BibliOn, os Lusíadas e os deuses romanos

Estou testando o BibliOn, a biblioteca virtual de São Paulo, lançada há poucas semanas. Confira em https://www.biblion.org.br/.

É um aplicativo de celular que permite o empréstimo de e-books e audiobooks, após um cadastro. Podemos pegar emprestado um número finito de títulos por vez (dois, no momento), e ficar com este por 15 dias, após a qual, é devolvido automaticamente. Dá para pegar emprestado de novo, porém, respeitando uma fila – se outras pessoas já tiverem reservado, a prioridade é delas – como se fosse numa biblioteca com livros físicos.

É gratuito, afinal é uma biblioteca pública. Teoricamente é só para os moradores do estado de São Paulo. Não sei como ele faz essa verificação do local – talvez por IP? De qualquer forma, como moro em SP mesmo, estou dentro da norma.

Tem uma gama interessante de títulos, e em Português. Segundo o site, 15 mil livros. Em livro virtual, peguei “O fantástico mundo dos números”, de Ian Stewart, de matemática popular.

Sobre audiolivros, as opções são menores, uns 400 títulos. Peguei “Os Lusíadas – versão anotada”, como teste. O app funciona bem, está sendo uma boa experiência.

Tinha uma vaga lembrança dos Lusíadas. Estudei no segundo grau, e em época de vestibular. Como a gente é muito jovem nessa época, não tinha percebido alguns detalhes da obra, que quero explorar a seguir.

(Print da tela do app)

Algumas reflexões sobre os Lusíadas

“Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, é o épico português mais conhecido da história. Cheio de elementos míticos, como Dom Sebastião e o gigante Adamastor, canta sobre o desbravamento dos mares por Vasco da Gama e os bravos portugueses, o povo lusitano.

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Camões viveu por volta de 1500 e pouco, que também coincide com o momento da glória portuguesa nas grandes navegações.

Logo no início dos cantos, Camões cita um conselho de deuses do Olimpo, entre eles Júpiter, Vênus, Marte, Baco. Vênus toma partido dos portugueses, Baco, defensor do oriente, o oposto.

Ei, peraí. No ano 1500, a Europa toda é cristã. Ou muçulmana, no Oriente Médio. Esse negócio de deuses gregos e romanos já tinha acabado faz muito tempo. O imperador Constantino converteu o Império Romano ao cristianismo no ano 313 d.C. Ou seja, fazia mais de mil anos que ninguém dava bola para Júpiter, Netuno, Baco.

Mais uns capítulos para frente na obra, Camões cita que os portugueses foram recebidos em Moçambique pelos mouros. Apesar de cristãos, foram confundidos por muçulmanos até Baco induzir os nativos a descobrir a fé deles e os hostilizar.

Que salada. Mistura cristãos, muçulmanos, e a antiga fé pagã, greco-romana. Por que Camões faria isso?

Uma interpretação bastante utilizada é que Camões vivia o Renascimento na Europa, onde estava na moda resgatar os antigos valores clássicos greco-romanos. Além disso, os Lusíadas foi fortemente influenciado pelos antigos clássicos homéricos. Na Ilíada, alguns dos deuses, como Atena, ficam do lado dos gregos, outros como Ares tomam o partido dos troianos. Na Odisseia, que também é um épico de viagem marítima, a deusa Atena ajuda Ulisses, ao passo que Posseidon quer se vingar do herói, por ele ter cegado seu filho – o Cíclope.

A diferença é que, na época em que a Ilíada e Odisseia ocorreram (estima-se uns 700 a.C.), os deuses citados eram realmente deuses das crenças dos gregos, enquanto religiões como o cristianismo nem existiam.

Em resumo, imagine que os Lusíadas é um épico como a Ilíada, mas com portugueses como protagonistas e 2000 anos depois, e está tudo certo.

A história de Portugal e Inês de Castro

O canto prossegue, cantando sobre a história gloriosa de Portugal: reis antigos, feitos que ficaram na história, etc.

Achei muito interessante a história de Inês de Castro, que mistura romance, traição, horror e morte. Lembrava de ter vagamente ouvido sobre isso na época do vestibular, mas não dos detalhes.

O infante Pedro I era o princípe herdeiro de Portugal, e estava casado com Dona Constança. A Inês de Castro era de uma família nobre, e era dama de honra de Dona Constança. Só que Pedro gostava mesmo era da Inês, ao invés de sua esposa oficial, e todo mundo sabia que ele se encontrava com ela às escondidas.

Quando a esposa oficial, D. Constança, faleceu no parto do futuro rei D. Fernando I, o infante Pedro aproveitou a chance para se juntar com Inês de Castro, para desgosto do pai de Pedro, Dom Afonso IV, que não gostava da relação.

D. Afonso tentou casar Pedro, que rejeitava as propostas, enquanto Inês continuava a gerar filhos de Pedro (foram 4). Isso criava um problema futuro de sucessão – será que os filhos bastardos não poderiam tentar usurpar o trono do herdeiro oficial, no futuro? Game of Thrones total.

O rei D. Afonso tentou remediar a situação executando Inês de Castro, numa ocasião em que Pedro estava em viagem.

Obviamente, Pedro não gostou nada, e foram meses de conflito até tudo voltar mais ou menos à normalidade.

Alguns anos depois, em 1357, Pedro se tornou rei de Portugal. A primeira coisa que fez foi perseguir quem ajudou a executar sua amada Inês – mandou arrancar o coração dos algozes, enquanto ele assistia. Depois, mandou exumar o corpo de Inês, a vestiu como a sua rainha e fez o rito completo de coroação dela. Imagine uma grande festa, com um cadáver sentado na cadeira ao lado do rei, e com os convidados tendo que beijar a mão da rainha já falecida há anos. Daria um bom filme na Netflix.

Até hoje, utilizamos a expressão “agora Inês é morta”, para indicar que já foi, não adianta mais.

Os Lusíadas é o mais conhecido poema da literatura portuguesa, uma obra fantástica para ler e extremamente bela e inspiradora. Vale a pena ler e reler.

“Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.”

BibliOn: https://www.biblion.org.br/

O texto integral pode ser baixado em:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000162.pdf

Veja também:

http://www.dominiopublico.gov.br

https://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro

https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Lus%C3%ADadas

E-Book “O Índice X-Men de Inflação”

Segue o link para o E-Book “O Índice X-Men de Inflação”.

Senti na pele o dragão da hiperinflação e planos econômicos desastrados dos anos 80 e 90. Parte desse efeito foi refletido na capa da revista dos X-Men, sendo possível criar uma espécie de Índice X-Men de inflação.

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Este é um dos posts que mais gosto. Como uma postagem de blog tem uma natureza mais efêmera que um e-book, creio que este conteúdo mereça esse destaque.

Para os que se aventurarem, boa leitura!

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