Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
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Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
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Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
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Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
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Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
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Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
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Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


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​O amante Halley

A Terra tem um amante, que a visita precisamente a cada 75 anos para lhe dar um beijo na bochecha.

Quando eu tinha uns 7 anos, em 1986, a notícia de que o cometa Halley viria nos visitar estava em todos os jornais e na TV. Se perdêssemos esta chance de vê-lo, só teríamos outra daqui a 75 anos.

Naquela época, eu pensei: “Como é que sabem que ele passa exatamente a cada 75 anos? Ninguém vive tanto tempo para ver o cometa passar várias vezes para ter certeza.”

E, com a precisão de um relógio, lá estava o cometa. Majestoso, com sua cauda característica, a brilhar no céu. Para falar a verdade, nunca vi o tal cometa, talvez por ser muito pequeno na época. Só vi umas fotos na TV.


 

Edmond Halley era um astrônomo, contemporâneo do grande físico Isaac Newton, no final dos anos 1600 e começo dos anos 1700.

Era a época das grandes descobertas astronômicas. Copérnico tinha tirado a Terra do centro do universo. Kepler tinha descoberto que a trajetória dos planetas era elíptica. Newton tinha descoberto as leis fundamentais da mecânica, que governam tanto a maçã que cai em sua cabeça, quanto a força de atração entre estrelas.

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Um dos primeiros logos da Apple computer foi uma maçã do Newton

Isto tudo não era por acaso. Se hoje a tecnologia disruptiva é a computação, na época era a ótica. Algumas dezenas de anos com avanços tecnológicos impressionantes possibilitaram a criação de instrumentos óticos (telescópios e microscópios) cada vez mais sofisticados. A partir daí, uma legião de astrônomos começou a mapear os céus, criando uma base de dados. Esta base de dados possibilitou o cálculo como as trajetórias de Kepler.

A contribuição de Halley, especificamente, está na descrição que ele fez de 23 cometas: trajetórias, luminosidade, características.

Ao fazer este trabalho, ele notou um padrão – aliás, se fosse para descrever a ciência em um termo, eu usaria descoberta de padrões. Um corpo celeste muito parecido tinha feito a mesma trajetória nos anos de 1531, 1607 e 1682. A do ano de 1682 ele mesmo viu. A dos outros anos, por descrições em livros antigos.

Se os planetas giram em torno do Sol, por que os cometas seriam diferentes? Alguns deles devem girar em torno do Sol também – este era o pensamento de Halley. As três aparições não seriam de três corpos diferentes, mas sim do mesmo cometa.

Assim, ele calculou a trajetória do cometa e postulou que o mesmo apareceria em 1758. Ele não chegou a viver o suficiente para ver o seu cometa, mas precisamente no dia e hora do encontro, lá estava ele.

 

É como se fossem os ponteiros do relógio. Um grande, que gira em uma velocidade e trajetória, e um pequeno que gira em outra velocidade e trajetória. Mas sabe-se que exatamente à meia-noite eles se encontram e se tornam um.

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Na história “Homens de boa fortuna” da série Sandman, há um personagem chamado Hob Gadling. Ele fez um trato com Sandman. Ele seria imortal e não envelheceria, bastando para isso ter um encontro com o mestre dos sonhos a cada 100 anos. A cada encontro em 100 anos, ele conta o que fez, os países que visitou, como fugiu para retornar anos depois fingindo ser o seu próprio filho…

O cometa Halley e a mãe Terra se encontram a cada 75 anos, e Halley conta as fofocas de Júpiter, as novidades do cinturão de Kuiper, e o surgimento de mais um anel de Saturno. Deve ser uma conversa interessante.

A próxima visita de Halley será precisamente no dia 28 Julho de 2061. Espero estar por aqui para rever este grande amigo.

 


 

https://en.wikipedia.org/wiki/Halley%27s_Comet

https://oglobo.globo.com/sociedade/ultima-passagem-do-cometa-halley-pelo-sistema-solar-completa-30-anos-18640940

https://en.wikipedia.org/wiki/Edmond_Halley

 

Onde está o cometa Halley?

Sobre sorte e oportunidades

Todos os dias, leio um capítulo do livro “The Daily Drucker”. O livro tem um texto curto de Peter Drucker para cada dia do ano.

O do dia de hoje (14/08) é sobre sorte e oportunidades.

 

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A oportunidade está onde você a encontra – não é a oportunidade que te encontra.

 

A sorte sempre afeta o negócio e qualquer outra atividade humana. Mas a sorte sozinha nunca construiu um empreendimento.

 

Perigos e fraquezas indicam onde olhar para descobrir o potencial do negócio. Converter problemas e oportunidades traz um retorno extraordinário.

 

Faça as seguintes perguntas para encontrar oportunidades:

 

– Quais são as restrições e limitações da empresa?

– Onda há desbalanceamento de processos?

– Quais as ameaças ao negócio?

 

 

Eu, como consultor, tenho uma frase assim: a melhor situação é onde a grama está alta – qualquer ganho gerado será um ganho significativo.

A Teoria dos Cisnes Negros

Um resumo das ideias poderosas de Cisnes Negros, popularizadas por Nassim Taleb: eventos de baixa probabilidade, porém alto impacto.

São duas partes. Uma com as definições, e a segunda com ações que devemos tomar.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 1

Vivemos num mundo em que não conhecemos. Esta é a premissa básica da teoria dos Cisnes Negros, popularizada pelo pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele trabalhou por muito tempo como trader no mercado financeiro, e neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo virar pó em alguns dias.

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Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, mas impacto extremamente elevado. É um outlier difícil de acontecer, mas que pode ocorrer um dia, e, se ocorrer, terá efeitos catastróficos.

Esta é a definição, mas não o problema real. O grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência de Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E, mesmo nos casos em que ocorreram, rapidamente o conhecimento humano se adapta para mostrar que o evento era previsível, não era tão aleatório assim. É o que Taleb chama de “falácia narrativa”. Um exemplo são os economistas “profetas” que afirmaram que “era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer, devido aos riscos dos títulos sub-prime”. Tudo isso a posteriori, é claro.

O termo Cisne Negro remete a uma história. No séc XVII pensava-se que todos os cisnes fossem brancos. Por mais cisnes que fossem vistos, eles eram todos brancos. Até que, na Austrália, foi descoberto o primeiro cisne negro. Apesar de milhares de anos de observações de cisnes brancos, bastou um único evento de cisne negro para derrubar a hipótese de que “todos os cisnes são brancos”. Este termo foi criado pelo filósofo inglês David Hume, nos anos 1700, justamente para demonstrar o “Problema da Indução”, ou seja, a fraqueza do nosso processo de raciocínio indutivo.

 


Não-linearidade do mundo

O mundo é não-linear.  A lei de potências governa o mundo, não a curva gaussiana de probabilidade normal.

Vale a pena pontuar alguns casos de não-linearidade histórica:  os ataques terroristas de 11/09/2001, o surgimento do Google, a crise financeira de 2008, o surgimento da internet,  o tsunami de 2004 na Indonésia. Nem a internet, nem o Google, foram previstos pelos livros de ficção científica, nem pelos acadêmicos e executivos.

Os ataques de 11/09 são um caso bastante ilustrativo. Foi algo completamente imprevisto, deixando o mundo inteiro em choque, e mudando completamente o rumo da história. O mundo ficou paranoico com o terrorismo. Dificilmente as guerras posteriores no Iraque e no Afeganistão teriam justificativas não fosse o combate ao terror.

A história é como uma caixa-preta. Conhecemos apenas os eventos da história, mas não os fatores que causaram o mesmo. Temos apenas a interpretação de historiadores, que é feita a posteriori e a partir de um ponto de vista subjetivo, não conhecemos os reais geradores dos eventos. Os eventos importantes são não-lineares. A história não rasteja, ela anda aos pulos. Entretanto, agimos como se fosse possível prever o curso da história, e pior ainda, mudá-lo.

Apesar de nossos avanços tecnológicos, ou talvez por causa deles, o futuro será governado cada vez mais por eventos extremos.

 


 

O desconhecido desconhecido

Há fatos que conhecemos, que conhecemos que desconhecemos, e os que desconhecemos que desconhecemos, e é neste domínio em que somos surpreendidos pelos cisnes negros.

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A ciência, os acadêmicos e os executivos das empresas tendem a focar no que conhecemos, e passar a falsa impressão de que não há fatos que desconhecemos que desconhecemos. Todas as soluções caem em alguma categoria dentro do conhecimento existente. É como aquela piada, do bêbado que perdera a chave do carro no meio da rua, mas procurava a mesma debaixo do poste porque era o único lugar que tinha iluminação.

O mundo conhecido, dos acadêmicos e MBAs mundo afora, é o da curva gaussiana. Ela tem erroneamente tem o nome de “curva normal”, indicando que é fenômeno normal do mundo. Mas a curva normal ignora grandes variações, joga fora o desconhecido – ignora o não-linear.  Taleb chama o mundo gaussiano de “Mediocristão”.

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O mundo real é governado pelo não-linear, exponencial, Pareto, é regido por leis de potência e pelo improvável: alguns poucos ficam com tudo, alguns eventos são ordens de magnitude maiores dos que todos os que já ocorreram,  o que desconhecemos é muito maior do que o que conhecemos. Este é o “Extremistão”, em oposição ao “Mediocristão”: o mundo escalável, exponencial, o-vencedor-leva-tudo, onde o resultado é desproporcional ao volume de trabalho, onde pode-se ficar milionário ou falido num instante.

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 O problema do Peru

Um peru é alimentado todos os dias pelo seu dono, por 1000 dias. Baseado em modelos de forecast que extrapolam o passado, ele supõe que o dia 1001 também será um dia feliz, em que será alimentado por um ser humano. Entretanto, o dia 1001 é Natal, e o peru vai para o forno.

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Assim como no problema do peru, no mundo real a mesma mão que alimenta, pode ser a da degola.

 


 

A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 2

Como viver num mundo em que não conhecemos?

O passado pode não modelar completamente o futuro, quando estamos no Extremistão. Não conseguimos extrair informação de onde não existe.

Há três linhas de ação, com relação a opções para cisnes negros negativos, aproveitar cisnes negros positivos, e diminuir a ocorrência de cisnes negros .


 

Opções para Cisnes Negros negativos

Aceitar que não podemos prever o futuro implica em tomar medidas de precaução contra cisnes negros negativos: seguros, opções, planos B.

Taleb, por conta de sua formação como trader, explora bastante o uso de opções. Uma opção, no mercado financeiro, é um instrumento que dá o direito, mas não a obrigação, de comprar (ou vender) uma ação, num determinado momento a um determinado preço. Este direito não é de graça, é necessário pagar uma taxa, que na linguagem dos seguros é chamada de prêmio.

O seguro de veículos (ou casa, vida) é uma opção: pagando o prêmio do seguro, tenho a opção de “vender” (recuperar grande parte do valor) o automóvel à seguradora, no caso de problemas. Tenho o direito de fazer isto, mas não a obrigação. Se eu não exercer a opção dentro de um prazo, a seguradora fica com o prêmio.

Um seguro é uma opção de venda. Há no mercado financeiro a operação inversa: uma opção de compra. Posso comprar uma ação a um determinado valor, numa determinada data futura, pagando hoje um prêmio para obter este direito.

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Em suma, ter opções de compra ou de venda, ter seguros para as coisas mais importantes, ter redundâncias, ter um estoque, uma reserva de valor, são formas de precaução contra eventos imprevistos – não podemos prever o futuro, mas nos precaver para o mesmo.

 

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Ter opções

 

A questão é que o preço do prêmio pode ser caro, e o evento pode nunca ocorrer, então muita gente opta por não ter esses seguros.

Nos dias de hoje, com a busca das empresas em enxugar custos e tornar-se eficiente, com metas de redução de custos em todo lugar, as redundâncias, seguros e estoques têm se tornado cada vez menores. Isto pode gerar um ganho no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo.

Desprezar o seguro porque o prêmio é caro e gerar ganhos de curto prazo em detrimento do longo é como contar os centavos dentro da variação da curva normal conhecida, ao invés de centenas de dólares da variação de uma curva exponencial desconhecida. É como recolher centavos à frente de um rolo compressor. É como olhar para as folhas das árvores e esquecer da floresta, ou como ficar contando as pulgas e deixar passar o elefante, é pensar pequeno e deixar escapar o grande.

A natureza é um exemplo de organismo resiliente. Os animais e plantas devem se adaptar ao meio ambiente e serem eficientes, mas também devem ser eficazes em sobreviver a longo prazo. Digamos que um mamífero tenha uma adaptação ótima ao ambiente, o que lhe permita viver sem gordura. Entretanto, suponha que esta evolução ocorreu fora de uma época glacial. Quando chegar a próxima era glacial, este mamífero não sobreviverá para deixar seus genes, ao passo que os mamíferos não tão ótimos, porém robustos, terão sobrevivido, gerando os descendentes do mundo atual.

 


 

Cisnes Negros positivos e Estratégia Barbell

Para os cisnes negros positivos, a recomendação é a oposta: expor-se ao risco. Muita exploração agressiva, tentativa e erro, participar de festas e conversar com desconhecidos completos, tentar algo que nunca fora feito antes. A grande maioria dessas tentativas vai dar em nada, mas um único acerto pode valer todas as tentativas.

Se, por um lado, uma estratégia é a de ter opções, seguros e robustez, por outro lado devemos explorar agressivamente as oportunidades, qual a proporção entre esses? Essa é a estratégia “barbell”, remetendo à imagem de uma barra de pesos: ser extremamente conservador em um extremo (digamos, 90% do investimento em títulos bastante sólidos, renda fixa, ouro) e extremamente agressivo em outro extremo (digamos 10% do investimento em opções de alta volatilidade).

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A pior estratégia é ficar 100% no meio do caminho, nem tão conservador, nem tão agressivo: não há possibilidade de um cisne negro positivo, e também há risco de ser atingido por um cisne negro negativo.

 

Investidores-anjo não sabem qual a startup que vai realmente dar certo, então tendem a investir um valor pequeno (para o investidor, não para a startup) em várias empresas iniciantes, e acompanhar a evolução desta. O capitalismo, por permitir que centenas de milhares de empreendedores criem suas empresas, e principalmente, fracassem, permite que haja espaço para o surgimento de Apples e Microsofts, ao contrário do socialismo – em que a empresa estatal nunca fracassa porque é bancada por recursos públicos.

 


 

Ter a pele no jogo

O mundo contemporâneo está ficando cada mais conectado, com pessoas se especializando cada vez mais e empresas cada vez maiores. Isto traz um aumento proporcional na complexidade dos sistemas, e um loop de feedback cada vez mais distante e indiretos – as pessoas que tomam as decisões sentem cada vez menos os efeitos dessas decisões, o que faz com que elas não tenham a “pele no jogo”.

As empresas cada vez maiores podem ficar grandes demais para cair, exigindo algum socorro governamental quando isto acontece. Na prática, ocorre a privatização dos lucros, mas a socialização dos prejuízos, uma assimetria prejudicial à sociedade como um todo.

E, por serem grandes demais para ir à bancarrota, essas empresas podem tomar ações temerárias, como vender títulos podres a fim de obter ganhos de curto prazo – aumentando o tamanho do evento Cisne Negro – e com isso colocando em risco todo o sistema financeiro mundial.

Taleb é dos que defendem que empresas não podem se tornar “too big to fail” – evitar a complexidade na fonte, ao invés de ter a tarefa impossível de lidar com esta. Ele também é forte defensor da via negativa: simplificar ao invés de complicar, diminuir ao invés de aumentar, pequeno ao invés do gigante, projetos exequíveis e falíveis passo a passo.

 


 

Conclusões

Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.

Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia.  Há desconhecidos desconhecidos que fogem ao nosso controle. É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência e as certezas e abraçar a aleatoriedade.

Para explorar oportunidades, exploração agressiva de tentativa e erro na prática (não na teoria), heurísticas, exposição (controlada) aos riscos, em domínios escaláveis (Extremistão).

Em termos de projetos, é melhor ter vários ciclos simples e rápidos de tentativa e erro no mundo real do que por um mega projeto planejado detalhe a detalhe do começo ao fim.

Vivemos em mundo que não conhecemos.

Resumo em uma frase: Não seja o peru.

 


 

Links

Vale a pena ler os seguintes livros.

 

A Lógica do Cisne Negro

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Iludidos pelo Acaso

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Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos.

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Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil

Participei recentemente de uma reunião no BNDES sobre Internet das Coisas, representando a minha empresa. As reflexões a seguir são um misto do material do BNDES (público), com ideias minhas.

 


Tecnologias disruptivas

Hoje, em 2017, há uma série de tecnologias que prometem ser disruptivas num futuro próximo: mobilidade, automação, cloud, veículos autônomos, impressoras 3D. A Internet das Coisas é uma dessas aplicações disruptivas, em qualquer lista de tecnologia que se preze.

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O que é a Internet das Coisas?

A computação evolui tremendamente nas últimas décadas.

Nos anos 1920, o matemático Alan Turing pensou sobre computação, o que poderia ou não ser computado, e provou resultados importantes: uma máquina de Turing universal era capaz de calcular qualquer coisa computável, ou seja, o mesmo computador poderia fazer uma tarefa, digamos somar, e trocando os estados internos, poderia executar outra tarefa, digamos dividir. Foi um trabalho totalmente teórico, mas embasou o salto posterior, o do computador eletrônico.

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Até os anos 1950, pioneiros como John Von Neumann desenvolveram os primeiros computadores, somente para aplicações militares como cálculo de trajetória de mísseis, simulação de Monte Carlo para o projeto da Bomba H. Os computadores eram em substituição às “computadoras”, que nada mais era do que uma sala cheia de mulheres, fazendo contas com lápis e papel, com a supervisão do trabalho final por um matemático.

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Na década de 60 e 70, surgiram os mainframes, computadores gigantes, ocupando grandes salas de corporações, e os usuários com um terminal “burro” de tela verde (curiosamente, com a ideia atual de “cloud”, estamos de volta a este modelo dos supercomputadores e terminais burros).

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Nos anos 80 e 90, tivemos a revolução dos computadores pessoais. Ao invés de um computador do tamanho de uma sala, surgiram computadores pequenos o suficiente para termos em casa. O famoso Apple II foi um dos primeiros PCs da história, rivalizando com a arquitetura da IBM. Também tivemos a explosão do software, dos sistemas operacionais Windows e Apple, Bill Gates x Steve Jobs.

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No final dos anos 90 e anos 2000, tivemos a explosão da internet. Os computadores pessoais agora passaram a ser conectados em rede. Uma pessoa poderia criar conteúdo novo e divulgar numa página, que seria indexada por um buscador como o Google. As pessoas podiam se comunicar facilmente com outras, via e-mail, chat. Podíamos trocar arquivos através de protocolos específicos.

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Nos anos 2000, 2010, tivemos uma explosão de mobilidade: celulares, tablets, dispositivos portáteis. Mais comunicação ainda, não estávamos mais presos a um computador num local fixo, agora podemos acessar o Facebook e o Google de qualquer lugar. A comunicação não estava mais restrita a voz, agora podemos ter conexão via texto, vídeo, imagens, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

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O pano de fundo disto tudo é o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, traduzido elegantemente pela Lei de Moore: a cada 18 meses o número de transístores num dispositivo dobra (ou seja, a capacidade de processamento dobra) ao mesmo custo. Na prática, temos dispositivos cada vez menores, cada vez mais poderosos, cada vez mais baratos. Um celular moderno, que cabe no bolso, é mais poderoso que um PC antigo (que cabe numa mesa), é mais poderoso que um mainframe antigo (que cabe numa sala).

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Ilustração da Lei de Moore

Hoje em dia e nos próximos anos, haverá cada mais sensores pequenos e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, talvez pessoas.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

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O estudo do BNDES

O estudo do BNDES ainda está sendo realizado, porém há alguns resultados parciais. Este estudo entrevistou uma miríade de pessoas, coletou dados e fatos, analisou também o posicionamento de outros países, para levantar as principais oportunidades, desafios e áreas prioritárias para fomentar o desenvolvimento da IoT no Brasil.

Este material é público e está disponível em: http://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

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As áreas prioritárias do Brasil são indicadas no mapa acima. Pelo Brasil ser um país exportador de commodities, o setor Rural desponta com muito potencial de ganho. A seguir, o setor de Saúde e o de Cidades. Para essas frentes prioritárias, em conjunto vem o papel das fábricas e indústrias de base.

 


Oportunidades

Na prática, quais as aplicações úteis?

Os infográficos a seguir contém várias ideias interessantes.

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Há uma história atribuída a Henry Ford, o empresário que fundou a companhia de veículos de mesmo nome. Ele teria dito que “se os usuários de carroça fossem questionados sobre melhorias futuras, eles desejariam carroças mais rápidas”.

 

É mais ou menos isso que ocorre hoje, só somos capazes de visualizar soluções no framework mental de quem já vive o presente: mais monitoramento, mais controle, mais forecast, mais decisões autônomas. Ninguém sabe exatamente qual será a verdadeira aplicação disruptiva que surgirá da evolução da IoT. A história é não linear. Ninguém conseguiu prever com dez anos de antecedência o surgimento de um Google, um Facebook, um Waze, um Uber, entretanto estes surgiram e revolucionaram nosso modo de ver o mundo.

 


Alguns desafios

Nem tudo são flores, obviamente. Alguns dos desafios são tão grandes que não conseguem ser resolvidos pela tecnologia em si.

  • Mão de obra qualificada. Por um lado, o Brasil tem 13 milhões de desempregados. Por outro, há uma dificuldade imensa na contratação de pessoas qualificadas, principalmente no interior do Brasil.
  • Infraestrutura de conexão: é muito caro conectar esses dispositivos à rede (GPRS, satélite, wi-fi, etc), ainda mais no setor rural, onde as distâncias são enormes e a infraestrutura, precária
  • Ambiente regulatório e de negócios: como devem ser os mesmos, a fim de permitir ganhos?
  • Fomento de pesquisa sobre o tema: como incentivar os mesmos?
  • Segurança e Privacidade: a disponibilidade de dispositivos em rede pode trazer outros problemas, como invasão por hackers. Como evitar este tipo de coisa?
  • Padronização de tecnologias?
  • Custos dos sensores?

Detalhando o aspecto sobre a mão de obra. Cada vez mais, a tecnologia vai substituindo os trabalhos braçais e rotineiros. Os primeiros alvos: aqueles trabalhadores que são verdadeiros autômatos humanos, como os operadores de telemarketing, que não são pagos para pensar: estes seguem um script ditado pelo sistema. Ou motoristas, que simplesmente levam cargas e pessoas de um ponto A para um ponto B.

Há 100 anos, quando o mundo era muito mais agrário, a produtividade do melhor lavrador do mundo não era tão maior do que o do pior lavrador do mundo. Cada braço a mais contava muito, porque não havia escala. Hoje em dia, um trator com um operador produz muito mais do que 50 pessoas conseguiriam no passado.

Cada vez mais, uma minoria altamente qualificada vai produzir muito, e uma massa gigantesca de pessoas terá pouco valor a contribuir.


Conclusões
Há um potencial disruptivo gigantesco em IoT. Porém, este não é um fim em si. O fim é utilizar a IoT para aumentar a produtividade, diminuir custos, melhorar o meio-ambiente e o bem estar final da sociedade. Ainda há um longo e tortuoso caminho a percorrer.

Toda tecnologia segue a curva tecnológica a seguir.

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Quando a tecnologia surge, no começo da curva, é o sonho, a sensação, vai dominar o mundo, vai provocar a paz mundial (ou a destruição da humanidade).

Depois de um tempo, descobre-se que a tecnologia tem limites. É muito boa, gera ganhos elevados, mas não vai destruir o mundo nem fazer a gente alcançar o Nirvana.

Chega uma fase de maturidade, onde esta tecnologia já não é mais sensação. E vão surgindo ondas de evolução desta tecnologia cada vez mais madura.
É análogo à dialética Hegeliana, de tese-antítese-síntese.

Áreas como a Pesquisa Operacional, Estatística, Eletrônica e Computação tradicional já passaram por esses ciclos, e hoje são tecnologias bastante maduras. São elas que dão resultado no mundo de hoje, são as vacas leiteiras, enquanto tecnologias como o IoT, cloud, são os sonhos potenciais.

Há uns 100 anos atrás, as tecnologias disruptivas que passaram por este ciclo eram a eletricidade, os veículos, as locomotivas.

Há uns 200 anos, a revolução industrial: máquinas a vapor, máquinas de tecer.

Há uns 500 anos, eram os navios, a conquista dos mares.

Há uns 3 mil anos, era o arco e flecha.

Há uns 10 mil anos atrás, a tecnologia disruptiva era a agricultura e a tração animal.

Com a IoT será a mesma coisa: haverá um bom caminho de promessa para realidade, e quando esta chegar, veremos que vai servir para muita coisa, mas não promoverá nem a paz mundial, nem exterminará a humanidade.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2017

 

Puzzle dos leões, da raposa e do coelho

Suponha que numa região haja N leões.

Eles têm conhecimento perfeito de quantos leões existem e de que todos tomam decisões perfeitamente lógicas. Cada leão é tão forte quanto os outros, impossibilitando um combate direto entre eles.

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Uma raposa quer atravessar a região. Ela sabe que os leões estão famintos. Mas também sabe que, se um leão comer algo, ficará fraco, e poderá ser devorado por outro leão.

 

Cada leão prefere salvar a vida a devorar uma presa e ficar vulnerável. E cada leão prefere devorar a presa, caso possa fazer isto sem o perigo de ser devorado.

 

A raposa pode, opcionalmente, levar um coelho na jornada. Se um leão avançar, a raposa joga o coelho ao leão, e isto dá tempo suficiente para ele atravessar a região.

 

Se um leão estiver comendo o coelho, e a raposa estiver livre, um segundo leão prefere atacar o primeiro leão com o coelho, assim conseguindo uma refeição e eliminando um concorrente (isto se o segundo leão tiver certeza de que não ficará vulnerável aos demais).

 

Se tiver opção, o leão prefere devorar o coelho à raposa, pelo coelho ser mais apetitoso.

 

A pergunta: qual a estratégia para a raposa se safar, para cada valor possível de N?

 

Este puzzle é baseado em outro, porém com um coelho a mais de dificuldade.

Resposta em uma semana.

 

Três lenhadores

Dois lenhadores, um fortão e um velhinho sábio, fizeram uma competição para ver quem derrubava mais árvores.

O fortão ficou o tempo todo firme nas machadadas. Não parava de trabalhar. E, vira e mexe, olhava para o lado, e lá estava o lenhador velhinho parado, como se estivesse descansando.

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No final das contas, o velhinho ganhou. “Como?”, o fortão pensou?

“É que eu não estava parado à toa, eu estava afiando o machado“, respondeu o mesmo.

Moral da história: De tempos em tempos, temos que parar para afiar o machado.


 

Aos dois lenhadores da história, acrescento um terceiro, o lenhador acadêmico.

Este lenhador, ouvindo a história acima, partiu para uma outra estratégia.

Desafiou o lenhador sábio, e lá foi ele competir.

O lenhador velhinho alternava o trabalho de cortar a madeira com o ato de afiar o machado. Já o lenhador acadêmico ficou 80% do tempo disponível afiando o machado. Quando ele finalmente foi para o trabalho, para cortar a primeira tora, o que aconteceu? O fio do machado se quebrou, de tão desgastado que estava, e agora o machado estava cego. O lenhador acadêmico perdeu não só do sábio, mas do fortão trabalhador também, na verdade, não produziu uma única tora.

Moral da história: Afiar demais o machado também é ruim.

Festinha de aniversário e corrupção, tudo a ver

“Este país não vai para frente mesmo” – foi o que eu pensei no dia. Este episódio ocorreu quando eu trabalhava no serviço público, há muitos anos, mas certamente continua muito atual.

De tempos em tempos, a seção em que eu trabalhava fazia uma festinha para os aniversariantes do trimestre. Algo simples, alguns salgados e refrigerantes. A secretária recolhia uns 10 reais de cada um, com alguns dias de antecedência. No dia da festinha, normalmente meia hora da sexta à tarde, a gente juntava algumas mesas, fazia a comemoração, batia um papo, e pronto. Era uma festinha interna, mas de vez em quando, alguns colegas mais chegados de outras seções apareciam também.
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Entretanto, aquela vez foi diferente. A secretária passou cobrando 50 reais de cada um. Não explicou o motivo, disse apenas que o chefe da área tinha pedido. Lembrando que 50 reais na época deveria ser uns 80 reais de hoje. Ok, pensei. Deve ser alguma coisa especial – melhor para mim, já que o meu aniversário também era neste trimestre. O dia e o horário marcados também eram diferentes, ao invés da tradicional sexta final da tarde, um dia da semana no meio da tarde. Ok, tenho coisas mais importantes para me preocupar, pensei.

Chegando no dia, mais coisas estranhas. Ao invés de duas ou três mesas, juntaram várias. E, numa mesa, havia uma série de presentes grandes. Em outra mesa, pacotes de presentes bem menores.

Chegando próximo à hora combinada, começou a chegar gente de outras seções: alguns figurões, pessoas de alta patente. Muito estranho…

Na mesa, os mesmos salgados e refrigerantes de sempre. A única coisa diferente era que tinha um bolo. Ficava a dúvida: para que cobrar tão caro para ser a mesma coisa, o equivalente aos 10 reais de sempre?

Então, teve início a cerimônia. O chefe de nossa seção começou o discurso, focando em citar o aniversário de um figurão em particular. E começou a distribuir os presentes expostos na mesa, seguindo rigorosamente a hierarquia, do grandão ao pequeno. Como eu estava iniciando no serviço, obviamente eu era muito pequeno, e o presente que me deram também – algo inútil, um souvenir qualquer, que ainda tinha um cartão com uma mensagem motivacional, para lembrar o quanto eu era importante para o sistema… Quanto aos pacotes grandes, não sei e nem quero saber o que tinha.

Felizmente, esta demonstração de puxa-saquismo com o dinheiro alheio não ocorreu mais. Ficou tão explícito, tão mal disfarçado, que pegou mal.

De qualquer forma, é impressionante que alguém possa pensar que é legal fazer algo assim, mesmo que apenas uma vez.

Felizmente também, nos meus muitos anos na iniciativa privada, nunca mais vi algo assim. Talvez este país ainda tenha esperança, no final das contas…

O ouro do Reno

Smeagol

A cada 10 anos mais ou menos, tenho o desprazer de encontrar um sujeito que só fala de dinheiro. Vou identificá-lo como “Smeagol” neste texto.

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O Smeagol chega e já começa a falar de dinheiro. Reclama que não tem dinheiro para nada. Fala sobre algum projeto mirabolante (para ganhar o precioso dinheiro), mas a seguir recorda que não tem verba para tal. Comenta que “a vida de fulano é boa, porque ele tem muito dinheiro”, ou que “beltrano comprou um Corolla novo”. Depois, pergunta sobre as minhas filhas, e onde elas estudam – pergunta a mensalidade. Finaliza perguntando quanto eu ganho…

Seu lema:

“Não quero ser feliz, quero ser rico”.

Mas poderia ser:

“Precious”, “My precious…”

Fico me imaginando o que aconteceria se ele ganhasse na Mega-Sena. Será que entraria em depressão, por não ter mais objetivo a atingir? Ou continuaria a tentar perseguir mais dinheiro?


 

Meio de troca

A definição básica de dinheiro, segundo qualquer livro de Economia: meio de troca, reserva de valor e unidade de medida. Nós, seres humanos, nos distinguimos de outros animais porque produzimos coisas úteis e trocamos uns com os outros. Aproveitamos as vantagens competitivas de cada um para nos especializarmos em fazer mais, melhor e mais barato, e depois trocamos os produtos finais com nossos semelhantes. Um produz limão, outro laranja, depois eles trocam um pouco de cada entre si – e o lugar onde isto acontece é o mercado.

À medida em que o mundo foi ficando mais complexo, ficamos cada vez mais especialistas, e cada vez mais difícil fazer as trocas. Como um analista de controladoria trocaria seus serviços contábeis por um quilo de laranja? A forma natural que surgiu para permitir tais trocas foi o dinheiro: um meio de troca aceito entre todos do mercado, uma unidade de medida que quantifica o quanto vale o trabalho do analista e quanto vale um quilo de laranja, e uma forma de guardar este valor para o futuro, se a pessoa não quiser fazer a troca agora.

Portanto, Smeagol, o dinheiro é um meio de troca, não um fim em si. E a soma daquilo que recebo na troca tem que ser equivalente ao que produzo, não posso receber sem produzir.

 


 

Alberich e Smeagol

Smeagol é um personagem da história “O Senhor dos Anéis”.

Mas Tolkien provavelmente se inspirou em outras histórias. Na mitologia germânica, que é milenar, um anão horripilante e ganancioso, Alberich, roubou o ouro guardado pelas fadas do Reno e transformou num anel, o seu precioso anel dos Nibelungos.

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O compositor Richard Wagner recontou esta história, numa ópera chamada “O Anel dos Nibelungos”.

Conclusão: não é de hoje que o precioso ouro cria os seus Smeagols.

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As fundações das fundações das fundações

Segundo uma antiga lenda hindu, se o mundo existe, ele está apoiado sobre alguma coisa, porque ninguém nunca viu algo flutuando sozinho.
O que sustenta o mundo?
O mundo é sustentado por quatro elefantes.
Mas o que sustenta os elefantes?
Uma tartaruga gigante sustenta os elefantes…
A necessidade do ser humano de entender as fundações das fundações vem desde o início dos tempos.
Uma tradição muçulmana, descrita no livro “Imaginary beings”, de Jorge Luis Borges:
Deus fez a Terra, mas ela não tinha base e sob a Terra ele fez um anjo.
Mas o anjo não tinha base e sob o anjo ele fez uma rocha de rubi.
Mas o rubi não tinha base, e sob o rubi ele fez um touro com 4 mil olhos, orelhas, narinas, bocas, línguas e pés.
Mas o touro não tinha base, e sob o touro ele fez um peixe chamado Bahamut, e sob o peixe ele colocou água, e sob a água ele colocou a escuridão, e além disso, o conhecimento do homem não chega.
Bahamut
Uma terceira e última lenda. Para os gregos, a Terra era plana. O titã Atlas sustentava o mundo nas costas, uma punição por ter batalhado contra os deuses do Olimpo.
https://mindijofurby.files.wordpress.com/2012/09/greekatlas.png?w=448&h=673
Atlas
A única folga que ele teve foi quando o semi deus grego Hércules precisava de sua ajuda. Enquanto Hércules segurava o mundo, Atlas foi buscar os pomos das Hespérides. Atlas queria ficar mais um tempinho sem carregar tal fardo, mas foi enganado pela lábia de Hércules, e Atlas está até hoje segurando o mundo nas costas. Hoje em dia, ele até virou sinônimo de mapa de geografia, o Atlas escolar.
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Eu tinha um desses Atlas, há dezenas de anos atrás
Essas lendas são ingênuas, um exemplar da imaginação do ser humano. Mas houve una série de tentativas bem sérias de descobrir a causa das causas, a fundação das fundações. Uma dessas buscas é o  argumento da Causa Inicial.

A Causa Inicial
O argumento da causa inicial remete a pensadores como Tomás de Aquino, Baruch Spinoza e até a Aristóteles.
Nesta vida, tudo o que acontece teve uma causa. É um mundo causal, causas provocam consequências, e consequências tiveram causas.
A cadeira se move porque o homem empurrou. O homem empurrou movendo seus músculos. Seus músculos usam energia de uma reação química, que por sua vez se deve à comida ingerida, e assim sucessivamente.
Se toda consequência teve uma causa, ou isto teve um início, ou sempre foi assim para sempre. Até onde se sabe, tudo teve um início.  Se teve início, em algum momento houve uma primeira causa, a causa que gerou as primeiras consequências.
O filósofo grego Aristóteles, nos anos 300 a.C. chamou o primeiro movimento de “aquele que move estando imóvel”.
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Já o italiano Tomás de Aquino, nos anos 1200, chamou esta causa de “Deus”, sendo este argumento uma das provas da existência de Deus.
O holandês Baruch Spinoza, nos anos 1600, também explorou argumentos semelhantes para chegar à conclusão que a causa inicial era Deus, aquele que gera consequências sem ter causas…
Este argumento recebeu diversas críticas, de céticos como Immanuel Kant, Stephen Hawking, Richard Dawkings.
Por exemplo, de que adianta toda a argumentação lógica, para chegar no final e falar que um Deus explica tudo? É a mesma coisa que falar que é uma tartaruga que sustenta o mundo.
E se não houve a causa inicial? E se há causas e consequências infinitamente no passado, como se fosse uma tartaruga sustentando outra tartaruga, infinitamente?
Dentre as críticas, a do inglês Bertrand Russell, nos anos 1900. Se tudo tem uma causa, e a causa inicial é Deus, qual a causa inicial de Deus?
Bom, há uma legião de pensadores defendendo este tipo de argumento, e outra legião atacando o mesmo.
A conclusão: para mim, por via das dúvidas fico com a história dos elefantes e da(s) tartaruga(s) mesmo…
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Links e Recomendações de Leitura
O bem maluco “Livro dos seres imaginários”

Sérgio Moro prender Lula? Agradeça à Revolução Francesa.

Agora, em julho de 2017 a sentença saiu. Este post foi escrito em mar/16, quando Dilma ainda era presidente.

Forgotten Lore

É março de 2016, e sem dúvida alguma estamos em uma época turbulenta. A presidente da República nomeando um ex-presidente como ministro, foro privilegiado, o corajoso juiz Sérgio Moro investigando figurões graúdos da política, etc.

sergio-mmoro_1.jpeg Juiz Sérgio Moro

“Mas, se o presidente manda no Brasil, porque ele não manda parar a investigação?” – Já ouvi esta pergunta mais de uma vez, então vale a pena explorar a questão.

pixuleco.jpg “Pixuleco”

Um juiz pode sim investigar o poder executivo e prender um ex-presidente, por causa da Teoria da Separação dos Poderes.


Teoria da Separação de Poderes

Um ser humano com poder absoluto pode cometer abuso de autoridade. Se alguém com poder absoluto cometer um crime, ele pode mudar a lei para que o crime não seja mais crime, e absolver a si mesmo pelo crime não cometido. Ele nunca estará errado. Estará sempre dentro da lei. Em ditaduras absolutistas acontece exatamente isto…

Ver o post original 650 mais palavras

​ ​O livro de receitas de 1 gigabyte

A fascinante história do DNA é daquelas histórias que merecem ser contadas e recontadas.

 

O DNA é como se fosse um livro de receitas. Só que ao invés de ensinar a preparar arroz, feijão, macarrão e carne, são receitas de como fazer um ser humano: células da pele, do pulmão, do olhos, hormônios, etc. É um livro que passa de pais para filhos.
 
Este livro de receitas é dividido em 23 capítulos. Cada capítulo é chamado de “cromossomo”. São 23 pares de cromossomos: metade vem do pai, e a outra metade vem da mãe, totalizando 46 cromossomos. O pai passa metade do livro, a mãe passa a outra metade.

 

 

Os macacos são 98% similares a nós em termos genéticos. Mas uma grande diferença é que eles têm 24 pares de cromossomos. No ser humanos, dois dos cromossomos dos macacos estão fundidos em um só. E essa é uma das razões para sermos espécies diferentes: um cruzamento de gameta com 23 cromossomos e outro com 24 cromossomos não dá match.

 

Este livro de receitas tem cerca de 1 gigabyte de conteúdo. Cabe num pen drive. Atualmente um vídeo digital, ou um livro cheio de figuras, pode ter mais do que isso de tamanho (isto demonstra que tamanho não significa qualidade). Mas dá para escrever um monte de coisas com um giga. Se for só texto, uma biblioteca de 5.000 livros de 300 páginas cada.

  


DNA, Cromossomos e Genes
 
 

Para ficar mais claro. O nome DNA (ácido desoxiribonucleico) refere-se à molécula em dupla hélice descoberta por Francis Crick e James Watson em 1953. Um cromossomo é feito de uma molécula de DNA.

  

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Se o genoma humano é o livro, e os 23 cromossomos são os capítulos, cada capítulo contém milhares de receitas diferentes – chamamos cada receita individual de “gene”. Há mais de 300 mil genes, cada gene com uma instruçãozinha específica: uma para produzir insulina, outra para produzir as células da pele, etc.

 
 

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Temos pares do mesmo cromossomo, o que leva a termos duas receitas para fazer a mesma coisa. Digamos que a receita do pai ensine a fazer olhos castanhos, e a receita da mãe, olhos azuis. Chama-se alelos esses pares de genes que têm o mesmo objetivo final.

  

Algumas instruções dos genes podem ser dominantes em relação ao outro alelo. Digamos, o gene de azul simplesmente diz que não há pigmento, já o gene de castanho diz que precisa de pigmento castanho. A soma de não pigmento com pigmento castanho dá castanho.

  

As ideias de genes ligados à características, genes dominantes e recessivos, tiveram origem com os experimentos de Gregor Mendel com ervilhas, lá pelos anos de 1860.

  


As letras e palavras do livro da vida
  
O livro de receitas do DNA é escrito com 4 letras: A, G, C, T. Cada letra é uma nucleobase molecular formada de carbono e mais alguns outros átomos.

  

  

  

O “A” liga-se com o “T” e o “G” liga-se com o “C”.

  

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Um grupo de três letras forma uma palavra: o aminoácido. Há 20 aminoácidos.

  

Assim como utilizamos letras do alfabeto formando palavras, e com palavras escrevemos qualquer livro possível, as letras e palavras do DNA descrevem qualquer ser vivo: desde vírus, passando por bactérias, células, peixes, aves, mamíferos, até chegar ao ser humano.
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Ex. O aminoácido Isoleucina pode ser feito das nucleobases ATT

 

O livro do genoma humano utiliza 1 bilhão de nucleobases, ou letras na nossa analogia. Um bilhão dá um gigabyte, arredondando.
 
Uma analogia irresistível é a com os computadores. Num computador, temos os bits, valores binários 0 ou 1. Um grupo de 8 bits forma um byte. Esses bytes armazenam qualquer coisa que pode ser traduzida em números: palavras, imagens, sons, vídeo.

  

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As nossas bases nucleicas são estruturas complexas de carbono. No computador, as estruturas são feitas de silício. O silício é da mesma família do carbono, uma linha abaixo, na tabela periódica de elementos. Não é coincidência. Ambos tem 4 elétrons na última camada, o que mostra uma certa similaridade.

  

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As letras do alfabeto da vida ficam dispostas sequencialmente, um atrás do outro, como um cordão. Na verdade, um cordão duplo, porque a base oposta se junta, como se fosse um zíper, na elegante forma de dupla hélice. Quando necessário, este zíper se abre e as cópias são feitas. Depois de copiado, o zíper de DNA se fecha novamente.
 

 

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O nosso DNA carrega um monte de informação que não é utilizada para nada, até onde se sabe. Alguns pesquisadores dizem que 90% do nosso código genético seja deste “junk DNA”. Talvez tudo isso seja código legado, ou seja, um dia já serviu para alguma coisa, ficou obsoleto, mas como não faz mal e dá um trabalhão limpar, foi ficando. Todo processo vivo, em constante inovação, acaba gerando um monte de código legado – para fazer uma analogia, o Internet Explorer antigo teve que ser reescrito, porque tinha um milhão de linhas de código que eram obsoletas.

  


Como transformar o DNA num osso?

  

Para transformar uma receita de bolo num bolo de verdade, há um ser humano que executa os passos para tal.

  

Num computador, as instruções do software dizem o que alguns equipamentos elétricos e eletrônicos devem fazer: movimentar o cabeçote de leitura, ler um dado, comparar com o estado dentro da memória.

  

Como isto é feito no interior do corpo humano, somente com bioquímica?

  

Quando um gene é transcrito, é feita uma cópia a partir do DNA. Esta cópia é como uma linha de aminoácidos. E ela começa a se dobrar em si mesmo. Alguns dos aminoácidos são hidrofílicos, outros hidrofóbicos, e também há as forças de atração e repulsão entre eles, de modo que a linha começa a se dobrar e formar uma peça, como se fosse um Lego. O nome desta peça de Lego é proteína. E este Lego tem um formato certinho para encaixar uma molécula de cálcio, no caso do osso. Portanto, o gene é uma receita para montar um Lego, e o Lego vai se montando pelo formato 3D e por forças bioquímicas, algo como uma impressora 3D bioquímica.

  

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De pecinha em pecinha, utilizando forças de atração e repulsão, e respeitando o formato do “Lego”, o corpo humano vai sendo montado. Dá-se o nome de dobramento de proteínas a esta formação da estrutura 3D a partir da base nucleica, e é uma das áreas de muito estudo no mundo atual.

  


Porque a necessidade de alelos?

  

Um último questionamento. Por que há duas receitas para o mesmo bolo? Gastar o dobro de páginas, o dobro de material e energia, para cada celulazinha do corpo humano. Não seria mais barato ter apenas um cromossomo, ao invés de um par dos mesmos?

  

Eis aqui a eterna briga entre a otimização e a redundância.

  

Embora as empresas de hoje tentem sempre otimizar, fazer mais com menos, a sábia natureza diz que otimizar demais não é bom. É melhor ter alguma redundância, um backup de segurança para casos de emergência.

  

Digamos que surja um vírus, a varíola. Aliás, um vírus nada mais é do que um DNA protegido por uma parede de proteínas.

  

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Digamos que este vírus seja letal, e a humanidade tenha tido um trabalhão para desenvolver os genes para vencer o mesmo.

  

Uma vez vencida a varíola, não há a necessidade de ter tais genes. E, talvez, este gene evolua para combater algum outro vírus.

  

Mas, imagine que a varíola volte, e volte mais virulenta ainda (e esses vírus vão e voltam comumente). A humanidade teria que desenvolver de novo os genes para combater a varíola.

  

O fato de ter dois alelos, dois backups para o mesmo gene, é um seguro para que os genes úteis não evoluam depressa demais e não sumam com o tempo. Ter duas cópias do gene aumenta a probabilidade de que alguém, em algum lugar, tenha as chaves para combater a varíola, mesmo que escondidas num gene recessivo.
 

 

Esta é uma das razões pelas quais o corpo humano é antifrágil, tomando emprestado o termo do pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele tem seguros, alternativas, planos B. E vejo muitas empresas do mundo moderno descartando planos alternativos e segurança (como estoques, capacidade ociosa de equipamentos), pois são custos no curto prazo, ficando vulneráveis a longo prazo. Elas deveriam aprender com a natureza…

 
 


 

Exceções

  

Este texto tem a intenção de ser uma introdução leve, interessante, cheia de analogias, sobre o fascinante mecanismo de transmissão de informação de geração em geração. É claro que tudo o que está escrito aqui são teorias, e teorias  mudam com o tempo, há contra-teorias e  exceções para todas as regras.

  

Conforme diz Shakespeare, em Hamlet:
“Há muito mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia”

 


Referências:

 

The Red Queen – Matt Riddley
Genome: the autobiography of a species in 23 chapters – Matt Ridley
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