As pessoas no primeiro mundo são muito frias

As pessoas no primeiro mundo são muito frias: “o meu serviço é este, neste escopo, neste prazo, nesta qualidade, neste custo. Se quiser leva, se  não quiser, não leva”.
A gente é bem mais quente: “prometo dar um jeitinho de fazer tudo  o que você pede, no prazo que pede, e ainda dar um desconto” (mas não vou cumprir o prometido).

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Num país de primeiro mundo, o fornecedor diz que vai levar um mês, sem “jeitinho” nenhum. E ele vai demorar o mês que disse que ia levar.
 
Aqui no Brasil, o fornecedor promete dar um jeito para fazer em uma semana. Ele atrasa uma, tem que ser cobrado, depois atrasa mais outra, é cobrado de novo, até que realmente entrega, um mês após o acordo, custando mais do que o combinado.
 
 
Temos a ilusão de que no Brasil as pessoas são mais atenciosas, mais “quentes”, enquanto num país desenvolvido as pessoas são distantes, “frias”. Mas gastamos o triplo da energia e erramos em três vezes o planejamento, por conta de sermos tão  “atenciosos”.
 
Atrasar e fazer pela metade é comum no Brasil, não é pecado. Pecado mesmo é falar na cara do cliente que não dá para cumprir o prazo que ele quer, e fornecer o prazo real.
 
O que eu prefiro? Prefiro a postura do primeiro mundo, sem jeitinho, ao seu tempo e custo.
 
Mas a realidade não é tão simples. Não dá para nadar contra a correnteza. Temos que jogar o jogo de acordo com as regras. Portanto, no Brasil, é difícil não fazer o mesmo: prometer datas impossíveis, sabendo que vai atrasar, que vai ficar pela metade, e que no final das contas, a qualidade será pior, o custo será maior, e o prazo vai pior do que seria sem o “jeitinho brasileiro”.
 
É uma questão de perspectiva.

Um sujeito anormal procurando um número interessante

Após tirar esta foto, do prédio escrito “normal”, o sujeito anormal da foto – eu – lembrou-se de um paradoxo “interessante”.

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Suponha que eu liste os números naturais em ordem:

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4

Agora vamos dizer algum fato interessante sobre cada um dos números:

  • 1 É o primeiro número de todos, é divisor de todos os outros
  • 2 É o primeiro e único número primo par
  • 3 É o primeiro primo ímpar
  • 4 É o primeiro quadrado perfeito

Digamos que os números que têm alguma propriedade interessante sejam chamados de números “interessantes”.
E os números que não são interessantes sejam os números “normais”.

Utilizando esta definição, a lista ficaria assim:

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante

É uma lista que parece possível de fazer.

Agora, suponha que o número x seja o primeiro número “normal” da lista.

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante
  • x É um número normal

Mas, se x é o primeiro número “normal”, ele é um número “interessante”, porque ele tem uma propriedade interessante: a de ser o primeiro número “normal”.

Por outro lado, se considerarmos x um número “interessante” por ter a propriedade de ser o primeiro número “normal”, ele deixa de ser um número “normal” e passa a ser “interessante”, assim perdendo a propriedade de ser o primeiro “normal” e deixando de ser “interessante”…

Que confusão! Não é “interessante”?


Para falar algo interessante, este problema tem o nome de “Paradoxo dos números de Richard”, descrito pelo matemático Jules Richard em 1905.

Este link (https://en.wikipedia.org/wiki/Richard%27s_paradox) conta mais detalhes sobre o paradoxo de Richard, mas de forma menos interessante do que neste espaço.

Um outro paradoxo semelhante é o “Paradoxo do mentiroso”. Um homem que só conta mentiras diz “Estou mentindo”. Porém, como ele só mente, ele estará dizendo a verdade nesta afirmação. Mas se ele falar a verdade, ele não é alguém que só conta mentiras.

Esses paradoxos “bugam” não só a cabeça de um ser humano comum, mas também a cabeça dos maiores matemáticos da história.


O matemático austríaco Kurt Godel abalou as fundações de toda a matemática, em 1931, ao provar que a matemática não pode ao mesmo tempo ser Completa e Consistente, com seus Teoremas da Incompletude. Ou seja, a matemática tem limites. Godel encontrou um “bug” nas fundações da matemática – ela não consegue ao mesmo tempo se livrar desses paradoxos bizarros e responder Verdadeiro ou Falso a todas as suas proposições. Godel utilizou um versão sofisticada do Paradoxo de Richard para provar isto.

É uma longa história, que envolve gigantes do pensamento como David Hilbert e Bertrand Russell, e esta história fica para outro dia.

A propósito, eu acho que o autor do jogo de luzes do prédio escreveu “normal” de uma  forma “interessante” só para o prédio não ser mais “normal” e assim confundir a nossa cabeça…

 

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Ser sério e parecer sério

Já viajei a trabalho para diversos locais do Brasil, incluindo Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e outros. E no exterior também, Austrália, Omã, Canadá.

Em alguns desses lugares fiquei em hotéis muito simples. Em outros, em hotéis bastante luxuosos, daqueles em que eu não iria se fosse por conta própria. Muitas das vezes, estavam hospedados no mesmo hotel  clientes, fornecedores e colegas. 

A única característica comum a todas essas viagens é que nunca utilizei a piscina do hotel.

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Mesmo quando tinha tempo livre, ou à noite, nunca utilizei a piscina – nem me embebedei, nem fui fazer turismo, nenhum exagero. Em geral, não gosto de juntar diversão com trabalho, por mais que a influência no resultado final seja zero.

 

Não quer dizer que todos devem ser assim. Faz parte da minha postura.

As aparências importam. A capa do livro é tão importante quanto o conteúdo.

A postura que tenho: além de ser sério, parecer sério. E a piscina fica para o fim de semana…

 

 

 

 

 

 

 

 

Nunca mais erre uma fórmula: análise dimensional, álgebra e ideogramas

​Análise Dimensional

Um peso mexicano vale 0,17 real. Comprei 1.300 pesos. Quanto gastei em reais?

Há muito tempo atrás, eu me perguntava: a conta seria 1300*0,17 ou 1300/0,17?
A “análise dimensional” resolve facilmente esta dúvida.
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Peso corta com peso, sobrando real.
Se eu fizesse a conta oposta:

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O resultado é na unidade peso^2 / reais. Esta unidade não faz o menor sentido, então a fórmula está errada.
A análise dimensional consiste em fazer a conta algébrica com as unidades de medida, “cortando” e multiplicando as unidades.

Conheço esta técnica há tanto tempo que achei que todos a soubessem. Mas, descobri o oposto: a maioria das pessoas não conhece a análise dimensional. É uma técnica tão boa que não posso deixar de divulgá-la neste espaço.

Outro exemplo:

Tenho 20 m2 de área. Em um metro quadrado cabem em média 70 kg de uma material, digamos café. Cada quilo encolhe 10%, por conta de evaporação de água. Vendo o café por R$ 300 o saco de 5 Kg. Quanto será a receita esperada para a minha área?

Pela análise dimensional, é só montar a equação de forma a fazer todos os intermediários se cortarem:

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Álgebra x Aritmética
Qual a diferença entre Álgebra e Aritmética?
Em álgebra a gente faz a conta com letras, ou seja, de forma genérica: ax^2+bx+c = y

Em aritmética, a conta é numérica: 5*7^2 + 8*7-10 = 291.

Portanto, a aritmética estuda as regrinhas com as quais a gente faz as contas, enquanto a álgebra trata regras mais abstratas.


Algebrizando ideias não algébricas

Aproveitando o post algébrico, que tal inventar umas fórmulas?

Digamos que felicidade seja diretamente proporcional à saúde e à harmonia e inversamente proporcional ao stress.

Poderíamos escrever

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Ou

Felicidade = saúde * harmonia /stress

Ou

Felicidade = saúde + harmonia – stress

Ou alguma outra combinação dessas. Qual a fórmula que melhor descreve a relação entre variáveis?

Quando usamos “vezes”, é como se fosse um conectivo lógico “e”. Se um dos campos zera, o resultado final é zero.

Com zero saúde minha felicidade cai a zero, não há harmonia que compense, e vice-versa.
Já quando usamos “mais”, as coisas se somam, e o excesso de um compensa o outro – equivale ao conector lógico “ou”.

Se a felicidade da saúde e harmonia for menor do que a infelicidade causada pelo stress, ainda assim estou um pouco feliz.

Portanto, por este raciocínio, a fórmula seria:

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Isto é apenas um exercício de interpretação de fórmulas, mas note que felicidade é independente de dinheiro.


Bom em chinês

O ideograma (hanzi) chinês para “bom” é quase uma fórmula. É um ideograma formado por outros hanzi: o de mulher e de filho. Bom é ser casado e ter família.

 

Sábias palavras…

Gigantes não reconhecidos

Conheci uma pessoa que não parava de vociferar, “Se a empresa investisse em mim, eu me dedicaria mais”, “Um minuto que fico a mais é um minuto não remunerado”, “por que eu tenho que tirar do meu bolso para estudar, e não a empresa pagar?” e coisas do tipo. Talvez ele se achasse um “gigante não reconhecido”.
 

Ora, por que a empresa investiria um centavo nesse sujeito? Fosse eu o responsável por alocar um investimento escasso, este seria para aquele que se destacasse mais, e não para quem reclamasse mais.
A minha visão de realidade é diametralmente oposta. Citando Napoleon Hill,
 
“Se você nunca faz além do que lhe é pedido, nunca receberá um tostão além do que foi combinado”.

 

E há tantas pessoas que fizeram muito mais do que o pedido! Alguns dos grandes trabalhos da humanidade sequer foram remunerados ou reconhecidos! Há tantos exemplos, que é fácil escolher alguns.
 


O pintor Vincent Van Gogh (cujos quadros ilustram a figura de capa deste blog) vendeu um único quadro durante a sua vida. Morreu achando-se um pintor fracassado. Hoje qualquer obra dele sua vale milhões, mas ninguém ofereceu milhões para que ele fizesse a sua obra.

 

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Quando os livros do grande Friedrich Nietzsche foram reconhecidas como geniais, ele já estava mentalmente insano. Ele mesmo já tinha escrito: “algumas pessoas já nascem póstumas”, “minhas obras são para todos e para ninguém”.

 

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J. R. Tolkien, das mega obras O Senhor dos Anéis e O Hobbit, sequer publicou tais livros em vida. Ele viveu a sua vida como alguém normal. Os manuscritos foram editadas e publicadas por um de seus filhos, após a sua morte.

 

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Ignaz Semmelweis, médico alemão, percebeu em 1847 que uma medida muito simples, lavar as mãos, poderia salvar milhares de vidas. Os médicos da época não tinham o costume de lavar as mãos, porque acreditavam que isto não influenciava na melhora ou piora dos pacientes. Semmelweis foi duramente criticado por todos os lados, entrou em depressão e morreu antes de ter a sua teoria amplamente aceita.
 
Os Concertos de Brandenburgo são uma das séries musicais mais bonitas da humanidade, autoria de Johan Sebastian Bach, em 1718.

 

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Naquela época, como hoje e sempre, conseguir um bom emprego era uma tarefa difícil, então Bach fazia as obras em homenagem a uma pessoa influente, na tentativa de colher algum dividendo com isso. No caso, em homenagem a um certo Comandante de Brandenburgo, que nem sequer agradeceu – as obras foram engavetadas e esquecidas.

 

A gente acha que uma pessoa como Bach era alguém super conceituado, com uma orquestra sinfônica de alto nível do seu lado. Mas não, ele era um mestre de capela, fazia música com o que tinha – e isto não o impediu de criar algumas das melodias mais harmônicas do universo.
 
Para fechar uma curiosidade: A série “The Great Courses” engloba algumas das melhores aulas do mundo, sobre assuntos tão diversos como história e economia. Todas as aulas do curso começam com 30 segundos do Concerto de Branderburgo número 2, reproduzido abaixo, como a trilha sonora deste post.
 
 

Óbvio à posteriori, Fácil à posteriori, Eficaz à posteriori

Peter Drucker, o pai da administração moderna, era conhecido por seus insights. Por exemplo:

“O que não pode ser medido não pode ser gerenciado”

“Uma organização existe para um consumidor”

“Não há nada mais inútil do que fazer com grande eficiência algo que não deveria ser feito”

Algumas pessoas diziam que seus insights eram óbvios. À esta questão, ele afirmava: “Se é tão óbvio, porque nunca ninguém disse isso antes?”

E Drucker tem razão. Muitas conclusões são óbvias, mas somente à posteriori.

Uma vez, fiz um belo estudo, em que concluía que a falta de equipamentos do pátio causou um efeito em cadeia, engargalando o pátio em tamanho, em seguida impactando o número de veículos e, por fim, um segundo pátio. O modelo meio que testou várias combinações possíveis de efeitos causais. A explicação final do modelo encaixava certinho no comportamento histórico. E era tão óbvio! Tão óbvio que ninguém questionou o encadeamento lógico das coisas. Tão óbvio que alguns falaram que já sabiam que era isso mesmo. Mas, se sabiam, porque foi preciso um estudo tão grande para afirmar o óbvio?

A conclusão é que nada é óbvio. Mesmo o mais óbvio dos óbvios somente é óbvio à posteriori. Somente é óbvio depois de tirar toda a neblina da frente e ficar com o essencial. Somente é óbvio a posteriori.

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Fácil de falar x Difícil de fazer

Outra dicotomia: é muito fácil falar, mas extremamente difícil fazer.

É fácil falar, em linhas gerais, alguma coisa bonita, que se encaixe no nosso modelo do que é certo fazer.

Em inglês, a expressão é “Talk is cheap” – “Falar é barato”. Fazer de verdade custa caro.

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Na mesma linha, dizia o grande escritor Napoleon Hill que “A opinião dos outros é a commodity mais barata que existe”. E é mesmo. Todo mundo tem opinião para qualquer assunto. O ser humano é uma máquina de falar abobrinha. Uma metralhadora de besteiras. Fazer, que é bom, nada.

Prefiro um quilo de ação do que uma tonelada de conversa.

Para fechar, uma história, de um famoso monge budista, mais ou menos assim.

 

Um grande mestre budista estava em cima de uma árvore, meditando.

Passou um estudante, bem folgado. Ele viu o mestre em cima da árvore, e perguntou:

“Velhinho, tome cuidado para não cair da árvore”

O mestre arguiu:

“Quem deveria tomar cuidado é você, levando esta sua vida sem sentido”

Após tomar essa invertida, o estudante percebeu que o mestre não era qualquer um. Perguntou:

“Velhinho, você pode resumir o ensinamento em algumas palavras?”

O mestre respondeu: “Sim. Nós devemos fazer o bem, e deixar de fazer o mal”.

Estudante: “Só isso? Uma criança de três anos entende isso”.

Mestre: “Uma criança de três anos entende isso. Mas um velhinho, mesmo após 80 anos de meditação, não consegue fazer”.

 

Veja também:

Peter Drucker em 40 frases

Um quilo de ação

​ Três táxis em duas cidades

Hoje tomei três táxis (ou uber) em duas cidades diferentes.
 

Com dois dos três motoristas, eu informei a minha localização, o destino desejado, e chamei o carro. Disse “Bom dia” ao motorista e só.

 

O motorista apenas seguiu a indicação do Waze, Gmaps ou equivalente. Chegamos sem maiores problemas e nem precisei desembolsar dinheiro, pois foi no cartão de crédito.

 

O motorista não precisou saber o destino. Não precisou traçar o melhor caminho. Não precisou nem conversar comigo. Ele foi apenas um autômato humano conduzindo o carro. Tal situação era impensável, há alguns poucos anos.

 

Lamento informar que, em poucas décadas, nem isso ele precisará fazer. Com muita probabilidade, os carros autônomos farão este papel.

 

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O terceiro motorista também começou com um “Bom dia”. Mas este não usou GPS. Disse que o caminho normal tinha muito trânsito, e foi por um alternativo. Deu uma volta imensa, maior do que o necessário. Talvez tivesse sido por ignorância do melhor caminho. Talvez má fé. Mas, de qualquer forma, tenho convicção de que ele “perderia” para o Waze, ou seja, inteligência humana perdendo para algoritmos computacionais.

 


Como ficarão os empregos do futuro? Hoje, há uma quantidade gigantesca de pessoas trabalhando com transporte de pessoas e de cargas, mas os tempos estão mudando.

 

Há uma quantidade maior ainda de pessoas trabalhando em empregos de escritório que são rotineiros, e portanto, passíveis de serem substituídos por algo minimamente (ou artificialmente) inteligente.

 

Tudo o que é puramente mecânico, como apertar parafusos, já foi substituído por máquinas. Agora, tudo o que é rotineiro, repetitivo, e envolve pouca decisão humana tende a ser substituído por softwares.

 

Há uma série de economistas, como George Zarkadakis e Tyler Cowen, que apontam para um aumento da desigualdade econômica. No futuro, cada vez menos pessoas terão capacidade de fazer o seu salário valer o valor adicionado ao produto ou serviço. Os poucos que conseguirem serão tremendamente mais produtivos que hoje. E haverá uma massa cada vez maior de “perdedores” deste jogo, que terão que se contentar em empregos em serviços (cabeleireiro, jardineiro, padeiro), que são muito difíceis para uma máquina e também são economicamente inviáveis de serem substituídos.

 

Bom, ninguém sabe exatamente como vai ser o futuro, mas podemos nos precaver de cenários possíveis.

 

As máquinas (ainda) não conseguem substituir a criatividade e a eficácia. Alguém precisa dizer a elas o que deve ser feito, e como ser feito, para que elas simplesmente façam com eficiência. As máquinas são mais eficientes do que o ser humano em fazer  muito bem a mesma coisa. Mas os seres humanos são e serão, por um bom tempo, mais eficazes.

 

E como ser mais eficaz? Estudando muito, trabalhando muito (e com qualidade), buscando aperfeiçoamento contínuo, questionando tudo, lendo os artigos deste blog – não há uma fórmula perfeita.

 

Quem sabe, daqui a uns 15 anos, eu entre num táxi, com uma identificação via smartphone, com a rota escolhida pelo Waze. E eu nem precise mais falar “Bom dia”…

 


Trilha sonora: Bob Dylan, “Os tempos estão mudando” – “The times they’re a-changing”.

O velho homem voador

O texto “O novo homem voador” recebeu alguns bons elogios.

Escrevi um texto semelhante, porém muito mais simples, há uns 15 anos atrás. Na época, eu estava me desatando de algumas amarras – e me atando a outras – e me imaginei como seria alguém totalmente livre. Provavelmente poderia voar, de tão livre que seria. Então, do alto, veria que todas as pessoas estão presas por amarras.

Recentemente pensei em reescrever a história após ler uma frase de Nietzsche.

O pensador alemão Friedrich Nietzsche tem um estilo poético, aliado a ideias demolidoras, o que o faz ter citações memoráveis.
Não consigo reproduzir o estilo poético, mas ele disse algo mais ou menos assim.

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Na nossa vida, temos que atravessar um rio. Na beira do rio, há a oferta de várias barcaças e várias pontes guardadas por semi-deuses. Mas o preço da passagem é a sua alma.

A conclusão de Nietzsche. Não siga por ponte alguma. Você é responsável por construir a sua própria ponte.

Para fechar, um comentário espontâneo do meu amigo Diego Piva, ao ouvir esta história: “Mas atravessar o rio, no braço, também é osso, hein”. Pura verdade…

 

 

​Dúvida sobre a física dos sons

Tenho uma pergunta, sobre física dos sons, que nunca consegui responder plenamente.

O som é uma onda, que tem uma amplitude e frequência, como na figura a seguir. Aliás, o comprimento de onda é o inverso da frequência, das aulinhas de física.

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Nossos ouvidos ouvem sons numa determinada faixa de frequências (20 Hz ~20.000 Hz). Tanto as frequências abaixo quanto acima, não são captadas.

Por outro lado, se o som tiver uma amplitude muito alta, como a explosão de uma bomba, o tímpano de uma pessoa pode se romper.

Pergunta:

O que acontece se eu colocar o som numa amplitude extremamente elevada, a ponto de furar os tímpanos, mas numa frequência inaudível?

O tímpano vai ser prejudicado devido à energia que esta onda carrega? Ou
a onda vai se anular, e nada acontece?


Tentativa de resposta

Tenho uma tentativa de resposta, mas não tenho convicção sobre a mesma.

O som é um fenômeno puramente físico. O tímpano é como se fosse uma membrana de um tambor, que vibra devido à vibração do ar.

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Se um som tiver frequência alta demais, o tímpano não tem tempo de reagir à excitação. Quando a membrana é excitada para “subir”, já está na hora de “descer” novamente, ou seja, a onda se anula. Portanto, para frequências muito altas, uma amplitude alta não vai explodir os tímpanos.

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O tal de “ultrassom” é isso, uma onda acima do que conseguimos ouvir. Mas, embora o tímpano não responda ao ultrassom, alguma coisa dentro do corpo responde, no sentido de refletir a onda sonora. Portanto, mesmo não explodindo o tímpano, vai explodir alguma coisa dentro do corpo humano, que tem um comprimento de onda pequeno o suficiente (ou seja, um material denso o suficiente) para entrar em ressonância com esta onda.

E se o som tiver frequência abaixo do que ouvido consegue captar? O limite inferior audível teoricamente é menor do que 20 hz. Mas 20 Hz é praticamente zero, para a escala sonora.  Na prática, um som em baixa frequência e alta amplitude vai explodir o tímpano, por estar na fronteira da faixa audível ao ser humano.


E a visão?

Podemos fazer a mesma pergunta, mas em relação à enxergar. Nós enxergamos uma faixa de frequências. E ficamos cegos se olhar para o Sol, por exemplo. E uma exposição a uma grande amplitude numa faixa invisível, vai nos cegar ou não?


Trilha sonora:

Com tantas ondas sonoras e eletromagnéticas, uma boa música para acompanhar este post: Wave – Tom Jobim

​ O Infinito num instante

Um bom livro é aquele em que lemos cada palavra e torcemos para que não acabe nunca.

 
Um bom filme é aquele em que assistimos cada segundo e torcemos para que não acabe nunca.
 
Uma boa música é aquela em que ouvimos cada melodia e torcemos para que não acabe nunca.
 
Um bom vinho é aquele em que apreciamos cada gota e torcemos para que não acabe nunca.
 
 Um bom momento é aquele em que desejamos que cada segundo seja uma eternidade, e que não acabe nunca.
 
Ou, conforme dizia o poetinha, “Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.
 
Uma dica para os escritores é nunca dar todo o conteúdo, mas sim, deixar na boca um gostinho de “quero mais”.
 
William Blake – Para ver o mundo
 
Ver o Mundo todo num grão de areia,
e o Céu numa flor silvestre,
Ter o Infinito na palma de sua mão
e a Eternidade em uma hora.

 

 

​Por que escrevo tão bem?

Prelúdio. Por que escrevo tão bem?

Mas que sujeito arrogante! Afirmar que escreve tão bem!

Na verdade, a frase acima é da autoria do grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ele tem um estilo poético, aliado a ideias contundentes. É um artista que usa uma martelo, e cuja habilidade é a de destruir as mais profundas convicções que temos: a moral, a bondade, a filosofia, o cristianismo.

ecceHomo

Nietzsche escreveu capítulos como “Por que sou tão inteligente” e “Por que escrevo bons livros”, num livro autobiográfico chamado “Ecce Homo”. Ecce Homo vem do latim, algo como “Eis o homem”. Em bom português, imagino que ele quis dizer “Esse é o cara”. Nota-se que Nietzsche é alguém para ser extremamente amado ou extremamente odiado, não tem meio-termo.

O título real deste ensaio seria “Por que escrevo este blog”.


Ato 1. Por que escrevo este blog

Por que escrevo este blog, e por que escrevo tão bem (adotando a provocação de Nietzsche)? Há algumas respostas. Uma delas: tenho algo a dizer.

Há tantas ideias porcarias espalhadas por este mundo, que as pessoas às vezes podem se deixar levar por elas, somente pelo fato de não terem a chance de ouvir ideias antagônicas.

lighthouse

Ideias são como faróis luminosos. Há faróis grandes e brilhantes, que alcançam um grande número de pessoas. E há faróis retransmissores, menores, menos brilhantes, que têm menos alcance. Até mesmo o maior e mais brilhante farol precisa da ajuda desses retransmissores, porque a luz se dissipa no tempo e no espaço. Cada um de nós é um desses faróis, temos o nosso valor ao retransmitir ideias que valem a pena ser compartilhadas.


Ato 2. Ensinar e aprender

Outro motivo para escrever é o de aprender. A melhor forma de aprender não é estudando, mas sim fazendo, praticando, ensinando. E a minha forma de ensinar é através da palavra escrita.

Para tentar criar bons argumentos, tenho um checklist. Alguns dos critérios:

  • Sempre agregar valor em textos curtos
  • Inserir alguma história que aconteceu comigo ou alguma ideia minha, para criar um ponto de vista inédito
  • Criar um “Flow”, um fluxo, um encadeamento natural de ideias do início ao fim.

Citando o grande professor Otávio Manhães (do ITA):

“Se eu não conseguir ensinar física quântica para uma empregada doméstica, não sou um bom professor”.


Ato 3. Ilhas de conhecimento

Minhas anotações em cadernos sempre foram tão bagunçadas que não serviam para nada. Ao contrário, escrever aqui é uma forma de organizar e registrar ideias. Indexar conhecimento.

Cada texto é como se fosse uma ilha, uma ilha de conhecimento. E cada comentário das pessoas que leem esses textos são novas ilhas de conhecimento. Conectar ilhas diferentes leva a novos insights. Com isso, estarei preparado quando preciso. Por exemplo, quando surgiu um convite da revista Opiniões (aqui neste link) para falar sobre planejamento florestal, eu já tinha um texto-base para guiar o texto final.

Eu gosto da imagem de ilhas de conhecimento, se conectando através de pontes de imaginação, formando novas ilhas de aplicações e continentes de inovações. Já o pesquisador Steven Johnson criou o termo “possível adjacente”. A ideia é que inovação não ocorre em saltos, mas expandindo os limites do conhecimento existente.

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Epílogo.

Para fechar, uma citação adaptada de Carl Sagan, dedicada às pessoas com quem discuti conceitos, ideias, teorias, percepções, aplicações.

Diante da imensidão do tempo e da vastidão do espaço, foi um prazer encontrar cada um dos meus amigos nesta época, neste planeta.

​Não bastava uma cena boa. Tinha que ser espetacular

Uma das cenas mais memoráveis da história do cinema é a abertura do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. O filme data de 1968 e desde então tornou-se um dos clássicos do cinema.
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A abertura citada é tão poderosa que ficou uma semana ecoando na minha cabeça.
E até hoje, ao relembrar dela, vejo a estrela surgindo atrás do planeta, e a trilha sonora ecoando em meus ouvidos.
Uma história curiosa. O ultra perfeccionista diretor Stanley Kubrick tinha encomendado a trilha sonora do filme ao compositor Alex North, com quem tinha trabalhado anteriormente em Espartacus.
Alex North era um compositor extremamente talentoso. Por exemplo, ele é o autor de  “Unchained melody”, aquela do filme “Ghost, do outro lado da vida”.
Pois bem, North deu o melhor de si para fazer o soundtrack do filme.
Eis a abertura do filme com a composição de North.

Porém, ao assistir à premiere do filme, North teve uma surpresa. Kubrick não tinha usado nenhuma de suas músicas na versão final do filme. O diretor preferiu utilizar as músicas “guia” indicadas para inspirar a composição da trilha sonora. North ficou completamente devastado…
Kubrick poderia ter sido um pouco mais humano, é claro. Mas, certamente, fez a escolha certa. O bom não bastava. Tinha que ser espetacular. Ele utilizou a pouco conhecida (na época) música “Assim falou Zaratustra”, do compositor alemão Richard Strauss. Tons grandiosos, fortes. Apenas cinco notas, mas que notas! Ao fundo, uma estrela ascendente no espaço infinito.
Não adianta explicar. Tem que assistir, de preferência ao filme todo:

2001 é frequentemente citado como um dos 50 melhores filmes de todos os tempos. Criou uma legião de admiradores em todo o mundo desde então.
Até no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) tem uma menção ao filme de Kubrick. O salão negro tem um mural, onde tem um astronauta, uns planetas, e um… monolito voando…
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Notas
“Assim falou Zaratustra” é um livro espetacular de Friedrich Nietzsche, um dos gigantes do século XIX, obra que inspirou a composição de Richard Strauss. Ou seja, é gênio atrás de gênio.
Outra cena fabulosa é a “valsa das estrelas”, que utiliza outra música clássica, a valsa Danúbio Azul. É hipnotizante.