Um Cisne Negro paira sobre a China

O todo-poderoso império chinês foi apresentado em uma série de posts (vide aqui, aqui e aqui). Este último post fecha a série.
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A China é segunda maior economia do mundo, caminhando fortemente para ser a primeira. Um bilhão e meio de habitantes. País que mais cresceu nos últimos 30 anos, retirando da pobreza absoluta 500 milhões de pessoas e dobrando o PIB per capita. A China tem programas internacionais de bilhões de dólares, como o One Belt One Road e o Made In China 2025…. perfeito, não?

 

 

Não, não é perfeito. O colosso chinês é reluzente, porém tem rachaduras em suas fundações. É como um castelo magnífico, alto o suficiente para eclipsar todos os outros prédios: suas portas são da melhor madeira nobre, o mármore de seu piso é da mais alta qualidade, os detalhes são feitos de ouro e de pedras preciosas. Porém, tudo isto suportado por fundações mal executadas, erguidas às pressas e cheias de falhas estruturais.

 

Um Cisne Negro gigantesco paira no ar…

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Cisne Negro é um evento de baixa probabilidade e impacto enorme, como um terremoto, ou como a crise mundial de 2008. Para saber mais sobre o assunto, recomendo este link, ou este.

 


 

Motivo?

São vários motivos. Em poucas linhas:

 

O Estado chinês está presente em tudo, incluindo as empresas.
Apesar de privadas, a presença do Estado é muito forte. O Estado injeta uma quantidade absurda de dinheiro em suas campeãs nacionais.

 

Esta oferta de dinheiro abundante e barato faz com que os riscos sejam mascarados, e investimentos que nunca se pagariam tornem-se viáveis.
Isto também estimula a formação de mega empresas, que se tornam rapidamente too big to fail.

 

A pressa em investimento do governo nas últimas décadas levou à capacidades de produção assombrosas, sem maiores preocupações com a qualidade e a excelência técnica (atualmente estão correndo atrás do prejuízo, melhorando a técnica, diminuindo a capacidade, olhando para a poluição).

 

Efeito: A China produz, anualmente, 50% do aço do mundo! Sua produção é 10 vezes maior do que a dos EUA. Há assombrosos 150 milhões de toneladas de capacidade ociosa que eles querem cortar!

 

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Com relação ao cimento, mais da metade do cimento do mundo é produzido na China. Em três anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos nos EUA!

 

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Há obras extravagantes e duplicadas. Um exemplo é uma réplica da Torre Eiffel e complexo residencial, construído em Hangzhou para 10 mil pessoas, mas que atualmente está esparsamente ocupada.

 

 

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Outro exemplo. A cidade de Wuhan planeja construir metrô, dois aeroportos, um novo distrito financeiro, um distrito cultural e uma torre comercial tão alta quanto o Empire State, a um custo de 120 bilhões de dólares…

 

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Capitalismo de Estado, empreendimentos megalomaníacos, lembram os malfadados investimentos de Eike Batista e suas empresas X: OGX, CCX, e outras, só para fazer uma analogia.

 

 

Obesidade: Fazendo uma analogia, imagine alguém que passou por subnutrição por toda a infância e adolescência. Na idade adulta, este enriqueceu, e agora pratica o exato oposto, a supernutrição, mesmo já obeso além da conta. Tanto a subnutrição quanto a supernutrição são nocivas a seu modo.

 

Shadow Banks
Para financiar tais empreendimentos, há os bancos oficiais, mas também há uma série de bancos que atuam de forma pouco transparente, os chamados “shadow banks”. Estes seguem poucas regras claras, o que permite que financiem  empreendimentos de retorno duvidoso.

 


O que fazer com tal capacidade ociosa?

 

O ciclo vicioso está em não deixar a economia desacelerar, por conta da ameaça de desemprego. Isto significa mais investimentos, já que o consumo interno não é suficiente. Coloco mais dinheiro em estradas, portos, ferrovias e cidades, para que estes possam produzir mais, e com isto tenho capacidade para produzir mais outras estradas, portos, ferrovias e cidades.

 

Porém, investir por investir não faz sentido, o investimento tem que valer a pena. Os retornos dos investimentos estão cada vez menores, o que é natural, porque as frutas mais acessíveis já foram colhidas: a primeira estrada tem muito mais valor do que a segunda estrada no mesmo lugar.

 

No fechar do dia, o investimento tem que se pagar. É como alguém que toma emprestado hoje com a promessa de um bom investimento, e quer pagar amanhã. Chega amanhã, toma outro empréstimo, e assim sucessivamente, uma bola de neve.

 

Faz pelo menos uns 10 anos que economistas vêm falando de uma crise na China, que nunca ocorreu. Aqui, cabe o problema do Peru, que ilustra a noção de que o passado não explica o futuro:

 

Um peru é alimentado por 999 dias consecutivos, e nada de mal lhe ocorreu até hoje. Ele está seguro e confiante de que o dono gosta dele. Porém, amanhã, o dia 1000, é o dia do Natal. Adivinha quem vai para o forno?

 

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Falando em Peru, quem vai pagar o pato?

 

O risco de crise bancária mundial é remoto, devido à elevada poupança interna chinesa, atualmente por volta de 40% do PIB. Outro fator é a impossibilidade de os poupadores chineses investirem suas economias em outros países.

 

Pelo motivo acima, dificilmente haverá uma crise internacional de grandes proporções.

 

Entretanto, causas geram consequências. É difícil imaginar que não haverá efeito algum, dado tamanho desbalanço de contas.

 

Provavelmente, quando o inevitável ajuste chegar, as famílias chinesas serão chamadas a cobrir o rombo. Provavelmente não haverá uma explosão, afetando o mundo todo, mas sim algo parecido com uma implosão, causando problemas internos.

 

Este processo pode ser bem conduzido, minimizando danos, ou não, ferindo ou não vários no caminho. Não é possível prever como será. Talvez um destino como o do Japão, saindo de um crescimento exponencial para duas décadas de economia patinando sem sair do lugar (mas mesmo assim, é a terceira economia do mundo).

 

 

O que sei é que ninguém gosta de ter a poupança de uma vida toda afetada por decisões de outrem. Isto pode causar distúrbios na Harmonia, que é um dos pilares de sustentação do país, causando problemas aos governantes chineses e em seu mandato dos céus.

 
O que leva à conclusão: não é nada fácil ser um chinês

 

Mas, pensando bem, também não é nada fácil ser brasileiro. A hiperinflação dos anos 80 foi um aspirador da poupança das famílias brasileiras, e por consequência, do futuro do país. O Plano Collor dos anos 90 foi mais direto e radical, prendeu a poupança das famílias nos bancos. (Vide o Índice X-Men de hiperinflação dos anos 80). Daqui para a frente, pós eleições, sabe-se lá o que virá…

 

E, outra coisa, não há para onde correr. O colosso americano também tem as suas rachaduras estruturais, assim como os europeus, japoneses, etc…

 

 

Conclusão final: Não dá para ganhar, não dá para empatar e não dá para sair do jogo. O negócio é deixar a vida te levar, um dia após o outro.

 

 


 

 

Fontes:

 

Livro: Economia Chinesa, Roberto Dumas Dantas, editora Saint Paul

https://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2018/07/06/china-produces-more-cement-than-the-rest-of-the-world-combined-infographic/#1c7b11ef6881

https://www.nbcnews.com/news/photo/eiffel-tower-replica-looms-over-chinas-parisian-style-ghost-town-flna6C10833193

http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html

https://qz.com/699979/how-chinas-overproduction-of-steel-is-damaging-companies-and-countries-around-the-world/

https://www.nytimes.com/2011/07/07/business/global/building-binge-by-chinas-cities-threatens-countrys-economic-boom.html

https://www.worldsteel.org/media-centre/press-releases/2018/World-crude-steel-output-increases-by-5.3–in-2017.html

https://www.nytimes.com/2016/02/23/world/asia/china-economy-overcapacity.html

http://www.chinadaily.com.cn/business/2014-08/04/content_18243657.htm

http://www.global-labour-university.org/fileadmin/GLU_conference_2016/papers/3A/Xingguo.pdf
http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html
https://www.businessinsider.com/fake-chinese-buildings-that-look-like-the-world-famous-originals-2015-7#one-development-company-started-building-a-fake-paris-back-in-2007-in-hangzhou-in-the-zhejiang-province-complete-with-a-scaled-eiffel-tower-although-it-was-designed-for-10000-people-the-development-is-sparsely-populated-and-is-now-considered-a-ghost-town-according-to-reuters-6

Oportunidades

Duas ideias simples, mas eficazes, do pai da administração, Peter Drucker.

 


Oportunidades

É você que encontra a oportunidade, não é a oportunidade que te encontra – Peter Drucker

Ação: Analise oportunidades, respondendo as seguintes questões:

– Quais as restrições e limitações de seu business?
– Quais os desbalanços?
– Do que temos medo?

 


 

Senso comum

O senso comum é simplesmente um conjunto de pressupostos, ou seja, de crenças, ideias, intuição e reflexão que alguém, um grupo de pessoas ou especialistas de dentro ou fora das organizações acumulam sobre determinadas questões.

Não podemos aceitar o senso comum como verdade, sem mais análises.

 

Ação: Questione o senso comum.

 

 

 

Aquarela e Uma rosa em minha mão

 

Por que Vinícius de Moraes aparece nos créditos da famosa música “Aquarela”, sendo que esta já estava morto havia dois anos?
Para mim, esta indagação começou de outra forma.

 

Um dia, ouvindo playlist do poetinha Vinícius de Moraes, me deparei com esta belíssima canção:

 

 

Esta música é chamada “Uma rosa em minha mão”. E nota-se que a melodia é idêntica à “Aquarela”. É a única semelhança, porque a letra é bastante diferente, há outro tipo de arranjo e elementos musicais.
Embora bem mais simples, “Uma rosa em minha mão” é extremamente bonita, fiquei muito tempo tocando-a.

 

 

Já “Aquarela” remete à minha infância. Em 1983, um comercial de TV da Faber Castell usava imaginação, criatividade, lápis de cor e a canção “Aquarela”. Foi a primeira vez que ouvi esta melodia.

 

 

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo…

Agora, qual o link entre as músicas?

 

Segundo algumas das fontes pesquisadas, o grande músico Toquinho, parceiro de longa data de Vinícius, estava trabalhando na Itália com outro músico, Maurizio Fabrizio

 

“Peguei meu violão e Maurizio foi para uma pianolinha que eu tinha em casa – uma coisinha ridícula (risos). Daí ele começou a tocar uma música. Achei chata a primeira parte. Mas quando entrou na segunda parte, eu lembrei da Uma Rosa em Minha Mão. Toquei pra o Maurizio ouvir, e assim que terminei ele atacou com a segunda parte da música dele. Tudo se encaixou logo de primeira. Gastamos nem três minutos para fazer o que seria conhecido como Acquarello.”

 

Gravei o disco e fizemos o lançamento em Sanremo – conta Toquinho. – Depois da primeira apresentação de “Acquarello”, começaram a pipocar comentários os mais maravilhosos, o disco saiu com 30 mil cópias, que se esgotaram no segundo dia. Essa música tem realmente um aspecto emocional muito forte, um apelo comercial, as pessoas ouvem e se envolvem. De repente, o Franco passou a me telefonar: “Olha, a música estourou por aqui, está nos primeiros lugares das paradas”. Voltei lá para fazer promoção, aí, ninguém segurou mais

 

Como “Aquarela” utilizou a melodia de “Rosa em minha mão”, os créditos a Vinícius deveriam ser dados pela co-criação da música. Creio que Toquinho achou a homenagem bastante justa, após inúmeros anos de parceria, e creio também que Vinícius continua a inspirar muitos de nós até hoje, tanto pela poesia quanto pelas melodias.
Há um ditado que diz “É possível reconhecer um tigre pelas suas garras”.

 

Em “Aquarela”, o trecho final é Vinícius puro, mesmo sendo escrito por Toquinho!

Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá

 

 

Bônus: Aquarela em italiano, Acquarello

 


Links

https://musicaemprosa.wordpress.com/2016/11/20/a-historia-da-musica-aquarela-de-toquinho/

http://barelanchestaboao.blogspot.com/2015/08/numa-folha-qualquer-eu-desenho-um-sol.html

Livro: História de Canções – Vinícius de Moraes.

 

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Fonte da imagem:  https://www.pinterest.pt/pin/344173596494447128/?lp=true

Pigmaleão

Na mitologia grega, Pigmaleão foi um escultor que dedicou todos os esforços para esculpir a mulher que ele considerava perfeita.

 

Pigmaleão trabalhou com esmero em sua obra, por infindáveis horas, preocupando-se com cada mínimo detalhe.

 

A belíssima estátua recebeu o nome de Galateia. O escultor apaixonou-se de tal forma pelo seu trabalho que passou a tratá-la como um ser humano de verdade, dando-lhe presentes, carinho, e considerando-a como a sua esposa de verdade.

 

A deusa Vênus apiedou-se de Pigmaleão. Ela procurou entre as mulheres alguma que fosse tão perfeita quanto Galateia, mas não encontrou mortal à altura. Daí, Vênus deu vida à estátua. Galateia se tornou uma mulher de carne e osso e se casou com Pigmaleão.

 

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O mito de Pigmaleão inspirou a peça “My fair lady”

Este mito é comumente associado à ideia de profecia auto-realizável. Se dedicarmos paixão suficiente em nosso trabalho, qualquer seja, conseguiremos fazer com que este seja tudo o que esperamos dele.

 

 

De modo geral, é simples perceber quando um trabalho foi feito com paixão ou quando foi feito de forma burocrática. A dica é sempre fazer o melhor trabalho possível, dedicando o máximo carinho e paixão, e o resultado com certeza virá.

 

 


 

Links

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Pigmale%C3%A3o

https://www.infoescola.com/mitologia-grega/pigmaliao-e-galateia/

http://hbrbr.uol.com.br/o-lider-pigmaleao/

Que língua estrangeira devo aprender?

Após a série de posts sobre a China, várias pessoas me perguntaram se estudar o mandarim seria uma boa estratégia para a carreira.

 

A resposta é: depende.

 

Há tantas outras línguas estrangeiras a dominar, como o inglês, espanhol, alemão, japonês. O gargalo é o tempo e recursos, não dá para aprender tudo. E o mito de que algumas línguas são mais fáceis do que outras não é verdade. Não é só saber a língua, é entender a cultura, a história e costumes, o que consome muito tempo.

 

Além disso, há outro custo, um custo mais alto do que o dinheiro, que é o custo de oportunidade: poderíamos estar estudando outra coisa mais importante, digamos finanças, projetos, certificações, linguagens de programação, passar mais tempo em casa com a família, etc – tudo concorre com o nosso recurso mais escasso, o tempo.

 
Para ajudar a responder a tal questão, seguem alguns modelos de pensamento.

 

Imagine que temos as habilidade principais (core competence), e todas as habilidades auxiliares (diferenciais).

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O core é aquilo em que somos realmente bons, que gostamos muito, e que têm valor para o mercado.

 

O core tem que ser profundo, focado. O limite é a nossa própria capacidade de tempo, esforço e inteligência.

 

Já as habilidades auxiliares são todas habilidades que ajudam, porém não são essenciais para o nosso core. Seria algo mais amplo e superficial, digamos, saber opinar sobre política e economia geral de determinado assunto.

 
É algo como o modelo atômico, um núcleo duro, pequeno, pesado, e órbitas enormes, dispersas, leves. E, assim como no modelo atômico, podemos ter várias camadas, habilidades diferenciais mais importantes do que outras.

 

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Saber a língua por saber não leva a nada. Há 1,5 bilhões de pessoas que sabem falar mandarim. Já dominar um assunto altamente especializado, digamos novos algoritmos de inteligência artificial, é algo que pouquíssimas pessoas conseguem. Se, além do core em inteligência artificial, soubemos inglês, é um diferencial a mais, esta é a ideia.

 
O inglês é muito mais importante do que o mandarim, no contexto em que vivemos no Brasil. O inglês estaria no nível 1, e o mandarim, no nível 2, ou seja, se você não domina o inglês, deve começar por este. Se já se vira bem em inglês, gosta da cultura chinesa e planeja fazer negócios por lá, aí sim faz sentido pensar no mandarim.

 
Este modelo atômico consiste em preencher as colunas de competências core, auxiliares níveis 1 e 2, e com isto saber identificar gaps e alocar os nossos escassos recursos.

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Outro conceito importante é o de possível adjacente, proposto pelo pesquisador de inovação Stuart Kauffman. Ele estudou toda a história da inovação, e chegou à conclusão de que podemos apenas dar um passo por vez. Tentar dar passos maiores do que a perna não vai dar certo.

 

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Para fechar, uma frase popular que sintetiza o possível adjacente:

“Cabeça nos céus e pés no chão.”

 

 

 

10 tópicos para entender a China

Ir até a República Popular da China e vivenciar o cotidiano é completamente diferente de acompanhar pelos jornais. Seguem 10 tópicos para ajudar a entender o Império do Centro.

 

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1. Os EUA são os designers do mundo, a China é a fábrica do mundo, o Brasil é o celeiro do mundo?
2. Mão de obra numerosa e miserável?
3. Produtos xing ling de baixa qualidade?
4. Poluição e respeito ao meio-ambiente
5. Estado e Liberdade
6. Desaceleração da economia e Dívida pública
7. Educação e criatividade
8. Superpopulação e filho único
9. Harmonia e mandato dos céus
10. Sobre Guanxi e perder a face

Bônus: Escolha sua lagosta viva no supermercado!

 

Há muitos mitos sobre a China. De certa forma, os mitos são verdadeiros. O que acontece é que a China muda com velocidade impressionante. Eles são extremamente agressivos em suas ações e na perseguição de metas. Um livro sobre a China escrito há 10 anos já não é válido. E este post também tem validade limitada, no máximo alguns meses.

 

Primeiro, vide nota sobre as fontes utilizadas*.

 


 

1. Os EUA são os designers do mundo, a China é a fábrica do mundo, o Brasil é o celeiro do mundo?

 

Já foi verdade. Entretanto, desde a crise mundial de 2008 a China fez uma mudança de rumos, e passou a trabalhar fortemente em serviços.

 

Há pesquisa e desenvolvimento forte em Big Data, Inteligência Artificial, Carros Autônomos, Internet das Coisas, Indústria 4.0. Tudo o que os EUA buscam como provedores de serviços de inovação, a China está fortemente engajada também.

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E o investimento é extremamente pesado. Uma startup brasileira que lida com Inteligência Artificial tem uns 20 funcionários. Na China, visitamos uma empresa de reconhecimento de vídeos que tem mais de 6000 pessoas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento!

 

A China contrata os especialistas mais badalados do mundo. Eles também não hesitam em comprar empresas promissoras, despejando um caminhão de dinheiro para atrair mentes e produzir em escala. A ordem de grandeza de tudo na China é absurdamente grande!

 

Esqueça o Google e a Microsoft. Os próximos líderes serão chineses como Tencent e AliBaba.

 

Outro ponto é que o governo investe muito em infraestrutura e logística, de modo que tais barreiras são muito menores do que num país como o nosso Brasil…

 

Existe até um plano para isto tudo. É o Made in China 2025, um dos motivos pelos quais os EUA iniciaram a recente guerra comercial. Uma coisa é ter um alguém fabricando os seus produtos, outra coisa é ter um concorrente do mesmo porte intelectual. A Apple tem os seus produtos manufaturados na China, o que não a prejudicou em ter valor de mercado de 1 trilhão de dólares – mas imagine o estrago de uma Huawei com qualidade e capacidade de inovação superior à Apple!

 

Acostume-se a ver a China como provedor de serviços, batendo de frente com os EUA. E o Brasil? Continua sendo fornecedor de commodities, o celeiro do mundo.

 

 


 

 

2. Mão de obra numerosa e miserável?

 

A China já teve mão de obra miserável. A “armadilha da classe média” já chegou, cidades como Beijing e Shanghai têm muita gente na classe média. O salário mínimo dessas cidades chega a 5000 yuans, o que equivale a uns 3 mil reais – é num nível bastante superior ao brasileiro.

 

O aluguel de um apartamento em Shanghai é mais caro do que em São Paulo.

 

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Fonte: www.numbeo.com

 

 

 

Esse pessoal já não quer se sujeitar às mesmas condições de seus pais em trabalhos perigosos, mal remunerados e jornadas longas.

 

A classe média alta emergente gosta muito de produtos de luxo. Não faltam carros importados caros. Shoppings, apenas marcas top. Filas de pessoas para comprar relógio Cartier.

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Nanjing road em Shanghai

Os chineses seguem à risca a seguinte frase de Deng Xiaoping (que iniciou as reformas no anos 1980):

 

Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso.

 


3. Produtos xing ling de baixa qualidade?

 

Fui à China achando que encontraria ruas semelhantes à uma 25 de março em SP (ou o Saara no RJ), cheia de camelôs vendendo tranqueiras inúteis e mal produzidas. O que encontrei foram ruas e ruas semelhantes à 5a Avenida de New York, com marcas internacionais extremamente caras, caras demais para mim.

 

A China está passando exatamente pelas mesmas fases do Japão: primeiro copiar, depois aprender, para enfim produzir o seu próprio trabalho.

 

A China está velozmente apagando essa imagem de produtos de segunda mão. Esses fake markets foram muito reduzidos (tanto é que não deu tempo de eu visitar nenhum).

 

As empresas em geral ainda não chegaram num nível de qualidade alto, mas dentro de poucos anos, marcas chinesas fortes e extremamente qualificadas concorrerão de frente com seus pares americanos.

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Robô chinês

 


4. Poluição e respeito ao meio-ambiente

 

A China já foi um dos lugares mais poluídos do mundo. Há diversos relatos de céu com nuvens pretas, principalmente quando algum outro fenômeno meteorológico como tempestade de areia ocorre também.

 

É comum ter aulas canceladas por causa da poluição, assim como esportes cancelados.

 

Atualmente, a China está lutando fortemente para fazer com que a poluição diminua. E isto não é por acaso. Conforme tópico anterior, o padrão de vida da população aumentou, e com isso, suas exigências, seguindo claramente uma pirâmide de Maslow.

 

Para ter uma ideia, os chineses sempre consultam o serviço de poluição do ar antes de sair de casa (http://aqicn.org/city/beijing/).

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Poluição em Beijing

Acima de 100 é ruim. São Paulo nos piores dias, chega a uns 80. Beijing sempre está acima de 100, e já foi pior ainda, chegando a mais de 500 num passado recente, segundo relatos.

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Poluição no Aeroporto de Congonhas

 

A China é quem mais investe no mundo em energias limpas, como eólica e solar. Motivos: pelo fator poluição e para diminuir a dependência chinesa de importação de combustíveis fósseis.

 

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A lógica foi primeiro sair da miséria, depois começar e pensar nos impactos ambientais de médio e longo prazo, dentro do conceito de Harmonia chinesa.

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Sol artificial da Hanergy, uma empresa de placas solares

Portanto, a poluição ainda não está em níveis bons, mas a preocupação com o meio-ambiente vem ganhando força, por necessidade de harmonizar produção com suas consequências.

 

 


5. Estado e Liberdade

 

O Estado está claramente presente em todo lugar.

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As empresas são privadas, entretanto, com uma mão forte do Estado por trás.

 

A política de campeões nacionais, que deu tão errado no Brasil, é visível e extremamente pesada por aqui. É o mesmo modelo de Capitalismo de Estado do Japão pós-guerra, que por um lado pode desperdiçar uma montanha de recursos, mas por outro, fortalece sobremaneira o escolhido. É um misto esquisito. Uma empresa que começou em 2012 com capital de 4 mil dólares hoje vale 40 bilhões de dólares, por exemplo.

 

O Estado está na vida de todos:

 

– Uma cidade como Beijing é totalmente zoneada: blocos residenciais imensos, blocos de escritórios.
– Todo metrô tem um ponto de inspeção, raio X.

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Raio X em todas as estações de trem e metrô

 

 

– Pontos turísticos (Cidade Proibida, Tianamen – praça da paz celestial) têm um ponto de checagem de identidade ou passaporte, para estrangeiros.

 

– Controle dos meios de comunicação. O Google não funciona na China. Nem o Whatsapp, Youtube, que têm relação com o Google. O Facebook também não funciona, Amazon idem. Como regra geral, os grandes do ocidente não entram na China facilmente.

 

Isto tem dois motivos.
– Proteger as empresas chinesas, que têm um equivalente a cada um desses serviços: Baidu no lugar do Google, WeChat no lugar do Whatsapp, Youku no lugar do Youtube, AliBaba no lugar da Amazon, QQ no lugar do Facebook e assim por diante.

 

– Facilitar o controle estatal. O WeChat, por exemplo, é monitorado. Comentar sobre uma palavra chave controversa (os três Ts: Taiwan, Tibet e Tianamen) é pedir problemas.

 

Empresas grandes são “too big to fail”, o Estado não vai deixar quebrar.

Portanto, tenha em mente que não se faz negócios sem envolver o Estado.

 


6. Desaceleração da economia e Dívida pública

 

A Economia Chinesa é bastante individada e isto pode causar problemas, quando tais dívidas tornarem-se impagáveis. Pelo tópico anterior, as empresas privadas são também do Estado, os bancos são do Estado, e há muita poupança interna, então boa parte do calote seria para com o próprio povo chinês, o sofrido povo chinês.

 

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Outro ponto importante é a desaceleração da Economia. Se esta crescia 10% ao ano, e vai passar a 7%, depois a 5%, isto significa que a produção de aço vai cair pela metade, que metade das super siderúrgicas que funcionavam na exuberância vão parar de funcionar, e com, isso, desemprego.

Em dois anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos dos EUA.

Por que a China vai implodir

 

Essas duas imagens resumem o frenesi construtivo dos chineses.

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Shanghai em 1987

 

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Shanghai em 2013

Fonte: https://www.theatlantic.com/photo/2013/08/26-years-of-growth-shanghai-then-and-now/100569/

 

O que fazer com tal capacidade ociosa?

 

Resposta: que tal construir estradas gigantes e portos colossais, para ligar a China a países asiáticos e africanos? É o mega-mega-megalomaníaco plano Belt and Road.

 

 

São questões difíceis, não dá para prever a resposta. Para o bem do mundo, espero que haja um soft landing.

 

 


 

7. Educação e criatividade

 

Um dos pilares do confucionismo é a educação. A educação tem uma importância fundamental em países como a China e o Japão.

 

No Brasil, esperto é aquele que não estuda e passa no final, dá um jeitinho. Esquisito é o cdf que presta atenção nas aulas.

 

Nestes países, é o contrário. O objetivo dos alunos é tirar nota 10 em tudo e estudar insanamente para tal. Não há vergonha em ser cdf, a vergonha é passar com notas baixas.

 

Tem como o brasileiro competir com um pessoal desses?

 

Talvez. Há um ponto fraco, um calcanhar de Aquiles. Na China, a educação tende a ser com base no decoreba: decorar ipsis litteris as respostas corretas. Conta um dos contatos, que a filha dele tira 7 na escola, e os colegas, 9.5. Mas conversar com eles é como conversar com alguém de QI 50 – apenas se esforçam em decorar o correto, sem capacidade de pensar além disto, como robozinhos.

 

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Nas empresas, o reflexo. Diz um outro contato que tudo deve ser micro-gerenciado nos mínimos detalhes. Deve-se pedir tudo bem especificado, senão eles não conseguem fazer, ou no máximo vão copiar exatamente igual algo já existente.

 

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Rede popular de café na China. Lembra um pouquinho o Starbucks?
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Loja de produtos eletrônicos de uma marca chinesa. Achei que fosse a Apple store!

 

A China vai mudar isto também, porém, vai demorar muito tempo, o tempo de formação de pessoas. A criatividade é uma vantagem competitiva do ocidente – por enquanto.

 



 

8. Superpopulação e filho único

 

Na China, tudo é gigantesco. Visitei as cidades de Beijing (20 milhões de habitantes), Shanghai (também uns 20 milhões de habitantes) e Hangzhou (uns 10 milhões).

 

No transporte público, dezenas de milhares de pessoas se espremem nos trens. Nas atrações turísticas, como a Cidade Proibida, também, dezenas de milhares de pessoas.

 

A foto a seguir foi tirada em Hangzhou. Imagine um prédio imenso, residencial, de uns 30 andares de altura. Agora, imagine uma centena de prédios idêntico a este sendo construídos ao mesmo tempo. É o que esta foto tenta mostrar.

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O Ano Novo Chinês, que ocorre em meados de fevereiro, é a maior movimentação humana do mundo. Por hábito, as pessoas voltam para a casa dos pais, o que implica em um bilhão de pessoas viajando em 5 dias.

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Lotação de trens

Uma norma cultural extremamente chocante: é permitido furar fila, empurrar, falar alto. Nem todos fazem isto, é claro, mas há uma porcentagem expressiva que fura a fila, na cara de pau. Empurrões no meio da multidão também são comuns. E eles brigam muito entre si, falando alto e xingando-se. Quando retornei ao Brasil, eu mesmo me vi empurrando os outros no metrô.

 

A superpopulação fez com que o governo decretasse a política do filho único. Porém, como num navio gigante, corrigir os rumos pode fazer o navio ir demais para o outro lado, tamanha a inércia deste.

 

Devido à política do filho único, a China é o país que vai envelhecer mais rapidamente na história da humanidade, com consequências incalculáveis em termos de aposentadoria e bem-estar social.

 

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https://www.populationpyramid.net/china/2017/

 

Atualmente, há centenas de milhares de jovens com dois pais, e quatro avós. Preocupa, porque este 1 ser humano terá que prover recursos para sustentar os outros 6 seres humanos. Outra coisa, sendo a primeira geração rica da história, esses jovens vão herdar tudo o que os seis ancestrais têm: apartamento, carro. Ou seja, tende a ser uma geração de pessoas mimadas.

 

Se vão continuar mimados quando entrarem efetivamente no mercado, não se sabe, não dá para prever.

 

A China abriu mão desta política do filho único, e espera-se que em algum momento, haja um equilíbrio entre jovens e idosos, e homens e mulheres.

 

 


 

9. Harmonia e mandato dos céus

 

A Harmonia é uma palavra muito importante para entender a China.

 

A China sempre foi um Império, com um imperador mandando em tudo. Para justificar o seu poder, criaram há milênios atrás o conceito de “mandato dos céus”.

 

O imperador recebe dos céus os poderes para conduzir a nação. E o imperador, na teoria, é um servo de todas as pessoas, ele é quem mais deve trabalhar para garantir o bem-estar e harmonia de todos (pelo menos na teoria), como a abelha rainha da colméia.

 

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O imperador perde o mandato dos céus quando falta comida, as revoltas se acentuam, há descontentamento geral de todos, ou quando ele é destronado por outro competidor.

 

Por harmonia entende-se emprego para todo este povo, condições mínimas de viver, comida e felicidade.

 

São muito pragmáticos. A política econômica monetária não importa, o que importa é a realidade, o dinheiro na conta no final do mês. Ninguém sabe quem é o presidente do banco central, nem quem é o ministro da Economia. Enquanto perdemos tempo discutindo as peripécias de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e cia, os chineses estão trabalhando. Não interessa saber quem são as pessoas, o que interessa é que as instituições funcionem, e estão muito certos neste ponto.

 


 

10. Sobre Guanxi e perder a face

 

A regra default de relacionamento é a princípio desconfiar. Para criar confiança, os chineses passam longos períodos conhecendo as pessoas com quem vão negociar. Leis escritas não interessam tanto quanto a norma social. Para criar este vínculo, são comuns jantares e muito álcool.

 

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Esta rede de relacionamentos é importante em qualquer lugar do mundo, mas na China é um pouco mais profundo. É ser mais que um conhecido, é ser quase um amigo.

 

Por outro lado, é comum as pessoas comprarem produtos da China que vêm errados. O ocidental tem a “culpa cristã”, que é muito mais fraca por ali.
Um caso. Um conteiner com produtos defeituosos. O brasileiro reclamou, ameaçou não pagar. O chinês ficou bastante tempo negociando, e disse até que os filhos morreriam de fome caso ele não pagasse pela carga. O brasileiro consultou um especialistas nas relações chinesas, que disse que era normal eles apelarem baixo assim para conseguir o pagamento da carga.

 

É paradoxal, investir horas num guanxi de relacionamento, mas ser permitido mandar produtos ruins para os outros. É paradoxal como tudo mais neste Império.

 

 

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Por fim, o conceito de perder a face. É o conceito da vergonha. Vergonha de ter feito algo errado e prejudicado o país (não é prejudicar a si mesmo, ou a empresa, é envergonhar o país). Digamos, roubar algo é vergonhoso. Ou perder um processo judicial por conta do problema de conteiner acima e ficar caracterizado que houve uma trapaça.  Deve-se tomar cuidado para não fazer um chinês perder a face, é pesado para ele, é quase a vida dele.

 

 


 

Conclusão

 

A China sempre foi uma potência mundial, e está retornando ao seu lugar. O projeto da vez é o plano Road and Belt, que busca construir uma infraestrutura gigantesca de rodovias e portos, ligando a África e a Ásia inteiras à China.

 

 

O Brasil tem que aprender a operar num mundo cada vez mais centrado no Império chinês, sob o risco de ficar mais para trás do que já está. Enquanto o Brasil está caminhando devagar quase parando, a China está 10 km à frente correndo alucinadamente – estudam mais, trabalham mais, brigam mais e são mais numerosos.

 

 

Os tópicos apresentados são apenas o início, nem arranham o entendimento deste gigante.

 

 

Napoleão Bonaparte: A China é um gigante adormecido. Deixe este dormir, pois quando acordar, o mundo tremerá!

 

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*Sobre fontes utilizadas. A China divulga pouquíssimos dados oficiais. As informações aqui descritas foram com base em conversas com pessoas, portanto, não são totalmente confiáveis.

 


 

Bônus: Visitei um supermercado, o Henan, em que há vários aquários com criaturas vivas. É só escolher, que o atendente pega e te entrega.

 

 

 


O país que não aceita cartão de crédito

Um aviso aos turistas: ninguém aceita cartão de crédito na China!

 

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Fui à China, todo confiante que os meus cartões Visa e Mastercard seriam aceitos em muitos lugares. Qual nada. O mesmo vale para outros cartões americanos, Amex, Dinner’s club.

 

Primeiro, quem aceita cartão de crédito: Os hotéis aceitam. Grandes lojas, idem. Alguns restaurantes. Mas a chance de ficar na mão é enorme!

 

O comércio, em geral, não aceita cartão. O táxi não aceita. Restaurantes, em geral, não aceitam, mesmo em cidades gigantescas como Beijing e Shanghai. E, a tendência não é boa. A cada dia que passa, menos lugares estão aceitando cartão de crédito. Chega a ser desesperador!

 

 

Desisti de passar o cartão após este ser recusado 4 vezes seguidas. Em metade das vezes, o atendente nem sabia o que fazer com o cartão – ele não sabia se era só para aproximar, ou passar ao lado da máquina, ou inserir na máquina. O rapaz inseriu, apareceu uma mensagem, coloquei a senha, mas deu algum erro bizarro, uma mensagem em chinês. Fiquei com medo de bloquear o cartão (ainda tinha hotel a pagar) e passei a usar só dinheiro. Procurei uma casa de câmbio e troquei dólares de reserva por um bolo de yuans. Pelo menos, eles aceitam dinheiro vivo (por enquanto).

 


 

Então, se não usam cartão, usam o que?

 

A resposta é simples. Usam WeChat. Ou AliPay. Ou alguma outra modalidade de pagamento via celular de mesma natureza.

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Pelo que entendi, olhando as pessoas e conversando com o pessoal da Missão China StartSe, é o seguinte.

 

– O caixa registra as compras
– O comprador abre o WeChat (ou algum outro), e pelo celular gera um código QR
– O caixa escaneia o código QR
– Confirma e pronto, acabou.

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Vídeo mostrando várias aplicações.

 

Eu tentei abrir uma conta de pagamento no WeChat, mas não consegui. É necessário ter conta em um banco chinês, de modo que um estrangeiro nunca vai conseguir usar tão facilmente.

 

Os chineses nunca chegaram a ter cartão de crédito. Eles pagavam tudo em dinheiro. Pularam a etapa do cartão de crédito e foram direto para a era do dinheiro pelo celular.

 

Segundo minhas fontes (nota sobre fontes*) esta tecnologia de transação por celular surgiu para preencher uma necessidade. No e-commerce, como o vendedor e o comprador vão poder confiar uns nos outros, se um dos dogmas daqui é desconfiar primeiro? A solução dada pelo Tao Bao (site de vendas, do grupo AliBaba) foi ele mesmo intermediar isto. O site recebe o pagamento do comprador, segura até o vendedor entregar, e só depois libera a verba.

 

Ora, mas se toda a transação já era eletrônica, não era necessário um banco, o próprio AliBaba poderia ser o banco. Daí, criaram o AliPay.

 

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O WeChat é uma espécie de Whatsapp chinês, muito comum no Império do Meio. Também passaram a intermediar transações, concorrendo com o AliPay.

 

As taxas das transações por celular são baixíssimas. Os teraytes de dados de consumo gerados são fonte inestimável para Big Data. Toda esta informação possibilitou dezenas de outros produtos financeiros adicionais.

 

 

Tendo tantos dados, dá para calcular com acurácia o risco de calote, o que possibilita o empréstimo em segundos. São 3 segundos para cadastrar, 1 segundo para aprovar, e zero intervenção humana (frase esta conhecida pelo número 310).

 

Outro produto interessante. Como a carteira é 100% digital, é muito fácil uma pessoa emprestar dinheiro para outra. Ou fazer doações, digamos de centavos, a cada vez que a pessoa quiser recompensar um bom artista.

 

Hoje a China lidera de forma incontestável o ranking de transações on-line do mundo, com mais de 12 trilhões de dólares em transações on-line, contra menos de 1 trilhão nos EUA .
Todo este ecossistema só foi possível devido à infraestrutura de conexão e ao baixo custo dos aparelhos celulares – até mendigos estão aceitando esmolas em WeChat!

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(https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655)

 

Há dois pilares maiores que sustentam as transações por celular: conexão e smartphones.

 

Um dos pilares é a conexão com a internet, para realizar a transação. E há muita cobertura celular na China, até debaixo da terra, no metrô, pega celular, o governo chinês investe muito na infraestrutura.

 

Outro pilar é o baixo custo de smartphones. Na China, uma marca conceituada (digamos a Apple) vai ser cara, por conta de impostos. Mas uma marca chinesa vai ser barata, de modo que cada pessoa tem o seu smartphone.

 

Quanto aos bancos tradicionais. Pelo que deu para perceber, não é que os bancos vão morrer, até porque há diversos produtos financeiros diferentes da aplicação no varejo. O que pode acontecer é de eles terem suas margens reduzidas devido à esta competição. No Brasil, em que há um oligopólio de bancos e muitas barreiras à inovação, os bancos ainda vão reinar por um bom tempo…

 

Na China, quem sabe daqui a alguns anos, talvez nem o dinheiro vivo seja necessário.  O resultado é este: o país com mais transações on-line do mundo. Ponto para o Império do Centro!

 

Nota: o NFC (tecnologia que permite comunicação através do contato) não pegou. Talvez por cada fabricante ter a sua especificação, o que pode causar incompatibilidade de hardware. Já o QR code é universal, tira uma foto e pronto.

 

*Sobre fontes utilizadas. A China divulga pouquíssimos dados oficiais. As informações aqui descritas foram com base em conversas com pessoas, portanto, não são totalmente confiáveis. Além disso, como a China muda muito rápido, provavelmente essas informações estarão obsoletas em poucos meses…


Links:

https://www.statista.com/statistics/226530/mobile-payment-transaction-volume-forecast/

https://www.scmp.com/tech/apps-gaming/article/2134011/china-pulls-further-ahead-us-mobile-payments-record-us128-trillion

https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/01/why-chinas-fintech-will-change-how-the-world-thinks-about-banking/#167c6c5621ba

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/06/china-banks-lost-22b-to-alibaba-and-tencent-in-2015-but-thats-not-their-biggest-problem/#1eec07d36094