Óbvio à posteriori, Fácil à posteriori, Eficaz à posteriori

Peter Drucker, o pai da administração moderna, era conhecido por seus insights. Por exemplo:

“O que não pode ser medido não pode ser gerenciado”

“Uma organização existe para um consumidor”

“Não há nada mais inútil do que fazer com grande eficiência algo que não deveria ser feito”

Algumas pessoas diziam que seus insights eram óbvios. À esta questão, ele afirmava: “Se é tão óbvio, porque nunca ninguém disse isso antes?”

E Drucker tem razão. Muitas conclusões são óbvias, mas somente à posteriori.

Uma vez, fiz um belo estudo, em que concluía que a falta de equipamentos do pátio causou um efeito em cadeia, engargalando o pátio em tamanho, em seguida impactando o número de veículos e, por fim, um segundo pátio. O modelo meio que testou várias combinações possíveis de efeitos causais. A explicação final do modelo encaixava certinho no comportamento histórico. E era tão óbvio! Tão óbvio que ninguém questionou o encadeamento lógico das coisas. Tão óbvio que alguns falaram que já sabiam que era isso mesmo. Mas, se sabiam, porque foi preciso um estudo tão grande para afirmar o óbvio?

A conclusão é que nada é óbvio. Mesmo o mais óbvio dos óbvios somente é óbvio à posteriori. Somente é óbvio depois de tirar toda a neblina da frente e ficar com o essencial. Somente é óbvio a posteriori.

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Fácil de falar x Difícil de fazer

Outra dicotomia: é muito fácil falar, mas extremamente difícil fazer.

É fácil falar, em linhas gerais, alguma coisa bonita, que se encaixe no nosso modelo do que é certo fazer.

Em inglês, a expressão é “Talk is cheap” – “Falar é barato”. Fazer de verdade custa caro.

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Na mesma linha, dizia o grande escritor Napoleon Hill que “A opinião dos outros é a commodity mais barata que existe”. E é mesmo. Todo mundo tem opinião para qualquer assunto. O ser humano é uma máquina de falar abobrinha. Uma metralhadora de besteiras. Fazer, que é bom, nada.

Prefiro um quilo de ação do que uma tonelada de conversa.

Para fechar, uma história, de um famoso monge budista, mais ou menos assim.

 

Um grande mestre budista estava em cima de uma árvore, meditando.

Passou um estudante, bem folgado. Ele viu o mestre em cima da árvore, e perguntou:

“Velhinho, tome cuidado para não cair da árvore”

O mestre arguiu:

“Quem deveria tomar cuidado é você, levando esta sua vida sem sentido”

Após tomar essa invertida, o estudante percebeu que o mestre não era qualquer um. Perguntou:

“Velhinho, você pode resumir o ensinamento em algumas palavras?”

O mestre respondeu: “Sim. Nós devemos fazer o bem, e deixar de fazer o mal”.

Estudante: “Só isso? Uma criança de três anos entende isso”.

Mestre: “Uma criança de três anos entende isso. Mas um velhinho, mesmo após 80 anos de meditação, não consegue fazer”.

 

Veja também:

Peter Drucker em 40 frases

Um quilo de ação

​ Três táxis em duas cidades

Hoje tomei três táxis (ou uber) em duas cidades diferentes.
 

Com dois dos três motoristas, eu informei a minha localização, o destino desejado, e chamei o carro. Disse “Bom dia” ao motorista e só.

 

O motorista apenas seguiu a indicação do Waze, Gmaps ou equivalente. Chegamos sem maiores problemas e nem precisei desembolsar dinheiro, pois foi no cartão de crédito.

 

O motorista não precisou saber o destino. Não precisou traçar o melhor caminho. Não precisou nem conversar comigo. Ele foi apenas um autômato humano conduzindo o carro. Tal situação era impensável, há alguns poucos anos.

 

Lamento informar que, em poucas décadas, nem isso ele precisará fazer. Com muita probabilidade, os carros autônomos farão este papel.

 

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O terceiro motorista também começou com um “Bom dia”. Mas este não usou GPS. Disse que o caminho normal tinha muito trânsito, e foi por um alternativo. Deu uma volta imensa, maior do que o necessário. Talvez tivesse sido por ignorância do melhor caminho. Talvez má fé. Mas, de qualquer forma, tenho convicção de que ele “perderia” para o Waze, ou seja, inteligência humana perdendo para algoritmos computacionais.

 


Como ficarão os empregos do futuro? Hoje, há uma quantidade gigantesca de pessoas trabalhando com transporte de pessoas e de cargas, mas os tempos estão mudando.

 

Há uma quantidade maior ainda de pessoas trabalhando em empregos de escritório que são rotineiros, e portanto, passíveis de serem substituídos por algo minimamente (ou artificialmente) inteligente.

 

Tudo o que é puramente mecânico, como apertar parafusos, já foi substituído por máquinas. Agora, tudo o que é rotineiro, repetitivo, e envolve pouca decisão humana tende a ser substituído por softwares.

 

Há uma série de economistas, como George Zarkadakis e Tyler Cowen, que apontam para um aumento da desigualdade econômica. No futuro, cada vez menos pessoas terão capacidade de fazer o seu salário valer o valor adicionado ao produto ou serviço. Os poucos que conseguirem serão tremendamente mais produtivos que hoje. E haverá uma massa cada vez maior de “perdedores” deste jogo, que terão que se contentar em empregos em serviços (cabeleireiro, jardineiro, padeiro), que são muito difíceis para uma máquina e também são economicamente inviáveis de serem substituídos.

 

Bom, ninguém sabe exatamente como vai ser o futuro, mas podemos nos precaver de cenários possíveis.

 

As máquinas (ainda) não conseguem substituir a criatividade e a eficácia. Alguém precisa dizer a elas o que deve ser feito, e como ser feito, para que elas simplesmente façam com eficiência. As máquinas são mais eficientes do que o ser humano em fazer  muito bem a mesma coisa. Mas os seres humanos são e serão, por um bom tempo, mais eficazes.

 

E como ser mais eficaz? Estudando muito, trabalhando muito (e com qualidade), buscando aperfeiçoamento contínuo, questionando tudo, lendo os artigos deste blog – não há uma fórmula perfeita.

 

Quem sabe, daqui a uns 15 anos, eu entre num táxi, com uma identificação via smartphone, com a rota escolhida pelo Waze. E eu nem precise mais falar “Bom dia”…

 


Trilha sonora: Bob Dylan, “Os tempos estão mudando” – “The times they’re a-changing”.

O velho homem voador

O texto “O novo homem voador” recebeu alguns bons elogios.

Escrevi um texto semelhante, porém muito mais simples, há uns 15 anos atrás. Na época, eu estava me desatando de algumas amarras – e me atando a outras – e me imaginei como seria alguém totalmente livre. Provavelmente poderia voar, de tão livre que seria. Então, do alto, veria que todas as pessoas estão presas por amarras.

Recentemente pensei em reescrever a história após ler uma frase de Nietzsche.

O pensador alemão Friedrich Nietzsche tem um estilo poético, aliado a ideias demolidoras, o que o faz ter citações memoráveis.
Não consigo reproduzir o estilo poético, mas ele disse algo mais ou menos assim.

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Na nossa vida, temos que atravessar um rio. Na beira do rio, há a oferta de várias barcaças e várias pontes guardadas por semi-deuses. Mas o preço da passagem é a sua alma.

A conclusão de Nietzsche. Não siga por ponte alguma. Você é responsável por construir a sua própria ponte.

Para fechar, um comentário espontâneo do meu amigo Diego Piva, ao ouvir esta história: “Mas atravessar o rio, no braço, também é osso, hein”. Pura verdade…

 

 

​Dúvida sobre a física dos sons

Tenho uma pergunta, sobre física dos sons, que nunca consegui responder plenamente.

O som é uma onda, que tem uma amplitude e frequência, como na figura a seguir. Aliás, o comprimento de onda é o inverso da frequência, das aulinhas de física.

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Nossos ouvidos ouvem sons numa determinada faixa de frequências (20 Hz ~20.000 Hz). Tanto as frequências abaixo quanto acima, não são captadas.

Por outro lado, se o som tiver uma amplitude muito alta, como a explosão de uma bomba, o tímpano de uma pessoa pode se romper.

Pergunta:

O que acontece se eu colocar o som numa amplitude extremamente elevada, a ponto de furar os tímpanos, mas numa frequência inaudível?

O tímpano vai ser prejudicado devido à energia que esta onda carrega? Ou
a onda vai se anular, e nada acontece?


Tentativa de resposta

Tenho uma tentativa de resposta, mas não tenho convicção sobre a mesma.

O som é um fenômeno puramente físico. O tímpano é como se fosse uma membrana de um tambor, que vibra devido à vibração do ar.

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Se um som tiver frequência alta demais, o tímpano não tem tempo de reagir à excitação. Quando a membrana é excitada para “subir”, já está na hora de “descer” novamente, ou seja, a onda se anula. Portanto, para frequências muito altas, uma amplitude alta não vai explodir os tímpanos.

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O tal de “ultrassom” é isso, uma onda acima do que conseguimos ouvir. Mas, embora o tímpano não responda ao ultrassom, alguma coisa dentro do corpo responde, no sentido de refletir a onda sonora. Portanto, mesmo não explodindo o tímpano, vai explodir alguma coisa dentro do corpo humano, que tem um comprimento de onda pequeno o suficiente (ou seja, um material denso o suficiente) para entrar em ressonância com esta onda.

E se o som tiver frequência abaixo do que ouvido consegue captar? O limite inferior audível teoricamente é menor do que 20 hz. Mas 20 Hz é praticamente zero, para a escala sonora.  Na prática, um som em baixa frequência e alta amplitude vai explodir o tímpano, por estar na fronteira da faixa audível ao ser humano.


E a visão?

Podemos fazer a mesma pergunta, mas em relação à enxergar. Nós enxergamos uma faixa de frequências. E ficamos cegos se olhar para o Sol, por exemplo. E uma exposição a uma grande amplitude numa faixa invisível, vai nos cegar ou não?


Trilha sonora:

Com tantas ondas sonoras e eletromagnéticas, uma boa música para acompanhar este post: Wave – Tom Jobim

​ O Infinito num instante

Um bom livro é aquele em que lemos cada palavra e torcemos para que não acabe nunca.

 
Um bom filme é aquele em que assistimos cada segundo e torcemos para que não acabe nunca.
 
Uma boa música é aquela em que ouvimos cada melodia e torcemos para que não acabe nunca.
 
Um bom vinho é aquele em que apreciamos cada gota e torcemos para que não acabe nunca.
 
 Um bom momento é aquele em que desejamos que cada segundo seja uma eternidade, e que não acabe nunca.
 
Ou, conforme dizia o poetinha, “Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.
 
Uma dica para os escritores é nunca dar todo o conteúdo, mas sim, deixar na boca um gostinho de “quero mais”.
 
William Blake – Para ver o mundo
 
Ver o Mundo todo num grão de areia,
e o Céu numa flor silvestre,
Ter o Infinito na palma de sua mão
e a Eternidade em uma hora.

 

 

​Por que escrevo tão bem?

Prelúdio. Por que escrevo tão bem?

Mas que sujeito arrogante! Afirmar que escreve tão bem!

Na verdade, a frase acima é da autoria do grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ele tem um estilo poético, aliado a ideias contundentes. É um artista que usa uma martelo, e cuja habilidade é a de destruir as mais profundas convicções que temos: a moral, a bondade, a filosofia, o cristianismo.

ecceHomo

Nietzsche escreveu capítulos como “Por que sou tão inteligente” e “Por que escrevo bons livros”, num livro autobiográfico chamado “Ecce Homo”. Ecce Homo vem do latim, algo como “Eis o homem”. Em bom português, imagino que ele quis dizer “Esse é o cara”. Nota-se que Nietzsche é alguém para ser extremamente amado ou extremamente odiado, não tem meio-termo.

O título real deste ensaio seria “Por que escrevo este blog”.


Ato 1. Por que escrevo este blog

Por que escrevo este blog, e por que escrevo tão bem (adotando a provocação de Nietzsche)? Há algumas respostas. Uma delas: tenho algo a dizer.

Há tantas ideias porcarias espalhadas por este mundo, que as pessoas às vezes podem se deixar levar por elas, somente pelo fato de não terem a chance de ouvir ideias antagônicas.

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Ideias são como faróis luminosos. Há faróis grandes e brilhantes, que alcançam um grande número de pessoas. E há faróis retransmissores, menores, menos brilhantes, que têm menos alcance. Até mesmo o maior e mais brilhante farol precisa da ajuda desses retransmissores, porque a luz se dissipa no tempo e no espaço. Cada um de nós é um desses faróis, temos o nosso valor ao retransmitir ideias que valem a pena ser compartilhadas.


Ato 2. Ensinar e aprender

Outro motivo para escrever é o de aprender. A melhor forma de aprender não é estudando, mas sim fazendo, praticando, ensinando. E a minha forma de ensinar é através da palavra escrita.

Para tentar criar bons argumentos, tenho um checklist. Alguns dos critérios:

  • Sempre agregar valor em textos curtos
  • Inserir alguma história que aconteceu comigo ou alguma ideia minha, para criar um ponto de vista inédito
  • Criar um “Flow”, um fluxo, um encadeamento natural de ideias do início ao fim.

Citando o grande professor Otávio Manhães (do ITA):

“Se eu não conseguir ensinar física quântica para uma empregada doméstica, não sou um bom professor”.


Ato 3. Ilhas de conhecimento

Minhas anotações em cadernos sempre foram tão bagunçadas que não serviam para nada. Ao contrário, escrever aqui é uma forma de organizar e registrar ideias. Indexar conhecimento.

Cada texto é como se fosse uma ilha, uma ilha de conhecimento. E cada comentário das pessoas que leem esses textos são novas ilhas de conhecimento. Conectar ilhas diferentes leva a novos insights. Com isso, estarei preparado quando preciso. Por exemplo, quando surgiu um convite da revista Opiniões (aqui neste link) para falar sobre planejamento florestal, eu já tinha um texto-base para guiar o texto final.

Eu gosto da imagem de ilhas de conhecimento, se conectando através de pontes de imaginação, formando novas ilhas de aplicações e continentes de inovações. Já o pesquisador Steven Johnson criou o termo “possível adjacente”. A ideia é que inovação não ocorre em saltos, mas expandindo os limites do conhecimento existente.

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Epílogo.

Para fechar, uma citação adaptada de Carl Sagan, dedicada às pessoas com quem discuti conceitos, ideias, teorias, percepções, aplicações.

Diante da imensidão do tempo e da vastidão do espaço, foi um prazer encontrar cada um dos meus amigos nesta época, neste planeta.

​Não bastava uma cena boa. Tinha que ser espetacular

Uma das cenas mais memoráveis da história do cinema é a abertura do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. O filme data de 1968 e desde então tornou-se um dos clássicos do cinema.
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A abertura citada é tão poderosa que ficou uma semana ecoando na minha cabeça.
E até hoje, ao relembrar dela, vejo a estrela surgindo atrás do planeta, e a trilha sonora ecoando em meus ouvidos.
Uma história curiosa. O ultra perfeccionista diretor Stanley Kubrick tinha encomendado a trilha sonora do filme ao compositor Alex North, com quem tinha trabalhado anteriormente em Espartacus.
Alex North era um compositor extremamente talentoso. Por exemplo, ele é o autor de  “Unchained melody”, aquela do filme “Ghost, do outro lado da vida”.
Pois bem, North deu o melhor de si para fazer o soundtrack do filme.
Eis a abertura do filme com a composição de North.

Porém, ao assistir à premiere do filme, North teve uma surpresa. Kubrick não tinha usado nenhuma de suas músicas na versão final do filme. O diretor preferiu utilizar as músicas “guia” indicadas para inspirar a composição da trilha sonora. North ficou completamente devastado…
Kubrick poderia ter sido um pouco mais humano, é claro. Mas, certamente, fez a escolha certa. O bom não bastava. Tinha que ser espetacular. Ele utilizou a pouco conhecida (na época) música “Assim falou Zaratustra”, do compositor alemão Richard Strauss. Tons grandiosos, fortes. Apenas cinco notas, mas que notas! Ao fundo, uma estrela ascendente no espaço infinito.
Não adianta explicar. Tem que assistir, de preferência ao filme todo:

2001 é frequentemente citado como um dos 50 melhores filmes de todos os tempos. Criou uma legião de admiradores em todo o mundo desde então.
Até no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) tem uma menção ao filme de Kubrick. O salão negro tem um mural, onde tem um astronauta, uns planetas, e um… monolito voando…
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Notas
“Assim falou Zaratustra” é um livro espetacular de Friedrich Nietzsche, um dos gigantes do século XIX, obra que inspirou a composição de Richard Strauss. Ou seja, é gênio atrás de gênio.
Outra cena fabulosa é a “valsa das estrelas”, que utiliza outra música clássica, a valsa Danúbio Azul. É hipnotizante.

Solução do Desafio do Penrose Institute

Atualizado com a resposta oficial.

Forgotten Lore

Neste post, foi apresentado o interessante Desafio do Instituto Penrose. Interessante porque os melhores supercomputadores não conseguem resolver, mas é mais ou menos simples para um ser humano.

https://ideiasesquecidas.com/2017/03/30/desafio-do-penrose-institute/

instituteoff Brancas jogam e empatam ou vencem

A chave é perceber que as peças Pretas estão travadas. As únicas peças que se movem são os bispos pretos, que não ameaçam o Rei Branco enquanto o mesmo estiver numa casa branca.

Portanto, basta o Rei Branco ficar andando aleatoriamente pelas casas brancas. Nunca será ameaçado. Após enfadonhos 50 movimentos de cada lado, o jogo será considerado empatado pela regra abaixo.

Regra dos cinquenta movimentos: é considerado empate se não há captura ou movimento de peão nos últimos 50 movimentos de cada jogador.

Podem existir outras respostas, afinal, a imaginação humana é inigualável!

Alguma outra solução?

Solução alternativa. A solução do petista.

Discutir com petista é como jogar xadrez com pombo. Ele…

Ver o post original 68 mais palavras

Mentor, mentoring, mentorship

As palavras relacionadas a “mentor” estão na moda atualmente.

O primeiro mentor da história data de mais de 3 mil anos atrás. O nome dele era Mentor. Era o professor de Telêmaco. Telêmaco era o filho de Ulisses (ou Odisseu), o herói grego da Guerra de Troia e da Odisseia.

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Fonte: https://emptysqua.re/blog/mentoring/telemachus-and-mentor.jpg

Ulisses partiu para a guerra, retornando 20 anos depois. Enquanto isso, na angústia da espera pelo retorno de Ulisses, Telêmaco recorria a Mentor para aconselhá-lo.

 

Na mitologia grega, a sabedoria não era algo do ser humano, ela vinha dos deuses. E a deusa da sabedoria era Atena.

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Quando necessário, Atena encarnava em Mentor, para colocar as palavras de sabedoria em sua boca, e assim orientar Telêmaco corretamente.

Portanto, faz 3 mil anos que precisamos de um Mentor para que a sabedoria divina chegue a nós.

​ A resposta correta no fim do livro

Do primeiro dia do pré primário até o último dia da pós-graduação, tive um único modelo de ensino: há uma resposta errada (a minha) e há uma resposta correta, aquela no fim do livro.
 

O professor está sempre correto, e a resposta do fim do livro é sempre perfeita. Se a minha resposta for diferente, tenho que rever os cálculos até chegar na mesma resposta.

 

Mesmo se a resposta for igual, mas a minha técnica for diferente, tenho que aprender a chegar ao final pelo mesmo caminho.

 

Mas, e se resposta correta do fim do livro estiver errada?

 

O mundo muda. As hipóteses mudam. As regras mudam. O futuro será diferente do passado. 99% dos pensadores que escreveram as respostas corretas dos livros já estão mortos.
 
O mundo dos livros é o das regras explícitas. No mundo real, as regras são implícitas – não estão escritas em livro algum, devem ser descobertas. Para cada regra explícita há 1000 regras implícitas.
 
Todo o conhecimento contido nos livros está no passado. Já era. Já funcionou e não vai funcionar de novo. O próximo Google não virá de um sistema de busca melhor. A próxima Amy Whinehouse não terá o mesmo estilo musical. O próximo Einstein não descobrirá a Teoria da Relatividade (e nem o paradoxo do pretérito imperfeito complexo com a Teoria da Relatividade, rs!).

 

O desbravador deve explorar o mundo até o limite do mapa. A seguir, jogá-lo fora e partir por um caminho nunca d’antes trilhado, o seu caminho.

 

Em uma frase: Encontre a resposta certa que não está no fim do livro.

 

Inovadores são os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados.
Steve Jobs.

 

 
Navegadores antigos – Fernando Pessoa
 

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso;  viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário;  o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

O ladrão de ideias

Propriedade privada

Vi num livro que o filósofo inglês John Locke (1632-1704) foi o criador do conceito de propriedade privada. Antes dele, o dono das terras era o rei. Mas por que o rei era o dono de tudo? Não era por acaso. O rei era o representante de Deus na Terra. Deus era o dono das terras, e o rei era meio que o “administrador”.

Tudo mudou com John Locke. Ele fundamentou a ideia de que a propriedade da terra poderia ser de um ser humano comum, com a teoria do valor e propriedade. “A posse de produtos e propriedades é justificada pelo trabalho exercido para produzir tais produtos benéficos à sociedade”.

E o Rei? O Rei deveria garantir a propriedade privada do indivíduo, em troca dos impostos e obrigações do cidadão. Garantir segurança jurídica neste contrato social entre o Estado e Indivíduo.

Legal, não? Mas será que Locke teve esta ideia sozinho? Ele estava sentado, e a ideia surgiu do nada em sua cabeça?

Não. Nunca é assim.

Por experiência própria, as ideias não surgem na cabeça de uma pessoa. As ideias estão no ar, uma parte na mente de uma pessoa, outra parte na mente de outra, outra parte em livros antigos, etc… E, muitas vezes, a pessoa que consegue colocar a ideia no papel leva os créditos, mas é somente um “ladrão de ideias”. Locke deve ter conversado com diversas pessoas para chegar à esta teoria. Entretanto, o crédito ficou com ele, porque a história não consegue registrar todas as pessoas que participaram da construção da ideia.


Um autêntico ladrão de ideias

Eu mesmo já levei muitos créditos por ideias que não eram minhas, sou um autêntico ladrão de ideias.

Por exemplo, teve um colega que tinha a percepção de que o estoque de material tinha baixado demais, e que a empresa tinha corrido um grande risco com isto. Simplesmente testei a percepção dele com histórico real e fiz algumas projeções numéricas de cenários, para concluir que realmente ele estava certo. Apresentamos o trabalho, que foi bem elogiado. Este colega sozinho não conseguiria fazer este estudo, por ele não dominar a técnica suficiente para colocar o trabalho no papel, mas sem ele, este estudo nem começaria.


Catalisador de ideias?

Talvez um “catalisador de ideias” seja um termo mais polido. Catalisador, das aulas de química, é um elemento que ajuda numa reação química, porém não toma parte dele.

Um exemplo famoso é o da camada de ozônio da atmosfera, que nos protege dos raios ultravioleta.

Duas moléculas de ozônio (O3) se decompõe em 3 de oxigênio (O2):

2 O3 3 O2

Mas se é isso, por que proibiram produtos com clorofluorocarbono nos anos 90?

Porque o cloro atua como um catalisador. Ele facilita a decomposição do ozônio em oxigênio:

Cl + O3 → ClO + O2
ClO + O3 → Cl + 2 O2

O cloro entra, ajuda a transformar o ozônio em oxigênio e sai da mesma forma que entrou, ou seja, pode ser reaproveitado para ajudar em milhões de reações deste tipo.

Um corretor de imóveis é um catalisador. A equação final é: vendedor vende e o comprador compra. Mas, é mais fácil o vendedor contatar um corretor, o comprador contatar um corretor, e o corretor fazer o link. Atualmente, com sites eletrônicos, só mudou a figura do corretor: ao invés de um ser humano, é um site.

Um mediador de conflitos é um catalisador. Um caso famoso é o de William Ury, que intermediou a briga entre Abílio Diniz e o grupo Casino pelo controle da empresa Pão de Açúcar.

Mas “catalisador de ideias” não é um bom termo. Porque um catalisador não faz nada. É fraco. Já “ladrão de ideias” é mais forte. Um ladrão tem que ter uma técnica, fazer um trabalho e ter uma intenção de chegar em algum lugar. Não tem que pedir, tem que roubar mesmo.


Da propriedade

Imagino John Locke, andando no mercado, e ouvindo o feirante: “Moro na minha casa há 20 anos, e o Rei me despejou para construir uma estrada. Desmatei, fiz a terraplanagem do terreno, construí tudo, e saí de mãos vazias. Por que a minha terra não é minha?”.

Agora, discutindo com algum colega especialista em direito: “Mas se a propriedade é do cara, ele é uma espécie de rei daquele pedaço de terra. E se ele for o rei daquele pedaço de terra, por qual motivo teria alguma lealdade ao Estado, ao rei de verdade?”

Agora, lendo obras como o Leviatã de Thomas Hobbes: a vida do ser humano é brutal, curta, miserável, e que necessitamos de garantias de que os contratos feitos, assim como os direitos, sejam garantidos. Para isto, cedemos parte de nossos direitos ao Estado.

Por fim, imagino Locke redigindo sua própria teoria, juntando elementos cá e lá de forma coerente, colocando no papel ideias que estão no ar, e construindo uma obra que viria a ser referência para muitos outros ladrões de ideias!

Nota: Jean Jacques Rousseau não foi citado porque ele é posterior à Locke, ou seja, ele roubou algumas das ideias descritas para desenvolver seu conceito de Contrato Social.

“Bons artistas copiam, grandes artistas roubam” – Pablo Picasso

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Links

https://en.wikipedia.org/wiki/John_Locke
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_oz%C3%B4nio-oxig%C3%AAnio
https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes

Abílio Diniz x Casino
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/william-ury-quando-nos-influenciamos-fica-facil-influenciar-os-outros.html

O novo homem voador

Um homem passou a vida inteira preso a correntes. Não correntes de ferro prendendo o corpo, mas correntes de ar, prendendo a mente. Eram correntes tênues, finas, que permitiam que ele fosse para qualquer lugar, mas de vez em quando elas se tensionavam, impedindo que ele fizesse seus desejos. Era como um cão preso a uma coleira, ele poderia andar livremente dentro de um círculo, mas as amarras o impedem de ir além do bem e do mau.  

Na verdade, não era apenas uma corrente. Eram diversas, prendendo-o de várias direções, limitando a sua liberdade sob vários aspectos, travando a sua mente, amarrando a sua liberdade.
Este homem tinha um plano. Libertar-se de todas as correntes, e se tornar um Novo Homem.
Não era fácil quebrar essas amarras. Se fossem feitas de um material físico seria muito mais simples: algumas marretadas, e pronto. Porém, correntes mentais necessitam de outro tipo de marreta, uma marreta metafísica.
O homem foi se libertando das correntes, uma a uma, ao longo de vários anos. Quando, finalmente conseguiu se libertar de todas as amarras, ele descobriu-se tão leve que podia voar!
Agora, ele era o Novo Homem Voador. Do alto, ele via todas as outras pessoas. Ele descobriu uma verdade terrível: Todas as pessoas deste mundo estão presas a correntes! Homens, mulheres, jovens, velhos, feios e bonitos, todos estão atados.
O Novo Homem Voador viu um homem com correntes vermelhas, grossas, vociferando palavras fortes contra o capital. Mas ele viu também outro homem, com correntes azuis, respondendo ao de vermelho. Ele viu uma pessoa com amarras feitas de terços, falando sobre deuses, anjos e paraíso. Outra falando de Alá, Talmud, Alcorão. Pessoas atadas a outras pessoas, com obrigações familiares e religiosas. Pessoas atadas a corporações, perseguindo lucro, EBITDA, e fugindo de punições financeiras. Pessoas atadas ao nacionalismo, orgulhosas pelo fato de ter nascido em algum país específico. Correntes morais dos mais diversos tipos, algumas mais flexíveis, outras extremamente rígidas: bem e mau, certo e errado, valores e transvaloração dos valores.

 

Desde o nascimento, as correntes são atadas às mentes dos pobres bebês, normalmente as mesmas correntes à que os pais estão presos. Os bebês vão crescendo. Na adolescência e na idade adulta conseguem se libertar de algumas dessas correntes, mas somente para se prender a outras correntes, oferecidas por outras pessoas. Não há pessoas totalmente livres. 
O Novo Homem Voador percebeu que, embora as correntes o prendessem, também davam uma certa segurança. Pensou, do alto de seu voo: “Para onde vou, uma vez que sou totalmente livre? E agora? E agora…?”
A resposta encontrada: “Agora que não tenho correntes, ninguém pode me dar esta resposta. Somente eu mesmo posso saber”. E pôs-se a voar.