Lançamento do Plano de Ação de Internet das Coisas

A Internet das Coisas terá certamente um efeito imenso num futuro não tão distante. Uma excelente notícia é que o Brasil tem um plano para acelerar a implementação dela. Este estudo foi liderado pelo BNDES, e se chama “Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil”.

Estive no lançamento oficial do plano, na Futurecom 2017, agora em 03 de outubro de 2017.

A seguir, um breve resumo do resultado deste plano. O estudo final, que é público, pode ser acessado neste link.

https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

 


 

O que é Internet das Coisas?

 

Se hoje temos a internet, que conecta pessoas, no futuro teremos sensores cada vez menores e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, locais de interesse.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT):

Internet das Coisas é uma infraestrutura global para a sociedade da informação, que habilita serviços avançados por meio da interconexão entre coisas (físicas e virtuais), com base nas tecnologias de informação e comunicação.

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Casos considerados no estudo do BNDES

Segundo Michael Porter, a IoT é “a mudança mais substancial na produção de bens desde a Segunda Revolução Industrial”.

Nota: a Revolução Industrial é o momento em que a humanidade passou a utilizar, cada vez mais, máquinas para automatizar o serviço humano. Sempre há uma tecnologia disruptiva por trás dessas revoluções:

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Há várias tentativas de mensuração do efeito da Internet das Coisas. Pela McKinsey, o ganho potencial é de 4% a 11% do PIB do planeta em 2025, o que significa 4 e 11 trilhões de dólares.

 


 

Benefícios à sociedade

Mas, somente conectar dispositivos por conectar não leva a nada. Isto tem que servir para alguma finalidade, e tem que servir preferencialmente às pessoas.

O estudo teve como guia os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Estes são uma espécie de sonhos globais. Como são muitos, destaco alguns como: cidades sustentáveis, energia limpa e acessível e educação de qualidade.

http://www.itu.int/en/sustainable-world/Pages/default.aspx

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“The United Nations’ Sustainable Development Goals (SDGs) and associated targets will stimulate action until 2030 in areas of critical importance for humanity”

O papel da Internet das coisas dentro do contexto de desenvolvimento sustentável está descrito no quadro a seguir:

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Frentes prioritárias verticais

O estudo analisou oportunidades de negócios para IoT no Brasil e no mundo por ambientes, e identificou 4 frentes prioritárias de atuação:

  • Cidades
  • Saúde
  • Rural
  • Indústria

 

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Tais frentes foram chamadas de verticais.

 


 

Frentes prioritárias horizontais

As frentes horizontais envolvem barreiras comuns a todos os ambientes verticais. Também são 4 frentes, e representam os maiores gargalos para a implementação de IoT no Brasil:

  • Capital Humano,
  • Inovação e inserção internacional,
  • Ambiente regulatório, segurança e privacidade
  • Infraestrutura de conectividade

 

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Ações

O estudo se aprofundou nas priorizações horizontais e verticais, chegando a

  • 48 iniciativas, e
  • 3 projetos mobilizadores

 

detalhados nos tópicos a seguir.

 


 

Iniciativas

 

O estudo levantou, juntamente a especialistas e representantes dos setores, cerca de 200 iniciativas. Após refinamento com BNDES e MCTIC e Câmera IoT, chegou-se a 48 iniciativas.

 

As iniciativas mapeadas serão foco de aprofundamento nos próximos 5 anos, cada qual com a sua governança e detalhamentos específicos.

As iniciativas foram divididas em três tipos: Ações estruturantes, Medidas e Elementos catalisadores.

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Por alto:

  • Ações estruturantes: alto impacto, decisões pelo alto escalão dos órgãos do estudo
  • Medidas: Médio impacto, decisões no nível gerencial
  • Elementos catalisadores: alto impacto, não estão sob a governança do projeto (ex. melhoria da educação básica)

Como são muitas iniciativas, vou colocar algumas somente para ilustrar.

 

Iniciativa A1: Estruturar 4 Redes de Inovação em Rural, Saúde, Cidades e Indústria

Iniciativa M1: Promover congressos e eventos sobre IoT nos ambientes priorizados e fomentar a discussão de IoT em conferências, congressos e fóruns de discussões já existentes dos ambientes priorizados

Iniciativa A8: Fomentar bolsas mestrado, doutorado e pós-doutorado em parceria com empresas que estejam desenvolvendo IoT

Iniciativa A17: Priorizar soluções que se valham de protocolos e interfaces de comunicação padronizados por órgãos reconhecidos como ITU, IEEE, ETSI, etc

A lista completa encontra-se no site do BNDES.

 


 

Projetos Mobilizadores

Além das iniciativas, foram elencados três projetos mobilizadores: Formação de ecossistema de inovação, Observatório de IoT, IoT em Cidades

 

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  • Ecossistema de inovação: rede de empresas consolidadas, startups e centros de competência
  • Observatório de IoT: Acompanhamento de iniciativas e acesso à informação sobre mecanismos de fomento
  • IoT em Cidades: Apoio técnico e financiamento para a adoção de IoT em cidades

 


 

Conclusão

A IoT tem um potencial disruptivo enorme. O pano de fundo desta nova revolução é o desenvolvimento tecnológico, resumido pela Lei de Moore, conforme este link.

Com muita probabilidade, alguma solução que será disruptiva no futuro nem está sendo contemplada atualmente.

Está havendo uma autêntica corrida armamentista global pelos provedores de solução IoT – um exemplo são os novos protocolos de redes SigFox x Lora x LTE-M. Quem vencerá? Ninguém sabe…

O BNDES acerta na mosca ao dar um empurrãozinho para que o IoT decole no Brasil, tentando eliminar gargalos  e fomentando o desenvolvimento de novas tecnologias.

Vamos acompanhar (de perto) as cenas dos próximos capítulos.

 

 

 

 

Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil

Participei recentemente de uma reunião no BNDES sobre Internet das Coisas, representando a minha empresa. As reflexões a seguir são um misto do material do BNDES (público), com ideias minhas.

 


Tecnologias disruptivas

Hoje, em 2017, há uma série de tecnologias que prometem ser disruptivas num futuro próximo: mobilidade, automação, cloud, veículos autônomos, impressoras 3D. A Internet das Coisas é uma dessas aplicações disruptivas, em qualquer lista de tecnologia que se preze.

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O que é a Internet das Coisas?

A computação evolui tremendamente nas últimas décadas.

Nos anos 1920, o matemático Alan Turing pensou sobre computação, o que poderia ou não ser computado, e provou resultados importantes: uma máquina de Turing universal era capaz de calcular qualquer coisa computável, ou seja, o mesmo computador poderia fazer uma tarefa, digamos somar, e trocando os estados internos, poderia executar outra tarefa, digamos dividir. Foi um trabalho totalmente teórico, mas embasou o salto posterior, o do computador eletrônico.

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Até os anos 1950, pioneiros como John Von Neumann desenvolveram os primeiros computadores, somente para aplicações militares como cálculo de trajetória de mísseis, simulação de Monte Carlo para o projeto da Bomba H. Os computadores eram em substituição às “computadoras”, que nada mais era do que uma sala cheia de mulheres, fazendo contas com lápis e papel, com a supervisão do trabalho final por um matemático.

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Na década de 60 e 70, surgiram os mainframes, computadores gigantes, ocupando grandes salas de corporações, e os usuários com um terminal “burro” de tela verde (curiosamente, com a ideia atual de “cloud”, estamos de volta a este modelo dos supercomputadores e terminais burros).

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Nos anos 80 e 90, tivemos a revolução dos computadores pessoais. Ao invés de um computador do tamanho de uma sala, surgiram computadores pequenos o suficiente para termos em casa. O famoso Apple II foi um dos primeiros PCs da história, rivalizando com a arquitetura da IBM. Também tivemos a explosão do software, dos sistemas operacionais Windows e Apple, Bill Gates x Steve Jobs.

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No final dos anos 90 e anos 2000, tivemos a explosão da internet. Os computadores pessoais agora passaram a ser conectados em rede. Uma pessoa poderia criar conteúdo novo e divulgar numa página, que seria indexada por um buscador como o Google. As pessoas podiam se comunicar facilmente com outras, via e-mail, chat. Podíamos trocar arquivos através de protocolos específicos.

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Nos anos 2000, 2010, tivemos uma explosão de mobilidade: celulares, tablets, dispositivos portáteis. Mais comunicação ainda, não estávamos mais presos a um computador num local fixo, agora podemos acessar o Facebook e o Google de qualquer lugar. A comunicação não estava mais restrita a voz, agora podemos ter conexão via texto, vídeo, imagens, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

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O pano de fundo disto tudo é o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, traduzido elegantemente pela Lei de Moore: a cada 18 meses o número de transístores num dispositivo dobra (ou seja, a capacidade de processamento dobra) ao mesmo custo. Na prática, temos dispositivos cada vez menores, cada vez mais poderosos, cada vez mais baratos. Um celular moderno, que cabe no bolso, é mais poderoso que um PC antigo (que cabe numa mesa), é mais poderoso que um mainframe antigo (que cabe numa sala).

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Ilustração da Lei de Moore

Hoje em dia e nos próximos anos, haverá cada mais sensores pequenos e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, talvez pessoas.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

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O estudo do BNDES

O estudo do BNDES ainda está sendo realizado, porém há alguns resultados parciais. Este estudo entrevistou uma miríade de pessoas, coletou dados e fatos, analisou também o posicionamento de outros países, para levantar as principais oportunidades, desafios e áreas prioritárias para fomentar o desenvolvimento da IoT no Brasil.

Este material é público e está disponível em: http://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

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As áreas prioritárias do Brasil são indicadas no mapa acima. Pelo Brasil ser um país exportador de commodities, o setor Rural desponta com muito potencial de ganho. A seguir, o setor de Saúde e o de Cidades. Para essas frentes prioritárias, em conjunto vem o papel das fábricas e indústrias de base.

 


Oportunidades

Na prática, quais as aplicações úteis?

Os infográficos a seguir contém várias ideias interessantes.

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Há uma história atribuída a Henry Ford, o empresário que fundou a companhia de veículos de mesmo nome. Ele teria dito que “se os usuários de carroça fossem questionados sobre melhorias futuras, eles desejariam carroças mais rápidas”.

 

É mais ou menos isso que ocorre hoje, só somos capazes de visualizar soluções no framework mental de quem já vive o presente: mais monitoramento, mais controle, mais forecast, mais decisões autônomas. Ninguém sabe exatamente qual será a verdadeira aplicação disruptiva que surgirá da evolução da IoT. A história é não linear. Ninguém conseguiu prever com dez anos de antecedência o surgimento de um Google, um Facebook, um Waze, um Uber, entretanto estes surgiram e revolucionaram nosso modo de ver o mundo.

 


Alguns desafios

Nem tudo são flores, obviamente. Alguns dos desafios são tão grandes que não conseguem ser resolvidos pela tecnologia em si.

  • Mão de obra qualificada. Por um lado, o Brasil tem 13 milhões de desempregados. Por outro, há uma dificuldade imensa na contratação de pessoas qualificadas, principalmente no interior do Brasil.
  • Infraestrutura de conexão: é muito caro conectar esses dispositivos à rede (GPRS, satélite, wi-fi, etc), ainda mais no setor rural, onde as distâncias são enormes e a infraestrutura, precária
  • Ambiente regulatório e de negócios: como devem ser os mesmos, a fim de permitir ganhos?
  • Fomento de pesquisa sobre o tema: como incentivar os mesmos?
  • Segurança e Privacidade: a disponibilidade de dispositivos em rede pode trazer outros problemas, como invasão por hackers. Como evitar este tipo de coisa?
  • Padronização de tecnologias?
  • Custos dos sensores?

Detalhando o aspecto sobre a mão de obra. Cada vez mais, a tecnologia vai substituindo os trabalhos braçais e rotineiros. Os primeiros alvos: aqueles trabalhadores que são verdadeiros autômatos humanos, como os operadores de telemarketing, que não são pagos para pensar: estes seguem um script ditado pelo sistema. Ou motoristas, que simplesmente levam cargas e pessoas de um ponto A para um ponto B.

Há 100 anos, quando o mundo era muito mais agrário, a produtividade do melhor lavrador do mundo não era tão maior do que o do pior lavrador do mundo. Cada braço a mais contava muito, porque não havia escala. Hoje em dia, um trator com um operador produz muito mais do que 50 pessoas conseguiriam no passado.

Cada vez mais, uma minoria altamente qualificada vai produzir muito, e uma massa gigantesca de pessoas terá pouco valor a contribuir.


Conclusões
Há um potencial disruptivo gigantesco em IoT. Porém, este não é um fim em si. O fim é utilizar a IoT para aumentar a produtividade, diminuir custos, melhorar o meio-ambiente e o bem estar final da sociedade. Ainda há um longo e tortuoso caminho a percorrer.

Toda tecnologia segue a curva tecnológica a seguir.

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Quando a tecnologia surge, no começo da curva, é o sonho, a sensação, vai dominar o mundo, vai provocar a paz mundial (ou a destruição da humanidade).

Depois de um tempo, descobre-se que a tecnologia tem limites. É muito boa, gera ganhos elevados, mas não vai destruir o mundo nem fazer a gente alcançar o Nirvana.

Chega uma fase de maturidade, onde esta tecnologia já não é mais sensação. E vão surgindo ondas de evolução desta tecnologia cada vez mais madura.
É análogo à dialética Hegeliana, de tese-antítese-síntese.

Áreas como a Pesquisa Operacional, Estatística, Eletrônica e Computação tradicional já passaram por esses ciclos, e hoje são tecnologias bastante maduras. São elas que dão resultado no mundo de hoje, são as vacas leiteiras, enquanto tecnologias como o IoT, cloud, são os sonhos potenciais.

Há uns 100 anos atrás, as tecnologias disruptivas que passaram por este ciclo eram a eletricidade, os veículos, as locomotivas.

Há uns 200 anos, a revolução industrial: máquinas a vapor, máquinas de tecer.

Há uns 500 anos, eram os navios, a conquista dos mares.

Há uns 3 mil anos, era o arco e flecha.

Há uns 10 mil anos atrás, a tecnologia disruptiva era a agricultura e a tração animal.

Com a IoT será a mesma coisa: haverá um bom caminho de promessa para realidade, e quando esta chegar, veremos que vai servir para muita coisa, mas não promoverá nem a paz mundial, nem exterminará a humanidade.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2017

 

Veja também:

Lançamento oficial do plano de ação de Internet das Coisas

 

 

 

 

 

 

Apenas mais um ferreiro na cidade

Um ferreiro como outro qualquer

Imagine-se na Idade Média. E imagine que a sua profissão é de ferreiro. É o ofício que você aprendeu desde pequeno, é o que você gosta e que sabe fazer. Imagine também que você mudou-se para uma nova cidade, e vai começar a exercer o seu ofício de ferreiro nela. O problema é que a cidade nova tem dezenas de outros ferreiros, e você será apenas mais um ferreiro na cidade.

 

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Um caminho possível é o de tentar fazer igual ao que todos os outros ferreiros fazem, e através de muito esforço ser reconhecido como um grande ferreiro após muitos anos ou décadas de trabalho.

Outro caminho é o ferreiro inovar. Criar novos produtos, para novas aplicações. Fazer produtos dezenas de vezes melhores do que os existentes. Uma carruagem melhor.  Uma espada mais forte e mais barata. Um processo produtivo com menos perdas.

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Se o ferreiro conseguir fazer isso, ele vai se tornar a referência da cidade nesta nova técnica. Será um ferreiro diferente, e o retorno virá em proporção direta ao valor que ele agregará com estas novas ideias.


 

Caminhos
Se você percorrer o mesmo caminho já trilhado por outros, vai chegar exatamente no mesmo lugar que outros já chegaram. Não dará um passo além disso.

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Ou, como diz o educador financeiro Bastter, “Como você espera chegar num resultado diferente se faz a mesma coisa que todo mundo?”


 

Como inovar de forma eficaz?

A inovação é a vantagem competitiva para o novo ferreiro. Este blog foi feito para os ferreiros que pensam diferente.
Há diversas ideias, ferramentas e metodologias sobre inovação. Gosto muito do visão de Design Thinking: centrada no usuário, divergência e convergência, prototipagem rápida, lean, etc.

Há diversos posts já publicados aqui, e muitos outros seguirão.

Arnaldo Gunzi

Jan 2016

 


 

Nota final

Nada haver com as ideias acima, mas a título de curiosidade.

O deus grego dos ferreiros era um cara chamado Hefesto. Feio, manco, tosco, mas extremamente competente no que fazia.

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Hefesto era casado com Afrodite, a deusa do Amor e da Beleza. Afrodite era linda, sensual, ardente, pecadora. Zeus fez Afrodite casar-se com Hefesto, muito feio e quadradão, como punição para ela. Ela gostava mesmo era de Ares, o deus da Guerra.

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Afrodite (Vênus), Zeus (Júpiter), Ares (Marte) eram protagonistas no Olimpo, e até viraram nomes de planetas. https://ideiasesquecidas.com/2014/05/22/planetas/

Hefesto era um coadjuvante importante.

 

 

 

Bento Koike, o Samurai da Inovação

Um dia, eu estava no Porto de Paranaguá, fazendo uma visita. Neste dia, vi uma estrutura gigante – uns 80 metros – sendo transportada. A pessoa do porto me disse que eram pás eólicas. Elas vinham de Sorocaba e tinha que ter todo um processo especial de transporte para conseguirem chegar ao porto. Olhei bem, e realmente, parecia uma pá de ventilador. Mas era como um Gulliver olhando para uma pá de ventilador do país de gigantes.

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Anos depois, tive o privilégio de assistir a uma palestra de Bento Koike, no clube Nippon, da qual faço parte. Koike é simplesmente o criador da pá gigante que vi em Paranaguá. Ele é um dos inúmeros empreendedores que encabeçam a inovação e tornam este planeta um lugar melhor. Alguns pensadores, como Nassim Taleb, afirmam que os empreendedores são os grandes herois da humanidade. Empreendedores pensam diferente, têm a coragem de assumir riscos enormes. A grande maioria quebra no meio do caminho, e os poucos que são bem sucedidos normalmente permanecem anônimos. Além de tudo isto, depois de serem bem-sucedidos têm que sustentar uma carga tributária enorme e serem taxados de “exploradores”…
 

A Tecsis é uma empresa brasileira. É 100% baseada em inovação tecnológica, algo muito muito difícil num país como o nosso. Pegue as maiores empresas do país, vai ver ali minério de ferro, aço, petróleo, soja, bebidas, carne, etanol, celulose – ou seja, commotidies. 

 


Bento Koike e suas origens

Bento Koike nasceu numa família de descendência japonesa. O seu avô contava que era dono de pequenas posses de terras no Japão, mas veio ao Brasil correndo atrás de um sonho de um lugar melhor. Chegando ao Brasil, ele teve que trabalhar no campo, de enxada na mão. Ele teve que engolir o orgulho e o prestígio que tivera no passado, para começar a plantar as sementes do futuro.

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Décadas depois, Bento se formou no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e começou a carreira de pesquisador. Desenvolveu peças para a indústria aeroespacial no Brasil, ajudando o país a entrar no seleto grupo de países capazes de ter tal tecnologia.

Koike conta como passou por péssimos bocados na década de 80. A empresa de peças fornecia muita coisa para o governo. A inflação era galopante, chegando a 80% por mês. O governo atrasava os pagamentos, e ou era aceitar o pagamento sem correção ou brigar na justiça por mais um ano para receber. Por outro lado, sempre era necessário pagar tudo em dia. Foram tempos difíceis.


 

A Tecsis

A história da Tecsis começa numa viagem fracassada à Dinamarca. Depois de uma reunião não muito boa, Koike resolveu aproveitar o tempo na Europa para conversar com uma das autoridades mundiais da energia eólica, Aloys Wobben. Wobben disse que não estava contente com o atual fornecedor de pás, uma empresa alemã. Conversa vai, conversa vem, e três horas depois, Koike voltava da Europa com um capital de milhão de dólares e financiamento para compra de matérias primas. (Nota: é óbvio que para convencer um grande especialista a fazer isto em três horas, o cara tem que ser muito bom tecnicamente).

 
Olha só. Ele, que tinha ido à Europa apenas com um sonho na cabeça, voltava com a missão de construir do zero algo melhor do que uma empresa aeronáutica alemã já estabelecida. Além disto, tinha que enviar a pá para a Europa, e ser mais barato do que o concorrente alemão que estava ali do lado. Um desafio enorme.
 

Bento diz que o grande limite é aquele imposto a si mesmo. Devemos ter sonhos, e principalmente acreditar em nós mesmos para fazer este virar realidade.

 
Alguns meses de trabalho depois, a Tecsis entregava suas primeiras pás. O prof Wobben, ao ver o produto final, disse: “Não posso acreditar. Esta pá é a melhor coisa que já vi na minha vida. Tem a harmonia de um salão de dança”.

 
Uma pá de ventilador parece algo trivial. Mas o formato da pá é aerodinâmica pura. É a diferença entre um aproveitamento energético bom e um péssimo aproveitamento. A parte mais crítica do projeto do gerador eólico é a pá. Além da tecnologia, é necessária muita criatividade.

 
Hoje a Tecsis já forneceu pás para a geração de energia equivalente a duas usinas de Itaipu. Quase 100% das pás são para exportação, para países desenvolvidos. 50% das pás para os EUA. A pena é que, até a pouco, nenhuma das pás era para o Brasil. Só nos últimos anos é que tem havido encomendas nacionais.

 


Fechando o ciclo
Após muitos anos de trabalho e todo o reconhecimento mundial, Koike foi convidado a fazer uma apresentação no Japão. Ele contou a história do avô, citada acima. E ficou pensando. Por que nem o seu avô, nem outros conhecidos da época, voltaram ao Japão após passar por imensas dificuldades no Brasil? Talvez seja porque eles tivessem vindo atrás de um sonho. Não poderiam voltar para o país da onde saíram com as mãos abanando, sem trazer nada.
 

Sendo convidado a apresentar seu trabalho no Japão, ele se sentia como se estivesse fechando um ciclo, que começara há tanto tempo atrás. Ele vinha trazer o resultado de dezenas de anos de trabalho e de cooperação entre dois países tão distintos, com culturas tão fantásticas e pessoas tão diversas. E Koike pôs-se a chorar, agradecendo a oportunidade, e convidando todos os participantes a seguirem os seus sonhos, e a também fecharem os seus ciclos.

 

Arnaldo Gunzi

Ago/2015

 

Killer application

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Hoje participei de uma reunião, com vários diretores da empresa discutindo cenários e fazendo contas de vários milhões de reais (numa grande empresa, é fácil esses cenários passarem de milhões). E qual o software que este pessoal utilizou? Matlab para cálculos numéricos multidimensionais? R, para modelagem estatística pesada? Java ou C++? É claro que não. Eles usaram o bom e velho Excel. E este fato se repete em TODOS os níveis de uma empresa, desde o analista que necessita de algum controle até o CEO.

É impressionante como um software pode ser tão onipresente.
O Excel tem duas características principais: 1 – É extremamente intuitivo para o ser humano trabalhar em duas dimensões, acrescentando a complexidade que quiser e modelando conforme a sua cabeça mandar; 2 – É um software extremamente poderoso, permitindo funções extremamente elaboradas e macros para automação de processos.


Mas o Excel não é a primeira planilha eletrônica da história. Esta honra cabe ao Visicalc, feita para o Apple II.
O Visicalc é o que podemos chamar de “Killer application”: a melhor aplicação, a melhor faixa do disco. Como não poderia deixar de ser num mundo onde a lei de Pareto impera, o killer app sozinho já justifica todo o investimento. Muitas empresas compraram o Apple II só por causa do Visicalc.

Dizem que o cara que criou o Visicalc teve a inspiração numa aula. O professor fez uma série complicada de relações financeiras na lousa. Após fazer o modelo, ele mudou um parâmetro, e teve que recalcular a tabela inteira, com apagador e giz.

Sendo o criador do Visicalc mais um cientista da computação do que um empresário, ele não teve a ambição de dar passos muito maiores, dando espaço para concorrentes melhores surgirem pouco tempo depois: Lotus 1, 2, 3, e, é claro, o Excel.


Dica: em todos os trabalhos que você for entregar, descobrir qual o “killer app”. Não apenas fazer o trabalho que foi encomendado, mas procurar responder: Qual a principal função deste trabalho? Que gargalo ele vai resolver? O que o cliente (ou o chefe) quer de verdade?

Arnaldo Gunzi
Março 2015

Veneno e remédio

Paracelsus disse que diferença entre o veneno e o remédio é a dose.

Estendendo o raciocínio, há coisas destrutivas que servem para construir.

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Depois que o raio X foi descoberto, notou-se que o local sujeito a uma forte exposição do mesmo sofria queimaduras, degradava.

Pesquisadores de câncer do início do século passado não tinham remédio nenhum à disposição. Mas eles notaram que, nos casos em que o câncer começa em um alguns pontos concentrados, era possível aplicar o raio X somente neste ponto, causando uma destruição controlada. Foi o início da radioterapia.

No processo de inovação, também é importante ficar atento ao que deu errado.

Dica de leitura. O imperador de todos os males. Siddhartha Mukherjee.

Ressonância Magnética divertida

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Quem tem crianças pequenas sabe como é difícil lidar quando elas não querem fazer algo.

Por outro lado, basta alguma coisa ser lúdica para que todas as crianças se interessem. Por exemplo, em alguns lugares  há carrinhos de supermercado que imitam um carro, com volante e tudo. É 100% de certeza que a minha filha quer andar num desses, quando vê. E normalmente é muito concorrido, porque um monte de crianças também quer andar num simples carrinho de mercado lúdico.

Doug Dietz era designer de produtos da General Eletric.

Ele tinha orgulho das máquinas de ressonância magnética que ele tinha projetado, eram as mais avançadas do mundo. Mas, acompanhando alguns procedimentos reais, ele notou que as crianças ficavam aterrorizadas com o equipamento. Era um túnel frio, sombrio, estranho. 80% das crianças tinham que ser sedadas para fazer os exames.

Doug resolveu testar outra solução. Procurou pessoas da área educacional, e transformou a máquina de ressonância magnética em uma aventura na ilha pirata, conforme as fotos acima.

Funcionou. A taxa de crianças sedadas passou a ser de 10%. Algumas até achavam a aventura divertida, e queriam voltar outro dia.

Este é o valor de entender o cliente.

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Há outro princípio do Design Thinking envolvido aqui, o de Empatia.  Isto significa ir à campo, ver como as pessoas interagem com o seu trabalho e se colocar no lugar delas, ao invés de simplesmente entregar um trabalho. Pode até parecer algo óbvio, mas na prática as pessoas não fazem – e por isso, há tantos produtos e serviços mal projetados neste mundo.
A história da ressonância divertida foi contada no livro “Creative Confidence”, de Tom e David Kelley.


 

Veja também:

Design de Serviços

Little Bits

Mapa do Site

 

 

Escola acadêmica x Vida real

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Sir Ken Robinson tem um vídeo famoso no TED, onde argumenta que a escola, nos moldes tradicionais, atrapalha a criatividade.

Ele conta uma história apavorante: se fosse pela escola, Paul McCartney nunca teria sido músico.

O professor de música de Paul, no ensino médio, nunca dava notas boas para ele, nem notava nenhum talento diferente.

Outro Beatle, George Harrison, teve o mesmo professor alguns anos depois, e era a mesma coisa: nenhum destaque, notas medianas, aluno mediano.

Imagine só. Os Beatles são a banda mais legal e bem sucedida do universo. Um cara tem metade dos Beatles em sua aula de música, onde ele supostamente seria o especialista do assunto, e dá nota 5 para eles!!

Agora, a minha experiência. Sou alguém que estuda muito. Leio um livro por semana, no mínimo. Sempre fui assim.
Porém, na época da escola, eu fui ensinado que a escola tem as respostas. Existia o certo e o errado. Se a resposta não fosse igual à das soluções do final do livro, estava errada.

Por anos, eu seguia o mesmo processo. Dado um problema novo, eu sempre procurava extensivamente em livros se alguém já tinha pensado e resolvido aquilo. Depois disso, analisava as soluções que encontrava e começava a pensar.

Mas este processo está errado. O ideal é começar a pensar antes de procurar outras soluções. Imaginar, desenvolver, ao invés de copiar.

Na vida real, há coisas que dão certo e que dão errado. Mas esta fórmula não está escrita num livro. O conhecimento de hoje pode estar ultrapassado amanhã. E é a vida real que dá o veredicto final, não a escola.

Se Paul McCartney tivesse sido influenciado pelas notas do professor de música, talvez ele tivesse ido trabalhar como mão de obra na indústria. Não existiriam os Beatles. O mundo seria mais triste, ao ser privado de músicas como Yesterday, Hey Jude, The long and winding road, Sgt Pepper, Yellow Submarine…

Arnaldo Gunzi
Jan/2014

Bônus: Yesterday é a música mais regravada da história, com mais de 2000 regravações.

Inovação na IDEO

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O IDEO é uma das melhores empresas do mundo em inovação e design de produto.
O vídeo “Ideo Deep Dive” mostra o processo criativo aplicado na reinvenção de um carrinho de supermercado, em uma semana. Vale a pena dar uma olhada.

Alguns insights podem ser úteis para aplicação no dia-a-dia.

Ambiente: informalidade, roupas casuais, bicicleta pendurada no teto, espaço de trabalho lúdico
Ambiguidade entre o Modo Criança (divergência de ideias) e o modo adulto (convergência de ideias)
Caos focado: Brainstorming, intensa geração de ideias divergentes, que depois convergem em protótipos funcionais

Time multifuncional: designer, engenheiro, linguista, Mba, num lugar sem chefia nem hierarquia – extrema “polinização cruzada”
Consulta a “real experts”: usuários comuns, do mundo real

Neste ambiente, a ideia é “Pedir desculpas ao invés de pedir permissão” – faz primeiro, vê se alguém ficou ofendido depois
Estimulo a falhar com frequência – pode-se tentar, tentar, tentar, não tem problema em falhar ou o resultado ser ridículo

Os fundadores da IDEO, Tom e David Kelley, têm alguns livros sobre o seu processo de inovação, e o “Design Thinking” – geração de valor atrás do design.
Não à toa, Steve Jobs era um dos grandes clientes da IDEO.

Nem tudo pode ser emulado em ambientes de trabalho diferentes com objetivos diferentes, mas certamente alguns destes insights podem ser úteis no dia-a-dia.

A Lei de Moore e o futuro da Apple

Moore

Gordon Moore foi um dos fundadores da Intel, e um dos precursores da revolução digital das últimas décadas. Nos anos 70 predisse uma lei, que se mostra aderente à  realidade até hoje.

Computadores são feitos de microchips, que são transistores e outros componentes eletrônicos empacotados. Moore percebeu que a tecnologia de miniaturizar e integrar esses componentes ficava cada vez melhor e conjecturou que o poder computacional dobraria a cada 18 meses, para o mesmo custo. Observe que esta função é exponencial, implicando que os computadores depois de alguns anos seriam várias ordens de grandeza melhores que as versões antigas.

A Lei de Moore passou a ser ao mesmo tempo uma meta a ser atingida. Não só da Intel, mas da indústria em geral. Esta lei predisse com notável  acuracidade o poder dos computadores vindouros. Hoje em dia, um smartphone que cabe no seu bolso tem poder computacional maior do que os melhores computadores de décadas atrás, que ocupavam o tamanho de um prédio inteiro.

Anos 2000. A Apple lança o iPhone, revolucionando o mercado de telefonia. No final da década, lança o iPad, praticamente iniciando o mercado de tablets. O seu modelo é vertical, no sentido de controlar software e hardware. A Apple é seguida por dezenas de competidores. Competidores de hardware, sendo a mais notável a Samsung. E seguidores de software, sendo o mais notável o Android do Google. Estes num modelo horizontal.

Quem vai vencer esta guerra, e o que a Lei de Moore tem haver com isso?

Os iPhones originais foram cuidadosamente desenhados para obter o máximo de poder como mínimo de hardware. Por exemplo, o Flash player foi tirado do IOS por causa da sua enorme necessidade de computação. O iPad 1 não tinha câmera. O que importava era a experiência dos usuário. E a Apple entregou esta experiência  de forma fantástica. E só a Apple conseguia fazer isto, por dominar hardware e software. Antes do iPhone, tinha-se gadgets que prometiam tudo (câmera, vídeo, Internet), mas não entregavam nada direito (ou a bateria não durava, ou o software dava pau, ou não dava para entender como usar).

Mas, pela Lei de Moore, os computadores evoluem de forma que o hardware passa a aguentar um software mal otimizado. A inovação vira lugar comum em poucos anos. O Samsung + Android passa a rodar tão bem (ou melhor) quanto o Apple, com a vantagem do modelo horizontal e de custo menor. O modelo horizontal permite que dezenas de outros fabricantes de hardware possam usar o Android, centenas de milhares de desenvolvedores possam ajudar a evoluir o Android – contra um fabricante e arquitetura fechada do IOS. E a Apple passou a apelar para o caminho jurídico, de processar rivais por copiar ideias.

A mesma história ocorreu na década de 80. O personal computer era novidade. Dezenas de fabricantes, vários padrões. E a Apple surge, com um Steve Jobs abrindo caminho: interface visual, mouse, o usuário só precisa clicar, software que não dá pau. E surge o seguidor, a Microsoft, que copia um monte de coisas: a interface visual, o mouse + cliques. Mas o Windows rodava em qualquer computador de qualquer fabricante, e era muito mais barato. O Windows dava pau, era uma merda, mas todo mundo usava, era fácil de piratear, e com o tempo (e a Lei de Moore a seu favor) evoluiu muito. Depois de alguns anos, a Apple passa a processar a Microsoft (infrutiferamente).

Somente inovação contínua e disruptiva sustenta um modelo vertical como o da Apple (batalha jurídica não). Ser sempre o primeiro, o melhor. Mas, sem um gênio comandando o barco, não se sabe se isto se sustentará.

Outro caminho é o mercado de nicho. Focar somente em quem pode pagar por uma experiência do usuário melhor, num ecossistema mais protegido. Se eu tivesse ações da Apple, as manteria em carteira por mais alguns anos (pois estão colhendo frutos das inovações da última década, lucros enormes), mas sem comprar mais. Provavelmente, as venderia num futuro próximo.
Vejamos cenas do próximo capítulo.

Energia elétrica

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Como seria o mundo se não existisse a energia elétrica?

Imagine um computador movido a energia mecânica. Uma conta de somar 2 + 2 teria que ser feita movendo algumas alavancas, que moveriam engrenagens, que movimentariam outros eixos, que dariam o resultado movendo outras engrenagens.

Supondo que seja possível construir um computador mecânico, fica outra pergunta: e a energia para movê-lo, viria de onde?

Hoje em dia, você liga o computador na tomada para conseguir energia. Simples, fácil assim. A energia é produzida na usina hidrelétrica de Itaipu, por exemplo, e viaja alguns milhares de quilômetros para chegar na sua casa.

Mas, se não existisse elétrica, a fonte de energia teria de ser mecânica. Talvez o seu computador funcionasse a carvão: você esquentaria o carvão, e depois de alguns minutos este ferveria água, e os gases de evaporação da água movimentariam uma roda, que forneceria energia para o seu computador mecânico. O problema seria trazer o carvão, queimar, esperar, sujar tudo, só para somar 2 + 2, e isto tudo numa máquina do tamanho de um carro. E talvez, muito parecido com um carro.

Mas, e se a energia mecânica fosse transmitida de algum gerador central de energia mecânica?
Itaipu moventaria rodas d’agua gigantes, que através de eixos e engrenagens movimentaria outros eixos e engrenagens. Mas, pelo processo ser puramente mecânicos, haveria grandes perdas na transmissão. Além das perdas, haveria o problema de fadiga dos materiais. Afinal, não é nada fácil ser a engrenagem que transmite energia mecânica para milhões de pessoas Brasil afora.

Portanto, é impossível fazer cadeias suficientemente longas de distribuição de energia mecânica, sem que este sistema entre facilmente em colapso.

É por isso que o domínio da eletricidade resultou num enorme salto de produtividade. Com eletricidade, pode-se centralizar a produção de energia num lugar como Itaipu, e distribuir a mesma para milhões de pessoas, com poucas perdas. A eletricidade permitiu a construção de ferramentas pequenas, médias e grandes, movidas a uma tomada de distância. E a eletricidade ainda abriu as portas para a eletrônica, que foi a responsável por outro salto de produtividade.

Confucionismo, tradições e capitalismo

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Na China (e no Japão), toda a cultura é fortemente influenciada pelo confucionismo. E isto chega a dificultar uma das facetas mais importantes do capitalismo, a inovação. Como?

Confúcio foi um pensador chinês, que viveu há 2500 anos atrás. O seu ensinamento tem dois alicerces: pensar no coletivo, ao invés de pensar no individual, e respeitar os mais velhos, os mais experientes.

Diversas dinastias imperiais chinesas adotaram o confucionismo como filosofia a ser seguida. Em concursos públicos da China antiga, o confucionismo era das umas matérias obrigatórias. Trabalhar para o governo era uma das poucas oportunidades de ascenção social dos povos antigos da China.

Muita tradição confucionista persiste até hoje.

Exemplo: na China, o irmão do seu pai não é apenas um “tio”. Lá, depende se é o irmão mais velho do seu pai – “bobo” – ou o irmão mais novo do seu pai – “shushu”. A irmã mais velha de sua mãe é “jiujiu”, e a irmã mais nova é “ayi”. O seu irmão mais velho é chamado de “gege”, enquanto a sua irmã mais velha é chamada de “meimei”. Seu irmão mais novo é chamado de “didi”, e sua irmã mais nova é chamada de “jiejie”. O seu avô materno é chamado de “waigong” e a avó materna de “waipo”. O avô paterno é chamado de “yeye” e a avó paterna é chamada de “nainai”. No Japão, é mais ou menos igual, monte de nomes para tudo quanto é parente.

Qual a lógica desta loucura de nomes? Conforme disse anteriormente, uma das bases do confucionismo é respeitar os mais velhos. As pessoas têm uma hierarquia de idade, por isso você deve respeitar seu irmão mais velho – “Gege”, enquanto seu irmão mais novo – “Didi” – deve te respeitar. O filho homem mais velho é o mais importante de todos, porque é ele que tem a missão de liderar o resto dos irmãos e cuidar dos pais quando velhos. Ao irmão mais velho são dadas as maiores oportunidades, como chance de estudar (mesmo se este não tiver a menor aptidão). O homem tem posição mais privilegiada que a mulher, então o avô paterno tem mais hierarquia que o avô materno, e assim sucessivamente.

Numa empresa, o confucionismo também influencia. O funcionário mais velho é um veterano, que deve ser respeitado pelos calouros. O gerente tem posição mais elevada que os operários, então estes devem acatar o que o for comandado. Tudo muito mais hierarquizado e rígido que no ocidente.

Acontece que a natureza não dá a mínima bola para este conceito de hierarquia por idade. Não é porque um irmão é alguns anos mais velho que o outro que ele vai estar sempre correto. A soma de todas as inúmeras variáveis que compõe o desenvolvimento do ser humano é que determinam quem está correto, quem é mais efetivo, quem obtém sucesso. No ocidente em geral, se o quinto irmão tiver uma cabeça boa, é a ele que devem ser dadas as oportunidades de estudar. Se o funcionário veterano é pouco efetivo, ele que seja ultrapassado pelo novato.

O conceito de inovação está muito ligada ao conceito de “destruição criativa” termo popularizado pelo economista Joseph Schumpeter. Criar algo passa pela destruição do que se tinha anteriormente. É o processo de constante mudança econômica, destruindo o antigo e substituindo pelo novo.

Numa empresa chinesa, ou japonesa, é difícil atacar o status quo. É difícil alguém dizer que o seu pai está errado, que o seu irmão mais velho não sabe nada (principalmente se o contestador for uma mulher), que o gerente deveria tomar outros rumos, que o veterano está atrapalhando a empresa. E, sem contestação e destruição do antigo, não há o novo.

O confucionismo pode ter sido muito bom para algumas coisas, como o bem estar dos idosos, mas, em termos de estímulo à inovação, o que conta é o contrário: a destruição das ideias atuais e a constante mudança de ideias.