Quem é voluntário para responder?

Quando o professor faz a pergunta, “Quem é voluntário para responder?”, no Brasil, uma ou duas mãos se levantam, timidamente, ou pior, ninguém levanta a mão. Aí, o professor intima alguém para se voluntariar à força: “fulano, o que você acha…” . Quem nunca vivenciou a situação?

Já presenciei uma turma de alunos japoneses (do Japão, não os descendentes), e quando o professor chama algum voluntário, é o exato oposto: há uma corrida para ver quem levanta a mão primeiro.

A ideia é que a educação é um tema extremamente importante, e demonstrar interesse, ser voluntário, é um passo para aprender mais. O objetivo do aluno não é só passar de ano, é tirar 10 em tudo, é ser o primeiro numa sociedade ultra-competitiva (sem entrar no mérito da questão, isso tem os seus prós e contras).

É claro que não dá para generalizar. Um monte de gente nem se interessa de verdade e levanta a mão só para constar, ao passo que o oposto também é possível, alguém tem vergonha de participar mas está genuinamente interessado na aula.

Uma consequência é a posição japonesa no ranking Pisa (uma avaliação mundial no nível segundo grau), sempre nos primeiros lugares. E o Brasil no ranking Pisa? Confira aqui no link (https://ideiasesquecidas.com/2019/12/03/ranking-de-educacao-pisa-2018/).

De forma geral, uma dica é sempre se voluntariar a responder ou participar, quando parte do público. Realmente, sempre aprendemos mais quando a nossa participação é maior!

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Winston Churchill, o homem que mudou o mundo 

Adolf Hitler quase venceu a Segunda Guerra Mundial. Em 1940, a Alemanha tinha invadido a Polônia, Bélgica, Holanda. A França tinha caído, e as tropas inglesas que haviam ajudado na defesa estavam evacuando em Dunkirk (tem até um filme a respeito). 

Os EUA não tinham entrado na guerra. A Rússia tinha um pacto de não-agressão com a Alemanha. A Itália era aliada da Alemanha.  

A única oposição real ao poderio alemão era a Inglaterra. Um homem, Winston Churchill, se opôs ferrenhamente a Hitler, e levou a nação-ilha a resistir, até a situação mudar. 

Era o homem certo no momento certo no lugar certo. 

Ele entendeu, desde sempre, que era inútil negociar com Hitler. Ele também entendeu que deveria modernizar o exército, com tanques e aviões. Por tudo isso, foi taxado de extremista, nacionalista, beligerante.  

Churchill tinha um vasto conhecimento e imaginação. E habilidade para criar a partir de seu conhecimento. Ele era tão letrado que podia citar Lord Byron e Shakespeare de cabeça. Estudava história, tinha paixão. 

Churchill usava palavras como bombas. Incendiava a paixão do povo britânico, através de discursos como o “The finest hour” e o “sangue, suor e lágrimas”. 

Também teve os seus erros, como subestimar o Japão, ou confiar demasiadamente em Stalin, por exemplo. 

Como Churchill mudou o mundo e o que podemos aprender com ele? 

O começo

O jovem Winston sempre achou que estava destinado à grandeza. Modéstia não era parte de sua característica. Impaciência para alcançar a grandeza. Tinha certeza de que a fortuna estava com ele. 

Escreveu 5 livros ainda na faixa dos 20 anos, participou da guerra dos Boers, e protagonizou uma fuga épica nesta, tornando-o famoso. 

Falhou duas vezes no vestibular, porque seu interesse maior era em inglês e história, não em matérias como latim. Entrou na terceira tentativa, mas seu pai o considerava uma pessoa de pouco valor. 

Veio de uma família aristocrata, de duques britânicos. 

Buscou abertamente riscos que o pudessem colocar na rota da grandeza esperada. 

Fazia treinamento exaustivo de seus discursos. Decorava o discurso todo, podia recitar de trás para frente. Além disso, devorava um estante de livros para escrever artigos e discursos. 

“Estude história, estude história. Na história, jaz todos os segredos da política de estado.” 

“Política é tão excitante quanto a guerra. Porém, na guerra, você só pode morrer uma vez, na política, várias vezes.” 

Ao invés de esperar por sua vez no congresso, desde o começo atacava oponentes mais poderosos como Neville Chamberlain, um político da época. 

Brilhante, com 30 e poucos anos já era parlamentar em ascensão. Ele ia para onde poderia ter oportunidades de agir. 

Como Almirante da Marinha 

Churchill se tornou almirante da marinha, com 36 anos. Missão de modernizar marinha britânica, ante a evolução da marinha alemã. 

Deu dois passos ousados, antevendo o futuro. Navios mais rápidos a óleo ao invés de carvão, e armamentos maiores. 

Porém, havia um risco. A Inglaterra não tinha acesso confiável a petróleo, para os navios a óleo. Isso foi resolvido com aumento da participação na companhia Anglo Persa de petróleo, que hoje é a British Petroleum, BP. 

O segundo problema, era que o armamento de 50 polegadas não existia, era inovador demais. Se fosse esperar todo o ciclo de testes, isso significaria dois anos a mais de atraso. A solução foi crer que funcionaria, e projetar os navios já com o novo armamento. 

Ele pensava grande e ousava, quando a maioria não o faria. 

Para tal, também tinha que se livrar dos oficiais incompetentes e ficar com os mais competentes. 

Influência do almirante Fisher: “Ataque primeiro, ataque pesado, continue atacando. Sem piedade, implacável, sem remorso. Se você odeia, odeie; se você luta, lute.” 

Outra inovação arriscada, à época (cerca de 1915), também era utilização de aviões (só para comparação, o famoso voo de Santos Dumont foi em 1906). Churchill estava sempre à frente da curva.

 

Primeira grande guerra

Diante de indecisão dos políticos, assumiu a frente. Tinha juventude, energia e experiência militar. 

A marinha, armada anteriormente, estava pronta e ajudou a vencer a guerra. 

Ocorreu um erro de seu mentor, Fisher, ao atacar o estreito de Dardanelos, ao buscar vitórias fáceis que não mudam o jogo. A Inglaterra não foi bem sucedida em Dardanelos, e o erro caiu na conta de Churchill. 

Após uma ascensão meteórica, agora ele caia. 

O custo político foi abdicar da posição de almirante, e foi enviado a ocupar um cargo menor, burocrático. Em poucos meses, abdicou do cargo. Não queria uma aposentadoria remunerada de pouca importância. 

Voltou ao exército, e foi à guerra, como major. Churchill foi ridicularizado, como alguém que tinha sido chefe da Marinha poderia se rebaixar a oficial subalterno? 

Esse episódio mostra que Churchill tinha a pele no jogo. Gostava de liderar não só com palavras, mas com o exemplo. 

Outro exemplo de visão. Ele defendeu tanques, outra inovação, para se contrapor aos alemães, que estavam se armando. Na época, a infantaria ainda usava cavalos. 

Novas oportunidades 

Churchill esperou pacientemente por uma posição. 

Nesse meio tempo, ele voltou a escrever. 

Ele escreveu um livro sobre a Primeira Guerra Mundial, incorporando muito de sua visão e experiência. Ele, que gostava tanto dos livros de história, agora estava escrevendo história. 

Nota: Churchill tinha tanta capacidade narrativa que ganhou prêmio Nobel em 1953. 

E o lado escritor ajudou a carreira política. Churchill assumiu como chanceler, e uma das grandes decisões da época foi a volta ao padrão ouro. 

Era uma época de trauma da primeira guerra. Pacifismo e desarmamento estavam na mente das pessoas.  

Em contrapartida, Churchill queria se armar, ante ameaças crescente de Hitler e Stalin. 

Perante a opinião pública, Hitler projetava imagem de pacifista moderado, amante da paz, que só queria se proteger e apenas reivindicava o que era de direito. Um pensamento da época era que a Alemanha, tão maltratada depois da primeira guerra, agora para compensar poderia se armar. 

Nessa época, outra inovação era o avião Spitfire, moderno, para fazer frente à Força Aérea alemã. Episódio curioso é que houve uma campanha de doações, chegando à casa de 500 milhões dólares (atuais) para salvar o projeto. Este avião foi imprescindível na Segunda Guerra. 

O avanço de Hitler e a Segunda Guerra 

A Alemanha de Hitler avançou sobre a Áustria, e depois ameaçava a Tchecolosváquia. 

Nessa época, o primeiro-ministro britânico da época, Neville Chamberlain, encontrou Hitler três vezes, para discutir a paz. 

Hitler queria os sudetos tchecos, e tinha como justificativa proteger os alemães da região e voltar à fronteira pré-Primeira Guerra. 

Chamberlain e Hitler chegaram a um acordo, cedendo os sudetos. Chamberlain voltou à Inglaterra saudando a paz, e convicto de que Hitler pararia por aí. Mas foi um total desastre. 

Hitler anexou os sudetos, e meses depois, a Tchecolosváquia toda. Depois, partiu para a Polônia. 

Com a Rússia, a Alemanha assinou um pacto de não agressão, essencialmente partilhando a Polônia. 

Churchill, que sempre fora crítico à política de apaziguamento de Chamberlain e de outros políticos da época, estava certo.  

A agressão alemã continuou: Finlândia, Bélgica, e isso derrubou Chamberlain. Churchill assumiu, como Primeiro-Ministro inglês, aos 65 anos. 

Após a queda da linha Maginot e da França, ele sabia que seria o próximo alvo. Liderou as preparações, como concentrar os spitfires. 

Os ingleses refutaram os alemães, após resistir aos bombadeios, na famosa “Battle of Britain”. 

Após a tentativa frustrada de conquistar a Inglaterra, Churchill sabia que Hitler compensaria indo para leste. Conhecia o inimigo. 

Joseph Stalin não era confiável. Mas como inimigo dos alemães, faria exatamente o necessário, tinha objetivos alinhados. 

A ameaça de invasão passou, mas daí em diante, começou o cerco. Submarinos, navios patrulhando as fronteiras da Inglaterra. O quanto uma ilha pode sobreviver? 

A maré virou com a entrada dos EUA na guerra, após os ataques japoneses a Pearl Harbor. 

O presidente americano, Franklin Roosevelt, era como um par de Churchill, alguém com trajetória e pensamentos semelhantes. 

Agora, o grande império britânico tinha ficado pequeno com o esforço de guerra, e com a Rússia e os EUA no jogo. Churchill sabia que seu ápice tinha passado, seu grande desafio tinha sido nos anos anteriores: segurar Hitler sozinho e trazer aliados para a guerra. 

Era uma questão de tempo até os Aliados vencerem o Eixo. 

Pós Segunda Guerra 

Stalin foi um dos grandes vencedores da Segunda Guerra: Rússia ocupando leste europeu e quebrando acordos. Uma reflexão era que Hitler tinha caído, porém Stalin estava mais forte do que nunca. O mundo tinha trocado um ditador por outro. 

Após a guerra na Europa, a Inglaterra tinha dificuldades de manter a marinha. Estavam exaustos. Numa geração, duas guerras mundiais. O cidadão comum queria comida na mesa, não combater o restante da guerra no oceano Pacífico. 

Como reflexo, o partido de Churchill perdeu as eleições após a guerra. 

O primeiro-ministro seguinte foi o oposto a Churchill. Alguém sem grande destaque, nada de liderança forte. Povo queria sossego, não entrar na história. 

Fora do governo, aos 70 anos, Churchill voltou a ser escritor. Escreveu a História da Segunda Guerra. Novamente, sendo um dos protagonistas, escrevendo e participando da história. 

Após a guerra e com liderança do Partido Trabalhista inglês, não houve êxito na Inglaterra ao implantar o estado de bem-estar social. Em 1947, houve racionamento de comida e de energia. Cotas de carvão, comida, fábricas fechando, cotas de roupa. Até o sabão em falta. 

Algumas causas de problemas: empréstimos e gastos demais. 

Isso levou Churchill a pronunciar, famosamente, “O capitalismo concentra riquezas, socialismo reparte misérias”. 

Tal situação levou Churchill de volta ao cargo de Primeiro-Ministro, em 1951, ficando mais seis anos, até se licenciar por problemas de saúde. 

Conclusões

Se Churchill nunca tivesse existido, talvez a Inglaterra não estaria preparada para encarar Hitler. Talvez tivesse feito um tratado de paz em 1940, dando tempo e recursos para a Alemanha consolidar os territórios conquistados na Europa e marchar para leste sem a preocupação de dividir o seu exército. Os EUA não teriam entrado na guerra, ou entrariam muitos anos depois. O mapa geográfico da Europa seria outro, e talvez o Terceiro Reich existisse até hoje… 

Churchill atingiu seu ápice ao encarar Hitler, praticamente sozinho, e manejar a situação até conseguir virar o jogo. 

Sir Winston Churchill morreu em 24 de janeiro de 1965, aos 90 anos. 

O que a história de Churchill pode nos ensinar? Algumas pequenas reflexões. 

– Estudar muito. Ter um background literário e histórico imenso ajudou Churchill a escrever discursos, entender os inimigos e estratégias. 

– Manter a posição que acredita, de forma coerente. A maré vira a favor e contra, e houve tempos em que Churchill estava em baixa (era taxado de retrógrado, armamentista, beligerante). Porém, no final ele estava certo, e se destacou por isso. 

– Coragem para ousar e buscar riscos. Inovações como navio a óleo, o avião spitfire e tanques, valiosos tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra, demorariam anos a mais não fosse a visão e coragem de Churchill. 

– Aliados. Grande parte do sucesso de Churchill dependeu de alianças. Ele não poupou esforços ao voar para a Rússia de Stálin e os EUA de Roosevelt, para costurar alianças, e isso, com quase 70 anos! 

– Não ter vergonha de dar passos para trás. Churchill preferiu abandonar um cargo burocrático e sem importância para assumir um cargo menor na marinha, sendo ridicularizado por muitos. O conhecimento de campo e a pele no jogo mostraram-se de enorme valia no futuro. No final das contas, Churchill mudou o mundo, os que o ridicularizaram, não. 

Por fim, uma última mensagem de Winston Churchill: “Nunca, nunca, nunca desista”. 

Este conteúdo é um resumo baseado em “How Winston Churchill changed the world”, da série “The Great Courses”, além de outras fontes. 


Veja também: 

Churchill, o destino de uma nação: https://amzn.to/3aWCZHw 

O filme Dunkirk é sobre o resgate dos soldados britânicos na França. https://amzn.to/3eg4eia 

The Gathering Storm, filme sobre Churchill na HBO. 

A curva da Felicidade x Dinheiro

Uma pequena reflexão.

Não ter um mínimo de recursos é ruim, sem dúvida. Há uma correlação aqui: um estado de miséria é ruim, e vai melhorando proporcionalmente à uma renda: saúde, alimentação, moradia, educação, etc…

Entretanto, a partir de um certo ponto, não necessariamente mais vai ser melhor – virão outros problemas (muita pressão, exigências, medo de perder, entre outros).

Procure ficar na faixa ótima.

Trilha sonora: A Felidade – Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

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Eu nem estudei e consegui tirar 6

Um dos itens culturais que mais me estarrecem até hoje, em termos Brasil x Japão, é a questão de estudos.

No Brasil é uma vergonha estudar muito. Quem o faz é o nerd, o desajustado social esquisito. O descolado é ser o safo, estudar pouco e garantir o mínimo. Já presenciei frases como: “Eu nem estudei e consegui tirar 6”.

Na cultura oriental, não é vergonha estudar muito, e os alunos estudam para tirar 10, e não para tirar o mínimo. A vergonha é estudar pouco. Está mais para “Estudei que nem louco e tirei só 8,5”.

Não só Japão, mas Coreia e China também têm culturas semelhantes.

É lógico que não é tão preto-e-branco assim, há diferenças enormes entre as pessoas, mas eu quis ressaltar uma diferença cultural que percebo existir.

Para fechar, um pequeno poema escrito nos banheiros dos cursinhos:

“Enquanto você está cagando, tem um japonês estudando”.

Veja também:

Gráficos e Reflexões – Pequena vantagem, milha extra e políticos

Seguem algumas representações gráficas de ideias diversas.

O gráfico a seguir é baseado numa frase de Napoleon Hill, “O mundo recompensa quem está disposto a percorrer uma milha a mais”.

Sobre energia x dia da semana:

Sobre Políticos x Analistas

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Lei de Gérson

Comentário de colega meu: “No Brasil, você faz o certo, e é trouxa por causa disso. Lei de Gérson total.”

O que é essa tal “Lei de Gérson”?

Quem é mais novo não vai conhecer, mas Gérson foi um dos grandes jogadores da Copa de 1970, no México, da qual o Brasil foi campeão mundial. Excelente meia-armador, fazia lançamentos longos e precisos, era o “canhotinha de ouro”.

Eu não vi o Gérson jogar, mas vi ele comentar jogos de futebol na década de 90 em diante. Também tinha o apelido de “papagaio”, porque falava bastante.

Pois bem, o jogador protagonizou um comercial, nos anos 1970, em que dizia gostar de levar vantagem em tudo.

Da Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_G%C3%A9rson).

O entrevistador pergunta por que Gérson escolheu os cigarros Vila Rica. Ao iniciar a resposta, Gérson saca um maço de Vila Rica e oferece um cigarro ao entrevistador. Enquanto o entrevistador fuma seu cigarro Vila Rica, Gérson explica os motivos que o fizeram preferir aquela marca.

“Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”.

Mais tarde Gérson se disse arrependido por ter associado sua imagem ao anúncio, visto que qualquer comportamento pouco ético foi sendo aliado ao seu nome nas expressões Síndrome de Gérson ou Lei de Gérson.

Gérson continua sua carreira de comentarista, até os dias de hoje. Infelizmente, ele foi só um ator num comercial infeliz, sua postura na vida não lembra em nada a “Lei de Gérson”.

Eu, particularmente, acho a “Lei de Gérson”, o “jeitinho brasileiro”, algo ruim: dar um jeito de furar a fila, conseguir piratear algo e ainda se orgulhar disso, esse tipo de coisa.

Conheci uma pessoa que repetia, à exaustão: “Aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor do estatuto”, como se fosse algo bom. O correto seria exatamente o oposto, ter bons estatutos, e todos seguirem o mesmo, sejam amigos ou não – e é exatamente assim que acontece nos países desenvolvidos, o certo é certo, o trem sai exatamente às 18:15h, sem “quebrar o galho” de um amigo atrasado.

A frase a seguir não vai pegar nunca, mas vamos lá: “Bons estatutos para amigos e inimigos”.

Veja também:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/lei-de-gerson-como-surgiu-lei-da-vantagem-atribuida-ao-jogador.phtml

O instinto da fé

Alguns highlights sobre o livro “The Faith Instinct”, de Nicholas Wade.

O ponto principal do autor é que religiões representam uma vantagem evolutiva para a espécie humana – não pensando como indivíduo, mas pensando como grupo.

Há traços de religião desde 50 mil anos atrás, mostrando que o instinto da fé está desde então embutido no cérebro do ser humano.

Algumas vantagens: esperança em tempos difíceis, possibilidade de vitória mesmo sendo um oprimido (afinal, o último na Terra será o primeiro no paraíso), círculos mútuos de confiança, atividade comuns como dança.

A religião ajudou na seleção natural? Se não fosse importante, teria sido eliminada, entretanto todas as nações do mundo têm religião de alguma forma. E se isso acontece, é porque há benefícios para a sociedade.

É similiar à linguagem. Todos os povos do mundo têm linguagem. Cada uma evoluiu de forma diferente, porém, há predisposição mental do ser humano para ser capaz de se comunicar através de linguagem (ao contrário de leitura e escrita, ou matemática, que devem ser aprendidos por um longo tempo na escola). Tanto a linguagem quanto a religião só fazem sentido em um contexto social, em grupos.

Há maior coesão em grupos com religião comum. O indivíduo tem uma razão a mais para lutar pelo grupo. Há um paradoxo: o indivíduo perder a vida e a oportunidade de passar os genes adiante – porém, existe a teoria de que passar os genes de semelhantes do seu grupo é tão importante quanto.

Ao invés de seleção natural, pensar em seleção de grupos.

Em contextos de guerras, colheita ou obras, é necessária uma enorme uma coesão social para coordenar esforços e dividir recompensas. A religião pode ajudar a aumentar a coesão, a superar medo da morte e da insegurança em geral.

Não sabemos exatamente como decisões morais são tomadas. Não dá para mudar opinião da pessoa através de raciocínio puro.

Danos ao cérebro podem fazer pessoas agirem com menos moral. Ex. Chocolate em forma de cocô vai ser repugnante para muitos, exceto pessoas com distúrbio em uma determinada região do cérebro – o que mostra que há alguns gostos pré-programados.

Charles Darwin, junto à teoria da evolução das espécies, também especulou sobre teoria moral. Juntos, animais conseguem combater ameaças maiores. Porém, os membros do grupo não devem atritar entre si. O seguidor deve ter naturalmente um grau de submissão ao líder. Há uma hierarquia de poder – há posição social até em macacos. Há também troca de informação constante – pessoas em vilarejos fofocam sem parar.

Por que existem rituais exigentes em religiões? Para seguir a religião, há a necessidade de fazer sinais custoso em termos de tempo e sacrifício. Um dos objetivos é evitar aproveitadores, que só querem tirar vantagem sem contribuir. Outra, é estimular quem já está no grupo. Deve ser sinalização difícil de falsificar, ir para Meca, vestir indumentárias desconfortáveis. Existe um grau ótimo de exigência x benefícios.

A música também é um fator presente em todas as culturas, promove coesão e sincronia entre pessoas.
Até o Talebã, que baniu boa parte das religiões, permite cânticos musicais.

Também existe um link entre música e capacidade de atração sexual – desde o passarinho cantando até o rock star dos nossos tempos.

Religiões envolvem música, dança, linguagem.

Será que o autor está certo? Outra possibilidade é a diametralmente oposta: a religião é sub-produto da evolução, com pouco efeito no resultado final.

Seja como for, a religião é parte constante da humanidade, desde a idade das pedras até os dias de hoje!

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Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan por emprestar o livro.

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Contos de Esopo sobre cabeça nas estrelas, especialistas e trabalho

1) Um astrônomo era fascinado pelas estrelas, e vivia mirando o céu. Um dia, estava tão absorto em sua busca, que tropeçou e caiu num poço profundo. Ele ficou três dias pedindo socorro até ser resgatado.

Moral da história: Cabeça nas estrelas, pés no chão.

2) Um grande ilusionista fingia ter um porco debaixo de um pano. Ele grunhia e mexia o pano, imitando um porco. Será que havia mesmo um animal ali? No final da apresentação, ele mostrava que não havia nada debaixo do pano, e saía aplaudido.

Um matuto, vendo aquilo, resolveu imitar o grande ilusionista. No show seguinte, após a apresentação do mesmo, ele subiu ao palco para mostrar a mesma peça e se comparar ao mágico. Porém, desde o início, as suas roupas de caipira provocaram desprezo da plateia. Ele também fingia ter um porco debaixo de um pano, e ao apertar o pano, saía um grunhido.

  • Que peça horrível. Imitação péssima. O grunhido do mágico de verdade foi muito mais real – comentava a multidão.

Daí, ao levantar o pano, o caipira mostrou a realidade: havia um porco de verdade ali, responsável pelos grunhidos!

Moral da história 1: Há especialistas que nada entendem.

Moral da história 2: A narrativa é mais importante do que a realidade.

3) Um homem preguiçoso orava ao deus Hércules, todas as manhãs, pedindo bens e dinheiro. No resto do dia, ele nada mais fazia a não ser ficar parado, dormindo. Numa dessas, o deus Hércules apareceu em seu sonho.

O homem aproveitou para perguntar:

  • Hércules? Vai finalmente me ajudar?

Ao qual o deus respondeu:

  • Eu não consigo ajudar a quem não se ajuda.

Moral da história: Deus ajuda quem cedo madruga.

4) Um sapo muito metido se achava o maioria em tudo o que fazia. Um sapinho adolescente o desafiou a inflar e ficar maior do que os animais que passassem por ali. O sapão aceitou o desafio, e inflou mais do que qualquer outro sapo que apareceu. Porém, um boi foi beber água no rio. O sapo, então, inflou, inflou o máximo que pôde, mas ainda assim era muito menor que o boi. Insistindo, ele inflou, inflou mais ainda, até que, enfim, explodiu para todos os lados…

Moral da história: não tente ser maior do que os outros, seja você mesmo.

Trilha sonora: La vie en rose – Louis Armstrong
https://www.youtube.com/watch?v=8IJzYAda1wA

Veja também:

Um zoom out para ver mais longe

Um dos pensadores que mais admiro é Will Durant, autor de uma série de livros sobre a história da humanidade.

Num desses, ele dá um “zoom out” na história, e comenta que “imortais” não são imortais. Os clássicos da humanidade, digamos Shakespeare, podem parecer imortais na cabeça de nossa sociedade, mas essas obras têm apenas algumas centenas de anos. Uma Ilíada de Homero, uns poucos milhares, o que é quase nada perto da evolução do ser humano até os dias de hoje (uns 400 mil anos), e um traço desprezível perto da história do planeta – os dinossauros foram extintos há 300 milhões de anos atrás, e antes disso reinaram na Terra por 100 milhões de anos, só para efeito de comparação.

É como se Durant desse um zoom out no Google Maps, lembrando o quão pequena é a nossa escala: enquanto estamos olhando para as ruas, ele olha para os países e continentes.

Algumas ponderações.

  • O Ocidente tem a tendência de ser imediatista, valorizar o que é jovem e traz resultado agora. Mais interessante é a visão de países orientais, como o Japão e a China, que olham para o longo prazo.
  • Existe algo mais curto prazista do que o Ebitda trimestral? Ficar cobrando resultados trimestrais causa distorções estruturais, já que é sempre mais importante mostrar o resultado agora do que arrumar definitivamente algum problema. No Oriente, é o oposto, o pensamento é em termos de gerações, como se fôssemos apenas uma etapa: o bastão está conosco, mas será entregue para outros em futuro próximo;
  • 35 destaques menores do que 35. Vira e mexe, alguma revista tem um jovenzinho numa capa como essa, valorizando conquistas meteóricas e possivelmente efêmeras. Como diria o autor Austin Kleon, prefiro uma lista de 80 destaques acima de 80 anos;
  • Numa empresa, cargos vão e vêm, são ilusões. O que interessa, no final do dia, é a capacidade real de gerar valor. Um habilidoso funcionário vai ter facilidade de se recolocar bem em outro lugar e performar com excelência, independente de cargo nominal;
  • Podemos controlar o processo, mas não o resultado. Sun Tzu: A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Ou, como diz a sabedoria popular, o ataque ganha um jogo, mas a defesa ganha o campeonato;
  • CEO do ano: as revistas adoram eleger super-heróis, mas esses não existem. Por trás da figura da capa, há uma série enorme de profissionais invisíveis, que realmente fazem um organismo complexo como uma empresa ou um governo funcionarem;
  • Motivação x Disciplina. A motivação dura pouco tempo. É só a ignição. Para obter resultados sustentáveis, é necessário transformar a motivação em rotina, e criar disciplina para perseguir o objetivo. O estudo deve ser constante, a dieta não deve deslizar, o treino às 5 da manhã não pode durar apenas uma semana.

Os juros compostos vão fazer toda a diferença no final. Seja a tartaruga do conto de Esopo.

Olhe para o global, para o longo prazo. Dê um zoom out em sua vida.

Veja também:

O Mulá Nasrudin sobre gerações futuras e diplomas de Harvard

As histórias do Mulá Nasrudin são divertidas, mas ao mesmo tempo fazem a gente pensar. Seguem mais algumas.


Essa geração está perdida

Um transeunte, numa conversa com o Mulá Nasrudin, discorria:

  • A geração atual é realmente muito ruim, nem se compara à geração anterior. Eles são mimados, molengas e se comportam de forma pior do que há tempos atrás.

Da qual, Nasrudin respondeu:

  • É claro. Os jovens da geração anterior éramos nós!

(Uma boa dica para os casados)

Nasrudin estava lendo cópias de cartas antigas à esposa.

Um amigo passou e perguntou:

  • Você faz isso para evitar se repetir?

Nasrudin respondeu:

  • Na verdade, não. Faço isso para evitar me contradizer!

Preocupações

O barbeiro perguntou a Nasrudin, “Como você perdeu o seu cabelo?”

“Preocupação”, respondeu o Mulá.

“Preocupação com o que, exatamente?”, perguntou o barbeiro.

“Em perder o cabelo”, respondeu Nasrudin.


A fileira perdida

Após o intervalo na apresentação do teatro, o Mulá Nasrudin e sua esposa estavam voltando aos seus lugares.

“Eu pisei no seu pé quando estávamos saindo?”, o Mulá perguntou a um homem no início da fileira.

“Certamente sim”, respondeu o mesmo, esperando um pedido de desculpas.

Nasrudin virou para a esposa: “Querida, a nossa fileira é essa mesmo”.


O doutor e seus diplomas

Quando jovem, o Mulá Nasrudin trabalhava atravessando pessoas por um rio, com o seu pequeno e velho bote.

Um dia, um homem de alta classe apareceu para ser transportado. Conversa vai, conversa vem, e o aristocrata soltou o seguinte comentário:

  • Tenho doutorado no MIT e especialização em Harvard. Sei falar 5 línguas e já viajei por todos os continentes. Tenho um emprego público vitalício. Se quiser ser alguém na vida, estude, garoto. O que você sabe fazer?
  • Você sabe nadar, doutô? – retrucou Nasrudin.
  • Não, nunca aprendi. Por quê?
  • Porque este bote velho está furado, e vai afundar daqui a pouco. Já vou indo, tchau!

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Custo de setup x tempo de produção: das óperas de Wagner ao TikTok 

Na indústria, o custo de setup refere-se ao custo de preparar o maquinário para a produção. Normalmente, quando a indústria troca o tipo de produto, deve refazer o setup das máquinas. 

O tempo de produção deve ser proporcional ao custo de setup. Digamos, se eu demorar 2 horas para mudar a configuração do maquinário, a produção deve durar algumas horas. Se, nesse caso, a produção for de apenas 5 min e tiver que mudar o setup novamente, parece haver algo estranho, vai ter mais setup do que produção.

É muito claro o paralelo das afirmações acima com a duração das obras do cinema. 


Por que o Anel dos Nibelungos tinha 15 h de duração? 

Nos anos 1850, não existia mídia gravada, todas as performances tinham que ser ao vivo. Pior, não existiam carros automotivos, o transporte tinha que ser a cavalo. Nesse contexto, uma ópera era, além de entretenimento, um encontro social caro. Imagine a nobre família von Flinstones, que tinha que preparar os 7 filhos para uma viagem de 6h de carruagem, da fazenda até a cidade, para acompanhar uma ópera de Richard Wagner, digamos o “Anel dos Nibelungos”.

O custo de setup era muito alto, então a ópera também deveria “valer a pena”: durar o dia todo, ou vários dias, a fim de justificar a viagem – daí esta estar dividida em 4 partes, com duração total de 15h. Uma ópera de 15 segundos seria impensável, não valeria a pena. 


Filmes de cinema tem cerca de 2h de duração 

Avançando 100 anos no tempo, 1950, temos cinemas e automóveis. Mesmo assim, a família Simpson, de classe média, deve preparar os 3 filhos para sair de casa, deslocar-se ao cinema e aguardar a sessão – o setup demora algumas horas. É um custo de preparação bastante menor do que no caso anterior, mas mesmo assim, os filmes devem ter de 2 a 3 horas de duração. Um filme de 1954, como “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa, tem mais de 3 horas de duração, por exemplo. 


TikTok, alguns segundos de duração 

Mais quase 100 anos, nos dias atuais, a família Jetson tem 1, no máximo 2 filhos, cada membro da família tem um celular ou um computador, e o custo de setup é esperar alguns segundos. Ninguém precisa se arrumar ou sequer sair de casa, para consumir entretenimento. Nesse contexto, o custo de setup é baixíssimo. Por isso, um vídeo de 15 segundos, normalmente engraçado, curioso ou polêmico, cumpre a função de entreter e não tomar muito tempo do espectador – que pode ir para o próximo vídeo similar. Um TikTok de 15h de duração é impensável nesse contexto. 

Diminuir o custo de setup tem o efeito de aumentar a variedade da produção final, seja na indústria, na ópera, no cinema ou nas mídias modernas! 

Veja também:

O que é e qual a importância dos dígitos significativos?

Eu sempre pego no pé das pessoas que trabalham comigo, quando vejo um número do tipo R$ 11.786.954,34. Eu pergunto: “A sua projeção tem erro na casa dos centavos?” “Mas fiz a conta e deu isso” – É uma resposta comum, à qual, acrescento: “A questão não é a conta estar correta, são os dígitos significativos”.

Dígitos ou algarismos significativos são, como o próprio nome indica, os dígitos que contém significado físico. Cada caso vai ser diferente, porém, no caso acima, era uma projeção, e dizer aproximadamente R$ 11,79 milhões fazia muito mais sentido do que especificar até os centavos.

Quando estamos lidando com fenômenos do mundo real, como medições, estimativas e projeções, há uma série de erros naturais, como:

  • Imprecisão na medida: exemplo, se estamos medindo com uma régua comum, a precisão vai ser de milímetro – não faz sentido especificar em milésimos de milímetro, porque não vai ter como alguém reproduzir tanta precisão.
  • Variação natural, incertezas: no caso da informação que estamos transmitindo sofrer variação devido a algum fator, como o dólar subir ou descer um pouco, a temperatura influenciar no comprimento medido, etc.

O curioso é que esse erro é tão comum, que até grandes instituições econômicas o cometem. Exemplo, o Índice Global de Felicidade (crédito aqui ao autor Vaclav Smil, vi esse comentário num dos livros dele).

Este é um índice que tenta mensurar a felicidade de um país, e supostamente é algo que deveria ser mais importante do que o PIB.

Segue o índice de 2020, onde o valor é medido numa escala de 0 (infeliz) a 10 (feliz). Fonte: https://worldpopulationreview.com/country-rankings/happiest-countries-in-the-world.

Os primeiros países são os nórdicos Finlândia, Dinamarca e a Suíça. Aí, nas manchetes do mundo todo, vai estar escrito: A Finlândia é o país mais feliz do mundo, seja lá o que isso for.

Aí vem a pergunta: o que significa 0,2 pontos de diferença entre Finlândia e Dinamarca? Será que se eu falar com um finlandês e um dinamarquês eu vou notar que um é 0,2 mais feliz que o outro?

Esse índice é obtido a partir de uma pesquisa, com uma amostra da população (eu particulamente nunca fui entrevistado).

O Brasil está na posição por volta de 30 dessa lista. O BR está no primeiro quartil de felicidade, dentre os cerca de 150 países. A Argentina está em 55. Chile, 42. Venezuela, 109.

Os mais infelizes são países pobres da África e o Afeganistão.

É muito claro que é melhor viver na rica e bela Finlândia do que num país miserável governado por uma ditadura sanguinária como o Zimbábue, e que o índice tem o mérito de tentar mensurar um fator importante para a nossas vidas. A crítica aqui é o uso de duas casas decimais – os países poderiam estar agrupados em categorias, por exemplo – mas aí não dá belas manchetes.

Diz o site que cerca de 2000 mil pessoas são entrevistadas por país. Se a pesquisa der o azar de entrevistar duas pessoas infelizes, é suficiente para responder pelo 0,2 de diferença!

Anote aí: No dia 18/03/2022, o índice mundial de felicidade relativo à 2021 será divulgado, e a imprensa do mundo todo vai divulgar uma informação que não faz o menor sentido: o país X, provavelmente nórdico ou a Suíça, certamente europeu, é o país mais feliz do mundo, seja lá o que isso for.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/World_Happiness_Report

https://pt.wikipedia.org/wiki/Algarismo_significativo

https://worldhappiness.report/faq