Contos de Esopo sobre cabeça nas estrelas, especialistas e trabalho

1) Um astrônomo era fascinado pelas estrelas, e vivia mirando o céu. Um dia, estava tão absorto em sua busca, que tropeçou e caiu num poço profundo. Ele ficou três dias pedindo socorro até ser resgatado.

Moral da história: Cabeça nas estrelas, pés no chão.

2) Um grande ilusionista fingia ter um porco debaixo de um pano. Ele grunhia e mexia o pano, imitando um porco. Será que havia mesmo um animal ali? No final da apresentação, ele mostrava que não havia nada debaixo do pano, e saía aplaudido.

Um matuto, vendo aquilo, resolveu imitar o grande ilusionista. No show seguinte, após a apresentação do mesmo, ele subiu ao palco para mostrar a mesma peça e se comparar ao mágico. Porém, desde o início, as suas roupas de caipira provocaram desprezo da plateia. Ele também fingia ter um porco debaixo de um pano, e ao apertar o pano, saía um grunhido.

  • Que peça horrível. Imitação péssima. O grunhido do mágico de verdade foi muito mais real – comentava a multidão.

Daí, ao levantar o pano, o caipira mostrou a realidade: havia um porco de verdade ali, responsável pelos grunhidos!

Moral da história 1: Há especialistas que nada entendem.

Moral da história 2: A narrativa é mais importante do que a realidade.

3) Um homem preguiçoso orava ao deus Hércules, todas as manhãs, pedindo bens e dinheiro. No resto do dia, ele nada mais fazia a não ser ficar parado, dormindo. Numa dessas, o deus Hércules apareceu em seu sonho.

O homem aproveitou para perguntar:

  • Hércules? Vai finalmente me ajudar?

Ao qual o deus respondeu:

  • Eu não consigo ajudar a quem não se ajuda.

Moral da história: Deus ajuda quem cedo madruga.

4) Um sapo muito metido se achava o maioria em tudo o que fazia. Um sapinho adolescente o desafiou a inflar e ficar maior do que os animais que passassem por ali. O sapão aceitou o desafio, e inflou mais do que qualquer outro sapo que apareceu. Porém, um boi foi beber água no rio. O sapo, então, inflou, inflou o máximo que pôde, mas ainda assim era muito menor que o boi. Insistindo, ele inflou, inflou mais ainda, até que, enfim, explodiu para todos os lados…

Moral da história: não tente ser maior do que os outros, seja você mesmo.

Trilha sonora: La vie en rose – Louis Armstrong
https://www.youtube.com/watch?v=8IJzYAda1wA

Veja também:

O político Paulo Papagaio e o técnico Anderson Andorinha

Era dia difícil na Aves S.A., uma grande empresa nacional. Anderson Andorinha estava sendo demitido por Paulo Papagaio. A causa não era performance ou mau comportamento, mas sim, que a companhia estava passando por maus bocados, sendo superada pela concorrência.

Paulo Papagaio e Anderson Andorinha tinham mais ou menos a mesma idade e formação acadêmica, porém, habilidades completamente distintas.

Paulo Papagaio era pomposo. Falava bem, comunicava-se com estilo com diretoria e outros gerentes. Adorava apresentações em PPT, tanto para o pessoal interno quanto para fora. Conhecia todos os chavões modernos do mundo do negócio: agile, scrum, squads, alavancas de desempenho, KPI, OKR, EBITDA, AI, inovação, design thinking, MVP, POC, ERP, VUCA, CEO, CIO, CTO, COO e mais uma infinidades de siglas do tipo, dá até para jogar bingo.

Além disso, era político, extremamente político. Falava o que os outros queriam ouvir. Concordava com tudo o que a chefia falava, acrescentando algum chavão citado acima e prometendo resultados. Além de falar sem parar, ele vestia-se de forma impecável, sempre seguindo a tendência da moda. Também adorava participar de festinhas e comemorações, onde, invariavelmente, pedia a palavra para despejar sobre os convidados algum discurso verborrágico sobre o excelente desempenho dele.

Devido às características acima, Paulo Papagaio era gerente de departamento, sendo Anderson Andorinha um dos seus técnicos.

Já Anderson Andorinha era quieto e efetivo. Era tímido, não gostava tanto de holofotes nem dominava o PPT, mas ele quem, no final das contas, carregava o piano: fazer acontecer o trabalho prometido pelo Papagaio. Era humilde, ele até comentava que sua participação era pequena nos projetos que executava. Era muito técnico, sempre procurando algum curso complementar no começo do ano e participando de fóruns especialistas. Porém, era zero político: quando algum plano extravagante não tinha chance de dar certo, ele simplesmente pedia a palavra e elencava os riscos e dificuldades envolvidos, de forma concisa e direta – normalmente, era interrompido pelo Paulo Papagaio.

A Aves S.A. tinha crescido nos últimos anos, de modo que as camadas gerenciais tinham aumentado. Como sempre acontece nesses casos, a relação entre causa e efeito torna-se mais difusa, e habilidades como comunicação e política tornam-se mais relevantes em níveis gerenciais. Dessa forma, tanto Paulo Papagaio tinha ganhado mais atuação, quanto a empresa começou a contratar mais papagaios para cobrir as demandas crescentes: mais escopo, mais eficiência, mais indicadores, mais resultados.

Entretanto, Anderson Andorinha estava sobrecarregado, pois o número de andorinhas tinha aumentado pouco.

A empresa entrou numa espiral de grandes expectativas e resultados decrescentes, de forma que uma consultoria (das “Big”), veio fazer um diagnóstico, e conclui que deveriam cortar as pessoas menos relevantes para a empresa.

Ora, segundo a alta gerência, Paulo Papagaio era essencial – conhecia tudo, entendia as pessoas e gerenciava bem, então era essencial. Já Anderson Andorinha, ninguém sabia bem o que ele fazia exatamente, era apenas uma pecinha na máquina corporativa, portanto, altamente dispensável.

Aqui, voltamos ao início do texto, com Anderson Andorinha arrumando suas coisas e saindo da Aves S.A.

Porém, para Anderson Andorinha, foi até melhor, foi um “cair para cima”. Utilizando seu elevado conhecimento técnico e também com os contatos que realmente entendiam e reconheciam o seu trabalho, ele rapidamente conseguiu colocação numa empresa concorrente, menor e mais focada, a “Passarinhos Ltda”.

Não por coincidência, a Passarinhos Ltda. era uma das concorrentes que tinham ganhado enorme market share em cima da Aves S.A., devido à enorme eficiência de sua operação e qualidade de entregas.

No lugar de Anderson, Paulo Papagaio contratou um estagiário, muito mais barato. Por desconhecimento do processo, o estagiário deixou passar inúmeros erros, que se refletiram em problemas em etapas posteriores do processo (mas o Papagaio dizia que era culpa das outras áreas). Além disso, o estagiário saiu 6 meses depois, para uma vaga melhor, e outro estagiário veio cobrir a posição.

A espiral continuou por vários anos, com a Passarinhos Ltda. aumentando as suas andorinhas, e a Aves S. A. vivendo sua ilusão corporativa, colocando mais papagaios para dizer como deveriam operar.

Anderson Andorinha foi promovido na Passarinhos Ltda, sendo gerente técnico de outros como ele.

Paulo Papagaio acabou demitido da Aves S. A., após rodadas subsequentes de cortes de custo. Hoje ele ocupa posição mais humilde, numa loja de roupas do varejo.

Segundo a assessoria de imprensa, a Aves S.A. continua uma empresa de altos resultados e dos sonhos para trabalhar. Na prática, na análise fria dos números, é a concorrente, a Passarinhos Ltda., que tem resultados que saltam aos olhos, enorme eficiência operacional e efetividade na entrega.

Vide também:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com

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