O ouro do Reno

Smeagol

A cada 10 anos mais ou menos, tenho o desprazer de encontrar um sujeito que só fala de dinheiro. Vou identificá-lo como “Smeagol” neste texto.

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O Smeagol chega e já começa a falar de dinheiro. Reclama que não tem dinheiro para nada. Fala sobre algum projeto mirabolante (para ganhar o precioso dinheiro), mas a seguir recorda que não tem verba para tal. Comenta que “a vida de fulano é boa, porque ele tem muito dinheiro”, ou que “beltrano comprou um Corolla novo”. Depois, pergunta sobre as minhas filhas, e onde elas estudam – pergunta a mensalidade. Finaliza perguntando quanto eu ganho…

Seu lema:

“Não quero ser feliz, quero ser rico”.

Mas poderia ser:

“Precious”, “My precious…”

Fico me imaginando o que aconteceria se ele ganhasse na Mega-Sena. Será que entraria em depressão, por não ter mais objetivo a atingir? Ou continuaria a tentar perseguir mais dinheiro?


 

Meio de troca

A definição básica de dinheiro, segundo qualquer livro de Economia: meio de troca, reserva de valor e unidade de medida. Nós, seres humanos, nos distinguimos de outros animais porque produzimos coisas úteis e trocamos uns com os outros. Aproveitamos as vantagens competitivas de cada um para nos especializarmos em fazer mais, melhor e mais barato, e depois trocamos os produtos finais com nossos semelhantes. Um produz limão, outro laranja, depois eles trocam um pouco de cada entre si – e o lugar onde isto acontece é o mercado.

À medida em que o mundo foi ficando mais complexo, ficamos cada vez mais especialistas, e cada vez mais difícil fazer as trocas. Como um analista de controladoria trocaria seus serviços contábeis por um quilo de laranja? A forma natural que surgiu para permitir tais trocas foi o dinheiro: um meio de troca aceito entre todos do mercado, uma unidade de medida que quantifica o quanto vale o trabalho do analista e quanto vale um quilo de laranja, e uma forma de guardar este valor para o futuro, se a pessoa não quiser fazer a troca agora.

Portanto, Smeagol, o dinheiro é um meio de troca, não um fim em si. E a soma daquilo que recebo na troca tem que ser equivalente ao que produzo, não posso receber sem produzir.

 


 

Alberich e Smeagol

Smeagol é um personagem da história “O Senhor dos Anéis”.

Mas Tolkien provavelmente se inspirou em outras histórias. Na mitologia germânica, que é milenar, um anão horripilante e ganancioso, Alberich, roubou o ouro guardado pelas fadas do Reno e transformou num anel, o seu precioso anel dos Nibelungos.

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O compositor Richard Wagner recontou esta história, numa ópera chamada “O Anel dos Nibelungos”.

Conclusão: não é de hoje que o precioso ouro cria os seus Smeagols.

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As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.
Bahamut
Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.
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Atlas
A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.
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Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás
Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”

Sérgio Moro prender Lula? Agradeça à Revolução Francesa.

Agora, em julho de 2017 a sentença saiu. Este post foi escrito em mar/16, quando Dilma ainda era presidente.

Forgotten Lore

É março de 2016, e sem dúvida alguma estamos em uma época turbulenta. A presidente da República nomeando um ex-presidente como ministro, foro privilegiado, o corajoso juiz Sérgio Moro investigando figurões graúdos da política, etc.

sergio-mmoro_1.jpeg Juiz Sérgio Moro

“Mas, se o presidente manda no Brasil, porque ele não manda parar a investigação?” – Já ouvi esta pergunta mais de uma vez, então vale a pena explorar a questão.

pixuleco.jpg “Pixuleco”

Um juiz pode sim investigar o poder executivo e prender um ex-presidente, por causa da Teoria da Separação dos Poderes.


Teoria da Separação de Poderes

Um ser humano com poder absoluto pode cometer abuso de autoridade. Se alguém com poder absoluto cometer um crime, ele pode mudar a lei para que o crime não seja mais crime, e absolver a si mesmo pelo crime não cometido. Ele nunca estará errado. Estará sempre dentro da lei. Em ditaduras absolutistas acontece exatamente isto…

Ver o post original 650 mais palavras

​ ​O livro de receitas de 1 gigabyte

A fascinante história do DNA é daquelas histórias que merecem ser contadas e recontadas.

 

O DNA é como se fosse um livro de receitas. Só que ao invés de ensinar a preparar arroz, feijão, macarrão e carne, são receitas de como fazer um ser humano: células da pele, do pulmão, do olhos, hormônios, etc. É um livro que passa de pais para filhos.
 
Este livro de receitas é dividido em 23 capítulos. Cada capítulo é chamado de “cromossomo”. São 23 pares de cromossomos: metade vem do pai, e a outra metade vem da mãe, totalizando 46 cromossomos. O pai passa metade do livro, a mãe passa a outra metade.

 

 

Os macacos são 98% similares a nós em termos genéticos. Mas uma grande diferença é que eles têm 24 pares de cromossomos. No ser humanos, dois dos cromossomos dos macacos estão fundidos em um só. E essa é uma das razões para sermos espécies diferentes: um cruzamento de gameta com 23 cromossomos e outro com 24 cromossomos não dá match.

 

Este livro de receitas tem cerca de 1 gigabyte de conteúdo. Cabe num pen drive. Atualmente um vídeo digital, ou um livro cheio de figuras, pode ter mais do que isso de tamanho (isto demonstra que tamanho não significa qualidade). Mas dá para escrever um monte de coisas com um giga. Se for só texto, uma biblioteca de 5.000 livros de 300 páginas cada.

  


DNA, Cromossomos e Genes
 
 

Para ficar mais claro. O nome DNA (ácido desoxiribonucleico) refere-se à molécula em dupla hélice descoberta por Francis Crick e James Watson em 1953. Um cromossomo é feito de uma molécula de DNA.

  

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Se o genoma humano é o livro, e os 23 cromossomos são os capítulos, cada capítulo contém milhares de receitas diferentes – chamamos cada receita individual de “gene”. Há mais de 300 mil genes, cada gene com uma instruçãozinha específica: uma para produzir insulina, outra para produzir as células da pele, etc.

 
 

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Temos pares do mesmo cromossomo, o que leva a termos duas receitas para fazer a mesma coisa. Digamos que a receita do pai ensine a fazer olhos castanhos, e a receita da mãe, olhos azuis. Chama-se alelos esses pares de genes que têm o mesmo objetivo final.

  

Algumas instruções dos genes podem ser dominantes em relação ao outro alelo. Digamos, o gene de azul simplesmente diz que não há pigmento, já o gene de castanho diz que precisa de pigmento castanho. A soma de não pigmento com pigmento castanho dá castanho.

  

As ideias de genes ligados à características, genes dominantes e recessivos, tiveram origem com os experimentos de Gregor Mendel com ervilhas, lá pelos anos de 1860.

  


As letras e palavras do livro da vida
  
O livro de receitas do DNA é escrito com 4 letras: A, G, C, T. Cada letra é uma nucleobase molecular formada de carbono e mais alguns outros átomos.

  

  

  

O “A” liga-se com o “T” e o “G” liga-se com o “C”.

  

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Um grupo de três letras forma uma palavra: o aminoácido. Há 20 aminoácidos.

  

Assim como utilizamos letras do alfabeto formando palavras, e com palavras escrevemos qualquer livro possível, as letras e palavras do DNA descrevem qualquer ser vivo: desde vírus, passando por bactérias, células, peixes, aves, mamíferos, até chegar ao ser humano.
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Ex. O aminoácido Isoleucina pode ser feito das nucleobases ATT

 

O livro do genoma humano utiliza 1 bilhão de nucleobases, ou letras na nossa analogia. Um bilhão dá um gigabyte, arredondando.
 
Uma analogia irresistível é a com os computadores. Num computador, temos os bits, valores binários 0 ou 1. Um grupo de 8 bits forma um byte. Esses bytes armazenam qualquer coisa que pode ser traduzida em números: palavras, imagens, sons, vídeo.

  

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As nossas bases nucleicas são estruturas complexas de carbono. No computador, as estruturas são feitas de silício. O silício é da mesma família do carbono, uma linha abaixo, na tabela periódica de elementos. Não é coincidência. Ambos tem 4 elétrons na última camada, o que mostra uma certa similaridade.

  

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As letras do alfabeto da vida ficam dispostas sequencialmente, um atrás do outro, como um cordão. Na verdade, um cordão duplo, porque a base oposta se junta, como se fosse um zíper, na elegante forma de dupla hélice. Quando necessário, este zíper se abre e as cópias são feitas. Depois de copiado, o zíper de DNA se fecha novamente.
 

 

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O nosso DNA carrega um monte de informação que não é utilizada para nada, até onde se sabe. Alguns pesquisadores dizem que 90% do nosso código genético seja deste “junk DNA”. Talvez tudo isso seja código legado, ou seja, um dia já serviu para alguma coisa, ficou obsoleto, mas como não faz mal e dá um trabalhão limpar, foi ficando. Todo processo vivo, em constante inovação, acaba gerando um monte de código legado – para fazer uma analogia, o Internet Explorer antigo teve que ser reescrito, porque tinha um milhão de linhas de código que eram obsoletas.

  


Como transformar o DNA num osso?

  

Para transformar uma receita de bolo num bolo de verdade, há um ser humano que executa os passos para tal.

  

Num computador, as instruções do software dizem o que alguns equipamentos elétricos e eletrônicos devem fazer: movimentar o cabeçote de leitura, ler um dado, comparar com o estado dentro da memória.

  

Como isto é feito no interior do corpo humano, somente com bioquímica?

  

Quando um gene é transcrito, é feita uma cópia a partir do DNA. Esta cópia é como uma linha de aminoácidos. E ela começa a se dobrar em si mesmo. Alguns dos aminoácidos são hidrofílicos, outros hidrofóbicos, e também há as forças de atração e repulsão entre eles, de modo que a linha começa a se dobrar e formar uma peça, como se fosse um Lego. O nome desta peça de Lego é proteína. E este Lego tem um formato certinho para encaixar uma molécula de cálcio, no caso do osso. Portanto, o gene é uma receita para montar um Lego, e o Lego vai se montando pelo formato 3D e por forças bioquímicas, algo como uma impressora 3D bioquímica.

  

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De pecinha em pecinha, utilizando forças de atração e repulsão, e respeitando o formato do “Lego”, o corpo humano vai sendo montado. Dá-se o nome de dobramento de proteínas a esta formação da estrutura 3D a partir da base nucleica, e é uma das áreas de muito estudo no mundo atual.

  


Porque a necessidade de alelos?

  

Um último questionamento. Por que há duas receitas para o mesmo bolo? Gastar o dobro de páginas, o dobro de material e energia, para cada celulazinha do corpo humano. Não seria mais barato ter apenas um cromossomo, ao invés de um par dos mesmos?

  

Eis aqui a eterna briga entre a otimização e a redundância.

  

Embora as empresas de hoje tentem sempre otimizar, fazer mais com menos, a sábia natureza diz que otimizar demais não é bom. É melhor ter alguma redundância, um backup de segurança para casos de emergência.

  

Digamos que surja um vírus, a varíola. Aliás, um vírus nada mais é do que um DNA protegido por uma parede de proteínas.

  

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Digamos que este vírus seja letal, e a humanidade tenha tido um trabalhão para desenvolver os genes para vencer o mesmo.

  

Uma vez vencida a varíola, não há a necessidade de ter tais genes. E, talvez, este gene evolua para combater algum outro vírus.

  

Mas, imagine que a varíola volte, e volte mais virulenta ainda (e esses vírus vão e voltam comumente). A humanidade teria que desenvolver de novo os genes para combater a varíola.

  

O fato de ter dois alelos, dois backups para o mesmo gene, é um seguro para que os genes úteis não evoluam depressa demais e não sumam com o tempo. Ter duas cópias do gene aumenta a probabilidade de que alguém, em algum lugar, tenha as chaves para combater a varíola, mesmo que escondidas num gene recessivo.
 

 

Esta é uma das razões pelas quais o corpo humano é antifrágil, tomando emprestado o termo do pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele tem seguros, alternativas, planos B. E vejo muitas empresas do mundo moderno descartando planos alternativos e segurança (como estoques, capacidade ociosa de equipamentos), pois são custos no curto prazo, ficando vulneráveis a longo prazo. Elas deveriam aprender com a natureza…

 
 


 

Exceções

  

Este texto tem a intenção de ser uma introdução leve, interessante, cheia de analogias, sobre o fascinante mecanismo de transmissão de informação de geração em geração. É claro que tudo o que está escrito aqui são teorias, e teorias  mudam com o tempo, há contra-teorias e  exceções para todas as regras.

  

Conforme diz Shakespeare, em Hamlet:
“Há muito mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia”

 


Referências:

 

The Red Queen – Matt Riddley
Genome: the autobiography of a species in 23 chapters – Matt Ridley
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Thanks não tem tradução

A tradução de “Thanks” para o português é “Obrigado”.
E a tradução de “Sorry”, “Excuse me”, é “Desculpe-me”.

Mas essas palavras não tem tradução.

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Voltei do Canadá recentemente e as pessoas ali são muito polidas. Para qualquer coisa, é um “thank you”. Para esbarrões na rua, “sorry”, “excuse me”.

Esta polidez também vale no trânsito. O pedestre atravessa na faixa de pedestres, não no meio da rua. O pedestre espera o farol para pedestres ficar verde (confesso que é um tormento ficar esperando). Por outro lado, quando o pedestre pisa na faixa, o automóvel para e espera o mesmo atravessar, sem buzinar, nada.

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As regras acima valem principalmente para cidades menores (tipo Quebec City e Fredericton, que já conheci). Para Toronto, que é maiorzinha, já comecei a ver uns veículos buzinando e uns pedestres atravessando no meio da rua (seriam brasileiros?).

Engraçado que, quanto mais ao sul, a tendência é ir piorando. Nova Iorque já é um pouco pior, mas muito mais civilizado do que no Brasil.

Minha referência é a monstruosa São Paulo. É difícil fazer uma comparação direta. O Canadá tem o tamanho físico do Brasil, mas com um quinto da população. Toronto, que é uma cidade enorme para os padrões canadenses, é um quarto do tamanho de São Paulo. Se o trânsito de SP já é um caos, com gente buzinando para todo lado, pedestres atravessando a rua em qualquer ocasião possível e impossível, imagine se cada carro tivesse que esperar cada pedestre que pisasse na faixa…

 


 

Esse negócio de falar “thank you” e “sorry” toda hora viram hábito. Depois de um tempo, eu também estava falando “thank you” a torto e a direito.

Então, ocorreu algo muito estranho. No avião de volta para o  Brasil, duas aeromoças atendiam a minha fileira. Uma que falava português, e outra, que falava inglês. Quando passava a que falava inglês, eu falava “thank you” quando era servido. Quando passava a que falava português, eu não falava nada. Só fui perceber isto quando fui falar “obrigado”, mas saiu “thank you”. Daí, a conclusão de que “thank you” tem uma tradução literal, mas não tem uma tradução cultural.

Dizem que o hábito é como colocar um fiozinho de cada vez, até formar um cabo muito forte. Este é o poder do hábito.

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E, apesar de tudo isso, ainda acho que São Paulo dá de 10 a zero em Toronto, por ser muito maior, ter mais diversidade cultural, mais confusão e mais desafios.

 


 

Curiosidade 1. Na Inglaterra e na Austrália (colonização inglesa), utiliza-se a mão inglesa (a direção é no lado oposto do carro). Imaginei que no Canadá, por ser uma colônia britânica, também adotaria mão inglesa. Mas não, utilizam mão francesa. Imagino que seja por estar perto dos EUA. Os EUA, por sua vez, também foram colônia inglesa, mas como a independência se deu por força bruta, preferiram adotar a mão francesa.

 

Curiosidade 2. Este ano, o Canadá comemora 150 anos. Tinha bandeirinha em todo lugar. Mas 150 anos do que? Achei que fosse da independência. Mas não, nunca houve independência. Até hoje, o Canadá não é independente: a rainha do Canadá é a rainha da Inglaterra. Mas, na prática, a rainha não manda em nada. E os 150 anos são o aniversário da unificação das províncias canadenses num único país.

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Homenagem aos 150 anos do Canadá, na cidade de Fredericton

 

 

 

 

Plutão e a falácia narrativa

A falácia narrativa

O cérebro humano tem uma imaginação incrível, mas justamente esta capacidade de imaginar pode causar alguns “bugs”. Um deles é o de acreditar mais numa história bem contada do que na realidade…

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O planeta Plutão é o xodó dos astrônomos, o queridinho, por causa de uma história mais ou menos assim.

Nos anos 1900, o astrônomo Percival Lowell observou discrepâncias na órbita do planeta Netuno. Ele fez os cálculos e concluiu que existia um nono planeta, o planeta X, que estava interferindo na órbita de Netuno. Décadas depois, o tal planeta X foi descoberto, exatamente no local predito por Lowell. Em sua homenagem, batizaram o planeta de Plutão, que tem iniciais P e L (Percival Lowell).

 

Esta história confirmava o poder da matemática, segundo os livros didáticos.

Será?

 


 

O Rebaixamento de Plutão

Há alguns anos atrás, em 2006, o planeta Plutão foi desclassificado como um planeta de verdade. Foi rebaixado para a segunda divisão dos planetas do sistema solar, a categoria dos planetas anões.

Este fato causou uma comoção internacional. Como poderiam os cientistas, após tantos anos, tirar Plutão da série A de planetas?

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Acontece que a ciência avança com o tempo. E os astrônomos foram descobrindo mais e mais informações sobre o sistema solar.
Por exemplo, objetos como Quaoar (anunciado em 2002), Sedna (2003) e Eris (2005) têm quase o mesmo tamanho ou são até maiores do que Plutão. Descobriram o Cinturão de Kuiper, após a órbita de Netuno, que consiste em um cinturão de asteroides e que pode conter mais objetos similares a Plutão. Algumas das luas de Júpiter e Saturno são maiores do que Plutão.

 

Bom, no final das contas, o comitê da União Internacional dos Astrônomos de 2006 tinha duas opções: ou eles tiravam Plutão e ficavam com 8 planetas, ou incluíam o mesmo e ficavam com mais de 100 planetas! Os cientistas resolveram rebaixar Plutão.

 

Mas, então, tem algo errado na historinha do descobrimento de Plutão. Se este planeta é tão insignificante assim, ele não teria massa suficiente para perturbar Netuno, conforme descrito por Lowell.

E, na realidade, é isso mesmo. As estimativas iniciais de Lowell colocavam Plutão com um tamanho 12 vezes o da Terra. Medidas da massa real de Plutão, realizadas décadas seguintes, mostraram que massa real é minúscula, incapaz de perturbar Netuno.

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Mas, se não é Plutão que causa a perturbação na órbita de Netuno, o que é?

Na verdade, a perturbação que entrou no cálculo de Lowell nunca existiu. Era um erro de medida. Não foi culpa dele, mas os cálculos foram baseados numa premissa errada.

Portanto, a descoberta de Plutão foi pura coincidência. Um efeito placebo na ciência.

O rebaixamento de Plutão causou tanta comoção que, hoje em dia, alguns astrônomos defendem voltar Plutão à categoria de planeta. E, junto, também promover os outros 100 planetas da série B para a série A do campeonato de planetas. Querem virar a mesa do campeonato. Plutão é uma espécie de Fluminense planetário. Querem salvar Plutão no tapetão, no STJD espacial!

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Esta história é um exemplo do poder da imaginação humana.

Conclusão: quando for querer vender algo, tente contar uma historinha convincente junto, para aproveitar este “bug” do cérebro humano.


Leia também:
A verdade e o conto

http://csep10.phys.utk.edu/ojta_samples/course1/synthesis/perturbation/pluto-disc_tl.html

http://www.bbc.com/news/science-environment-33462184

https://www.space.com/19774-percival-lowell-biography.html

http://nineplanets.org/pluto.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Kuiper_belt

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto

2017: Uma Odisseia de ônibus em SP

São Paulo é uma cidade gigantesca… Mais de 12 milhões de habitantes, com 7 milhões de automóveis, fazendo deste lugar um dos maiores pesadelos do mundo em termos de trânsito: rodízio de carros, radares para todos os lados, marronzinhos multando, carros avançando uns nos outros, etc…

 

Tenho duas alternativas para ir ao escritório. De carro, demoro 40 min para percorrer 9 km de distância. De transporte público, (ônibus + metrô), 1 hora e pouco. Ou seja, mais ou menos duas horas diárias na locomoção.

 

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São Paulo é tão grande que um ônibus articulado enorme como esse lota facilmente

Prefiro a segunda alternativa, transporte público, mesmo com todos os problemas: ir de pé, às vezes num ônibus lotado. Mas não uso transporte público por motivos altruísticos. Não é para salvar o planeta, nem para preservar o meio-ambiente. Uso o ônibus para otimizar o meu tempo.

 


 

O tempo do trajeto é o único momento do dia em que posso me concentrar totalmente, sem interrupções, sem compromisso, sem stress – em casa, tenho três filhas, e, no ambiente de trabalho, há sempre uma quantidade imensa de tensão e distrações.

No trecho do metrô, posso ler, e no trecho do ônibus, costumo ouvir áudio-livros. Ou simplesmente pensar, sobre qualquer assunto, sobre qualquer coisa. Ao invés de perder 80 minutos brigando no trânsito, ganho 120 minutos diários de tempo para ler, estudar e viajar pelos mais diversos assuntos:

– Ulisses, na Odisseia, enfrentou um dilema. Ele estava na ilha da deusa Calipso há sete anos. Um dia, ele quis partir, voltar para a sua Ítaca.

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Odisseus e Calipso

 

Calipso, que estava perdidamente apaixonada, ofereceu a Ulisses a imortalidade: viver eternamente com 30 anos, no mundo dela, cheio de fartura e prazeres. Ulisses preferiu voltar para Ítaca. Preferiu viver com Penélope os poucos anos que um mortal pode viver, e por isso mesmo, desfrutar de cada momento como se fosse o último.

– Um grupo de colonos nórdicos chegou às Américas no ano 1000. Eles chamaram o lugar de Vinland, porque havia histórias de que os vinhedos cresciam por todo lado nesta terra. Foram liderados por Erik, o vermelho. Mas, de vinho doce eles encontraram nada. Enfrentaram a oposição dos índios nativos e a colônia não durou muitos anos.

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Só tecnologia para cruzar os oceanos não bastava. Para haver a era dos conquistadores, 500 anos depois, tinha que ter estrutura política, social e econômica: apoio governamental, exércitos, missionários, financiamento econômico via diluição dos riscos (empreendimentos como a Companhia das Índias Ocidentais deram origem à bolsa de valores).

 

– O filósofo grego Sócrates foi condenado à morte por influenciar negativamente os jovens de Atenas.

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O julgamento de Sócrates

Ele encarou a condenação de peito aberto. Se questionar e pensar eram ofícios tão negativos assim, ele assumia que era isso mesmo que ele fazia. Sócrates não hesitou em tomar cicuta, um tipo de veneno.

 

– Uma das histórias mais bonitas de Neil Gaiman é chamada Ramadã. É sobre a maior e mais bela cidade que já existiu, Bagdá. A Bagdá das histórias das 1001 noites, dos palácios encantados, dos tapetes voadores. A Bagdá das belas dançarinas, dos mercados exóticos, dos viajantes de todos os lugares do mundo.

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Pois bem, o seu califa, Rahoun Al Raschid, estava preocupado. Bagdá era tão perfeita, e estava num momento tão bom, que ele sabia que este momento não duraria para sempre. Desceu até uma sala, onde havia dois ovos da Fênix: um branco, que geraria outra Fênix, e um preto, da qual ninguém sabia o que viria. Chamou Sandman, o senhor dos sonhos, e fez um acordo com ele: “concedeu” Bagdá a Sandman. Bagdá foi imortalizada no mundo das histórias, no mundo dos sonhos. Foi uma sábia decisão. Hoje em dia, não há mais Bagdá, e sim, o Iraque em seu lugar.

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Os dois ovos da Fênix

– Einstein e Godel passavam horas caminhando e conversando, no tempo em que os dois trabalhavam em Princeton. Albert Einstein, todos sabem, abalou os alicerces da física newtoniana. Kurt Godel era um lógico matemático, que provou que a Matemática não consegue se livrar de paradoxos (ex. o mentiroso diz “Estou mentindo”), e portanto, não é completa e consistente ao mesmo tempo: em suma, ele abalou os alicerces da matemática. As duas ciências mais exatas da humanidade tiveram as fundações questionadas por esses dois homens.

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Kurt Godel e Albert Einstein

Qual seria o nível da conversa matinal dos dois? Gostaria de ser uma mosquinha, para acompanhar.

– Um soldado japonês chamado Hiroo Onoda continuou lutando, mesmo após 25 anos depois do fim da Segunda Grande Guerra. Ele foi designado para defender uma das incontáveis ilhas do Pacífico. Os EUA nem deram bola para esta ilha, passaram direto. Quando chegaram as primeiras notícias de que o Japão tinha se rendido, alguns dos colegas de Onoda se entregaram, outros acharam que era uma emboscada americana. Com o passar dos anos, os colegas ou desertaram ou morreram.

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Onoda continou sozinho na floresta, vivendo escondido em buracos e sobrevivendo do que tinha. Ele só se entregou após o seu comandante, o mesmo que o designara para a ilha, ordenar que ele se rendesse.

 

– Steve Jobs era tão perfeccionista que vivia numa mansão praticamente vazia, porque só comprava móveis cujo design o agradava. Ele perdia semanas exigindo um design perfeito de seus produtos, desde a caixa que embalava até o mais minúsculo detalhe. “O botão do novo Mac ficou tão bonito que dá vontade de lamber”.

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– Redes Neurais Adversárias são uma das maiores inovações dos tempos atuais. A ideia das redes é uma vencer a outra: uma rede neural especializada em reconhecer letras em imagens, contra outra rede especializada em criar letras difíceis de serem reconhecidas pela primeira. Assim como na vida real, ter um adversário à altura e com objetivos opostos faz ambos crescerem mais do que seriam capazes sozinhos. Um Barcelona não seria o mesmo sem um Real Madrid.

– O filme 2001, de Stanley Kubrick, inspira o nome deste post. Este começa na pré-história, no alvorecer do ser humano, e termina no futuro das viagens espaciais. De tempos em tempos, um monolito preto misterioso aparece para a humanidade.

Monolito e alinhamento solar

A cada monolito, ocorre uma evolução. Foram apresentados aqui alguns dos monolitos que coletei durante a Odisseia do transporte em SP…

 

Trilha sonora: “A valsa das estrelas”.

É do caos que nasce uma estrela

“Sou um discípulo do profeta Dionísio” – Friedrich Nietzsche

 

Recomendações da TI sobre estrutura de dados: quanto mais estruturado, limpo e padronizado, melhor. Aumenta a produtividade, aumenta a organização. Menor será o retrabalho, menor será a confusão com dados. Planilhas em Excel são a pior coisa do mundo, porque o usuário vai criar colunas, inserir linhas vazias, mudar o cabeçalho: vai dar tudo errado.
 
Parece perfeito.

 

Mas, também como discípulo do profeta Dionísio, digo que NÃO.
     

  • Quanto mais caótico o banco de dados, melhor.
  • Quanto mais sujo, melhor.
  • Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 


Apolo x Dionísio

 

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha a notável capacidade de aliar ideias filosóficas com um estilo poético. Uma de suas metáforas mais conhecidas é o contraste entre os deuses gregos Apolo e Dionísio.

 

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Apolo é o deus do Sol, da Harmonia, da Medicina. Ele representa a Ordem: o deus bonito, alto, forte, simétrico, organizado. É o deus das artes, dando formas precisas às esculturas, colocando ordem no caos.

 

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Tela: o triunfo de Baco

 
Dionísio é o deus do vinho. Representa o Caos. Baixinho, gordo, feio, bêbado, torto, tudo de ruim. Representa a êxtase, embriaguez. Nascido da fome e da dor, renasce a cada primavera e espalha alegria por onde passa.

 


Ordem x Caos

 

Parece bom ter ordem ao invés do caos. Mas o fato é que podemos ordenar apenas um pedaço muito pequeno do mundo. O universo, infinitamente maior, nunca será conhecido pelo ser humano.

 

Imagino os dois deuses como dois braços: um braço do caos e outro da ordem, se complementando. Devemos ordenar o mundo tendo a humildade de reconhecer que há premissas que sempre estarão fora de qualquer modelo.

 

Tenho um lado apolônio muito forte, pela minha formação em engenharia, olimpíada de matemática, etc. Mas também tenho um lado dionisíaco muito forte, o que me leva ser muito cético com tudo o que quer organizar demais, otimizar demais, dando pouca margem a imprevistos.
 


Por que gosto de estruturas de dados caóticas?

 

Trabalho bastante com inovação, no sentido de criar novas ferramentas, novos processos, novas ideias.
 
Quando trabalhamos com um novo projeto, o cliente não tem a mínima ideia do que quer. Ele sabe apenas o sintoma (digamos, os analistas perdem tempo demais para gerar o relatório), e assume que sabe a solução (gerar um relatório automaticamente).

 

Mas qual o problema real? Ninguém sabe, este deve ser descoberto.

 

Às vezes, ele nem precisa do relatório que ele achava que precisava. De qualquer forma, em 100% dos casos, não adianta estruturar bases de dados para tentar resolver com eficiência o problema errado.

 

Como diria Peter Drucker:

 

Não há desperdício maior do que resolver com grande eficiência um problema que não precisava ter sido resolvido.

 

A recomendação das bases de dados estruturadas serve somente para processos maduros, já estabelecidos e que vão mudar pouco.

 

Para inovações, quanto mais protótipos, melhor. Quanto mais quick-wins, simples,  rápidos, flexíveis e portanto, caóticos, melhor. Quanto mais excel sujo, melhor. Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 

Nenhuma nova música surge da ordem. Nenhum novo quadro surge da ordem. Nenhuma nova ideia surge da ordem. Somente do caos.

 

“É do caos que nasce uma estrela” – Friedrich Nietzsche

 
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As pessoas no primeiro mundo são muito frias

 As pessoas no primeiro mundo são muito frias: “o meu serviço é este, neste escopo, neste prazo, nesta qualidade, neste custo. Se quiser leva, se  não quiser, não leva”.
A gente é bem mais quente: “prometo dar um jeitinho de fazer tudo  o que você pede, no prazo que pede, e ainda dar um desconto” (mas não vou cumprir o prometido).

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Num país de primeiro mundo, o fornecedor diz que vai levar um mês, sem “jeitinho” nenhum. E ele vai demorar o mês que disse que ia levar.
 
Aqui no Brasil, o fornecedor promete dar um jeito para fazer em uma semana. Ele atrasa uma, tem que ser cobrado, depois atrasa mais outra, é cobrado de novo, até que realmente entrega, um mês após o acordo, custando mais do que o combinado.
 
 
Temos a ilusão de que no Brasil as pessoas são mais atenciosas, mais “quentes”, enquanto num país desenvolvido as pessoas são distantes, “frias”. Mas gastamos o triplo da energia e erramos em três vezes o planejamento, por conta de sermos tão  “atenciosos”.
 
Atrasar e fazer pela metade é comum no Brasil, não é pecado. Pecado mesmo é falar na cara do cliente que não dá para cumprir o prazo que ele quer, e fornecer o prazo real.
 
O que eu prefiro? Prefiro a postura do primeiro mundo, sem jeitinho, ao seu tempo e custo.
 
Mas a realidade não é tão simples. Não dá para nadar contra a correnteza. Temos que jogar o jogo de acordo com as regras. Portanto, no Brasil, é difícil não fazer o mesmo: prometer datas impossíveis, sabendo que vai atrasar, que vai ficar pela metade, e que no final das contas, a qualidade será pior, o custo será maior, e o prazo vai pior do que seria sem o “jeitinho brasileiro”.
 
É uma questão de perspectiva.

Um sujeito anormal procurando um número interessante

Após tirar esta foto, do prédio escrito “normal”, o sujeito anormal da foto – eu – lembrou-se de um paradoxo “interessante”.

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Suponha que eu liste os números naturais em ordem:

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4

Agora vamos dizer algum fato interessante sobre cada um dos números:

  • 1 É o primeiro número de todos, é divisor de todos os outros
  • 2 É o primeiro e único número primo par
  • 3 É o primeiro primo ímpar
  • 4 É o primeiro quadrado perfeito

Digamos que os números que têm alguma propriedade interessante sejam chamados de números “interessantes”.
E os números que não são interessantes sejam os números “normais”.

Utilizando esta definição, a lista ficaria assim:

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante

É uma lista que parece possível de fazer.

Agora, suponha que o número x seja o primeiro número “normal” da lista.

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante
  • x É um número normal

Mas, se x é o primeiro número “normal”, ele é um número “interessante”, porque ele tem uma propriedade interessante: a de ser o primeiro número “normal”.

Por outro lado, se considerarmos x um número “interessante” por ter a propriedade de ser o primeiro número “normal”, ele deixa de ser um número “normal” e passa a ser “interessante”, assim perdendo a propriedade de ser o primeiro “normal” e deixando de ser “interessante”…

Que confusão! Não é “interessante”?


Para falar algo interessante, este problema tem o nome de “Paradoxo dos números de Richard”, descrito pelo matemático Jules Richard em 1905.

Este link (https://en.wikipedia.org/wiki/Richard%27s_paradox) conta mais detalhes sobre o paradoxo de Richard, mas de forma menos interessante do que neste espaço.

Um outro paradoxo semelhante é o “Paradoxo do mentiroso”. Um homem que só conta mentiras diz “Estou mentindo”. Porém, como ele só mente, ele estará dizendo a verdade nesta afirmação. Mas se ele falar a verdade, ele não é alguém que só conta mentiras.

Esses paradoxos “bugam” não só a cabeça de um ser humano comum, mas também a cabeça dos maiores matemáticos da história.


O matemático austríaco Kurt Godel abalou as fundações de toda a matemática, em 1931, ao provar que a matemática não pode ao mesmo tempo ser Completa e Consistente, com seus Teoremas da Incompletude. Ou seja, a matemática tem limites. Godel encontrou um “bug” nas fundações da matemática – ela não consegue ao mesmo tempo se livrar desses paradoxos bizarros e responder Verdadeiro ou Falso a todas as suas proposições. Godel utilizou um versão sofisticada do Paradoxo de Richard para provar isto.

É uma longa história, que envolve gigantes do pensamento como David Hilbert e Bertrand Russell, e esta história fica para outro dia.

A propósito, eu acho que o autor do jogo de luzes do prédio escreveu “normal” de uma  forma “interessante” só para o prédio não ser mais “normal” e assim confundir a nossa cabeça…

 

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Ser sério e parecer sério

Já viajei a trabalho para diversos locais do Brasil, incluindo Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e outros. E no exterior também, Austrália, Omã, Canadá.

Em alguns desses lugares fiquei em hotéis muito simples. Em outros, em hotéis bastante luxuosos, daqueles em que eu não iria se fosse por conta própria. Muitas das vezes, estavam hospedados no mesmo hotel  clientes, fornecedores e colegas. 

A única característica comum a todas essas viagens é que nunca utilizei a piscina do hotel.

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Mesmo quando tinha tempo livre, ou à noite, nunca utilizei a piscina – nem me embebedei, nem fui fazer turismo, nenhum exagero. Em geral, não gosto de juntar diversão com trabalho, por mais que a influência no resultado final seja zero.

 

Não quer dizer que todos devem ser assim. Faz parte da minha postura.

As aparências importam. A capa do livro é tão importante quanto o conteúdo.

A postura que tenho: além de ser sério, parecer sério. E a piscina fica para o fim de semana…

 

 

 

 

 

 

 

 

Nunca mais erre uma fórmula: análise dimensional, álgebra e ideogramas

​Análise Dimensional

Um peso mexicano vale 0,17 real. Comprei 1.300 pesos. Quanto gastei em reais?

Há muito tempo atrás, eu me perguntava: a conta seria 1300*0,17 ou 1300/0,17?
A “análise dimensional” resolve facilmente esta dúvida.
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Peso corta com peso, sobrando real.
Se eu fizesse a conta oposta:

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O resultado é na unidade peso^2 / reais. Esta unidade não faz o menor sentido, então a fórmula está errada.
A análise dimensional consiste em fazer a conta algébrica com as unidades de medida, “cortando” e multiplicando as unidades.

Conheço esta técnica há tanto tempo que achei que todos a soubessem. Mas, descobri o oposto: a maioria das pessoas não conhece a análise dimensional. É uma técnica tão boa que não posso deixar de divulgá-la neste espaço.

Outro exemplo:

Tenho 20 m2 de área. Em um metro quadrado cabem em média 70 kg de uma material, digamos café. Cada quilo encolhe 10%, por conta de evaporação de água. Vendo o café por R$ 300 o saco de 5 Kg. Quanto será a receita esperada para a minha área?

Pela análise dimensional, é só montar a equação de forma a fazer todos os intermediários se cortarem:

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Álgebra x Aritmética
Qual a diferença entre Álgebra e Aritmética?
Em álgebra a gente faz a conta com letras, ou seja, de forma genérica: ax^2+bx+c = y

Em aritmética, a conta é numérica: 5*7^2 + 8*7-10 = 291.

Portanto, a aritmética estuda as regrinhas com as quais a gente faz as contas, enquanto a álgebra trata regras mais abstratas.


Algebrizando ideias não algébricas

Aproveitando o post algébrico, que tal inventar umas fórmulas?

Digamos que felicidade seja diretamente proporcional à saúde e à harmonia e inversamente proporcional ao stress.

Poderíamos escrever

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Ou

Felicidade = saúde * harmonia /stress

Ou

Felicidade = saúde + harmonia – stress

Ou alguma outra combinação dessas. Qual a fórmula que melhor descreve a relação entre variáveis?

Quando usamos “vezes”, é como se fosse um conectivo lógico “e”. Se um dos campos zera, o resultado final é zero.

Com zero saúde minha felicidade cai a zero, não há harmonia que compense, e vice-versa.
Já quando usamos “mais”, as coisas se somam, e o excesso de um compensa o outro – equivale ao conector lógico “ou”.

Se a felicidade da saúde e harmonia for menor do que a infelicidade causada pelo stress, ainda assim estou um pouco feliz.

Portanto, por este raciocínio, a fórmula seria:

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Isto é apenas um exercício de interpretação de fórmulas, mas note que felicidade é independente de dinheiro.


Bom em chinês

O ideograma (hanzi) chinês para “bom” é quase uma fórmula. É um ideograma formado por outros hanzi: o de mulher e de filho. Bom é ser casado e ter família.

 

Sábias palavras…