Cisnes Verdes e Inova Klabin

Tecnologia da Automação / Projetos Analíticos marcando presença no #InovaKlabin 2022!

Tema: #Sustentabilidade.

Foram cinco trilhas de imersão em experiências, desde a floresta até novos produtos, para clientes, fornecedores e amigos.

Destaque para a palestra de John Elkington, sobre “Cisnes Verdes”.

O meu autor favorito dos tempos modernos é Nassim Taleb, que popularizou o termo “Cisnes Negros”: eventos de baixa probabilidade, porém com impacto enorme. Tendemos a subestimar este tipo de evento e, a retrospecto, dizer que era totalmente previsível – vide crise de 2008.

Quando falamos “cisne negro”, vem à cabeça um evento negativo. Um cisne verde é similar, porém, é um evento positivo do ponto de vista ambiental: tecnologias e métodos que podem se desenvolver de forma sustentável, progresso exponencial na forma econômica, social e ambiental.

Uma única empresa de carros elétricos, por exemplo, não é um “cisne verde” – este conceito é mais global e geral. As empresas e instituições assim são um “patinho feio” – inspirado no conto de Andersen, sobre patinhos feios virarem belos cisnes.

Etapas para chegar aos cisnes verdes: Rejeição (isso não vai funcionar nunca), Responsabilidade por novas soluções, Replicação em larga escala, Resiliência da nova solução e Regeneração (sistema de consumo de recursos totalmente circular).

Veja também:
https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

Você prefere confiar no Google ou nos seus olhos?

Um caso interessante aconteceu comigo.

Estava com um colega, procurando por um restaurante, numa dessas viagens.

Nos dias de hoje, colocamos o endereço no Google Maps para nos guiar. Chegando lá, o lugar estava fechado, talvez por ter encerrado atividades, ou algum outro motivo qualquer.

O meu colega, indignado. “Que estranho, aqui no Google está dizendo que o restaurante está aberto”.

Meio grosseiro, mas disparei: “Você prefere confiar no Google ou no que você está vendo?”

No fundo, essa é uma crítica à dependência por tecnologia. O melhor metaverso possível é a vida real…

A Lei de Gall

Sabe aquele sistema perfeito, pensado nos mínimos detalhes para resolver todos os problemas de alguma área da empresa? Pois é, ele nunca vai existir. Muito menos, se for construído do zero.

“Um sistema complexo desenhado do zero nunca funciona e não pode ser remendado para fazer funcionar” – John Gall, no livro Systemantics.

Um sistema complexo (que funciona) necessariamente evoluiu de um modelo simples que funciona.

E esses modelos simples são simples porque necessariamente focam em aspectos mais relevantes do negócio e deixam outros de fora, ou a serem resolvidos por outros, ou com regras sub-ótimas.

Sempre penso em algumas situações que corroboram a Lei de Gall:

  • Sistemas que só funcionam em PPT, e na prática o analista roda o resultado que quer por fora (ex. tinha um de roteirização que conheço assim, por conta de várias restrições não mapeadas no software). Mas, no PPT e no discurso, é o supersistema que está rodando
  • Gente (principalmente TI) criticando as minhas inúmeras planilhas simples (que bem ou mal rodam até hoje e estão evoluindo)
  • Antigamente, existia um desejo de colocar tudo dentro do SAP ou o sistema ERP equivalente. Hoje, migrou o foco para a nuvem, e aí vem esse desejo de ter tudo na nuvem. Nem tudo precisa ser dentro do SAP ou da nuvem, principalmente sistemas simples em processos em evolução
  • Como saber o que funciona ou não, o que realmente é importante ou não? O que detalhar a fundo e o que deixar mais geral? O melhor jeito é testando contra a realidade, e deixando os resultados falarem por si

Juntando camadas e camadas de modelos simples, depois de um tempo, temos um modelo bastante complexo e funcional.

A Lei de Gall está em enorme acordo com a visão que tenho da realidade, e contra PPTs de consultorias estratégicas, startups que querem redesenhar o mundo inteiro.

Um último exemplo é a evolução das espécies. O ser humano não foi projetado desde o início para ser como é hoje. Foi um processo evolutivo, gradual de descobertas e adaptações simples, passo a passo, excruciantemente longo, até chegar aos dias atuais – e continua evoluindo.

Portanto, tenha a Lei de Gall como referência para trabalhos futuros.

Veja também:

Scott x Amudsen: a conquista do Polo Sul

Recomendação de podcast, com dois gigantes: Malcown Gladwell (Outliers, David e Golias) e Tim Harford (O Economista Clandestino).

O tema: a corrida pela conquista do Polo Sul. De um lado, o britânico Robert Scott, de outro, o norueguês Roald Amudsen, no começo dos anos 1900.

Expedição de Amudsen – Fonte: https://www.scientificamerican.com/article/south-pole-discovered-december-14-1911/

Os exploradores tinham abordagens completamente diferentes.

  • Scott, herói badalado pela mídia, cheia de inovações mirabolantes (como utilizar pôneis)
  • Amudsen, low profile, pouco conhecido, chegou a dizer que ia ao Polo Norte para despistar atenção

Gladwell cita a semelhança de Scott com startup badalada do Vale do Silício, cheia de ideias e com enorme financiamento.
Porém, o dinheiro não vem sozinho. Com isso, opiniões, interferências, pressão. Exemplo é que o navio quase afundou, de tanta carga que levava.

Já Amudsen apenas queria chegar ao Polo Sul da maneira mais simples e eficiente possível – como se fosse um empreendedor desconhecido. Utilizou os tradicionais cães, para transporte de trenós, por exemplo.

Quem seria estúpido o suficiente para utilizar pôneis (morreram todos) no Polo Sul, quando o tradicional é utilizar cães? Talvez os mesmos que hoje proclamem as vantagens do blockchain para problemas que um banco de dados simples resolveria.

Amudsen venceu a corrida, no final das contas. Eu achei a analogia interessante, ainda mais vindo de dois grandes nomes do pensamento da atualidade.

Link: Podcast Cautionary Tales:
https://omny.fm/shows/cautionary-tales-with-tim-harford/how-would-you-dine-with-scott-or-amundsen-malcolm

Veja também:

4 segredos do mundo corporativo prático

Algumas breves reflexões acerca do mundo corporativo.

1 – Um bom projeto não termina

Projetos, pela própria definição, têm começo, meio e fim. Ok, então isso quer dizer que vamos acabar o trabalho, entregar o projeto, e ficaremos desempregados? Sob essa ótica, então devemos postergar o máximo possível, correto?

Errado. Devemos entregar sempre o melhor trabalho possível e respeitar os prazos combinados.

Um bom trabalho entregue vai gerar inúmeros outros. Ideias de melhoria do próprio trabalho. Necessidade de mudanças devido à alguma atualização. Confiança do cliente para a contratação do próximo projeto. É um jogo colaborativo de longo prazo.

É muito satisfatório ver um trabalho rodando. Essa é a maior recompensa.

2 – Toda vantagem competitiva é temporária

Qualquer seja a vantagem competitiva que uma empresa, área ou indivíduo têm, elas serão temporárias.

Uma vantagem tecnológica dura muito pouco. Desde o surgimento até virar commodity, são poucos anos.

Vantagem em conhecimento de processo são mais duradouras. Porém, ou os processos mudam, ou as pessoas mudam, e as necessidades mudam.

Inovações de mercado podem tornar o que roda bem hoje obsoleto.

Isso quer dizer que:

  • Devemos explorar ao máximo as vantagens atuais. Por exemplo, o grande investidor Ray Dalio afirma que gasta algumas centenas de milhões de dólares por ano em estudos, e isso lhe dá uma vantagem mínima em frente ao mercado. Explorar essa vantagem mínima tornou o seu fundo de investimentos o maior do mundo.
  • Devemos estar em constante evolução. Sempre estudando, trabalhando forte, sempre em contato com as pessoas que rodam os processos.

Saiba que toda vantagem competitiva é temporária. Não se acomode sobre suas glórias, sempre busque evolução. Explore bem suas vantagens atuais, plantando sementes para vantagens futuras.

3 – Provas de conceito não servem para nada

Já que temos que inovar e evoluir, temos que testar um monte de alternativas e fazer várias provas de conceito, correto? Parcialmente. Realmente, temos que testar formas diferentes e melhores de trabalhar. Só que testar por testar não vai gerar resultado real.

Cansei de ver provas de conceito se tornarem o fim de si mesmas. Não é isso, as provas de conceito devem ter a finalidade de virarem inovação real, rodando na operação.

É muito fácil entregar provas de conceito envolvendo soluções novas, com as tecnologias da moda e prometendo ganhos acima dos atuais. É muito menos atrativo e extremamente mais trabalhoso entregar de fato algo que rode de verdade, mas é aí que realmente geramos valor.

4 – Não olhe para a posição formal, olhe para o que a pessoa faz na prática

Conheci um gestor de outra área que só dava bola para a posição das pessoas. Quanto maior o cargo, gerente, diretor, mais atenção ele dava, e desprezava completamente o corpo técnico e pessoal de apoio.

Essa abordagem tem vários problemas:

  • A chave para o sucesso ou fracasso do trabalho pode estar em alguém do corpo técnico ou de apoio, dado o conhecimento ou a competência real desses. E a competência real é o que importa, no final das contas
  • O mundo dá voltas, e quem hoje está numa posição subalterna pode ocupar um cargo diretivo futuramente
  • Não despreze as pessoas, isso é falta de educação básica

É como olhar só para a roupa que a pessoa está usando, e não para o que ela é. Tem um conto muito engraçado do mulá Nasrudin, sobre o tema: https://ideiasesquecidas.com/2020/07/10/os-amigos-do-cargo-e-os-amigos-da-pessoa/.

Uma dica é nem querer saber sobre essas relações formais de poder. Esquecer que existem cargos. Guiar-se totalmente pela execução real.

Bônus – Sobe e desce de profissões chiques

Lembro de uma época, uns 15 anos atrás, em que o petróleo do pré-sal tinha acabado de ser anunciado, a Petrobrás parecia ser a empresa mais atraente e inovadora do Brasil, e ser especialista em geologia ou em algo ligado ao tema “petróleo” era a profissão mais demandada do mundo.

A pessoa que começou a perseguir o tema quando estava no topo só acabou a especialização depois que o boom já tinha passado.

É como apostar no mercado financeiro olhando para notícias de jornal: todo ano uma empresa diferente está em alta e algumas empresas tradicionais estão em baixa. Aí o “sardinha” compra empresas no boom, vende empresas no vale, e sempre sai perdendo no timing.

Profissões quentes vêm e vão. Há poucos anos, era atrativo trabalhar em startups. Ganhar pouco, trabalhar muito, em busca de um sonho de valorização exponencial futuro, que pode ou não vir.

Minha sugestão é ignorar totalmente os modismos, e, usando a analogia do mercado financeiro, partir para a análise fundamentalista.

No que eu sou bom de verdade? O que gosto de fazer? É algo que terá uma demanda razoável no futuro? Este trabalho agrega valor de verdade à sociedade?

Não tentar adivinhar o topo. Fazer o trabalho que gosta, que é bom, de forma consistente e sempre em constante evolução. E, um dia, o topo chegará.

Veja também:

Glossário – Indústria 4.0

Para fechar a série de posts sobre Indústria 4.0 e a Feira de Hanover, um glossário de termos chave.

Tentei explicar com minhas palavras e ser o mais direto possível. Há muito mais termos específicos, porém, espero que o glossário ajude a dar uma ideia geral.

OT: Operations technology, tecnologia de automação e controles fabris, em contraste ao IT (information technology em geral)


Convergência IT – OT: A OT é completamente diferente de IT tradicional. Devido ao aumento do número de dispositivos e de aumento de integração, há uma demanda enorme de convergência entre esses mundos


IOT: Internet das coisas. Dispositivos pequenos capazes de fazer medições (temperatura, vibração, umidade, etc) e enviar dados para a nuvem periodicamente

Cobots: Robôs colaborativos. A diferença é que o cobot não substitui o ser humano, e sim, funciona integrado


Dark Factory: Fábrica totalmente automatizada, sem a presença de pessoas

RPA: Robot process automation. Ao invés de robôs que fazem movimentos físicos, são algoritmos que automatizam processos (extração de dados, manipulação, preenchimento de informações, etc)

Closed loop of information: Informações de ponta a ponta da cadeia disponíveis para tomada de decisão

Zero trust security: Em cybersegurança, arquitetura em que o usuário deve ser continuamente autenticado, validado, para cada aplicação e dados

Chart of trust: grupo de fornecedores e reguladores em cybersegurança, para troca rápida de informação

Advanced Analytics: camada de Analytics que foca em aplicações complexas de otimização, simulação computacional, AI, tomada de decisão na cadeia, etc

Digital Twin: modelo de simulação que reflete acuradamente um processo físico, e com alimentação de dados em tempo real e feedback de tomada de decisão

Edge computing: computação feita nas pontas, próximo à aplicação, com computadores pequenos – lembra um Raspberry Pi ou Arduíno, com a diferença de que estes últimos são caseiros.

Manutenção preditiva: manutenção baseada em previsão e probabilidade de falhas, a partir de medições feitas em tempo real. Contrasta com manutenção corretiva (depois que deu problema) e preventiva (feita periodicamente, em prevenção)


Manufatura aditiva: impressoras 3D, onde o material é adicionado filamento a filamento. Contrasta com manufatura subtrativa (material é retirado) e técnicas tradicionais de usinagem

ML Ops: machine learning and operations. Conjunto de práticas para desenvolver e operacionalizar rapidamente modelos de machine learning. Isso porque um dos erros mais comuns que existem é criar uma prova de conceito onde tudo funciona, mas não é escalável para a operação, seja por problemas de licença, infraestrutura, ou skill necessário

Revisão: Bruno Cambria.

Veja também:

Impressoras 3D – Feira de Hanover

No bloco sobre peças e materiais, da Feira de Hanover 2022, havia uma série de expositores com peças tradicionais e estudos diversos de materiais.

Um destaque interessante foram as impressoras 3D, que tiveram uma evolução enorme nos últimos anos.

Também é chamada de Manufatura Aditiva, pelo material ser adicionado filamento a filamento. Contrasta com Manufatura Subtrativa (onde o material é retirado, também tem o nome CNC – controle numérico por computador) e técnicas tradicionais de usinagem.

Materiais diversos utilizados como filamento: kevlar, fibra de vido, aço. Foto tirada na feira de Hanover

Algumas notas:

•Evolução forte de impressoras 3D nos últimos anos

• Atualmente é possível utilizar materiais como fibra de vidro, kevlar e até metais como aço, cobre e alumínio. Uma aplicação possível é em peças de reposição. Ao invés de ter estoques, imprimir a peça. Há fornecedores que já entregam a peça com o desenho.

Cubo mágico feito em 3D – Foto tirada na Feira de Hanover

•Aplicação em prototipagem rápida e em estoque de peças

•Não basta comprar, é necessário ter especialistas em desenho das peças e técnicos para as impressoras

•Podemos escanear uma peça qualquer para usar? Quem tem os direitos autorais do design?

Protótipo de snowboard – Foto tirada na Feira de Hanover
Peças impressas em 3D – Foto tirada na Feira de Hanover

•Foco inicial em peças de baixo valor agregado, por questão de qualidade e confiabilidade

•Concorre com técnicas tradicionais de manufatura de peças

Carro de corrida impresso em 3D – havia um vídeo mostrando como cada peça foi feita – Foto tirada na Feira de Hanover

Até agora, impressoras 3D foram utilizadas a princípio para prototipagem inicial. Agora, cada vez mais, a mesma vem sendo capaz de realmente produzir peças para operação de verdade.

Veja também:

Guten Tag, Hannover!

I’m attending the #hannovermesse2022, in Germany. It is the most important industrial fair of the world, with more than 5.000 expositors and 200.000 visitants from all around the world, including we, from Brazil.

Some technological trends and curiosities:

– Every year there is a partner country. This year is Portugal

#iot is not only sensors anymore. Current solutions integrate sensors, transmission, data storage in cloud, also training algorithms, in order to have an almost plug and play solution

– Energy and #sustainability continue to be very hot topics, and Germany takes if very seriously. In the route between Frankfurt and Hannover, I saw at least a dozen wind turbines, for example

– A closed loop of information is a trend: seamless integration of several internal and external sources of information, to facilitate data mining and insights. Also, integration of information along the supply chain

– The noble area of #operationsresearch is also present: Google showed a case of optimization of data centers. Modern data centers are estimated to consume around 1,8% of the energy of the world. There are huge fluctuations in the demand and also in weather conditions, affecting costs and sustainability. Using OR techniques, they’re able to double the energy efficiency of their data centers.

– Hannover is a wonderful city, with a mix of green areas, modern city and historical architecture. With less than 1 million inhabitants, it has a fairly good structure of trains, easy even for tourists like us.

Danke, Hannover!

See also:

Como a maçã virou abóbora

No livro “After Steve: How Apple Became a Trillion-Dollar Company and Lost Its Soul”, o jornalista Tripp Mickle, do Wall Street Journal, investiga o que vem acontecendo com a Apple pós Steve Jobs: virou uma máquina de fazer dinheiro, mas perdeu a magia.

O livro foca em duas pessoas: o criativo designer Jony Ive e o eficiente novo CEO Tim Cook, e como o primeiro acabou definhando em importância até a sua saída.

A Apple, com Jobs, destacou-se por estar na intersecção artes e tecnologia.

Nenhum nome representa tanto o lado “arte” da Apple quanto Jony Ive, que era considerado como o “parceiro espiritual” de Jobs. Ele começou trabalhando com Jobs no projeto do iMac. Se deram muito bem, desde então. Se a Apple precisava de um hit, Ive entregava, independente de custos: o design na frente das finanças.

Jony Ive acabou sendo a segunda pessoa mais importante da Apple. Respondia direto a Jobs. Ive complementava Steve. Paciente, focado, ao contrário do chefe. Teve papel importante no segundo ato da Apple, ao se envolver no design do iPhone, iPod, iPad entre outros.

Com Jobs e Ive, o design era maior do que a engenharia. Com Tim Cook, o oposto.

É de conhecimento geral que Tim Cook é o atual CEO da Apple, e após um período de desconfiança, fez a empresa se tornar a mais valiosa do mundo, tendo atualmente inimaginável valor de mercado de 1 trilhão de dólares.

Cook teve a habilidade de navegar no mundo pós-Jobs. Entre outras ações, abriu caminho para Apple na China, e teve uma participação maior no mundo da política.

A Apple de Cook começou a deixar o design de lado, e ser guiada cada vez mais pelos números. Eficiência, baixos custos, ganhos de escala, supply chain. Negociadores em destaque, espremendo fornecedores e garantindo centenas de milhões a cada contrato. Finanças na frente do design.

A Apple continuou tentando inovar, porém sem o mesmo impacto do iPhone. Alguns produtos pós-Jobs.

  • Apple Watch. Uma das apostas da empresa é em wearables, como o relógio. Destaca-se a mudança de foco, de tecnologia para moda chique com relógios caros e personalizados. Ao invés de ser tecnologia premium, o mais barato produto de amanhã, agora concorria no setor de moda.
  • Aquisição do Beats e desenvolvimento dos fones sem fio Airpod.
  • O Apple Maps, clone do Google Maps, foi um fracasso.
  • Apple Music. O iTunes, na sua concepção original, foi um divisor de águas. Porém, o surgimento do streaming de música, com um acervo infinito por uma mensalidade pequena, fez a Apple lançar o seu próprio serviço. Onde Jobs inventava, agora Cook copia. Não há nenhum diferencial importante que torne a Apple Music superior ao Spotify, por exemplo. Apesar disso, atingiu fatia importante do mercado.
  • Carro autônomo da Apple, com grande expectativa? Vem sendo um experimento sem fim.
  • Outra ideia é uma versão Netflix da Apple – se vai vingar ou não, não sabemos.

A Apple de Cook é eficiente. Com as vendas do iPhone estáveis, como ele poderia fazer para extrair mais dinheiro dos já convertidos? Houve uma guinada, de produtos para serviços, aproveitando o ecossistema de fãs da Apple. Icloud, Music, App store.

Com Cook, houve aumento de importância das áreas operacionais, e Jony Ive ficou sendo apenas mais um no time. Uma hora decidiu sair. Para evitar publicidade negativa, a Apple ofereceu a ele o título de Chief Design Officer, e ocupação de meio período, mas na prática, ele estava exausto.

Ive foi sendo cada vez mais escanteado, até finalmente pedir as contas, em 2019.

A Apple de Cook, eficiente, lucrativa e chata, está cada vez mais parecida com a Microsoft. Os rebeldes viraram o sistema. 1984 cada vez mais parecida com 1984. Os piratas viraram a marinha.

Bateu o relógio da meia-noite, e a magia acabou. A maçã virou abóbora.

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Trilha sonora: Joan Baez, Love Minus Zero/No Limit

Veja também:

Use a IA só na máquina de lavar

Há 15 anos, num dia como hoje, eu estava tendo aulas de redes neurais no mestrado em Eletrônica, na Coppe UFRJ.

Naquela época, a melhor redes neural que conseguíamos fazer tinha 3 camadas e uma dúzia de neurônios por camada. Entretanto, já era um campo promissor, para visionários.

Perguntei ao meu professor: “Você confiaria numa rede neural para dirigir um carro ou fazer uma operação médica?”

A resposta foi algo como: “Colocar IA numa máquina de lavar, sem problemas. Agora, para situações importantes, não”.

A IA teve uma evolução exponencial desde então. Saiu do inverno para o verão, com avanços em pacotes computacionais (PyTorch, TensorFlow), novas técnicas (convolucional, transformer), e até em hardware (como GPU e TPU).

Entretanto, a resposta continua valendo.

A IA atual é uma caixa-preta: entra um monte de dados e sai uma decisão. Talvez seja uma caixa mais poderosa, mas a essência é a mesma.

O problema de uma caixa-preta é que ela vai funcionar extremamente bem, uns 98% dos casos, até o dia em que vai dar problema. E, se o dispositivo controlado for numa grande indústria, ou um carro autônomo, será um problema catastrófico, daqueles que põe em risco a confiança no trabalho todo.

Tanto é que uma das linhas de pesquisa mais importantes dos dias de hoje é o Explainable AI: abrir um pouco da caixa, entender de alguma forma o que está acontecendo, mesclar o poder da rede neural com regras explícitas.

E outra linha quente de pesquisas é a Ética em IA: de quem será a culpa, no caso de um atropelamento? Do fabricante? Do usuário que confiou no veículo? Da caixa-preta que ninguém sabe interpretar? Do engenheiro que treinou o algoritmo? Haverá auditoria de algoritmos, por parte do governo? São perguntas difíceis de responder.

De qualquer forma, é melhor seguir o conselho do meu professor: utilize AI em processos não críticos, no seu equivalente da máquina de lavar.

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Os números não mentem, de Vaclav Smil

Vaclav Smil é um dos autores favoritos de Bill Gates. Smil é um grande especialista em energia, e também um polímata que escreve sobre diversos assuntos aleatórios, sempre embasado com muitos, muitos números.

O livro “Os números não mentem – 71 histórias para entender o mundo” contém uma série de artigos curtos e cheios de insigths sobre a sociedade, energia e meio-ambiente.

Quatro pontos ilustrativos do livro, em poucas frases, só para dar uma ideia do conteúdo.

  1. A Lei de Moore é uma bênção e uma maldição. A Lei de Moore, aquela que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, mantidos os custos constantes, é o que está por trás da evolução exponencial da computação que vimos nas últimas décadas. Entretanto, existe a parte “maldição”: aumentar as expectativas de todo desenvolvimento tecnológico, quando na verdade, outras tecnologias têm o seu próprio passo. Onde estão os carros elétricos e autônomos, a cura individual do câncer, os dispositivos que leem comandos diretamente do nosso cérebro?

Gosto muito da postura de Smil. Sou bastante realista. Não sou advogado de “toda inovação é exponencial” de caçadores de unicórnios imaginários, como o pessoal da StartSe e de pensadores tipo Ray Kurtzweil.

  1. Vidros isolantes. Nos EUA e União Europeia, edifícios são responsáveis por 40% do consumo de energia. Aquecimento e ar-condicionado respondem por metade deste consumo. Uma solução simples é utilizar janelas com duas ou três camadas de vidro, preenchidos por um gás como argônio, reduzindo a transferência de energia da janela de 6 watts por m² para cerca de 0,6 – 1,1.

É uma solução simples, que aumenta o conforto dos habitantes e diminui consumo de energia. Melhor ainda, pode ser feito hoje, sem grande tecnologia – porém tão simples que não entra no radar de grandes inovações do Vale do Silício, à caça de milhões de dólares em financiamento para salvar o mundo.

  1. Navios elétricos. Grande parte do que temos em casa veio de algum outro lugar do mundo, provavelmente por transporte marítimo. Por que não temos navios porta-contêineres elétricos?

Existe um navio elétrico previsto para entrar em operação, o Yara Birkeland. Porém, este terá capacidade para apenas 120 TEUS (unidade de volume), enquanto navios modernos convencionais carregam de 200 a 400 vezes mais do que isso!

Para efeito de comparação. Um navio moderno queima 4.650 toneladas de combustível para uma viagem de 31 dias. Um navio elétrico equivalente, com as melhores baterias possíveis, teria que carregar 100 mil toneladas só de baterias, tornando inviável esse tipo de operação.

A densidade de energia das baterias teria que melhorar mais do que 10 vezes para começar a entrar numa faixa viável. Porém, em 70 anos, a densidade de energia nem sequer quadruplicou, o que mostra que vamos ter que conviver com o diesel por muito tempo!

  1. Amônia. Os químicos no final do séc. XIX descobriram que o nitrogênio é o macronutriente mais importante no cultivo agrícola. Outros são fósforo e potássil, além de vários micronutrientes. Uma forma de incorporar os macronutrientes no solo era através da compostagem (folhas, dejetos humanos e animais) ou através da rotação de culturas, com plantas que contém bactérias capazes de fixar nitrogênio no solo.

O processo Harber-Bosch, meados de 1930, possibilitou a criação industrial de amônia (NH3) através de alta pressão e alta temperatura – nitrogênio do ar, com gás natural, além de muita energia, que também pode vir do gás natural. Desde então, a produção de amônia passou de 5 milhões de toneladas/ano para 150 milhões nos dias de hoje! Sem fertilizantes, seria impossível aumentar a produtividade agrícola – de 650 milhões de ton de cereais/ano para 3 bilhões de ton.

Atualmente, é preocupante a perda de nitrogênio não utilizado (cerca de 47%) através de volatilização e lixiviação.

Ainda será necessário muito nitrogênio para as safras futuras, e soluções propostas são aumentar eficiência de fertilização e reduzir desperdício de alimentos, entre outros.

Conclusão

Além dos tópicos citados, há vários outros extremamente interessantes, como mortalidade infantil como indicador, o ano de 1880 da eletricidade, óleo diesel, energia eólica. Conforme ilustrado, Smil escreve sobre diversos temas com senso crítico e propriedade, sempre amparado por números e estimativas. É uma mente brilhante, que vale a pena acompanhar.

“Eu aguardo o próximo livro de Vaclav Smil como quem espera o próximo filme de Star Wars” – Bill Gates.

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https://www.gatesnotes.com/Books/Numbers-Dont-Lie

Como utilizar o Efeito Multiverso a seu favor 

Uma forma de explorar ao máximo o seu negócio é criando um universo, ou mais de um, um multiverso. 

Os filmes da Marvel Comics são sucesso mundial nos dias de hoje – vide o Avengers:Endgame, que fechou um arco de narrativas interconectadas, custou a fabulosa soma de $ 400 milhões e faturou $ 2,8 bilhões, se tornando o filme de maior renda bruta da história. 

O comecinho da Marvel, nos anos 60, introduziu uma série de inovações em relação aos concorrentes de pulp comics da época.  

A primeira foi ter personagens humanos e falíveis – o Homem-Aranha é um garoto azarado, sofre bullying na escola, vive sem dinheiro, tem um chefe ranzinza e é criado pela tia; já o Super-Homem tem superforça, voa, visão de raios X e é, basicamente, perfeito. 

Uma segunda inovação foi o crossover entre títulos: o Hulk aparece numa edição do Quarteto Fantástico, o Dr. Destino ataca os Vingadores, o Wolverine aparece numa edição do Hulk e depois é aproveitado nos X-Men, etc. Um verdadeiro universo de personagens, um multiverso.  

O universo de um único personagem, por melhor que seja, vai ter um limite. 

O multiverso confere profundidade aos títulos como um todo, além de usar o bom momento de um para alavancar o outro. Não à toa, é um recurso amplamente explorado até os dias atuais, vide o arco de filmes citado. 

O crossover pode não ser tão fácil de fazer. Uma das questões envolve direitos autorais. No caso da Marvel, como todos os personagens eram da editora (e não dos roteiristas e desenhistas), isso foi possível. Um contraexemplo são os personagens da Image Comics, editora surgida nos anos 90, onde todos os direitos pertencem aos autores. Na Image, cada título é individualmente bem-sucedido, porém, uma iniciativa conjunta torna-se extremamente mais difícil, porque envolveria negociações a cada inclusão no multiverso. 

Pois bem, como usar o Efeito Multiverso para bombar o seu produto ou serviço? 

1. Criar conceitos próprios inovadores. A matéria prima inicial é ter produtos ou serviços de qualidade, conceitos e ideias novas, criar personagens e dar nomes às suas criações. 

2. Cruzar conceitos novos com antigos. A cada nova ideia ou aplicação, referenciar os conceitos já abordados anteriormente. Também é válido associar-se a outros criadores, e fazer crossovers. 

3. Calibrar o “Ponto ótimo de inovação”. Uma quantidade enorme de informação nova não agrada às pessoas. A mesma história de sempre, também não. O ponto ótimo é partir de algo familiar, mas incorporando alguma novidade. Não à toa, séries de streaming começam com alguns poucos personagens e narrativa simples, e à medida que os episódios vão passando, novos personagens e tramas paralelas vão surgindo. 

O autor Jim Collins usa bem a técnica descrita. Num artigo sobre “flywheel”, ele referenciou livros anteriores (como o “Good to Great”) e conceitos anteriores (“Hedgehog”), entre outros. 

Use o Efeito Multiverso a seu favor. O mundo precisa de imaginação. 

Veja também: 

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia 

https://ideiasesquecidas.com