O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Pedir ajuda

Pedir ajuda é uma excelente forma de inovar, e também de criar novas conexões.

Em geral, as pessoas gostam de ajudar, contanto que esta ajuda seja pontual, humilde por parte do solicitante e de alto nível técnico.

A primeira lei de Newton, da ação e reação, vale aqui:

– Se a pessoa se sentir explorada, obviamente ela não vai gostar.
– Se for com um tom de obrigação, a ajuda vai ser somente o mínimo necessário para responder a questão.
– Se for algo de alto nível técnico, engrandecedor para quem ajudar, a resposta também será de alto nível.

O ideal é que a ajuda extrapole a pergunta: indique novas oportunidades de aplicação, abra novas portas, dê novas ideias.

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A inovação que funciona de verdade vem de networks: várias pessoas (competentes, diga-se de passagem), colocando novas aplicações e elementos que contribuem para o sucesso do trabalho.

Por fim, quando o trabalho estiver concluído, agradeça pela ajuda, por menor que esta tenha sido.

Ação: peça ajuda, mesmo se não precisar. Mas saiba pedir.

 

Três contos sobre o Trabalho

Os dois comerciantes

Um conto budista sobre o diálogo de dois comerciantes, o normal e o esforçado, no meio de uma longa jornada para comprar os produtos para revender posteriormente.

Normal: Que trabalhão, ter que atravessar essa montanha imensa, carregando tantos fardos! Queria que a nossa jornada fosse mais simples.

Esforçado: Pois eu queria que a montanha fosse maior, o caminho fosse mais tortuoso, e os perigos maiores.

Normal: Ah é? Mas por que motivo?

Esforçado: Se a jornada fosse mais árdua, menos pessoas se prestariam a tal. Desta forma, os frutos do meu trabalho seriam mais valiosos, e por consequência, a recompensa seria maior!

Leia também: a Associação dos Burros Esforçados.


Hermes e o trabalho

Um conto de Esopo

Zeus, após criar os seres humanos, designou Hermes para ensiná-los a sobreviver de seu trabalho na Terra.

Hermes os levou até Gaia, a Terra, e ensinou-os a labutar.

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A Terra, porém, não gostou nem um pouco. Hermes obrigou-a, dizendo que Zeus tinha ordenado. Ela retrucou: podem cavar a terra, mas terão que pagar caro por isto.

Este é o motivo pelo qual temos que trabalhar tanto para sobreviver neste mundo…


Os dois sapatos

Este conto é meu mesmo.

Numa vila, haviam dois sapateiros, um mediano e um excelente.

O sapateiro mediano colocou 10 horas de trabalho para fazer um sapato também mediano: costuras imperfeitas, pés desiguais, pontas sobrando.

O sapateiro excelente fez um sapato excelente: costuras perfeitas, acabamento bem feito, detalhes bem pensados. Utilizou 15 horas para tal.

Um cliente comprou um par do sapateiro mediano e um par do sapateiro excelente, pagando algo proporcional a 10 e a 15 moedas, respectivamente.

O sapato mediano incomodava o pé do cliente, e estava cheio de falhas. O cliente voltou para ajustes ao sapateiro mediano mais três vezes antes de desistir do mesmo – mas no total ele gastou muito mais tempo e dinheiro do que o preço original.

Já o sapato excelente funcionou perfeitamente, sem necessidade de retorno para ajustes. Obviamente, o cliente passou a comprar sapatos apenas com o sapateiro excelente.

Entregar um bom trabalho requer uns 50 por cento a mais de tempo, esforço e concentração do que um trabalho ruim, na primeira vez em que é realizado.

A diferença é que o trabalho ruim vai voltar para ser refeito o triplo de vezes do que o trabalho bom, na melhor das hipóteses.

No final das contas, vale muito mais fazer um excelente trabalho desde o início.

A Corrida do Ouro (virtual ou não)

Atualmente vejo uma grande quantidade de pessoas, algumas delas brilhantes, correndo atrás da mineração de criptomoedas como o bitcoin.

Isto lembra a corrida do ouro da Califórnia, de 150 anos atrás. Ou a corrida do ouro de Serra Pelada, mais recentemente. Ou a corrida do ouro do Klondike, que aparece nas histórias do Tio Patinhas.

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Fulano de tal conseguiu riqueza em pouquíssimo tempo. Ele apareceu no jornal, por encontrar uma pepita de ouro no meio do barro. Dezenas de outros seguem atrás, com a pá no ombro e esperança no coração.

Trecho de reportagem, cuja fonte está nos links:

O ouro que brotava na Califórnia era generoso. Nos primeiros meses depois da descoberta, era possível coletar as pepitas diretamente do solo. Bastava agachar e pegar. O metal precioso era encontrado em leitos de rios e em ravinas aos borbotões. O mexicano Antônio Franco Coronel, por exemplo, abandonou o emprego de professor em Los Angeles e em três dias de mineração recolheu 4,2 kg de ouro.

 

Em pouco tempo, o rancho de John Sutter foi cercado por milhares de caçadores de fortuna. Barcos que atracavam em São Francisco, a 212 km dali, eram abandonados pelos marinheiros. Em agosto de 1848, a notícia chegou a Nova York. Em dezembro, depois de receber um pacote com pepitas, o presidente americano James Polk foi ao Congresso para anunciar o achado. Nos 5 anos que se seguiram à descoberta, 300 mil pessoas do mundo todo correram para a Califórnia.

Porém, a grande maioria vai falhar…

O avanço sobre a terra foi tão grande e rápido que em 1853 o ouro começou a escassear. Agora só se conseguia extrair o metal com bombas de sucção e esteira mecânica. O tempo do heroísmo individual havia acabado. Para Slotkin, a corrida do ouro “foi uma terrível perda de vidas e empobrecimento de pessoas, em que pouca gente fez fortuna”. De fato, James Marshall, que descobriu o ouro, morreu na miséria em 1885. Sutter também não ficou milionário – ele trocou ouro por gado e ovelhas, que acabaram roubadas por garimpeiros, e faliu em 1852.

 

Alinhado à minha concepção do que é dinheiro e riqueza, o problema principal é que tanto capital humano poderia ser direcionado para outras atividades produtivas: produzir bens e serviços, trabalhando na indústria ou comércio. O capital intelectual e computacional poderia ser utilizado para fins mais nobres, como biologia computacional, pesquisar a cura do câncer.

A verdadeira riqueza está em resolver problemas importantes do mundo real.
Ou, como disse Napoleon Hill:

“Mais ouro foi minerado do cérebro humano do que da terra”.

 

 

Fotos de Serra Pelada, do site monomaníacos:

 

 


 

Links:

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/era-industrial/a-corrida-do-ouro-da-california.phtml#.Wn6g5-cfPIU

https://www.wdl.org/pt/item/16791/

Como foi o garimpo em Serra Pelada?

http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/serra-pelada-corrida-do-ouro.htm

 

http://www.monomaniacos.com.br/historia/inferno-serra-pelada-1980/

 

Haikais (ou quase)

Em resposta à provocação do meu amigo José Antônio Espíndola, seguem algumas palavras sobre Haikais.

Haikai, ou Haiku, são poemas japoneses simples, de 17 sílabas (poéticas), divididas em três linhas: 5 – 7 e 5 sílabas.

Um exemplo, do mestre Matsuo Basho (1644 – 1694):

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Cansei da viagem
hoje faz quantos dias?
Vento de outono.

São poemas bastante simples, que podem ter relação com a natureza ou estações do ano.

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

Versos simples e bonitos

Entretanto, como em tudo na cultura japonesa, há várias regras chatas para criar um simples haiku de verdade: o tema, a métrica, etc.

Não sou nenhum especialista em haikus, portanto não vou arriscar a quebrar regras que nem conheço direito.

O que vou fazer é escrever alguns fake-haikus. Haikus em versão livre.

Cronos

O Passado volta,
O Presente não é vivido,
O Futuro clama!

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Leve

Pássaro feliz.
Ar, vento, liberdade.
Eterno Azul.

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O Vaso

Vaso imóvel.
Esbarrão… gravidade,
Cacos voando…

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Três filhas

A Haru graceja.
A Hikari canta e dança..
A Hiromi brinca…

(Tenho três filhas, chamadas Haru, Hikari e Hiromi)

Deixe o seu Haikai nos comentários.


Links

http://www.revistaprosaversoearte.com/matsuo-basho-dez-haikais/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Haiku

https://en.wikipedia.org/wiki/Matsuo_Bash%C5%8D

Para que serve o segundo turno das eleições?

Eleições na Banânia 2018

 

Imagine um país chamado Banânia, que vai passar por eleições presidenciais no ano de 2018.

 
 

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Imagine também que há apenas três candidatos, o Molusco, o Chuchu e o BolsoMinion.
Os três candidatos estão praticamente empatados nas pesquisas.

 

Após a eleição em turno único, o resultado é Molusco, com 34,5% dos votos, Chuchu com 33,5% e Minion com 32%. Molusco é eleito presidente da Banânia!

 

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O problema é que o Molusco tinha a rejeição completa dos outros 66% que não votaram nele. Se houvessem apenas dois candidatos, o Chuchu e o Molusco, o Chuchu venceria por herdar os votos do Minion.

 

Como pode um candidato rejeitado por 66% da população ser eleito em primeiro lugar? Este é o paradoxo de Condorcet.

 


Paradoxo de Condorcet

 

Este paradoxo foi notado pelo marquês de Condorcet, no século XVIII.

 

Embora seja uma eleição democrática, ela pode levar à uma situação em que a maioria vai rejeitar.

 

Levando a situação ao extremo, imagine que há 100 candidatos, cada um com exatamente 1/100 dos votos e um deles com um único voto a mais. Este seria eleito com apenas 1% dos votos!

 

Para evitar este tipo de situação, existe o segundo turno. Os dois melhores colocados no primeiro turno passam por nova votação.

 

Com o segundo turno, o Chuchu será eleito presidente!

 

Eleições em dois turnos no Brasil é algo mais ou menos recente. Foi instituído na constituição de 1988.

 


Impossibilidade de Arrow

 

Chama-se de “voto útil” quando os eleitores deixam de votar no seu favorito, que não tem chance de ganhar, para votar no candidato menos ruim que tem chance de ganhar. Ex. Os eleitores do Minion votarem no Chuchu no turno único, por este ter mais chances de vencer.

 

Entretanto, mesmo com dois turnos, o “voto útil” vai continuar existindo. Imagine vários candidatos fragmentando a esquerda, por exemplo. Pode haver voto útil para que o melhor candidato da esquerda vá para o segundo turno.

 

Em suma, eleições em dois turnos não são perfeitas. Nem em três, nem em quatro. Sempre é possível pensar em situações onde o paradoxo do voto ainda ocorre. E este é basicamente o Teorema da Impossibilidade de Arrow:  não existe sistema de votação que seja 100% perfeito.

 

E assim, neste mundo imperfeito, vamos vivendo com os Moluscos, Chuchus e Minions da vida.

Método de Monte Carlo e os perigos de ignorar o desvio padrão

Método de Monte Carlo

Este pequeno experimento visa demonstrar o efeito e perigos de fazer dimensionamento a partir da média, desconsiderando o desvio padrão. Utilizaremos o método de Monte Carlo, em Excel, para isto. Download do arquivo.

Suponha a seguinte situação. Uma fábrica produz 10 mil itens por dia, envia para um centro consumidor, e neste, 10 mil itens são consumidos por dia. Pergunta: qual o estoque necessário para suportar a demanda?

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Montando num excel, é só considerar uma coluna para produção (10 mil), outra para demanda (10 mil).
Só tem uma fórmula: estoque de hoje = estoque dia anterior + produção – consumo.

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Resposta: É necessário estoque zero. Nada.
Se o mundo fosse determinístico, perfeito, não seria necessário ter item algum em estoque. Produção é igual à demanda, e fim de papo.


 

Mundo não-determinístico

O único problema é que o mundo não é determinístico. É o livre-arbítrio de cada um de nós que decide o que queremos fazer, o que queremos consumir. A soma de todas essas decisões individuais é o mercado. Não controlamos o mercado. É o mercado que dita as regras, e tais regras podem ter um comportamento estatístico modelável (ou não). Para descrever este comportamento estatístico, podemos lançar mão de ferramentas como o Método de Monte Carlo.

Basicamente, o método de Monte Carlo simula o comportamento da fábrica e o do consumidor, segundo alguma distribuição estatística.

Uma normal (ou gaussiana) é completamente definida por uma média e um desvio padrão. Quanto maior o desvio padrão, maior a chance do valor observado estar mais distante da média.

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No mesmo caso descrito, digamos que tanto a produção quanto o consumo sejam modelados por uma normal de média 10 mil e desvio padrão de 3 mil.

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O Monte Carlo vai sortear um valor para a produção, que vai ser próximo de 10 mil, talvez um pouco para cima ou um pouco para baixo. 65% dos valores estarão entre 7 mil e 13 mil (mais ou menos um desvio padrão), 95% dos valores estarão entre 4 mil e 16 mil (dois desvios padrões). Portanto, pode haver um dia com consumo muito acima da média, mas tais ocorrências serão raras. Por haver sorteios, este método lembra um cassino, por isso o nome “Monte Carlo”, em referência ao cassino.

Em termos de modelo Excel, usamos a função genNormal(média, desvio) para simular um sorteio de uma variável aleatória normal. Esta função é do pacote Yasai, cujas fórmulas estão contidas na planilha anexa. O Yasai é um pacote open source para simulação em planilha. Alguns pacotes mais famosos são o Cristal Ball e AtRisk.

Para um trial, ou seja, uma rodada aleatória, a produção gira em torno de 10 mil, a demanda também em torno de 10 mil. Estoque inicial igual a zero. Mas o estoque varia ao longo dos dias.

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No gráfico, nota-se que o estoque ficou negativo a maior parte do tempo.

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Para um outro trial:
(para simular outro trial no excel, apertar F9).

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Deve-se simular o modelo diversas vezes e guardar os resultados, para ter massa de dados para compensar o efeito da aleatoriedade de um trial.

Rodando uns 1000 trials neste caso, vai dar que 50% das vezes haverá problemas de desabastecimento e 50% sem problemas.

Na média, o consumo é igual à produção, mas o problema é o desvio padrão. Para suportar tais flutuações, são necessários os estoques.

 

Digamos, um estoque de 7 mil peças dá um aumento da garantia de abastecimento. O estoque tem que ser suficiente para cobrir o efeito somado dos desvios padrões (consumo e produção).

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Deve-se variar o estoque inicial, rodar outros tantos 1000 trials, e verificar a probabilidade de desabastecimento.

A pergunta final a responder é: qual o risco que quero correr? Qual o estoque mínimo que compense o custo do desabastecimento?

  • Se o produto não for importante, pode faltar à vontade, e é necessário pouco ou nenhum estoque.
  • Se o produto for crucial, é bom que o estoque seja bem calculado.
  • Quanto maior o custo do desabastecimento, maior o estoque de segurança necessário.

 

O método de Monte Carlo pode ser utilizado para modelar situações complexas da vida real, e fornecer uma estimativa dos riscos associados. O modelo apresentado é muito simples, mas este pode ser tão complicado quanto se queira, com outras distribuições estatísticas, etc.

Ponderar Riscos x Seguros é exatamente a mesma conta de fazer o seguro do carro. Pagar o seguro é salgado, digamos 2 mil reais, mas ter o azar de ter o carro roubado é muito pior, digamos 50 mil reais.

Um seguro, um estoque, custa caro, mas vale a pena se este for dimensionado para evitar um prejuízo ordens de grandeza maior.

 

 

 

Drucker e Sun Tzu sobre Planejamento

Peter Drucker, no livro “O Executivo Eficaz”

Ter um plano de ação é uma das tarefas de um executivo eficaz.

Napoleão disse que nunca uma batalha seguiu o seu plano de ação.
Entretanto, Napoleão foi, de longe, o general que mais meticulosamente planejava as suas batalhas.

Planos de ação não são camisas-de-força que obrigam o seu cumprimento exato. Estes são guias para orientar a ação, e devem ser flexíveis para adequar imprevistos negativos ou oportunidades que surgirem.

Tais planos servem para alocação de recursos: pessoas e tempo. O tempo é o item mais escasso de um executivo, sem dúvida. E pessoas competentes são o item escasso de qualquer organização.

E, finalmente, planos de ação devem ser medidos, pelo menos duas vezes até o seu fim, comparando o esperado e o que ocorreu no final das contas.

 

Sun Tzu, a Arte da Guerra
O general que vence uma batalha faz muito planejamento em seu quartel. O general que perde uma batalha faz pouco planejamento de antemão. Portanto, muito planejamento leva à vitória, pouco planejamento leva à derrota, o que dirá não haver planejamento algum!

Pela dedicação a este ponto, posso prever quem deve vencer ou perder.

 

 

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​Recomendações de livros para recém-formados

Após o post anterior, várias pessoas (como o meu amigo Marco Lima) vêm pedindo para eu colocar as minhas recomendações de livros para pessoas em início de carreira. São livros introdutórios, mas certamente servem para profissionais já bem estabelecidos também.

Também são muitos livros, mas tentarei dividir em áreas de interesse.

Aviso: gosto muito da recomendação do prof. Kokei Uehara.

São 4 fases de um profissional: o técnico, o administrador, o economista e o filósofo. Na primeira década após formado, o profissional deve dedicar-se à parte técnica, dominar muito bem o seu ramo de atividade, seja engenharia, contabilidade, o que for.

Portanto, nesta primeira fase, deve-se procurar especialização em áreas de interesse, continuar a estudar academicamente, montar as suas fundações.

A segunda fase é o do administrador. O profissional já tem domínio suficiente do que faz, e começa a administrar outras tantas pessoas. Também é uma fase em que deve-se abrir a cabeça para muitos outros assuntos além de sua área de atuação.

A terceira fase é a do economista. Compreender a relação causa-efeito do que acontece no mundo, escassez de recursos, compreender as fundações do sistema.

A quarta fase é a do filósofo. Uma vez que se sabe as fundações do sistema, podemos começar a questionar as mesmas. O mundo não é tão compreensível assim, a ciência não responde todas as perguntas, os prós e contras das religiões. É necessário ter uma boa vivência para realmente compreender a essência das ideias discutidas neste tópico. É o ápice e também o declínio, porque é onde descobrimos que há respostas mas estas não são absolutas, que podemos tentar muito mas mesmo assim nunca vamos descobrir tudo.


Administração

1 – Peter Drucker – Introdução à Administração

https://carrinho.extra.com.br/Control/ArquivoExibir.aspx?IdArquivo=2625251
O meu autor preferido na área de administração é Peter Drucker. Autor austríaco do início dos anos 1900, começou como economista, mas naquela época, com o surgimento da linha de produção em lugares como a Ford e a GM, estava sendo necessário um outro tipo de conhecimento: a Administração. A diferença é que a administração é mais humana, trata de temas como liderança, administração de pessoas, eficácia versus efetividade.

Ele criou o termo “trabalhador do conhecimento”: não o operador de macacão azul que trabalha na linha de montagem, mas aquele responsável por pensar, gerenciar outras pessoas, responder as respostas corretas e estudar até o fim da vida.

A Introdução à Administração é uma versão resumida da obra máxima de Drucker, “Management, Tasks, Responsabilities, Practices”, de leitura fácil e com ideias que já utilizei diversas vezes e utilizo até hoje.

 

2 – Peter Drucker – O Gestor Eficaz

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Um livro direto, rápido, com muitas recomendações para que um executivo seja eficaz. Note que o título é “eficaz” e não “eficiente”.

Eficiente é fazer muito bem alguma coisa. Por exemplo, digitar sem erros é ser eficiente.

Mas a eficiência não serve para nada sem a eficácia – que significa saber o que deve ser feito. Melhor digitar com erros, mas saber qual a mensagem a ser escrita, do que digitar sem erros uma mensagem inútil.


História

3 – Sapiens, uma breve história da humanidade

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O livro de Yuval Harari conta a história do ser humano desde a pré-história até os dias de hoje. Livro muito bem escrito, que prende a atenção. Inclui muitos conceitos e teorias bastante interessantes. Um exemplo é a mega-fauna (tatus gigantes, preguiças gigantes) que foi extinta com a chegada do homem moderno. Outro exemplo: o politeísmo surgiu naturalmente como uma explicação dos fenômenos do mundo (deus do trovão, deus do Sol), mas foi suplantado pelo monoteísmo. Um fator que contribuiu é que os monoteístas são muito mais fanáticos que os politeístas, pela própria natureza da crença de que há um e apenas um deus correto, os demais são heresia. Conclusão: é um livro rico em ideias e teorias.

 

4 – Guns, Germs, and Steel

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O trabalho de Jared Diamond tenta responder a uma pergunta. Por que as potências ocidentais são tão ricas? A teoria dele é que as pessoas são iguais, porém a geografia fez uma enorme diferença. A agricultura permitiu ao ser humano sustentar uma população cada vez maior. Entretanto, de milhares de espécies de plantas da natureza, apenas uma dúzia delas é domesticável: trigo, milho, soja, laranja, etc. Quanto aos animais, a mesma coisa, somente alguns são domesticáveis e têm valor comercial: vaca, carneiro, cavalo, etc. A seleção artificial do ser humano vem aumentando a produtividade, os melhores morangos são selecionados, os carneiros mais dóceis sobrevivem, etc. A questão é que essa meia dúzia de plantas e animais se concentram totalmente nas latitudes de sorte, que são o primeiro mundo atual. Em locais muito frios, muito quentes, muito secos, muito altos, não é possível plantar e não há tantos animais domesticáveis.

É uma leitura interessante, embora sofra do efeito retrospectiva, ou seja, a teoria se adequa aos fatos que ocorreram.

 

5 – Maus, a história de um sobrevivente

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Gostaria de indicar um livro sobre a Segunda Grande Guerra, que influencia até hoje os rumos da humanidade. Maus é uma boa recomendação. Na verdade, é uma história em quadrinhos. Art Spiegelman, o autor da história, narra a história de seu pai, Vladek, que sofreu na pele a perseguição aos judeus alemães na Segunda Guerra. Os judeus foram desenhados como ratos (daí o título: maus em alemão = mouse = rato), os nazistas como gatos, os americanos como cachorros.

O autor, Art, nasceu depois da guerra, mas é cheio de traumas com comportamentos estranhos de seu pai, entre eles a concorrência virtual com um irmão, que morreu na guerra. São histórias descritas com muitos detalhes e com a sinceridade de um sobrevivente. É uma história escrita com a alma, em que o autor fica pelado emocionalmente, mostrando aquele lado que gostaríamos de deixar escondido.

 


Economia
6 – Freaknomics

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Livro que populariza conceitos de economia, com explicações cotidianas. Economia lida com escassez de recursos, portanto com a utilização racional deste. Isto influi nas decisões das pessoas. Partindo disto, o livro explica porque um terrorista suicida faria seguro de vida, ou porque um traficante de drogas tende a ser pobre e morar com a mãe (embora a imagem que temos seja o contrário, alguém rico e rebelde). Explica entranhas de partidas de sumô arranjadas, e, talvez o ponto mais controverso, a correlação negativa entre aborto e criminalidade – quanto mais liberado é o aborto, menos bebês indesejados vêm ao mundo, e com isso o nível de criminalidade 20 anos depois tende a cair.

De qualquer forma, é um trabalho interessante de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, com várias sequências, como toda série de sucesso.

 

7 – Economics in one lesson

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Henry Hazzlit sintetiza os pontos mais importantes que a economia deve se preocupar, em poucas páginas, somente o essencial. E são dois os pontos: visão a longo prazo, e a nível global. É muito fácil criar uma falácia econômica. É só restringir a realidade a curto prazo e a nível local. Exemplos:

Falácia a curto prazo: os aposentados de hoje vão receber menos do que os aposentados de ontem se a reforma da previdência passar. Análise a longo prazo: se não houver reforma, ninguém vai receber nada porque o país vai quebrar.

Falácia a nível local: os carros autônomos vão destruir o emprego dos motoristas. Análise a nível global: os transportes serão mais eficientes, gerando ganho global de bem-estar, e os trabalhadores serão realocados para outros setores.

É muito fácil conseguir um ganho de curto prazo e local, basta sacrificar o longo prazo e o global: deixar de fazer investimentos, garantir o ganho de uma classe em detrimento das pessoas em geral (exemplo protecionismo econômico). O problema é que, um dia, a conta chega, e ela é salgada, muitas vezes superior ao que poderia ser.

 

8 – The Black Swan

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Um Cisne Negro é um evento de baixíssima probabilidade, mas impacto devastador. Por serem de probabilidade de ocorrência tão baixa, as pessoas desprezam tais eventos em seus modelos.

A grande contribuição de Nassim Taleb é afirmar que, embora tenham teoricamente probabilidade tão baixa, tais eventos ocorrem, e com muita frequência. Nossos modelos estatísticos, que olham para o passado, não conseguem capturar a real magnitude de um evento assim, que jamais ocorreu (porém, que pode acontecer), tornando a matemática inútil contra eventos desta natureza.

Para a proteção contra um futuro incerto, a receita de sempre: seguros, estoques, redundância, plano B, alternativas abertas.
Porém, seguro custa dinheiro, estoques empatam capital, pessoas a mais são caras. Neste mundo cada vez mais imediatista, em que a palavra da ordem é corte de custos e EBITDA trimestral, tende-se a confiar cada vez mais em modelos estatísticos e cortar seguros, estoques, alternativas. Isto dará espetacularmente certo, até o dia em que dará espetacularmente errado, jogando por terra todos os ganhos obtidos anteriormente.

Taleb é uma espécie de Nietzsche de Wall Street. Enquanto o mundo está cada vez mais quantitativo, como o deus Apolo, ele ataca as fundações de barro desse ídolo, mostrando as suas fraquezas, e confiando em seu oposto, Dionísio. Aliás, Taleb tem a sua própria versão de Apolo x Dionísio, que é Dr. John (um phD em métodos quantitativos) x Tony Gordo (alguém formado nas ruas, com conhecimento empírico).

 

9 – Thinking Fast Slow

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Amos Tveski e Daniel Kahneman deram um tapa na cara do mundo dos economistas com este trabalho. Uma das hipóteses básicas dos modelos econômicos é que o ser humano toma decisões racionais. A dupla mostrou que não, muitas decisões são completamente irracionais. Evoluímos tendo que sobreviver neste mundo. Isto exige decisões rápidas. Não dá tempo de avaliar a situação, obter todos os dados, antes de tomar a decisão de correr ou não de um leão. Eles simplificam didaticamente o cérebro humano em dois modos, um rápido que toma decisões baseadas em heurística, e um devagar, que realmente pensa, reflete e analisa.

Eles descrevem muitas tendências do ser humano. Efeito de enquadramento: a moldura do quadro importa. Ancoragem: um ponto de referência, mesmo que seja um número aleatório, influi na decisão. Disponibilidade: o que está mais fresco na memória surge mais rápido. Aversão à perda é mais forte do que perspectiva de ganho.

 

 

10 – Saga Brasileira

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Miriam Leitão conta a difícil situação do Brasil dos anos 80, marcado por hiperinflação, planos econômicos bizarros (congelamento de preço, Plano Collor), troca de moeda todo ano, até que finalmente conseguimos encontrar o nosso caminho com o Plano Real. Quem não viveu esta época não tem noção do quão sofrido é viver numa terra sem moeda. Já escrevi sobre isto, da minha forma: o Índice X-Men de Inflação.

 


Estratégias de Guerra

11- A Arte da Guerra

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A obra de Sun Tzu é concisa, profunda e importante. Contém estratégias que podem ser utilizadas na nossa vida, e conhecimento que deriva de milhares de anos de batalhas da China antiga. Quando na defensiva, seja impassível como uma montanha. Quando na ofensiva, ataque como um falcão ataca a sua presa.
Quem protege o lado direito, deixa o lado esquerdo desprotegido. Quem protege o lado esquerdo, deixa o lado direito desprotegido. Quem tenta se proteger em todos os pontos, será vulnerável em todos os pontos.
A guerra consiste em enganar o oponente.

 

12 – 36 estratégias de guerra

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Outro clássico chinês, em complemento ao acima citado. Contém estratégias como “Bater na grama para espantar a cobra”, “esconder uma adaga atrás de um sorriso”, “aliar-se a um reino distante ao atacar um reino próximo”. Vale a leitura.


 

Filosofia

Este é o meu tema favorito, porque é a fronteira do pensamento, é o momento em que pegamos todo o conteúdo acima e o jogamos fora para construir de novo. Embora seja tentador recomendar Nietzsche, Platão, Aristóteles, Camus e Sartre, vou colocar apenas duas recomendações introdutórias (mas não deixe de ler os autores citados, depois disso).

 

13 – O Mundo de Sofia

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A obra de Jostein Gaarder narra sobre as principais correntes filosóficas, a partir da personagem Sofia, uma menina curiosa sobre o mundo. É uma boa introdução.

 

14 – Breve História da Filosofia

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Livro muito bem escrito por Nigel Warburton, conta um pouco sobre os principais pensadores que moldaram o nosso mundo. Não é muito grande, e é de fácil leitura.

 

15 – História da Filosofia

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Do mesmo nível, tem a História da Filosofia de Will Durant. Will Durant é um excelente escritor e historiador, na verdade recomendo todas as obras dele, incluindo a colossal e magnífica História da Civilização.


Outros

16 – Moonwalking with Einstein

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É um livro sobre memorização. Um repórter, tão comum quanto qualquer um de nós, treinou com afinco, participou e ganhou um campeonato de memorização. Técnicas de memorização são extremamente úteis, minha vida seria mais fácil se eu soubesse dessas técnicas antes. Por exemplo, uma técnica é associar um número a uma ação (tipo moonwalking do Michael Jackson), e outro número a uma pessoa (digamos Einstein), e imaginar Einstein fazendo moonwalking ao som de Michael Jackson. Impossível esquecer.

Aliás, a minha recomendação de verdade é fazer um curso de memorização e leitura dinâmica, vale muito a pena.

 

17 – Think and grow rich

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A obra de Napoleon Hill não é tão profunda nem tão instrutiva quanto as citadas acima, mas é muito motivadora. Fala de um objetivo final definido, desejo de vencer, esforço, persistência. É uma obra que me influenciou bastante.

 

 

Boa leitura.

Pessoas requerem tempo

 

Bebendo um pouco da sabedoria de Peter F. Drucker, não consigo reproduzir o texto com a mesma maestria, mas ele disse mais ou menos isso.

 

O trabalhador do conhecimento precisa de atenção.

 

Pessoas não são processadores que recebem um input e geram um output. Não são máquinas que recebem um salário e por isso devem entregar um resultado – se fossem, poderiam ser substituídas por autômatos.

 

Pessoas querem ser ouvidas, compreendidas e terem importância dentro da organização. Muito do trabalho do administrador requer o gerenciamento de pessoas. Pessoas requerem tempo, muito tempo e dedicação.

 

E a única diferença real entre uma organização e outra é a performance das pessoas.

 

 

Orfeu, Tom, Vinícius e Obama

 

 

Sem o mito de Orfeu, talvez o mundo nunca conhecesse a dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes e nem o ex-presidente Barack Obama…


 

Orfeu e as sereias

Orfeu é considerado o maior músico da mitologia grega. Orfeu era filho de um rei grego e de Calíope, uma das 9 musas – cada musa representa a inspiração para um dom: poesia, história, dança, comédia, etc. Calíope era a musa da poesia épica – por exemplo, como a Ilíada e a Odisseia.

Era como se Orfeu fosse um super-herói, sendo a música o seu superpoder. O poder da música era utilizado para acalmar feras e trazer a alegria aos corações humanos.

O primeiro mito de Orfeu é a sua participação na Argonáutica. Um princípe chamado Jasão reuniu um grupo de heróis para uma missão impossível, recuperar o tosão de ouro. Um tosão é tipo o couro de um carneiro, mas era um carneiro todo especial, com pelos de ouro, que daria poderes a quem o possuísse.

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Jasão contou com o apoio de Argo, que construiu o navio que leva o seu nome – Argonautas. Além disso, ele reuniu um monte de figuras importantes da mitologia grega: Castor e Pólux (a constelação de gêmeos é em homenagem a eles), Hércules, Atalanta (a única mulher), Laertes (o pai de Ulisses, da Odisseia). Orfeu foi chamado para se juntar ao grupo, primeiro porque a música era importante para ajudar a suportar uma longa jornada de meses no mar, e segundo porque sem Orfeu eles não conseguiriam passar pelas sereias.

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As sereias são as mesmas sereias da Odisseia, cujo canto enfeitiça os marinheiros e os levam à ruína. Para os Argonautas passarem por elas, Orfeu cantou uma canção mais bonita e em voz mais alta que a das sereias, desta forma evitando que os colegas fossem enfeitiçados.


Orfeu e Eurídice no inferno

Este é o mito mais conhecido de Orfeu.

No dia de seu casamento com Eurídice, ocorreu uma tragédia. Um sátiro completamente bêbado ficou encantado com a beleza de Eurídice e passou a persegui-la. Ela fugiu, mas acabou sendo picada por uma cobra e morreu pouco tempo depois.

Desolado numa tristeza sem fim, Orfeu passou vários dias tocando músicas melancólicas, até que decidiu descer ao Inferno para buscar a sua amada.

Orfeu passou pelos portões do mundo subterrâneo, deu uma moeda a Caronte para atravessar o rio Styx, passou pelo cão Cérbero e finalmente chegou à presença de Hades, o senhor do Inferno, e sua esposa, Perséfone. Então, no centro do Inferno, Orfeu cantou a música mais bela e mais triste que todos ali jamais tinham ouvido.

A música de Orfeu conseguiu tocar Hades, que em troca, permitiu que Eurídice retornasse ao mundo dos vivos. Mas com uma condição: que Orfeu não olhasse para trás, até que ambos estivessem de volta ao mundo terrestre.

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Orfeu fez toda a jornada de volta, com Eurídice seguindo-o em completo silêncio. Porém, ele cometeu o erro de olhar para trás logo após voltar ao mundo – a condição era de que ambos estivessem de volta, não apenas ele. Desta forma, ele perdeu Eurídice de novo, desta vez para sempre.

 


Orfeu da Conceição

Desde meados de 1940, o grande poeta e diplomata Vinícius de Moraes queria fazer uma peça inspirada no herói grego Orfeu, mas ambientado nas favelas cariocas e com os negros brasileiros.

Orfeu Negro, 1959

O site http://www.viniciusdemoraes.com.br tem algumas explicações sobre a motivação:

Suas incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos e trágicos dos tempos míticos.

Nesse mesmo ano, Vinícius estava passando alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba. Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato.

 

Para ajudar na parte musical do projeto de “Orfeu da Conceição”, o músico Ronaldo Bôscoli apresentou a Vinícius aquele que seria o seu maior parceiro, Tom Jobim, formando a maior dupla musical de todos os tempos.

Tom Jobim teria ouvido a proposta da peça, mas a sua pergunta de verdade era outra: “Tem um dinheirinho nisso aí?”

Vinícius e Tom fizeram as músicas do espetáculo, que estreiou em 1956.

A peça virou um filme, Orfeu Negro, dirigido pelo francês Marcel Camus, que estreiou em 1959. Este filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1960, mas representando a França, não o Brasil, já que toda a viabilização do filme foi por parte dos franceses, embora a filmagem e os atores fossem brasileiros.

 

O filme narra a história de Orfeu, um condutor de bonde, negro, que conhece Eurídice, uma negra vinda do sertão para viver no Rio de Janeiro. O enredo acontece no carnaval carioca, por isso, um clima com muita força, muita energia. O roteiro é inspirado no conto grego: Eurídice é perseguida por um homem estranho e morre por conta disso, Orfeu desce escadarias ao mundo inferior, canta num ritual de macumba, mas acaba não conseguindo resgatar Eurídice e ele mesmo morre no final…

 

 

 

Ninguém melhor do que o maior músico do mundo antigo, Orfeu, para unir os maiores sambistas do Brasil branco, negro, mulato, lindo como a pele macia de Oxum. Saravá, como diria o poetinha Vinícius de Moraes.


Orfeu Negro e Obama

O pai do ex-presidente Barack Obama é queniano, mas a mãe é americana, e branca.

A mãe de Obama tinha um fascínio por negros, e o filme “Orfeu Negro” era o filme favorito dela.

“Uma noite, enquanto folheava o jornal Village Voice, os olhos da minha mãe se iluminaram ao ver a propaganda de um filme, ‘Orfeu Negro’, que estava sendo exibido no centro. Minha mãe insistiu para que fossemos naquela noite; ela disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu”, conta Obama, antes de lembrar as palavras da mãe: “’Eu tinha apenas 16 anos. Foi a primeira vez que fiz algo totalmente sozinha. Senti-me tão adulta. Quando vi o filme, achei que era a coisa mais bonita que já tinha visto’, ela nos contou enquanto entrávamos no elevador.”

Mas Ann não conseguiu transmitir seu entusiasmo ao filho. “Os brasileiros negros e mulatos cantavam e dançavam e tocavam violão como aves livres de plumagem colorida. Na metade do filme, decidi que havia visto o suficiente e virei para minha mãe para ver se ela estava pronta para ir embora. Mas seu rosto estava vidrado na tela. Naquele momento, senti-me como se tivesse olhado por uma janela para seu coração, o coração de sua juventude. Percebi que o retrato de negros infantilizados que eu via, o reverso da imagem dos selvagens do (escritor britânico Joseph) Conrad, foi o que minha mãe carregou com ela até o Havaí anos atrás, um reflexo da fantasia simplista que havia sido proibida para uma garota branca, de classe média do Kansas, a promessa de uma outra vida: quente, sensual, exótica, diferente.”

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

 

 

Este é o poder da música, acalmar feras, fugir do canto da sereia, forjar parcerias memoráveis e mudar o destino das pessoas.

 


Bônus: Valsa de Eurídice

 

Monólogo de Orfeu


 

Links

http://ultimosegundo.ig.com.br/visitaobama/obama-descobriu-brasil-em-1983-com-orfeu-negro/n1238177528724.html

http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

https://jornalggn.com.br/noticia/tom-jobim-vinicius-de-moraes-e-orfeu-da-conceicao-por-jota-a-botelho

https://www.google.com.br/search?q=orpheus+eurydice&client=ubuntu&hs=o9g&channel=fs&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjG-Iyth97YAhXHi5AKHXoyAGIQ_AUICigB&biw=1252&bih=617#imgrc=yOBlnwCJ_SxR2M:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reinventar a roda e outros aforismos

Reinventar a roda

Um consenso geral é de que é perda de tempo tentar reinventar a roda. É melhor usar a roda e construir em cima desta do que tentar recomeçar do zero.

Estão errados. O único jeito que consigo aprender realmente a fundo alguma coisa é reinventando a roda. É claro que em 99% das vezes realmente vou usar o que está pronto. Mas, nos assuntos em que realmente quero trabalhar e estudar profundamente, tenho que reinventar a roda, ou seja, entender a fundação das fundações.

Não tenho vergonha de reinventar a roda.

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É por isso que, de vez em quando, saio com algumas rodas originais.

 

 


 

Duas metades

História do teatro grego de Aristófanes, de 2500 anos atrás: no início dos tempos, éramos perfeitos. Perfeitos como uma esfera. Os deuses dividiram a esfera perfeita em duas partes, incompletas em si mesmas. Desde então, temos que procurar uma outra metade para nos completar.

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Lavar as mãos

Nunca uma pessoa salvou tantas vidas e foi tão desprezado quanto o médico húngaro Ignaz ​Semmelweis. Em 1847, ele notou que a taxa de mortalidade de mulheres grávidas nos hospitais era maior do que se estas dessem a luz em casa. A medicina fazia mais mal do que bem. Semmelweis sugeriu uma medida extremamente simples: que os médicos lavassem a mão.

​Semmelweis foi desprezado pelos seus pares. Na época, a microbiologia era um assunto desconhecido. Apesar dele afirmar que lavar as dava reduzia bastante os problemas, ele não conseguiu explicar cientificamente o motivo disso dar certo ou não.

Somente anos após a sua morte, e com os estudos da teoria de germes de Louis Pasteur, é que houve aceitação geral de que realmente lavar as mãos era a forma mais básica de prevenção contra infecções.

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Estados fazem guerra e vice-versa

Uma citação interessante, atribuída ao cientista político ​Charles Tilly: “a guerra faz o estado, e estados fazem guerra”. A necessidade de se proteger de outros estados bélicos faz com que haja a necessidade de um estado forte, e um estado forte ajuda este a partir em busca da aquisição de outros estados, num ciclo sem fim.

 


O demônio de Laplace

Um experimento mental de 1814, do matemático Pierre de Laplace.

Imagine um super mega computador, ou como não existiam computadores na época, um demônio. Este computador tem o conhecimento de todas as leis da física, e também tem sensores espalhados em cada átomo do universo, ou seja, conhece a posição, velocidade, momento de inércia, temperatura de tudo o que existe.

Este supercomputador seria capaz de aplicar as leis da física e prever todo a posição futura de todas as partículas do mundo, daqui a um milhão de anos. E, da mesma forma, seria possível voltar no tempo, e dizer como foi o universo há um milhão de anos atrás.

Este experimento reflete bastante o modelo de mundo mecanicista, determinístico, linear, da época.

Há vários furos nesta teoria.

– Leis da termodinâmicas são irreversíveis, notadamente por conta do fator chamado entropia. Digamos, dá para estimar que uma percentagem da energia para mover um pêndulo vai se perder na forma de calor, mas não dá para saber exatamente qual átomo vai liberar calor – e a partir do calor, não dá para rastrear de volta a sua origem.

– Em nível quântico, também não sabemos a posição exata de um elétron – na verdade nem sabemos se existe uma posição exata. É tudo tratado de forma probabilística.

– A teoria do Caos foi um dos grandes avanços do século passado. Um matemático, Edward Lorenz, estava trabalhando em modelos de previsão do tempo. Um dia, gravou o resultado, desligou o computador, e recomeçou os cálculos no dia seguinte. O resultado da previsão deu completamente diferente do que ele tinha anteriormente. Intrigado, ele verificou o que tinha acontecido, e descobriu que uma diferença minúscula no arredondamento dos dados de entrada, digamos proporcional ao bater de asas de uma borboleta, tinha causado esta diferença abismal nos resultados (um furacão do outro lado do mundo).

Mesmo com poucas equações 100% determinísticas, uma variação pequena dos dados de entrada pode provocar alterações enormes no resultado final. Em resumo, o famoso efeito borboleta.

 

Para mim, faz muito mais sentido a afirmação diametralmente oposta: mesmo com todos os supercomputadores do mundo, e com milhões de sensores, não é possível prever o futuro.

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Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ignaz_Semmelweis

http://duckofminerva.com/2013/06/war-made-the-state-and-the-state-made-war.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Laplace%27s_demon

https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_theory