​O economista que sabia javanês

Castelo encontrou um amigo, num dos bares do Rio de Janeiro. Estava de férias, de volta ao Brasil após um ano no exterior. Estava numa bela situação financeira e não media esforços para ostentá-la: roupas, sapato, relógio da melhor qualidade.

Após algumas cervejas e muito papo furado, o amigo perguntou como ele tinha conseguido chegar onde chegou.

Castelo, todo cheio de si, contou a sua história.

Ele vivia em estado de eterna penúria, fugindo de pensão em pensão, até que um golpe de sorte mudou a sua vida. Num congresso de economia, de última hora um palestrante faltou. Um conhecido dele sabia que ele era um bom contador de histórias, e o chamou para cobrir a vaga. “Nem sei muita coisa de economia, mas vamos lá, pensou”. Deu uma lida na definição de economia e dormiu em cima do livro.

Chegando no palco, ele começou a descrever exatamente a definição que ele tinha decorado. Cinco minutos depois, já não tinha o que falar, e começou a se desesperar. Daí, começou a inventar coisas. Falou que era um profundo conhecedor da experiência econômica na ilha de Java.

Na ilha de Java todo mundo é rico. Todo mundo tem direito a um iphone, mas apenas um, por pessoa.

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Eles conseguem isto a partir de uma distribuição justa de renda: os ricos financiam os pobres, de modo que todos têm a mesma renda.

Ele tinha ouvido falar de Keynes, na faculdade, algo como os gastos públicos são bons em épocas de crise. Então, se é bom, que tal se todos os gastos fossem públicos? Para todos os gastos serem públicos, todas as empresas têm que ser públicas e todo o emprego, público. Todos são empregados do estado, que garante a regra da “tigela de ferro” para todos.

A “tigela de barro” é o mundo capitalista. Cada um por si, mercado livre. A “tigela de ferro” é o sistema social da ilha: o governo cuida de todos, previdência garantida, emprego garantido. É claro que há limitações. Se o estado é responsável pela alocação do emprego de todos, possivelmente nem todos teriam a escolha do emprego, é o estado que definiria o melhor papel de cada um, como uma engrenagem numa grande máquina.

E todos eram muito felizes, iguais e bem alimentados.

Sendo todos felizes, eles tinham a melhor educação do mundo. Também a melhor saúde do mundo.

Ninguém comete crimes, se o fizerem, basta uma conversa séria dos sociólogos da ilha para eles voltarem ao normal. Portanto, não há prisões, apenas direitos humanos.

O ouro é utilizado apenas para o comércio com o exterior. Dentro da ilha, todos desprezam o ouro e outros ganhos materiais. Para simbolizar isto, o ouro é utilizado para fazer o vaso sanitário das casas da ilha, literalmente cagam no ouro.

Há cotas para todos os cargos e profissões, representando exatamente a extratificação racial da sociedade.

Na ilha de Java, todos são amigos, e já são dois mil anos de prosperidade.

Fecha aspas.

Com este discurso, Castelo ganhou notoriedade nos jornais ideológicos. Passou a ser celebridade, constantemente convidado a participar de debates, escrever livros e artigos. Sempre repetia a mesma história, do começo ao fim. Quando questionado, era só falar que em Java, funciona.

Ganhou o apoio do ministro da fazenda. Virou celebridade na internet. Ganhou uma coluna numa revista ideológica, onde criticava o capital, a ganância, os empresários. Almoçou com o presidente da República.

Na cara de pau, copiou o símbolo da linguagem Java como símbolo de sua coluna. Java é uma linguagem de programação, cujo nome veio de um café produzido na ilha de Java.

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Um dia, a imprensa descobriu um marinheiro que realmente era javanês, e queriam entrevistá-lo. Castelo suou frio, temendo ser desmascarado. Mas, o destino quis que ele continuasse o seu teatro. O tal marinheiro não falava inglês nem qualquer outra língua inteligível. Então, o próprio Castelo foi chamado para ser o tradutor. Ele decorou duas frases no malaio javanês: “Bom dia” e “diga mais sobre você”. E na entrevista inteira, o que ele “traduziu” para o português foi exatamente a mesma história que já fora contada inúmeras vezes.

E assim, de cargo político em cargo político, hoje ele é embaixador brasileiro nas ilhas do Pacífico. Ele é a prova viva de que o paraíso social, em Java, funciona.

Terminaram a conversa com um brinde a todos os brasileiros, a todos os javaneses e a todos os (ingênuos) que acreditaram em sua história.


 

Referências

O homem que sabia javanês – Lima Barreto

A Utopia – Thomas More

 

 

Udacity self-driving car preview

Eis aqui uma grande oportunidade. Para aqueles curiosos sobre o nanodegree de carros autônomos da Udacity, aqui está um preview, para acessar o conteúdo do curso, por tempo limitado.
http://blog.udacity.com/2017/04/free-sneak-preview-self-driving-car-nanodegree-program.html

Divirta-se.

O quão excelente é o projeto?

Em diversas ocasiões, discuti ideias de projetos com o meu colega Cláudio Ortolan. Alguns de meus questionamentos eram do tipo “vai custar caro demais”, “temos orçamento para tal?”

  

A réplica dele sempre era:
 

 “Quão excelente é o projeto?”

 

Um projeto excelente, genial, que dá um retorno que o justifique, sempre vai conseguir recursos para se manter de pé.

 

Já um projeto fraco pode custar muito (ou pouco, independe do custo), mas não vai sair do lugar.
 
Para ilustrar esta afirmação, uma história, contada no livro “O imperador de todos os males – uma biografia do câncer”.
 
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Mary Lasker era uma mulher da alta sociedade americana, nos anos 1950. Após perder o marido, numa longa e difícil batalha contra o câncer, ela decidiu usar todas as suas forças para combater este mal. Ela tinha dinheiro, influência e conhecia toda a alta sociedade. Sabia fazer bem o marketing e a parte social para levantar fundos. Mas obviamente ela não tinha conhecimento da parte técnica. Ela precisava de um projeto.
 

Projeto 1
 

Ela procurou um pesquisador acadêmico famoso, explicou toda a sua história e perguntou sobre uma ideia para combater o câncer. Ele respondeu: “Eu preciso de um microscópio novo, de 300 dólares”. Vamos chamar este de “Projeto 1”.
 

 

Projeto 2
 
Depois, ela procurou um médico chamado Sidney Farber. Ele estava havia muitos anos trabalhando desesperadamente no combate ao câncer. Primeiramente com leucemia. Uma característica importante da leucemia é que, pelo câncer estar no sangue, daria para mensurar se algum tratamento teria ou não efeito. E assim, estudando, testando inúmeras alternativas, ele desenvolveu o primeiro tratamento de quimioterapia do mundo.
 
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Sidney Farber e paciente

 

E Farber tinha um projeto. Pesquisar programaticamente as novas drogas, variando dosagem, composição, tipos de câncer e anotar cuidadosamente os efeitos positivos e negativos. Além disso, criar um instituto de combate a câncer. Vamos chamar este de “Projeto 2”.
 

Qual dos dois projetos é melhor?
 
Evidentemente, o projeto de Farber.
 
Mary Lasker e Sidney Farber pareciam duas pessoas com metade do mapa cada uma. Ela conseguiu arrecadar fundos e colocar o câncer em evidência. Conseguiu que o Ato do Câncer de 1971 liberasse a soma sem precedentes de 1,59 bilhões de dólares para a pesquisa do câncer.
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Mary Lasker

 

Apesar da cura do câncer ainda estar muito longe de ser uma realidade, muitos dos avanços iniciais da pesquisa são devidos a esses dois. O instituto Dana-Farber existe até hoje (http://www.dana-farber.org), assim como o Lasker Foundation (http://www.laskerfoundation.org).
 
Imagine que o diretor geral da empresa venha à sua mesa e pergunte se você tem uma boa ideia para apresentar para ele. O que você responderia? Que precisa de um computador novo?

 


Links:

As pessoas são covardes, egoístas e feias

Só que não. As pessoas são corajosas, altruístas e belas.

  

Li alguns artigos recentemente, destacando cientificamente que as pessoas são covardes. Mais ou menos assim, o erro de um falso positivo é pequeno, apenas um susto: se o homem das cavernas confunde uma tartaruga com um tigre, não tem muito problema. Mas um erro de um falso negativo é enorme: se o o mesmo confunde um tigre com uma tartaruga, já era, não vai deixar os seus genes para a geração seguinte.
 

 

Outro artigo dizia que as pessoas eram egoístas primeiro, para depois, se sobrar algo, pensar em altruísmo. Quem fosse muito altruísta acabava sem comida, e tchau para os seus genes bonzinhos. O autor tinha feito um grande estudo estatístico mostrando isto.

 
 

Ora, do ponto de vista evolutivo, coisa e tal, pode até fazer sentido. Na prática, também, acho complicado confiar 100% que as pessoas sempre vão ajudar. Do ponto de vista pragmático, tenho que me defender, até certo ponto.

 
 

Entretanto, ter uma postura assim não ajuda em nada. Se um pessoa considera o mundo covarde e feio, o mundo realmente será covarde e feio para ela.
 

A partir de um certo ponto, devemos adotar a postura de que as pessoas são corajosas, altruístas, belas e sempre irão ajudar. Não tenho estudo científico nenhum, zero dados estatísticos comprovando que o altruísmos e a coragem são bons.
Tenho apenas um sentimento: a Esperança.

Da árvore ao papel, do papel à nossas vidas

Hoje (19/04/2017) a Klabin S.A. completa 118 anos de idade. Numa época conturbada como a nossa, onde metade das empresas não passa de 4 anos de vida, podemos perguntar Qual o segredo para viver tanto?


 

A Klabin
A Klabin é uma das maiores empresas do Brasil na área de papel e celulose. No dia-a-dia isto se traduz em caixas de leite, caixas de suco, embalagens de fruta, caixas de panetone, saco de cimento, saco de argamassa, enchimento de fraldas e tantos outros produtos.

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A embalagem ou saco é o produto final. Mas o papel não surge do nada. Há um tremendo processo industrial para a produção do papel, e haja papel: são quase 3,5 milhões de toneladas de produto acabado, segundo a apresentação institucional (link no anexo).
O papel vem da madeira. A madeira é picada, cozida com produtos químicos numa panela de pressão gigante, as fibras são separadas, prensadas e secas até virar papel.
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E se a quantidade de papel é gigantesca, a de madeira é maior ainda. Sendo mais ou menos 3 toneladas de madeira necessárias para cada tonelada de papel, dá cerca de 11 milhões de toneladas de madeira por ano! Isto dá 300 mil viagens por ano (da floresta à fabrica) de um caminhão bi-trem com 39 toneladas líquidas.
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São duas espécies principais: o eucalipto e o pinus. Cada uma tem uma característica diferente. O eucalipto produz um papel de mais qualidade para imprimir e escrever. O pinus produz um papel mais forte, necessário para embalagens robustas. Por exemplo, a caixa de leite explodiria ao cair no chão se o papel da embalagem não viesse do pinus.

Planejamento e Gerenciamento

As árvores não surgem do nada, não estão aí dando sopa para serem derrubadas. Muito pelo contrário, as árvores têm que ser plantadas, cuidadas e colhidas no seu tempo certo, respeitando o meio-ambiente. As árvores demoram para crescer (7 anos para o eucalipto e 14 anos para o pinus). Longos ciclos requerem uma vasta área plantada, mais precisamente uma área equivalente a 250 mil campos de futebol, localizada nos estados do Paraná e Santa Catarina. Uma área vasta e longos ciclos de vida das árvores requerem um planejamento e um gerenciamento cuidadosos.

Profissionais

Os fatos citados acima requerem profissionais dedicados e talentosos. E chegamos aqui ao primeiro grande segredo de uma boa empresa: ter bons profissionais e cuidar bem destes, com muito respeito, ética e transparência, treinamento, suporte quando necessário, benefícios além do salário. A Klabin ganhou vários prêmios recentemente, por boas práticas de Gente e Gestão: 50 empresas mais amadas pela Love Mondays, Prêmio Ser Humano 2016 – ABRH-PR, Empresa do ano 2015 pelo Grupo gestão RH, etc..
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Relação com comunidades
Uma área vasta em um lugar remoto requer pessoas tomando conta. E é isto o que acontece, com monitoramento constante, vigias, guardas de incêndio… Mas, além dos profissionais próprios, é necessário algo muito mais importante, e aqui vai o segundo segredo: uma relação de muita confiança e respeito com as comunidades locais. Dar valor às pessoas ao redor, através de oportunidades de trabalho e de comércio, programas de incentivo socioambiental, fomento, educação técnica e ambiental.
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Uma empresa que cuida das pessoas dentro e fora dela, também será muito bem querida e cuidada por estas. É uma relação de reciprocidade. A nível local tais programas são custos para a empresa, mas a nível global, o que são as pessoas ao nosso redor senão nossos vizinhos, parentes e amigos?

Meio-Ambiente
A natureza não é feita apenas de eucalipto e pinus, mas sim de centenas de espécies diferentes de plantas e animais. Para preservar a biodiversidade e minimizar o impacto da operação humana, são tomadas ações como a manutenção de área nativa (para cada hectare de área plantada há um hectare de mata nativa preservada), o plantio em mosaico (alternando mata nativa e área plantada), certificações internacionais (selo FSC – Forest Stewarship Council), orientação de melhores práticas junto a comunidades (Programa Mata Legal), monitoramento da fauna, flora, nascentes de rios e outros.
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Plantio em mosaico
Cuidar do meio-ambiente significa custos, custos representam EBITDA trimestral menor. Mas o EBITDA mede somente o curto prazo. A natureza funciona a longo prazo, não está nem aí para o trimestre. A natureza não aceita desaforo, se não for bem cuidada, um dia chega a conta, com juros e correção monetária, em proporções capazes de expulsar qualquer empresa: erosão, pragas, falta de água, desequilíbrio climático. Este é o terceiro segredo. A empresa deve ter um grande respeito com a natureza, para viver 118 anos.
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Desempenho Econômico
Por fim, deve-se buscar um desempenho econômico de ponta, performance melhorada continuamente, baixos custos, alta qualidade dos produtos, inovação, pesquisa. Mas isto praticamente todas as boas empresas fazem, não é um grande segredo e não será a ênfase deste texto.

Parabéns!
Respeito ao meio-ambiente, respeito às comunidades, respeito aos funcionários e contínua performance econômica.
Parabéns à Klabin S.A. pelos seus 118 anos, e que venham mais 118 pela frente!
*Este texto é apenas uma homenagem dos autores, não representa necessariamente a opinião da empresa.
Puma
Saiba mais:

​ O maior trote científico da história

“Treino é treino, jogo é jogo”, já dizia o ditador popular futebolístico.
 

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Num treino ninguém tem o mesmo nível de seriedade, de stress, de um jogo de verdade.

 

Agora, imagine um time que tem um jogo a cada dez anos. Mas este jogo pode ocorrer a

 

qualquer momento, inesperadamente. Ou seja, para ganhar tem que estar preparado. Mas como se preparar só treinando, sem jogar?

 

É mais ou menos isso que acontece em alguns eventos da vida real. Uma oportunidade de uma vida surge em um momento, e quem estará preparado para tal?

 


 
LIGO
 
O mesmo problema aconteceu num dos maiores projetos do mundo contemporâneo: o Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO), que detectou as ondas gravitacionais de Einstein. A história completa encontra-se neste link: http://nautil.us/issue/42/fakes/the-cosmologists-who-faked-it, pelos pesquisadores Jonah Kanner e Alan Weistein, e a solução deles é surpreendente.

 

O projeto LIGO foi construido para capturar as tais ondas gravitacionais de Einstein. Elas tinham sido previstas há 100 anos, mas até o momento ninguém havia conseguido construir equipamentos sensíveis o suficiente para captá-las.
 
O LIGO consiste em 2 detectores gigantescos em formato de L com braços de 4 km, mantendo vácuo interno, e com espelhos refletindo raios laser, ao custo de alguns bilhões de dólares.

 
 
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Portanto, imagine o problema. Um equipamento gigantesco, projetado para capturar onduletas minúsculas a bilhões de anos-luz de distância, sem que ninguém saiba exatamente se elas serão mesmo capturadas, quando aparecerão, e qual o formato delas… É a situação descrita, de treinos eternos por dezenas de anos, até que um dia pode (ou não) ter o jogo real.
 


O “trote”
 
A solução: aplicar um “trote” em si mesmos.
 
Em 2009, os pesquisadores criaram um mecanismo na qual uma equipe pequena (5 pessoas) poderia criar um evento falso. Eles poderiam adicionar secretamente um sinal simulando a tal onda gravitacional, e enganar o resto do time. Esta equipe secreta deveria manter sigilo absoluto nesta operação, sendo que nem a alta gerência poderia saber se a informação detectada era fake ou não.
 
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Toda a equipe de pesquisa sabia que havia a possibilidade de sinais falsos serem propositalmente gerados, mas não saberiam se um sinal específico era verdadeiro ou falso. Este mecanismo é muito bom, porque obriga que os pesquisadores façam um check duplo, triplo, quádruplo, em todas as hipóteses imagináveis: erro nos sensores, ruído vindo de alguma outra fonte, problemas mecânicos nos equipamentos, erros de interpretação, etc… Seria uma forma de policiar a si mesmos, já que é muito fácil cometer um erro nesta situação.
 
Eis que, em setembro de 2010, o LIGO captou um sinal. Era um sinal diferente de todo ruído terrestre até então captado. Os pesquisadores se movimentaram, concluíram que era um evento estranho, e passaram a investigar o mesmo a fundo. Chamaram este sinal de “Cachorro Grande”, por esta ter ocorrido na direção da constelação de “Canis Major”.
 
Assim, pelos próximos 6 meses os pesquisadores diretamente ligados ao LIGO, e uma rede de mais de 700 pesquisadores ao redor do mundo, passaram a investigar todos os detalhes do evento “Cachorro Grande”. Seria um erro de medida? Seria isto real? Haveria problemas no hardware? Erro de interpretação? Como fazer para tanta gente assim concordar com as conclusões de uma investigação tão fora da realidade quanto esta?
 
Em março de 2011, após infindáveis discussões, eles tinham fechado um artigo descrevendo o evento de detecção de ondas gravitacionais. Um grupo de mais de 300 cientistas se reuniu num hotel na Califórnia, com mais algumas centenas conectados pela internet, e votaram a submissão do artigo para uma revista científica. Após inúmeros discursos, contestações, divagações, eles finalmente aprovaram a publicação do artigo.
 
Então o diretor do Laboratório LIGO, Jay Marx, tomou o palco. Ele estava carregando um envelope no seu bolso havia seis meses. O envelope continha a verdade, sobre os dados serem falsos ou não. Seria a diferença entre um prêmio Nobel ou alguém rindo da cara deles. E, finalmente, ele abriu o envelope, para dizer que esses dados eram falsos, injetados artificialmente.
 
Os pesquisadores abriram champanhe, assim mesmo. Se o jogo não foi jogado, pelo menos tinha sido um treino da mais alta intensidade, capacitando-os para um futuro jogo real.
 


O Jogo Real
 
Cinco anos depois, no final de 2015, os detectores do LIGO captaram um sinal diferente de tudo o que já tinham visto antes.
 
Eles tomaram como base o checklist e os questionamentos do trote de 5 anos atrás, para a checagem de tudo o que seria possível. E o sinal passou por todos os critérios. Desta vez, não era um trote programado. Eram as ondas gravitacionais, com nível de confiança de 99.9999 porcento.
 
Cinco meses depois, eles tinham plena confiança de que finalmente tinham conseguido detectar as tais ondas gravitacionais. Após algumas dezenas de publicações, (https://www.ligo.caltech.edu/page/detection-companion-papers), eles anunciaram publicamente a descoberta das ondas gravitacionais (e o ponto alto de suas carreiras é que ganharam um post neste blog, sobre as ondas gravitacionais, clicando aqui).
 
Como se preparar para um grande jogo, que acontece esporadicamente ou nem venha a acontecer? Uma das formas é com simulações do jogo, assim como fazemos simulados de cursinho para o vestibular.

  

A cota para japoneses na Seleção Brasileira de Futebol

Nunca é tarde para corrigir uma injustiça histórica!

E a injustiça à que me refiro é a completa e total ausência de brasileiros de origem asiática na Seleção Brasileira de Futebol! Cotas já!

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A imigração japonesa ao Brasil teve início no começo dos anos 1900. Era um período turbulento, logo após a proclamação da República do Brasil (15/11/1889), em que a escravatura formal tinha sido abolida, mas começava uma escravatura informal: a de povos imigrantes de outros lugares do mundo, para trabalhar na lavoura do café e de outras culturas, em condições análogas à escravidão.

Hoje estamos entre a quarta e quinta geração de descendentes de japoneses no Brasil. Estes representam mais ou menos 1% da população total brasileira. Ao longo dos últimos 100 anos, estes contribuíram magnificamente para a construção do Brasil, com o seu  sangue, suor e lágrimas. Também ajudaram a difundir a cultura oriental, como o tofu, o sushi, o sashimi, Jaspion e Changeman.

Porém, na história do futebol brasileiro, não há um único representante nipo-brasileiro convocado para a Seleção. Ao longo da gloriosa e exitosa trajetória da seleção canarinho no mundo, vimos Pelé, Garrincha, Sócrates, Zico, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Kaká, Neymar, mas nenhum ídolo representando os sofridos descendentes japoneses. Pelo percentual, 1% daria um representante a cada 100. Mas o que temos é zero representantes, dentre uns 1000 que já vestiram a camisa. É isto justo?

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A mesma situação ocorre nos clubes da série A. Não há descendentes de japoneses em Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio, Internacional, ou em outro grande clube, olhando o Brasil de ponta a ponta. Pior ainda, a discriminação é tanta, que nem clubes menores, da série B ou C, contam com parcela expressiva de jogadores de origem nipônica.
Os últimos de que me lembro, se é que ainda estão na ativa, são os grandes craques Sandro Hiroshi e Rodrigo Tabata.

 

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Sandro Hiroshi
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Rodrigo Tabata

Também tinha um tal de Zhizhao no Corinthians, mas este era chinês nato, não descendente (portanto não elegível a cotas), além disso era apenas uma ação de marketing. Era um perna-de-pau completo, jogar que é bom, nada.

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Uma cota é uma ação afirmativa com o objetivo de corrigir desigualdades históricas.

As cotas na seleção brasileira serviriam para minimizar a diferença de oportunidades. Seria mais justo Sandro Hiroshi competir com o estrelato de Neymar se os dois fossem convocados igualmente para a seleção.

Outro argumento é que um jogador cotista não teria a qualidade de um Neymar, ou algum outro jogador de ponta. Besteira. Se for o caso, a CBF poderia oferecer aulas de nivelamento de futebol aos cotistas. Além disso, todos nascem iguais, não? Segundo o princípio da igualdade, definido no artigo 5º da Constituição, “todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”.

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Sei que o ideal seria estimular os descendentes de japoneses a se destacarem nas divisões de base dos clubes, mas isto demoraria algumas décadas para surtir efeito. O uso de cotas permitiria que esta injustiça histórica começasse a ser remediada agora. Ou seja, encurtaria em dezenas de anos a correção para o problema citado.

Muitos devem estar pensando que tal argumento é absurdo. Mas, absurdo por quê? Não teriam os descendentes de japoneses os mesmos direitos de correção à injustiças históricas que outras minorias em outras áreas? Todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros, parafraseando George Orwell?

Portanto, pretendo tornar público o debate sobre a intensa desigualdade futebolística representativa no país do Futebol.

Campanha Sandro Hiroshi na Seleção Brasileira já!

A Fábula da Gestão pelo Chicote

Hércules era um dos cavalos que trabalhavam na fazenda Mundo.

A fazenda estava sob nova direção. Durante vários anos, os Touros tinham o seu controle. Mas, devido a alguns anos de baixa produtividade, os acionistas contrataram uma empresa de consultoria, a Raposa Gestão de Negócios. Esta fez um power point identificando excesso de pessoal, salários acima do mercado, falta de metas e falta de processos.

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Diante do potencial de ganho imediato de mais de 20% prometido pelo power point, os acionistas compuseram uma nova diretoria, composta inteiramente pelos Lobos. Os Lobos tinham feito os melhores MBA e trabalhado muito próximos ao mercado financeiro. Nada conheciam de plantar ou colher. Eles diziam que não precisavam saber de operar o negócio, mas sim analisar os números que este gerava.

Já no primeiro dia da nova gestão, eles demitiram 40% dos funcionários, extinguiram algumas seções supérfluas como o atendimento a cliente, e mudaram totalmente o sistema de gestão: a gestão pelo chicote.

Foi no novo sistema de gestão pelo chicote, que Hércules sentiu mais. Os novos diretores eram extremamente agressivos, e toda a gestão abaixo seguia a mesma linha.

Os novos supervisores da fazenda eram Porcos. De agora em diante, eles tinham dois instrumentos a serem utilizados: a cenoura e o chicote.

Com eles, era “sangue nos olhos” e “faca nos dentes”. Metas agressivas a serem batidas, mês após mês. Aos poucos que se destacavam, o prêmio: as cenouras. Hércules gostava bastante de cenouras. Receber cenouras era viciante. Um mês com cenouras, e ninguém mais queria comer alfafa, que era seca e sem gosto. Até os filhos de Hércules começavam a pedir cenouras todos os dias.

Aos muitos que ficavam abaixo das metas, o chicote. Algumas ofensas verbais, “palerma”, “retardado”, “fracote”, “brochado”, descendo ao nível de palavrões muito mais pesados. Broncas em público, torturas verbais. Aos 10% piores funcionários do mês, a humilhação total. Estes tinham que passar por um “trote”, que variava todos os meses: ser alvejado por ovos, ficar um dia vestido de galinha, ajoelhar-se e fazer reverências para todos os que encontrassem na fazenda… Quem não fizesse isso, era despedido. Às vezes, os coitados eram despedidos mesmo passando pelo trote.

Hércules viu um amigo, o Sansão, passando por um desses trotes. Ele não tinha conseguido cumprir a meta de área de terra arada. Sansão passou o dia se arrastando na lama, e no fim da tarde foi demitido assim mesmo. Hércules não queria passar pelo mesma humilhação, e passou a trabalhar mais horas por dia, com mais afinco, a fim de cumprir as metas estabelecidas e levar as cenouras para casa.

Os resultados foram aparecendo para a Fazenda. Mais produção, com menos mão-de-obra. Menor custos, porque as cenouras eram muito mais escassas do que o chicote. Diretores Lobos aparecendo em capas de revistas de negócios, e acionistas felizes.

Mas, na linha de produção, Hércules viu coisas assustadoras. Um dos supervisores porcos, a fim de cumprir a meta da semana (agora era semanal), roubou uma fatia da produção de outro supervisor, sendo este último humilhado e demitido a seguir. Ele continuou a fazer o mesmo todas as vezes em que não conseguia atingir a meta, até que um dia ele sofreu do mesmo veneno: roubaram a sua produção, e ele caiu em desgraça.

Tinha outro supervisor que não queria parar para realizar manutenção preventiva nos equipamentos. Parar significava perder uns 10% de produção da semana, o que era inaceitável para alguém que sempre tinha batido metas. Ele passou vários meses discursando que as ferramentas não precisavam de manutenção. Até que um dia, um dos carrinhos que levava a produção tombou, matando dois burros, duas galinha e um gato. Mas tudo bem, diziam os Lobos, eram só animais mesmo.

A qualidade também caiu bastante. Como a produção era medida por peso, os supervisores passaram a colocar junto pedaços que antes jogavam fora, como casca, galho, terra. O controle de qualidade de vez em quando barrava algum lote, e quando isto acontecia, aconteciam brigas homéricas, a ponto de chegar às vias de fato. Afinal, um lote barrado significava ficar entre os 10% piores. E, muitas vezes, a direção também fazia vista grossa à qualidade, já que o consumidor final não sabe diferenciar mesmo um produto top de outro mais ou menos.

O pior de tudo era a visão míope em relação ao futuro, meio-ambiente e comunidades. Por exemplo, eles usavam o terreno até a exaustão, e não tomavam medida alguma para preservar o mesmo após a colheita (porque custa dinheiro e não gera produção). Resultado: erosão, que não vai gerar efeitos imediatos, mas alguém vai sofrer com isto daqui a uns 10 anos.

Entretanto, Hércules não estava muito preocupado com tudo isso. Se os diretores tinham MBA, era porque sabiam o que estavam fazendo. A ele, só cabia fazer o seu trabalho e cumprir as metas. Contudo, mês após mês, as metas foram ficando mais e mais difíceis. Se ele produzia 100, no mês seguinte pediam 110, depois 120, 130. Afinal, se a régua não subisse, qual seria o propósito de ter metas desafiadoras? Hércules passou a trabalhar até tarde da noite, e em fins de semana. Férias ou feriados, só se fosse para adiantar um pouco das metas do período seguinte. Não tinha tempo de pensar, de cuidar dos filhos ou de si mesmo.

Enfim, no mesmo mês em o diretor geral da fazenda foi capa da revista “Tubarões S.A.”, Hércules bateu o seu recorde pessoal de produção e sofreu um ataque cardíaco fulminante, caindo duro, sem tempo nem de se despedir de seus entes queridos. “Imprevistos acontecem”, comentou o seu supervisor, lamentando a falta que Hércules vai fazer para ele cumprir a cota da semana.

 

 

Solução do Desafio do Penrose Institute

Neste post, foi apresentado o interessante Desafio do Instituto Penrose. Interessante porque os melhores supercomputadores não conseguem resolver, mas é mais ou menos simples para um ser humano.

https://ideiasesquecidas.com/2017/03/30/desafio-do-penrose-institute/

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Brancas jogam e empatam ou vencem

A chave é perceber que as peças Pretas estão travadas. As únicas peças que se movem são os bispos pretos, que não ameaçam o Rei Branco enquanto o mesmo estiver numa casa branca.

Portanto, basta o Rei Branco ficar andando aleatoriamente pelas casas brancas. Nunca será ameaçado. Após enfadonhos 50 movimentos de cada lado, o jogo será considerado empatado pela regra abaixo.

Regra dos cinquenta movimentos: não há captura ou movimento de peão nos últimos 50 movimentos de cada jogador.

 

Podem existir outras respostas, afinal, a imaginação humana é inigualável!

Alguma outra solução?

 

Solução alternativa. A solução do petista.

 

Discutir com petista é como jogar xadrez com pombo. Ele vai derrubar as peças, cagar no tabuleiro e sair cantando vitória.

 

 

 

 

 

Por que dou esmolas?

Até os 30 anos de idade, nunca dei um centavo de esmola.

 

Moro em São Paulo e já morei no Rio de Janeiro. Nestas grandes metrópoles, o que mais se vê são pedintes: na rua, no trânsito, no ônibus, no metrô.

 

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Às vezes, dava pena. Um dia vi uma mulher de algum país latino com três filhos pequenos, próximo a uma feira-livre. Outro dia, um homem bem asseado parecia não estar mentindo quando pediu ajuda no metrô, para ele conseguir pegar um ônibus para casa – dizia que tinha sido roubado e esta era uma ajuda pontual. Mas eu mantinha a minha firme convicção de não dar esmolas.

 

Me perguntei de onde vinha tanta convicção. Era uma justificativa moral. Desde quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia: “nunca dê esmolas”. “É ruim dar esmolas, porque acostuma o mendigo”. Esta mensagem, repetida à exaustão por inúmeros anos, era a minha base moral.

 

O interessante é que, para ratificar tal regra, juntei outras regras que surgiam. No metrô de SP, de tempos em tempos o alto-falante anuncia: “Não dê esmolas no metrô. Doe para uma instituição de caridade”. Além disso, vira e mexe algum especialista conta na TV alguma história de pessoas que não aceitam ajuda de instuições porque preferem ficar nas ruas, perpetuando o ciclo.

 

“Não darás esmolas” era uma regra moral no sentido de ser um tabela de condutas a serem seguidas, do que é certo ou errado. E era o metrô que dizia para não dar esmolas e eu só seguia as ordens, justificando que, no fundo, isto era melhor para o pedinte…

 

Contudo, com o passar do tempo, passei a questionar a moral vigente até então.

 

Qual o problema em dar esmolas? É claro que se o mendigo gastar em bebidas alcoólicas ou drogas, é ruim para todo mundo. Mas, e num caso em que a pessoa parece ser idônea? E se, a mãe fugiu do interior do Peru com três filhos e veio parar em São Paulo?

 

Doar para uma instituição de caridade é muito indireto, talvez a ajuda nunca chegue para a pessoa que precisa, da forma que precisa.

 
Não acho que haja uma regra absoluta, que valha para todos os casos, “Nunca doe” ou “Sempre doe”.

Passei a dar um pouquinho de esmolas, de pouco em pouco. No início, parecia que eu estava quebrando alguma regra, me tornando um “vilão moral”. Era um conflito entre convicções passadas e reflexões presentes. Eu tinha que trocar a tabela da verdade moral que me guiara por décadas. Apagar o mandamento antigo, “Não darás esmolas”, e escrever outro, “Darás esmolas sim”.

 

Das primeiras esmolas, percebi o seguinte. Para mim, felizmente, não faz a menor falta ter um ou dois reais a menos no bolso. Tive a sorte e condições de ter uma formação educacional forte e bons trabalhos em excelentes empresas. Entretanto, para quem não tem nada, um real pode significar muito: um lanche melhor, um suco, um pouco mais de conforto. Quem não tem nada está num ciclo vicioso de não ter qualificação e não ter potencial de empregabilidade, dificultando mais ainda a fuga deste ciclo. Como ensinar a pescar amanhã, se ele não tem como sobreviver hoje?

 

Minha nova regra é: dou o que tiver de moedas e notas pequenas, se a pessoa parecer ter um mínimo de idoneidade. Às vezes, também faço doações maiores para alguma instituição ou causa em que acredito. Dar esmolas não exclui contribuições para instituições de caridade, e vice-versa.

 

Não sei o que é certo ou errado, não tenho onisciência para saber se este ato vai ajudar ou prejudicar o pedinte. Não há certo e errado absolutos, e ninguém é onisciente. Portanto, sigo as minhas convicções.

 

Fiquei muito aliviado em ter esta nova regra moral quando, esperando o ônibus num ponto, passou um velhinho de uns 80 anos vendendo um plástico de guardar crachá. Ele não era um pedinte. Tinha dificuldades em andar, e vestia roupas amarrotadas. Provavelmente era alguém sobrevivendo humildemente com uma parca aposentadoria, tentando ganhar alguns trocados a mais, após passar a vida toda trabalhando. Pela regra moral antiga, eu simplesmente não compraria o plástico de crachá, afinal, eu não estava precisando. Pela nova regra, comprei o tal plástico. O velhinho disse: “Muito obrigado, filho”.
Reflexão 

Dar esmolas é bom ou ruim?

Por que dar esmolas ou não?

​ Conselho sobre atalhos

“Qual o conselho de vida que você daria para um adolescente de 17 anos, de família humilde, que está começando a vida profissional agora?”
Esta pergunta me foi feita há uns 3 dias atrás, de bate-pronto.
A minha resposta foi:
“Não tome atalhos”
Há várias situações na vida em que podemos escolher alguns caminhos. O caminho normal é trabalhoso, lento, porém correto e honesto. Como é um caminho difícil, é possível que surjam pessoas oferecendo um caminho alternativo, com promessas de sucesso fácil e rápido. Tais caminhos são sempre perigosos e desonestos. Não compensa pegar o atalho. Alguém sempre será prejudicado, além de prejudicar a si mesmo, cedo ou tarde.
Quer chegar logo no fim? A vida te mostrará a porta de saída.