​ Algumas palavras sobre Filosofia

 A filosofia é a fronteira final do pensamento humano.

A filosofia é inútil e especulativa – porque as ideias úteis viram ciência ou algum outro campo do conhecimento.

Mas todos os campos do conhecimento já foram filosofia um dia. Porque tudo existe no mundo das ideias antes de se transformar em algo palpável.
Se a física começa das leis da natureza, a metafísica pergunta a razão dessas leis:

Quais são as fundações das fundações das fundações?

Há uma linha linha tênue entre filosofia e religião. Entre o belo e o feio. Entre o certo e o errado. Entre o infinito e o nada.

A única certeza que tenho é que não há verdade absoluta. Para cada argumento formulado por alguém genial, há sempre um contra-argumento, igualmente fundamentado, por outras tantas pessoas de mesmo porte intelectual. Portanto, não importa o que alguém um dia disse, o que importa é a sua própria convicção.

Sobre a “vida boa”.

Não fomos feitos para ser felizes. Não importa o que fazemos, nem no que acreditamos. Não importa o quanto acumulamos, não há limite. Estaremos sempre incompletos, infelizes, e sempre haverá um desejo da vida ser melhor, uma busca insaciável, é como correr atrás da própria sombra, ou andar numa esteira rolante que acelera quanto mais a pessoa corre.

A única forma de ter uma vida boa é ser feliz hoje, agora, imperfeitos, incompletos, da forma que somos, com o que temos. Respirar fundo, agradecer ao mundo e viver o presente.

E, por fim, vale a pena citar Shakespeare: Há muito mais no Céu e na Terra do que sonha a nossa vã filosofia…

​O timing correto

Uma águia passa horas planando até que todas as condições estejam favoráveis. Quando chega o momento, o seu ataque devastador ocorre em segundos.
 
Rolar uma grande rocha morro acima é feito aos poucos, com paciência, centímetro a centímetro. Quando a rocha cai morro abaixo, salve-se quem puder.
 
Energia cinética = Energia potencial, segundo a lei da conservação de energia.

 

Para liberar em um segundo uma explosão de energia cinética, é necessário muito tempo acumulando energia potencial.
 
Vencer uma luta em um minuto requer meses de preparativos.
 
Realizar um excelente trabalho em poucos dias requer anos de excelência no assunto.
 
O impaciente vai liberar energia cinética sem potencial suficiente.
 
Vence aquele que tiver a capacidade de dominar a arte do timing correto.
 
Vence aquele que tem a paciência e a dedicação de acumular energia potencial: estudar além do que escola oferece, trabalhar com excelência, testar inovações, errar e aprender.
 
Vence aquele que sabe aplicar o potencial acumulado.
 
Vence aquele que pensa a longo prazo.
 
“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho” – Sun Tzu, a Arte da Guerra.

 

​Recomendações de livros para recém-formados

Após o post anterior, várias pessoas (como o meu amigo Marco Lima) vêm pedindo para eu colocar as minhas recomendações de livros para pessoas em início de carreira. São livros introdutórios, mas certamente servem para profissionais já bem estabelecidos também.

Também são muitos livros, mas tentarei dividir em áreas de interesse.

Aviso: gosto muito da recomendação do prof. Kokei Uehara.

São 4 fases de um profissional: o técnico, o administrador, o economista e o filósofo. Na primeira década após formado, o profissional deve dedicar-se à parte técnica, dominar muito bem o seu ramo de atividade, seja engenharia, contabilidade, o que for.

Portanto, nesta primeira fase, deve-se procurar especialização em áreas de interesse, continuar a estudar academicamente, montar as suas fundações.

A segunda fase é o do administrador. O profissional já tem domínio suficiente do que faz, e começa a administrar outras tantas pessoas. Também é uma fase em que deve-se abrir a cabeça para muitos outros assuntos além de sua área de atuação.

A terceira fase é a do economista. Compreender a relação causa-efeito do que acontece no mundo, escassez de recursos, compreender as fundações do sistema.

A quarta fase é a do filósofo. Uma vez que se sabe as fundações do sistema, podemos começar a questionar as mesmas. O mundo não é tão compreensível assim, a ciência não responde todas as perguntas, os prós e contras das religiões. É necessário ter uma boa vivência para realmente compreender a essência das ideias discutidas neste tópico. É o ápice e também o declínio, porque é onde descobrimos que há respostas mas estas não são absolutas, que podemos tentar muito mas mesmo assim nunca vamos descobrir tudo.


Administração

1 – Peter Drucker – Introdução à Administração

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O meu autor preferido na área de administração é Peter Drucker. Autor austríaco do início dos anos 1900, começou como economista, mas naquela época, com o surgimento da linha de produção em lugares como a Ford e a GM, estava sendo necessário um outro tipo de conhecimento: a Administração. A diferença é que a administração é mais humana, trata de temas como liderança, administração de pessoas, eficácia versus efetividade.

Ele criou o termo “trabalhador do conhecimento”: não o operador de macacão azul que trabalha na linha de montagem, mas aquele responsável por pensar, gerenciar outras pessoas, responder as respostas corretas e estudar até o fim da vida.

A Introdução à Administração é uma versão resumida da obra máxima de Drucker, “Management, Tasks, Responsabilities, Practices”, de leitura fácil e com ideias que já utilizei diversas vezes e utilizo até hoje.

2 – Peter Drucker – O Gestor Eficaz

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Um livro direto, rápido, com muitas recomendações para que um executivo seja eficaz. Note que o título é “eficaz” e não “eficiente”.

Eficiente é fazer muito bem alguma coisa. Por exemplo, digitar sem erros é ser eficiente.

Mas a eficiência não serve para nada sem a eficácia – que significa saber o que deve ser feito. Melhor digitar com erros, mas saber qual a mensagem a ser escrita, do que digitar sem erros uma mensagem inútil.


História

3 – Sapiens, uma breve história da humanidade

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O livro de Yuval Harari conta a história do ser humano desde a pré-história até os dias de hoje. Livro muito bem escrito, que prende a atenção. Inclui muitos conceitos e teorias bastante interessantes. Um exemplo é a mega-fauna (tatus gigantes, preguiças gigantes) que foi extinta com a chegada do homem moderno. Outro exemplo: o politeísmo surgiu naturalmente como uma explicação dos fenômenos do mundo (deus do trovão, deus do Sol), mas foi suplantado pelo monoteísmo. Um fator que contribuiu é que os monoteístas são muito mais fanáticos que os politeístas, pela própria natureza da crença de que há um e apenas um deus correto, os demais são heresia. Conclusão: é um livro rico em ideias e teorias.

4 – Guns, Germs, and Steel

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O trabalho de Jared Diamond tenta responder a uma pergunta. Por que as potências ocidentais são tão ricas? A teoria dele é que as pessoas são iguais, porém a geografia fez uma enorme diferença. A agricultura permitiu ao ser humano sustentar uma população cada vez maior. Entretanto, de milhares de espécies de plantas da natureza, apenas uma dúzia delas é domesticável: trigo, milho, soja, laranja, etc. Quanto aos animais, a mesma coisa, somente alguns são domesticáveis e têm valor comercial: vaca, carneiro, cavalo, etc. A seleção artificial do ser humano vem aumentando a produtividade, os melhores morangos são selecionados, os carneiros mais dóceis sobrevivem, etc. A questão é que essa meia dúzia de plantas e animais se concentram totalmente nas latitudes de sorte, que são o primeiro mundo atual. Em locais muito frios, muito quentes, muito secos, muito altos, não é possível plantar e não há tantos animais domesticáveis.

É uma leitura interessante, embora sofra do efeito retrospectiva, ou seja, a teoria se adequa aos fatos que ocorreram.

5 – Maus, a história de um sobrevivente

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Gostaria de indicar um livro sobre a Segunda Grande Guerra, que influencia até hoje os rumos da humanidade. Maus é uma boa recomendação. Na verdade, é uma história em quadrinhos. Art Spiegelman, o autor da história, narra a história de seu pai, Vladek, que sofreu na pele a perseguição aos judeus alemães na Segunda Guerra. Os judeus foram desenhados como ratos (daí o título: maus em alemão = mouse = rato), os nazistas como gatos, os americanos como cachorros.

O autor, Art, nasceu depois da guerra, mas é cheio de traumas com comportamentos estranhos de seu pai, entre eles a concorrência virtual com um irmão, que morreu na guerra. São histórias descritas com muitos detalhes e com a sinceridade de um sobrevivente. É uma história escrita com a alma, em que o autor fica pelado emocionalmente, mostrando aquele lado que gostaríamos de deixar escondido.


Economia
6 – Freaknomics

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Livro que populariza conceitos de economia, com explicações cotidianas. Economia lida com escassez de recursos, portanto com a utilização racional deste. Isto influi nas decisões das pessoas. Partindo disto, o livro explica porque um terrorista suicida faria seguro de vida, ou porque um traficante de drogas tende a ser pobre e morar com a mãe (embora a imagem que temos seja o contrário, alguém rico e rebelde). Explica entranhas de partidas de sumô arranjadas, e, talvez o ponto mais controverso, a correlação negativa entre aborto e criminalidade – quanto mais liberado é o aborto, menos bebês indesejados vêm ao mundo, e com isso o nível de criminalidade 20 anos depois tende a cair.

De qualquer forma, é um trabalho interessante de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, com várias sequências, como toda série de sucesso.

7 – Economics in one lesson

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Henry Hazzlit sintetiza os pontos mais importantes que a economia deve se preocupar, em poucas páginas, somente o essencial. E são dois os pontos: visão a longo prazo, e a nível global. É muito fácil criar uma falácia econômica. É só restringir a realidade a curto prazo e a nível local. Exemplos:

Falácia a curto prazo: os aposentados de hoje vão receber menos do que os aposentados de ontem se a reforma da previdência passar. Análise a longo prazo: se não houver reforma, ninguém vai receber nada porque o país vai quebrar.

Falácia a nível local: os carros autônomos vão destruir o emprego dos motoristas. Análise a nível global: os transportes serão mais eficientes, gerando ganho global de bem-estar, e os trabalhadores serão realocados para outros setores.

É muito fácil conseguir um ganho de curto prazo e local, basta sacrificar o longo prazo e o global: deixar de fazer investimentos, garantir o ganho de uma classe em detrimento das pessoas em geral (exemplo protecionismo econômico). O problema é que, um dia, a conta chega, e ela é salgada, muitas vezes superior ao que poderia ser.

8 – The Black Swan

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Um Cisne Negro é um evento de baixíssima probabilidade, mas impacto devastador. Por serem de probabilidade de ocorrência tão baixa, as pessoas desprezam tais eventos em seus modelos.

A grande contribuição de Nassim Taleb é afirmar que, embora tenham teoricamente probabilidade tão baixa, tais eventos ocorrem, e com muita frequência. Nossos modelos estatísticos, que olham para o passado, não conseguem capturar a real magnitude de um evento assim, que jamais ocorreu (porém, que pode acontecer), tornando a matemática inútil contra eventos desta natureza.

Para a proteção contra um futuro incerto, a receita de sempre: seguros, estoques, redundância, plano B, alternativas abertas.
Porém, seguro custa dinheiro, estoques empatam capital, pessoas a mais são caras. Neste mundo cada vez mais imediatista, em que a palavra da ordem é corte de custos e EBITDA trimestral, tende-se a confiar cada vez mais em modelos estatísticos e cortar seguros, estoques, alternativas. Isto dará espetacularmente certo, até o dia em que dará espetacularmente errado, jogando por terra todos os ganhos obtidos anteriormente.

Taleb é uma espécie de Nietzsche de Wall Street. Enquanto o mundo está cada vez mais quantitativo, como o deus Apolo, ele ataca as fundações de barro desse ídolo, mostrando as suas fraquezas, e confiando em seu oposto, Dionísio. Aliás, Taleb tem a sua própria versão de Apolo x Dionísio, que é Dr. John (um phD em métodos quantitativos) x Tony Gordo (alguém formado nas ruas, com conhecimento empírico).

9 – Thinking Fast Slow

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Amos Tveski e Daniel Kahneman deram um tapa na cara do mundo dos economistas com este trabalho. Uma das hipóteses básicas dos modelos econômicos é que o ser humano toma decisões racionais. A dupla mostrou que não, muitas decisões são completamente irracionais. Evoluímos tendo que sobreviver neste mundo. Isto exige decisões rápidas. Não dá tempo de avaliar a situação, obter todos os dados, antes de tomar a decisão de correr ou não de um leão. Eles simplificam didaticamente o cérebro humano em dois modos, um rápido que toma decisões baseadas em heurística, e um devagar, que realmente pensa, reflete e analisa.

Eles descrevem muitas tendências do ser humano. Efeito de enquadramento: a moldura do quadro importa. Ancoragem: um ponto de referência, mesmo que seja um número aleatório, influi na decisão. Disponibilidade: o que está mais fresco na memória surge mais rápido. Aversão à perda é mais forte do que perspectiva de ganho.

10 – Saga Brasileira

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Miriam Leitão conta a difícil situação do Brasil dos anos 80, marcado por hiperinflação, planos econômicos bizarros (congelamento de preço, Plano Collor), troca de moeda todo ano, até que finalmente conseguimos encontrar o nosso caminho com o Plano Real. Quem não viveu esta época não tem noção do quão sofrido é viver numa terra sem moeda. Já escrevi sobre isto, da minha forma: o Índice X-Men de Inflação.


Estratégias de Guerra

11- A Arte da Guerra

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A obra de Sun Tzu é concisa, profunda e importante. Contém estratégias que podem ser utilizadas na nossa vida, e conhecimento que deriva de milhares de anos de batalhas da China antiga. Quando na defensiva, seja impassível como uma montanha. Quando na ofensiva, ataque como um falcão ataca a sua presa.
Quem protege o lado direito, deixa o lado esquerdo desprotegido. Quem protege o lado esquerdo, deixa o lado direito desprotegido. Quem tenta se proteger em todos os pontos, será vulnerável em todos os pontos.
A guerra consiste em enganar o oponente.

12 – 36 estratégias de guerra

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Outro clássico chinês, em complemento ao acima citado. Contém estratégias como “Bater na grama para espantar a cobra”, “esconder uma adaga atrás de um sorriso”, “aliar-se a um reino distante ao atacar um reino próximo”. Vale a leitura.


Filosofia

Este é o meu tema favorito, porque é a fronteira do pensamento, é o momento em que pegamos todo o conteúdo acima e o jogamos fora para construir de novo. Embora seja tentador recomendar Nietzsche, Platão, Aristóteles, Camus e Sartre, vou colocar apenas duas recomendações introdutórias (mas não deixe de ler os autores citados, depois disso).

13 – O Mundo de Sofia

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A obra de Jostein Gaarder narra sobre as principais correntes filosóficas, a partir da personagem Sofia, uma menina curiosa sobre o mundo. É uma boa introdução.

14 – Breve História da Filosofia

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Livro muito bem escrito por Nigel Warburton, conta um pouco sobre os principais pensadores que moldaram o nosso mundo. Não é muito grande, e é de fácil leitura.

15 – História da Filosofia

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Do mesmo nível, tem a História da Filosofia de Will Durant. Will Durant é um excelente escritor e historiador, na verdade recomendo todas as obras dele, incluindo a colossal e magnífica História da Civilização.


Outros

16 – Moonwalking with Einstein

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É um livro sobre memorização. Um repórter, tão comum quanto qualquer um de nós, treinou com afinco, participou e ganhou um campeonato de memorização. Técnicas de memorização são extremamente úteis, minha vida seria mais fácil se eu soubesse dessas técnicas antes. Por exemplo, uma técnica é associar um número a uma ação (tipo moonwalking do Michael Jackson), e outro número a uma pessoa (digamos Einstein), e imaginar Einstein fazendo moonwalking ao som de Michael Jackson. Impossível esquecer.

Aliás, a minha recomendação de verdade é fazer um curso de memorização e leitura dinâmica, vale muito a pena.
17 – Think and grow rich

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A obra de Napoleon Hill não é tão profunda nem tão instrutiva quanto as citadas acima, mas é muito motivadora. Fala de um objetivo final definido, desejo de vencer, esforço, persistência. É uma obra que me influenciou bastante.

 


 

18 – O Enigma da Liderança é uma adição mais recente, porém não menos interessante.

O livro vale por várias sessões de coaching, numa linguagem coloquial, um diálogo informal e valioso pela ampla experiência e conhecimento do autor.

O foco são jovens profissionais de gestão de pessoas, mas este foco é humilde demais: as dicas e informações passadas valem para profissionais há muito formados, CEOs de empresas e o público em geral, de qualquer área.

Isto porque o livro tem foco prático, para resolver problemas de pessoas do mundo real, e tem lastro na vivência do autor. Quais os aspectos necessários para o líder, como se comportar quando estou querendo mudar de emprego, um exercício de auto-conhecimento, e assim por diante. Gosto muito das histórias com cases reais, como o da D. Diva (que reclamava de tudo e todos, e nunca tinha focado em seus sonhos) e a mudança da sede para Curitiba (um deslize do autor gerou um ruído enorme e desnecessário).

Por fim, as pessoas do mundo prático de business normalmente não tem o talento de escrever. As livrarias estão cheias de livros teóricos e abstratos, escritos sem o lastro de anos de experiência, acertos e principalmente erros de autores como Piza.

 

 

Boa leitura.

Aforismos diversos – cérebro, felicidade, ser quem somos

Uma coletânea de frases curtas e pensamentos

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Consumo de energia do cérebro. O cérebro humano é extremamente desenvolvido, e isto custa caro. Os 100 bilhões de neurônios gastam 25% das calorias do corpo humano. Isto, com um órgão que pesa 1 quilo e meio, em digamos 70 quilos totais. É como uma fornalha de calorias.
Mas pensar, ler, estudar, usar a cabeça, não gasta mais calorias do que não pensar em nada. Se não fosse assim, Einstein precisaria comer tanto quanto o nadador Michael Phelps.
O uso de energia do cérebro é mais ou menos igual a deixar um carro ligado. Vai consumir gasolina ficando parado ou não.
Portanto, melhor usar este carro para ir para lugares nunca d´antes navegados, do que ficar parado no mesmo lugar observando a paisagem.
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Será só eu que prefiro um dia trabalhando do que um dia na praia?
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Somos feitos de Tempo. Nosso limite para fazer qualquer coisa não é o dinheiro, habilidade física, qualidade de ensino. O limite final é o tempo disponível. Tempo = Vida. Administre bem o seu tempo.
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Ambição infinita
Não fomos feitos para sermos felizes. Fomos programados biologicamente para
querer algo, conseguir e no momento seguinte, querer algo novo. É só pensar em
como seria se fosse o contrário. Uma espécie que se contentasse facilmente
seria rapidamente ultrapassada por outra com ambição infinita.
Portanto, não é um iate, uma casa na praia ou uma viagem à França no futuro que vai nos fazer mais felizes.
O único jeito de ser feliz é ser feliz hoje, agora, com o que temos e com a vida que levamos.
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Odeio questoes do tipo “a internet emburrece, sim ou não?”. Porque é um tipo de questão que leva a nada. A internet é uma ferramenta extremamente poderosa.
Assim como toda ferramenta, pode ser bem utilizada ou não. Quem souber utilizar o seu poder para se aperfeiçoar acima da média vai levar vantagem.
Quem ficar o dia inteiro jogando, chateando e entrando em discussões fúteis, vai emburrecer.
Na média, talvez emburreça, talvez não. Mas a média não interessa. A média não serve para coisa alguma. O que interessa é o que cada indivíduo faz. E espero
que os indivíduos aproveitem este nível de conexão sem precedentes na história para criar aplicações também sem precedentes na história.
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Dinossauros são sinônimos de algo velho, ultrapassado, extinto há muito tempo. Entretanto, os dinossauros dominaram a Terra por 150 milhões de anos! O Homo sapiens existe há menos de 500 mil anos. Muito improvável que a nossa espécie consiga sobreviver por tantos milhões de anos assim. Não temos moral de dizer que os dinossauros foram um fracasso.
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Seja como Elon Musk. Ou não? Vi um anúncio assim:
“Elon fundou o PayPal porque queria fazer transações e não tinha como,
Anos depois não estava contente com as missões espaciais e fundou o Space X, depois o Solar City e a Tesla.
Seja como Elon.”
Discordo. Seja quem você é. O pior erro que podemos cometer é querer sem quem
não somos. Ou, como diria Nietzsche: Torne-se aquilo que você é.
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O Crepúsculo dos Ídolos em 40 frases

O Crepúsculo dos ídolos, é um livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1889.

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O subtítulo “ou Como se filosofa com o martelo” já diz tudo: ele usa o martelo para atacar a filosofia, a razão, a moral, os costumes, destruir tudo.
“Ídolo com pés de barro” se refere a uma história bíblica: uma estátua, um ídolo, com a cabeça de ouro, peito de prata, pernas de ferro e pés de barro. Apesar de todo o seu resplendor, uma pedrinha rolando morro abaixo atingiu o seus pés de barro, e derrubou o ídolo. E é isto que Niezsche mais gosta de fazer: derrubar ídolos atacando os seus pés de barro, principalmente os maiores ídolos de seu tempo.

Gosto muito de Nietzsche, por ele ser provocativo e politicamente incorreto.

Segue abaixo alguns excertos do livro.

 


 

Prólogo

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.

 


Parte 1. O problema de Sócrates

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Ele trouxe uma variante no combate entre homens jovens e adolescentes. Sócrates também era um grande erótico.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Sócrates fez da razão um tirano, e não é pequeno o perigo disto.

O modo com que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um salvador. É engano dos moralistas achar que é possível sair da decadência ao fazer guerra contra ela. Sair da decadência está fora de sua força, é novamente a mesma expressão de decadẽncia.

 


 

Parte 2: A “razão” na filosofia

Tudo o que há séculos os filósofos manejaram foram conceitos-múmia, nada de efetivamente vivaz veio de suas mão.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

Quatro teses:
1 – As razões pelas quais este mundo foi classificado como aparente fundamenta, muito mais, sua realidade. Uma espécie diversa de realidade é absolutamente indemonstrável
2 – As características que se deu ao “verdadeiro ser” das coisas são características do não ser, do nada. O mundo é aparente na medida em que é apenas ilusão ótico-moral.

3 – Fabular sobre “outro” mundo distinto deste não tem absolutamente qualquer sentido.

4 – Dividir o mundo em “verdadeiro” e “aparente”, seja da maneira do cristianismo, seja da maneira de Kant é apenas uma sugestão de decadência.

 


 

Como o “mundo verdadeiro” se tornou fábula

Abolimos o mundo verdadeiro: Que mundo restou? Talvez o mundo aparente? Mas não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

 


 

Moral como contranatureza

Todas as paixões possuem uma época em que são meramente nefastas, em que puxam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez.

Atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a práxis da Igreja é hostil à vida.

O que é mais venenoso contra os sentidos não foi dito pelos impotentes, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que haviam tido a necessidade de serem ascetas.

Para uma nova criação, como o novo Reich, ter inimigos é mais necessário que amigos: somente no antagonismo ele se torna necessário.

É ingenuidade dizer “assim e assim o ser humano deveria ser”.


Os quatro grandes erros

Não há erro mais perigoso do que confundir a consequência com a causa: é a autêntica corrupção da razão.
A fórmula mais universal que está na base de toda religião e moral, reza: “faz isso e aquilo, não faça isso e aquilo”. Este é o grande pecado da razão, a mortal irracionalidade.

Erro do espírito como causa, confundido com a realidade! E convertido em medida da realidade! E denominado Deus.

Erro das causas imaginárias – partir do sonho a uma determinada sensação, imputa-se retrospectivamente uma causa.

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

 

Qual é a nossa teoria? Ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele próprio. Ninguém é responsável pelo fato de existir. Nós negamos a Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente dessa forma é que redimimos o mundo.


Os “melhoradores” da humanidade

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.


Sentenças

É preciso ser um animal ou um deus para viver sozinho – diz Aristóteles. Falta o terceiro caso: é preciso ser ambos – um filósofo…

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Torna-se caranguejo quando se procura pela origem. O historiador olha para trás; por fim, acaba acreditanto também no para trás.

Desconfio de todos os sistemáticos e fujo do caminho deles. A vontade de sistema é uma falta de retidão.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

O psicólogo tem de afastar a vista de si mesmo para poder enxergar algo.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

És alguém que só olha? Ou que se põe ao trabalho? Ou alguém que desvia o olhar, pondo-se de lado?

Queres caminhar junto? Ou à frente dos outros? Ou seguir o próprio caminho? É preciso saber o que se quer e que se quer.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?


 

O MARTELO FALA

“Por que tão duro!” -falou ao diamante um dia o carvão: “não somos afinal parentes próximos?”
Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal – meus irmãos?
Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações?
Tão pouco destino em vossos olhares? E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como poderíeis um dia vencer comigo?
E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?
Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, –
Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre.
Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros! –


 

Nota: Resumos têm uma utilidade resumida. Recomendo a leitura do livro inteiro para uma visão mais completa.

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/filosofos/nietzsche/crepusculo-dos-idolos-46580797

 

 

Elogio ao ócio

algo de podre nos valores do mundo atual. Elogiamos aqueles que trabalham muito, fazem horas acima do combinado e usam fins de semana para se preocupar com o que ocorre na semana.

O teletrabalho só levou a preocupação para casa. Ao invés do pensamento idealizado de que era possível trabalhar na praia, a realidade é que, mesmo de férias na praia, o trabalho vem a tiracolo.

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Não raro, surgem problemas atrelados a este comportamento: estresse, remédios para dormir de noite, estimulantes para não dormir durante o dia, doenças físicas e mentais.

O ser humano original, da época do neandertal, foi feito para liberar adrenalina em casos esparsos: ao caçar a sua comida, para ele mesmo não virar comida, e para fins sexuais. O neandertal não ficava alerta 24h por dia, atormentado infinitamente.

Vem à cabeça a imagem de Íxion, condenado pelos deuses gregos a ficar eternamente girando, preso à uma roda em chamas:

ixion

E, por outro lado, estamos num país com 13 milhões de desempregados. Tal número seria muito maior se o índice de desemprego levasse em conta aqueles que desistiram de procurar trabalho formal.

Com o aumento da tecnologia e da produtividade, é possível produzir mais com menos. Com o aumento de produtividade, esperava-se que sobrasse mais tempo para todos, como no antigo desenho dos Jetson, em que o trabalho dele era apertar um botão e ficar olhando.

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O tiro saiu pela culatra. Com o aumento da produtividade, aumentou a responsabilidade de quem toma conta do processo. E o efeito foi tirar do mercado quem não acompanhou a mudança.

Ou o fulano trabalha demais ou não tem emprego.

Será possível chegar num meio termo?

 


 

O trabalho é uma virtude supervalorizada

Um artigo de 1935, “Elogio ao ócio”, do filósofo e matemático Bertrand Russell, traz um questionamento sobre o tema.

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Suponha uma fábrica de alfinetes, que tinha 8 funcionários full-time. Digamos que o aumento de produtividade faz com que sejam necessário apenas 4 para fazer o mesmo serviço. Ao invés de os 8 funcionários trabalharem meio-período, o que acontece é que 4 trabalham full-time, e 4 ficam fora da indústria de alfinetes. Esta é a “Moralidade do estado escravo”.

 

Russell aponta que o lazer é essencial para a civilização. Em tempos antigos o lazer de poucos era possível devido ao trabalho de muitos. Mas o labor era valioso, não porque trabalhar é bom, mas porque o lazer é bom.

Deveríamos aprender a aceitar um lugar para o prazer em nossas vidas, o que somente é possível com tempo livre. E deveríamos gastar mais tempo em educação, num sentido geral: utilizar o tempo de forma construtiva.

Historicamente, a pequena classe que tinha tempo ocioso desfrutou de vantagens injustas, entretanto esta pequena classe contribuiu com quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou a arte e as ciências, escreveu livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais.

Hoje em dia as universidades são supostamente responsáveis por produzir, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa produzia por acidente e sub-produto. Mas as universidades têm vários problemas. Da sua torre de marfim, não estão cientes das preocupações e problemas do homem comum.

Acima de tudo, haverá felicidade e desfrutar da vida, ao invés de nervos destroçados, cansaço e indigestão. O trabalho será suficiente para fazer o lazer agradável, mas não o suficiente para causar exaustão. Uma pequena porcentagem usará este tempo para perseguir temas de interesse pessoal, e produzir trabalhos de importância pública. E isto fará as pessoas mais ternas e menos atormentadas. A vida boa é resultado de facilidade e segurança, não de esforço árduo.

Deveria ser moralmente elogiável permitir que as pessoas trabalhassem 20 horas por dia, o suficiente para obter uma renda satisfatória.

 


O nativo preguiçoso

Este situação lembra a piada do Dr Livingstone e o nativo preguiçoso na rede.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!

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Comentário

É impressionante que o texto de 100 anos atrás de Russell continue tão atual.

Mais ou menos na mesma linha, há o livro “Ócio criativo”, do pensador italiano contemporâneo Domenico de Masi. Certamente é um livro mais citado pelo título do que lido de verdade, porque é denso e prolixo.

Certamente, ambos os trabalhos são mais ideais teóricos do que formas práticas de  colocar tais ideias em ação.

Na minha opinião, a própria natureza humana não permite que trabalhemos menos; entre dois funcionários, um que quer trabalhar 4h e outro que quer trabalhar 8h, a escolha óbvia do empregador é o segundo. Por outro lado, se é possível que eu trabalhe 20h por semana por metade do salário, ou 40h com o dobro do salário, certamente a minha escolha é a segunda.

A conclusão é de que o texto de Russell vai continuar atual por mais 100 anos. Vamos continuar neste ciclo de poucos trabalharem cada vez mais, seja no escritório ou fora dele, e outros tantos ficarem de fora deste processo. É da natureza humana buscar o máximo para si mesmo… até o ponto em que isto ficará insustentável. Alguma coisa continua errada.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet, de William Shakespeare.

 

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio”

“É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas a terra dada, não se abre a boca”

João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina


 

Notas

O exemplo da fábrica de alfinetes é uma clara referência ao trabalho clássico de Adam Smith, “A riqueza das nações”, em que ele usa uma fábrica de alfinetes para exemplificar o ganho de produtividade devido à separação do trabalho.

 

 

Texto completo, In praise of idleness:

http://www.zpub.com/notes/idle.html

 

O loop infinito das Leis da Robótica

Nos anos 90, li pela primeira vez sobre as 3 leis da robótica no livro “Eu, Robô” de Isaac Asimov.

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Não levei o livro nem um pouco a sério, afinal era apenas ficção científica. Estávamos muito longe de ter robôs inteligentes. E o livro também tinha passagens que poderiam parecer futuristas em 1950, mas em 1995 já não eram. Por exemplo, um dos personagens tinha um taquígrafo de bolso – um taquígrafo é tipo uma máquina de escrever que permitia uma digitação super rápida. Porém, em 1995 as máquinas de escrever já estavam em seu suspiro final.

 

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Nunca imaginei que reencontraria os conceitos de Asimov, e dessa vez seriamente, mais de vinte anos depois.

E há um motivo forte para isto. A singularidade está próxima.

 


 

The end is nigh

A singularidade é o momento em que os computadores serão mais inteligentes do que nós. Este é um termo cunhado por Ray Kursweil, um pesquisador futurista. Kursweil prevê que isto deva ocorrer por volta de 2045.

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“O fim está próximo” – personagem Rorschach

 

Mas, profecias à parte, o que é relevante para nós é que está havendo um avanço tecnológico imenso. Os algoritmos estão sendo cada vez mais parte de nossas vidas.

Em um futuro não tão distante, aplicações de internet das coisas, veículos autônomos, computação avançada, inteligência artificial, robotização de processos, estarão presentes em nossas vidas. O avanço exponencial destas tecnologias é traduzido pela Lei de Moore, que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, para o mesmo custo de produção.

Moore

Portanto, não precisamos atingir a singularidade para termos problemas com tal escalada tecnológica. Este futuro trará não apenas problemas técnicos, mas verdadeiros problemas éticos.


 

A ética robótica

Algumas perguntas esparsas:

  • De quem é a responsabilidade em caso de acidentes com veículos autônomos?
  • Um robô pode ferir um ser humano?
  • O que acontece se um texto, ou um chatbot, ofender um ser humano?
  • Haverá perda de autoridade humana, caso os robôs fiquem melhores do que nós no prognóstico de doenças (exemplo: médicos x autodiagnóstico no Google)?
  • Uma máquina pode mentir se for para um bem maior? E como uma máquina poderia avaliar o que é um “bem maior”?
  • Como evitar problemas afetivos com robôs? Este caso pode parecer bizarro, mas, no Japão há pessoas que se apaixonam por personagens em quadrinhos, porque não haveriam pessoas que se apaixonem por robôs?

 

A ficção científica está se encontrando com a realidade. Há alguns pesquisadores renomados, atuando no assunto “Ética robótica”. Tive a sorte de ver a palestra de um deles, o prof. Edson Prestes, da UFRGS.

O prof. Prestes faz parte de um grupo do IEEE (Instituto de engenheiros elétricos e eletrônicos), que está estudando um série de normas para guiar o desenvolvimento no assunto.

Esta é a “Iniciativa global por considerações éticas em inteligência artificial e sistemas autônomos”.

IEEE.png

É onde a filosofia encontra a tecnologia.

É onde a Eudamonia de Aristóteles (práticas que definem o bem-estar da humanidade) de 3000 anos atrás, encontra-se com alguns dos maiores engenheiros eletrônicos do mundo atual. Literalmente. Vide o print do sumário executivo do grupo.

Eudamonia.png

A ética, mesmo para humanos, é extremamente complexa, um assunto sem fim. Com a participação de robôs, e interações humano-humano, humano-robô, robô-robô, abre-se um leque inimaginável de possibilidades e dilemas éticos.

Espera-se que iniciativas como a do IEEE ajudem a humanidade a projetar um futuro em que os robôs realmente sejam parte de nosso ecossistema. Para maiores informações sobre os temas de trabalho do IEEE, vide links ao final do documento.


 

As Três Leis da Robótica

Retornando ao início, é impossível falar de ética robótica sem falar das três leis de Asimov. Coloque tal tema em discussão, e com certeza alguém vai levantar este ponto.

Asimov, no conto Runaround (algo como “correndo em círculos”) do livro “Eu, Robô”, expõe as três leis da robótica.

 

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir, por omissão, que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 

As 3 leis são hard-coded nos circuitos positrônicos (termo de Asimov, seja lá o que for) dos robôs, de forma que não há possibilidades deles não cumprirem tais diretrizes.

As três leis parecem muito boas. Entretanto, sendo um excelente escritor, Asimov dá um jeito de criar um situação em que as leis se contradizem. Ele cria um bug, um bug lógico.

Quem sabe programar conhece bugs lógicos. Algo como:
i := 1
while (i >0) do:
i++
i – –
print i
end

Tal programinha nunca vai parar, fica em loop infinito.

E é impossível, de antemão, saber se um programa vai ou não parar (este é o Halting Problem, provado por Alan Turing e que foi uma das pedras fundamentais para o início da computação).

 

O bug lógico de Runaroud é mais ou menos assim:
– humanos mandaram o robô (chamado Speedy) coletar selênio, essencial para a sobrevivência deles
– entretanto, o humano não colocou muita ênfase na importância da ordem
– Speedy, sendo um robô muito avançado e caro, tinha ênfase especial na lei 3 (ele mesmo sobreviver)
– o local para coleta de selênio era extremamente perigoso, quando Speedy se aproximava da fonte, ele recuava para se proteger (lei 3)
– quando ficava longe o suficiente para ficar seguro, a lei 2 (obedecer à ordem humana) tinha peso maior, e ele tentava retornar à fonte
– Speedy ficou horas nesse loop infinito, se aproximando e se afastando da fonte de selênio.

O selênio estava acabando, e os astronautas (humanos) iriam morrer. Eles foram atrás de Speedy, detectaram o problema. Como Speedy era rápido demais (daí o seu nome), eles não conseguiam alcançá-lo para dar outra ordem. Os astronautas tentaram uma solução: enfatizar a lei 3. Jogaram umas substâncias tóxicas (para o robô) no trajeto – assim tinham a esperança de quebrar o loop e fazer ele retornar à base.
Não deu certo. Speedy encontrou outro ponto de equilíbrio: ia até o local onde as substâncias tóxicas estavam, recuava, e tentava de novo, infinitamente.

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Numa tentativa desesperada, eles imaginaram uma forma de utilizar a lei 1, especialmente a parte que diz que um robô não deve permitir que um humano sofra algum mal por omissão. Esta era a última esperança, o selênio da base estava acabando e não havia mais tempo.

Teriam os astronautas se safado? Ou não?

A história original é interessante demais, e recomendo a leitura, para saber o final da história.

 


Conclusão

Fica a provocação final: mesmo estudando profundamente todo o comportamento robótico e humano, e mesmo estabelecendo regras éticas a serem seguidas rigidamente pelos robôs pós-singularidade, não haverão bugs impossíveis de serem descobertos a priori?

A lei Zero da robótica: “Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal” – Isaac Asimov.

 

“Se o nosso cérebro fosse tão simples a ponto que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos” – Lyall Watson, biólogo.

 

“Me desculpe, Dave, mas receio que não posso fazer isso” – HAL 9000, no filme 2001, uma odisseia no espaço.

 


Links

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/ficcao-cientifica/eu-robo-42747426

http://standards.ieee.org/develop/indconn/ec/autonomous_systems.html
http://www.inf.ufrgs.br/~prestes/site/Welcome.html
https://futurism.com/kurzweil-claims-that-the-singularity-will-happen-by-2045/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jô, Rodrigo Caio, Maquiavel e Kant

O futebol não vive sem uma boa polêmica, não?

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Quem estará correto, o desonesto, trapaceiro e espertalhão jogador Jô, que deliberadamente meteu a mão na bola para fazer o gol, ou o bonzinho, honesto e otário jogador Rodrigo Caio, que num lance em que o adversário foi punido (por ironia do destino, o próprio Jô), assumiu a sua culpa e livrou um cartão amarelo para o espertão?

Levar vantagem sobre um erro ou não?

Esta discussão é antiga, e envolve algumas das maiores cabeças da história, numa discussão infindável sobre valores morais.

 


 

Nicolau Maquiavel

O gol de mão deliberado de Jô lembra uma frase antiga: “Os fins justificam os meios”. A autoria desta frase é atribuída ao pensador italiano Nicolau Maquiavel, 1469 – 1527. Ele escreveu o livro “O Príncipe”, inspirado na família Médici – poderosos nobres da época – e em outros personagens históricos.

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É possível que ele não seja o autor literal da frase “Os fins justificam os meios”, mas esta se encaixa muito bem em sua proposta. “O Príncipe” é como se fosse um manual para que um príncipe se mantenha no poder. O livro contém dicas como “seja benevolente, caridoso, religioso”. Contudo, o governante não precisava sê-lo de fato, apenas nas aparências, pois precisava do apoio da população.

Ele também diz que para o governante é muito mais seguro ser temido do que amado. Outra frase é a de não tentar vencer pela força, quando é possível vencer pela astúcia.

Por essas e outras, o termo “maquiavélico” se traduz em: que envolve perfídia, falsidade; doloso, pérfido.

Mas, antes de tacar pedras, lembre-se de que todos têm o lado Maquiavel. É o lado pragmático, de atingir um objetivo mesmo descumprindo algumas regras.

Maquiavel coloca ênfase total no resultado, e zero ênfase na causa que gerou o resultado. Ele é bastante prático, e aplaudiria o gol de mão de Jô.

Imaginemos outro dilema moral. Se eu voltasse no tempo e estivesse diante de Hitler nenê, eu daria veneno para ele? Por um lado, tirar Hitler do mapa ajudaria a evitar a Segunda Guerra Mundial, que devastou a Europa inteira e tirou a vida de milhões de pessoas. Por outro lado, eu estaria cometendo assassinato.

A resposta de Maquiavel seria bem simples. Acabe com o Hitler nenê. Salve o mundo. E durma tranquilo.

 


 

Immanuel Kant

 

O pensador mais Rodrigo Caio de todos é o grande filósofo alemão Immanuel Kant, 1724 – 1804. Ele tentou criar uma fundamentação moral perfeita, que constrastasse com a antiga moral grega e a moral da igreja católica.

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Kant criou um sistema moral que olha para as causas, e não para as consequências. Se eu me mantive fiel aos princípios ao executar a ação, fiz um bom ato. Rodrigo Caio tem um princípio de ser honesto e falar a verdade, então ele se denunciou.

O primeiro imperativo moral de Kant é uma espécie de Regra de Ouro, porém bem mais complicada: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” É mais ou menos assim. A regra de ouro “faça aos outros apenas o que faria a si mesmo” é bem legal, mas tem defeitos – digamos, um sadomasoquista pode causar dor nos outros porque também gostaria de sentir dor. Então Kant criou uma regra de ouro estendida: ao invés de envolver duas pessoas, envolveria todas, assim consertando a regra.

Uma derivação do conceito de Kant é a de que não devemos usar pessoas como um meio, apenas como um fim em si.

 

O que aconteceria no caso de Hitler nenê? Kant diria que não devemos assassinar o Hitler nenê, porque assassinato é ruim. Entretanto, causar a Segunda Guerra não é um ato pior ainda?

E se um ladrão entrasse em casa, e a vida da minha família dependesse de uma mentira, o que faria Kant? Manteria-se fiel ao princípio de não mentir e condenaria a família? O próprio Kant deu a sua resposta, quando perguntado sobre um dilema semelhante: contaria a verdade ao ladrão e condenaria a família, mantendo-se fiel ao seu princípio moral de ser honesto.

 

Nota-se claramente que a filosofia de Kant pode ser interessante para o Sr. Spock, o alienígena perfeitamente racional da série Star Trekk. Mas não reflete o comportamento do ser humano, que no final das contas é um hipócrita: fala como Kant, age como Maquiavel.

 


 

John Stuart Mill

Uma última linha de raciocínio: o Utilitarismo do pensador inglês John Stuart Mill, 1806 – 1873.

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O utilitarismos também olha para os resultados, como Maquiavel. Mas, ao invés de considerar o resultado para si mesmo, como no caso do Príncipe, considera o resultado para a humanidade inteira. É como fazer uma conta aritmética. Se a quantidade de pessoas felizes foi maior do que a quantidade de pessoas infelizes, o ato é bom.

No caso de Hitler nenê, como isto traria a felicidade de milhões de pessoas a mais, é um bom ato.

No caso de Jô, depende. Como ele joga no Corinthians, e este tem mais torcida do que o adversário, foi um bom ato o gol de mão. Se ele jogasse num time pequeno contra o Corinthians, seria um ato ruim, porque mais gente ficaria infeliz (coincidentemente, a Rede Globo e grande parte dos juízes também pensam assim, rs).

Sempre achei o Utilitarismo muito esquisito. Como mensurar algo abstrato como a felicidade, e tomar uma decisão baseada numa conta de maior ou menor? Entretanto, há muitas decisões que o ser humano toma, que são fortemente utilitaristas.

Se há uma vacina para uma doença terrível, digamos um Ebola de nível mundial, mas essa vacina cura 60% das pessoas e mata 40%? Mill diria para mandar ver, aplicar a vacina. Para Maquiavel, depende dos objetivos do Príncipe liberar ou não a vacina. Para Kant, não é moral liberar a mesma.

Mas e se for uma vacina que cura 99,999% das pessoas, e pode afetar 0,001%?

E se curar 99,99999% das pessoas?

 

O grau de utilidade pode afetar a decisão.

Para fechar o tópico, um livro bem interessante é de Dan Ariely, sobre desonestidade.

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Em resumo, diz que todos nós somos desonestos. Alguns mais, outros menos. A grande maioria é só um pouquinho desonesta, um pouquinho suficiente para levar alguma vantagem (digamos embolsar 1 real do troco que veio errado), mas não tão grande a ponto de perturbar o sono (digamos, se veio 100 reais a mais no troco, devolvemos).

 


 

Conclusão

A conclusão é que escrevi um texto enorme para dizer que não há conclusão absoluta. O legal de filosofia é que para cada argumento, há um argumento diametralmente oposto, mas igualmente válido. Ou seja, é da consciência de cada um decidir o seu lado Jô, o seu lado Rodrigo Caio. Ou melhor, o seu lado Maquiavel, o seu lado Kant, ou o seu lado Stuart Mill.

Mas, na prática, eu não compraria um carro usado do jogador Jô.

 

 

 

O veneno da víbora não afeta um dragão

Um conselho de Nietzsche para aqueles que se incomodam com provocações alheias.


 

A picada da víbora

Um dia dormitava Zaratustra debaixo de uma figueira, pois fazia muito calor e com o braço cobria o rosto. Veio uma víbora e mordeu o seu pescoço, e ele lançou um grito de dor. Quando tirou o braço do rosto, olhou a serpente. Então a serpente reconheceu os olhos de Zaratustra, retorceu-se e quis fugir.

– Não, exclamou Zaratustra. Ainda não te agradeci! A tempo me despertaste. Grande ainda é meu caminho.

– Teu caminho agora é curto – disse tristemente a víbora – meu veneno mata.

Zaratustra pôs-se a rir.

– Quando matou a um dragão o veneno de uma serpente? -disse. Retoma o teu veneno, não és rica para dá-lo a mim. Então a víbora tornou a enroscar-se no seu pescoço e lambeu a ferida.

 

Quando Zaratustra contou esta história a seus discípulos, estes lhe perguntaram:

– E qual é, Zaratustra, a moral do conto?

Zaratustra respondeu:

– Os bons e os justos me chamam de destruidor da moral, meu conto é imoral. Mas, se tendes um inimigo, não lhe devolvais bem por mal, porque se veria humilhado: demonstrais, ao contrário, que lhe fizeste um bem. E em vez de humilhar, encoleriza-vos. E quando vos maldigam, não me agradas que queiras bendizer. Maldizei vós também!

 

Assim Falava Zaratustra – Friedrich Nietzsche.

 

Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
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Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
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Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Vincent van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
https://mydailyartdisplay.files.wordpress.com/2012/01/vincent_van_gogh_00191.jpg?w=811&h=669
Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
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Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
 
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
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Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
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Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


Links

Festinha de aniversário e corrupção, tudo a ver

“Este país não vai para frente mesmo” – foi o que eu pensei no dia. Este episódio ocorreu quando eu trabalhava no serviço público, há muitos anos, mas certamente continua muito atual.

De tempos em tempos, a seção em que eu trabalhava fazia uma festinha para os aniversariantes do trimestre. Algo simples, alguns salgados e refrigerantes. A secretária recolhia uns 10 reais de cada um, com alguns dias de antecedência. No dia da festinha, normalmente meia hora da sexta à tarde, a gente juntava algumas mesas, fazia a comemoração, batia um papo, e pronto. Era uma festinha interna, mas de vez em quando, alguns colegas mais chegados de outras seções apareciam também.
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Entretanto, aquela vez foi diferente. A secretária passou cobrando 50 reais de cada um. Não explicou o motivo, disse apenas que o chefe da área tinha pedido. Lembrando que 50 reais na época deveria ser uns 80 reais de hoje. Ok, pensei. Deve ser alguma coisa especial – melhor para mim, já que o meu aniversário também era neste trimestre. O dia e o horário marcados também eram diferentes, ao invés da tradicional sexta final da tarde, um dia da semana no meio da tarde. Ok, tenho coisas mais importantes para me preocupar, pensei.

Chegando no dia, mais coisas estranhas. Ao invés de duas ou três mesas, juntaram várias. E, numa mesa, havia uma série de presentes grandes. Em outra mesa, pacotes de presentes bem menores.

Chegando próximo à hora combinada, começou a chegar gente de outras seções: alguns figurões, pessoas de alta patente. Muito estranho…

Na mesa, os mesmos salgados e refrigerantes de sempre. A única coisa diferente era que tinha um bolo. Ficava a dúvida: para que cobrar tão caro para ser a mesma coisa, o equivalente aos 10 reais de sempre?

Então, teve início a cerimônia. O chefe de nossa seção começou o discurso, focando em citar o aniversário de um figurão em particular. E começou a distribuir os presentes expostos na mesa, seguindo rigorosamente a hierarquia, do grandão ao pequeno. Como eu estava iniciando no serviço, obviamente eu era muito pequeno, e o presente que me deram também – algo inútil, um souvenir qualquer, que ainda tinha um cartão com uma mensagem motivacional, para lembrar o quanto eu era importante para o sistema… Quanto aos pacotes grandes, não sei e nem quero saber o que tinha.

Felizmente, esta demonstração de puxa-saquismo com o dinheiro alheio não ocorreu mais. Ficou tão explícito, tão mal disfarçado, que pegou mal.

De qualquer forma, é impressionante que alguém possa pensar que é legal fazer algo assim, mesmo que apenas uma vez.

Felizmente também, nos meus muitos anos na iniciativa privada, nunca mais vi algo assim. Talvez este país ainda tenha esperança, no final das contas…

O ouro do Reno

Smeagol

A cada 10 anos mais ou menos, tenho o desprazer de encontrar um sujeito que só fala de dinheiro. Vou identificá-lo como “Smeagol” neste texto.

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O Smeagol chega e já começa a falar de dinheiro. Reclama que não tem dinheiro para nada. Fala sobre algum projeto mirabolante (para ganhar o precioso dinheiro), mas a seguir recorda que não tem verba para tal. Comenta que “a vida de fulano é boa, porque ele tem muito dinheiro”, ou que “beltrano comprou um Corolla novo”. Depois, pergunta sobre as minhas filhas, e onde elas estudam – pergunta a mensalidade. Finaliza perguntando quanto eu ganho…

Seu lema:

“Não quero ser feliz, quero ser rico”.

Mas poderia ser:

“Precious”, “My precious…”

Fico me imaginando o que aconteceria se ele ganhasse na Mega-Sena. Será que entraria em depressão, por não ter mais objetivo a atingir? Ou continuaria a tentar perseguir mais dinheiro?


 

Meio de troca

A definição básica de dinheiro, segundo qualquer livro de Economia: meio de troca, reserva de valor e unidade de medida. Nós, seres humanos, nos distinguimos de outros animais porque produzimos coisas úteis e trocamos uns com os outros. Aproveitamos as vantagens competitivas de cada um para nos especializarmos em fazer mais, melhor e mais barato, e depois trocamos os produtos finais com nossos semelhantes. Um produz limão, outro laranja, depois eles trocam um pouco de cada entre si – e o lugar onde isto acontece é o mercado.

À medida em que o mundo foi ficando mais complexo, ficamos cada vez mais especialistas, e cada vez mais difícil fazer as trocas. Como um analista de controladoria trocaria seus serviços contábeis por um quilo de laranja? A forma natural que surgiu para permitir tais trocas foi o dinheiro: um meio de troca aceito entre todos do mercado, uma unidade de medida que quantifica o quanto vale o trabalho do analista e quanto vale um quilo de laranja, e uma forma de guardar este valor para o futuro, se a pessoa não quiser fazer a troca agora.

Portanto, Smeagol, o dinheiro é um meio de troca, não um fim em si. E a soma daquilo que recebo na troca tem que ser equivalente ao que produzo, não posso receber sem produzir.

 


 

Alberich e Smeagol

Smeagol é um personagem da história “O Senhor dos Anéis”.

Mas Tolkien provavelmente se inspirou em outras histórias. Na mitologia germânica, que é milenar, um anão horripilante e ganancioso, Alberich, roubou o ouro guardado pelas fadas do Reno e transformou num anel, o seu precioso anel dos Nibelungos.

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O compositor Richard Wagner recontou esta história, numa ópera chamada “O Anel dos Nibelungos”.

Conclusão: não é de hoje que o precioso ouro cria os seus Smeagols.

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