Chiquinho do Acordeon

  
Vou compartilhar uma história, uma dúvida, e um momento de tensão.
Eu estava no aeroporto de Curitiba. Era sexta feira à tarde, e faltavam mais duas horas para o meu voo para São Paulo. 
Fui para o segundo andar, onde há uma série de lanchonetes. Tomei um lanche, que estava horrível mas mesmo assim custou caro.
Depois do lanche, abri o laptop e fiquei trabalhando um pouco. Estava muito barulho ali, então resolvi sair da lanchonete e ir para um canto distante do aeroporto, onde tinha pouca circulação de pessoas. 
Estava quase na hora de ir para a área de embarque, quando surge, longe, um velhinho. E este caminha em minha direção, obviamente querendo falar algo. 
Estava meio na cara que era alguém precisando de dinheiro, então achei que ele fosse pedir uma esmola. Antes mesmo dele chegar, já tinha pensado em dar uns trocados. 
O velhinho tinha cabelos totalmente brancos, um rosto de quem viveu bastante, de quem teve muitos sofrimentos e alegrias.
Chegando à mesa, ele me cumprimentou e perguntou: “Você quer me ajudar comprando o meu disco?”
O velhinho saca um cd, onde está escrito “Dedos elétricos”.
Pergunto quanto é, e ele me diz “Vinte reais”. Diz que ele era muito bom com o acordeon, e que as músicas são de sua autoria.  
Um turbilhão de pensamentos toma a minha cabeça. Meio caro para um cd meia boca de alguém que nem conheço. Poderia falar um “não” puro e simples. A segunda alternativa era dar uns 2 reais de esmola, e falar para ele ficar com o cd. Mas escolhi a terceira alternativa, a de comprar o cd, não pelo produto em si, mas porque o velhinho veio vender a sua arte, o seu trabalho. 
Já que resolvi comprar, outra alternativa que veio à minha cabeça foi pedir um desconto. Acabei não fazendo isso, porque não queria rebaixar o trabalho do velhinho. 
Falei: “Ok, então me dê um desses”. Abri a carteira, e me deparei com um problema. Só tinham notas de 50 reais. Perguntei: “tem troco?”
Ele olhou para a nota de 50 com uma cara de quem gostaria muito de ficar com ela e falou, “não tenho troco não, mas eu vou lá trocar. Todo mundo me conhece aqui, pode confiar”.
De novo, o impasse. Eu poderia cancelar tudo, falar que não dá tempo e ir embora. Mas, já que tinha chegado até aqui, resolvi ir em frente: “ok, pode ir lá trocar. Mas daqui a 10 min tenho que ir embora “.

O velhinho andou, e depois de um tempo perdi-o de vista. Certamente um turbilhão de pensamentos também deve ter passado pela sua cabeça. Poderia ir embora com os 50 reais, eu nunca o encontraria de novo. 
Fiquei sentando, me perguntando: “será que ele volta ou não volta?”
Olho no relógio, foram-se 5 minutos. 
Depois, mais 5 minutos. 

 

Momento de tensão….
Comecei a guardar minhas coisas. Ia esperar no máximo mais cinco minutos e ir embora. 
E eis que o velhinho surge. Devolve o troco de 30 reais, fala que o telefone dele está escrito no cd e se despede. 
Chegando em casa, coloco o cd para tocar. A gravação é bem tosca, com qualidade ruim. As músicas até que são legais, mas nada de espetacular. Uma delas me lembra a música “Baião”, do fantástico Luís Gonzaga.

Normalmente não dou esmolas, nem fico comprando o que me oferecem. Já disse “não” inúmeras vezes, milhares de vezes. Não sou legal, nem bondoso com estranhos. Muito menos confio em alguém assim. 
Se ele viesse pedir esmola, ganharia uns dois reais no máximo. 
Não sei se ele é realmente músico, se a história é verdadeira ou não. Gosto de acreditar que sim. 

O que me tocou é que ele veio vender algo de que tinha orgulho, o fruto de seu trabalho, talvez o que ele tenha de melhor a oferecer nesta vida. 
Fiquei me imaginando com 85 anos de idade, sem dinheiro. E eu tentando vender algo de que me orgulhe para um rapaz na faixa dos 30. Pode ser que ele diga “não”, pode ser que ele me dê uma esmola. Eu poderia aceitar a esmola por caridade, mas não venderia um trabalho da qual me orgulho por uma esmola. Ficaria feliz em vender pelo preço justo. 

Obs. Pesquisei sobre “Chiquinho do Acordeon” no Google. Retornou um outro artista: outras músicas, outros álbuns, outra região do Brasil. Portanto, o velhinho do aeroporto não pirateou este outro homônimo. 

Reflexões pós férias

Tirei um período de férias. Quando retornei, duas das pessoas mais competentes que conheço disseram algo como: “É bom tirar férias de vez em quando, organizar a vida, cuidar da família, e voltar com a corda toda!”

 
Por outro lado, duas das pessoas  menos competentes que conheço disseram aproximadamente isso: “Que vida boa! Queria saber como você faz para tirar férias. Faz vários anos que não tiro, porque não paro de trabalhar!”

 

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Se isto fosse uma fábula de Esopo, os personagens seriam formigas, cigarras e teria uma moral da história: “Quem é competente não precisa parecer competente. Já quem não é competente, precisa parecer competente.”

 

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A Caixa de Pandora

Nov. de 2015.
Atentado do Estado Islâmico em Paris.
Tragédia ambiental em Mariana.
Massacres na África.
Governo Dilma.

No noticiário: acidentes de trânsito, desvio de verbas na Petrobrás, novos impostos, fome, doença, violência, guerra.

 

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Mas, no fundo da Caixa de Pandora, há a Esperança.

 

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O leite futuro da vaca

Buda estava a pregar o seu ensinamento, quando um camponês pobre falou o seguinte.

– Gostaria muito de ajudar os outros, fazer o bem, como você recomenda. Mas atualmente sou muito pobre. Não tenho muita coisa. Quando conseguir mais posses, posso fazer.

Buda respondeu com uma história.
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Era uma vez um homem que queria dar uma festa para os seus amigos. E ele queria servir leite. Ele tinha apenas uma vaca, que mal conseguia produzir leite para a sua família. Para dar a festa, ele precisaria de muito leite. Não tem como armazenar o leite produzido, porque iria estragar.

Ele teve uma ideia. Ele iria deixar de ordenhar a vaca por alguns meses. Assim, o leite ficaria armazenado na própria vaca, e ele poderia ter muito leite no dia da festa.

E assim foi feito. O homem parou de ordenhar a vaca. Passado um tempo, chamou os amigos para a tal festa. Só que, na hora de ordenhar a vaca, não saía mais leite algum. Ao invés de ter leite armazenado, ele acabou sem um copo sequer.

– Mas que homem tolo – disse o camponês.

– É assim com todos – respondeu Buda. Se uma pessoa não fizer o bem agora, com o pouco que tem, não vai fazê-lo quando tiver mais posses.

(Recontado a partir de uma história que ouvi)
 

 

 

Exemplo de liderança e austeridade

Tendo em vista um certo país, onde há uma crise financeira e uma crise maior ainda, de moral, vale a pena ler o exemplo a seguir.
É a história de um lugar que vivia uma crise, com o povo trabalhador pagando impostos altíssimos, coletores de impostos recebendo propinas espetaculares, pequenos empreendedores extremamente endividados e greves generalizadas. Como isto foi resolvido? Com imposto provisório? Imprimindo dinheiro? Empréstimo? Congelamento de preços? Não. Foi com um ajuste moral, menos impostos, corte de gastos de verdade e muito mais trabalho.


miso

 

No séc. XVIII, a maioria da população do Japão vivia da agricultura. O povo passava por grandes dificuldades, principalmente por causa dos altos impostos que sustentavam o luxo da classe alta.
Matsushiro era um feudo japonês. Em 1750, nenhum funcionário compareceu para trabalhar. Estavam todos em greve. A situação do governo local era tão grave que muitas vezes o arroz não chegava à mesa deles, e do salário era descontado um depósito compulsório que nunca era devolvido ao funcionário. Havia corrupção em todos os níveis do governo. Fiscais recebiam propina para permitir irregularidades e utilizavam sua posição para obter regalias.
Com a missão de resolver essa situação, Onda Moku Tamichika foi nomeado secretário da fazenda daquele feudo. Jovem e vindo de uma família com pouco prestígio no governo, foi visto com desconfiança.

A primeira providência de Moku foi mudar radicalmente a si próprio, jurando que jamais mentiria, e fez com que sua família e seus funcionários fizessem rigorosamente o mesmo. Honestidade e austeridade eram fundamentais.
Cortou todos os luxos, passando a usar roupas de tecido rústico e se alimentar só de arroz e sopa de pasta de soja (missoshiru). Ele prometeu aos agricultores que, se não resolvesse a crise, cometeria hara-kiri (suicídio).
Pediu aos agricultores que parassem de pagar propinas. Moku perdoou dívidas antigas, mas a partir daquele momento, todos deveriam pagar os impostos em dia, sob pena de morte se não o fizessem.

 

Moku fez um balanço das despesas, e concluiu que 70% do imposto recolhido era gasto com salários, viagens e despesas dos coletores. Assim, baixou os impostos para 30% do valor anterior, cobrando, assim, o valor justo do imposto.

 

Para cortar gastos, todos em seu governo se alimentavam somente de arroz e sopa. Viviam na mesma simplicidade com que os agricultores viviam. Só saíam dessa rotina quando recebiam visitas. Nessas ocasiões, um simples almoço transformava-se numa festa.

 

Os frutos do trabalho de Moku vieram em pouco tempo. Os agricultores estavam mais motivados para trabalhar e a safra seguinte foi muito boa. As propinas acabaram. Todos pagaram o imposto no dia certo, mostrando que havia confiança entre o governo e os agricultores. Foi gerada riqueza real, e esta ficava com as pessoas que a produziam.
O feudo de Matsushiro conseguiu atingir a estabilidade econômica. Seu exemplo foi seguido por outros feudos e sua influência continua viva até hoje, no Japão, influenciando empresários e administradores. “Higurashi Suzuri”, livro que relata estes fatos, foi escrito por Baba Massataka, que vivia no castelo de Matsushiro. É um best seller que contém a filosofia que norteia métodos produtivos, como o kanban, desperdício zero e círculo de controle de qualidade.

 


 

O exemplo de liderança e austeridade é de outra época e tem outras condições de contorno, mas não deixa de ser um belo exemplo. Imagine se os nossos impostos fossem diminuídos? Propinas e corrupção fossem combatidos com firmeza? Se os nossos senadores e deputados cortassem privilégios, ao invés de aumentar os mesmos e passar a conta para o resto do povo? Se os governadores e presidentes vivessem como uma pessoa da classe média: avião na classe econômica em voo comercial,salário atrelado ao salário médio da população, trabalhar de metrô, refeição?

 

Arnaldo Gunzi
Set 2015
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Rodrigo e o curso de japonês

O Rodrigo é hoje um cara que tem 5 línguas estrangeiras no currículo, estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro e faz parte de uma família rica. Parece bom, não?

Polyglot

Há dez anos, eu morava no Rio de Janeiro e fazia aulas de língua japonesa. O curso ocorria todos os sábados, das 9 as 12h.

Conheci pessoas que são amigos meus até hoje. Conheci também o Rodrigo.


 
O Rodrigo destoava completamente de todos os outros alunos. Enquanto todo mundo estava pagando a aula do próprio bolso e com interesse em aprender, o Rodrigo estava lá porque a mãe o tinha obrigado. Ele ainda era adolescente, estava no segundo grau.
 

O interesse de Rodrigo nas aulas tendia a zero. Tinha cara de alguém revoltado com a vida. Não queria aprender, nem incorporar nada da cultura, muito menos conhecer pessoas. Seu interesse era simplesmente passar para a próxima etapa do curso. Ele era inteligente o suficiente para simplesmente estudar e tirar uma nota mínima na prova, uma vez por mês.
 

Claramente tinha uma condição econômica muito boa. Estudava numa escola particular cara. Viajava para o exterior nas férias. O seu pai tinha prometido um carro quando fizesse 18 anos. Não fazia apenas japonês, mas 5 línguas: inglês, alemão, e outras duas que não lembro. Tanto que às vezes se confundia e respondia algo em alemão. Fazia 5 línguas porque a mãe achava importante. Os seus pais eram separados, e o pai era muito distante, pelo que dizia.
 

O Rodrigo estudou por lá uns três anos. E foi ficando cada vez mais irresponsável, com o passar do tempo. Passou a faltar e só vir nas provas, e depois a faltar nas provas e marcar prova de reposição.
 

Lembro-me de outro episódio. Um dia, a professora estava dando uma bronca nele. Isto porque ele tinha marcado um horário para reposição. Aí, ele faltou na aula de reposição que tinha marcado, sem avisar. A professora tinha vindo de Belford Roxo, e tinha perdido umas 2h só para vir. Em sua defesa, Rodrigo dizia a ela que ia pagar a aula de reposição, como se isto fosse compensar a falta de respeito à pessoa a sua frente.
 

Não é bom julgar as pessoas sem conhecer o background, mas sei que, ao final do terceiro ano no curso: a) ele realmente ganhou do pai o carro que tanto queria, e estava muito feliz neste dia. b) aprendeu muito pouco de japonês, porque passando o nível básico, não basta fazer prova e passar: a pessoa realmente tem que entender o que está fazendo.
 


Aí eu me pergunto. Ao invés de 5 línguas, não seria melhor fazer uma ou duas, mas com seriedade? Ou deixá-lo fazer outro tipo de curso que gostasse? Ou deixar o adolescente com mais tempo livre?
 

Ao invés de carro e dinheiro, há algo melhor que o pai poderia ter dado.
O pai poderia estar Presente, ajudando na formação do filho. A mãe também, ao invés de terceirizar a educação por meio de um monte de cursos, poderia ela mesma ajudar na formação. Este blog já abordou a importância de se estar presente. O mundo precisa de pessoas que estejam presentes.

 

Por fim, pessoas são complexas, e dependem tanto de si mesmas quanto do ambiente. Espero que, apesar de tudo, o Rodrigo tenha se tornado um bom ser humano, em complemento ao bom currículo que tem. Porque o mundo precisa de boas pessoas.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2015

A Multiplicação do Trabalho

Frequentemente, escuto algo assim: fulano está enrolando para terminar o trabalho, porque se o fizer, vai acabar com o ganha-pão dele.

 
Mas a afirmação correta é diametralmente oposta!

 
Quanto mais se trabalha e se entrega bons resultados, mais o trabalho se multiplica: mais o profissional é reconhecido e demandado para trabalhos melhores e mais importantes!

 

Arnaldo Gunzi
Jul/2015

A vida é como uma peça de teatro.

Um amigo meu estava reclamando de um diretor: um cara todo importante, que parece ter o rei na barriga. Postura arrogante, nem cumprimenta as pessoas ao redor, quer sempre prioridade no que pede, maltrata os subordinados, etc…

KingLear

 

Lembrei-me de uma sábia história. A vida é como uma peça de teatro, em que assumimos o papel que nos cabe dentro da peça. Um pode ser o Rei, outro pode ser o Cavaleiro, o Servente ou o Bobo da corte.

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Depois que a peça acaba, deixamos de lado as nossas fantasias e voltamos a ser pessoas comuns: mortais, de carne e osso, que não podem levar nada da peça que acabaram.
Até começar uma outra peça, onde quem foi Rei pode ser o Bobo, quem foi o Cavaleiro pode ser o Servente, quem foi o Servente pode ser o Cavaleiro, e quem foi o Bobo pode ser o Rei…

 

Arnaldo Gunzi

Jul/2015

 

 


 

Bônus: Shakespeare escreveu alguns dos mais belos poemas da história. Não tem tanto haver com o escrito acima, mas não deixa de ser uma bela reflexão.

 

O mundo é um palco,
e os homens e mulheres, meros atores,
Eles têm suas saídas e entradas.
E um homem no seu tempo atua em vários papeis,
e seus atos são em 7 idades.

 

All the world’s a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.

 


 

A imagem da foto da peça “O Rei Lear”.

 

 

 

http://www.portalentretextos.com.br/colunas/letra-viva/as-sete-idades-do-homem,212,2242.html

http://lingualeo.com/pt/jungle/all-the-worlds-a-stage-by-william-shakespeare-285328#/page/1

 

Cachorro preguiçoso

Antes da fama, Einstein foi chamado de “cachorro preguiçoso” pelo seu professor de matemática, Hermann Minkowski. Isto porque ele realmente não tinha muito interesse em seguir as regras formais da academia, e nem queria saber muito de matemática – o seu negócio era Física.

As opiniões são baseadas em algumas poucas impressões que as pessoas têm. Opiniões são as commodities mais baratas que existem, portanto devem ser ouvidas com cuidado.

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Navegar é Preciso

Navegadores Antigos

Belíssimo poema de Fernando Pessoa.

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.