Jô, Rodrigo Caio, Maquiavel e Kant

O futebol não vive sem uma boa polêmica, não?

Image result for jo mao bola

Quem estará correto, o desonesto, trapaceiro e espertalhão jogador Jô, que deliberadamente meteu a mão na bola para fazer o gol, ou o bonzinho, honesto e otário jogador Rodrigo Caio, que num lance em que o adversário foi punido (por ironia do destino, o próprio Jô), assumiu a sua culpa e livrou um cartão amarelo para o espertão?

Levar vantagem sobre um erro ou não?

Esta discussão é antiga, e envolve algumas das maiores cabeças da história, numa discussão infindável sobre valores morais.

 


 

Nicolau Maquiavel

O gol de mão deliberado de Jô lembra uma frase antiga: “Os fins justificam os meios”. A autoria desta frase é atribuída ao pensador italiano Nicolau Maquiavel, 1469 – 1527. Ele escreveu o livro “O Príncipe”, inspirado na família Médici – poderosos nobres da época – e em outros personagens históricos.

Image result for the prince machiavelli

É possível que ele não seja o autor literal da frase “Os fins justificam os meios”, mas esta se encaixa muito bem em sua proposta. “O Príncipe” é como se fosse um manual para que um príncipe se mantenha no poder. O livro contém dicas como “seja benevolente, caridoso, religioso”. Contudo, o governante não precisava sê-lo de fato, apenas nas aparências, pois precisava do apoio da população.

Ele também diz que para o governante é muito mais seguro ser temido do que amado. Outra frase é a de não tentar vencer pela força, quando é possível vencer pela astúcia.

Por essas e outras, o termo “maquiavélico” se traduz em: que envolve perfídia, falsidade; doloso, pérfido.

Mas, antes de tacar pedras, lembre-se de que todos têm o lado Maquiavel. É o lado pragmático, de atingir um objetivo mesmo descumprindo algumas regras.

Maquiavel coloca ênfase total no resultado, e zero ênfase na causa que gerou o resultado. Ele é bastante prático, e aplaudiria o gol de mão de Jô.

Imaginemos outro dilema moral. Se eu voltasse no tempo e estivesse diante de Hitler nenê, eu daria veneno para ele? Por um lado, tirar Hitler do mapa ajudaria a evitar a Segunda Guerra Mundial, que devastou a Europa inteira e tirou a vida de milhões de pessoas. Por outro lado, eu estaria cometendo assassinato.

A resposta de Maquiavel seria bem simples. Acabe com o Hitler nenê. Salve o mundo. E durma tranquilo.

 


 

Immanuel Kant

 

O pensador mais Rodrigo Caio de todos é o grande filósofo alemão Immanuel Kant, 1724 – 1804. Ele tentou criar uma fundamentação moral perfeita, que constrastasse com a antiga moral grega e a moral da igreja católica.

Image result for kant immanuel

Kant criou um sistema moral que olha para as causas, e não para as consequências. Se eu me mantive fiel aos princípios ao executar a ação, fiz um bom ato. Rodrigo Caio tem um princípio de ser honesto e falar a verdade, então ele se denunciou.

O primeiro imperativo moral de Kant é uma espécie de Regra de Ouro, porém bem mais complicada: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” É mais ou menos assim. A regra de ouro “faça aos outros apenas o que faria a si mesmo” é bem legal, mas tem defeitos – digamos, um sadomasoquista pode causar dor nos outros porque também gostaria de sentir dor. Então Kant criou uma regra de ouro estendida: ao invés de envolver duas pessoas, envolveria todas, assim consertando a regra.

Uma derivação do conceito de Kant é a de que não devemos usar pessoas como um meio, apenas como um fim em si.

 

O que aconteceria no caso de Hitler nenê? Kant diria que não devemos assassinar o Hitler nenê, porque assassinato é ruim. Entretanto, causar a Segunda Guerra não é um ato pior ainda?

E se um ladrão entrasse em casa, e a vida da minha família dependesse de uma mentira, o que faria Kant? Manteria-se fiel ao princípio de não mentir e condenaria a família? O próprio Kant deu a sua resposta, quando perguntado sobre um dilema semelhante: contaria a verdade ao ladrão e condenaria a família, mantendo-se fiel ao seu princípio moral de ser honesto.

 

Nota-se claramente que a filosofia de Kant pode ser interessante para o Sr. Spock, o alienígena perfeitamente racional da série Star Trekk. Mas não reflete o comportamento do ser humano, que no final das contas é um hipócrita: fala como Kant, age como Maquiavel.

 


 

John Stuart Mill

Uma última linha de raciocínio: o Utilitarismo do pensador inglês John Stuart Mill, 1806 – 1873.

Image result for john stuart mill utilitarianism

O utilitarismos também olha para os resultados, como Maquiavel. Mas, ao invés de considerar o resultado para si mesmo, como no caso do Príncipe, considera o resultado para a humanidade inteira. É como fazer uma conta aritmética. Se a quantidade de pessoas felizes foi maior do que a quantidade de pessoas infelizes, o ato é bom.

No caso de Hitler nenê, como isto traria a felicidade de milhões de pessoas a mais, é um bom ato.

No caso de Jô, depende. Como ele joga no Corinthians, e este tem mais torcida do que o adversário, foi um bom ato o gol de mão. Se ele jogasse num time pequeno contra o Corinthians, seria um ato ruim, porque mais gente ficaria infeliz (coincidentemente, a Rede Globo e grande parte dos juízes também pensam assim, rs).

Sempre achei o Utilitarismo muito esquisito. Como mensurar algo abstrato como a felicidade, e tomar uma decisão baseada numa conta de maior ou menor? Entretanto, há muitas decisões que o ser humano toma, que são fortemente utilitaristas.

Se há uma vacina para uma doença terrível, digamos um Ebola de nível mundial, mas essa vacina cura 60% das pessoas e mata 40%? Mill diria para mandar ver, aplicar a vacina. Para Maquiavel, depende dos objetivos do Príncipe liberar ou não a vacina. Para Kant, não é moral liberar a mesma.

Mas e se for uma vacina que cura 99,999% das pessoas, e pode afetar 0,001%?

E se curar 99,99999% das pessoas?

 

O grau de utilidade pode afetar a decisão.

Para fechar o tópico, um livro bem interessante é de Dan Ariely, sobre desonestidade.

Image result for dan ariely desonestidade

Em resumo, diz que todos nós somos desonestos. Alguns mais, outros menos. A grande maioria é só um pouquinho desonesta, um pouquinho suficiente para levar alguma vantagem (digamos embolsar 1 real do troco que veio errado), mas não tão grande a ponto de perturbar o sono (digamos, se veio 100 reais a mais no troco, devolvemos).

 


 

Conclusão

A conclusão é que escrevi um texto enorme para dizer que não há conclusão absoluta. O legal de filosofia é que para cada argumento, há um argumento diametralmente oposto, mas igualmente válido. Ou seja, é da consciência de cada um decidir o seu lado Jô, o seu lado Rodrigo Caio. Ou melhor, o seu lado Maquiavel, o seu lado Kant, ou o seu lado Stuart Mill.

Mas, na prática, eu não compraria um carro usado do jogador Jô.

 

 

 

Os juros compostos são mais poderosos do que o VPL

Plantar x Colher

Existe uma assimetria importante entre plantar e colher. E o que está no meio da assimetria é um fator extremamente pesado, que se chama Tempo.

Esta semana, eu e equipe envolvida estamos completando um trabalho muito importante. Mas este trabalho não começou ontem. Começou há mais de dois anos atrás, na forma de uma ideia amplamente debatida. Esta ideia gerou os primeiros passos, que envolviam obter e tratar dados. Este primeiro passo sozinho consumiu mais de 6 meses de trabalho só para deixar tudo corretamente encaminhado.

Um segundo passo foi a criação de um protótipo que fizesse exatamente o que a gente queria. E lá se foram mais alguns meses desenvolvendo, e outros tantos testando. Por fim, finalmente traduzir este trabalho para uma plataforma mais completa, final, que envolveu outros tantos meses pensando, trabalhando, aperfeiçoando.

As pessoas chegam e saem no meio do caminho. E, quem não sabe, pode dar o crédito somente ao elo final do trabalho. Mas, para tal elo final existir, foram necessários muitos elos básicos, desde o início até o fim.

Pode-se vender a mesma ideia para duas pessoas, mas ter resultados completamente diferentes no final das contas. As coisas que dão certo, não são por acaso. Não se pode olhar apenas para o resultado final.

 


 

O EBITDA trimestral

O mundo está cada vez ficando imediatista. Mede-se o desempenho do presidente de uma empresa pelo EBITDA trimestral, da mesma forma que se mede um técnico de futebol pelo placar da rodada: se perder três jogos seguidos, troca-se o técnico. Desta forma, contanto que o EBITDA continue bom, tudo está correndo bem, mesmo que uma empresa mal intencionada esteja empurrando para debaixo do tapete uma bola de neve de adversidades que vão cobrar o seu preço num futuro não tão distante.

O grande problema do tempo é que quem planta não é necessariamente quem colhe. Aliás, os melhores investimentos são os de longo prazo, onde certamente quem colhe não é o mesmo que plantou.

O Brasil de Lula colheu os resultados do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, que domou o dragão da hiperinflação e finalmente colocou o país no rumo que ele merece trilhar. O Brasil de hoje, que quase saiu dos eixos, é fruto de 13 anos de políticas populistas, imediatistas e sem fundamento. Neste exato momento, estamos novamente entrando nos eixos, aos poucos, com um gestão muito mais responsável.

Brasil árvore frutos FHC Lula Dilma

 

O ser humano tem extrema dificuldade de conviver com o tempo. Nós valorizamos muito mais o presente do que o futuro. Isto é bastante justificável, uma vez que não existe o longo prazo para quem não sobreviver ao curto prazo. O homem de neandertal precisava comer hoje, ao invés de guardar para um inseguro amanhã. Quem garantiria que o neandertal iria sobreviver para viver o amanhã? E quem garantiria que um lobo não acharia a refeição escondida? Quanto mais incerto o futuro, mais valor tem o presente.

O economista John Keynes diria que, a longo prazo, todos nós estaremos mortos.

 


VPL

A ferramenta matemática que comprova o poder do tempo presente é o tal do Valor Presente Líquido. Uma maçã hoje vale muito mais do que uma maçã amanhã. Tanto maior a taxa de desconto, mais vale o presente ao futuro.

Image result for valor presente líquido

Image result for valor presente líquido

Quanto maior a inflação, menos consigo saber o valor do dinheiro no futuro, portanto mais ênfase no agora. Quanto mais violenta a sociedade, menos ênfase no futuro – para que investir em estudos e num trabalho honesto, se tudo pode acabar de uma hora para outra? Melhor desfrutar do presente.

Mas o VPL não mede tudo. E o prazo de tempo além do VPL? E todo o resto que não está na conta?


 

Juros Compostos

Foi justamente a capacidade do ser humano de conseguir planejar o futuro que fez dele o que é hoje. A capacidade de poupar em tempos bons para sobreviver a tempos adversos, a capacidade de se sacrificar no presente para obter quantidades muito maiores no futuro. Estudar hoje para agregar mais valor amanhã. Um trabalho honesto e compassado ao invés de um atalho perigoso e incerto. Investir em tecnologia, sofrer um bocado por um tempo, para obter resultados muito melhores. Plantar hoje para colher amanhã.

Em contraponto ao pobre do VPL, a ferramenta que demonstra o poder do longo prazo são os Juros Compostos. Novamente, o Tempo, aquele elemento tão difícil de domar.
Os juros compostos dão retorno exponencial. Um pouquinho melhor hoje, um pouquinho melhor amanhã, passos pouco perceptíveis. Depois de um tempo, teremos um resultado centenas de vezes melhor do que aquele que ficou parado.

Related image

Admiro muito a filosofia oriental, japonesa e chinesa, de dar muita importância ao longo prazo. Eles preferem uma solução que dê resultados melhores no futuro, mesmo sendo mais cara hoje. Eles não se importam com perdas pequenas, contanto que isto esteja alinhado com o objetivo final de longo prazo da empreitada.

Segue um pequeno texto de Akio Morita, fundador da Sony, sobre o tema Longo Prazo.

Espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

Image result for akio morita

Os juros compostos são tão poderosos que sobrepujam a condição inicial, dado tempo suficiente. Um burro esforçado pode se dar muito melhor do que alguém inteligente, mas preguiçoso.

Keynes está muito errado. O longo prazo inevitavelmente chega. No longo prazo, nossos filhos colherão os frutos que estamos plantando hoje.

Resumo em uma fórmula:

1,01^100 >>>  0,99 ^100

 

Resumo em uma frase:

Os juros compostos são a força mais poderosa do universo – Albert Einstein.

​ Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Tenho uma biblioteca física com mais de 500 livros, e uma virtual com o triplo disto.

 

Esta é dividida em quatro macro seções: uma de exatas, outra de administração / economia, a terceira de filosofia e a quarta literatura em geral.

 

Só não tenho mais livros porque cheguei no limite físico do que cabe num apartamento.

 

Mas, suponha que estivesse me mudando para sempre para um lugar completamente novo, e tivesse que escolher apenas um único livro da biblioteca. Que livro eu levaria para uma ilha deserta, ou para um país do outro lado do mundo? 

 


 

Primeiro, o que não seria. Não seria nenhum livro técnico. Embora muito de minha formação tenha vindo desses livros, o conhecimento de matemática, engenharia e computação é puramente racional, não tem nada de emocional. Posso pegar um pdf desses livros e chegar no mesmo resultado.

 

Tenho uma coleção de livros do Peter Drucker. Fiquei fascinado por suas ideias e seu jeito de escrever. Mas não levaria um livro dele, ou algum outro de administração, pelo mesmo motivo de existir a alternativa digital. A internet acabou com a necessidade de livros físicos.

 

A área de filosofia tem muito material de qualidade. Desde livros de introdução, como o de Thomas Nagel, até a obras primas como o Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre (que nunca consegui ler, confesso). Da Política de Aristóteles até o Estrangeiro de Albert Camus, há muito material bom. Legal mesmo são as obras de Nietzsche, provocantes, insinuantes, politicamente incorretas.

 

Não levaria nenhum desses. O que eu levaria para uma ilha deserta é o “Think and Grow Rich”, de Napoleon Hill.

 

https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/51-NFfomQmL._SX349_BO1,204,203,200_.jpg

Pense e enriqueça

 

Napoleon Hill é um escritor de 100 anos atrás, autor de livros de auto-ajuda.
A receita é clássica: força de vontade, persistência, otimismo.

 

Não leio muito livros deste tipo, justamente pela fórmula ser conhecida, e também por uma abordagem assim não ter validade científica.

 

Porém, tem horas em que toda a matemática do mundo não vale nada, a gente precisa mesmo é uma dose de esperança, que pode ter raízes reais ou ilusórias.

 

Até hoje me lembro da história de Edwin C. Barnes. Um homem falido, que tinha um único desejo ardente: trabalhar com o grande inventor Thomas Edison. Edison é famoso por ter inventado a lâmpada elétrica, mas ele fez muito mais do que isso. Ele criou um império de produtos ligados à energia elétrica.

 

Barbes viajou num trem de carga, sem bagagem, sem dinheiro, unicamente para se encontrar com Edison. E, finalmente, lá estava ele, vestido como um mendigo, na frente do homem mais rico do mundo, afirmando com convicção: “Bom dia, sr. Edison. Vim fazer negócios com você!”

 

Independentemente do que Barnes disse, o que contou para Edison foram os seus olhos.

 

Alguém com a força de vontade e a determinação irradiada pelos olhos de Barnes, disposto a arriscar toda a sua vida por uma única oportunidade, não iria falhar.

 

Edison deu uma ocupação qualquer a Barnes, algo irrelevante para ele, porém de grande importância para Barnes, por ter a chance de estar em contato com o seu sonho.

 

Meses se passaram, anos se passaram, sem novidade alguma. Um dia, Barnes viu uma oportunidade. Ninguém queria vender um equipamento chamado “Edison dictating machine”, uma espécie de gravador. Barnes colocou toda a sua energia para vender esta máquina, e foi extremamente bem sucedido, inspirando até a criação de um slogan: “Feito por Edison, instalado por Barnes”.

 

Image result for edwin c. barnes

 

Barnes ganhou uma fortuna, vários milhões de dólares na época – o que corrigido para hoje, daria algumas centenas de milhões.

 

Este livro, cheio de histórias de patinhos feios que viraram príncipes, é o que eu certamente levaria para uma olha deserta.

 

Pode não ser científico, e pode talvez nem funcionar.
Mas com o ser humano é o contrário: só funciona se ele acreditar.
“Mais ouro foi extraído da cabeça do ser humano do que todas as minas do mundo”. Napoleon Hill.
“O vencedor nunca desiste, o desistente nunca vence”. Napoleon Hill.
Image result for napoleon hill
Related image
Related image

Links:

 

Que tal ser pontual nas reuniões?

O costume brasileiro de chegar atrasado é uma das maiores fontes de improdutividade que conheço.

https://i2.wp.com/www.desfavor.com/blog/wp-content/uploads/2014/10/eded-atraso.jpg

Um caso bem característico ocorreu comigo há poucos dias.

Fui convidado a representar a minha empresa numa reunião, com umas 15 outras empresas.

O horário do convite marcava início às 14:15h e fim às 16:30h. Obviamente, marcaram 14:15h para começar às 14:30h, sabendo que todo mundo chega atrasado mesmo.

O otário aqui chegou pontualmente às 14:15h, na verdade até uns minutos adiantado. Fui o segundo a chegar. Naquele momento, metade da própria equipe organizadora do evento ainda não tinha aparecido…

Os minutos do relógio foram passando. Às 14:30h as pessoas começaram a chegar de verdade, já que era óbvio que este era o horário desejado do início. E muita gente continuou a chegar.

Uns vinte minutos depois, quase 15h, finalmente o evento começou.

Teve uma apresentação dos organizadores, depois algumas rodadas de discussão. Falamos sobre 2 de 3 temas da pauta. Por volta de 17h, meia hora depois do combinado, os organizadores (será que merecem este nome?) deram o evento por encerrado, porque tinha gente com voo marcado, porque o tempo é curto para o tema, etc.  Inclusive, algumas pessoas já tinham saído da reunião.

Das 3h em que estive presente, somente 2h foram aproveitadas para a finalidade do encontro, produtividade de 66%.

Se a maioria fosse organizada, o evento poderia começar e terminar nos horários combinados, e daria para discutir os três temas da pauta. A sinergia viria da sincronização de 100% dos esforços de 100% das pessoas no período de tempo combinado.

É justo mobilizar pessoas de vários cantos de SP e do país, para desperdiçar o curto tempo delas?

No Japão e em vários outros países de primeiro mundo, o costume é exatamente o oposto. As pessoas chegam adiantadas à reunião. Chegar atrasado é um desrespeito aos colegas. Começar atrasado é um desrespeito a quem está presente. Terminar atrasado é um desrespeito aos compromissos seguintes.

 

O grande Peter Drucker já dizia. Ou você se reúne, ou você trabalha.

Isso porque ele não conhecia o jeitinho brasileiro. Senão, ele diria, “Ou você se reúne, ou fica esperando as pessoas chegarem, ou você trabalha”.

Chegar atrasado é atraso de vida.

 

 

 

 

O veneno da víbora não afeta um dragão

Um conselho de Nietzsche para aqueles que se incomodam com provocações alheias.


 

A picada da víbora

Um dia dormitava Zaratustra debaixo de uma figueira, pois fazia muito calor e com o braço cobria o rosto. Veio uma víbora e mordeu o seu pescoço, e ele lançou um grito de dor. Quando tirou o braço do rosto, olhou a serpente. Então a serpente reconheceu os olhos de Zaratustra, retorceu-se e quis fugir.

– Não, exclamou Zaratustra. Ainda não te agradeci! A tempo me despertaste. Grande ainda é meu caminho.

– Teu caminho agora é curto – disse tristemente a víbora – meu veneno mata.

Zaratustra pôs-se a rir.

– Quando matou a um dragão o veneno de uma serpente? -disse. Retoma o teu veneno, não és rica para dá-lo a mim. Então a víbora tornou a enroscar-se no seu pescoço e lambeu a ferida.

 

Quando Zaratustra contou esta história a seus discípulos, estes lhe perguntaram:

– E qual é, Zaratustra, a moral do conto?

Zaratustra respondeu:

– Os bons e os justos me chamam de destruidor da moral, meu conto é imoral. Mas, se tendes um inimigo, não lhe devolvais bem por mal, porque se veria humilhado: demonstrais, ao contrário, que lhe fizeste um bem. E em vez de humilhar, encoleriza-vos. E quando vos maldigam, não me agradas que queiras bendizer. Maldizei vós também!

 

Assim Falava Zaratustra – Friedrich Nietzsche.

 

Forgotten Lore

O nome deste blog, Forgotten Lore, vem do enigmático “O Corvo” (The Raven), do autor americano Edgar Allan Poe:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore

 

Este é um dos poemas mais conhecidos de Allan Poe. Foi escrito em 1845, e é citado e recitado diversas vezes ao longo da história.

https://www.eapoe.org/geninfo/zpf0003b.gif

Como o inglês dele é bem difícil, tive que ler, procurar no dicionário, reler diversas vezes para entender o poema…

No caso específico de Forgotten Lore.

Forgotten significa “esquecido”.
Lore significa “conhecimento” –  não conhecimento por conhecimento, mas um conhecimento valioso.

O significado de Lore, segundo o dictionary.com:

the body of knowledge, esp. of a traditional, anecdotal, or popular nature, on a particular subject.

(http://www.dictionary.com/browse/lore)

 

Portanto, Forgotten Lore pode ser interpretado como: Um conhecimento valioso esquecido em livros antigos.

 


 

Sonhando sonhos

O poema The Raven deve ser lido em voz alta, em inglês. Mesmo sem entender uma palavra do que está escrito, dá para perceber que este segue uma métrica bem definida e tem uma sonoridade agradável aos ouvidos.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Raven_Manet_D2.jpg

 

Além disso, tem várias outras passagens memoráveis e frases que viram citações conhecidas. Gosto muito deste trecho:

Dreaming dreams no mortal ever dared to dream before,

algo como “Sonhando sonhos que mortal nenhum jamais ousou sonhar”, em tradução livre.

Esta minha tradução é fácil de entender, mas destruiu a estrutura e a poética do texto.

Que tal a versão de alguém com um pouquinho mais de calibre?

Na tradução de Fernando Pessoa:

“tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais”

 

Machado de Assis também tem a sua tradução do Corvo:

“E sonho o que nenhum mortal há já sonhado”

 

E tem mais umas trinta traduções para o português, segundo este site que as compilou: http://www.elsonfroes.com.br/mpoe.htm

Os Simpsons também têm uma versão do corvo:

 

Vira e mexe, aparece alguma obra inspirada no Corvo, seja no cinema ou em outros meios artísticos.

Por fim, a minha preferida.

A canção “Velha roupa colorida”, de autoria de Belchior – falecido há pouco, em abril de 2017 – e imortalizada na voz de Elis Regina, faz várias citações ao “blackbird”.

Esta canção é muito bonita, mas a letra é indecifrável na primeira vez que se ouve. Mesmo ouvindo várias vezes, é difícil entender exatamente. Hoje em dia, é fácil pesquisar a letra na internet.

 

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho: Blackbird, o que se faz?
Raven never raven never raven

Blackbird me responde
Tudo já ficou pra trás
Raven never raven never raven

Assum-preto me responde
O passado nunca mais

 

Além da música ter um ritmo legal, ela é cheia de citações. Em parágrafo anterior, ela cita “She’s leaving home”, dos Beatles – em particular Paul McCartney. Também cita “Like a rolling stone”, de Bob Dylan.

O “poeta louco americano” só pode ser Allan Poe. Mas, quem sabe, também se refira a Paul McCartney – note que a sonoridade de Poe e Paul é a mesma. Enquanto o corvo é de Poe, o Blackbird é uma música de Paul – dos Beatles.

O “raven never” é uma clara mênção ao “nevermore” do poema.

Assum Preto é um pássaro preto do agreste nordestino. Mas também é uma música belíssima e triste do rei do baião, Luiz Gonzaga. Conta o tocante destino do assum preto, condenado a cantar cego, e traça um paralelo a ele mesmo, Luiz Gonzaga, quando perdeu a visão de um de seus olhos.

 

E tudo isso começou quando eu estava, um dia, folheando tomos de conhecimento esquecido…

e disse, o corvo, nunca mais!

 


Links

Original de Allan Poe
https://www.poetryfoundation.org/poems/48860/the-raven

Velha roupa colorida

https://www.letras.mus.br/elis-regina/91023/

Tradução de Fernando Pessoa
http://www.revistaprosaversoearte.com/o-corvo-edgar-allan-poe-traducao-fernando-pessoa/

Tradução de Machado de Assis
https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis)

 

 

Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
https://i0.wp.com/www.wallpaperawesome.com/wallpapers-awesome/wallpapers-famous-painting-artist-painter-brush-oil-on-canvas-awesome/wallpaper-vincent-van-gogh-bridge.jpg
Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
https://www.thetapestryhouse.com/media/transfer/img/fa195_starry_night_van_gogh_large.jpg
Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
https://mydailyartdisplay.files.wordpress.com/2012/01/vincent_van_gogh_00191.jpg?w=811&h=669
Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
https://i1.wp.com/oltreuomo.com/wp-content/uploads/2014/06/filosofi-e-donne-nietzsche.jpg
Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
Image result
Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
Image result for nietzsche insane
Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


Links

​O amante Halley

A Terra tem um amante, que a visita precisamente a cada 75 anos para lhe dar um beijo na bochecha.

Quando eu tinha uns 7 anos, em 1986, a notícia de que o cometa Halley viria nos visitar estava em todos os jornais e na TV. Se perdêssemos esta chance de vê-lo, só teríamos outra daqui a 75 anos.

Naquela época, eu pensei: “Como é que sabem que ele passa exatamente a cada 75 anos? Ninguém vive tanto tempo para ver o cometa passar várias vezes para ter certeza.”

E, com a precisão de um relógio, lá estava o cometa. Majestoso, com sua cauda característica, a brilhar no céu. Para falar a verdade, nunca vi o tal cometa, talvez por ser muito pequeno na época. Só vi umas fotos na TV.


 

Edmond Halley era um astrônomo, contemporâneo do grande físico Isaac Newton, no final dos anos 1600 e começo dos anos 1700.

Era a época das grandes descobertas astronômicas. Copérnico tinha tirado a Terra do centro do universo. Kepler tinha descoberto que a trajetória dos planetas era elíptica. Newton tinha descoberto as leis fundamentais da mecânica, que governam tanto a maçã que cai em sua cabeça, quanto a força de atração entre estrelas.

https://thonyc.files.wordpress.com/2016/05/newton.jpg?w=500

https://ideiasesquecidas.files.wordpress.com/2017/08/73b00-1448971600261.jpg?w=314&h=394
Um dos primeiros logos da Apple computer foi uma maçã do Newton

Isto tudo não era por acaso. Se hoje a tecnologia disruptiva é a computação, na época era a ótica. Algumas dezenas de anos com avanços tecnológicos impressionantes possibilitaram a criação de instrumentos óticos (telescópios e microscópios) cada vez mais sofisticados. A partir daí, uma legião de astrônomos começou a mapear os céus, criando uma base de dados. Esta base de dados possibilitou o cálculo como as trajetórias de Kepler.

A contribuição de Halley, especificamente, está na descrição que ele fez de 23 cometas: trajetórias, luminosidade, características.

Ao fazer este trabalho, ele notou um padrão – aliás, se fosse para descrever a ciência em um termo, eu usaria descoberta de padrões. Um corpo celeste muito parecido tinha feito a mesma trajetória nos anos de 1531, 1607 e 1682. A do ano de 1682 ele mesmo viu. A dos outros anos, por descrições em livros antigos.

Se os planetas giram em torno do Sol, por que os cometas seriam diferentes? Alguns deles devem girar em torno do Sol também – este era o pensamento de Halley. As três aparições não seriam de três corpos diferentes, mas sim do mesmo cometa.

Assim, ele calculou a trajetória do cometa e postulou que o mesmo apareceria em 1758. Ele não chegou a viver o suficiente para ver o seu cometa, mas precisamente no dia e hora do encontro, lá estava ele.

 

É como se fossem os ponteiros do relógio. Um grande, que gira em uma velocidade e trajetória, e um pequeno que gira em outra velocidade e trajetória. Mas sabe-se que exatamente à meia-noite eles se encontram e se tornam um.

halleytrajectory.JPG

 

Na história “Homens de boa fortuna” da série Sandman, há um personagem chamado Hob Gadling. Ele fez um trato com Sandman. Ele seria imortal e não envelheceria, bastando para isso ter um encontro com o mestre dos sonhos a cada 100 anos. A cada encontro em 100 anos, ele conta o que fez, os países que visitou, como fugiu para retornar anos depois fingindo ser o seu próprio filho…

O cometa Halley e a mãe Terra se encontram a cada 75 anos, e Halley conta as fofocas de Júpiter, as novidades do cinturão de Kuiper, e o surgimento de mais um anel de Saturno. Deve ser uma conversa interessante.

A próxima visita de Halley será precisamente no dia 28 Julho de 2061. Espero estar por aqui para rever este grande amigo.

 


 

https://en.wikipedia.org/wiki/Halley%27s_Comet

https://oglobo.globo.com/sociedade/ultima-passagem-do-cometa-halley-pelo-sistema-solar-completa-30-anos-18640940

https://en.wikipedia.org/wiki/Edmond_Halley

 

Onde está o cometa Halley?

Sobre sorte e oportunidades

Todos os dias, leio um capítulo do livro “The Daily Drucker”. O livro tem um texto curto de Peter Drucker para cada dia do ano.

O do dia de hoje (14/08) é sobre sorte e oportunidades.

 

https://i0.wp.com/cdn2.hubspot.net/hubfs/1415475/blog-files/in-luck-dest.jpg

A oportunidade está onde você a encontra – não é a oportunidade que te encontra.

 

A sorte sempre afeta o negócio e qualquer outra atividade humana. Mas a sorte sozinha nunca construiu um empreendimento.

 

Perigos e fraquezas indicam onde olhar para descobrir o potencial do negócio. Converter problemas e oportunidades traz um retorno extraordinário.

 

Faça as seguintes perguntas para encontrar oportunidades:

 

– Quais são as restrições e limitações da empresa?

– Onda há desbalanceamento de processos?

– Quais as ameaças ao negócio?

 

 

Eu, como consultor, tenho uma frase assim: a melhor situação é onde a grama está alta – qualquer ganho gerado será um ganho significativo.

A Teoria dos Cisnes Negros

Um resumo das ideias poderosas de Cisnes Negros, popularizadas por Nassim Taleb: eventos de baixa probabilidade, porém alto impacto.

São duas partes. Uma com as definições, e a segunda com ações que devemos tomar.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 1

Vivemos num mundo em que não conhecemos. Esta é a premissa básica da teoria dos Cisnes Negros, popularizada pelo pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele trabalhou por muito tempo como trader no mercado financeiro, e neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo virar pó em alguns dias.

https://fm.cnbc.com/applications/cnbc.com/resources/img/editorial/2015/10/13/103073957-GettyImages-475064080.1910x1000.jpg

Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, mas impacto extremamente elevado. É um outlier difícil de acontecer, mas que pode ocorrer um dia, e, se ocorrer, terá efeitos catastróficos.

Esta é a definição, mas não o problema real. O grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência de Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E, mesmo nos casos em que ocorreram, rapidamente o conhecimento humano se adapta para mostrar que o evento era previsível, não era tão aleatório assim. É o que Taleb chama de “falácia narrativa”. Um exemplo são os economistas “profetas” que afirmaram que “era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer, devido aos riscos dos títulos sub-prime”. Tudo isso a posteriori, é claro.

O termo Cisne Negro remete a uma história. No séc XVII pensava-se que todos os cisnes fossem brancos. Por mais cisnes que fossem vistos, eles eram todos brancos. Até que, na Austrália, foi descoberto o primeiro cisne negro. Apesar de milhares de anos de observações de cisnes brancos, bastou um único evento de cisne negro para derrubar a hipótese de que “todos os cisnes são brancos”. Este termo foi criado pelo filósofo inglês David Hume, nos anos 1700, justamente para demonstrar o “Problema da Indução”, ou seja, a fraqueza do nosso processo de raciocínio indutivo.

 


Não-linearidade do mundo

O mundo é não-linear.  A lei de potências governa o mundo, não a curva gaussiana de probabilidade normal.

Vale a pena pontuar alguns casos de não-linearidade histórica:  os ataques terroristas de 11/09/2001, o surgimento do Google, a crise financeira de 2008, o surgimento da internet,  o tsunami de 2004 na Indonésia. Nem a internet, nem o Google, foram previstos pelos livros de ficção científica, nem pelos acadêmicos e executivos.

Os ataques de 11/09 são um caso bastante ilustrativo. Foi algo completamente imprevisto, deixando o mundo inteiro em choque, e mudando completamente o rumo da história. O mundo ficou paranoico com o terrorismo. Dificilmente as guerras posteriores no Iraque e no Afeganistão teriam justificativas não fosse o combate ao terror.

A história é como uma caixa-preta. Conhecemos apenas os eventos da história, mas não os fatores que causaram o mesmo. Temos apenas a interpretação de historiadores, que é feita a posteriori e a partir de um ponto de vista subjetivo, não conhecemos os reais geradores dos eventos. Os eventos importantes são não-lineares. A história não rasteja, ela anda aos pulos. Entretanto, agimos como se fosse possível prever o curso da história, e pior ainda, mudá-lo.

Apesar de nossos avanços tecnológicos, ou talvez por causa deles, o futuro será governado cada vez mais por eventos extremos.

 


 

O desconhecido desconhecido

Há fatos que conhecemos, que conhecemos que desconhecemos, e os que desconhecemos que desconhecemos, e é neste domínio em que somos surpreendidos pelos cisnes negros.

Image result for unknown unknowns

A ciência, os acadêmicos e os executivos das empresas tendem a focar no que conhecemos, e passar a falsa impressão de que não há fatos que desconhecemos que desconhecemos. Todas as soluções caem em alguma categoria dentro do conhecimento existente. É como aquela piada, do bêbado que perdera a chave do carro no meio da rua, mas procurava a mesma debaixo do poste porque era o único lugar que tinha iluminação.

O mundo conhecido, dos acadêmicos e MBAs mundo afora, é o da curva gaussiana. Ela tem erroneamente tem o nome de “curva normal”, indicando que é fenômeno normal do mundo. Mas a curva normal ignora grandes variações, joga fora o desconhecido – ignora o não-linear.  Taleb chama o mundo gaussiano de “Mediocristão”.

Image result for gaussian

O mundo real é governado pelo não-linear, exponencial, Pareto, é regido por leis de potência e pelo improvável: alguns poucos ficam com tudo, alguns eventos são ordens de magnitude maiores dos que todos os que já ocorreram,  o que desconhecemos é muito maior do que o que conhecemos. Este é o “Extremistão”, em oposição ao “Mediocristão”: o mundo escalável, exponencial, o-vencedor-leva-tudo, onde o resultado é desproporcional ao volume de trabalho, onde pode-se ficar milionário ou falido num instante.

https://saylordotorg.github.io/text_intermediate-algebra/section_10/be58a68b58bdc66d83a4828361f157bc.png


 O problema do Peru

Um peru é alimentado todos os dias pelo seu dono, por 1000 dias. Baseado em modelos de forecast que extrapolam o passado, ele supõe que o dia 1001 também será um dia feliz, em que será alimentado por um ser humano. Entretanto, o dia 1001 é Natal, e o peru vai para o forno.

https://i1.wp.com/static3.businessinsider.com/image/5655f69c8430765e008b57c8-1200-900/taleb-turkey.png

Assim como no problema do peru, no mundo real a mesma mão que alimenta, pode ser a da degola.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 2

Como viver num mundo em que não conhecemos?

O passado pode não modelar completamente o futuro, quando estamos no Extremistão. Não conseguimos extrair informação de onde não existe.

Há três linhas de ação, com relação a opções para cisnes negros negativos, aproveitar cisnes negros positivos, e diminuir a ocorrência de cisnes negros .


 

Opções para Cisnes Negros negativos

Aceitar que não podemos prever o futuro implica em tomar medidas de precaução contra cisnes negros negativos: seguros, opções, planos B.

Taleb, por conta de sua formação como trader, explora bastante o uso de opções. Uma opção, no mercado financeiro, é um instrumento que dá o direito, mas não a obrigação, de comprar (ou vender) uma ação, num determinado momento a um determinado preço. Este direito não é de graça, é necessário pagar uma taxa, que na linguagem dos seguros é chamada de prêmio.

O seguro de veículos (ou casa, vida) é uma opção: pagando o prêmio do seguro, tenho a opção de “vender” (recuperar grande parte do valor) o automóvel à seguradora, no caso de problemas. Tenho o direito de fazer isto, mas não a obrigação. Se eu não exercer a opção dentro de um prazo, a seguradora fica com o prêmio.

Um seguro é uma opção de venda. Há no mercado financeiro a operação inversa: uma opção de compra. Posso comprar uma ação a um determinado valor, numa determinada data futura, pagando hoje um prêmio para obter este direito.

Image result for insurance

Em suma, ter opções de compra ou de venda, ter seguros para as coisas mais importantes, ter redundâncias, ter um estoque, uma reserva de valor, são formas de precaução contra eventos imprevistos – não podemos prever o futuro, mas nos precaver para o mesmo.

 

https://i0.wp.com/www.mailshark.com.au/wp-content/uploads/2014/11/MailShark-Options.jpg
Ter opções

 

A questão é que o preço do prêmio pode ser caro, e o evento pode nunca ocorrer, então muita gente opta por não ter esses seguros.

Nos dias de hoje, com a busca das empresas em enxugar custos e tornar-se eficiente, com metas de redução de custos em todo lugar, as redundâncias, seguros e estoques têm se tornado cada vez menores. Isto pode gerar um ganho no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo.

Desprezar o seguro porque o prêmio é caro e gerar ganhos de curto prazo em detrimento do longo é como contar os centavos dentro da variação da curva normal conhecida, ao invés de centenas de dólares da variação de uma curva exponencial desconhecida. É como recolher centavos à frente de um rolo compressor. É como olhar para as folhas das árvores e esquecer da floresta, ou como ficar contando as pulgas e deixar passar o elefante, é pensar pequeno e deixar escapar o grande.

A natureza é um exemplo de organismo resiliente. Os animais e plantas devem se adaptar ao meio ambiente e serem eficientes, mas também devem ser eficazes em sobreviver a longo prazo. Digamos que um mamífero tenha uma adaptação ótima ao ambiente, o que lhe permita viver sem gordura. Entretanto, suponha que esta evolução ocorreu fora de uma época glacial. Quando chegar a próxima era glacial, este mamífero não sobreviverá para deixar seus genes, ao passo que os mamíferos não tão ótimos, porém robustos, terão sobrevivido, gerando os descendentes do mundo atual.

 


 

Cisnes Negros positivos e Estratégia Barbell

Para os cisnes negros positivos, a recomendação é a oposta: expor-se ao risco. Muita exploração agressiva, tentativa e erro, participar de festas e conversar com desconhecidos completos, tentar algo que nunca fora feito antes. A grande maioria dessas tentativas vai dar em nada, mas um único acerto pode valer todas as tentativas.

Se, por um lado, uma estratégia é a de ter opções, seguros e robustez, por outro lado devemos explorar agressivamente as oportunidades, qual a proporção entre esses? Essa é a estratégia “barbell”, remetendo à imagem de uma barra de pesos: ser extremamente conservador em um extremo (digamos, 90% do investimento em títulos bastante sólidos, renda fixa, ouro) e extremamente agressivo em outro extremo (digamos 10% do investimento em opções de alta volatilidade).

https://s7d2.scene7.com/is/image/dkscdn/16FGEU300LBSTWTH7BRB_is/

A pior estratégia é ficar 100% no meio do caminho, nem tão conservador, nem tão agressivo: não há possibilidade de um cisne negro positivo, e também há risco de ser atingido por um cisne negro negativo.

 

Investidores-anjo não sabem qual a startup que vai realmente dar certo, então tendem a investir um valor pequeno (para o investidor, não para a startup) em várias empresas iniciantes, e acompanhar a evolução desta. O capitalismo, por permitir que centenas de milhares de empreendedores criem suas empresas, e principalmente, fracassem, permite que haja espaço para o surgimento de Apples e Microsofts, ao contrário do socialismo – em que a empresa estatal nunca fracassa porque é bancada por recursos públicos.

 


 

Ter a pele no jogo

O mundo contemporâneo está ficando cada mais conectado, com pessoas se especializando cada vez mais e empresas cada vez maiores. Isto traz um aumento proporcional na complexidade dos sistemas, e um loop de feedback cada vez mais distante e indiretos – as pessoas que tomam as decisões sentem cada vez menos os efeitos dessas decisões, o que faz com que elas não tenham a “pele no jogo”.

As empresas cada vez maiores podem ficar grandes demais para cair, exigindo algum socorro governamental quando isto acontece. Na prática, ocorre a privatização dos lucros, mas a socialização dos prejuízos, uma assimetria prejudicial à sociedade como um todo.

E, por serem grandes demais para ir à bancarrota, essas empresas podem tomar ações temerárias, como vender títulos podres a fim de obter ganhos de curto prazo – aumentando o tamanho do evento Cisne Negro – e com isso colocando em risco todo o sistema financeiro mundial.

Taleb é dos que defendem que empresas não podem se tornar “too big to fail” – evitar a complexidade na fonte, ao invés de ter a tarefa impossível de lidar com esta. Ele também é forte defensor da via negativa: simplificar ao invés de complicar, diminuir ao invés de aumentar, pequeno ao invés do gigante, projetos exequíveis e falíveis passo a passo.

 


 

Conclusões

Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.

Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia.  Há desconhecidos desconhecidos que fogem ao nosso controle. É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência e as certezas e abraçar a aleatoriedade.

Para explorar oportunidades, exploração agressiva de tentativa e erro na prática (não na teoria), heurísticas, exposição (controlada) aos riscos, em domínios escaláveis (Extremistão).

Em termos de projetos, é melhor ter vários ciclos simples e rápidos de tentativa e erro no mundo real do que por um mega projeto planejado detalhe a detalhe do começo ao fim.

Vivemos em mundo que não conhecemos.

Resumo em uma frase: Não seja o peru.

 


 

Links

Vale a pena ler os seguintes livros.

 

A Lógica do Cisne Negro

https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/61tYtIS3SmL.jpg

 

 

Iludidos pelo Acaso

Image result for fooled by randomness

Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos.

https://images.gr-assets.com/books/1352422827l/13530973.jpg

 

Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil

Participei recentemente de uma reunião no BNDES sobre Internet das Coisas, representando a minha empresa. As reflexões a seguir são um misto do material do BNDES (público), com ideias minhas.

 


Tecnologias disruptivas

Hoje, em 2017, há uma série de tecnologias que prometem ser disruptivas num futuro próximo: mobilidade, automação, cloud, veículos autônomos, impressoras 3D. A Internet das Coisas é uma dessas aplicações disruptivas, em qualquer lista de tecnologia que se preze.

Imagem2.jpg


 

O que é a Internet das Coisas?

A computação evolui tremendamente nas últimas décadas.

Nos anos 1920, o matemático Alan Turing pensou sobre computação, o que poderia ou não ser computado, e provou resultados importantes: uma máquina de Turing universal era capaz de calcular qualquer coisa computável, ou seja, o mesmo computador poderia fazer uma tarefa, digamos somar, e trocando os estados internos, poderia executar outra tarefa, digamos dividir. Foi um trabalho totalmente teórico, mas embasou o salto posterior, o do computador eletrônico.

Image result for turing machine

Até os anos 1950, pioneiros como John Von Neumann desenvolveram os primeiros computadores, somente para aplicações militares como cálculo de trajetória de mísseis, simulação de Monte Carlo para o projeto da Bomba H. Os computadores eram em substituição às “computadoras”, que nada mais era do que uma sala cheia de mulheres, fazendo contas com lápis e papel, com a supervisão do trabalho final por um matemático.

VonNeumannComputer

Na década de 60 e 70, surgiram os mainframes, computadores gigantes, ocupando grandes salas de corporações, e os usuários com um terminal “burro” de tela verde (curiosamente, com a ideia atual de “cloud”, estamos de volta a este modelo dos supercomputadores e terminais burros).

Image result for mainframes old

Nos anos 80 e 90, tivemos a revolução dos computadores pessoais. Ao invés de um computador do tamanho de uma sala, surgiram computadores pequenos o suficiente para termos em casa. O famoso Apple II foi um dos primeiros PCs da história, rivalizando com a arquitetura da IBM. Também tivemos a explosão do software, dos sistemas operacionais Windows e Apple, Bill Gates x Steve Jobs.

Related image

No final dos anos 90 e anos 2000, tivemos a explosão da internet. Os computadores pessoais agora passaram a ser conectados em rede. Uma pessoa poderia criar conteúdo novo e divulgar numa página, que seria indexada por um buscador como o Google. As pessoas podiam se comunicar facilmente com outras, via e-mail, chat. Podíamos trocar arquivos através de protocolos específicos.

Related image

Nos anos 2000, 2010, tivemos uma explosão de mobilidade: celulares, tablets, dispositivos portáteis. Mais comunicação ainda, não estávamos mais presos a um computador num local fixo, agora podemos acessar o Facebook e o Google de qualquer lugar. A comunicação não estava mais restrita a voz, agora podemos ter conexão via texto, vídeo, imagens, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

Image result for cell phone

O pano de fundo disto tudo é o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, traduzido elegantemente pela Lei de Moore: a cada 18 meses o número de transístores num dispositivo dobra (ou seja, a capacidade de processamento dobra) ao mesmo custo. Na prática, temos dispositivos cada vez menores, cada vez mais poderosos, cada vez mais baratos. Um celular moderno, que cabe no bolso, é mais poderoso que um PC antigo (que cabe numa mesa), é mais poderoso que um mainframe antigo (que cabe numa sala).

Image result for moore law
Ilustração da Lei de Moore

Hoje em dia e nos próximos anos, haverá cada mais sensores pequenos e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, talvez pessoas.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

Iot01.JPG


 

O estudo do BNDES

O estudo do BNDES ainda está sendo realizado, porém há alguns resultados parciais. Este estudo entrevistou uma miríade de pessoas, coletou dados e fatos, analisou também o posicionamento de outros países, para levantar as principais oportunidades, desafios e áreas prioritárias para fomentar o desenvolvimento da IoT no Brasil.

Este material é público e está disponível em: http://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

Imagem1.png

As áreas prioritárias do Brasil são indicadas no mapa acima. Pelo Brasil ser um país exportador de commodities, o setor Rural desponta com muito potencial de ganho. A seguir, o setor de Saúde e o de Cidades. Para essas frentes prioritárias, em conjunto vem o papel das fábricas e indústrias de base.

 


Oportunidades

Na prática, quais as aplicações úteis?

Os infográficos a seguir contém várias ideias interessantes.

Exemplos2.jpg

Exemplos3.jpg

Exemplos4.jpg

Exemplos6.jpgExemplos5.jpg

Exemplos8.jpgExemplos9.jpgExemplos7.jpg

Há uma história atribuída a Henry Ford, o empresário que fundou a companhia de veículos de mesmo nome. Ele teria dito que “se os usuários de carroça fossem questionados sobre melhorias futuras, eles desejariam carroças mais rápidas”.

 

É mais ou menos isso que ocorre hoje, só somos capazes de visualizar soluções no framework mental de quem já vive o presente: mais monitoramento, mais controle, mais forecast, mais decisões autônomas. Ninguém sabe exatamente qual será a verdadeira aplicação disruptiva que surgirá da evolução da IoT. A história é não linear. Ninguém conseguiu prever com dez anos de antecedência o surgimento de um Google, um Facebook, um Waze, um Uber, entretanto estes surgiram e revolucionaram nosso modo de ver o mundo.

 


Alguns desafios

Nem tudo são flores, obviamente. Alguns dos desafios são tão grandes que não conseguem ser resolvidos pela tecnologia em si.

  • Mão de obra qualificada. Por um lado, o Brasil tem 13 milhões de desempregados. Por outro, há uma dificuldade imensa na contratação de pessoas qualificadas, principalmente no interior do Brasil.
  • Infraestrutura de conexão: é muito caro conectar esses dispositivos à rede (GPRS, satélite, wi-fi, etc), ainda mais no setor rural, onde as distâncias são enormes e a infraestrutura, precária
  • Ambiente regulatório e de negócios: como devem ser os mesmos, a fim de permitir ganhos?
  • Fomento de pesquisa sobre o tema: como incentivar os mesmos?
  • Segurança e Privacidade: a disponibilidade de dispositivos em rede pode trazer outros problemas, como invasão por hackers. Como evitar este tipo de coisa?
  • Padronização de tecnologias?
  • Custos dos sensores?

Detalhando o aspecto sobre a mão de obra. Cada vez mais, a tecnologia vai substituindo os trabalhos braçais e rotineiros. Os primeiros alvos: aqueles trabalhadores que são verdadeiros autômatos humanos, como os operadores de telemarketing, que não são pagos para pensar: estes seguem um script ditado pelo sistema. Ou motoristas, que simplesmente levam cargas e pessoas de um ponto A para um ponto B.

Há 100 anos, quando o mundo era muito mais agrário, a produtividade do melhor lavrador do mundo não era tão maior do que o do pior lavrador do mundo. Cada braço a mais contava muito, porque não havia escala. Hoje em dia, um trator com um operador produz muito mais do que 50 pessoas conseguiriam no passado.

Cada vez mais, uma minoria altamente qualificada vai produzir muito, e uma massa gigantesca de pessoas terá pouco valor a contribuir.


Conclusões
Há um potencial disruptivo gigantesco em IoT. Porém, este não é um fim em si. O fim é utilizar a IoT para aumentar a produtividade, diminuir custos, melhorar o meio-ambiente e o bem estar final da sociedade. Ainda há um longo e tortuoso caminho a percorrer.

Toda tecnologia segue a curva tecnológica a seguir.

TechCurve.gif

Quando a tecnologia surge, no começo da curva, é o sonho, a sensação, vai dominar o mundo, vai provocar a paz mundial (ou a destruição da humanidade).

Depois de um tempo, descobre-se que a tecnologia tem limites. É muito boa, gera ganhos elevados, mas não vai destruir o mundo nem fazer a gente alcançar o Nirvana.

Chega uma fase de maturidade, onde esta tecnologia já não é mais sensação. E vão surgindo ondas de evolução desta tecnologia cada vez mais madura.
É análogo à dialética Hegeliana, de tese-antítese-síntese.

Áreas como a Pesquisa Operacional, Estatística, Eletrônica e Computação tradicional já passaram por esses ciclos, e hoje são tecnologias bastante maduras. São elas que dão resultado no mundo de hoje, são as vacas leiteiras, enquanto tecnologias como o IoT, cloud, são os sonhos potenciais.

Há uns 100 anos atrás, as tecnologias disruptivas que passaram por este ciclo eram a eletricidade, os veículos, as locomotivas.

Há uns 200 anos, a revolução industrial: máquinas a vapor, máquinas de tecer.

Há uns 500 anos, eram os navios, a conquista dos mares.

Há uns 3 mil anos, era o arco e flecha.

Há uns 10 mil anos atrás, a tecnologia disruptiva era a agricultura e a tração animal.

Com a IoT será a mesma coisa: haverá um bom caminho de promessa para realidade, e quando esta chegar, veremos que vai servir para muita coisa, mas não promoverá nem a paz mundial, nem exterminará a humanidade.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2017

 

Puzzle dos leões, da raposa e do coelho

Suponha que numa região haja N leões.

Eles têm conhecimento perfeito de quantos leões existem e de que todos tomam decisões perfeitamente lógicas. Cada leão é tão forte quanto os outros, impossibilitando um combate direto entre eles.

https://i1.wp.com/ngm.nationalgeographic.com/serengeti-lion/assets/i/index/Coalition-index_lo.jpg

 

Uma raposa quer atravessar a região. Ela sabe que os leões estão famintos. Mas também sabe que, se um leão comer algo, ficará fraco, e poderá ser devorado por outro leão.

 

Cada leão prefere salvar a vida a devorar uma presa e ficar vulnerável. E cada leão prefere devorar a presa, caso possa fazer isto sem o perigo de ser devorado.

 

A raposa pode, opcionalmente, levar um coelho na jornada. Se um leão avançar, a raposa joga o coelho ao leão, e isto dá tempo suficiente para ele atravessar a região.

 

Se um leão estiver comendo o coelho, e a raposa estiver livre, um segundo leão prefere atacar o primeiro leão com o coelho, assim conseguindo uma refeição e eliminando um concorrente (isto se o segundo leão tiver certeza de que não ficará vulnerável aos demais).

 

Se tiver opção, o leão prefere devorar o coelho à raposa, pelo coelho ser mais apetitoso.

 

A pergunta: qual a estratégia para a raposa se safar, para cada valor possível de N?

 

Este puzzle é baseado em outro, porém com um coelho a mais de dificuldade.

Resposta em uma semana.