​ O destruidor de mundos

O sobrevivente de duas bombas atômicas
Tsutomu Yamaguchi estava indo trabalhar no dia 06/08/1945, em Hiroshima, no Japão, quando a primeira bomba atômica da história da humanidade foi lançada, a cerca de 3 km de onde ele estava.
Apesar das queimaduras, Yamaguchi voltou a trabalhar na sua empresa após 3 dias. Ele estava em Nagasaki, no dia 09/08/1945, quando a segunda bomba atômica foi lançada, a uns 3 km do escritório da Mitsubishi.
Yamaguchi sobreviveu novamente, por incrível que pareça. Ele é a única pessoa oficialmente reconhecida pelo governo japonês como sobrevivente das duas bombas.
Ele veio a falecer décadas depois, aos 93 anos, depois de ter sobrevivido a uma guerra mundial e duas bombas atômicas, mostrando que a Dona Morte teve muito trabalho para levá-lo.

Qual o potencial de uma bomba atômica?
Sempre me perguntei qual o tamanho do estrago de uma bomba dessas.
Digamos, uma granada destrói uma sala. Uma bomba convencional destrói algo entre um prédio e um quarteirão. E uma bomba como a de Hiroshima?
O site nukemap (http://nuclearsecrecy.com/nukemap/) dá uma ideia do tamanho da destruição.
Fiz algumas simulações.
A mesma bomba de Nagasaki, em São Paulo, acabaria com todo o centro da cidade.
SP_FatMan.JPG
A Praça da Sé e bairros próximos, como a Santa Ifigênia e a Liberdade, seriam destruídos. Do lado direito, o número de fatalidades e de feridos.

 


Tsar Bomba
Já a bomba mais poderosa do mundo atual, a Tsar Bomba (russa), detonaria toda a cidade de São Paulo, chegando até mesmo a Guarulhos, Mogi das Cruzes, Jundiaí e Santos. Com uma única bomba!
SP_Tsar.JPG
As cores representam os raios de efeito
Bola de fogo: 6.1 km (117 km²):Máximo tamanho da detonação nuclear
Rajada de ar: 32.6 km (3,350 km²): Muitas das construções colapsam, danos são universais, fatalidades em todo lugar.

Radiação termal: 73.7 km (17,080 km²): Queimaduras de terceiro grau nas camadas de pele, que são indolores por destruir os nervos da pele. Pode causar danos severos e pode requerer amputação.

 

A Tsar é uma bomba de hidrogênio, baseada em fusão nuclear (ao invés de fissão). Para produzir energia suficiente para detonar a bomba de fusão, internamente detona-se primeiro uma bomba de fissão nuclear – isto para dar uma ideia da quantidade de energia envolvida.

 


E que tal simular uma detonação no Rio de Janeiro.
RJ_FatMan.JPG
O Fat Man chegaria até o Catete, Santa Teresa e todo o centro.
RJ_Tsar.JPG
Já a Bomba Tsar alcançaria Petrópolis, Itaguaí e Saquarema!
E nota-se que o Rio de Janeiro não é um bom alvo, porque metade do poder da bomba iria se perder no mar, visto que RJ é uma cidade litorânea.
O poder do átomo é o mesmo poder que alimenta o Sol. E este poder do Sol está nas mãos de alguns seres humanos neste planeta.
Agora fica mais claro o termo Destruição Mutuamente Assegurada: MAD em inglês.
O poder dessas bombas é tão enorme, que, se usadas pelas nações que as detêm, causariam o fim da humanidade.
Depois de destruir tantas cidades, é muito apropriada a citação de Robert Oppenheimer. Ele foi um dos cientistas chefe do Projeto Manhattan, que desenvolveu a primeira bomba atômica.
Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos.

Oppenheimer proferiu a frase após o teste bem sucedido da bomba no deserto de Nevada, em 1945. Esta é uma frase do Bragavad Gita, um épico indiano secular – Oppenheimer sabia ler e escrever em sânscrito.

 


Links:

Bônus
Bomba atômica por Vinícius de Moraes

A bomba atômica I

rio de Janeiro , 1954

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
… tu que és mulher e nada mais!

(Deusa, valsa carioca.)

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De paraquedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

A rosa de Hiroxima

rio de Janeiro , 1954

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroshima

O valor das flores de plástico

Quando eu era criança, eu achava as flores de plástico mais bonitas do que as flores de verdade. Elas eram bem feitas, não envelheciam, não murchavam, não morriam… talvez um dia, todas as flores do mundo fossem substituídas por suas versões infinitas.

Image result for flores plastico

Entretanto, logo descobri que as flores de verdade valem muito mais do que as artificiais. É simples fazer um teste. Tente dar um buquê de flores de plástico para uma moça. Ela vai tacar a mesma na sua cabeça.

O valor das flores do mundo real vem exatamente do fato de que elas duram pouco. Murcham rapidamente, envelhecem e morrem. São efêmeras.

O ser humano se comunica através de sinais, implícitos e explícitos.

Um buquê de flores de verdade sinaliza que o galã teve que comprar o mesmo recém-cortado, portanto caro, e manusear com muito cuidado até entregar à moça.

É um sinal difícil de falsificar.

Neste caso, o que vale é a sinalização. Não a beleza.

 


 

Diplomas e certificados

O que é um diploma? Ou um certificado de alguma habilidade específica?
É como o caso das flores, uma sinalização. Sinaliza que fulano fez algo muito difícil, e de muito valor.

Image result for diploma

Na prática, uma pessoa sem certificação pode fazer o mesmo, ou até melhor, do que alguém certificado, ainda mais nos dias de hoje, com a disseminação do conhecimento pela internet.

O problema é que, num mundo com bilhões de pessoas, é muito difícil distinguir as habilidades de centenas de potenciais candidatos. As certificações servem como um filtro para o processo de avaliação. Não conheço totalmente a pessoa, mas conheço e dou valor à certificação.

Porém, assim como no caso das flores de plástico, o diploma perde totalmente o seu valor se ele começar a ser falsificado, ou banalizado. Todo mundo ter curso superior é o mesmo que ninguém ter curso superior. O mercado não é bobo, ele entende e se adapta facilmente aos sinais. Não por coincidência, hoje em dia é necessário ter curso superior para ser auxiliar de ajudante de analista de contabilidade júnior.

 

Quando não se conhece as pessoas, as certificações são um filtro. Entretanto, depois que a pessoa é conhecida, e tem o trabalho avaliado após alguns meses e anos, o jogo é outro. A sinalização é pela confiança. Um diretor prefere trabalhar com alguém de confiança, que ele sabe que vai dar conta do trabalho, do que um desconhecido cheio de certificados.

Num mundo repleto de certificações banalizadas, a indicação boca-a-boca, tanto de profissionais quanto de serviços, tem um valor muito grande: “Sei que esse cara manda bem demais”, “Fulano foi o responsável pelo sucesso do projeto”, etc.

A indicação boca-a-boca sincera é um sinal muito difícil de falsificar.

 

Em resumo. Não confundir o valor real com certificações.

E, cuidado. Atualmente, as certificações estão virando flores de plástico.

 

 

 

​Desista, nunca vai dar certo!

Todas as vezes em que um especialista disser que não vai dar certo, lembre-se desses cases.

 


Os Beatles

Em janeiro de 1962, os ainda desconhecidos Beatles foram rejeitados pela Decca Records, com a seguinte nota:

“Grupos de guitarra estão em franca decadência”, e “os Beatles não têm futuro no show business”.

Ledo engano, os Beatles se tornaram a banda de maior sucesso da história!

 


 

Fedex

Fred Smith é o fundador da Fedex, uma das maiores transportadoras de carga do mundo. Num dos trabalhos da faculdade, ele colocou a ideia de transportes de cargas através de um hub central.

Diz a lenda que ele recebeu um C- pelo trabalho, com a explicação de que o mesmo deveria ser minimamente viável na prática para receber uma nota melhor!

 


 

O Telefone

Graham Bell, o inventor do telefone, ofereceu os direitos de produção à Western Union, que respondeu:

“Que espécie de uso teria este brinquedo elétrico?”


 

Albert Einstein – Lazy dog

O grande cientista alemão Albert Einstein não era um bom aluno. Muito pelo contrário. Ele odiava a rotina de ter que estudar assuntos que lhes eram impostos, ao invés de seguir a própria imaginação.

 

Einstein-albert-Bicycle
Por isso, um de seus professores de matemática o chamou de “Cachorro preguiçoso”, e profetizou que ele nunca faria algo de útil na vida!

 


 

Links

https://ideiasesquecidas.com/

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Beatles%27_Decca_audition

https://www.bloomberg.com/news/articles/2004-09-19/online-extra-fred-smith-on-the-birth-of-fedex

How Einstein Went from ‘Lazy Dog’ to Nobel Prize Winning Scientist

http://blog.historyofphonephreaking.org/2011/01/the-greatest-bad-business-decision-quotation-that-never-was.html

 

Planejamento de longo prazo

Palavras do grande mestre Peter Drucker, sobre o planejamento de longo prazo.

 

O futuro requer decisões – agora. Impõe riscos – agora. Demanda ação – agora. Necessita de alocação de recursos, em especial, recursos humanos – agora. Demanda trabalho – agora.

O longo prazo é feito de decisões de curto prazo. A menos que o longo prazo seja construído por ações de curto prazo, o planejamento de longo prazo é um exercício de futilidade.

Longo prazo e curto prazo não são uma questão de período de tempo: anos, décadas. O que interessa é o quão efetivo é o período de tempo sobre o qual o plano é efetivo.

Ação: Desenvolva um plano estratégico que tenha decisões presentes. Estabeleça responsabilidades pela implementação e monitoramento dessas decisões.

 

Comentário meu: a coisa mais comum de acontecer é um sonho bonito de longo prazo, acompanhado de ações completamente opostas no curto prazo. O exemplo clássico é a pessoa que traça um plano para emagrecer, mas não resiste à visão de um chocolate no supermercado. O mesmo ocorre quando o fechamento do EBITDA trimestral sacrifica um desempenho de longo prazo da empresa. 

Duas alternativas

Entre duas alternativas, a primeira já conhecida, e outra desconhecida, porém potencialmente melhor, escolha a segunda.
Novos conhecimentos vêm de experiências descorrelacionadas com experiências passadas.
Entre um livro original em inglês e sua tradução em português, escolha sempre o em inglês, para treinar uma segunda língua.
Entre um restaurante conhecido, e um desconhecido, escolha o segundo.
Uma vez fui até Quebec, no Canadá, e almocei no McDonalds. Que perda de oportunidade! Poderia ter almoçado em qualquer lugar, menos num restaurante que tem em qualquer esquina de São Paulo.
Numa reunião ou festa, tente falar com pessoas desconhecidas, não com a mesma panelinha de sempre.
Esta é uma forma simples de treinar o hábito de assumir riscos controlados.

​Bagdá, a mais bela cidade de todos os tempos

Ali Babá, um pobre lenhador árabe, esbarra com o tesouro de um grupo de ladrões, na floresta. De repente, após uma nuvem de poeira, revelam-se precisamente 40 ladrões. O tesouro dos ladrões está numa caverna, que é aberta por magia. A gruta abre-se usando-se a expressão “Abre-te, Sésamo” e fecha-se com as palavras “Fecha-te, Sésamo”. Quando os ladrões saem, Ali Babá entra na caverna, e leva parte do tesouro para casa…

Image result for ali baba 40 thieves

 

Quando éramos crianças, todos nós já ouvimos falar das histórias fantásticas de Bagdá: os contos das 1001 noites, Aladdin e sua lâmpada mágica, tapetes voadores, animais estranhos vindo dos recantos mais distantes do mundo, Sherazade e suas histórias. Conhecemos a Bagdá do mundo dos sonhos: o centro cultural, artístico, financeiro e tecnológico do mundo. Era certamente a melhor e mais avançada cidade do mundo, a mais bela capital do mundo civilizado, lá pelo ano 1000.

Image result for 1001 nights

A cultura ocidental atual só existe devido aos pensadores do oriente médio. A Europa, no ano 1000, era um bando de tribos isoladas, de bárbaros iletrados. Não chegava nem perto da radiante cultura persa. As obras dos grandes filósofos gregos, Platão, Aristóteles, foram traduzidas para o árabe nesta época e se mantiveram vivas na história da humanidade. E, séculos depois, os clássicos gregos foram redescobertos e transcritos para o latim. Não à toa, esta época da Europa é chamada de Idade das Trevas.

Quando eu era adolescente, comecei a me perguntar: onde fica Bagdá?

Depois de alguns outros anos, fiquei sabendo que Bagdá é a capital do Iraque.

Related image

E o Iraque contemporâneo, ao menos de algumas centenas de anos para cá, não é nem de longe uma referência artística e cultural do mundo moderno. Mesmo antes das guerras dos dois George Bushs, o Iraque de Saddam Hussein tinha zero do charme das histórias das 1001 noites.

Related image

 

 

 


 

De Bagdá ao Iraque

Como a Bagdá virou o Iraque é uma história de mais de 1000 anos, e certamente são muitos e muitos fatores importantes.

Porém, eu queria destacar um marco desta história. Um autêntico ponto de virada. A história da humanidade é sempre não-linear, e são exatamente esses pontos de não-linearidade que fazem a vida de centenas de milhões de pessoas mudarem para todo o sempre.

Esta não-linearidade tem um nome: Genghis Khan. E o que ele fez? Deletou Bagdá do mapa. Apagou toda a glória de Bagdá, obrigando-a a recomeçar do zero. Esta história, e algumas de suas consequências, serão narradas a seguir.

Image result for genghis khan

 


Genghis Khan

Não estudamos a história do mundo, na escola. Para nós, o mundo se resume à Europa e aos Estados Unidos. Nunca ouvi falar de Genghis Khan nas apostilas. Entretanto, ele mudou para sempre o mundo, deixou cicatrizes que duram até os dias de hoje.

Related image

Genghis Khan nasceu com o nome Temujin, no ano 1162, na Mongólia. A Mongólia é uma região árida, e tinha povos nômades organizados em tribos. Temujin uniu as tribos mongóis, onde “unificar” significa derrotar os outros exércitos, matar seus líderes e assumir o poder. A unificação das tribos mongóis se deu ao longo de 20 anos de batalhas. Temujin se tornou o Genghis Khan. O termo “Khan” significa algo como “rei”, e “Genghis”, “grande”.

Uma vez dominando a Mongólia (e regiões vizinhas), o grande Khan começou uma estratégia de dominação do mundo inteiro. Partiu para o oeste, dominando os povos da região da Armênia, Afeganistão e outros. Partiu para o sul, onde dominou o norte da China (um de seus descendentes, Kublai Khan, encontrou Marco Polo e tentou conquistar o Japão, numa história que um dia eu conto).

Todo exército bem sucedido tem alguma inovação tecnológica ou de processos que dá uma vantagem sobre os oponentes. No caso dos mongóis, eles dominavam duas técnicas letais: o cavalo e o arco.

Image result for mongolian warrior

 

 

O povo mongol, nômade, praticamente nascia montado num cavalo. Um mongol tinha 100% de afinidade com o seu cavalo, eram uma coisa só. Dominar uma montaria dessas, numa guerra, significava extrema força e mobilidade.

 

Além disso, eles dominavam o arco-e-flecha. Eram treinados desde cedo nesta arte. A combinação arco-e-flecha montada num cavalo, tornava-os praticamente imbatíveis: poderiam atacar de longe sem serem atacados, poderiam ir e vir com a velocidade de um raio.

Ao longo do tempo, eles foram incorporando tecnologias assimiladas dos povos conquistados. Ao exército mongol juntaram-se engenheiros chineses e sua máquinas para o cerco de cidades. Máquinas como a catapulta para lançamento de pedras e de óleo inflamável, tecnologias para construção de fortificações e pontes, algumas armas rudimentares baseadas em pólvora.

Os mongóis eram naturalmente rudes e ferozes. Por exemplo, os mongóis não lavavam as suas roupas, o que os tornava famosos pelo mau cheiro. Outro exemplo: eles eram acostumados a comer carne crua. Para amaciar um pouco a carne crua, eles a colocavam entre suas pernas quando montados no cavalo…

 

Pois bem, para completar, o grande Khan adotava a técnica do terror para maximizar o alcance de suas conquistas. Mandava mensageiros para submeter as cidades ao seu domínio, o que significava reconhecer os mongóis como senhores, fazer contribuições de ouro, alimentos, armas e exércitos ao Khan. Quem não obedecesse era sumariamente destruído, para servir de exemplo. A cidade toda era devastada, não sobrava pedra sobre pedra. Até mesmo os civis eram brutalmente executados. Eles varreram algumas cidades do mapa, como uma cidade afegã chamada Khwarezmia, que foi completamente dizimada.

Não havia exército que conseguisse se equiparar à força dos mongóis. Não havia quem fosse mais ágil, mais experiente em batalhas, e com tanto know how de engenharia de destruição. Era melhor se render do que tentar enfrentá-los.

Em física, o momentum é igual à força vezes velocidade. Um grande momentum atropela um pequeno momentum. Na Arte da Guerra de Sun Tzu, diz-se para atacar como uma pedra esmaga um ovo. O momentum é como uma pedra enorme rolando morro abaixo.

O momentum era de Genghis Khan.

 


 

O califado Abbasid

 

O califado Abbasid foi o terceiro califado após o profeta islamico Maomé. O comandante do califado era o califa, e a cidade de Bagdá era a capital da mesma. O califado Abbasid foi estabelecido em 750.

Na época de ouro, Bagdá era a maior cidade do oriente médio, e era conhecida mundialmente como a capital do conhecimento, por abrigar instituições acadêmicas importantes.

O poder do califado estava em pleno declínio, no século XIII, após décadas de intrigas políticas, guerras e governos ruins. Havia outras forças na região, turcos e mamelucos.

Em 1242, o califa al-Mustasim assumiu o poder da cidade. Diz um cronista da época, sobre al-Mustasim.

“Sem dúvida, não tem a menor aptidão para o reinado, e a grandeza passa longe do mesmo”

 


 

Os mongóis chegam à Bagdá

 

No ano de 1258, Genghis Khan já havia morrido. O comando do império mongol era de seu neto Mongke Khan, que enviou o irmão dele, Hulagu Khan, para conquistar os povos do Oriente Médio.

Hulagu Khan levou 150 mil soldados para o Oriente Médio, e contava com o apoio de outros povos subjulgados e aliados ocasionais: exércitos da Armênia, Geórgia, etc.

Enquanto o califado estava em franco declínio, os mongóis estavam em seu auge.

O cerco de Bagdá ocorreu em 1258 e durou apenas duas semanas. O califado falhou em se preparar para a batalha, sem exército à altura. Bagdá também achava que um ataque a eles poderia mobilizar aliados islâmicos em sua defesa, o que não ocorreu.

O exército mongol destruiu os canais de irrigação, arruinando a agricultura. Saquearam e destruíram mosteiros, palácios, hospitais. Roubaram os tesouros, estupraram mulheres, aniquilaram a população civil.

Eles mantiveram o califa vivo, para assistir à execução de seu exército. Depois, enrolaram o califa num tapete, e fizeram os cavalos o pisotearem até a morte. Para ter uma ideia, o califa era para Bagdá como o papa é para a igreja católica.

Dizem os cronistas que os rios ficaram vermelhos de sangue das pessoas. Os mongóis não poupavam nem mulheres nem crianças. Estimativas variam entre 200 mil mortes à 1 milhão. Sendo que a população total de Badgá era em torno de 1 milhão de habitantes, algumas dessas estimativas são exageradas numericamente, mas de qualquer forma a perda foi enorme.

Depois das pessoas, foi a vez dos livros. As bibliotecas de Bagdá continham uma quantidade enorme de clássicos, da matemática à medicina, da história à astronomia. Os mongóis queimaram as bibliotecas e jogaram os livros nos rios. Os rios, antes vermelhos de sangue, depois ficaram pretos de tinta, levando embora em suas águas centenas de milhares de vidas e milhares de anos de conhecimento.

Uma perda irreparável. Após a devastação mongol, havia pouco o que se fazer. Não havia cidade, não havia agricultura, não haviam pessoas, não havia mais livros. Faltava gente para reerguer a cidade das cinzas.

Este evento é considerado o fim da era de ouro islâmica.

 


Quem parou os mongóis?

Pouco tempo após a devastação de Bagdá, um único evento pôs fim ao terrível avanço mongol. Outra não-linearidade na história: Mongke Khan faleceu. Era costume na época os comandantes mongóis retornarem ao país para prestar tributos. Mas, muito mais do que tributos, os generais mongóis estavam concorrendo para ver quem assumia o império. Ao parar de conquistar o mundo externo, e começar a brigar entre si, eles perderam o momentum, e foram sendo derrotados nas pontas. Era o início do fim do império mongol.

 


 

O que aconteceria se os mongóis chegassem à Europa?

Um dos maiores “What ifs” da história é o que aconteceria se os mongóis continuassem a sua marcha de terror em direção à Europa. O que aconteceria se Mongke Khan tivesse vivido mais uns 20 anos, e eles não tivessem perdido momentum?

Os mongóis provavelmente continuariam a sua marcha brutal em direção à Europa. Não havia exército que pudesse resistir ao seu poderio. Talvez um dia chegassem até a Itália, onde pegariam o papa e o colocariam num tapete para ser pisoteado pelos cavalos… e a história do mundo de hoje seria completamente diferente.

 


Os dois ovos da fênix

No belíssimo conto de Sandman chamado “Ramadã”, conhecemos a história do califa Rahum Al-Raschid e a sua formidável Bagdá. Simplesmente, a mais bela cidade de todos os tempos. Porém, ele estava preocupado em manter a sua Bagdá eternamente reluzente e radiante.

Image result for baghdad dream

Al Raschid faz um trato com Sandman. Ele vendeu Bagdá ao senhor dos sonhos, em troca da promessa de manter a memória da grandiosa cidade viva eternamente. Por conta disto, é possível vê-la até hoje, em toda a sua glória, tapetes voadores e histórias de 1001 noites, no mundo dos sonhos.

Nos porões do castelo de Al Raschid, descendo escadas, masmorras e entradas secretas, há uma sala cheia de ovos. Ovos de todos os pássaros do mundo, de todos os tamanhos e todos os tipos.

Image result for baghdad eggs phoenix

Nesta sala se encontram os dois ovos da Fênix. Quando a fênix morre, ela põe dois ovos. Um deles é dourado, da onde nasce outra fênix. O outro é preto, e ninguém sabe o que nasce deste ovo.

Infelizmente, foi o ovo preto que chocou.

 


 

Links:

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Abbasid_Caliphate

https://www.thenational.ae/arts-culture/tragedy-and-glory-1.296038

http://lostislamichistory.com/mongols/

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_conquest_of_Khwarezmia

https://en.wikipedia.org/wiki/Baghdad

https://www.audible.com/pd/History/Turning-Points-in-Middle-Eastern-History-Audiobook/B01AYGLFTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​ Ofurô no deserto e termas no gelo

Duas histórias de paradoxos que vi em viagens que fiz.

Ofurô no deserto
Eu já me deliciei com um banho de ofurô (uma banheira de água muito quente) no meio de um deserto, a uma temperatura do ar de 45 graus.
Image result for banheira
É paradoxal, mas é verdade.
Em 2010 eu estava em Omã, viajando a trabalho. Omã é um país vizinho da Arábia Saudita, e cruzando o golfo, dava para visitar o Irã.
Image result for oman
Omã era um país de beduínos nômades do deserto, até o dia em que descobriram que estavam sentados sobre um poço de petróleo gigante.
Desde então, são beduínos ricos.
Fiquei num hotel bastante luxuoso na cidade de Muscat. Este hotel tinha um complexo de piscinas (não entrei nas mesmas, por conta da história deste link). Ou seja, o recurso escasso do deserto, água, nas piscinas de turistas.
https://i1.wp.com/aff.bstatic.com/images/hotel/org/895/8954879.jpg
A temperatura do ar era de uns 45 graus. Chove 3 dias por ano em Omã, e por isso as ruas nem têm sistema de drenagem.
Andando uns 5 km estrada adentro, tem-se uma imagem como esta, apenas para comparação:
https://i1.wp.com/www.keithlane.com/userimages/Oman-11-Yitti-road-3770a.JPG
Mas, embora a temperatura fosse muito elevada, o luxuoso hotel em que fiquei era climatizado, e eles colocavam o ar a uns 12 graus celsius. É até gostoso sair do deserto e entrar no friozinho, mas, não muito tempo depois, chegamos ao paradoxo de passar frio no deserto a 45 graus.
O quarto em que fiquei tinha uma banheira, tipo um ofurô. E, dado que estava muito frio dentro do quarto, não tive dúvidas: enchi a banheira de água quente e fiquei ali por um bom tempo, pensando no paradoxo de eu estar gastando dezenas de litros de água no deserto, tomando banho muito quente num quarto muito gelado num ambiente externo pelando de quente. Um autêntico paradoxo do pretérito imperfeito complexo da Teoria da Relatividade, como diriam os Mamonas Assassinas.

Termas no gelo
Na cidade de Chillian, no Chile, há um termas.
O aeroporto mais próximo fica em Concepcion, ao sul de Santiago. Duas horas de carro depois, fica a cidade de Chillian, e mais uma hora montanha acima, no começo da cordilheira dos Andes, chegamos ao local.

Image result for termas chillan

Neste lugar, há um parque de águas quentes, vulcânicas (tem um vulcão por ali, dava para ver uma fumacinha).

Related image

 

Onde é possível tomar um banho de águas termais, no meio da neve.

Related image

 

Este local é extremamente bonito. Dá para esquiar, no inverno. Ou aprender a esquiar, em pistas mais fáceis para iniciantes. E a neve, por si só, é hipnotizante.

Image result for termas chillan

É similar ao que nem eu vi no Nat Geo, um termas no gelo frequentado por macacos, no Japão.

Image result for monkey hot springs japan
Parece que está muito bom…

 

O mundo é grande. E só se vive uma vez…

 

 

A artificial inteligência artificial

A história da inteligência artificial tem alguns marcos importantes. Um deles é em 1996, quando o computador “Deep Blue” da IBM venceu o grande campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos.

https://blogs-images.forbes.com/davidewalt/files/2011/05/garry-kasparov-deep-blue-ibm.jpg?width=960

Mas, há tempos, a inteligência artificial fascina os seres humanos. Seremos sobrepujados por máquinas e algoritmos? A skynet vai nos dominar? As leis da robótica de Asimov serão suficientes para nos proteger?

KasparovbeatsDeepBlue.png

O Deep Blue não foi a primeira tentativa de criar uma IA de xadrez. Há outro marco histórico, de mais de 200 anos atrás: o Turco Mecânico.

 


 

O Turco Mecânico

O Turco Mecânico é um dispositivo automático para jogar xadrez, inventado em 1770 pelo húngaro Wolfgang von Kempelen. É um Deep Blue mecânico.

https://i0.wp.com/www.uh.edu/engines/Tuerkischer_schachspieler_windisch4.jpg

O Turco Mecânico fez vários tours pela Europa, derrotando vários jogadores (humanos) experientes e performando outros malabarismos enxadrísticos, como o “tour do cavalo” – percorrer todas as casas do tabuleiro com um cavalo, sem repetir posição. Durou mais de 80 anos.

Realmente, impressiona ver o interior do dispositivo.

562px-kempelen_chess1

O único problema é que a inteligência artificial era fake, de mentirinha. Esta tinha na realidade uma pessoa, habilidosa em xadrez, escondida no interior do equipamento. Era uma inteligência artificial artificial. Era tipo um truque de mágica, um ilusionismo barato.

https://blog.beeminder.com/wp-content/uploads/2016/12/mturk-s.jpg

 


O Turco Mecânico da Amazon

Duzentos anos depois, e inspirado pelo turco mecânico original, a Amazon criou um serviço chamado Amazon Mechanical Turk (doravante AMT).

Image result for amazon mechanical turk

A ideia é focar em problemas difíceis de serem resolvidos por computadores, como transcrever discursos, reconhecer caracteres ambíguos, encontrar humanos em vídeos, reconhecer letra de médico em receitas…

Image result for bad handwriting

A AMT divide esses problemas em pedacinhos e disponibiliza cada pedacinho ao mercado (pessoas comuns como nós). Essas pessoas gastam o seu tempo, digamos alguns minutos, para ler o problema, resolver e enviar o resultado para a AMT.

Desta forma, é bom para quem quer a análise humana do trabalho, e para as pessoas, que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, em horas vagas, e receber uma fração de dólares pelo trabalho (não espere que seja um trabalho bem remunerado).

Para minimizar erros, imagino que a AMT faça o trabalho com redundância, digamos mande o mesmo pedacinho de trabalho para duas ou três pessoas confirmarem. E também, imagino que a AMT premie os humanos que trabalham consistentemente bem, e expulse quem performa mal.

Note que o AMT é uma fonte poderosa para treinamento de uma inteligência artificial de verdade.

https://s3.amazonaws.com/re-work-production/post_images/120/grid_render_tsne_reduced/original.jpg?1448643307

Uma rede neural para reconhecer objetos em imagens, precisa de:

  •  Um banco de dados imenso, digamos 10 milhões de imagens
  • Classificação correta das imagens deste banco de dados: isto é um gatinho, isto é um carro, etc

 

Rotular 10 milhões de imagens é um processo chato, lento e caro. Mas isto vai ajudar a melhorar os sistema de reconhecimento futuros.

Da mesma forma, a transcrição de linguagem falada vai ajudar a treinar a IA que vai fazer isto automaticamente no futuro.

Os turcos mecânicos do mundo de hoje ajudam nisto, a criar as bases de dados para possibilitar os deep blues de amanhã.


Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Turk

https://www.mturk.com/mturk/welcome

 

 

O seu Raul entende muito de economia

O seu Raul é um tiozinho que vende pacotes de amendoim na saída de uma das fábricas em que trabalho.

Image result for pacote de amendoim

O preço do pacotinho permaneceu em R$ 2,50 por um bom tempo, até que, um dia, ele aumentou para R$ 3,50.

– O que houve, seu Raul?
– É a inflação, meu filho. É a inflação.

Na semana seguinte, o preço caiu para R$ 3,00.

– O que houve, seu Raul?
– Eu não estava vendendo nada. É o livre-mercado, meu filho. O mercado.

Tenho certeza que o seu Raul entende muito mais de economia do que muito economista formado!

 

“I é letra de índio que todos julgam iletrado, mas índio é mais sabido do que muito doutor formado” – Mário Quintana.

Elogio ao ócio

algo de podre nos valores do mundo atual. Elogiamos aqueles que trabalham muito, fazem horas acima do combinado e usam fins de semana para se preocupar com o que ocorre na semana.

O teletrabalho só levou a preocupação para casa. Ao invés do pensamento idealizado de que era possível trabalhar na praia, a realidade é que, mesmo de férias na praia, o trabalho vem a tiracolo.

https://thumbs.dreamstime.com/b/laptop-e-caf%C3%A9-no-espa%C3%A7o-de-trabalho-de-madeira-e-na-praia-56017744.jpg

Não raro, surgem problemas atrelados a este comportamento: estresse, remédios para dormir de noite, estimulantes para não dormir durante o dia, doenças físicas e mentais.

O ser humano original, da época do neandertal, foi feito para liberar adrenalina em casos esparsos: ao caçar a sua comida, para ele mesmo não virar comida, e para fins sexuais. O neandertal não ficava alerta 24h por dia, atormentado infinitamente.

Vem à cabeça a imagem de Íxion, condenado pelos deuses gregos a ficar eternamente girando, preso à uma roda em chamas:

ixion

E, por outro lado, estamos num país com 13 milhões de desempregados. Tal número seria muito maior se o índice de desemprego levasse em conta aqueles que desistiram de procurar trabalho formal.

Com o aumento da tecnologia e da produtividade, é possível produzir mais com menos. Com o aumento de produtividade, esperava-se que sobrasse mais tempo para todos, como no antigo desenho dos Jetson, em que o trabalho dele era apertar um botão e ficar olhando.

https://i2.wp.com/www.rubbercat.net/uploaded_images/jetson-at-work.jpg

O tiro saiu pela culatra. Com o aumento da produtividade, aumentou a responsabilidade de quem toma conta do processo. E o efeito foi tirar do mercado quem não acompanhou a mudança.

Ou o fulano trabalha demais ou não tem emprego.

Será possível chegar num meio termo?

 


 

O trabalho é uma virtude supervalorizada

Um artigo de 1935, “Elogio ao ócio”, do filósofo e matemático Bertrand Russell, traz um questionamento sobre o tema.

https://images.gr-assets.com/books/1419090449l/23587713.jpg

Suponha uma fábrica de alfinetes, que tinha 8 funcionários full-time. Digamos que o aumento de produtividade faz com que sejam necessário apenas 4 para fazer o mesmo serviço. Ao invés de os 8 funcionários trabalharem meio-período, o que acontece é que 4 trabalham full-time, e 4 ficam fora da indústria de alfinetes. Esta é a “Moralidade do estado escravo”.

 

Russell aponta que o lazer é essencial para a civilização. Em tempos antigos o lazer de poucos era possível devido ao trabalho de muitos. Mas o labor era valioso, não porque trabalhar é bom, mas porque o lazer é bom.

Deveríamos aprender a aceitar um lugar para o prazer em nossas vidas, o que somente é possível com tempo livre. E deveríamos gastar mais tempo em educação, num sentido geral: utilizar o tempo de forma construtiva.

Historicamente, a pequena classe que tinha tempo ocioso desfrutou de vantagens injustas, entretanto esta pequena classe contribuiu com quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou a arte e as ciências, escreveu livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais.

Hoje em dia as universidades são supostamente responsáveis por produzir, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa produzia por acidente e sub-produto. Mas as universidades têm vários problemas. Da sua torre de marfim, não estão cientes das preocupações e problemas do homem comum.

Acima de tudo, haverá felicidade e desfrutar da vida, ao invés de nervos destroçados, cansaço e indigestão. O trabalho será suficiente para fazer o lazer agradável, mas não o suficiente para causar exaustão. Uma pequena porcentagem usará este tempo para perseguir temas de interesse pessoal, e produzir trabalhos de importância pública. E isto fará as pessoas mais ternas e menos atormentadas. A vida boa é resultado de facilidade e segurança, não de esforço árduo.

Deveria ser moralmente elogiável permitir que as pessoas trabalhassem 20 horas por dia, o suficiente para obter uma renda satisfatória.

 


O nativo preguiçoso

Este situação lembra a piada do Dr Livingstone e o nativo preguiçoso na rede.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!

https://travels.kilroy.net/media/11274144/fiji-hammock-blue-ocean-paradise-beach.jpg


Comentário

É impressionante que o texto de 100 anos atrás de Russell continue tão atual.

Mais ou menos na mesma linha, há o livro “Ócio criativo”, do pensador italiano contemporâneo Domenico de Masi. Certamente é um livro mais citado pelo título do que lido de verdade, porque é denso e prolixo.

Certamente, ambos os trabalhos são mais ideais teóricos do que formas práticas de  colocar tais ideias em ação.

Na minha opinião, a própria natureza humana não permite que trabalhemos menos; entre dois funcionários, um que quer trabalhar 4h e outro que quer trabalhar 8h, a escolha óbvia do empregador é o segundo. Por outro lado, se é possível que eu trabalhe 20h por semana por metade do salário, ou 40h com o dobro do salário, certamente a minha escolha é a segunda.

A conclusão é de que o texto de Russell vai continuar atual por mais 100 anos. Vamos continuar neste ciclo de poucos trabalharem cada vez mais, seja no escritório ou fora dele, e outros tantos ficarem de fora deste processo. É da natureza humana buscar o máximo para si mesmo… até o ponto em que isto ficará insustentável. Alguma coisa continua errada.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet, de William Shakespeare.

 

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio”

“É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas a terra dada, não se abre a boca”

João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina


 

Notas

O exemplo da fábrica de alfinetes é uma clara referência ao trabalho clássico de Adam Smith, “A riqueza das nações”, em que ele usa uma fábrica de alfinetes para exemplificar o ganho de produtividade devido à separação do trabalho.

 

 

Texto completo, In praise of idleness:

http://www.zpub.com/notes/idle.html

 

Conhecimento Tácito x Explícito

Para cada unidade de conhecimento explícito em livros, há 1000 unidades de conhecimento tácito, não escrito em lugar algum.

O conhecimento está nas pessoas – e pouquíssimas pessoas têm o talento, a paciência e dominam os meios para se comunicar de forma explícita, seja por texto, vídeo ou artigo.

As ideias estão no ar.  

Um erro comum é achar que as ideias explícitas inspiraram as ações efetivas. Na verdade é o contrário. Normalmente, a ação inspira o registro.

Muitos dos grandes pensadores da história são bons escribas e bons analistas.

Não foi depois que Adam Smith escreveu “A riqueza das nações”, em 1776, que as economias do mundo passaram a enfatizar o livre-mercado, a mão invisível e a divisão do trabalho. Tudo isto já estava acontecendo, e Smith foi o primeiro que analisou e registrou o mesmo.

Image result for wealth of nations

O mesmo ocorre com o pensador italiano Nicolau Maquiavel, nos anos 1500. Não foi ele que inventou o conceito de que “Os fins justificam os meios”. Ele era um grande estudioso e pesquisador histórico, e se baseou fortemente nos poderosos de sua época (como César Bórgia) e de épocas antigas para escrever os seus tratados políticos.

Os acadêmicos se fecham em seu mundo do conhecimento explícito, deixando para trás um universo de informações tácitas, do mundo real.

 


 

A espiral do Conhecimento

 

Gosto muito do ciclo SECI de gestão do conhecimento, de 2003, dos autores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Este ciclo reflete quase exatamente as ideias acima.

Image result for https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/administracao/recursos-humanos/gestao-do-conhecimento-5069655

 https://www.12manage.com/images/picture_nonaka_seci_model.gif

Eles dividem o conhecimento em quadrantes.

  • Tácito – Tácito: Uma pessoa ensinando outra, ou uma pessoa aprendendo com a convivência num meio. Aprendemos a falar imersos numa sociedade, e não através da leitura dos livros de gramática.
  • Tácito – Explícito: são os Adam Smiths que reportam o conhecimento tácito de forma explícita. Ou os consultores de empresa que analisam um business e geram relatórios e planos de ação. Ou os professores que escrevem os livros didáticos.
  • Explícito – Explícito: é o mundo das combinações e informação, gerando outras informações e insights. Manuais, livros, planos. O mundo acadêmico mora aqui.
  • Explícito – Tácito: é a internalização do conhecimento, estudar, ler, aprender.

 

Na verdade não é apenas um ciclo. É um ciclo virtuoso, é uma espiral – a espiral do conhecimento.

Conhecimento tácito sendo externalizado, explicitado, possibilitando a combinação de outras análises, facilitando que outras pessoas internalizem o  mesmo, gerando um conhecimento tácito melhor e mais avançado, e assim sucessivamente, e de forma crescente.

A minha contribuição é no tamanho dos quadrantes. O quadrante tácito-tácito é muito maior do que os demais. Representá-lo com a mesma área no quadro subestima o tamanho e a importância do conhecimento tácito.

NewSECI.JPG

O mundo explícito-explícito é o domínio do deus Apolo,  da ordem, do conhecimento perfeito, da beleza, do rigor exato.

Já o tácito-tácito é  o domínio do profeta Dionísio, o do caos, o das combinações esparsas, da embriaguez, do bate-papo informal. É onde nasce uma supernova, parafraseando o grande Friedrich Nietzsche.  É no tácito-tácito onde realmente ocorrem as revoluções.

 Para fazer revoluções, mergulhe no mundo tácito.

 

 

 


Anexo: A biblioteca de Lucien

A biblioteca de Lucien contém todos os livros não-escritos do mundo. Todas as ideias que nunca foram para o papel, todos os sonhos que desapareceram da memória, todos os projetos engavetados.

 

https://creativecontrol2.files.wordpress.com/2012/04/lucien.jpg?w=473&h=673

Um único detalhe: esta biblioteca existe apenas no reino dos sonhos, do personagem Sandman, de Neil Gaiman.

O loop infinito das Leis da Robótica

Nos anos 90, li pela primeira vez sobre as 3 leis da robótica no livro “Eu, Robô” de Isaac Asimov.

Image result for eu robo livro

Não levei o livro nem um pouco a sério, afinal era apenas ficção científica. Estávamos muito longe de ter robôs inteligentes. E o livro também tinha passagens que poderiam parecer futuristas em 1950, mas em 1995 já não eram. Por exemplo, um dos personagens tinha um taquígrafo de bolso – um taquígrafo é tipo uma máquina de escrever que permitia uma digitação super rápida. Porém, em 1995 as máquinas de escrever já estavam em seu suspiro final.

 

Image result for taquigrafo

Nunca imaginei que reencontraria os conceitos de Asimov, e dessa vez seriamente, mais de vinte anos depois.

E há um motivo forte para isto. A singularidade está próxima.

 


 

The end is nigh

A singularidade é o momento em que os computadores serão mais inteligentes do que nós. Este é um termo cunhado por Ray Kursweil, um pesquisador futurista. Kursweil prevê que isto deva ocorrer por volta de 2045.

Image result for the end is nigh rorschach
“O fim está próximo” – personagem Rorschach

 

Mas, profecias à parte, o que é relevante para nós é que está havendo um avanço tecnológico imenso. Os algoritmos estão sendo cada vez mais parte de nossas vidas.

Em um futuro não tão distante, aplicações de internet das coisas, veículos autônomos, computação avançada, inteligência artificial, robotização de processos, estarão presentes em nossas vidas. O avanço exponencial destas tecnologias é traduzido pela Lei de Moore, que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, para o mesmo custo de produção.

Moore

Portanto, não precisamos atingir a singularidade para termos problemas com tal escalada tecnológica. Este futuro trará não apenas problemas técnicos, mas verdadeiros problemas éticos.


 

A ética robótica

Algumas perguntas esparsas:

  • De quem é a responsabilidade em caso de acidentes com veículos autônomos?
  • Um robô pode ferir um ser humano?
  • O que acontece se um texto, ou um chatbot, ofender um ser humano?
  • Haverá perda de autoridade humana, caso os robôs fiquem melhores do que nós no prognóstico de doenças (exemplo: médicos x autodiagnóstico no Google)?
  • Uma máquina pode mentir se for para um bem maior? E como uma máquina poderia avaliar o que é um “bem maior”?
  • Como evitar problemas afetivos com robôs? Este caso pode parecer bizarro, mas, no Japão há pessoas que se apaixonam por personagens em quadrinhos, porque não haveriam pessoas que se apaixonem por robôs?

 

A ficção científica está se encontrando com a realidade. Há alguns pesquisadores renomados, atuando no assunto “Ética robótica”. Tive a sorte de ver a palestra de um deles, o prof. Edson Prestes, da UFRGS.

O prof. Prestes faz parte de um grupo do IEEE (Instituto de engenheiros elétricos e eletrônicos), que está estudando um série de normas para guiar o desenvolvimento no assunto.

Esta é a “Iniciativa global por considerações éticas em inteligência artificial e sistemas autônomos”.

IEEE.png

É onde a filosofia encontra a tecnologia.

É onde a Eudamonia de Aristóteles (práticas que definem o bem-estar da humanidade) de 3000 anos atrás, encontra-se com alguns dos maiores engenheiros eletrônicos do mundo atual. Literalmente. Vide o print do sumário executivo do grupo.

Eudamonia.png

A ética, mesmo para humanos, é extremamente complexa, um assunto sem fim. Com a participação de robôs, e interações humano-humano, humano-robô, robô-robô, abre-se um leque inimaginável de possibilidades e dilemas éticos.

Espera-se que iniciativas como a do IEEE ajudem a humanidade a projetar um futuro em que os robôs realmente sejam parte de nosso ecossistema. Para maiores informações sobre os temas de trabalho do IEEE, vide links ao final do documento.


 

As Três Leis da Robótica

Retornando ao início, é impossível falar de ética robótica sem falar das três leis de Asimov. Coloque tal tema em discussão, e com certeza alguém vai levantar este ponto.

Asimov, no conto Runaround (algo como “correndo em círculos”) do livro “Eu, Robô”, expõe as três leis da robótica.

 

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir, por omissão, que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 

As 3 leis são hard-coded nos circuitos positrônicos (termo de Asimov, seja lá o que for) dos robôs, de forma que não há possibilidades deles não cumprirem tais diretrizes.

As três leis parecem muito boas. Entretanto, sendo um excelente escritor, Asimov dá um jeito de criar um situação em que as leis se contradizem. Ele cria um bug, um bug lógico.

Quem sabe programar conhece bugs lógicos. Algo como:
i := 1
while (i >0) do:
i++
i – –
print i
end

Tal programinha nunca vai parar, fica em loop infinito.

E é impossível, de antemão, saber se um programa vai ou não parar (este é o Halting Problem, provado por Alan Turing e que foi uma das pedras fundamentais para o início da computação).

 

O bug lógico de Runaroud é mais ou menos assim:
– humanos mandaram o robô (chamado Speedy) coletar selênio, essencial para a sobrevivência deles
– entretanto, o humano não colocou muita ênfase na importância da ordem
– Speedy, sendo um robô muito avançado e caro, tinha ênfase especial na lei 3 (ele mesmo sobreviver)
– o local para coleta de selênio era extremamente perigoso, quando Speedy se aproximava da fonte, ele recuava para se proteger (lei 3)
– quando ficava longe o suficiente para ficar seguro, a lei 2 (obedecer à ordem humana) tinha peso maior, e ele tentava retornar à fonte
– Speedy ficou horas nesse loop infinito, se aproximando e se afastando da fonte de selênio.

O selênio estava acabando, e os astronautas (humanos) iriam morrer. Eles foram atrás de Speedy, detectaram o problema. Como Speedy era rápido demais (daí o seu nome), eles não conseguiam alcançá-lo para dar outra ordem. Os astronautas tentaram uma solução: enfatizar a lei 3. Jogaram umas substâncias tóxicas (para o robô) no trajeto – assim tinham a esperança de quebrar o loop e fazer ele retornar à base.
Não deu certo. Speedy encontrou outro ponto de equilíbrio: ia até o local onde as substâncias tóxicas estavam, recuava, e tentava de novo, infinitamente.

https://i1.wp.com/www.asimovreviews.net/BookCoversFullSize/002Bantam.jpg

Numa tentativa desesperada, eles imaginaram uma forma de utilizar a lei 1, especialmente a parte que diz que um robô não deve permitir que um humano sofra algum mal por omissão. Esta era a última esperança, o selênio da base estava acabando e não havia mais tempo.

Teriam os astronautas se safado? Ou não?

A história original é interessante demais, e recomendo a leitura, para saber o final da história.

 


Conclusão

Fica a provocação final: mesmo estudando profundamente todo o comportamento robótico e humano, e mesmo estabelecendo regras éticas a serem seguidas rigidamente pelos robôs pós-singularidade, não haverão bugs impossíveis de serem descobertos a priori?

A lei Zero da robótica: “Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal” – Isaac Asimov.

 

“Se o nosso cérebro fosse tão simples a ponto que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos” – Lyall Watson, biólogo.

 

“Me desculpe, Dave, mas receio que não posso fazer isso” – HAL 9000, no filme 2001, uma odisseia no espaço.

 


Links

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/ficcao-cientifica/eu-robo-42747426

http://standards.ieee.org/develop/indconn/ec/autonomous_systems.html
http://www.inf.ufrgs.br/~prestes/site/Welcome.html
https://futurism.com/kurzweil-claims-that-the-singularity-will-happen-by-2045/