Sr. Miyagi, Sr. Sulu e a Segunda Guerra

O divertido seriado Cobra Kai traz de volta os personagens do filme clássico Karate Kid, 30 anos depois.

É uma pena que o icônico Sr. Miyagi não vai voltar à série, uma vez o ator, Pat Morita, faleceu em 2005.

Mesmo assim, o Sr. Miyagi aparece em flashbacks e homenagens. Numa dessas homenagens, um detalhe me chamou a atenção: o Sr. Miyagi foi condecorado na Segunda Guerra, e pertencia ao 442º regimento do exército americano.


Acabei de ler outro livro, “Éramos chamados de inimigos”. É do ator George Takei, mais conhecido por ter interpretado o Sr. Sulu, da não menos icônica série Star Trek.

Takei narra o traumático evento em que ele e família ficaram confinados, nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. Sendo o Japão o inimigo, todos os descendentes de japoneses nos EUA foram alçados imediatamente à condição de suspeitos. Tiveram os bens tomados e foram enviados para campos de confinamento, nos anos que a guerra durou.

Obs. O ator Pat Morita também passou pelos campos de confinamento. Ele narra: “Fui de uma criança alienada a inimigo público. Virei um ‘japa’ da noite para o dia, sendo escoltado pelo FBI para um campo de internato. Foram anos enormemente difíceis para o nosso povo. Pessoas andando pelo deserto que nunca mais seriam vistas. Pessoas se enforcando… Foi horrível. Horrível…”.

Nesse meio tempo, uma solução encontrada foi fazer as pessoas jurarem fidelidade aos EUA – ou seriam mandadas de volta ao Japão. A família de Takei ficou numa situação difícil. A mãe dele se recusou a aceitar a situação, e quase foi deportada – mas sendo salva no último minuto, devido à ação de um grupo que defendia as famílias nipo-americanas.

Mesmo sofrendo essas injustiças, alguns nipo-americanos juraram fidelidade, se alistaram, e foram à guerra na Europa. Teve um regimento formado totalmente por esses, o 442º.

O 442º regimento foi um dos mais condecorados da guerra, segundo a Wikipedia: 9.486 corações roxos e 4.000 medalhas de estrela de bronze . A unidade recebeu oito Citações da Unidade Presidencial (cinco obtidas em um mês). Vinte e um de seus membros receberam medalhas de honra.

E essa é a medalha do Sr. Miyagi, no 442º regimento.


Trivia 1: Será que só eu acho o Sr. Miyagi muito parecido com Mestre Yoda? Você não dá nada quando eles aparecem, mas no decorrer da história vão revelando sua sabedoria e treinando o jovem aprendiz a superar os desafios. Jornada do herói na veia.

Trivia 2: Será que só eu acho o Luke Skywalker e o Daniel-san tremendamente insossos? Dois moleques sem graça, metidos a besta.
Darth Vader >>>>>> Luke.

Trivia 3: O bizarro Karate Kid Ohara

Eu me lembro de um seriado chamado “Karate Kid Ohara”. Passou no SBT, no final dos anos 80 ou começo dos 90, algo assim.

Tinha o ator Pat Morita, como Ohara. Só que ele era detetive… nada de caratê, ele até usava arma. Todo o resto era completamente diferente. Nunca entendi aquilo.

Naquela época, não existia Google. Agora, 30 anos depois, descobri que a série era chamada originalmente “Ohara”, com o ator Pat Morita, e não tinha nenhuma relação com o filme Karate Kid. Foi o SBT que renomeou a série, malandramente. Não adiantou de nada, porque era muito ruim, ahah.

Links:


https://en.wikipedia.org/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/22/sr-miyagi-reaprendeu-a-andar-aos-11-anos-e-quase-foi-recusado-em-karate-kid.htm

https://pt.qwe.wiki/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://thekaratekid.fandom.com/wiki/

Nietzsche em quadrinhos

O explosivo filósofo alemão Friedrich Nietzsche é amado e odiado por suas ideias polêmicas e linguagem poética.

“Deus está morto”,

“Moral é apenas uma interpretação equivocada de certos fenômenos”

“É do caos que nasce uma estrela”

“Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você.”

“Aqueles que veem a dança são considerados insanos por quem não está ouvindo a música”

A seguir, três recomendações de quadrinhos sobre o filósofo.

1 – Assim falava Zaratustra. Baseado no livro homônimo. Tem uma bela arte, é um resumo e ao mesmo tempo uma interpretação artística do livro.

Link da Amazon: https://amzn.to/2ZQg6C3

2 – Nietzsche Nº 1. É uma biografia do filósofo, narrando um pouco de seus pensamentos e sua vida. A arte do desenho é extremamente bonita aos olhos.

Link da Amazon: https://amzn.to/2RE3t8U

3 – Assim falou Zaratustra. É uma história num formato mangá. É apenas inspirado no livro. Narra uma história imaginada pelo autor, com algumas citações e personagens de sua vida (como Lou Salomé), mas não é nem um pouco fiel ao livro homônimo, e a história nem é muito legal.

Esta indicação só está aqui porque tem uma referência ao ultraviolento filme “Laranja Mecânica”.

A cena em que Alex DeLarge e sua gangue de “drugues” espancam um mendigo num córrego é adaptada para o mangá: o delinquente Zaratustra e sua gangue fazem o mesmo.

Ou seja, o mangá consegue unir dois trabalhos icônicos, de duas cabeças brilhantes (Nietzsche e Kubrick) e transformar numa história ruim… por isso mesmo, é imperdível.

Veja também.

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/03/o-anticristo-de-nietzsche-em-40-frases/

https://ideiasesquecidas.com/2017/12/13/o-crepusculo-dos-idolos-em-40-frases/

A expedição Kon-Tiki

Para quem gosta de aventuras, segue a indicação de uma das histórias mais malucas de que o ser humano é capaz.

O norueguês Thor Heyerdahl queria mostrar que a colonização das ilhas Polinésias tinha origem nos indígenas da América do Sul.

Tendo vivido nas ilhas Polinésias por um período, ele notara uma corrente marítima vinda do leste. Também notou semelhança entre algumas estátuas nas Polinésias e no Peru, e culturas como a batata-doce.

Para provar o seu ponto, ele se propôs a uma aventura completamente insana: a bordo de uma jangada, construída apenas com materiais da antiguidade (toras e cordas), atravessar 8000 quilômetros de Oceano Pacífico!

Só para dar uma noção, a distância de Oiapoque ao Chuí é de 4.000 quilômetros. A jangada (nem barco era), iria de norte a sul do Brasil e voltaria, apenas sendo levada pela corrente e pelo vento!

Essa era a Expedição Kon-Tiki, em homenagem ao deus polinésio ancestral. Ocorreu em 1947.

A partir da aventura, ele publicou um livro e um documentário.

Há um filme de 2012, disponível no Prime Vídeo.

O filme é legal, é até fiel em vários pontos, porém, faz algumas dramatizações desnecessárias para uma aventura que é interessante por si só.

Prefiro o documentário original de 1950, no link a seguir.
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Há também um livro: https://amzn.to/3hQgwzB


Pincelei algumas cenas, a seguir.

A jangada foi feita utilizando 9 árvores grossas, de madeira balsa. Toras menores foram colocadas acima das toras grossas, um mastro de madeira bastante dura e uma cabana de bambu coberta com palha seca, pequena mas suficiente para os 6 tripulantes.


Somente cordas, sem pregos, sem cabo de aço. Segundo a antiga tradição polinésia, “Não devemos lutar contra a natureza. Devemos nos sujeitar a ela e ser flexíveis”.

A distância a ser percorrida do Peru para as Polinésias é muito grande. É a mesma distância do Peru até S. Francisco, ou de S. Francisco até a Islândia.

Eles também tinha um pequeno bote a remo como apoio. Na primeira vez que saíram com o bote, eles perceberam que a jangada andava rápido demais, mesmo sem as velas. Tiveram que remar com todas as forças para conseguir alcançar a mesma.

Eles utilizavam um sextante para estimar a localização. Sol, estrelas e conhecimento, só isso.

Uma das grandes objeções dos críticos era a comida. No caso dos aventureiros, eles levaram um grande estoque de ração e água, mas como um nativo faria?

O vídeo prova claramente que é possível conseguir peixe em alto-mar.

Havia muitos peixes próximos à balsa, procurando refúgio.

Peixes voadores também eram frequentes – estes pulavam na balsa à noite, e eram uma fonte constante de alimento.

A fim de justificar a parte científica da expedição, eles coletaram plâncton, alga e parasitas de peixes. Também descobriram uma nova espécie de peixe, uma espécie estranha de peixe cobra.

Em mais de uma ocasião, viram baleias próximas à jangada. Uma das vezes, parecia vir colidir diretamente com a embarcação, porém, o gigante passou por baixo, sem maiores problemas.

É claro que uma viagem dessas não poderia passar sem contratempos. Um deles foi que, somente após 45 dias de viagem, conseguiram contato no rádio amador.

Entre os contratempos, eram necessários constantes reparos na estrutura, na amarração das vigas principais, no manche.

Uma cena que fiquei em dúvida no filme, mas o documentário mostrou que era real. A fim de fazer o rádio amador pegar sinal, os tripulantes levantaram um balão com antena. O papagaio “Lolita”, o sétimo tripulante, viu o fio do balão e bicou, fazendo-os perder o mesmo.

Lolita não teve um bom destino. Após uma chuva, o mar a levou para sempre.

No documentário, eles citam que havia tubarões constantemente seguindo a jangada, principalmente atraídos por restos jogados.

Eles chegaram a pescar tubarões.


Era fácil fazer o monstro morder a isca – bastava peixe e sangue, que ele atacava cegamente – não tem medo, visto que não tem predadores. Içar o tubarão para bordo também não era difícil, porém, dentro da jangada, ele podia ficar por uns bons 45 minutos brigando – e poderia machucar alguém, com os dentes afiados.

A foto a seguir mostra que eles conseguiram pescar à vontade, apenas com instrumentos rudimentares: arpão, anzol e linha.

Após cerca de 90 dias, pássaros no céu eram o sinal de que a terra estava próxima.

Encontraram uma ilha, porém não conseguiram fazer a jangada desembarcar na mesma – afinal, tinham apenas a embarcação e uma vela.

A questão principal de uma viagem dessas não era distância, mas direção. É possível flutuar ao sabor das correntezas por 8000 kilômetros, mas não conseguiam atracar na ilha a 200 metros.

Encontraram nativos em botes alguns dias depois, porém, novamente, não conseguiram desembarcar.

Após mais alguns dias, eles tiveram que atravessar um recife de corais, para desembarcar numa ilha. A jangada foi destruída ao atravessar o recife. E a ilha estava desabitada.

Teriam eles chegado sãos e salvos? Alguma outra intercorrência machucou alguém? Teriam sido atacados por sereias, tais como Ulisses na Odisseia?

Assista o filme ou o documentário para saber. De novo, é um prato cheio para quem gosta de aventuras.

Atualmente, estou com receio até de tomar metrô, em virtude da pandemia. Imagine a coragem de ficar 101 dias isolado no mar, com futuro incerto, vizinho de tubarões e baleias!

Seguem alguns links e outras indicações:

Vi o filme no Prime Video. Como o catálogo é rotativo, destaco que foi agora em junho de 2020.
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Documentário original de 1950
https://www.youtube.com/watch?v=22RvS372DlQ

Livro Kon-Tiki: https://amzn.to/3hQgwzB

Notícia bem recente, que encontra traços de DNA sul americano nos polinésios: https://marsemfim.com.br/colonizacao-da-polinesia-dna-prova-tese-de-thor-heyerdahlt/

Outras recomendações, na mesma linha de aventuras extremas:

A incrível viagem de Shackleton. Sobre o explorador que tentou alcançar o Pólo Sul, porém teve a embarcação presa no gelo. Tiveram que sobreviver até a chegada do verão.

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O País das Sombras Longas. Como vivem os esquimós do Pólo Norte? O livro relata diversas histórias, até cruéis, deste lugar inóspito.

Scarface, Darwin e Santos Dumont

Tenho saudades da época que livrarias existiam. O lado bom é que estou revirando a minha biblioteca, e relembrando de algumas biografias em quadrinhos de excelente qualidade.

1) Scarface – Adaptação em quadrinhos

Scarface não é exatamente uma biografia de Al Capone, mas é fortemente inspirado no mesmo.

“Scarface” é mais conhecido pelo filme clássico de 1983, com o ator Al Pacino e direção de Brian de Palma. É um filmaço, um dos melhores de gângster já produzidos.

Tanto o filme quanto a versão em quadrinhos são inspirados num livro de 1930. Entretanto, o filme tem várias diferenças: Tony Montana é cubano, lida com o tráfico de drogas e os eventos acontecem em Miami, por exemplo.

Já os quadrinhos são mais fiéis à origem. Tony Guarino é inspirado no gângster Al Capone, lutando pelo domínio das ruas de Chicago com outras gangues, para contrabandear bebidas alcoólicas – numa época em que a Lei Seca proibia o consumo das mesmas. “Scarface” era o apelido de Capone, por conta de uma cicatriz em seu rosto, obtida em uma briga.

Em comum, a ambição desmesurada do personagem principal, envolvimento com mulheres sedutoras e a violência – cenas pesadas de tiroteios, traições de aliados e assassinatos.

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A versão em filme está disponível na Netflix.

2) Charles Darwin


Conta a fascinante história de Charles Darwin. Particularmente interessante é a parte de sua viagem no Beagle, o navio que percorreu o mundo, começando a viagem em 1831. É impressionante a forma meticulosa com que Darwin coletava, examinava e classificava tudo quanto era espécie de insetos, aves e animais.


Durante a missão do Beagle, Darwin passou, inclusive, pelo Brasil.


Algumas das relíquias que ele coletou na América do Sul: um crânio de uma capivara gigante, restos de tatu gigante (do tamanho de um cavalo), ossos de megatério (uma preguiça gigante), todos animais extintos há muito tempo.

Darwin escreveu o seu clássico, “A origem das espécies”, mas não pretendia publicá-lo antes de sua morte. Entretanto, em 1858 ficou sabendo do trabalho de Alfred Russel Wallace, que também tinha chegado às mesmas conclusões sobre evolução natural, por outros meios (analisando animais da Ásia e Austrália). Resolveram publicar juntos ambos os trabalhos – mas, hoje em dia, Darwin é bastante conhecido, e Wallace ficou sendo o “Rubinho Barrichelo” desta história.

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3) Santos Dumont


Conta a incrível história de Alberto Santos Dumont, o seu interesse por invenções dos mais diversos tipos, sua paixão por balões, e, é claro, a sua história com o 14-bis.

É fascinante acompanhar Santos Dumont em suas corridas de balão, improvisando e testando as mais malucas teorias para melhorar a performance dos mesmos (e vez por outra caindo e sofrendo acidentes).

Além de Santos Dumont, o livro conta um pouco da história de outros pioneiros da aviação, como os irmãos Wright, o conde Ferdinand Von Zeppelin, Ernst Archdeacon, o capitão Ferber, Engenheiro Kapférer, a maioria nem um pouco conhecida do público geral.

Isso mostra uma certa “corrida espacial” para dominar os ares. Também ilustra a teoria de que, quando uma invenção está no ponto, alguém iria inventar, cedo ou tarde – digamos, se não tivesse Einstein, David Hilbert teria descoberto a relatividade, se não tivesse Darwin, Wallace teria descoberto a evolução como visto acima, se não tivesse Santos Dumont, alguns desses outros teriam se destacado.

Outra curiosidade é que o relógio de pulso foi inventado por Cartier para Santos Dumont, para que ele visse as horas sem largar o comando do dirigível.

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Recomendo também visitar a casa de Santos Dumont em Petrópolis. Além da cidade ser extremamente bonita, tem vários pontos turísticos muito legais, como a casa da Princesa Isabel, o Palácio de Cristal, etc…

A escadaria para a casa tem espaço para apenas um pé por vez, obrigando o visitante a começar a subida com o pé direito (confesso que fiquei tonto no meio da escada). A casa é repleta de invenções estranhas, e ele era alguém de hábitos esquisitos (ex. uma cama de madeira que parecia uma mesa). A casa é muito alta e tinha um mirante também muito alto (nota-se que ele não tinha medo de altura).

Réplica do 14 Bis em Petrópolis

http://www.visitepetropolis.com/o-que-fazer/perfil/museu-casa-de-santos-dumont/


Veja também

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A física dos Vingadores: Ultimato – parte 2

Continuação da parte 1. Aviso: Contém spoilers.

Thanos conseguiu as joias do infinito, estalou os dedos e destruiu metade da humanidade. Cumprida a sua missão no universo, também destruiu as próprias joias.

A solução do filme: voltar no tempo, recuperar as joias, e trazer as pessoas de volta à vida…

O Paradoxo do avô

Tudo quanto é filme de viagem no tempo explora o paradoxo do avô.

O que acontece se um viajante do tempo mata o seu próprio avô? Sem ele, como o viajante do tempo sequer existiria?

Em “De volta para o futuro”, ocorrem ações determinísticas: à medida em que o passado é alterado, o presente muda também.

David Deutsch

O filme dos Vingadores cita um certo “Princípio de Deutsch”, que não existe. Mas a pessoa, sim. É uma homenagem a David Deutsch, físico israelense.

Ele fundamentou as bases da computação quântica, nos anos 90. Tem um algoritmo, que leva o seu nome, e é o primeiro algoritmo quântico inventado.

Deutsch é um pensador extremamente não-convencional. Ele defende a interpretação de multiverso da física quântica.

Multiversos

Imagine o gato de Schrodinger: um gato, preso numa caixa fechada. Um átomo pode disparar ou não uma armadilha radioativa. Enquanto não fazemos a observação, o gato está no estado de superposição vivo e morto ao mesmo tempo.

Para a interpretação de multiversos, é como se o universo inteiro se dividisse em dois: um em que o gato está vivo, e outro em que ele está morto!

A maioria dos pesquisadores acha essa interpretação completamente maluca. Por que o universo inteiro se duplicaria a cada evento de incerteza como o acima? É exatamente oposta ao princípio da navalha de Occan (entre duas alternativas, a mais simples é a correta). E a conservação de energia?

Entretanto, este tipo de pensamento divergente pode ser a chave para soluções completamente impossíveis no raciocínio comum.

Deustch propôs, no artigo “Quantum Mechanics Near Closed Timelike Lines”, uma solução ao paradoxo do avô.

Linhas do tempo fechadas

A solução é mais ou menos assim: quando o viajante volta no tempo e mata o avô, não podemos pensar em termos determinísticos puros. Temos que pensar em termos probabilísticos.

Como no gato de Schrodinger, imagine que em 50% das vezes ele volta no tempo e mata o avô, 50% das vezes, não.

Este raciocínio evita contradições. Nas vezes em que mata o avô, mesmo assim o viajante continua existindo com 50% de chance. Dessa forma, mesmo sem o avô ele é capaz de existir e voltar no tempo para matar o avô.

Pelo visto, Tony Stark leu o artigo…


O Paradoxo EPR

No filme, Stark cita o paradoxo EPR, e emenda: “ao invés do Lang viajar através do tempo, o tempo é que viaja através dele”. Bom, EPR não tem relação alguma com a explicação dada.

EPR vem de um famoso artigo escrito por Einstein – Podolsky – Rosen.

Einstein, apesar de já famoso e reconhecidamente genial, era visto como um “velho chato” pelos pares na época. Um dos motivos era que ele não aceitava a interpretação da física quântica, liderada por Niels Bohr, outro titã da época.

O artigo foi uma tentativa de dizer que havia furos na teoria. Ironicamente, o artigo mostrou sim as esquisitices da teoria, porém, ao mesmo tempo virou um dos pilares do novo conhecimento. Mais ou menos como os torcedores do Palmeiras, que eram ofendidos com o termo “porco” pelos rivais, e no final das contas assumiram o mesmo como hino de guerra, dessa forma neutralizando as ofensas.

Pela teoria, dois átomos (ou fótons, ou qualquer coisa que possa ser um qubit) podem ficar num estado “emaranhado”. Os spins dos dois fótons assumem uma coreografia: ou ambos ficam para cima, ou ambos para baixo – nunca vai haver situação em que um é visto para cima e outro para baixo. Entretanto, é impossível saber se o estado será medido para cima ou para baixo.

Sapatos do Paulo Guedes

É mais fácil pensar em termos de sapatos. O Paulo Guedes tem um sapato mágico, que fica aleatoriamente trocando de estados: ora é uma meia, ora é um sapato azul. Podemos medir, ou seja, podemos dar um clique e o sapato assume para sempre ser uma meia ou um sapato azul, para de mudar.

Normalmente, os pares do sapato são independentes. Um pode ser meia, outro pode ser um sapato azul, sem correlação.

Porém, quando os sapatos estão emaranhados, ambos os pares sempre ficam iguais: ou sempre meias ou sempre sapatos azuis.

É impossível saber em qual o estado vai ficar. Só é possível afirmar que os pares serão iguais.

O raciocínio do trio EPR foi o seguinte. Pego um par do sapato, mando para Júpiter. Pego o outro par do sapato, mando para Andrômeda, a anos-luz de distância.

Dou o clique para medir, e ambos os pares serão iguais.

Porém, aí está o paradoxo. Como um par de sapatos sabe o estado que o outro escolheu?

Se há troca de informação, ela teve que ocorrer à velocidade maior que a luz, o que é proibido pela Teoria da Relatividade. EPR sustentava que devia haver uma “variável oculta” que explicasse o fato, e a teoria estaria incompleta ou errada.

Einstein chamou o paradoxo de “Ação fantasmagórica à distância”.

Niels Bohr deu alguma explicação mal dada para o Paradoxo EPR, que ficou esquecido por anos. Até que um físico chamado John Bell bolou uma forma de testar se havia ou não uma variável oculta. Resultado: não há variável oculta.

Se não há variável oculta, como explicar que um par sabe o estado do outro? Os físicos inventaram um termo, “não-localidade”, para dizer que o local não importa para a física quântica – ou seja, empurraram a sujeira para baixo do tapete: é assim e pronto.

Como disse o grande físico Richard Feynman: “Posso afirmar que ninguém realmente entende a mecânica quântica. Quem afirma que entendeu é porque não entendeu nada”.

Ou, prefiro citar Shakespeare: “Há mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

Veja também

https://ideiasesquecidas.com/2020/04/24/a-fisica-de-avengers-endgame-parte-1/

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/29/sobre-atomos-e-vazio/

https://www.semanticscholar.org/paper/Quantum-mechanics-near-closed-timelike-lines.-Deutsch/8e993e3e9b0952198a51ed99c9c0af3a31f433df

https://www.scientificamerican.com/article/time-travel-simulation-resolves-grandfather-paradox/

https://www.theringer.com/movies/2019/5/3/18527776/marvel-avengers-endgame-time-travel-david-deutsch-proposition-scott-aaronson

https://www.sciencealert.com/avengers-endgame-uses-quantum-mechanics-to-explain-its-time-travel

https://www.symmetrymagazine.org/article/the-quest-to-test-quantum-entanglement

A física de Avengers Endgame – parte 1

O último filme dos Vingadores fala bastante de física quântica, e utiliza alguns termos que realmente existem: escala de Planck, paradoxo EPR, autovalores…

Não faz sentido discutir a acuracidade da física utilizada, num universo em que uma pessoa se transforma num gigante verde, outro fica do tamanho de uma formiga e um guaxinim é piloto de uma nave espacial. É apenas entretenimento…

E esta postagem é só uma desculpa para colocar a foto de Scarlet Johanson junto com um monte de fórmulas matemáticas, ou juntar Thanos e Einstein num mesmo post – é apenas lúdico.

Aviso: Contém spoilers do filme.

Faixa de Mobius invertida

Quando o Tony Start está procurando a solução para a viagem no tempo, ele manda o computador plotar uma faixa de Mobius invertida.

August Mobius foi um matemático nos anos 1800, que inventou a faixa.

A faixa de Mobius é bem simples de fazer. Basta pegar um pedaço de papel, torcer e colar as pontas.

Uma característica interessante é ela não ter dois lados. Se o Homem-Formiga começar a andar pela superfície, ela vai dar a volta e chegar no mesmo ponto de partida.

O grande pintor Maurice Escher descreveu bem a situação acima.

Uma faixa de Mobius invertida eu imagino que seja como inverter um saco plástico: o lado de dentro fica para fora e vice-versa. Seguindo essa lógica, a faixa de Mobius invertida vai ser exatamente igual à faixa de Mobius normal!

Talvez os autores quisessem usar a faixa para ilustrar que o tempo flui sempre para a frente, porém após um período infinitamente longo tudo retorna exatamente para o ponto de início. Estamos condenados a viver novamente cada segundo de nossas vidas, para sempre, num Eterno Retorno – ops, esse é o Nietzsche.

Autovalores

Numa conversa entre Tony Stark e Bruce Banner sobre viagem no tempo, eles citam autovalores (ou eigenvalues).

Autovalores e autovetores são matéria de álgebra linear I, ferramenta básica em qualquer área de exatas.

Hoje em dia, é bem trivial extrair autovalores de uma matriz. Utilizando numpy:

from numpy import linalg as LA

A =[[1, 0, 0],[0, 1, 0],[0, 0, 1]] #Matriz

LA.eig(A) #Extrai autovalores e autovetores

Resultado, a matriz identidade tem três autovalores iguais a 1, e três autovetores, [1 0 0], [0 1 0] e [0 0 1]. Ficou igual à matriz de entrada porque ela é a matriz identidade.

Autovalores e autovetores são soluções de inúmeras equações envolvendo matrizes. Então, não é muito errado eles utilizarem esta técnica para resolver alguma coisa (assim como decomposição espectral, também citada).

Escala de Planck

Numa cena em que o Homem-Formiga e outros Vingadores tentar convencer Tony Stark a embarcar na aventura, este responde algo assim: “a flutuação quântica bagunça a escala de Planck, e dispara a proposição de Deutsch”.

Homem formiga viajando no espaço quântico

Esta é uma bela homenagem a alguns homens de ferro da física moderna.

Max Planck, em torno dos anos 1900, foi quem começou a física quântica. Ele quantizou níveis de energia para conseguir entender um fenômeno físico inexplicável na época, a radiação do corpo negro.

O nome “corpo negro” não remete a buraco negro nem nada assim. É apenas a luz que um corpo emite quando aquecido. Digamos, quando colocamos carvão para churrasco, ou quando aquecemos uma barra de ferro a ponto de derretê-la, e ela fica avermelhada.

A constante de Planck é igual a 6,26*10^-34, e é a unidade mínima de energia, o quantum, o pacote mínimo possível. De forma parecida, há o tempo de Planck e o comprimento de Planck.

Sobre Deutsch e outro tema bem legal, o paradoxo EPR, fica para a parte 2, daqui a alguns dias.

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/29/sobre-atomos-e-vazio/

Winston Churchill: o Destino de uma nação.

Recomendação de filme: “O Destino de uma nação” retrata um período crítico (e põe crítico nisso) da história.

Em 1940, a Alemanha nazista de Hitler tinha conquistado quase toda a Europa continental. A imparável máquina de guerra alemã tinha invadido a França. Todo o exército britânico estava encurralado em Dunquerque (França).

A Inglaterra tinha duas opções: ou negociava a paz com Hitler, ou continuava a guerra. Durante a crise, Winston Churchill foi eleito primeiro-ministro.

Churchill era favorável a continuar a guerra. Ele recebeu uma quantidade enorme de críticas dos moderados e isentões, que falavam da quantidade de soldados e civis que perderiam a vida num confronto com a Alemanha. Ele quase foi derrubado do cargo, mas prevaleceu. Bateu no peito, assumiu a responsabilidade pelas vidas que seriam perdidas, e o Império Britânico continuou na guerra.

Era o correto a ser feito: matar o mal pela raiz.

O resgate de Dunquerque foi feito, utilizando cada tonelada de aço que tivesse condições de atravessar o Canal da Mancha. O filme termina neste ponto.

“O Destino de uma nação” está disponível na Amazon Prime Vídeo, entre outras plataformas.

Um pouco de história e digressão minha: A Inglaterra estava sozinha, na época. Toda a Europa continental tinha sido tomada: Polônia, Bélgica, França. A Itália de Mussolini era aliada de Hitler. EUA e Rússia não tinham entrado na guerra. A Alemanha tinha um pacto de não-agressão com a Rússia de Stálin.

Invasões alemães até 1940

Na época, não é exagero dizer que a Alemanha tinha vencido a guerra continental. Por isso, Hitler queria a paz com a Inglaterra. Há quem diga que Hitler poupou o exército britânico em Dunquerque, como um gesto para negociar a paz.

Se, ao invés de Churchill, alguém moderado estivesse no comando inglês, este teria feito as pazes com Hitler. A história seria muito diferente. Não haveria Segunda Guerra Mundial.

Com a paz no ocidente em 1940, Hitler ganharia vários meses ou anos para se preparar para a próxima guerra e consolidar o seu poder na Europa, nos territórios da França, Polônia, Bélgica e outros países europeus.

Poucos anos depois, Hitler invadiria a Rússia. Sem a pressão da guerra em duas frentes, provavelmente venceria a guerra, ou pelo menos anexaria boa parte da Rússia. Talvez a Alemanha coordenasse ações com o Japão, que atacaria a Rússia e não os EUA – assim, seria a Rússia a ter que defender duas frentes de ataque.

Se não fosse por Churchill, talvez tivéssemos o Terceiro Reich até os dias de hoje. Seria uma superpotência nazista.

A Inglaterra pagou o preço pela ousadia. Londres sofreu terríveis bombardeios pela força aérea nazista. O Império Britânico deixou de ser um Império. Após a entrada dos EUA e da Rússia, a maré virou, e os aliados venceram o eixo, livrando o mundo do nazismo de Hitler.

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/26/a-previsao-do-tempo-que-salvou-o-dia-d/

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/19/%e2%80%8b-o-destruidor-de-mundos/

Amazon Prime Video

Link do filme na Amazon: https://amzn.to/3aWCZHw

O filme Dunkirk é sobre o resgate dos soldados britânicos na França. https://amzn.to/3eg4eia

Moneyball e o 7 a 1 no futebol

Este texto tem duas partes: comentar um pouco do excelente Moneyball, aplicado no baseball, e como isto vem refletindo no futebol.

“Moneyball” é o nome de um livro (que virou filme, com o Brad Pitt) que narra a utilização de Analytics pelo time de baseball Oakland A.

O time, na temporada de 2002 da MLB (Major League Baseball), tinha um dos menores orçamentos da liga, e tinha perdido três jogadores importantes. O gerente geral do time, Billy Beane, resolveu apostar em algo diferente: bases de dados e estatística!

A sabedoria tradicional da época (e ainda hoje) contava com olheiros, que analisavam as métricas normais: número de batidas e velocidade. Eles também levaram em conta a altura, força física, e até fatores bastante subjetivos, como a namorada do jogador – segundo um dos olheiros, uma namorada feia indicaria pouca confiança!

Mais do que olhar para a performance passada, os olheiros tentavam adivinhar o potencial futuro: o que o jogador poderia se tornar.

Michael Lewis, o autor do livro, é um grande contador de histórias. Ele coloca flashbacks do passado do próprio Billy Beane quando jovem. Segundo os olheiros, Billy era o jogador ideal: alto, atlético e com todas as características para explodir no esporte. Beane estava em dúvida entre Stanford e uma carreira no baseball, escolhendo o último pelo dinheiro envolvido. Porém, Beane não foi bem sucedido quando jogador, ou pelo menos, não chegou ao potencial prometido pelos olheiros – daí surge a razão dele duvidar da sabedoria convencional.

Beane contratou um economista com ideias radicais sobre o baseball, Paul DePodesta (no filme, Peter Brand). Este se baseou nas ideias de Bill James, um esquisito (como todo gênio), que passou décadas coletando estatísticas de baseball e desenvolvendo teorias para correlacionar vitórias e derrotas com a performance dos jogadores.

Nota: Bill James fez, ele mesmo, uma série de coleta de dados detalhada de jogos de baseball. O maior gargalo do data analytics, inclusive em grande empresas, é o data, e não o analytics).

Uma das novas métricas propostas era quem conseguia alcançar as bases. Utilizando isso, a ideia do gerente Billy Beane foi contratar jogadores subvalorizados pelo viés dos olheiros.

Assim, vieram pessoas como o arremessador que lançava a bola de forma esquisita, mas efetiva. Um atleta gordinho, com boatos de que frequentava clube de striptease. Outro que tivera problemas e não conseguia lançar a bola.

Ocorreram reações, é claro. Olheiros com mais de 30 anos de vivência no esporte desacreditavam do método esotérico. Uma série de medidas importante nunca seriam quantificadas num modelo. O próprio técnico continuava montando a equipe conforme a sabedoria convencional. Derrotas se acumulavam.

Foram necessárias mais algumas mexidas e ajustes, que, finalmente, deram frutos. O Oakland alcançou uma série incrível de 20 vitórias seguidas e conseguiu chegar à fase eliminatória, na qual foi eliminado. Porém, foi uma performance impressionante, dado o orçamento minúsculo do time.

Billy Beane foi convidado a ir para um time maior, o Boston Red Sox, porém, recusou. O Red Sox, em anos posteriores, também utilizou a filosofia do Sabermetrics, e foi campeão.

É lógico que Analytics é uma pequena parte da equação. Há todo um trabalho imenso, na parte física, psicológica, técnica, para um time ser bem sucedido. Do momento Eureka de Billy Beane (que foi em 2002) até hoje (2020), há muita gente que ainda não acredita que o Sabermetrics faz alguma diferença.


E no futebol?

Baseball não faz parte do cotidiano do brasileiro. O futebol, sim. Ambos os esportes são cheio de tradição e paixões, análises subjetivas repletas de vieses, muito dinheiro e interesses envolvidos. Como a análise de dados evoluiu no futebol?

Cinco cases abaixo:

1) Uma abordagem exatamente similar à do Moneyball não parece ter dado certo. Há pelo menos um caso famoso, o do Alexandre Bourgeois, que chegou a ser CEO do São Paulo por alguns meses.

Alexandre chegou a desenvolver alguns modelos similares ao do Moneyball, e tentou vender para os clubes, sem sucesso.

Ele conta como a estrutura organizacional dos clubes é arcaica. Estes devem passar por uma profissionalização profunda antes. Nota-se também presença forte de empresários de jogadores.

2) Um case de sucesso famoso é o da seleção alemã de 2014, aquela mesma, do 7 a 1 em cima do Brasil.


A ferramenta desenvolvida permite checar desde a organização tática e a precisão de chutes até a posse de bola e a distribuição de passes. Também destaca-se a propaganda que o patrocinador do programa, a gigante de software SAP, fez em cima do sucesso do time.

3) Outro bom case é o do Liverpool. Faz alguns anos, este vem investindo pesado em analytics, culminando na conquista da Champions League de 2019. A análise maciça de dados inclui um mapa da posse de bola no campo e gráficos de passes.


4) Flamengo: o big data vem sendo utilizado, para analisar o desempenho dos jogadores nas partidas, e para preparar um plano de ação para recuperação destes.

5) Grêmio e Palmeiras: uma empresa de consultoria especializada em análise de dados para o futebol tem acessorado alguns clubes. O case diz que o jogo Grêmio x LDU, na Libertadores de 2016, teve uma ajudinha da análise. O histórico mostrou que o goleiro adversário tinha uma deficiência que poderia ser aproveitada. Ele não pegava bem pelo lado direito. Os jogadores foram informados disso, e dois dos três gols do Grêmio foram do lado direito do goleiro.

O data analytics no futebol já está sendo utilizado com graus variados de sucesso, porém, ainda engatinha. A grama está alta.

Análise de dados é somente uma parte pequena do todo. Contudo, jogos de alto nível costumam ser parelhos e podem ser decididos em um único lance. Uma ajudinha analítica pode fazer toda a diferença.


Links:

Seleção alemã: https://exame.abril.com.br/tecnologia/solucao-de-big-data-e-um-dos-segredos-da-alemanha-na-copa-2/

Flamengo: https://www.youtube.com/watch?v=flc6KrVjnDY

Liverpool: https://www.liverpool.com/liverpool-fc-news/features/liverpool-transfer-news-jurgen-klopp-17569689

São Paulo: https://universidadedofutebol.com.br/alexandre-bourgeois-ex-ceo-do-sao-paulo-fc/

Grêmio e Palmeiras: https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/06/empresa-de-analise-de-dados-conquista-palmeiras-e-gremio-e-lanca-time-de-futebol.html

Indústria Americana

Um documentário para este carnaval

“Indústria Americana”, vencedor do Oscar de melhor documentário, mostra o choque cultural entre chineses e americanos.

A história começa com uma fábrica da GM, em Ohio, que fecha as portas.
Anos depois, um grupo chinês instala uma fábrica de vidros automotivos, a Fuyao, nas instalações da GM. Com ela, vem a cultura do país oriental.

Um primeiro ponto é que o chinês comum trabalha longas horas, podendo ficar 10, 12 horas no expediente, com pouquíssimos feriados ao longo do ano. (nota: existe uma expressão na China, o “996”, significando que o chinês entra no trabalho às 9 da manhã, sai às 9 da noite, 6 dias por semana).

A empresa cobra empenho semelhante dos americanos, que claramente não acham justo uma carga dessas.

Um relato impressionante: um trabalhador chinês conta que veio aos EUA pela Fuyao, sem ganhar nenhum adicional no salário ou ajuda de custo extra. Ele vai ficar alguns anos longe da família, tudo isso pelo dever de estar servindo a companhia.

Uma cena ilustra como os chineses pensam: o gerente da fábrica, um americano, quer instalar um toldo, para a inauguração da fábrica. O presidente da empresa, chinês, diz: não coloque o toldo. O gerente retruca: Mas, e se chover? O presidente devolve: Não se preocupe. Não vai chover. (Um autêntico manda-chuva)

A empresa coloca metas muito fortes de produção, exigindo de todos um empenho além do normal para recuperar o investimento realizado (mais de 500 milhões de dólares). Comenta-se que os chineses querem produzir, ao custo de colocar em risco a qualidade do produto final.

Nota-se também pouco empenho em termos de segurança das pessoas. Numa das cenas, uma chinesa coleta cacos de vidro com as mãos nuas, sem a mínima proteção. Em outra cena, um chinês conta como o material é quente, e que ele tem cicatrizes em todo o corpo. Em outra, um americano conta como nunca tinha se acidentado no trabalho, até que aconteceu um acidente com ele, na Fuyao.

Em especial, há um foco na luta da Fuyao para os trabalhadores americanos não se sindicalizarem.

Na visão dos chineses, a fábrica toda é como um grande navio. Se o navio não for para frente, todos serão prejudicados, ocorrendo o fechamento da mesma (como a da GM).

Muitos funcionários, insatisfeitos com jornada pesada, salários baixos, riscos de segurança, se organizaram em pedir a sindicalização. Outros tinham medo de represálias e de não ter outra ocupação possível.

A Fuyao faz uma grande campanha para evitar o sindicato. Contratam uma consultoria americana, especializada em motivar os trabalhadores a não se sindicalizarem (esta consultoria custou US$ 1 MM). A empresa também passou a perseguir de forma indireta os maiores defensores do sindicato, demitindo-os. No final das contas, eles não se sindicalizam.

Indústria Americana está disponível na Netflix, e foi produzida pela empresa do casal Obama.