Muro de tijolos x muro de pedras

Quais as diferenças entre o estilo americano e o estilo japonês de gestão?

Nos anos 70 e 80, o mundo inteiro voltou os olhos para o Japão. Como poderia um país devastado por uma guerra mundial atingir um desenvolvimento extraordinário em algumas décadas?

Uma das empresas símbolo deste salto foi a Sony, a mesma Sony do Playstation, do canal de TV a cabo, do walkman, dos aparelhos de som.

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A Sony não se limitou ao território japonês, entrando fortemente nos Estados Unidos. Por tudo isto, o fundador da Sony, Akio Morita, teve bastante contato tanto com o estilo oriental de administração quanto o estilo ocidental.

Um dos livros mais preciosos que tenho é o “Made in Japan”, de Akio Morita, fundador da Sony. Aliás, o primeiro nome da empresa era “Tokyo Tsushin Kogyo Kabushiki Kaisha”, que obviamente era impossível de ser falado em inglês. Morita pensou em “Totsuko”, mas descobriu que ninguém nos EUA conseguia pronunciar isto. Por fim, decidiram por “Sony”, que é simples de pronunciar e tem haver com “som”.

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Vale muito a pena uma leitura detalhada. Seguem alguns excertos.


Simplicidade e Conforto
Quando visitei a Motorola, notei que os escritórios tinham ar-condicionado, mas o clima na linha de montagem era sufocante, e os ventiladores barulhentos só espalhavam o ar quente. Pensei, “Como esperar qualidade de gente que trabalha assim?”.
No Japão, os trabalhadores costumam dizer que a linha de montagem era sempre mais confortável que a casa deles. Em 1984, metade das casas tinham ar-condicionado. Mas nós da Sony, já dávamos este conforto no final dos anos 60.

Queremos que todos tenham as melhores instalações para trabalhar, mas não acreditamos em escritórios exclusivos e luxuosos. Na Sony, temos escritórios confortáveis, mas não luxuosos: nossa central é uma fábrica reformada, parece um armazém. Só que, dentro dele, temos tudo o que precisamos.


O trabalho é honroso

Os japoneses aceitam muito naturalmente a noção de que o trabalho, qualquer seja, é honroso. Ninguém vai desprezar alguém porque, depois de se aposentar os 60 anos, aceitou um trabalho muito mais modesto do que o anterior.

Os trabalhadores querem desenvolver novas habilidades. Nos EUA a pessoa é treinada para uma coisa e depois recusa outro tipo de trabalho, e enquanto isso recebe um seguro-desemprego. No Japão, não podemos nos dar a esse luxo.

Todos os empregos são basicamente os mesmos. Você tem que dar o máximo de si, seja como homem da indústria do disco, como vendedor de rua ou auxiliar de contabilidade.


 

Dinheiro
É um grande erro pensar que o dinheiro é a única forma de compensar uma pessoa por seu trabalho. As pessoas precisam de dinheiro, é verdade, mas também querem se sentir felizes e orgulhosas em seu trabalho.

Acredito que todos trabalhamos para ter uma espécie de satisfação pessoal íntima. A publicidade americana faz do descanso e do prazer as metas primordiais, mas no Japão não é assim. A satisfação no trabalho é tão importante quanto dinheiro.

Nosso sistema de avaliação é complexo e tem o fim de encontrar pessoas capazes, dar-lhes empregos cheios de desafios e deixar que desenvolvam suas potencialidades. A diferença não está no que pagamos, e sim no desafio e no reconhecimento que elas têm no trabalho.

Os americanos fazem as suas crianças trabalhar para ganhar sua mesada, no Japão damos o dinheiro aos nossos filhos sem exigir nada deles. Assumimos o risco de prometer segurança no emprego, e depois temos que arrumar um jeito de motivá-las continuamente.


Muro de tijolos

Na Sony a experiência nos mostrou que um empregado acostumado a trabalhar só por dinheiro se esquece de que deve trabalhar em grupo, para o grupo. É responsabilidade da gerência estimular sempre o desejo de fazer um trabalho importante, satisfatório, num clima familiar. Nós reorganizamos o trabalho de forma a aproveitar os talentos e habilidades específicas de nossos trabalhadores.

As companhias americanas parecem estruturas do tipo “parede de tijolos”, ao passo que as japonesas são “paredes de pedra”. Numa companhia americana, os planos são feitos antecipadamente, em seguida começam a procurar pessoas. Um candidato que esteja super ou mal qualificado é eliminado. Por isso, parede de tijolos: a forma de cada empregado deve se ajustar ao conjunto, do contrário não serve.

No Japão, empregamos os candidatos, e com o tempo vamos descobrindo a melhor forma de aproveitá-los. São como pedras brutas, observadas pelos gerentes. A missão é construir uma parede que combine os elementos da melhor forma possível. As pedras, às vezes, são redondas, quadradas, longas, grandes ou pequenas, mas de alguma maneira, a gerência tem que encaixá-las bem.


Decisões consensadas

As empresas japonesas são dirigidas por consenso. Atingir consenso requer preparação do terreno. Uma ideia vinda do nível médio da gerência, por exemplo, pode ser aceita e reformulada pela alta direção, que depois pede aprovação e apoio ao longo da linha, no sentido descendente. É preciso ter paciência no trato com os japoneses.

Quando os japoneses tomam uma decisão, não importa se a ideia veio da linha de montagem ou da direção geral. Nós nos empenhamos vigorosamente em implementar o projeto, livre de intrigas e puxadas de tapetes, comuns em algumas empresa ocidentais.

Este procedimento incomoda quem não o conhece. Um executivo americano considerou o sistema japonês de consenso e planejamento muito cansativo, muitas reuniões, horas e horas num sala: “Fico frustrado porque quero saber exatamente a finalidade da reunião e o que vamos decidir.”

Os gerentes americanos acreditam que são racionais, mas na verdade, são racionais apenas com os fatos que conhecem. Há muitos outros fatores desconhecidos. Ou seja, são lógicos sem bases firmes. Já os japoneses procuram ter uma visão geral do conjunto, e intuir a partir daí, assumir riscos.

A lógica fria dos cursos de administração esvazia a força do elemento humano.


Advogados

Existem nos EUA mais de 500 mil advogados, enquanto o Japão tem uns 170 mil.
Enquanto os americanos gastam muito tempo criando advogados, nós estamos mais ocupados na formação de engenheiros. Temos o dobro de engenheiros formados, o que significa, levando-se em conta o tamanho relativo dos dois países, quatro vezes a proporção de engenheiros.

Muitos processos sem sentido são gerados pelos próprios advogados. Neste país, todo mundo processa todo mundo. Casos de contingência, encarados com reserva no Japão, aqui são comuns.

Em 1970 a National Union Electric Company, com o nome de Emerson, entrou com uma queixa alegando que os fabricantes japoneses faziam dumping. Foram necessários dez anos de trabalho duro para que nossos melhores advogados conseguissem absolvição num tribunal da Filadélfia. Na ocasião, o tribunal destacou “A posição bem conhecida da Sony como o fabricante mais caro do mercado”, portanto, pouco provável de praticar dumping. O assunto, porém, se arrastou por mais dois anos, até que a sentença fosse confirmada por uma instância superior.

Estas empresas gastaram milhões de dólares em ações legais, mas falharam ao não se fazerem mais competitivas em relação aos fabricantes japoneses. Uma batalha perdida. Os únicos que lucraram foram os advogados – não os consumidores nem as empresas.


Longo Prazo

Pelas características descritas acima, espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

A principal vantagem do sistema japonês é esse sentido de uma filosofia corporativa, planejamento a longo prazo, que um novo dirigente não pode destruir.


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Akio Morita, fundador da Sony.

26 Jan 1921 – 3 Out 1999

 

Os japoneses originais

Na escola ensina-se muita coisa sem sentido. Mas ainda bem que o grande mérito da escola é ensinar a pensar, e principalmente ensinar a questionar.

 

Uma das besteiras que ouvi falar na escola é que japoneses e chineses têm os olhos puxados porque estão num lugar que neva. A neve reflete mais a luz do sol, e por isso eles têm que ficar com os olhos mais fechados.

 

Mas eu pensava: então porque os suecos não têm olhos puxados, se lá neva tanto quanto no Japão? E na Rússia, não neva não?

 

Faces

 

Chineses, japoneses e coreanos têm aparência física semelhante. Será que eles têm um ancestral comum? E Se sim, foram os japoneses que ocuparam a Coréia e a China, ou foi a China que ocupou o Japão? Ou faz sentido dizer que eles têm olhos puxados porque neva?

 


 

Geografia
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O Japão é um conjunto de ilhas no mar. A Coreia é quase um apêndice do continente, e tem a China como vizinha.

O povo Ainu

 

As evidências arqueológicas indicam que os japoneses originais não eram os ancestrais dos japoneses atuais. Ou melhor, o povo que habitava o Japão  não eram japoneses, eram os Ainu.

 

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Os Ainu chegaram ao Japão há cerca de 10 mil anos. Talvez tenham atravessado o mar que separa o continente a pé, aproveitando uma das eras glaciais, quando o nível do mar era mais baixo. Eles se estabeleceram no Japão e formaram diversas tribos. Pela arqueologia, especula-se que foram caçadores-coletores – não havia escrita nem agricultura.

 

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Os Ainu parecem uma mistura de caucasóides com asiáticos. São muito diferentes dos japoneses atuais que todos conhecem. Eles têm longas barbas e muitos têm olhos azuis. Têm semelhanças com tibetanos. A língua ainu é muito diferente da língua japonesa.

 

Atualmente, os Ainu vivem no extremo norte do Japão, como uma minoria étnica.

 

Um vídeo sobre os Ainu.

 

As mulheres apresentam curiosas tatuagens na boca
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Os filhos do Sol

 

Há uns 3.000 anos atrás, algo mudou drasticamente. A arqueologia encontrou objetos de metal e sinais de agricultura, assim como objetos como vasos. Diferentemente dos vasos de eras anteriores, os vasos desta era pareciam muito com vasos coreanos da época. Muitos outros objetos eram de origem coreana: bronze, ferramentas, estilos de casas, porcos domesticados. Este povo dominava muito bem a agricultura: arroz, trigo, e isto deve ter ajudado a sua expansão demográfica, e provavelmente vieram em barcos, pelo mar.

 

Domínio de Agricultura, ferramentas de metal e casas de estilo coreano não surgem de uma hora para outra. Muito menos a transformação de um povo como os ainu em japoneses atuais. O que provavelmente aconteceu foi que houve a invasão de um povo, provavelmente vindo da Coreia (que é o ponto mais próximo das ilhas japonesas) ocupando as terras japonesas.

 

O novo povo japonês invasor foi ocupando áreas cada vez maiores do Japão, e empurrando o povo Ainu cada vez mais para lugares remotos.

 

A primeira crônica japonesa é de 712 d.C. Nesta época, o Japão era inquestionavelmente dominado pelos ancestrais dos japoneses modernos: cultura, linguagem, DNA.

 

Genética

 

Em termos genéticos, os esqueletos antes de 3000 anos atrás têm muito mais semelhança com os Ainu do que com os japoneses. Depois deste período, é o contrário. E os japoneses e coreanos da época têm muita similaridade. O “teste de paternidade” leva a crer que foram sim os coreanos que invadiram o Japão há tempos atrás e deram origem ao Japão atual.
Os japoneses tẽm genes majoritariamente idênticos aos coreanos, com uma percentagem pequena ainu. Quanto mais ao norte, maior esta porcentagem ainu. E, quanto mais ao sul, maior a mistura com o povo do okinawa, outro que têm características distintas do povo invasor. Além disso, há em menor número incidência de genes indonésios, tibetanos, etc… vide links no anexo.

Língua

 

Mas há um grande problema nesta história toda. A língua coreana atual não tem nenhuma relação com a língua japonesa atual. Se coreanos e japoneses têm similaridade genética e a antropologia conta uma história de invasão coreana no Japão antigo, como pode ser que não haja similaridade entre as línguas?

 

Linguas
Na figura, da esquerda para direita: coreano, japonês e chinês

 

A teoria de Diamond é a seguinte. Na verdade, a Coreia de 3000 anos atrás não era uma nação como conhecemos hoje, mas sim um aglomerado de reinos diferentes. A língua coreana atual deriva do reinado de Silla. Talvez, no processo de unificação da Coreia, o reinado de Silla tenha vencido a guerra contra algum outro reino coreano. As línguas e culturas, entre os reinos coreanos, eram bastante distintas, e um destes reinos poderia ter similaridade com a língua japonesa. Pessoas deste reino resolveram fugir para algum lugar distante e levar consigo objetos, pertences e cultura, fundando uma nova nação em um território novo.

 

Hoje em dia, há muita rivalidade e até ódio entre Coreia e Japão, por causa de guerras e episódios como a invasão japonesa da Coreia na Segunda Grande Guerra. Mas eles descendem da mesma raiz, são irmãos na aparência, na genética e na história.

 

Links:

http://foreigndispatches.typepad.com/dispatches/2007/01/the_origins_of_.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_people

Ponto de vista

Nas escolas em que estudei, era comum uma conversa mais ou menos assim:

“Cara, não estudei nada e ainda tirei 6!”

“E eu, que fui para a academia, só estudei um pouco antes da prova, e ainda tirei um 5!”
 
Ou seja, os alunos vangloriando-se de terem estudado pouco mas ainda assim ficando um pouco acima da média. Os alunos tinham vergonha de falar que estudavam, seja qual for a razão disto.

Vindo de uma cultura nipônica, sei que no Japão as coisas são diferentes. A competição pelas poucas vagas nas melhores universidades é acirrada, e há milhares de outros alunos em condições de preencher a vaga. A vergonha, ali, é não estudar. 
 
A conversa seria assim:

“Cara, estudei pacas e tirei só 6”

“E eu, que tirei 5? Não deveria ter ido para a academia…”
 

Não acho correto dizer que há uma posição “certa” e outra “errada”. 

Mas sei que causas geram consequências, e palavras alimentam atos, como uma profecia auto realizável. Assim, o primeiro grupo de alunos tende a estudar menos para a próxima prova, afinal, eles mesmos dizem que não são nerds. Por outro lado, o segundo grupo vai estudar mais para a próxima prova, porque eles sabem que devem melhorar.

Não tenho vergonha em dizer que estudo muito, leio muito, trabalho muito. Quando adolescente, passava os sábados resolvendo problemas de matemática. Hoje, meus horários favoritos para estudar são das 5 às 7 da manhã de sábado e domingo.

 

Arnaldo Gunzi
Out 2015

Demografia do Japão

Dizia o grande mestre Peter Drucker que a demografia é uma bomba relógio. É o futuro que já aconteceu. Isto porque um excesso ou falta de pessoas numa faixa etária só pode ser corrigidos em gerações seguintes, ou seja, há um lapso de tempo de vários anos para tal.

Um gráfico extremamente útil para analisar a demografia é a pirâmide populacional. Pirâmide porque tem uma base larga, que vai estreitando no topo.

O Japão, em 1950, apresentava uma pirâmide peculiar. O gráfico tem um dente na população masculina de 20 a 30 anos, principais vítimas da segunda grande guerra.

Ao longo dos anos, a industrialização permitiu ao Japão aumentar a expectativa de vida. Também ocorreu uma diminuição da taxa de natalidade, característica comum a todos os países urbanos. A pirâmide foi ficando mais comprida e estreita.

No gráfico contemporâneo, de 2010, nota-se que o número de crianças é muito pequeno. Não parece mais uma pirâmide.

O Japão tem uma sociedade extremamente competitiva. Todos querem se formar na melhor universidade, e obter os melhores empregos. É lógico que não há espaço para todos, e os perdedores desta disputa feroz se sentem muitas vezes marginalizados. Talvez por isso, a taxa de suicídios seja uma das maiores do mundo.
Numa sociedade extremamente competitiva, uma mulher parar a carreira para ter filhos é uma desvantagem. E para o pai, um custo gigantesco, já que o filho vai precisar entrar nas melhores e mais caras escolas para competir. Portanto, há pouco incentivo para ter filhos.

Outra questão é a da imigração. A sociedade japonesa é extremamente xenófoba. Há poucos imigrantes. Justamente seriam os imigrantes que possivelmente trabalhariam por baixos salários e ajudariam a sanear o deficit populacional.
Um efeito curioso. Os imóveis estão perdendo valor. Ficando mais baratos ano após ano. Afinal, com a população diminuindo, sobram casas (principalmente no interior).

O gráfico projetado para 2050 é tenebroso. Será uma sociedade de idosos. Uma pirâmide invertida.

O economista Thomas Malthus previu que a humanidade se expandiria tanto que faltaria comida para tanta gente. Mas o tal problema da superpopulação nunca aconteceu. O que vai acontecer é exatamente o contrário: vai faltar gente.

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