Que língua estrangeira devo aprender?

Após a série de posts sobre a China, várias pessoas me perguntaram se estudar o mandarim seria uma boa estratégia para a carreira.

 

A resposta é: depende.

 

Há tantas outras línguas estrangeiras a dominar, como o inglês, espanhol, alemão, japonês. O gargalo é o tempo e recursos, não dá para aprender tudo. E o mito de que algumas línguas são mais fáceis do que outras não é verdade. Não é só saber a língua, é entender a cultura, a história e costumes, o que consome muito tempo.

 

Além disso, há outro custo, um custo mais alto do que o dinheiro, que é o custo de oportunidade: poderíamos estar estudando outra coisa mais importante, digamos finanças, projetos, certificações, linguagens de programação, passar mais tempo em casa com a família, etc – tudo concorre com o nosso recurso mais escasso, o tempo.

 
Para ajudar a responder a tal questão, seguem alguns modelos de pensamento.

 

Imagine que temos as habilidade principais (core competence), e todas as habilidades auxiliares (diferenciais).

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O core é aquilo em que somos realmente bons, que gostamos muito, e que têm valor para o mercado.

 

O core tem que ser profundo, focado. O limite é a nossa própria capacidade de tempo, esforço e inteligência.

 

Já as habilidades auxiliares são todas habilidades que ajudam, porém não são essenciais para o nosso core. Seria algo mais amplo e superficial, digamos, saber opinar sobre política e economia geral de determinado assunto.

 
É algo como o modelo atômico, um núcleo duro, pequeno, pesado, e órbitas enormes, dispersas, leves. E, assim como no modelo atômico, podemos ter várias camadas, habilidades diferenciais mais importantes do que outras.

 

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Saber a língua por saber não leva a nada. Há 1,5 bilhões de pessoas que sabem falar mandarim. Já dominar um assunto altamente especializado, digamos novos algoritmos de inteligência artificial, é algo que pouquíssimas pessoas conseguem. Se, além do core em inteligência artificial, soubemos inglês, é um diferencial a mais, esta é a ideia.

 
O inglês é muito mais importante do que o mandarim, no contexto em que vivemos no Brasil. O inglês estaria no nível 1, e o mandarim, no nível 2, ou seja, se você não domina o inglês, deve começar por este. Se já se vira bem em inglês, gosta da cultura chinesa e planeja fazer negócios por lá, aí sim faz sentido pensar no mandarim.

 
Este modelo atômico consiste em preencher as colunas de competências core, auxiliares níveis 1 e 2, e com isto saber identificar gaps e alocar os nossos escassos recursos.

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Outro conceito importante é o de possível adjacente, proposto pelo pesquisador de inovação Stuart Kauffman. Ele estudou toda a história da inovação, e chegou à conclusão de que podemos apenas dar um passo por vez. Tentar dar passos maiores do que a perna não vai dar certo.

 

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Para fechar, uma frase popular que sintetiza o possível adjacente:

“Cabeça nos céus e pés no chão.”

 

 

 

Resumos e Reviews

Dica de produtividade.

Na Amazon.com (e também em outras livrarias on line), há a seção de “Reviews” dos leitores. Muitas vezes, há excelentes resumos, opiniões e recomendações dentro destes reviews.

Por exemplo, um livro como “On China”, de Henry Kissiger, tem mais de 500 páginas. Ler os reviews pode dar uma visão geral sobre os temas mais importantes, assim como alguns dados interessantes. Combinando isto com uma leitura dinâmica, é possível entender o livro em poucos dias.

Por exemplo, de relance dá para aprender que a China tinha 25% do PIB mundial em1500, 30% em 1800 e apenas 4% em 1950 (ultrapassado pelas potências europeias e americana). Que a cultura deles tem forte influência do confucionismo – padrão de conduta e coesão social. Sun Tzu – manobras indiretas- colocar bárbaros para lutar com bárbaros. Medo de desordem social por conta de história recente de sofrimentos.

Por fim, é importante formar o hábito de ler sempre em inglês, tanto o livro quanto os reviews. Inglês ou outra língua que se queira aprender.

Reviews

Arnaldo Gunzi.

Confucionismo, tradições e capitalismo

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Na China (e no Japão), toda a cultura é fortemente influenciada pelo confucionismo. E isto chega a dificultar uma das facetas mais importantes do capitalismo, a inovação. Como?

Confúcio foi um pensador chinês, que viveu há 2500 anos atrás. O seu ensinamento tem dois alicerces: pensar no coletivo, ao invés de pensar no individual, e respeitar os mais velhos, os mais experientes.

Diversas dinastias imperiais chinesas adotaram o confucionismo como filosofia a ser seguida. Em concursos públicos da China antiga, o confucionismo era das umas matérias obrigatórias. Trabalhar para o governo era uma das poucas oportunidades de ascenção social dos povos antigos da China.

Muita tradição confucionista persiste até hoje.

Exemplo: na China, o irmão do seu pai não é apenas um “tio”. Lá, depende se é o irmão mais velho do seu pai – “bobo” – ou o irmão mais novo do seu pai – “shushu”. A irmã mais velha de sua mãe é “jiujiu”, e a irmã mais nova é “ayi”. O seu irmão mais velho é chamado de “gege”, enquanto a sua irmã mais velha é chamada de “meimei”. Seu irmão mais novo é chamado de “didi”, e sua irmã mais nova é chamada de “jiejie”. O seu avô materno é chamado de “waigong” e a avó materna de “waipo”. O avô paterno é chamado de “yeye” e a avó paterna é chamada de “nainai”. No Japão, é mais ou menos igual, monte de nomes para tudo quanto é parente.

Qual a lógica desta loucura de nomes? Conforme disse anteriormente, uma das bases do confucionismo é respeitar os mais velhos. As pessoas têm uma hierarquia de idade, por isso você deve respeitar seu irmão mais velho – “Gege”, enquanto seu irmão mais novo – “Didi” – deve te respeitar. O filho homem mais velho é o mais importante de todos, porque é ele que tem a missão de liderar o resto dos irmãos e cuidar dos pais quando velhos. Ao irmão mais velho são dadas as maiores oportunidades, como chance de estudar (mesmo se este não tiver a menor aptidão). O homem tem posição mais privilegiada que a mulher, então o avô paterno tem mais hierarquia que o avô materno, e assim sucessivamente.

Numa empresa, o confucionismo também influencia. O funcionário mais velho é um veterano, que deve ser respeitado pelos calouros. O gerente tem posição mais elevada que os operários, então estes devem acatar o que o for comandado. Tudo muito mais hierarquizado e rígido que no ocidente.

Acontece que a natureza não dá a mínima bola para este conceito de hierarquia por idade. Não é porque um irmão é alguns anos mais velho que o outro que ele vai estar sempre correto. A soma de todas as inúmeras variáveis que compõe o desenvolvimento do ser humano é que determinam quem está correto, quem é mais efetivo, quem obtém sucesso. No ocidente em geral, se o quinto irmão tiver uma cabeça boa, é a ele que devem ser dadas as oportunidades de estudar. Se o funcionário veterano é pouco efetivo, ele que seja ultrapassado pelo novato.

O conceito de inovação está muito ligada ao conceito de “destruição criativa” termo popularizado pelo economista Joseph Schumpeter. Criar algo passa pela destruição do que se tinha anteriormente. É o processo de constante mudança econômica, destruindo o antigo e substituindo pelo novo.

Numa empresa chinesa, ou japonesa, é difícil atacar o status quo. É difícil alguém dizer que o seu pai está errado, que o seu irmão mais velho não sabe nada (principalmente se o contestador for uma mulher), que o gerente deveria tomar outros rumos, que o veterano está atrapalhando a empresa. E, sem contestação e destruição do antigo, não há o novo.

O confucionismo pode ter sido muito bom para algumas coisas, como o bem estar dos idosos, mas, em termos de estímulo à inovação, o que conta é o contrário: a destruição das ideias atuais e a constante mudança de ideias.

Castelo de Ouro

Na época da China dos Três Reinos, havia um lorde de guerra chamado Dong Zhuo, que acabou dominando militarmente todo o país.

O imperador era um mero fantoche, pois o lorde exercia todo o poder de fato. Mandava e desmandava. Era tirânico e cruel para com a população, e executava sumariamente quem resistia, se opunha ou simplesmente o desagradava.

O lorde mandou construir um castelo magnífico, maior que o do imperador. Era todo coberto de ouro e prata.

O castelo tinha área enorme, com inúmeros aposentos dos mais diversos tipos. Tinha cofres com várias toneladas de ouro e inúmeros tesouros de outras terras: joias, tapetes, vasos, estátuas. Tinha serviçais aos milhares. Tinha 800 concubinas para servir o lorde. O castelo tinha um estoque de grãos para 20 anos, a fim de suportar uma guerra.

Nem se você ganhasse na mega sena em todas as semanas seguintes da sua vida seria possível acumular tanta riqueza.

E o que aconteceu com Dong Zhuo, anos depois? Foi traído e apunhalado por um dos seus subordinados mais leais, considerado um filho adotivo.

No final das contas, o lorde não usou um milionésimo do seu tesouro, não teve um amigo verdadeiro sequer entre os milhares de bajuladores à sua volta, não paquerou de verdade nenhuma de suas concubinas, não precisou de 20 anos de rações estocadas, não foi amado pelo próprio filho. Não viveu em seu castelo de ouro, mas num castelo construído e destruído por intrigas, assassinatos e traições.

Crise = Ameaça + Oportunidade?

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É comum, em tudo quanto é MBA, dizer que a palavra para crise é formada pela junção das palavras para “Ameaça” e “oportunidade”.

Ou seja, a crise representa uma ameaça. Mas ao mesmo tempo, é uma excelente oportunidade.

Mas será que os chineses pensavam assim mesmo?

Na verdade, não. A palavra para crise, é pronunciada como weiji.

 危机 – wei ji

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Idiota em chinês

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Idiota em chinês se escreve como
痴 chī

O radical de fora quer dizer “doente”:

E o ideograma de dentro significa “saber”, “conhecer”:

Portanto o idiota é aquele que está com o saber doente, aquele que está ruim do saber.