Os amigos do cargo e os amigos da pessoa

Segue uma história intrigante, dos meus tempos de oficial da ativa da Aeronáutica.

Com certa frequência, ocorriam comemorações de alguma data festiva.

Nessas, o comandante, um Brigadeiro 4 estrelas, vivia cercado de cupinchas numa roda animada de conversas. Ele não era um homem de muitas palavras. Tímido, fechado, ele não seria normalmente um tipo popular em festas.

Alguns meses depois, o Brigadeiro se aposentou. Mesmo aposentado, de vez em quando ele aparecia em alguma cerimônia.

A diferença é que, dessa vez, ele ficava sozinho num canto…

Nota-se que os cupinchas eram amigos do cargo, não da pessoa.

Eu prefiro um amigo que me cumprimente pelo que sou, pela afinidade de ideias e sonhos, do que uma centena que me cumprimente pelo cargo.

O mundo é como uma peça de teatro. Ora fazemos o papel do Rei, ora, o do Cavaleiro ou do Bobo da Corte. No final do dia, sem os nossos trajes, somos apenas nós mesmos.

Cultive os seus amigos de verdade.

Bônus 1: Trilha sonora – Amigos para siempre

Jose Carreras And Sarah Brightman

Bônus 2: O dia da festa

O mulá Nasrudin foi ao palácio, num dia de festança. Foi barrado na entrada pelos servos, por estar trajando roupas esfarrapadas.

O mulá voltou para casa, vestiu-se com roupas extravagantes, e dessa vez, foi aceito na entrada.

Nasrudin então começou a derramar comida e vinho em suas roupas, causando estranheza em outro convidado, que indagou, “O que você está fazendo?”

“Oh, estou alimentando a minha roupa primeiro. Afinal das contas, ela é que foi aceita na festa”.

Formas geométricas com imã

Uma indicação de brinquedo lúdico para crianças (e por que não, adultos também), é um conjunto de formas geométricas com imãs.

São quadrados, triângulos, e algumas formas adicionais como pentágonos e hexágonos.

Cada peça facilmente gruda e desgruda uma nas outras, permitindo uma possibilidade enorme de combinações.

Esse da foto é o boneco de neve Olaf.

A casa da construção abaixo é a versão imã do projeto em origami (vide alguns origamis estruturais aqui).

O kit citado foi comprado no AliExpress. Há uma versão nacional, porém a chinesa tinha um número maior de peças e acessórios como rodas.

É um bom exercício para a imaginação!

Veja também:

Eletrônica para crianças:

Zometools:

Qual o futuro dos livros?

Hoje em dia, é possível encontrar informação sobre virtualmente tudo, de graça, na tela de um computador com internet. A informação virou commodity. Barreiras físicas inexistem. Livros, revistas, jornais, cursos e até a grade educacional atual têm de ser revistas, urgentemente.

Contudo, até há poucos anos, não era assim. Na era pré-internet, a informação era limitada ao que conseguia ser impresso e lido num pedaço de papel.

Este texto tem dois tópicos:

  • Quanto custaria um livro manuscrito, nos dias de hoje?
  • O futuro da pirataria

Quanto custaria um livro manuscrito, hoje em dia?

Na era pré-Gutenberg, copiar um livro significava transcrever, manualmente, letra por letra do livro. Na Idade Média europeia, os monges copistas eram famosos por fazer este serviço.

Digamos que um copista consiga escrever 5 páginas por dia. Lembrando que os livros manuscritos da Idade Média eram numa caligrafia bonita (não o garrancho que você escreve no caderno), o que demanda tempo. Além disso, os monges tinham o cuidado de minimizar o erro na transcrição.

Se ele trabalhasse por 20 dias num mês, daria para transcrever 100 páginas mensalmente.

Pagando um salário mínimo para ele, R$ 1.000 nos dias de hoje: R$ 1.000 a cada 100 páginas.

Um livro como a República de Platão tem 300 páginas com letras miúdas.

Assumindo que a caligrafia do copista caiba nas mesmas 300 páginas, o livro custaria R$ 3.000.

Além disso, há outros custos como o gerenciamento, armazenagem, frete (a cavalo na época), impostos. Digamos, poderia chegar a R$ 5.000, facilmente.

Certamente, não era para qualquer um. Somente os mais ricos poderiam se dar ao luxo de comprar um livro. Até por isso, a grande maioria da população (uns 80%) era analfabeta na época.

Pós Gutenberg, estimativas falam que o custo reduziu por 10. Ainda havia um trabalho enorme para criar os tipos móveis, juntar e fazer as impressões. Erros de impressão obrigavam algumas revisões a caneta, por exemplo.

Portanto, o mesmo livro custaria de R$ 300 a R$ 500. Bem melhor, porém, ainda assim um item da elite, classe média alta.

Mesmo após Gutenberg, a profissão de copista não desapareceu da noite para o dia. Primeiro que, para imprimir um livro com prensa, necessita de escala. Se for para copiar um único livro específico, era melhor usar o monge.


Além disso, um livro copiado à mão, com a bela caligrafia do copista, era um sinônimo de status.

De lá para cá, houve uma curva contínua de melhoria da antiga prensa.

O mesmo livro, em papel, hoje em dia custa menos de R$ 50. Neste, estão vários outros custos, como a editora e a livraria, digamos que a faixa de custos seja de R$ 30 a R$ 50, para manter a divisão por 10.

A seguinte tabela resume o preço de copiar um livro:

Na era pós internet, o custo por letra transmitida caiu a zero. Zero. Se este texto que você está lendo for compartilhado uma vez, ou compartilhado um milhão de vezes, não vai ter custo incremental algum para o autor.

Atenção: não é o custo de criar o livro, que inclui o homem-hora do autor, pesquisas, o editor, etc… O custo acima é relativo ao custo de COPIAR a informação contida no livro e transmitir.

O futuro da pirataria

Há uns 15 anos atrás, importei um livro americano de Otimização Combinatória (meu assunto favorito), via Amazon. Daria o equivalente hoje a uns 250 reais, considerando o preço em dólar e o frete internacional.

Antes da Amazon, era mais difícil, senão impossível, encontrar e comprar um livro importado. Estávamos na mão dos grandes varejistas (Saraiva, Siciliano, Liv. Cultura), que importavam e disponibilizavam o seu catálogo.

Hoje em dia, com o custo de copiar informação igual a zero, a pirataria é ilimitada. É possível obter uma quantidade infindável de informação (livros, música, filmes). Basta uma pesquisa no Google, ou um sistema do tipo torrent.

O pdf do Combinatorial Optimization vai estar a um clique de distância (porém, ilegalmente).

Um efeito da digitalização é o de quebrar os intermediários (as livrarias físicas faliram, as editoras estão tendo que se reinventar).

É inútil lutar contra a pirataria pelos meios tradicionais: derrubando sites, prendendo pessoas, ameaçando o usuário.

Entretanto, o futuro não é tão sombrio assim.

Ainda existe a necessidade de criar e consumir conhecimento novo.

Imagino que ocorra com os livros algo como ocorreu com a música. Apesar de ser possível piratear sem restrições, pago mensalmente a assinatura do Spotify, e também comprei várias músicas da loja da Apple: porque estão a custos acessíveis, e principalmente, porque tais serviços agregam um valor enorme. O Spotify tem um catálogo gigantesco de músicas, e faz recomendações de músicas fantásticas que eu nunca encontraria sozinho.

Vejo alguns caminhos para os livros e meio impresso:

  • Remuneração direta dos autores. Com a evolução dos meios de pagamento, é possível comprar ou doar valores bem pequenos por artigo. Por exemplo, quem acha que o presente texto agregou valor pode remunerar o autor em R$ 0,50 via PicPay, utilizando o QR code abaixo. Quando o Whatsapp Pay estiver rodando, mesma coisa. É uma alternativa interessante. Um livro impresso tem que ter um tamanho mínimo, digamos 100 páginas, para valer o trabalho de edição e impressão, mesmo que o conteúdo útil seja de 5 páginas. Com remuneração direta, é possível apenas disponibilizar o que interessa, melhorando o conteúdo e baixando custos para todo mundo.
Estou fazendo um teste.
  • Revistas eletrônicas muito bem curadas, com assinatura. Mais ou menos como os jornais vêm fazendo. Uma parte do conteúdo é livre, o acesso ao conteúdo completo é pago. O interessante é efeito Cauda Longa: podem surgir nichos à vontade, em temas de interesse específico ao invés de informação de massa como jornais.

  • Microlivros: O Tik Tok faz sucesso por vídeos curtos, que não tomam muito tempo e são bem feitos. Vejo espaço para um serviço de microlivros, talvez de 10 páginas, com uma curadoria muito bem feita. Hoje em dia, o problema é o excesso de informação, não a escassez, daí o valor de uma curadoria de qualidade. E, sabendo que os textos são curtos, bons e diretos ao ponto, o leitor verá valor. Microlivros com versão áudio podem ser melhores ainda.

Johannes Gutenberg causou uma revolução, nos anos 1400. Popularizou a produção de livros e baixou custos – em última essência, foi Gutenberg que permitiu o grande salto de conhecimento europeu nos séculos seguintes. A internet vem causando outra revolução. Quase toda a informação está disponível a quase todo mundo a um custo muito baixo.

Seja como for, vão continuar existindo autores e leitores, professores e alunos. Os custos caíram drasticamente. Os intermediários vão ter que agregar valor de forma diferente ao que fazem hoje – talvez até algum marketplace monopolize a distribuição, tal como a Amazon no caso de produtos.

Vamos ver o que vem pela frente.

Trilha sonora: Palavras ao Vento – Cássia Eller

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento

Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento

Links:

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/24/sobre-livros-e-livrarias/

https://ideiasesquecidas.com/2018/01/21/%e2%80%8brecomendacoes-de-livros-para-recem-formados/

https://www.dw.com/pt-br/o-misterioso-gutenberg/a-42432157

https://super.abril.com.br/historia/gutenberg-primeiras-impressoes/

https://educacao.uol.com.br/biografias/johannes-gutenberg.htm

https://www.britannica.com/topic/printing-publishing/The-Gutenberg-press

Imãs de neodímio

Segue uma indicação lúdica, para crianças (e adultos que gostam de curiosidades).

É um conjunto de bolinhas de neodímio. Cada bolinha é bem pequena, tem 7 mm de diâmetro.

Os imãs são extremamente fortes. É só deixar um próximo ao outro que eles grudam muito forte, não é qualquer coisa que os separa.

Como todo imã, tem um positivo e um negativo. Por isso, o conjunto naturalmente forma linhas e círculos: positivo de um no negativo de outro, como uma fila indiana.

A foto a seguir é na forma bagunçada.

Comprei o conjunto de bolinhas no AliExpress. É só procurar por “Imã de neodímio” e fazer a compra. O lead-time de entrega é demorado. Foram uns três meses para chegar. O segredo é comprar e esquecer que comprou, confiando que vai chegar um dia.

Crianças muito pequenas podem perder ou engolir algum bolinha. O ideal é a criança ter 5 anos ou mais para brincar.

Quem sabe, isso ajude a aguçar a curiosidade delas para a bela ciência da Física.

Não tenha medo de ensinar os seus truques

Existe algo contra-intuitivo no mundo, relativo ao medo de ensinar outras pessoas.

Conhecimento é uma forma de poder: “se muita gente souber o que faço, não consigo me diferenciar da média”.

Entretanto, o que vejo é exatamente o contrário: quanto mais você ensina os outros, melhor.

Primeiro, você aprende fatos e truques novos ensinando os truques antigos.
Segundo, passando a bola para outros, é como se você conseguisse novos braços para fazer o trabalho.
Terceiro, dá para pedir a ajuda do colega, quando for a sua vez de não ter o conhecimento.

Existem pessoas que vão apenas sugar e não vão contribuir. Não se alie a sanguessugas, cínicos e quem só quer atrapalhar. Alie-se a quem coopera.

A longo prazo, a cooperação sempre vence o individualismo.

O autor Richard Dawkins criou o termo “meme”, em alusão ao gene. O gene é uma unidade de informação genética, o meme seria uma unidade de ideia, que é transmitida entre pessoas.

Se a ideia é meme, este texto é como se fosse um vírus: um invólucro de informação que carrega o código genético.

Ensinar as pessoas seria como replicar parte do seu DNA. Transmitir as ideias que você considera corretas e fazer elas sobreviverem além de si mesmo.

Séries, Podcasts e Quadrinhos sobre Ditadores

Segue uma indicação bastante interessante de podcast sobre história: a série “Ditadores”, no Spotify. É excelente para quem gosta de áudiolivros, como eu.

Ela narra a história de alguns dos piores ditadores da história recente, de maneira bastante didática e em português:

  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Joseph Stálin
  • Kim Il Sung
  • Kim Jong Il

Para cada um, há dois episódios de uns 45 minutos. A série ainda está em andamento, com um lançamento por semana, sempre às terças-feiras.


Outras indicações:

Sobre Hitler, há inúmeros filmes, documentários e livros.
Sobre os demais, há um número bem menor de fontes.

1) O documentário Hitler, uma carreira, disponível na Netflix, se destaca por conter vídeos da época.

Muito interessante é ouvir o discurso real de Hitler. Mesmo sem saber alemão, é possível ler a linguagem corporal e o tom de voz da figura.

Apesar do discurso ter palavras fortes, Hitler tem um jeito afeminado. É paradoxal. A imagem que eu tinha era de um ditador tosco, um valentão – mas a imagem das filmagens é a de um político, não muito diferente dos políticos que conhecemos. Talvez por isso, muita gente não tenha levado a sério o discurso, e tenha votado nele apenas como um protesto contra a ordem vigente.


2) Hitler’s Circle of Evil.

O foco aqui é no círculo interno de Hitler, as pessoas que o ajudaram a chegar e a manter o poder. Alguns deles viriam a ser figuras chave no Terceiro Reich: Hermann Göring, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros menos conhecidos, como Dietrich Eckart (escritor que lançou as bases ideológicas do nazismo).

São 10 episódios, e conta com detalhes a história deste período.


3) Vale indicar também a propaganda mais sensacional de todos os tempos, da Folha de São Paulo de 1987.

“Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo…


4) A série “Trótski”, na Netflix, mostra a trajetória de Leon Trótski e seu papel na Revolução Russa de 1917.

A série retrata Tróstski como alguém impiedoso, disposto a sacrificar a tudo e a todos – e é o que acaba ocorrendo, a todos à sua volta.

É uma obra controversa.


5) A morte de Stálin. É uma obra em quadrinhos. Mostra episódios das últimas horas de Stálin. Retrata fortemente o medo que as pessoas ao redor sentiam.

6) Sobre a Coreia do Norte, há pouca informação. Uma fonte surpreendente é o romance gráfico PyongYang.

O desenhista Guy Deslile viveu por um tempo na Coreia do Norte. Ele era o desenhista chefe de um grupo de desenhistas norte-coreanos, na produção de animações para a TV francesa. A razão de contratarem desenhistas norte-coreanos era o custo baixo.

Guy descreveu inúmeras situações que viveu na Coreia. O fato de todas as paredes terem retratos dos grandes líderes Kim Il Sung e Kim Jong Il. Um tradutor coreano o acompanhar para todos os lugares que ia (e ele não poderia ir para qualquer lugar, somente os lugares autorizados). O fato de quase não haver iluminação nas ruas.

Ele era um dos pouquíssimos estrangeiros no país. Havia somente dois hotéis para estrangeiros, e no que ele estava, somente um dos andares funcionava.

São ilustrações belíssimas. Vale muito a pena.
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O caranguejo-samurai Heikegani

“Kani” significa “caranguejo”, em japonês.

O Heikegani é o caranguejo de Heike. Nota-se uma certa semelhança com uma máscara de samurai.

Há uma lenda explicando o surgimento deste tipo exótico.

Em 1185, duas frotas de clãs poderosos se enfrentaram nos mares: Heike e Minamoto.
O objetivo era conquistar o poder do país todo.

O imperador (fantoche, diga-se de passagem) era um menino de 7 anos do clã Heike. Os Minamoto eram os aspirantes ao trono.

Os Heike foram derrotados, e o imperador menino se afogou no mar. Minamoto Yoritomo se tornou o primeiro Shogun, o chefe militar que exercia o poder de fato (colocando imperadores fantoche segundo a sua conveniência).

Segundo a lenda, caranguejos com a face de samurais começaram a aparecer perto do local da batalha. Seriam os guerreiros Heike, reencarnados na forma de caranguejo.

Carl Sagan menciona o caranguejo-samurai, na série Cosmos. Ele cita que tais caranguejos, quando pegos, não são comidos. Em respeito aos guerreiros antigos, são jogados de volta ao mar.

Quem desenhou o rosto de um samurai, segundo Sagan? Seria uma forma de seleção artificial. Um caranguejo comum seria comido normalmente. Um caranguejo que, aleatoriamente se parece com um ser humano, tem mais chances de ser jogado de volta ao mar…

Seja como for, os guerreiros de Heike continuam a sua batalha, até os dias de hoje.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Heikegani

Não se apaixone pela solução

Christopher Vogler é uma espécie de roteirista dos roteiristas de Hollywood. Numa de suas aulas, ele afirma que um criador não deve se apaixonar pela solução.

Adotar tal abordagem pode levar a becos sem saída.

Eu já quebrei a cara me apaixonando pela solução. Há uns 10 anos, eu tinha uma base de dados para processar antes de uma análise de estoques. Não era absurdamente grande, mas também não era pequena: uma dúzia de planilhas, com umas 15 mil linhas cada.

Usei a minha ferramenta favorita, Excel VBA, ao invés de algum banco SQL. Remover duplicatas, juntar bases, essas coisas. O problema foi que o Excel 2007 não aguentou: os cálculos demoravam mais de meia hora, a planilha travava, e o pior, não dava para confiar na solução (alguma fórmula está errada ou o cálculo travou no caminho?).

Mesmo após ficar evidente que não era a melhor solução, havia a dúvida – faltam poucas semanas de trabalho, se eu recomeçar do zero, vai atrasar a entrega… ledo engano. Atrasou do mesmo jeito. Tive que quebrar muita pedra, e o resultado poderia poderia ser melhor.

A dica de Vogler é fazer o contrário: apaixone-se pelo problema, independente da solução. A história tem vida própria, ela escolhe o próprio final!

Trilha sonora: O mundo anda tão complicado – Legião Urbana

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2013/12/01/a-solucao-otima-para-o-problema-errado/

https://ideiasesquecidas.com/2016/01/27/a-verdade-e-o-conto/

A saída da Lei de Moore: hardware e software

Segue um artigo interessante.

Este defende que uma das saídas para a limitação da evolução dos computadores, a Lei de Moore, pode ser em software.

A Lei de Moore afirma que o número de transístores (unidade básica de computação) dobra a cada 18 meses, para um mesmo custo.

A grande miniaturização dos componentes eletrônicos dos últimos anos (e décadas) segue a curva prevista.

No final do dia, foi a evolução do hardware que permitiu o grande avanço computacional visto nos dias de hoje, em que um celular que cabe no bolso tem milhares de vezes de capacidade a mais do que o mais moderno supercomputador do passado.

Há algumas alternativas em hardware sendo exploradas: chips em 3D, computação biológica, computação quântica.

O artigo fornece mais uma alternativa: evolução em software.

Atualmente, há uma grande quantidade de sistemas que utilizam soluções prontas, como blocos de Lego que vão sendo montados sucessivamente uns sobre os outros. Ex. Python é uma linguagem de programação de alto nível, com poucos comandos é possível fazer muita coisa. Isso não é de graça, o preço é o overhead de processamento.

Se tais sistemas forem reescritos, tendo em vista a performance ao invés da velocidade em programar, podemos ter um grande aumento de velocidade para a mesma capacidade de processamento.

Ele chama de “redução” a reutilização de blocos de programação.

It sometimes yields a staggering amount of inefficiency. And inefficiencies can quickly compound. If a single reduction is 80 percent as efficient as a custom solution, and you write a program with twenty layers of reduction, the code will be 100 times less efficient than it could be.

Segue link: https://spectrum.ieee.org/tech-talk/computing/software/software-engineering-can-save-us-from-the-end-of-moores-law

A expedição Kon-Tiki

Para quem gosta de aventuras, segue a indicação de uma das histórias mais malucas de que o ser humano é capaz.

O norueguês Thor Heyerdahl queria mostrar que a colonização das ilhas Polinésias tinha origem nos indígenas da América do Sul.

Tendo vivido nas ilhas Polinésias por um período, ele notara uma corrente marítima vinda do leste. Também notou semelhança entre algumas estátuas nas Polinésias e no Peru, e culturas como a batata-doce.

Para provar o seu ponto, ele se propôs a uma aventura completamente insana: a bordo de uma jangada, construída apenas com materiais da antiguidade (toras e cordas), atravessar 8000 quilômetros de Oceano Pacífico!

Só para dar uma noção, a distância de Oiapoque ao Chuí é de 4.000 quilômetros. A jangada (nem barco era), iria de norte a sul do Brasil e voltaria, apenas sendo levada pela corrente e pelo vento!

Essa era a Expedição Kon-Tiki, em homenagem ao deus polinésio ancestral. Ocorreu em 1947.

A partir da aventura, ele publicou um livro e um documentário.

Há um filme de 2012, disponível no Prime Vídeo.

O filme é legal, é até fiel em vários pontos, porém, faz algumas dramatizações desnecessárias para uma aventura que é interessante por si só.

Prefiro o documentário original de 1950, no link a seguir.
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Há também um livro: https://amzn.to/3hQgwzB


Pincelei algumas cenas, a seguir.

A jangada foi feita utilizando 9 árvores grossas, de madeira balsa. Toras menores foram colocadas acima das toras grossas, um mastro de madeira bastante dura e uma cabana de bambu coberta com palha seca, pequena mas suficiente para os 6 tripulantes.


Somente cordas, sem pregos, sem cabo de aço. Segundo a antiga tradição polinésia, “Não devemos lutar contra a natureza. Devemos nos sujeitar a ela e ser flexíveis”.

A distância a ser percorrida do Peru para as Polinésias é muito grande. É a mesma distância do Peru até S. Francisco, ou de S. Francisco até a Islândia.

Eles também tinha um pequeno bote a remo como apoio. Na primeira vez que saíram com o bote, eles perceberam que a jangada andava rápido demais, mesmo sem as velas. Tiveram que remar com todas as forças para conseguir alcançar a mesma.

Eles utilizavam um sextante para estimar a localização. Sol, estrelas e conhecimento, só isso.

Uma das grandes objeções dos críticos era a comida. No caso dos aventureiros, eles levaram um grande estoque de ração e água, mas como um nativo faria?

O vídeo prova claramente que é possível conseguir peixe em alto-mar.

Havia muitos peixes próximos à balsa, procurando refúgio.

Peixes voadores também eram frequentes – estes pulavam na balsa à noite, e eram uma fonte constante de alimento.

A fim de justificar a parte científica da expedição, eles coletaram plâncton, alga e parasitas de peixes. Também descobriram uma nova espécie de peixe, uma espécie estranha de peixe cobra.

Em mais de uma ocasião, viram baleias próximas à jangada. Uma das vezes, parecia vir colidir diretamente com a embarcação, porém, o gigante passou por baixo, sem maiores problemas.

É claro que uma viagem dessas não poderia passar sem contratempos. Um deles foi que, somente após 45 dias de viagem, conseguiram contato no rádio amador.

Entre os contratempos, eram necessários constantes reparos na estrutura, na amarração das vigas principais, no manche.

Uma cena que fiquei em dúvida no filme, mas o documentário mostrou que era real. A fim de fazer o rádio amador pegar sinal, os tripulantes levantaram um balão com antena. O papagaio “Lolita”, o sétimo tripulante, viu o fio do balão e bicou, fazendo-os perder o mesmo.

Lolita não teve um bom destino. Após uma chuva, o mar a levou para sempre.

No documentário, eles citam que havia tubarões constantemente seguindo a jangada, principalmente atraídos por restos jogados.

Eles chegaram a pescar tubarões.


Era fácil fazer o monstro morder a isca – bastava peixe e sangue, que ele atacava cegamente – não tem medo, visto que não tem predadores. Içar o tubarão para bordo também não era difícil, porém, dentro da jangada, ele podia ficar por uns bons 45 minutos brigando – e poderia machucar alguém, com os dentes afiados.

A foto a seguir mostra que eles conseguiram pescar à vontade, apenas com instrumentos rudimentares: arpão, anzol e linha.

Após cerca de 90 dias, pássaros no céu eram o sinal de que a terra estava próxima.

Encontraram uma ilha, porém não conseguiram fazer a jangada desembarcar na mesma – afinal, tinham apenas a embarcação e uma vela.

A questão principal de uma viagem dessas não era distância, mas direção. É possível flutuar ao sabor das correntezas por 8000 kilômetros, mas não conseguiam atracar na ilha a 200 metros.

Encontraram nativos em botes alguns dias depois, porém, novamente, não conseguiram desembarcar.

Após mais alguns dias, eles tiveram que atravessar um recife de corais, para desembarcar numa ilha. A jangada foi destruída ao atravessar o recife. E a ilha estava desabitada.

Teriam eles chegado sãos e salvos? Alguma outra intercorrência machucou alguém? Teriam sido atacados por sereias, tais como Ulisses na Odisseia?

Assista o filme ou o documentário para saber. De novo, é um prato cheio para quem gosta de aventuras.

Atualmente, estou com receio até de tomar metrô, em virtude da pandemia. Imagine a coragem de ficar 101 dias isolado no mar, com futuro incerto, vizinho de tubarões e baleias!

Seguem alguns links e outras indicações:

Vi o filme no Prime Video. Como o catálogo é rotativo, destaco que foi agora em junho de 2020.
https://amzn.to/312KkTR

Documentário original de 1950
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Livro Kon-Tiki: https://amzn.to/3hQgwzB

Outras recomendações, na mesma linha de aventuras extremas:

A incrível viagem de Shackleton. Sobre o explorador que tentou alcançar o Pólo Sul, porém teve a embarcação presa no gelo. Tiveram que sobreviver até a chegada do verão.

https://amzn.to/3djyA1B

O País das Sombras Longas. Como vivem os esquimós do Pólo Norte? O livro relata diversas histórias, até cruéis, deste lugar inóspito.

A reinvenção da roda, dos relógios e dos radinhos de pilha

Nos últimos dias, fiz um programinha em Excel (e em Python) de um Teleprompter – aqueles textos rolantes para auxiliar o pessoal da televisão.

Pediram para eu gravar um vídeo. Ao invés de improvisar, escrevi um texto para ler. E surgiu a ideia de criar um teleprompter simples. Está disponível aqui https://github.com/asgunzi/Teleprompter

Um comentário que surgiu, e é pertinente: “Há vários softwares deste tipo na web, é só procurar e baixar. Para que reinventar a roda?”

Algumas respostas: para aprender a criar. Primeiro, as rodas básicas. Depois, rodas cada vez melhores. Quem sabe, até superar o design original. Outro motivo: Uma roda sua é infinitamente mais legal que uma roda de alguém.

Meu pai conta uma história engraçada.

Na faculdade, um dos colegas de quarto gostava de ouvir o seu rádio de pilha (devia ser anos 60). Como o volume do rádio era alto, incomodava quem queria sossego para estudar.

Por outro lado, tinha outro colega que adorava desmontar relógios e dispositivos para saber como funcionavam as coisas. O detalhe é que ele sabia desmontar, porém, nunca conseguia fazer algo voltar a funcionar.

Um dia, o rádio do primeiro colega parou de funcionar.

Meu pai teve uma ideia. Sugeriu que o segundo colega desse uma olhada. “Ele vai desmontar o rádio e quebrar de vez, nunca mais volta à vida”, pensou.

Qual foi sua surpresa, no dia seguinte, quando o radinho estava estridente, vivo e alegre.

Não é que, de tanto fuçar e mexer em tudo, o desmontador de relógios finalmente conseguira consertar algo!

Reinvente a roda, sempre que possível!

Trilha sonora: J. S. Bach, Little Suite from The Anna Magdalena Notebook

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/06/06/recado-para-os-loucos-e-desajustados/

Texto sobre as bicicletas motorizadas de Soichiro Honda: https://ideiasesquecidas.com/2015/09/29/bicicletas-motorizadas-e-que-se-dane-a-crise/

Tesla vale mais do que a Toyota?

De um lado, a Tesla. Fabricante revolucionária de veículos elétricos, inovadora, com o top de tecnologia disponível no mercado. Começou a dar lucro recentemente.

Do outro, a Toyota. Veículos tradicionais, com matriz energética convencional. Carros de altíssima qualidade e durabilidade, diga-se de passagem.

O valor de mercado da Tesla, que vem subindo enormemente faz alguns anos, superou o da Toyota neste mês.

A Tesla com valor de mercado de US$ 190 bilhões, e a Toyota, US$ 180 bi.
Receita anual da Tesla: US$ 7 bi. Toyota: US$ 250 bi.

A Tesla fabrica 360.000 veículos por ano. A Toyota, 10.000.000 de veículos por ano.

Seria este um sinal do valor da inovação e tecnologia em nossas vidas?

Ou seria uma bolha especulativa do mercado financeiro, inflada pelos sucessivos quantitative easings desde 2008, e juros abaixo de zero no mundo todo?

Eu sou do tipo chato, cético, mala, retranqueiro.

Essa injeção de dinheiro não virou hiperinflação, como alguns pregavam. Mas criou bolhas.

O mundo está muito esquisito. Algumas bolhas estouraram, como a do WeWork. A pandemia mudou o jogo de diversos negócios. Porém, ainda existem diversas distorções.

Não se sabe como será o futuro.

Talvez a Tesla quebre todas as montadoras tradicionais num futuro elétrico.

Talvez não.

https://insideevs.uol.com.br/news/428094/tesla-mais-valiosa-mundo/