Ikkyu e o Vaso que morreu

Ikkyu e o Vaso que morreu
Conta uma lenda antiga japonesa que havia um monge chamado Ikkyu, que era muito sábio.
Desde muito pequeno, ele já apresentava sinais de uma inteligência aguda.
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Quando Ikkyu era pequeno, ele quebrou um vaso de seu mestre budista. Era um vaso extremamente valioso, que o mestre muito prezava.
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Quando o mestre chegou ao templo, Ikkyu perguntou: “Mestre, é verdade que todos têm que morrer?”
Mestre: “Sim, este é o destino inevitável de todos”
Ikkyu: “Mesmo se a gente amar muito, não tem um jeito de não morrer?”
Mestre: “Mesmo a gente amando muito, um dia vai morrer”
Ikkyu: “Mestre, o seu vaso morreu!”

Moral da História: Há várias formas de contar uma notícia ruim…
Veja também: A verdade e o Conto

As origens do Futebol Total

Dezembro de 2011, final do Mundial Interclubes. Santos x Barcelona.

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O Santos havia vencido a Libertadores da América, tinha Ganso, Neymar como principal jogador e Muricy Ramalho como técnico.  Era disparado o melhor time das Américas, jogava bonito e sobrava contra os outros times. Eu estava torcendo para o Santos ganhar, mostrar a sua força. Mas, assim que o jogo começou, só deu Barça. Toque de bola, toca aqui, toca acolá, gol, tiki-taka, gol. O toque começava no goleiro, passava por todos os jogadores do Barça e só ia parar na área da Santos. O Barcelona meteu 4 a 0 e poderia ter feito mais, se não tivesse diminuído o ritmo. Foi a primeira vez que vi o Futebol Total.

 


 

Os Primórdios – Rinus Michels

O Futebol Total tem o foco no ataque, na posse de bola, e na troca de posição entre jogadores para manter a estrutura do time. Foi um dos primeiros a explorar a linha de impedimento. Ocupar os espaços do campo – expandir o campo quando se tem a bola, encurtar o espaço quando o oponente tem a bola. Expandir o tempo quando se tem a bola, encurtar o tempo do adversário.

 

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Rinus Michels

 

O Futebol Total começou com um técnico chamado Rinus Michels. Ele foi treinador do time holandês Ajax e da seleção holandesa, nos anos 70. Por sua vez, Michels foi inspirado pela Seleção da Hungria de anos anteriores. Michels era um estudioso de táticas, uma pessoa de alto QI. Sempre que viajava, comprava um livro e terminava de ler antes de voltar.

O Ajax conseguiu vários feitos, o mais marcante foi ter vencido a Champions League da época três vezes seguidas.

A seleção holandesa encantou o mundo com o Carrossel Holandês de 1974, chegando à final da Copa do Mundo e perdendo para a Alemanha.

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O vídeo do primeiro gol da Holanda na final de 1974 ilustra bem o Futebol Total: todo mundo toca na bola, até a Alemanha cometer o pênalti.

O principal jogador do Ajax e da Holanda era o genial Johan Cruyff.

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O Sucessor – Johan Cruyff

O Barcelona dos anos 70 contratou a dupla Rinus Michels como técnico e Johan Cruyff como jogador. Começaram a deixar o DNA do Futebol Total no time, imprimindo sua forma de jogar e vencendo alguns títulos nacionais.

 

Um legado impactante: em 1979, Cruyff convenceu a diretoria do Barcelona a criar uma academia de talentos, a La Masia, inspirado na que existia no Ajax. Nas décadas seguintes, a La Masia revelou talentos para o time principal, como Pep Guardiola, Andrés Iniesta, Xavi Hernandes e Lionel Messi.

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Cruyff técnico

Cruyff retornou ao Barcelona como técnico anos depois, em 1988. Novamente, imprimiu a filosofia do Futebol Total, montando um timaço que tinha vários talentos da La Masia, que ficou conhecido como o Dream Team de Cruyff. O Dream Team ganhou a Champion League de 1992 – a primeira Champions do Barça.

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Na final do Mundial Interclubes de 1992, o Barcelona de Cruyff enfrentou o São Paulo, de Telê Santana. O time do Barça tinha Cruyff de técnico, Guardiola no meio, Stoichkov no ataque. O São Paulo tinha Zetti, Ronaldão, Cafu, Cerezo, Raí, Palhinha, Muller. Deste encontro de timaços sensacionais, deu São Paulo, para a alegria de um menino que tinha ficado acordado na madrugada para ver o jogo: eu. Foi mal, Cruyff, não tinha como vencer esse time.

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Telê Santana era um perfeccionista e amava o que fazia. Morava no centro de treinamento, acordava cedo para tirar ervas daninhas do gramado. Treinava meticulosamente cada jogador, sendo considerado muito chato por ser extremamente exigente. Um exemplo. Cafu, apesar de muito veloz, não sabia cruzar a bola. Telê Santana pegava no pé dele, fazia ele treinar, treinar, ficar batendo na bola depois dos treinos até cansar…

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O Tiki-Taka

O DNA do Futebol Total esteve impregnado no Barcelona desde Cruyff. Se, em muitos lugares a prioridade era de jogadores altos e fortes, a La Masia priorizava jogadores talentosos, que se encaixavam no Futebol Total. Os frutos deste trabalho incluem Andrés Iniesta, Xavi Hernandes, Pedro Rodrigues, Sérgio Busquets, Carles Puyol, Lionel Messi.

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Joseph Guardiola retornou ao Barcelona como técnico em 2008, e levou o Futebol Total a um novo patamar. Guardiola é extremamente inteligente e grande estudioso de táticas. Guardiola é perfeccionista, exigindo precisão a cada toque, posicionamento correto, disposição tática perfeita, futebol coletivo.

O Barcelona de Guardiola assombrou o mundo. Ganhou duas Champions, a de 2009 e 2011 e levou o futebol a um novo patamar. Como consequência, o DNA do Futebol Total se espalhou para a Seleção Espanhola, que ganhou as Eurocopas de 2008 e 2012, e a Copa do Mundo de 2010.

 

Nesses quatro anos, o mundo inteiro passou a copiar o Barcelona e tentar contra-atacar de alguma forma.
Se o Barça começa tocando desde o goleiro, colocam marcação forte já na área dele. Se o Barça quer a bola, então fique com ela, não vou ficar desesperado correndo atrás dela. Se o Barça fica 80% do tempo no ataque, vou me posicionar para aproveitar o contra-ataque.

 


O Presente

O tiki-taka teve que se reinventar. Guardiola montou outro time extremamente competitivo no Bayern de Munique.

O Barcelona atual, de Luiz Enrique, contém muitos dos traços de Guardiola, como os toques rápidos e precisos, a posse de bola absurda, mas também tem novos elementos: é pragmático, extremamente rápido nos contra-ataques e tem um trio de ataque letal. Ganhou a Champions de 2015 e é forte candidato a faturar tudo novamente.

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Desde que conheci o Futebol Total, não consigo assistir o Campeonato Brasileiro: na maioria dos times, não há uma sequência de três passes certos seguidos, quando o jogador não sabe o que fazer dá um chutão para a frente, chuveirinho na área é um grande recurso, assim como se jogar e pedir falta. O jogador individual é mais importante do que o jogo coletivo.

 

O mundo evoluiu, o Brasil ficou para trás. Tomou 7 a 1 e vai continuar tomando, se não evoluir coletivamente.

 

Post em homenagem ao gênio Johan Cruyff e ao seu belo legado.


 

Links
https://en.wikipedia.org/wiki/Rinus_Michels
http://www.theguardian.com/football/blog/2016/mar/24/johan-cruyff-barcelona-legacy
http://www.fourfourtwo.com/features/how-johan-cruyff-reinvented-modern-football-barcelona#:YbYnBCJTZ-F28A
https://en.wikipedia.org/wiki/Johan_Cruyff
https://en.wikipedia.org/wiki/Tiki-taka
https://en.wikipedia.org/wiki/La_Masia
https://en.wikipedia.org/wiki/1992_Intercontinental_Cup
https://en.wikipedia.org/wiki/Pep_Guardiola
http://blogdomenon.blogosfera.uol.com.br/2014/04/09/tele-me-ensinou-a-bater-falta-ou-melhor-tentou-me-ensinar/

Estratégias do xadrez para a vida

Bruce Pandolfini é um dos professores de xadrez mais conceituados do mundo. Apresento a seguir um resumo de algumas ideias interessantes, publicadas originalmente na revista Fast Company e também na Exame.

Bruce_Pandolfini_new.jpgFoto: Bruce Pandolfini


Clareza no presente x clarividência do futuro

A maioria das pessoas acha que a estratégia dos grandes enxadristas consiste em pensar muito adiante, prevendo 10 ou 15 lances futuros. Não é verdade. Os enxadristas pensam apenas até onde é preciso, e isso significa pensar apenas alguns poucos lances à frente. Pensar longe demais é perda de tempo, na medida em que as informações são incertas.

Jogar xadrez significa controlar a situação que se tem pela frente. Você precisa de clareza, não de clarividência. O X da questão não é saber até onde os grandes pensam adiante, mas como eles pensam no momento presente.

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Não se contente com a primeira boa ideia. Procure uma melhor.

Você nunca deve jogar o primeiro bom lance que lhe vem à mente. Pergunte a você mesmo se há algum lance melhor. Já vi Garry Kasparov praticamente sentar-se sobre as mãos para conter sua vontade de fazer um movimento.

“Se você enxerga uma boa ideia, procure outra melhor” – é o meu lema. Para conquistar uma grande vitória, pense diferente.


Vantagens pequenas geram resultados grandes

 

Wilhelm Steinitz foi o primeiro grande professor de xadrez dos tempos modernos. Steinitz desenvolveu a teoria do xadrez posicional – jogar por vantagens aparentemente insignificantes. Só um pouquinho, muito pouquinho. Tomado isoladamente, nenhum desses pouquinhos significa nada, mas quando se somam sete ou oito deles, você passa a ter o controle da partida.

 

220px-Wilhelm_Steinitz2.jpgFoto: Wilhelm Steinitz


Anatoly Karpov, a Jiboia constritora, é um excelente exemplo de jogador posicional. Não dava nada ao adversário. Não arriscava. Não cedia. Era um lutador de trincheiras, que mantinha o jogo se movendo um centímetro por vez.

1365857123_anatoly-karpov-the-great-chess-player.jpgFoto: Anatoly Karpov


Arriscar

Se um lance do adversário não faz sentido, continue procurando a razão. Se tudo indicar que seu adversário cometeu um erro, tome a peça dele! Se você o fizer, ou você está errado e vai aprender alguma coisa, ou está certo e vai ganhar um lance. Não tenha medo de agir com base em sua própria análise.


Jogar contra o adversário, e não contra suas peças

Para ser um bom enxadrista, é preciso saber ler a mente das pessoas. E isso começa com saber ler seus olhos.

Às vezes a partida se reduz uma guerra psicológica. Kasparov usava muito bem isso. Ele costumava quebrar a resistência das pessoas. Quando o adversário faz um movimento errado, ele faz caretas ou ri de maneira a humilhá-lo.  Isso pode deixar o adversário muito abatido.

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Foto: Garry Kasparov

Kasparov perdeu essa vantagem quando jogou contra o computador Deep Blue. Afinal, estava jogando com uma máquina.

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Imagem: como Kasparov poderia derrotar Deep Blue em um lance!


Eu me recordo de uma partida disputada por dois russos, Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi.

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Foto: Viktor Korchnoi

Korchnoi tinha abandonado a União Soviética e pedido asilo no Ocidente, e esse fato fez a partida ser ainda mais intensa. Karpov tinha em sua equipe um “psicólogo” chamado Vladimir Zukhar. Na realidade, Zukhar era pouco mais do que um especialista em ficar olhando as pessoas fixamente, com os olhos arregalados. Durante todo o tempo da partida, seu papel era olhar fixamente para Korchnoi, e isso o deixou tremendamente nervoso. Karpov acabou vencendo a partida por uma margem muito estreita.


Nunca deixe seu adversário ver você suando

Cometer um erro no meio da partida pode deixar o jogador arrasado. Mas os jogadores excepcionais aprendem a manter calma e confiança totais – pelo menos por fora. Os grandes jogadores podem duvidar do acerto de um de seus próprios lances, mas nunca duvidam deles mesmos. Mas existe uma grande diferença entre cometer um erro e retroceder. Retroceder não é necessariamente negativo. Para conseguir uma vantagem no xadrez, frequentemente é preciso abrir mão de alguma coisa. Na verdade, uma retirada pode ser uma manobra brilhante de ataque, pegando o adversário desprevenido.

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Aprenda a perder para poder aprender a ganhar

Aprender xadrez quando se é criança tem um problema: inevitavelmente, você vai perder muitas vezes. E, evidentemente, uma das principais razões pelas quais uma criança faz qualquer coisa é o desejo de agradar a seu ego. Mas, se você aprende a aceitar as derrotas enquanto é jovem, acaba aprendendo a ganhar. Essa é uma das primeiras funções de um bom professor de xadrez: mostrar aos alunos como suportar a dor da derrota.


Ensinar as pessoas a pensarem

Minhas aulas incluem muitos momentos de silêncio. Ouço outros professores e vejo que eles passam o tempo todo falando: “Por que você está fazendo essa jogada?”, “Que outras opções você está levando em conta?” Quanto a mim, deixo meus alunos pensarem. Quando faço uma pergunta e não recebo a resposta correta, formulo a pergunta em outras palavras – e espero. Nunca dou a resposta. A maioria das pessoas não se dá conta do poder do silêncio. Parte da comunicação mais eficaz entre professor e aluno, entre jogadores mestres, se dá durante os momentos de silêncio.

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Links:

http://www.fastcompany.com/37127/all-right-moves

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/693/noticias/uma-aula-de-estrategia-m0048561

 

Princípio da Reciprocidade – dar para receber

Ouvi uma história muito legal.

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Um padre administrava uma igreja. Todos os anos, ele pedia contribuições para melhorias em alguma coisa na igreja – e todos os anos os mesmos fiéis contribuíam. Porém, este ano a reforma era pesada, e ele precisava pedir um esforço maior por parte dos seguidores de sua fé. Mas ele também não queria onerar demais os fiéis seguidores de longa data que sempre ajudavam a igreja.
O padre fez algo diferente. Num determinado domingo, ao invés de pedir dinheiro, ele falou para cada seguidor pegar 10 dólares da caixinha da igreja. Cada um deles deveria investir estes 10 dólares da melhor forma possível, para depois contribuir para a reforma da igreja.

Os resultados foram surpreendentes. Um deles organizou um bazar para vender coisas usadas. Outros compraram ingredientes para fazer um bolo e uma feira beneficente. Outro anunciou seus serviços de passeador de cães, arrecadou fundos e doou toda a receita. O retorno total foi quase 20 vezes maior do que o “investimento” do padre.
A fonte da história é o livro “Persuação e Influência”, de Steve Martin et al.


A estratégia chinesa de guerra número 17 diz: “Dê tijolo para obter jade”. Dê algo pequeno agora para obter algo maior no futuro. Muitas das amostras grátis que recebemos têm esta lógica, a de primeiro fornecer para depois pedir. O problema é que são tantas amostras grátis de tanta coisa que já ficou batido, “tijolos” baratos não tem mais apelo. O seu “tijolo” deve ser algo genuinamente novo e com bons motivos, para aí sim se obter a “jade”.
Nota: Jade era um sinônimo tão forte de riqueza na China, que o ideograma de “jade” é um Rei com um enfeitezinho.

Jade:Jade

Rei: Rei

Arnaldo Gunzi
Jun 2015

Fazer o tigre sair da montanha

Uma das 36 estratégias de guerra chinesas diz “Faça o tigre sair da montanha”.
O território do tigre é a montanha, ele é o dono do lugar e conhece cada árvore de cada caminho. Mas, se o tigre estiver na cidade, vai ficar perdido que nem barata tonta.

Tiger

Uma estratégia de persuasão é esta, a de mexer com o território.


 

Quer negociar alguma coisa difícil? Faça o outro lado vir até a sua mesa, ao invés de você ir até ele. No mínimo, a sua auto-confiança será maior, ao você ditar as condições ao invés das condições serem ditadas a você: vai ter café ou não? Vai ser aconchegante ou não? O seu banco vai estar numa posição mais elevada do que o do outro?

 
E como fazer o tigre sair da montanha? Que tal oferecer alguma coisa para ele vir? Ou marcar num território supostamente “neutro”, e conveniente a ambos? Mas, muitas vezes, um simples convite é suficiente.

 


Não tem nada haver, mas “tigre na floresta” me lembra William Blake:

 
The Tyger
BY WILLIAM BLAKE

 

Tyger Tyger, burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

 

Tigre, tigre incandescente
Nas florestas da noite.
Que mão ou olho imortal
Pode enquadrar tua terrível simetria ?

Arnaldo Gunzi
Jun/2015

Ar

Estratégias, Retórica e Eleições

Alguns comentários sobre as campanhas de 2014. Não do ponto de vista político, mas do ponto de vista das estratégias de campanha.

No que se refere a marketing, o PT deu uma goleada. Do lado do PT,
João Santana, que já tinha trabalhado nas eleições anteriores. Do lado do PSDB, a irmã de Aécio Neves.

Focos da campanha
Dia, no final do segundo turno, chamou de volta o ex-presidente Lula para ajudar na campanha. Focaram as campanhas em Pernambuco, Minas e Rio de Janeiro. Em Pernambuco, Aécio tinha o apoio da família de Campos. Os três eram colégios eleitorais grandes, e onde já havia uma simpatia pelo PT. O PT ganhou nos três. E provavelmente, isto fez a diferença.
O PT nem se preocupou muito com o resto do nordeste, onde iriam ganhar de qualquer jeito, e nem com SP, onde perderiam de qualquer forma.
Já Aécio achou que venceria de lavada em Minas, erro fatal.

Mudança
Após o resultado do primeiro turno, o discurso de Dilma passou a ser: “entendi o recado das urnas, governo novo, ideias novas”. Ora, o mesmo governo está aí faz 12 anos. Como assim ideias novas? Entretanto, esta afirmação é boa para o eleitor que já tinha uma tendência a votar em Dilma, e estava desconfortável com a falta de mudanças.

Debates
Nos debates, ficou claro que Aécio é muito melhor orador que Dilma. Seja pela postura, pela organização de ideias. Mas Aécio não conseguiu capitalizar esta diferença. Não conseguiu vitória incontestável.
Apresentava um sorriso nervoso, falso.
Quando Dilma usou argumentos ad-hominen (atacando a pessoa), e Aécio respondeu na mesma moeda, o brilhante marketeiro de Dilma associou a imagem de Aécio a alguém que maltrata as mulheres. Isto, lembrando uma suposta agressão à sua atual esposa, anos atrás. Isto pegou muito mal.

Corrupção
Uma das armas mais pesadas que Aécio poderia utilizar seria os 10 bilhões desviados da Petrobrás. Além disso, havia o episódio do mensalão. Mas Dilma, de novo conseguiu equilibrar as coisas, com o tal do aeroporto em Claudio. Uma obra de alguns milhões de reais, inúmeras ordens de grandeza menor do que os episódios do PT.

Retórica
Portanto, através de estratégia e muita retórica, o PT virou o jogo.
Entretanto, o uso excessivo da retórica para vencer no curto prazo será um tiro pela culatra. O país será muito difícil de governar, pela divisão que foi provocada entre norte Sul, ricos e pobres. Toda ação forte provoca uma reação forte. Nao duvido que alguém de extrema oposição, como Jair Bolsonaro, seja candidato e tenha muitos votos nas próximas eleições.

Espero que as instituições brasileiras – legislativo, polícias, institutos de economia, imprensa – continuem com poderes para exercer os seus papeis. Espero que os economistas do PT sejam tão bons quanto os marketeiros. E que estes façam o que deve ser feito, independente de contrariar o próprio discurso eleitoreiro.

Davi x Golias

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Malcolm Gladwell é um escritor que orbita entre psicologia e economia, colunista da revista New Yorker, e uma mente sagaz e curiosa. Ele faz perguntas e observações intrigantes, que no mínimo fazem pensar.

Um exemplo que ficou famoso em seus livros é a “teoria das janelas quebradas”. Numa vizinhança, quando tudo está limpo e arrumado, a tendência é que tudo continue assim. Uma única janela quebrada não vai fazer a diferança. Acrescente, duas, três, mais janelas quebradas. Vai chegar num ponto (o “ponto da virada”), em que o cuidado com os vidros entrará num círculo vicioso, com menos e menos pessoas se importando, com prejuízo à limpeza, a organização e até atraindo criminalidade.

Seu novo livro é “Davi x Golias”, onde faz algumas insinuações interessantes. A primeira é de que, na lenda bíblica, Davi tinha sim grande chance de vencer Golias. A pedra do estilingue era uma arma poderosa nas mãos de quem sabe mexer. Da mesma forma, “Davis” oprimidos e com desvantagens podem ser superiores aos “Golias” do mundo real. Aquilo que consideramos como vantagens podem não ser tão vantajoso assim, e as desvantagens podem ser uma vantagem no final

Uma das chaves para transformar desvantagem em vantagem é utilizar estratégias de guerrilha. Usar métodos indiretos e não convencionais, ante as técnicas convencionais e de força bruta que a posição vantajosa utiliza. Gladwell cita um estudo, que analisou centenas de conflitos na história. Se um lado em desvantagem utilizar métodos convencionais, ele tem 30% de chance de vencer. Já, se o lado em desvantagem utilizar métodos não convencionais, ele tem 60% de chance.

Um exemplo de técnica não convencional foi o de Lawrence da Arábia. Ao atacar os turcos, havia dois caminhos: um pelas estradas existentes, o outro, dando a volta pelo deserto. Um exército convencional dificilmente conseguiria atravessar um deserto. Imagine um exército montado em camelos, com um rifle e um cantil de água. Entretanto, foi exatamente isto que ele fez. Utilizando a extrema habilidade de encontrar água no meio do deserto, e numa velocidade incrível, eles atravessaram o deserto e pegaram os turcos desprevenidos.

Outro exemplo é o dos impressionistas: Renoir, Cézanne, Monet. Apesar de suas obras serem extremamente valorizadas hoje em dia, ninguém dava bola para eles na época. Foram rejeitados inúmeras vezes nas principais exposições da época. Nenhum crítico deu a mínima bola para o trabalho deles. Muito pelo contrário: achavam esquisito, feio, fora dos padrões que a arte deveria seguir. A solução foi eles mesmos organizarem uma exposição deles, pouco ligando para o que críticos diziam. A exposição foi um sucesso, e foi exatamente esta visão não convencional que marcou a história do impressionismo.

Tomar cuidado com supostas vantagens. É como dar mesada a uma criança, é ruim se for demais. Os incentivos têm a forma de um U invertido, existe um ponto máximo que não é nem muito nem pouco. O exemplo é a noção de que salas de aula com menos alunos são melhores. Nos EUA, teve um momento em que o governo investiu macicamente em professores, para diminuir o número de alunos. Entretanto, a pesquisa comparativa para milhares de escola em que isto ocorreu ou não ocorreu mostra que não houve efeito algum. A mesma pesquisa foi feita no mundo inteiro, e não se viu diferença. A vantagem não foi vantagem alguma, foi apenas custo.

Existe também o “efeito deprivação”. Pessoas que têm algo, mas têm menos do que as pessoas do seu meio, na verdade estão em desvantagem ao invés de vantagem. É como alguém de classe média mudar para um prédio de classe alta. Ele pode até conseguir morar lá, mas não vai conseguir ter o padrão dos outros. Vai ser o peixe pequeno numa lagoa grande.

Outras dicas são de se posicionar como um Davi, buscando novas estratégias, pontos de vista diferentes. Mudar as regras do jogo, passar além dos limites do possível. Fazer da desvantagem como uma vantagem, e tomar cuidado com as vantagens existentes.

Estratégia de incentivar o concorrente

Saiu na Folha:

Após dois anos de estudos, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) inicia nesta quarta-feira (24) os testes de campo de uma ambiciosa estratégia internacional de combate à dengue: a introdução na natureza de exemplares do mosquito transmissor, o Aedes aegypti, imunes à doença.

No total, dez mil mosquitos “vacinados” serão liberados a partir de hoje em Tubiacanga, na Ilha do Governador, zona norte do Rio.

Esta será a primeira vez em que um país nas Américas recebe o estudo; a iniciativa também está sendo feita paralelamente por cientistas da Austrália, Vietnã e Indonésia.

Com a utilização de uma bactéria natural, a wolbachia – encontrada em cerca de 70% dos insetos na natureza, incluindo moscas-das-frutas e pernilongos “comuns” – os pesquisadores garantem ser uma forma segura de reduzir a transmissão do vírus pelo mosquito.

A pesquisa já havia sido apresentada em setembro de 2012, no Congresso Internacional de Medicina Tropical, no Rio. Em laboratório, cientistas contaminam os embriões do Aedes aegypti com uma variante da bactéria wolbachia, que acaba impedindo o desenvolvimento do vírus da dengue no organismo do mosquito.

Erro de estratégia eleitoral

CorridaEleitoral

Corrida eleitoral brasileira de 13/09/2014.

As pesquisas mostram Dilma com 39%, Marina com 31% e Aécio com 15%.

Desde que a candidata Marina Silva surgiu nas pesquisas como uma fortíssima candidata a vencer a eleição, tanto Dilma quanto Aécio passaram a atacá-la: mostrar inconsistência de posicionamento, falta de apoio parlamentar, falta de experiência.

Aécio só vai para o segundo turno caso aconteça algum milagre. E, mesmo se for, Aécio não ganha em nenhum cenário possível. Nunca ganhou a eleição em nenhuma pesquisa já feita. Entretanto, ele aposta neste milagre, e continua a atacar a candidata Marina Silva.

Eu acho este posicionamento de Aécio um erro estratégico. Ao atacar Marina, ele favorece Dilma. Seria mais interessante fazer duas coisas.
1 – Assumir (não publicamente, mas estrategicamente) que já perdeu a eleição.
2 – Aliar-se a Marina e atacar Dilma.

Desta forma, além de ter chances efetivas de montar uma aliança que vai governar o país, esta aliança melhoraria os aspectos ruins de Marina: suporte em termos de apoio parlamentar, suporte com experiência de governos passados, e um discurso mais consistente.

Assumir a derrota e partir para a segunda opção é melhor do que acreditar em sonhos, reviravoltas e milagres.

Dilema do prisioneiro e assertividade

A Teoria dos Jogos é um dos temas estudados em Economia, a fim de modelar, prever e entender o comportamento de pessoas ou instituições em stiuações análogas a jogos.
O “dilema do prisioneiro” é um dos problemas centrais da Teoria dos Jogos, e há analogias interessantes com o comportamento humano. 
 
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“Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro.
A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?”
 
Se ambos colaborassem, seria melhor para todos, de forma global. Mas, se alguém confessar e o outro não, quem confessou sai livre. Não há como saber se um jogador vai ser traído ou não.
 
Este é o caso de dilema do prisioneiro de jogo único. Algo mais próximo da realidade é o dilema do prisioneiro com repetições. 
 
Historicamente, houve competições de simulações computacionais para o dilema do prisioneiro.
 
Curiosamente, o programa vencedor foi o “olho por olho” (“tit for tat”). Primeiramente, o jogador é benevolente, escolhendo ficar em silêncio. Depois, a estratégia consiste em escolher o que o adversário escolheu na rodada anterior (olho por olho).
 
Depois descobriu-se que o “Tit for Tat com capacidade de perdão” uma estratégia um pouco melhor. Ao invés de simplesmente repetir a estratégia do adversário, ele introduz uma capacidade de “perdoa-lo”.
 
Segundo a wikipédia:
 
Ao analisar as estratégias que conseguiram melhor pontuação, Axelrod estabeleceu várias condições necessárias para que uma estratégia tivesse êxito:
 
Amabilidade
 
A condição mais importante é a de que a estratégia deve ser “amável”, ou seja, não desertar antes que o opositor o faça. Quase todas as estratégias melhor pontuadas eram amáveis; daí uma estratégia puramente egoísta não fará “batota” com o oponente, principalmente por razões puramente utilitárias.
 
Retaliação
 
Todavia, notou Axelrod, a estratégia vencedora não pode ser optimista cega. De vez em quando tem de retaliar. Um exemplo de uma estratégia não retaliadora é a de “colaborar sempre”. É uma escolha muito má, pois estratégias oportunistas ou maldosas irão explorar essa fraqueza sem piedade.
 
Perdão
 
Uma qualidade das estratégias vencedoras é que são capazes de perdoar. Embora retaliem, tornam a cooperar logo que o opositor não continue a desertar. Isto evita grandes sequências de vinganças em círculo vicioso, maximizando os pontos.
 
Não-inveja
 
A última qualidade é não serem invejosas, ou seja, não tentarem fazer mais pontos que os opositores (impossível para uma estratégia “amável”, isto é, uma estratégia “amável” nunca pode fazer mais pontos que o opositor).

Recapturado e solto 7 vezes

Qual a melhor forma de tratar um sujeito obstinado, que não vai desistir de jeito nenhum?
 
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A história a seguir conta como Zhuge Liang prendeu e libertou o líder rebelde Meng Huo 7 vezes.
 
Zhuge Liang é considerado um dos maiores estrategistas da história da China, e diversas de suas histórias já foram relatadas neste blog.
 
Meng Huo era um líder carismático, todo o povo rebelde poderia ser facilmente submetido à sua vontade. Na história dos Três Reinos, Meng Huo atacou Zhuge Liang, que o derrotou para o libertar em seguida. Meng Huo atacou de novo, de novo, de novo, tentando diversas estratégias diferentes, com diversos aliados diferentes. Em todas as oportunidades, foi mal sucedido, caindo em armadilhas preparadas por Zhuge Liang, que o capturava para em seguida libertá-lo.
 
Zhuge Liang poderia facilmente ter eliminado o rebelde em qualquer das 7 vezes que o derrotou, entretanto, isto não traria o fim da guerra. Talvez, até piorasse. Primeiro, porque outros tomariam o seu lugar, e a cada vez que ele derrubasse um líder, haveria mais e mais ressentimento por parte do povo rebelde. Ao invés disso, Zhuge Liang permitiu que o oponente reorganizasse suas forças e atacasse novamente e novamente. Continuas vezes derrotado, o líder rebelde finalmente percebeu que não era páreo para o oponente, e se rendeu. Passou a usar o seu poder de persuasão sobre o povo e sua habilidade política para coexistir com o oponente. Não houve mais guerra
 
 
 

Arnaldo Gunzi.

Sitiar Wei para salvar Zhao

Estratégias Chinesas e a Arte da Guerra

 

Conta-se que  o poderoso exército de Wei estava em marcha para atacar o pequeno de Zhao, que dificilmente resistiria ao ataque. O rei de Wei pediu ajuda ao estado de Qi, que tinha como general Sun Bin, o “Aleijado”. Sun Bin era descendente de Sun Tzu.

Porém, ao invés de marchar para confrontar os inimigos de Wei, o “Aleijado” colocou seu exército em direção à cidade do inimigo. Uma vez que Wei tinha mobilizado mais de 100 mil homens, a sua capital estava desprotegido.

Isto obrigou que o exército de Wei voltasse correndo para a sua capital, salvando Zhao da invasão sem disparar um tiro.

O exército de Wei, voltando a toda velocidade, foi facilmente emboscado pelo “Aleijado”.

Esta foi uma batalha vencida pelo posicionamento e inteligência, superiores à força.

 

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