituto Tecnológico de Aeronáutica, onde fiz a graduação, existe a “Associação dos Burros Esforçados”.

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Segundo o estatuto da associação:

“Gloriosa associação daquelas infelizes criaturas de inteligência normal mas que, por se esforçarem muito, acabam passando no vestibular do ITA e tendo que conviver com os gênios da escola”.

Isto fica mais claro exemplificando o que significa “gênios da escola”.

  • Tinha um sujeito que era a perfeita definição de “sleep learning”. Chegava atrasado, dormia metade da aula. Mas, no pouco tempo em que estava acordado, apontava erros lógicos do professor e fazia perguntas não triviais. Mas isto só acontecia quando ele tirava a soneca. Quando prestava atenção na aula, não tinha ideias geniais.
  • Tinha um outro, que ficava o tempo todo jogando bola. Ou fazendo alguma outra atividade extra-curricular, como dar aulas no cursinho da cidade. Começava estudar para as provas provas meia-noite do dia anterior à mesma. E, como sempre, cravava o “L” habitual (nota máxima).
  • Tinha um que fazia a prova inteira de cabeça. Não escrevia uma linha. Só escrevia a resposta final. Até que, um dia, um professor implicou com ele, e ele passou a registrar no papel os passos intermediários de seu raciocínio, para o pobre professor entender o que se passava em sua cabeça privilegiada.

Mas nem todos era assim. Tinham as pessoas normais, que estudavam muito. Que estudavam todos os dias. Que liam a teoria, faziam os exercícios, reliam a teoria, à exaustão. Que levavam livros para casa no final de semana para estudar. Todo este trabalhão para tirar uma nota um pouco acima do mínimo necessário, e olha lá. A gloriosa “Associação dos Burros Esforçados” era para estas infelizes criaturas. Segue a página com uma explicação oficial sobre o assunto.

http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=ABE

Também tinha o burro preguiçoso, mas este em raros casos ia para frente.

E também tinha o gênio esforçado… aí, sai de baixo.


A lebre e a tartaruga

Mas, passados muitos e muitos anos, finalmente sinto que é melhor ser a Tartaruga do que a Lebre do conto de Esopo.

Isto ocorreu ao acompanhar uma aula do prof. Clóvis de Barros Filho, sobre Ética. Há várias disponíveis no youtube.

Na antiga Grécia, a ética aristotélica dizia que o melhor para o ser humano era atingir a Virtude. Ou seja, alguém de grande habilidade num determinado campo deveria atingir o seu máximo potencial, seja em música, em política, matemática, etc. Os pobres coitados que não tinham tal privilégio deveriam ajudar os iluminados a conseguirem atingir os seus objetivos. Isto significava que o lugar do escravo era como um escravo mesmo. O aristocrata era o aristocrata, não deveria fazer algo mundano como trabalhar.

Isto mudou com o pensamento de Imannuel Kant. Na moral kantiana, que é a visão moderna do mundo, cada ser humano deve se empenhar em fazer o melhor possível dentro de seus limites.

Barros compara alguns futebolistas. No São Paulo de uns anos atrás, havia o Paulo Henrique Ganso no meio-campo. Extremamente talentoso. Elegante no domínio da bola, e com passes primorosos. Cabeça erguida, grande visão de jogo. Genial. Mas preguiçoso. Ficava parado olhando a vida passar… Não corria, não marcava, nada. Era o talento sem esforço.

Já outro jogador, o Aloísio “Boi Bandido”, era grosso que só. Ruim de bola, talento zero, caneludo. Porém, corria atrás da bola sem parar, dava carrinho, ajudava na defesa depois corria para o ataque, azucrinava os adversários. O talento nulo compensado pelo esforço total.

Se fosse para o técnico Muricy Ramalho tirar alguém, ele tirava o Ganso. E, se fosse para a torcida idolatrar alguém, o “Boi Bandido” era o mais popular. O esforço predominava sobre o talento.

Esta é a vitória de Kant sobre Aristóteles.

E também porque é melhor ser um burro esforçado do que um gênio preguiçoso.

O Monte Everest de Sísifo

Vestibular

Há duas dezenas de anos atrás, estava eu a prestar vestibular. Como muitos que o fazem, eu tinha uma rotina focada nisto. Tinha aulas no cursinho de manhã, estudava um pouco mais à tarde, à noite fazia o 4o ano do curso técnico (não sei como é hoje, mas naquela época o segundo grau técnico tinha 4 anos). Aos sábados, tinha aulas o dia inteiro, focadas para um grupo com bom desempenho na parte de exatas. Acabou? Não. Aos domingos de manhã, era o dia dos simulados, provas sobre algum assunto específico ou simulando o vestibular de verdade.

Após tanto esforço, no fim do ano era a hora do vestibular….. Fiz as provas….. Passei! Tinha cumprido a minha missão. Mas e agora?


E agora?

A verdade é que fiquei os primeiros seis meses do ano seguinte, o da faculdade, bastante perdido. A rotina era diferente. Os métodos eram diferentes. E, principalmente, os objetivos eram diferentes. Demorei muito tempo até me encontrar novamente.

Antes eu tinha um objetivo claro (passar no vestibular), com um escopo precisamente delimitado (as matérias que caíam nas provas), uma forma precisa de apurar o resultado (ou passa ou não passa), um timeline (o fim do ano), sabia precisamente o que fazer, como fazer, e para qual objetivo: era seguir o script do cursinho. Depois do vestibular, o objetivo tinha zerado. Tinha que repensar de novo os objetivos, o escopo, conhecer as novas regras do jogo. E o mais aterrorizante. A vida real não tinha script pré-definido a seguir.

Por exemplo, no cursinho o material didático era muito bom. Havia exercícios bem mastigados. Então, eu ia direto nos exercícios, para aprender a teoria e ganhar tempo. Na faculdade, os livros tinham muita teoria e poucos exercícios. O meu vício em olhar só os exercícios não funcionava mais.
 
Outra: no cursinho a matéria era o que estava nos livros. Na faculdade, às vezes o professor indicava o livro texto, mas a matéria era o que ele dava em aula, baseado na experiência dele e em vários outros livros. Então, muitas vezes era importante ter a xerox de um caderno de alguém organizado. Não existia esse negócio de xerox de caderno no cursinho.

Vendo hoje em perspectiva, senti-me como Sísifo carregando a sua pedra.


A maldição de Sísifo
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Na lenda grega, Sísifo era um rei condenado a uma punição exemplar no inferno, por ter enganado Zeus. A punição de Sísifo era empurrar uma pedra enorme, montanha acima, com as mãos nuas. Após um esforço tremendo, quando a pedra estivesse muito próxima do cume da montanha, ela rolava morro abaixo, e Sísifo era obrigado a recomeçar todo o trabalho. Empurrar a pedra morro acima, só para vê-la rolar morro abaixo e recomeçar o ciclo, infinitamente.

O caso do vestibular foi um pouco diferente, já que não estamos no Inferno. Foi mais ou menos assim. Empurrei uma pedra enorme morro acima, e consegui chegar no cume da montanha. Mas, ao invés de encontrar a glória dos céus, o que encontrei foi outra montanha, muito maior, e uma pedra muito mais pesada a empurrar. Após a montanha chamada “Vestibular”, havia a montanha da “Graduação”. Esta, por sua vez, era dividida em 5 anos, ou 5 montanhas em sequência, cada montanha subdividida em matérias: “Cálculo”, “Álgebra Linear”, “Física”, etc.

Desde então, só tenho encontrado mais montanhas. Após a montanha da “Graduação”, outras montanhas como “Trabalho”, “Mudança de cidade”, “Pós graduação”, “Casamento”, “Outro trabalho”, “Primeiro filho”, e assim por diante.

Algumas vezes, a pedra rola morro abaixo, tendo que recomeçar tudo de novo. Outras vezes, a duras penas, algum morro é conquistado, só para descobrir que há muito mais montanhas após isto. Uma cadeia de montanhas, como um Monte Everest, com a diferença de que o Everest tem fim.

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Talvez muita gente se sinta assim também. Embora eu não tenha respostas, para mim algumas diretrizes fazem sentido.

  • Não há script pré-definido a seguir. O Monte Everest é diferente para cada pessoa. Cada um tem as suas próprias condições iniciais, suas próprias condições de contorno. Não tem como alguém criar um mapa do caminho e passar este mapa para outra pessoa.
  • Temos a liberdade de escolher qual o caminho a seguir, qual a montanha a atacar, mesmo podendo ter a infelicidade de não alcançá-la ou encontrar posteriormente um desfiladeiro inatingível.
  • Talvez a glória não esteja no topo da montanha. Nunca saberemos com certeza. Mas o que podemos fazer é desfrutar do caminho. Talvez a glória esteja no esforço de empurrar a pedra. Devemos nos orgulhar dos morros conquistados. Mesmo que a pedra venha a rolar morro abaixo, no final das contas.

Para quem tiver interesse, o grande escritor francês Albert Camus (1913 – 1960) explora várias ideias sobre o Mito de Sísifo e suas implicações.


Links

https://en.wikipedia.org/wiki/Sisyphus

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Myth_of_Sisyphus

 


 

Trilha sonora bônus:

Escrito ao som de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”

A melhor ferramenta

Da sabedoria do Tao Te Ching: “A melhor ferramenta é aquela que não faz nada.”

Isto porque, nas poucas vezes em que a ferramenta é utilizada, ela trabalha tão bem que não há a necessidade de a utilizar de novo tão cedo.
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Urgente, mas importante?
Nos dias de hoje, tem-se uma quantidade cada vez maior de necessidades urgentes. O telefone, com o seu toque estridente. O Whatsapp com o seu sininho. Receber e enviar e-mails 24h por dia, do computador, do celular, do relógio. Mensagens instantâneas. Atualizações do Facebook.
Urgente é diferente de importante. Urgente é o que urge, que necessita de resposta. Importante é o que realmente importa, que é relevante. O problema é que, muitas vezes, coisas importantes não são urgentes.
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Devemos fazer o que é importante, e ignorar o que não é (mesmo sendo urgente). Assim como o caso da ferramenta do Tao, o melhor não é estar ocupado 24h, mas estar ocupado com o que é importante, somente pelo tempo necessário.
Pela distribuição Pareto dos fatores econômicos do mundo, 80% dos whatsapps, e-mails, noticiários da TV, não servem para absolutamente nada. Não são importantes. Não é importante saber o que o seu primo distante está almoçando pelo Facebook. Ou responder um whatsapp com piadinha. Entretanto, muita gente deixa o que é importante, para responder algo urgente. E, de urgente em urgente, deixamos de lado o que é importante: estudar, cuidar da família, trabalhar num projeto de longo prazo, etc.

Citações do Tao
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Por isso o sábio se preocupa

com as profundezas e não com a superfície,
com a fruta e não com a flor.
Ele não tem desejos próprios.
Ele habita na realidade
e esquece todas as ilusões.
Encha sua tijela até a borda
e ela transbordará.
Continue a afiar sua faca
e ela ficará cega.
Persiga o dinheiro e a segurança
e seu coração nunca relaxará.
Preocupe-se com a aprovação dos outros
e você será prisoneiro deles.
Faça o seu trabalho, depois se afaste dele.
Esse é o único caminho para a serenidade.
O Mestre não tenta ser poderoso;
assim ele é realmente poderoso.
O homem comum segue perseguindo o poder;
assim ele nunca tem o bastante.
O sábio não faz nada
mas não deixa nada inacabado.
O homem comum está sempre fazendo coisas
e mesmo assim, muito mais são deixadas por fazer.
O homem bom faz alguma coisa
mas algo fica por fazer.
O homem justo faz alguma coisa
e deixa muitas coisas por fazer.
O homem moralista faz alguma coisa
e quando ninguém obedece,
ele ergue seu escudo e usa a força.
Aja sem fazer;
trabalhe sem esforço.
Pense no pequeno como grande
e no pouco como muito.
Enfrente o difícil
enquanto ele ainda é fácil,
realize uma grande tarefa
com uma série de pequenos atos.

Aristóteles inventou a Internet e o iPhone?

Como alguém que viveu no século 3 a.C. pode influenciar a nossa vida, em plena era de iPhones, internet, computação na nuvem, inteligência artificial?

Em post anterior, comentei sobre a influência do confucionismo nos costumes, tradições e no comportamento dos japoneses, chineses e coreanos. Sem eles nem saberem, seguem muitas ideias oriundas de tempos atrás.

E no ocidente, há alguma mente poderosa que tenha influenciado fortemente a modelagem de nossos pensamentos?

Certamente, muitos nomes influenciaram fortemente a cultura ocidental. Mas um, em particular, é tema de estudos faz dois mil anos, e uma quantidade impressionante de ideias encontram raízes nele: o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.).

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Isto é tão profundo que nem sabemos desta influência, e tomamos algumas de nossas atitudes como óbvias.

Aristóteles é o meu ídolo. Ele era um grande polímata (do grego “aprendeu muito”). Escreveu sobre diversas áreas do conhecimento, com grande profundidade: lógica, política, ética, retórica. Fundou os ramos da zoologia e botânica, física e metafísica. Ele foi o Google do mundo ocidental por uns 2 mil anos.

 


Lógica
Aristóteles foi o primeiro a sistematizar o conceito de lógica. Separar os componentes, definir hipóteses e conclusões. Definir negações, contradições.

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A lógica dominante por vários milênios da história foi a lógica aristotélica. Demorou 2 mil anos até pensadores modernos preencherem as lacunas da lógica apresentada por Aristóteles.
Hoje em dia, naturalmente pensamos de forma lógica, parece até óbvio.
Mas não é óbvio. Há várias formas possíveis de se responder a uma pergunta. Seja uma pergunta ilustrativa como “Por que carregamos um guarda-chuva?”

A resposta poderia ser totalmente baseada em misticismo: Deus quis que chovesse, e que carregássemos guarda-chuva, portanto é assim e pronto.

Poderia ser baseada em tradição: sempre carregamos guarda-chuva porque nossos avós nos ensinaram assim. Não posso desrespeitar os ancestrais.

Poderia ser ditatorial: o grande líder quer assim, acate quem tiver juízo.

Poderia não ter resposta: carrego o guarda-chuva porque quero, e não sei nem quero saber sobre as razões disto.

Questionar e ser convencido após um argumento lógico está na essência do nosso modo de pensar. Imagine um tema polêmico, como a reforma na previdência. Ninguém no ocidente aceita uma resposta do tipo “Deus (Alá, Shiva, Tupã, etc) quis assim”, ou “sempre foi assim com nossos ancestrais”, “nosso querido líder King Jong Un quer assim”, ou “não sei a resposta”. Entretanto, em vários lugares do mundo respostas deste tipo são válidas e convincentes, no contexto apresentado.


Divisão, classificação, sistematização
Aristóteles era genial em pegar o conhecimento e dividir, classificar, dar nomes e analisar.
Aplicou este método em diversos temas, Ética, Felicidade, Política, Retórica, Dialética, Física, Filosofia, Poesia. O seu enfoque era sempre muito prático, realista, ao contrário do idealista Platão.

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As artes, para ele, não deveriam ser apenas algo bonito. Deveriam também ser úteis. Portanto, antecipou o conceito de design do Steve Jobs em mais de 2 mil anos.

 

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Categorizou e analisou minuciosamente os animais, criando a zoologia. Fez os mesmo com as plantas, criando a botânica. Inventou a taxonomia, método sistemático (e lógico) de classificação.

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Questionar, dividir, classificar e aplicar a lógica para chegar à conclusões, são a base primordial da ciência.


A Ciência 

O grande mérito de Aristóteles nem foi o que ele criou, mas o como criou. Ele foi o bisavô do método científico: tentar encontrar a explicação lógica dos fatos. Dividir, classificar, analisar as causas e efeitos.

Aplicando a ciência, o ocidente conseguiu progressos gigantescos, como a revolução das ideias da época do Iluminismo, e a Revolução Industrial. A partir daí, não paramos mais, chegando à revolução da Informação dos tempos atuais, aos iPhones, computação em nuvem, inteligência artificial.

 


Influente até demais

Um dos problemas que surgiram é que Aristóteles escreveu tanto sobre tudo, que ele passou a ser a referência máxima e a palavra final por milhares de anos, até a Idade Média.

Se o grande Aristóteles dizia que o Sol girava em torno da Terra, quem era esse tal de Galileu para dizer que era a Terra que girava em torno do Sol?

Lembro de um filme sombrio, o “Nome da Rosa” do autor Umberto Eco. Este se passa na Idade Média, e o enredo gira em torno de um livro de Aristóteles que estava envenenado…

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Felizmente, a Idade Média passou. Os ideais clássicos gregos originais (sem veneno) foram resgatados no Iluminismo, e a humanidade seguiu o seu curso.


Conclusão

Aristóteles foi o primeiro a escrever sobre vários temas. Ser o primeiro, sair do zero para o um, é muito mais difícil que partir do um e ir para dois. Criou a lógica e a ciência. E utilizamos este framework mental até hoje.

Não que Aristóteles tenha inventado a Internet e o iPhone. Mas se Aristóteles não tivesse existido, talvez toda a tecnologia que temos hoje estivesse a séculos de ser inventada ou talvez nunca surgisse… e ninguém estaria tendo o prazer de ler este texto 🙂 .
Este é o poder das ideias e dos ciclos virtuosos gerando outras boas ideias.

 


Links:

 

Aristóteles – Máquina de pensar

 

https://explorable.com/aristotles-zoologyhttp://www.oldandsold.com/articles31n/herbals-2.shtmlhttp://davesgarden.com/guides/articles/view/2051/

​A Guerra Santa do EBITDA

Onde está o livre arbítrio?

Adolfo foi um pai de família comum, casado, com quatro filhos. Por muito tempo, sua rotina foi acordar às seis, ir trabalhar numa fábrica e retornar à noite para brincar com os filhos.

Adolfo foi uma boa pessoa, correto?

Errado. Adolph Eichmann foi dos piores criminosos de guerra nazista. Ele foi responsável pela solução definitiva da questão judaica (ou seja, execução dos mesmos). Ele administrava a logística de deportação de judeus para guetos e campos de extermínio, na Alemanha da Segunda Grande Guerra.

A filósofa Hanna Arendt estudou a fundo o julgamento dos crimes de guerra de Eichmann, e concluiu que ele não parecia o monstro que todos esperavam. Ele parecia uma pessoa comum.

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Para a sua defesa, Eichmann dizia que estava apenas cumprindo ordens. Ele fazia aquilo que era esperado dele, e fazia com muito empenho. E isto era exatamente o mesmo que todos os outros à sua volta faziam. Vide post.

Reflexão 1: Como ele foi capaz de seguir ordens cegamente, sem levar em conta o crime praticado? Ele não poderia dizer “Não” e fugir para outro país?

E cadê o livre arbítrio dele?

 


 

Decisões e tabelas de mandamentos

Para filósofos existencialistas como Jean Paul Sartre (1905-1980), não existem regras fixas para guiar o nosso comportamento na vida. Somos nós mesmos os responsáveis pelas nossas decisões e, principalmente, pelas consequências delas.

O mundo é complexo, cheio de valores conflitantes. Tomar uma decisão “A” significa que decisões “B” e “C” não serão tomadas.

Tomar decisões e assumir responsabilidades é difícil. É muito mais simples ter uma “Tábua da Verdade”, uma “Tabela de Mandamentos”, e apenas seguir o que está escrito.

É muito mais fácil ter alguém que dita o que é certo e o que é errado: faça tudo o que está na coluna “certo”, e condene o que está na coluna “errado”.

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Religiosos radicais extremistas seguem a sua tabela de mandamentos particular. Pela sua lógica própria, amarrar bombas ao corpo e explodir os inimigos faz total sentido, é até um ato de heroísmo.

Criticamos o homem-bomba: “Mas que tolo! Ele não vê que é burrice se explodir por uma causa imaginária como esta? Ele não tem noção do sofrimento que vem causando?”

Reflexão 2: Parece ruim seguir uma Tabela de Mandamentos sem questionar. Mas será que somos tão diferentes assim de um homem-bomba, ou de um Adolph Eichmann?

 


 

EBITDA, EBITDA, EBITDA

Muitos executivos, de todos os níveis gerenciais, seguem à risca a Tabela de Mandamentos do EBITDA, – ou seja, obter lucro, resultado, EBITDA acima do orçamento. Trabalhar mais para atingir o EBITDA. Apertar fornecedores para fechar bem o mês. Cortar custos das mais diversas formas possíveis, seja demitindo funcionários, seja postergando projetos. Deixar de tomar precauções, ou seja, assumir mais riscos. Deve-se fazer o impossível para chegar no EBITDA. O objetivo é o EBITDA, a justificativa de tudo é o EBITDA.

 

Mas, e os impactos econômicos dessas decisões no longo prazo? E os impactos ambientais? E os impactos sociais?

Estes impactos são imensuráveis, impossíveis de medir. E normalmente são externalidades negativas: não entram na conta da empresa, mas entram na conta do mundo, da sociedade, de todos.

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Reflexão 3: Será que às vezes não nos cabe dizer “não”?

Será que não temos o livre arbítrio de tomar hoje a decisão mais saudável para o longo prazo (que um dia vai chegar) e pensando no global (que somos todos nós, incluindo aqueles que ainda vão nascer)?

Algum dia, quando desequilíbrios econômicos, sociais e naturais estiverem fora de controle, nossos descendentes talvez digam:

“Que tolas essas pessoas do século XXI! Elas não viam que era burrice
destruir o mundo por uma causa imaginária como o EBIDTA? Eles não tem noção do sofrimento que causaram?”

Mas o EBITDA do mês está garantido…

Plano de ação imediato: Dizer “Não” quando for necessário defender o longo prazo ou sustentar ganhos globais.

 

 

 

Escrito ao som de “The times they are a-changing”, Bob Dylan.

Nomes: criação e destruição

“O Mar da cor vinho-escuro” é a frase usada por Homero,  na Odisseia, há cerca de 2800 anos. Por que ele não usou “mar azul escuro”? Porque a cor azul não existia.

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Esclarecendo a afirmação acima.

Em 1858, um acadêmico chamado William Gladstone notou que esta não era a única referência estranha a cores. Ferro e ovelhas eram violetas, mel era verde.

Gladstone decidiu contar as referências a cores. Preto é mencionado umas 200 vezes, e branco, umas 100. Mas não tinha azul. Ele procurou em outros textos gregos, mas não encontrou. A palavra “azul” não existia.

 

O que acontece é que eles não tinham um nome para a cor azul. E, por isso, tinham que descrever o mar azul, que viam no mar à frente de seus olhos, de outras formas.

 


 

O poder dos nomes

Nomes criam a realidade, à medida em que focam a atenção das pessoas para alguma coisa, padronizam um conceito.

Todas as pessoas têm um nome, todas as empresas têm um nome. Um ovelha sem nome é uma ovelha qualquer dentre tantas outras, a ovelha “Dolly” é única.

Uma ideia qualquer é apenas uma ideia, já a “Teoria da Evolução de Darwin” é A Idea.

Um primeiro erro que podemos cometer é não dar nome a novos produtos, ideias e conceitos que são criados.

 


O Tao dos nomes

Por outro lado, o poder dos nomes é tão grande que tem a capacidade de ofuscar o que não tem nome.

A cor azul descreve não só o azul, mas azul claro, escuro, e uma miríade de cores possíveis. Os gregos eram cegos em relação ao azul, mas será que nós mesmos não somos cegos em relação à alguma nova cor, ou uma nova ideia?

O segundo erro que podemos cometer é olhar só para o que já existe, e deixar de notar que o mundo anônimo é infinitamente maior do que o mundo “nônimo”.

 


Criar e destruir

Primeiro, deve-se criar nomes para descrever novos processos, conceitos, ideias, empresas.

Depois, deve-se destruir esses nomes, para não ficarmos presos a eles.

 


Referências

https://en.wikipedia.org/wiki/Studies_on_Homer_and_the_Homeric_Age

http://www.businessinsider.com/what-is-blue-and-how-do-we-see-color-2015-2

Fogo x Água

Há pessoas que tentam achar o seu caminho derrubando os que estão na sua frente, como o Fogo.

Há pessoas que tentam achar o seu caminho contornando os obstáculos, como a Água.

 

São estilos diferentes para pessoas diferentes. Os resultados são diametralmente opostos.

O Fogo deixa um rastro de destruição no seu caminho.

A Água deixa um rastro de harmonia em seu caminho.