O que é “Antifrágil”?

Tenho visto o uso do termo “antifrágil” por aí. Ainda são poucas as pessoas que a usam, porém, a frequência vem aumentando, o que é legal. O único problema é que a conotação está completamente errada…

Em termos simples, “Antifrágil” é o contrário de “frágil”.

Mas o contrário de “frágil” não é “robusto”? Ou “resiliente”, algo assim?

Não, porque os termos “robusto” ou “resiliente” denotam algo que resiste, sem melhorar ou piorar. O Antifrágil melhora ante a estresses, dentro de um certo limite.

  • Quando algo é frágil, ele quebra, há um impacto negativo.
  • Quando algo é robusto, ele não quebra, o impacto é nulo.
  • E quando algo fica mais forte quando atacado? Este é o antifrágil, o oposto exato do frágil.

O termo Antifrágil foi criado pelo pensador libanês Nassim Taleb, autor dos livros “A lógica do Cisne Negro”, “Antifrágil – coisas que se beneficiam com o caos” e “Pele no Jogo”.


Qual a interpretação errada?

Muita gente está utilizando antifrágil como um termo de autoajuda, e isto está errado, muito errado.

Exemplo: você deve ser antifrágil, ficar mais forte a cada pancada que recebe. Sua empresa deve aprender a ser antifrágil, crescer quando todo mundo está na crise…

Só que este tipo de frase vazia não representa o conceito real por trás do termo. Se o Mike Tyson vier me bater, eu não vou ficar mais forte, e sim parar no hospital…

A ideia principal da antifragilidade é a exposição a riscos. Por um lado, proteger-se de riscos catastróficos, e por outro, expor-se a riscos positivos, que geram um impacto benéfico. Acima de tudo, assumir as consequências dos riscos assumidos.

Cisnes Negros

Um Cisne Negro é um evento de baixíssima probabilidade, porém, impacto devastador. Os Cisnes Negros são o tema central dos trabalhos de Nassim Taleb, que argumenta que estes são subestimados pelo ser humano. Não há modelo matemático que consiga prever um Cisne Negro, por eles serem tão raros – como tirar informação da onde não existe?

Um Cisne Negro é uma não-linearidade. Um atentado de 11 de setembro, uma crise mundial de 2008, um rompimento de barragem (no caso do BR, dois) – algo que muda fortemente a direção da história.

Taleb argumenta que o mundo atual está cada vez mais propenso ao surgimento de Cisnes Negros. O mundo tem empresas cada vez maiores, com foco em otimização a curto prazo. Essas otimizações reduzem as instabilidades pequenas, porém aumentam o risco de uma grande instabilidade (quanto mais alto, maior a queda).

Um elefante é toneladas maior do que formigas, porém experimente jogar um elefante do primeiro andar de um prédio. Ele vai quebrar a perna. Em termos evolutivos, o elefante está muito mais propenso à extinção do que as formigas.

Too big to fail

Taleb faz duras críticas ao sistema financeiro, que cria bancos e outras instituições “too big to fail”. Elas cresceram consolidando bancos menores, são otimizadas para gerar ganho atrás de ganho, varrendo para debaixo do tapete os riscos. Enquanto dá tudo certo, os executivos recebem bônus milionários. Quando ocorre algum problema grande, e todos os riscos ocultos vêm à tona cobrando o seu preço com juros e correção monetária, eles gritam “foi um Cisne Negro” e passam a conta para o Estado pagar. São antifrágeis à custa dos outros – à custa dos pagadores de impostos, de toda a grande massa de pessoas mais pobres, de todos nós.

Por outro lado, em sistemas orgânicos, o caos controlado e pequenos estresses geram o efeito da via negativa. Os muitos erros têm o efeito de eliminar do sistema os bancos e instituições que não sabem controlar os seus riscos, ao invés de bonificá-los pelo arranjo atual. O sistema não aprende acertando, e sim, eliminando. A evolução se dá por agressiva tentativa e erro, sendo o erro o aprendizado.

Os empreendedores são os heróis ocultos da nação. São os que passam anos tendo rendimento muito abaixo da média para, talvez um dia, alguns poucos conseguirem sucesso. A grande maioria fracassa, sentindo os efeitos na própria pele, sendo eliminados no cenário econômico e esquecidos para sempre nos anais da história.

Note a assimetria. O empreendedor individual é frágil, podendo facilmente fracassar, entretanto, o sistema como um todo aprende, torna-se antifrágil com o sacrifício destes. Já no caso dos bancos “too big to fail”, a instituição é invulnerável, às custas do sistema como um todo ser frágil.

Conclusão

A antifragilidade não é uma frase de motivação. Muito pelo contrário. É um convite a abraçar o caos, a empreender, é um convite ao sacrifício de arriscar e assumir as consequências dos erros na própria pele.


Veja também:

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/administracao/antifragil-42272607

https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/25/cisnes-negros-e-gestao-de-riscos/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/02/%e2%80%8bskin-in-the-game-pele-no-jogo-de-nassim-taleb/

O “intelectual idiota”

Destaco, a seguir, um trecho resumido do livro “Skin in the Game”, do pensador libanês Nassim Taleb. É extremamente válido no contexto político e mundial em que vivemos.

 

skinGame
O intelectual idiota
O que estamos vendo no mundo todo, da Índia ao Reino Unido e aos EUA, é a rebelião contra os que não-tem-a-pele-no-jogo, contra jornalistas e semi-intelectuais que querem ditar ao resto do mundo 1) o que fazer 2) o que comer 3) como falar 4) como pensar… e 5) como votar.
Esses membros da “inteligentsia” não conseguem achar um coco na ilha dos Cocos. Não são inteligentes o suficiente para definir inteligência, portanto caem em circularidades – sua principal habilidade é passar em exames escritos por outros como eles.
O intelectual idiota critica outros por fazer coisas que ele não entende, sem se dar conta que é o seu próprio entendimento do mundo que é limitado. Ele acha que sabe o melhor jeito com que as pessoas devem agir. Quando os plebeus fazem algo que faz sentido para ele, é “democracia”, e quando esses ousam votar num modo que contradizem sua preferência, é “populismo”.

 

Ele fala de “igualdade de raças” e “igualdade econômica”, mas nunca saiu para beber com alguém da minoria, como um motorista de táxi aleatório (de novo, não tem a pele no jogo de verdade). A pobreza é um conceito abstrato para ele.
O intelectual idiota é um produto da modernidade. Isto tem se acelerado desde a metade do século vinte, até atingir hoje o máximo local, junto com a extensa categoria de pessoas sem-a-pele-no-jogo que têm invadido muitos aspectos da vida. Por quê? Simplesmente, na maioria dos países, o papel do governo é entre cinco e dez vezes o que era um século atrás.

 

O intelectual idiota parece ubíquo hoje em nossas vidas, mas ainda é uma pequena minoria e é raramente visto fora de grupos especializados, think tanks, a mídia, e universidades – a grande maioria das pessoas tem um emprego de verdade e nestes não há vagas para intelectuais idiotas.
O intelectual idiota entende a lógica de primeira ordem corretamente, porém não os efeitos de segunda ordem ou maior, mas acha que entende a complexidade do mundo real. Do conforto de sua casa com 2 vagas na garagem nos Estados Unidos, ele advoga pela “remoção” de Kadafi porque “ele é um ditador”, sem entender que isto traz consequências (alguém pior que ele pode assumir). De novo, sem a pele no jogo, ele não paga pelo resultado.
(O capítulo foi escrito antes da eleição nos EUA, e este postscript foi adicionado depois). A eleição de Trump foi tão absurda para eles, não encaixava em sua visão de mundo por uma margem tão larga, que eles falharam em encontrar instruções de como reagir em seus manuais.

 

Vide original em:
https://medium.com/incerto/the-intellectual-yet-idiot-13211e2d0577
Notas:

Imagino que a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil tenha o mesmo efeito nos nossos intelectuais idiotas…

 

A versão em português deste livro foi lançada no Brasil pouco tempo atrás, mas como eu já tinha o ebook em inglês faz muitos meses, esta é a minha tradução livre do original.

 

Exemplo: o livro traduz “intectual yet idiota” como “intelectual porém idiota”. Prefiro a minha tradução, mais direta: “intelectual idiota”.

 

 

​Recomendações de livros para recém-formados

Após o post anterior, várias pessoas (como o meu amigo Marco Lima) vêm pedindo para eu colocar as minhas recomendações de livros para pessoas em início de carreira. São livros introdutórios, mas certamente servem para profissionais já bem estabelecidos também.

Também são muitos livros, mas tentarei dividir em áreas de interesse.

Aviso: gosto muito da recomendação do prof. Kokei Uehara.

São 4 fases de um profissional: o técnico, o administrador, o economista e o filósofo. Na primeira década após formado, o profissional deve dedicar-se à parte técnica, dominar muito bem o seu ramo de atividade, seja engenharia, contabilidade, o que for.

Portanto, nesta primeira fase, deve-se procurar especialização em áreas de interesse, continuar a estudar academicamente, montar as suas fundações.

A segunda fase é o do administrador. O profissional já tem domínio suficiente do que faz, e começa a administrar outras tantas pessoas. Também é uma fase em que deve-se abrir a cabeça para muitos outros assuntos além de sua área de atuação.

A terceira fase é a do economista. Compreender a relação causa-efeito do que acontece no mundo, escassez de recursos, compreender as fundações do sistema.

A quarta fase é a do filósofo. Uma vez que se sabe as fundações do sistema, podemos começar a questionar as mesmas. O mundo não é tão compreensível assim, a ciência não responde todas as perguntas, os prós e contras das religiões. É necessário ter uma boa vivência para realmente compreender a essência das ideias discutidas neste tópico. É o ápice e também o declínio, porque é onde descobrimos que há respostas mas estas não são absolutas, que podemos tentar muito mas mesmo assim nunca vamos descobrir tudo.


Administração

1 – Peter Drucker – Introdução à Administração

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O meu autor preferido na área de administração é Peter Drucker. Autor austríaco do início dos anos 1900, começou como economista, mas naquela época, com o surgimento da linha de produção em lugares como a Ford e a GM, estava sendo necessário um outro tipo de conhecimento: a Administração. A diferença é que a administração é mais humana, trata de temas como liderança, administração de pessoas, eficácia versus efetividade.

Ele criou o termo “trabalhador do conhecimento”: não o operador de macacão azul que trabalha na linha de montagem, mas aquele responsável por pensar, gerenciar outras pessoas, responder as respostas corretas e estudar até o fim da vida.

A Introdução à Administração é uma versão resumida da obra máxima de Drucker, “Management, Tasks, Responsabilities, Practices”, de leitura fácil e com ideias que já utilizei diversas vezes e utilizo até hoje.

2 – Peter Drucker – O Gestor Eficaz

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Um livro direto, rápido, com muitas recomendações para que um executivo seja eficaz. Note que o título é “eficaz” e não “eficiente”.

Eficiente é fazer muito bem alguma coisa. Por exemplo, digitar sem erros é ser eficiente.

Mas a eficiência não serve para nada sem a eficácia – que significa saber o que deve ser feito. Melhor digitar com erros, mas saber qual a mensagem a ser escrita, do que digitar sem erros uma mensagem inútil.


História

3 – Sapiens, uma breve história da humanidade

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O livro de Yuval Harari conta a história do ser humano desde a pré-história até os dias de hoje. Livro muito bem escrito, que prende a atenção. Inclui muitos conceitos e teorias bastante interessantes. Um exemplo é a mega-fauna (tatus gigantes, preguiças gigantes) que foi extinta com a chegada do homem moderno. Outro exemplo: o politeísmo surgiu naturalmente como uma explicação dos fenômenos do mundo (deus do trovão, deus do Sol), mas foi suplantado pelo monoteísmo. Um fator que contribuiu é que os monoteístas são muito mais fanáticos que os politeístas, pela própria natureza da crença de que há um e apenas um deus correto, os demais são heresia. Conclusão: é um livro rico em ideias e teorias.

4 – Guns, Germs, and Steel

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O trabalho de Jared Diamond tenta responder a uma pergunta. Por que as potências ocidentais são tão ricas? A teoria dele é que as pessoas são iguais, porém a geografia fez uma enorme diferença. A agricultura permitiu ao ser humano sustentar uma população cada vez maior. Entretanto, de milhares de espécies de plantas da natureza, apenas uma dúzia delas é domesticável: trigo, milho, soja, laranja, etc. Quanto aos animais, a mesma coisa, somente alguns são domesticáveis e têm valor comercial: vaca, carneiro, cavalo, etc. A seleção artificial do ser humano vem aumentando a produtividade, os melhores morangos são selecionados, os carneiros mais dóceis sobrevivem, etc. A questão é que essa meia dúzia de plantas e animais se concentram totalmente nas latitudes de sorte, que são o primeiro mundo atual. Em locais muito frios, muito quentes, muito secos, muito altos, não é possível plantar e não há tantos animais domesticáveis.

É uma leitura interessante, embora sofra do efeito retrospectiva, ou seja, a teoria se adequa aos fatos que ocorreram.

5 – Maus, a história de um sobrevivente

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Gostaria de indicar um livro sobre a Segunda Grande Guerra, que influencia até hoje os rumos da humanidade. Maus é uma boa recomendação. Na verdade, é uma história em quadrinhos. Art Spiegelman, o autor da história, narra a história de seu pai, Vladek, que sofreu na pele a perseguição aos judeus alemães na Segunda Guerra. Os judeus foram desenhados como ratos (daí o título: maus em alemão = mouse = rato), os nazistas como gatos, os americanos como cachorros.

O autor, Art, nasceu depois da guerra, mas é cheio de traumas com comportamentos estranhos de seu pai, entre eles a concorrência virtual com um irmão, que morreu na guerra. São histórias descritas com muitos detalhes e com a sinceridade de um sobrevivente. É uma história escrita com a alma, em que o autor fica pelado emocionalmente, mostrando aquele lado que gostaríamos de deixar escondido.


Economia
6 – Freaknomics

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Livro que populariza conceitos de economia, com explicações cotidianas. Economia lida com escassez de recursos, portanto com a utilização racional deste. Isto influi nas decisões das pessoas. Partindo disto, o livro explica porque um terrorista suicida faria seguro de vida, ou porque um traficante de drogas tende a ser pobre e morar com a mãe (embora a imagem que temos seja o contrário, alguém rico e rebelde). Explica entranhas de partidas de sumô arranjadas, e, talvez o ponto mais controverso, a correlação negativa entre aborto e criminalidade – quanto mais liberado é o aborto, menos bebês indesejados vêm ao mundo, e com isso o nível de criminalidade 20 anos depois tende a cair.

De qualquer forma, é um trabalho interessante de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, com várias sequências, como toda série de sucesso.

7 – Economics in one lesson

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Henry Hazzlit sintetiza os pontos mais importantes que a economia deve se preocupar, em poucas páginas, somente o essencial. E são dois os pontos: visão a longo prazo, e a nível global. É muito fácil criar uma falácia econômica. É só restringir a realidade a curto prazo e a nível local. Exemplos:

Falácia a curto prazo: os aposentados de hoje vão receber menos do que os aposentados de ontem se a reforma da previdência passar. Análise a longo prazo: se não houver reforma, ninguém vai receber nada porque o país vai quebrar.

Falácia a nível local: os carros autônomos vão destruir o emprego dos motoristas. Análise a nível global: os transportes serão mais eficientes, gerando ganho global de bem-estar, e os trabalhadores serão realocados para outros setores.

É muito fácil conseguir um ganho de curto prazo e local, basta sacrificar o longo prazo e o global: deixar de fazer investimentos, garantir o ganho de uma classe em detrimento das pessoas em geral (exemplo protecionismo econômico). O problema é que, um dia, a conta chega, e ela é salgada, muitas vezes superior ao que poderia ser.

8 – The Black Swan

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Um Cisne Negro é um evento de baixíssima probabilidade, mas impacto devastador. Por serem de probabilidade de ocorrência tão baixa, as pessoas desprezam tais eventos em seus modelos.

A grande contribuição de Nassim Taleb é afirmar que, embora tenham teoricamente probabilidade tão baixa, tais eventos ocorrem, e com muita frequência. Nossos modelos estatísticos, que olham para o passado, não conseguem capturar a real magnitude de um evento assim, que jamais ocorreu (porém, que pode acontecer), tornando a matemática inútil contra eventos desta natureza.

Para a proteção contra um futuro incerto, a receita de sempre: seguros, estoques, redundância, plano B, alternativas abertas.
Porém, seguro custa dinheiro, estoques empatam capital, pessoas a mais são caras. Neste mundo cada vez mais imediatista, em que a palavra da ordem é corte de custos e EBITDA trimestral, tende-se a confiar cada vez mais em modelos estatísticos e cortar seguros, estoques, alternativas. Isto dará espetacularmente certo, até o dia em que dará espetacularmente errado, jogando por terra todos os ganhos obtidos anteriormente.

Taleb é uma espécie de Nietzsche de Wall Street. Enquanto o mundo está cada vez mais quantitativo, como o deus Apolo, ele ataca as fundações de barro desse ídolo, mostrando as suas fraquezas, e confiando em seu oposto, Dionísio. Aliás, Taleb tem a sua própria versão de Apolo x Dionísio, que é Dr. John (um phD em métodos quantitativos) x Tony Gordo (alguém formado nas ruas, com conhecimento empírico).

9 – Thinking Fast Slow

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Amos Tveski e Daniel Kahneman deram um tapa na cara do mundo dos economistas com este trabalho. Uma das hipóteses básicas dos modelos econômicos é que o ser humano toma decisões racionais. A dupla mostrou que não, muitas decisões são completamente irracionais. Evoluímos tendo que sobreviver neste mundo. Isto exige decisões rápidas. Não dá tempo de avaliar a situação, obter todos os dados, antes de tomar a decisão de correr ou não de um leão. Eles simplificam didaticamente o cérebro humano em dois modos, um rápido que toma decisões baseadas em heurística, e um devagar, que realmente pensa, reflete e analisa.

Eles descrevem muitas tendências do ser humano. Efeito de enquadramento: a moldura do quadro importa. Ancoragem: um ponto de referência, mesmo que seja um número aleatório, influi na decisão. Disponibilidade: o que está mais fresco na memória surge mais rápido. Aversão à perda é mais forte do que perspectiva de ganho.

10 – Saga Brasileira

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Miriam Leitão conta a difícil situação do Brasil dos anos 80, marcado por hiperinflação, planos econômicos bizarros (congelamento de preço, Plano Collor), troca de moeda todo ano, até que finalmente conseguimos encontrar o nosso caminho com o Plano Real. Quem não viveu esta época não tem noção do quão sofrido é viver numa terra sem moeda. Já escrevi sobre isto, da minha forma: o Índice X-Men de Inflação.


Estratégias de Guerra

11- A Arte da Guerra

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A obra de Sun Tzu é concisa, profunda e importante. Contém estratégias que podem ser utilizadas na nossa vida, e conhecimento que deriva de milhares de anos de batalhas da China antiga. Quando na defensiva, seja impassível como uma montanha. Quando na ofensiva, ataque como um falcão ataca a sua presa.
Quem protege o lado direito, deixa o lado esquerdo desprotegido. Quem protege o lado esquerdo, deixa o lado direito desprotegido. Quem tenta se proteger em todos os pontos, será vulnerável em todos os pontos.
A guerra consiste em enganar o oponente.

12 – 36 estratégias de guerra

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Outro clássico chinês, em complemento ao acima citado. Contém estratégias como “Bater na grama para espantar a cobra”, “esconder uma adaga atrás de um sorriso”, “aliar-se a um reino distante ao atacar um reino próximo”. Vale a leitura.


Filosofia

Este é o meu tema favorito, porque é a fronteira do pensamento, é o momento em que pegamos todo o conteúdo acima e o jogamos fora para construir de novo. Embora seja tentador recomendar Nietzsche, Platão, Aristóteles, Camus e Sartre, vou colocar apenas duas recomendações introdutórias (mas não deixe de ler os autores citados, depois disso).

13 – O Mundo de Sofia

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A obra de Jostein Gaarder narra sobre as principais correntes filosóficas, a partir da personagem Sofia, uma menina curiosa sobre o mundo. É uma boa introdução.

14 – Breve História da Filosofia

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Livro muito bem escrito por Nigel Warburton, conta um pouco sobre os principais pensadores que moldaram o nosso mundo. Não é muito grande, e é de fácil leitura.

15 – História da Filosofia

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Do mesmo nível, tem a História da Filosofia de Will Durant. Will Durant é um excelente escritor e historiador, na verdade recomendo todas as obras dele, incluindo a colossal e magnífica História da Civilização.


Outros

16 – Moonwalking with Einstein

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É um livro sobre memorização. Um repórter, tão comum quanto qualquer um de nós, treinou com afinco, participou e ganhou um campeonato de memorização. Técnicas de memorização são extremamente úteis, minha vida seria mais fácil se eu soubesse dessas técnicas antes. Por exemplo, uma técnica é associar um número a uma ação (tipo moonwalking do Michael Jackson), e outro número a uma pessoa (digamos Einstein), e imaginar Einstein fazendo moonwalking ao som de Michael Jackson. Impossível esquecer.

Aliás, a minha recomendação de verdade é fazer um curso de memorização e leitura dinâmica, vale muito a pena.
17 – Think and grow rich

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A obra de Napoleon Hill não é tão profunda nem tão instrutiva quanto as citadas acima, mas é muito motivadora. Fala de um objetivo final definido, desejo de vencer, esforço, persistência. É uma obra que me influenciou bastante.

Boa leitura.

A Teoria dos Cisnes Negros

Um resumo das ideias poderosas de Cisnes Negros, popularizadas pelo pensador libanês Nassim Taleb. Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, porém alto impacto.

São duas partes. Uma com as definições, e a segunda com ações que devemos tomar.


A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 1

Vivemos num mundo em que não conhecemos. Esta é a premissa básica da teoria dos Cisnes Negros, popularizada pelo pensador contemporâneo Nassim Nicholas Taleb. Ele trabalhou por muito tempo como trader no mercado financeiro, e neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo virar pó em alguns dias.

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Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, mas impacto extremamente elevado. É um outlier difícil de acontecer, mas que pode ocorrer um dia, e, se ocorrer, terá efeitos catastróficos.

Esta é a definição, mas não o problema real. O grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência de Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E, mesmo nos casos em que ocorreram, rapidamente o conhecimento humano se adapta para mostrar que o evento era previsível, não era tão aleatório assim. É o que Taleb chama de “falácia narrativa”. Um exemplo são os economistas “profetas” que afirmaram que “era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer, devido aos riscos dos títulos sub-prime”. Tudo isso a posteriori, é claro.

O termo Cisne Negro remete a uma história. No séc XVII pensava-se que todos os cisnes fossem brancos. Por mais cisnes que fossem vistos, eles eram todos brancos. Até que, na Austrália, foi descoberto o primeiro cisne negro. Apesar de milhares de anos de observações de cisnes brancos, bastou um único evento de cisne negro para derrubar a hipótese de que “todos os cisnes são brancos”. Este termo foi criado pelo filósofo inglês David Hume, nos anos 1700, justamente para demonstrar o “Problema da Indução”, ou seja, a fraqueza do nosso processo de raciocínio indutivo.


Não-linearidade do mundo

O mundo é não-linear.  A lei de potências governa o mundo, não a curva gaussiana de probabilidade normal.

Vale a pena pontuar alguns casos de não-linearidade histórica:  os ataques terroristas de 11/09/2001, o surgimento do Google, a crise financeira de 2008, o surgimento da internet,  o tsunami de 2004 na Indonésia. Nem a internet, nem o Google, foram previstos pelos livros de ficção científica, nem pelos acadêmicos e executivos.

Recentemente, o desastre de Brumadinho pode ser considerado um Cisne Negro, pelos habitantes da região. Vide post específico: https://ideiasesquecidas.com/2019/01/25/cisnes-negros-e-gestao-de-riscos/

Os ataques de 11/09 são um caso bastante ilustrativo. Foi algo completamente imprevisto, deixando o mundo inteiro em choque, e mudando completamente o rumo da história. O mundo ficou paranoico com o terrorismo. Dificilmente as guerras posteriores no Iraque e no Afeganistão teriam justificativa não fosse o combate ao terror.

A história é como uma caixa-preta. Conhecemos apenas os eventos da história, mas não os fatores que causaram o mesmo. Temos apenas a interpretação de historiadores, que é feita a posteriori e a partir de um ponto de vista subjetivo, não conhecemos os reais geradores dos eventos. Os eventos importantes são não-lineares. A história não rasteja, ela anda aos pulos. Entretanto, agimos como se fosse possível prever o curso da história, e pior ainda, mudá-lo.

Apesar de nossos avanços tecnológicos, ou talvez por causa deles, o futuro será governado cada vez mais por eventos extremos.


O desconhecido desconhecido

Há fatos que conhecemos, que conhecemos que desconhecemos, e os que desconhecemos que desconhecemos, e é neste domínio em que somos surpreendidos pelos cisnes negros.

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A ciência, os acadêmicos e os executivos das empresas tendem a focar no que conhecemos, e passar a falsa impressão de que não há fatos que desconhecemos que desconhecemos. Todas as soluções caem em alguma categoria dentro do conhecimento existente. É como aquela piada, do bêbado que perdera a chave do carro no meio da rua, mas procurava a mesma debaixo do poste porque era o único lugar que tinha iluminação.

O mundo conhecido, dos acadêmicos e MBAs mundo afora, é o da curva gaussiana. Ela tem erroneamente tem o nome de “curva normal”, indicando que é fenômeno normal do mundo. Mas a curva normal ignora grandes variações, joga fora o desconhecido – ignora o não-linear.  Taleb chama o mundo gaussiano de “Mediocristão”.

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O mundo real é governado pelo não-linear, exponencial, Pareto, é regido por leis de potência e pelo improvável: alguns poucos ficam com tudo, alguns eventos são ordens de magnitude maiores dos que todos os que já ocorreram,  o que desconhecemos é muito maior do que o que conhecemos. Este é o “Extremistão”, em oposição ao “Mediocristão”: o mundo escalável, exponencial, o-vencedor-leva-tudo, onde o resultado é desproporcional ao volume de trabalho, onde pode-se ficar milionário ou falido num instante.

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 O problema do Peru

Um peru é alimentado todos os dias pelo seu dono, por 1000 dias. Baseado em modelos de forecast que extrapolam o passado, ele supõe que o dia 1001 também será um dia feliz, em que será alimentado por um ser humano. Entretanto, o dia 1001 é Natal, e o peru vai para o forno.

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Assim como no problema do peru, no mundo real a mesma mão que alimenta, pode ser a da degola.

Os eventos extremos, por serem muito raros, usualmente não têm histórico. Os modelos matemáticos, como o do Peru, utilizam todos os dados existentes, mas há fatores que não são capturados pelos dados históricos. É impossível ter modelos bons sem informação.


A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 2

Como viver num mundo em que não conhecemos?

O passado pode não modelar completamente o futuro, quando estamos no Extremistão.

Não conseguimos extrair informação de onde não existe.

Há três linhas de ação: opções para cisnes negros negativos, aproveitar cisnes negros positivos e diminuir a ocorrência de cisnes negros.


Opções para Cisnes Negros negativos

Aceitar que não podemos prever o futuro implica em tomar medidas de precaução contra cisnes negros negativos: seguros, opções, planos B.

Taleb, por conta de sua formação como trader, explora bastante o uso de opções. Uma opção, no mercado financeiro, é um instrumento que dá o direito, mas não a obrigação, de comprar (ou vender) uma ação, num determinado momento a um determinado preço. Este direito não é de graça, é necessário pagar uma taxa, que na linguagem dos seguros é chamada de prêmio.

O seguro de veículos (ou casa, vida) é uma opção: pagando o prêmio do seguro, tenho a opção de “vender” (recuperar grande parte do valor) o automóvel à seguradora, no caso de problemas. Tenho o direito de fazer isto, mas não a obrigação. Se eu não exercer a opção dentro de um prazo, a seguradora fica com o prêmio.

Um seguro é uma opção de venda. Há no mercado financeiro a operação inversa: uma opção de compra. Posso comprar uma ação a um determinado valor, numa determinada data futura, pagando hoje um prêmio para obter este direito.

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Em suma, ter opções de compra ou de venda, ter seguros para as coisas mais importantes, ter redundâncias, ter um estoque, uma reserva de valor, são formas de precaução contra eventos imprevistos – não podemos prever o futuro, mas nos precaver para o mesmo.

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Ter opções

A questão é que o preço do prêmio pode ser caro, e o evento pode nunca ocorrer, então muita gente opta por não ter esses seguros.

Nos dias de hoje, com a busca das empresas em enxugar custos e tornar-se eficiente, com metas de redução de custos em todo lugar, as redundâncias, seguros e estoques têm se tornado cada vez menores. Isto pode gerar um ganho no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo.

Desprezar o seguro porque o prêmio é caro, gerar ganhos de curto prazo em detrimento do longo, é como contar os centavos dentro da variação da curva normal conhecida, ao invés de centenas de dólares da variação de uma curva exponencial desconhecida. É como recolher centavos à frente de um rolo compressor. É como olhar para as folhas das árvores e esquecer da floresta, ou como ficar contando as pulgas e deixar passar o elefante, é pensar pequeno e deixar escapar o grande.

A natureza é um exemplo de organismo resiliente. Os animais e plantas devem se adaptar ao meio ambiente e serem eficientes, mas também devem ser eficazes em sobreviver a longo prazo. Digamos que um mamífero tenha uma adaptação ótima ao ambiente, o que lhe permita viver sem gordura. Entretanto, suponha que esta evolução ocorreu fora de uma época glacial. Quando chegar a próxima era glacial, este mamífero não sobreviverá para deixar seus genes, ao passo que os mamíferos não tão ótimos, porém robustos, terão sobrevivido, gerando os descendentes do mundo atual. A vida evolui segundo esta lógica da via negativa. Não é porque o organismo aprendeu a lição, mas sim porque esses organismos foram eliminados, sobrando, por seleção natural, aqueles que são antifrágeis.


Cisnes Negros positivos e Estratégia Barbell

Para os cisnes negros positivos, a recomendação é a oposta: expor-se ao risco. Muita exploração agressiva, tentativa e erro, participar de festas e conversar com desconhecidos completos, tentar algo que nunca fora feito antes, tentar conversar aleatoriamente com o diretor da empresa. A grande maioria dessas tentativas vai dar em nada, mas um único acerto pode valer todas as tentativas.

Se, por um lado, uma estratégia é a de ter opções, seguros e robustez, por outro lado devemos explorar agressivamente as oportunidades, qual a proporção entre esses? Essa é a estratégia “barbell”, remetendo à imagem de uma barra de pesos: ser extremamente conservador em um extremo (digamos, 90% do investimento em títulos bastante sólidos, renda fixa, ouro) e extremamente agressivo em outro extremo (digamos 10% do investimento em opções de alta volatilidade).

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A pior estratégia é ficar 100% no meio do caminho, nem tão conservador, nem tão agressivo: não há possibilidade de um cisne negro positivo, e também há risco de ser atingido por um cisne negro negativo.

Investidores-anjo não sabem qual a startup que vai realmente dar certo, então tendem a investir um valor pequeno (para o investidor, não para a startup) em várias empresas iniciantes e acompanhar a evolução desta. O capitalismo, por permitir que centenas de milhares de empreendedores criem suas empresas, e principalmente, fracassem, permite que haja espaço para o surgimento de Apples e Microsofts, ao contrário do socialismo – em que a empresa estatal nunca fracassa porque é bancada por recursos públicos.


Ter a pele no jogo

O mundo contemporâneo está ficando cada mais conectado, com pessoas se especializando cada vez mais e empresas cada vez maiores. Isto traz um aumento proporcional na complexidade dos sistemas, e um loop de feedback cada vez mais distante e indireto – as pessoas que tomam as decisões sentem cada vez menos os efeitos dessas decisões, o que faz com que elas não tenham a “pele no jogo”.

As empresas cada vez maiores podem ficar grandes demais para quebrar, exigindo algum socorro governamental quando isto acontece. Na prática, ocorre a privatização dos lucros, mas a socialização dos prejuízos, uma assimetria prejudicial à sociedade como um todo.

E, por serem grandes demais para ir à bancarrota, essas empresas podem tomar ações temerárias, como vender títulos podres a fim de obter ganhos de curto prazo – aumentando o tamanho do evento Cisne Negro – e com isso colocando em risco todo o sistema financeiro mundial.

Taleb é dos que defendem que empresas não podem se tornar “too big to fail” – evitar a complexidade na fonte, ao invés de ter a tarefa impossível de lidar com esta. Ele também é forte defensor da via negativa: simplificar ao invés de complicar, diminuir ao invés de aumentar, pequeno ao invés do gigante, projetos exequíveis e falíveis passo a passo.


Conclusões

Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.

Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia.  Há desconhecidos desconhecidos que fogem ao nosso controle. É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência, duvidar das certezas e abraçar a aleatoriedade.

Para explorar oportunidades, exploração agressiva de tentativas na prática (não na teoria), heurísticas, exposição (controlada) aos riscos, em domínios escaláveis (Extremistão).

Em termos de projetos, é melhor ter vários ciclos simples e rápidos de tentativa e erro no mundo real do que por um mega projeto planejado detalhe a detalhe do começo ao fim.

Vivemos em mundo que não conhecemos.

Resumo em uma frase: Não seja o peru.


Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

Ter a pele no jogo – novo livro de Nassim Taleb

O intelectual idiota


Links

Vale a pena ler os seguintes livros.

A Lógica do Cisne Negro

https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/61tYtIS3SmL.jpg

Iludidos pelo Acaso

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Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos.

https://images.gr-assets.com/books/1352422827l/13530973.jpg

Os Falsos Profetas Científicos

O profeta do fim do mundo

Há uns 10 anos, um profeta previu que o mundo acabaria junto com a chegada de um cometa. Ele afirmava que uma divindade viria na cauda do cometa, e castigaria a humanidade pelos seus crimes. Fazia o seu discurso com tanta convicção, e com tantos detalhes de como seria o fim do mundo, que amealhou algumas dezenas de seguidores. Estes se prepararam para o fim do mundo, comprando mantimentos e equipamentos de sobrevivência.

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No dia do juízo final, reuniram-se na igreja do profeta. As horas se passaram… e nada do mundo acabar. O cometa passou, assim como as 24h do dia do juízo final… e o profeta recebeu outra mensagem de Deus! A humanidade tinha sido perdoada! Os esforços dele e dos seus seguidores comoveram Deus. Parabéns a todos pelo feito histórico!


 

Profetas estatísticos

Há alguns profetas contemporâneos, mas que se vestem de economistas e estatísticos. Confesso que adoro quando eles quebram a cara!
Um tal de Nate Silver ficou famoso mundialmente, após prever com acurácia o resultado das eleições americanas de 2008 e 2012. Dos 50 estados americanos, acertou a previsão em 49. Virou celebridade. Ele escreveu um livro, chamado “O Sinal e o Ruído”. Virou o papa da estatística. O seu método poderia prever tudo, como se fosse um dos profetas das lendas antigas. Porém, ao invés de ler as entranhas de carneiro, ou os cascos de tartaruga, Nate Silver usa fórmulas matemáticas complexas e computadores. Pode parecer sofisticado, mas para mim, é a mesma coisa que usar intestinos de bode.

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Em 2016, um evento inesperado foi como uma “bala de prata” para Silver: Donald Trump. Ele fez uma série de previsões furadas: Trump não iria nem disputar as prévias, nas prévias perderia para o adversário, nas eleições perderia para Hillary Clinton…

Alguns highlights do site dele, chamado FiveThirtyEigth:

Why Donald Trump Isn’t a Real Candidate, In One Chart

June 16, 2015

Donald Trump Is The World’s Greatest Troll

July 20, 2015

Republicans Don’t Like Donald Trump As Much As They Used To

October 2, 2015

Trump Boom Or Trump Bubble?

December 15, 2015

(Retirado de http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912)

 

Sobre alguns destes erros, Silver fez uma mea-culpa, dizendo que nem sempre usou estatística em algumas destas análises, mas que continua sendo um cara fodão, blá blá, blá, blá. Se nem estatística usou, ele deveria ser analista político, não estatístico, correto?

(http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/)

Este screnshot é do forecast final da votação presidencial, do seu site FiveThirtyEigth, prevendo que Clinton ganharia com folga:

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(http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/)
Probabilidades podem ou não acontecer. Elas não indicam que a afirmação vai ocorrer com certeza absoluta. Então, as afirmações de que Silver errou as previsões fazem pouco sentido, porque por mais que uma probabilidade seja baixa, ela pode ocorrer. Entretanto, se o critério da mídia foi endeusar fulano por acertar todas as previsões de probabilidade, temos que adotar o mesmo critério de tirar fulano do pedestal por errar as previsões. Este é o meu ponto. Não há profetas, ninguém é Deus na Terra.

 


Estatística

A estatística é uma ciência que surgiu para prever comportamentos médios, baseados em diversos comportamentos individuais. Por exemplo, cada pessoa tem uma altura. É praticamente impossível adivinhar a altura exata de uma pessoa aleatória. Mas, se soubermos a idade, o sexo e a região do mundo, através de uma curva normal de estatística podemos dar um bom chute. Um homem, de 25 anos, no Brasil, ter enorme chances de ter entre 1,60 e 1,90 de altura!

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Entretanto, probabilidade e estatística têm a) um domínio de validade, e b) são ciências incertas pela própria natureza da coisa.
O grau de confiança de afirmações estatísticas têm maior validade se o número de amostras é maior.
Nate Silver fez trabalhos estatísticos de muito sucesso no baseball. Ora, no baseball a estatística faz muito sentido: centenas de jogos, jogadores fazendo jogadas semelhantes milhares de vezes na temporada.
Nas eleições, a chance de erro é muito maior. Porque Trump e Hillary disputaram uma única eleição. Não foi uma média de 100 eleições diferentes. E nunca mais haverá de novo as mesmas eleições. As eleições de 2016 são diferentes das de 2012. E serão diferentes das de 2020.

As probabilidades não dão certezas. São apenas probabilidades, não profecias. E os estatísticos que fazem as contas, apenas analistas técnicos, não profetas. Portanto, não faz sentido nenhum estar escrito, em absolutamente todas as matérias jornalísticas sobre Nate Silver, que ele acertou 49 de 50 resultados em 2012. Ele presta um desserviço enorme à ciência, ao tirar proveito desta fama e virar um pseudo-profeta.

E todas as fórmulas complexas e programas de computadores? Ora, conforme dito, a estatística tem as suas hipóteses de validade. Usar todas estas técnicas fora do domínio de validade é como construir um arranha-céus com as melhores tecnologias e materiais do mundo, mas sob fundações de lama: um dia, vai tudo desabar. Os economistas têm até um nome para isto: falácia lúdica. Significa se enganar com fórmulas matemáticas complexas, mas não conferir as hipóteses (normalmente frágeis) de todas estas fórmulas.

Nate Silver não é nem Deus por acertar todas as previsões, nem Lixo por errar previsões importantes. É apenas um analista estatístico, e os seus resultados devem ser entendidos como tal.
Conclusão: não existem profetas. Mesmo que fulano tenha acertado 1.000 de 1.000 previsões, um dia sua máscara cairá.


Críticas de Nassim Taleb

Quando terminei de escrever o parágrafo acima, fui pesquisar algumas das reações aos forecasts de 2016.
É lógico, sempre tem aqueles que ainda endeusam Nate Silver. Cada um é livre para opinar da forma que quiser. Mas encontrei alguns tweets interessantes do pensador Nassim Taleb, autor da “Lógica do Cisne Negro”, sob a qual baseio grande partes das ideias acima e muitos posts deste espaço.

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Ele diz coisas como: as probabilidades de Silver (site FiveThirtyEigth) variam tanto que são muito estocásticas para serem probabilidades. Se a variância é tão grande assim, a probabilidade é de 50% (ou seja, pode dar igualmente qualquer coisa, a análise toda só serviu para dizer ‘não sei’).

Taleb é outro que odeia profetas. Vive brigando com alguns.

 


 

Fontes

 

Nassim Criticizes Nate Silver’s Election Predictions on Twitter

http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912

http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/

http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/

http://www.businessinsider.com/donald-trump-nate-silver-prediction-mock-polls-2016-10

https://www.pastemagazine.com/articles/2016/07/the-sudden-shocking-fall-of-nate-silver.html

http://www.smh.com.au/world/us-election/us-election-2016-statistician-nate-silvers-big-donald-trump-mistake-20161030-gseaye.html

Links

Alguns textos.


Seth Godin é um criativo escritor, e tem várias ideias provocativas. Devido à concorrência entre empresas de transporte (Uber e Lyft) nos EUA, está tendo uma corrida para baixo, de quem fornece preços menores. Ele sugere o contrário: quem cobra mais, mas oferece  serviços cada vez melhores: uma corrida para cima.

http://sethgodin.typepad.com/seths_blog/2016/06/a-dollar-more-vs-a-dollar-less.html


Alexandre Versignassi, Editor da Superinteressante, conta a história do “Trabant”, um carro que todos poderiam ter, na Rússia. O problema era que a fila de espera era de 15 anos. E compara o Trabant com o Iphone, nos dias atuais.

http://super.abril.com.br/blogs/crash/ganancia-a-arma-mais-eficiente-contra-a-pobreza/

 


 

Nassim Taleb conta como uma minoria barulhenta, digamos 5% da população, mas engajada, ativa, que ocupa os espaços da mídia, pode influenciar os resultados ante uma maioria (que tem mais o que fazer do que lutar por um assunto específico).

http://www.fooledbyrandomness.com/minority.pdf

 

 

 


 

 

 

Por que você não abre a sua própria empresa?

Já fiz alguns trabalhos muito interessantes em minha carreira profissional. Vendo alguns desses trabalhos, de vez em quando algum colega pergunta: “Por que você não abre a sua própria empresa?”
 
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A minha resposta é sempre algo como “não tenho habilidade como vendedor”, “não gosto da parte burocrática”, etc. Mas é tudo mentira.
 
A verdade é que não tenho coragem para ser um empreendedor. Prefiro a segurança de receber um valor fixo todos os meses ao risco de passar apuros.

 


 

Empreendedorismo = Risco

 
Um empreendimento pode ou não dar certo. Se der certo, é claro que haverão recompensas, como o retorno financeiro.
 
Mas empreender é extremamente difícil. Seja por falta de habilidade comercial, seja porque o mercado vai contra, ou porque o produto é ruim mesmo, o novo negócio pode dar errado. Empreender significa assumir compromissos com fornecedores e bancos. Significa ter que pagar em dia para os funcionários, sob pena de descumprir pesadas legislações trabalhistas. Significa assumir riscos.

 

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Tenho grande aversão ao risco. E não sou o único. A maioria das pessoas também é avessa ao risco.
 
Basta ver a grande procura que têm os concursos públicos, por terem atrelado a eles a palavra mágica “estabilidade”, junto com outra palavra mágica: “salário acima da média”.
 
 


Herois anônimos
 
Quem olha a Disney hoje, vê um império multibilionário de entretenimento.
 
Poucos sabem que Walter Disney quebrou duas vezes, atrasando salários a funcionários, pagamentos a fornecedores, a ponto de ser despejado da própria casa. Disney chegou ao fundo do poço antes de atingir o sucesso. O mesmo ocorreu com dezenas de outros empreendedores.
 
O Walt Disney que conhecemos atingiu o sucesso, mas quantos Walt Disneys anônimos fracassaram?
 
Quantas lojas em shopping, restaurantes, imobiliárias, websites, concessionárias de veículos, pequenos negócios, quebram anonimamente todos os dias e nem sequer tomamos conhecimento?
 
O grande pensador contemporâneo Nassim Taleb chama os empreendedores de heróis anônimos do mundo. São os que colocam a “pele no jogo”. Assumem grandes riscos para trazer para nós as lojas de conveniência, restaurantes, táxis…

 
Do livro “Antifrágil – coisas que se beneficiam com o Caos”:
 

Dia do Empreendedor
 

O empreendedorismo é uma atividade arriscada e necessária para o crescimento ou, até mesmo, para a simples sobrevivência da economia.
 

Para progredir, a sociedade moderna deveria estar tratando os empreendedores arruinados com a mesma lógica que os soldados mortos…

 

Meu sonho é que tivéssemos um Dia Nacional do Empreendedor com a seguinte mensagem:
 

A maioria de vocês fracassará, será desrespeitada, empobrecerá, mas somo gratos pelos riscos que vocês estão assumindo e os sacrifícios que estão fazendo em prol do crescimento econômico do planeta e forçando os outros a sair do problema. Vocês estão na origem da nossa antifragilidade. A nação agradece.

 

Empreendedores são os que transformam a teoria em prática. É na prática que vemos se uma ideia funciona ou não. Empreendedores são os que assumem riscos e trazem inovação ao mercado. Ao invés de penalizar cada vez mais os empreendedores, os governantes, “intelectuais” e críticos deveriam é dar mais valor a eles.

 

Para completar, o mestre Peter Drucker:

 

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