A Rappi vai concorrer com o Itaú

A placa abaixo, numa Starbucks da Av. Paulista, chamou a minha atenção.

É um pagamento pelo celular, utilizando um e-wallet. Serviço dentro do aplicativo da Rappi, o RappiPay.

Por que chamou a atenção? Porque já vi isto antes, na China, o país que não aceita cartão de crédito.

Na China, tudo quanto é pagamento é por QR code. Restaurante, paga com WeChat. Táxi, WeChat. Até os mendigos aceitam WeChat.

Qual a vantagem de um e-wallet sobre o cartão de crédito? Essas soluções tendem a ser bem mais baratas do que os cartões tradicionais. A transferência entre pessoas físicas no RappiPay, por exemplo, é gratuita.

O problema é virar hábito. Na China, as pessoas não tinham cartão, mas tinham celular. No Brasil, todo mundo usa cartão de débito ou crédito. Toda loja tem uma maquininha de cartão. Como é que um WeChatPay vai pegar no Brasil?

Esta é uma belíssima tentativa de responder a esta pergunta. A Rappi já é um sucesso, para entrega do almoço. Ao aplicativo normal, eles adicionaram vários outros serviços, como o patinete elétrico da Grin, passeio de cachorros, supermercado, etc…  Com o pagamento incluso no ecossistema, quem segura?

O WeChat é gigante na China. Fintechs abocanharam um fatia importante dos lucros dos bancos.

Te cuida, Itaú.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/29/testamos-o-servico-do-rappi-o-servico-de-entregas/

Como usar o VPN na China

Este post é um adendo às notas sobre cultura e economia da China.

Quase nenhum aplicativo do ocidente funciona na China. Tudo é bloqueado, incluindo o Google e seus serviços (como e-mail e maps), Facebook, Whatsapp, Uber, etc…

O governo chinês bloqueia esses serviços. Um primeiro motivo é facilitar que a China tenha os seus similares (Baidu para o Google, Tencent para o Facebook, AliBaba para a Amazon, WeChat para o Whatsapp, Didi para o Uber). Outro motivo é poder monitorar o conteúdo (exemplo, o WeChat é monitorado!), o que seria impossível se o app não fosse chinês.

De qualquer forma, é necessário utilizar um VPN (Virtual private network) para acessar os serviços.

E isto ajudou muito. Imagine andar sem o Google Maps no meio de Shanghai!

Eu utilizei dois VPNs, o Express VPN e o VPN Mestre.

Paguei a versão full do primeiro por um mês, e usei a trial do segundo.

É necessário baixar e acessar da primeira vez de fora da China, para funcionar. Se baixar de dentro da China, não vai dar certo.

O VPN faz o celular parecer estar acessando o site de outro país, liberando os acessos desejados.

É bem simples de usar. Vou focar no Express VPN, que foi o que mais usei, mas a ideia é similar.

Para usar, basta escolher um país na lista, e tentar acessar. Pode ser que não seja possível, por ter muita gente acessando o mesmo servidor, daí é necessário escolher outro local. A versão paga obviamente tem prioridade sobre a versão gratuita, em caso de fila.

Uma vez o VPN rodando, o ícone do aplicativo fica com o mundo coberto.

Para desfazer a conexão, é só desconectar – e o mundo fica descoberto no ícone.

Uma coisa interessante é que, acessando a internet do celular via roaming internacional, os serviços funcionam normalmente.
Só quando usando o wi-fi do hotel ou da empresa é necessário ativar o VPN.

Tudo muda muito rápido na China. Uma canetada do governo fortemente centralizado e tudo muda.

Mas sei que os apps funcionam, pelo menos até hoje, março de 2019.

Trilha sonora: Beyond the sea – Rod Stewart.




Links:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

10 Tópicos para entender a China

China, o país das contradições

Um rolezinho no Maglev chinês

O passeio de trem mais legal que já fiz na minha vida foi no Maglev, que parte do Aeroporto de Shanghai e vai até a cidade.

 

IMG_1013.JPG
Não foi pela paisagem, nem por passar em lugares exóticos, nada disso. Foi apenas pela tecnologia, o que se pode esperar de um blog nerd como este (vide também, posts sobre a China aqui e aqui).

 
O Maglev é um tipo de trem que levita sobre os trilhos. O conceito básico é muito simples. Um ímã atrai ou repele outro ímã, dependendo da polaridade. O negativo atrai o positivo, os negativos se repelem, assim como os positivos.

 

 

Colocando os ímãs para repelir, e com energia suficiente, é possível fazer um trem inteiro levitar. Sem o atrito com o solo, é possível fazer uma viagem a velocidades extremamente altas, gastando menos energia, com menos ruído e trepidação…

 

 

É claro que um ímã para colar um lembrete na geladeira é uma coisa, um ímã para levitar um trem inteiro, controlar velocidade e trepidação, garantir a segurança das pessoas, é algo extremamente mais caro e difícil.

 

IMG_1012.JPG
Viajei de Beijing a Shanghai. Pesquisando sobre como ir do aeroporto de Pudong até a cidade, descobri que tinha um trem Maglev, e fiz questão de pegá-lo.

 

 

E, quando digo que fiz questão de pegá-lo, é isso mesmo. O avião até Shanghai atrasou mais de duas horas. Pousei lá depois das 22h. Saí correndo do terminal até a estação do maglev. Felizmente, não havia fila e foi muito fácil comprar o ticket (50 yuanes, uns 30 reais), e peguei o último maglev do dia, às 22:40h.

 

 

Fiz este vídeo do interior do trem. Ele chega a uma velocidade máxima de 300 km/h. Tem um nível de trepidação mais ou menos parecido com a de um trem comum. O maglev não tem rodas, só os magnetos. Porém, como a plataforma dele é fechada, não dá para ver o mecanismo. Se não dissesse que é um maglev, não dá para distinguir se é ou não, somente do ponto de vista do passageiro.

 

 
Pelas pesquisas que fiz, parece que esta versão de trem consegue chegar até o dobro da velocidade, uns 600 km/h. Porém, não faz sentido chegar a esta velocidade no trecho citado, porque a distância entre o aeroporto e o destino final é muito pequena, apenas 30 km. A viagem como um todo dura 8 minutos.

 

IMG_1016.JPG
Detalhe da velocidade máxima

 

É mais ou menos assim: demora uns dois minutos para chegar a 300 km/h, anda uns 4 minutos nesta velocidade, depois começa a desacelerar para chegar ao destino. Nem dá tempo para desfrutar do “voo de cruzeiro”.

 
Outro problema é que o destino final fica numa cidade vizinha à Shanghai (provavelmente porque seria inviável financeiramente cruzar o rio entre as cidades). Tem um ramal do metrô até Shanghai, mas devido ao horário, estava fechado.

 

 

Procurei um táxi. E, quando encontrei o ponto de táxi, descobri que este fechava as 23h, exatamente no momento em que eu tinha chegado! Tive que pegar um transporte meio clandestino, esquisito, onde paguei mais de 100 yuanes, o dobro do preço comum. Seria muito mais simples sair do aeroporto e pegar um táxi direto ao destino, mas o espírito da coisa não era ser turista, e sim explorar a cidade o máximo possível.

 

 

O projeto do maglev de Shanghai como um todo não faz sentido. Um trem convencional talvez não chegue a uma velocidade tão absurda, mas digamos, a 80 km/h, faria o mesmo trecho em 20 e poucos minutos. Doze minutos de diferença. Talvez um trem convencional pudesse chegar direto à cidade de Shanghai e integrar ao espetacular sistema de metrô, o que é muito mais útil do ponto de vista do usuário.

 
Outra pergunta. Se a tecnologia maglev é tão superior assim, porque esta não é mais comum? Na verdade, o custo do CAPEX é monstruoso. Imagine o tanto de energia para levitar um trem. Para isto, deve-se construir uma rede elétrica dedicada, só para começar. Além disso, toda a infraestrutura tem que ser específica para o maglev, porque não dá para aproveitar a estrutura de um trem comum. Outro fator é que, se o trecho for muito curto, como no caso do aeroporto, não vale a pena, e se for muito longo, também não vale a pena, porque um avião vai ser muito mais efetivo. No final das contas, é mais barato e garantido aperfeiçoar o sistema de trems comuns.

 

 

Tanto é que a linha do maglev do aeroporto não dá lucro. Tem que ser subsidiado, para a conta fechar.

 

Mas, de alguma forma, esta tecnologia pode sim ser muito útil em algum momento no futuro.

 

E, já que deu tanto trabalho pegar o maglev, que este vire pelo menos um post divertido!

 

 


 

Links:

 

https://www.railway-technology.com/features/will-maglev-ever-become-mainstream/

https://en.wikipedia.org/wiki/Maglev

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maglev
https://www.travelchinaguide.com/cityguides/shanghai/getting-around.htm

https://www.theguardian.com/technology/2018/may/29/maglev-magnetic-levitation-domestic-travel

Por que o segredo da inovação está no ecossistema?

Já ouvi muitas palestras e discussões argumentando que o ecossistema é o segredo da inovação.

 

Sempre achei que isto fosse bullshit. Ecossistema, como assim? O que tem a ver alhos com bugalhos?

 

turtle_ocean_sea_meeresbewohner_underwater_red_sea_coral_diving-1119319.jpg!d.jpeg

 

Esta mentalidade mudou depois que fui até a China ver o que rola por ali. Ou, no caso dos meus grandes amigos Weber Pimenta e Felipe Allevato, ir ao Vale do Silício ver o que acontece por lá.

 

E, após várias ponderações, a conclusão é que o segredo da inovação está no…. ecossistema!

 

O ecossistema é o todo, a soma de todas as partes. É muito maior do que um indivíduo ou grupo de indivíduos consegue fazer com sua própria força.

 

A começar pelo capital humano. Além desses lugares terem universidades de ponta (como Stanford nos EUA e Tsinhua na China), as melhores cabeças do mundo migram para lá em busca de oportunidades para escalar o seu negócio.

 

 

É um ciclo virtuoso, a semente cresce melhor numa terra boa, e a terra é boa por ter as melhores sementes.

 

 

Cada nó deste network de excelência faz com que o poder da rede aumente exponencialmente, possibilitando que soluções diferentes se conectem e resolvam problemas cada vez mais difíceis.

 

Outro fator é o capital de risco. No Brasil, cada projeto tem que se pagar, gerar caixa positivo ao fim do pouco tempo de projeto. Em contraste, estes ambientes têm elevado capital de risco de verdade. Eles sabem que 99% dos empreendimentos vão falhar, mas o 1% que der certo vai ser o próximo Facebook ou Google.
É quase uma loteria. Se eu gastar todos os recursos em um bilhete, dificilmente este bilhete vai vingar. Tenho que comprar vários bilhetes, ao longo de muito tempo. Entretanto, o bilhete desta loteria do Venture Capital não custa 1 real como o da Mega Sena, mas sim dezenas de milhões de dólares a cada rodada…
Um terceiro fator é o tempo de retorno. Uma startup pode ficar anos e anos sem ter retorno algum. O objetivo é conseguir o monopólio. Vencer o território dentro da cabeça das pessoas, mostrando que a Amazon é a solução de e-commerce, ou o Google é a solução de buscador – entre dezenas de outras soluções de e-commerce e de buscador. Esta batalha pode facilmente durar 10, 15 anos. No caso de carros autônomos, até mais, a fim de superar os grandes problemas técnicos existentes (lembrando que o primeiro grande evento disto foi o Grande Desafio da DARPA, em 2006).

 

É relativamente fácil ter ideias. Difícil mesmo é fazer a ideia acontecer, e vencer a luta pelo monopólio do posicionamento.

 

Além de tudo isto, há fatores indiretos como a logística, infraestrutura, regulação, burocracia, e até fatores pessoais, como segurança, que ajudam o desempenho do empreendedor.
Sempre achei que eu fazia um bom trabalho, no Brasil. Porém, ao me deparar com a realidade destes lugares, me senti como um micróbio. O que consigo fazer com as minhas próprias forças é muito pouco. Não dá para competir. Não é um único indivíduo, ou uma única empresa, que vai fazer a diferença sozinho. A chave é o ecossistema inteiro, o mindset do lugar, a cultura.

 

 

O pesquisador de inovação Steven Johnson diz que os recifes de corais são o grande exemplo de ecossistema de inovação.
Os corais envolvem dezenas de milhares de formas de vida diferentes. Cada forma de vida modifica o ambiente e possibilita que outras formas de vida surjam, nas suas cascas vazias ou consumindo os seus subprodutos.

A área dos corais ocupa 0,2% do oceano, porém abriga 25% da biodiversidade. É como um oásis no meio do deserto.

Não dá para competir individualmente. A competição tem que ser sistêmica, como um ecossistema competindo com outro. Neste quesito, o Brasil está muito atrás.
O ecossistema brasileiro, ao invés de ajudar, atrapalha. Impostos altos para serviços ineficientes, mentalidade de objetivos a curto prazo, melhores cabeças indo fazer concurso público, infraestrutura pouco funcional, educação de baixo nível, mindset de se dar bem individualmente em detrimento do todo (traduzido na famosa Lei de Gérson), instabilidade jurídica regulatória e até sensação de insegurança são alguns dos pontos a citar.

 

Se isto é uma maratona, o Brasil está uns 10 quilômetros atrás do pessoal de ponta como os EUA, China, Israel. Além disso, enquanto os líderes continuam correndo em alta velocidade, o Brasil está engatinhando, e para trás!

 

 

Acorda, Brasil!

 

Ação: vamos ajudar a construir um ecossistema de excelência?

 

Links:

 

https://pxhere.com/pt/photo/1119319

https://ideiasesquecidas.com/2018/08/01/10-topicos-para-entender-a-china/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/25/algumas-palavras-sobre-inovacao/

 

 

 

Quem está no ranking mundial de educação?

A educação é a base para que todo o resto da sociedade evolua. É uma condição necessária, porém, não é suficiente, para um desenvolvimento econômico sustentável.

 

Nos países asiáticos, as pessoas estudam por longas horas e com uma dedicação extrema. O objetivo não é passar de ano, é tirar nota 10. É um comportamento cultural, deriva de tradições milenares como o confucionismo.

 

O reflexo disto é o ranking abaixo.

 

rankingPisa.png
É da PISA – programa de avaliação de estudantes do segundo grau.

 

No topo da lista, asiáticos como Singapura, Hong Kong, Japão, China, Coreia, Taiwan. Depois, países europeus de primeiro mundo.

 
O ranking é de 2015. Se fosse feito hoje, a China estaria melhor, pelo passo frenético em que ela anda.

 

 
O Brasil, infelizmente, no fim da lista. E, infelizmente de novo, se o ranking fosse feito hoje, provavelmente não estaria muito melhor.

 

Abre o olho, brasileiro!

 
Alguns links:

 

https://exame.abril.com.br/revista-exame/o-melhor-ensino-do-mundo

https://www.businessinsider.com/pisa-worldwide-ranking-of-m…

10 tópicos para entender a China

Confesso que colei

 

Um Cisne Negro paira sobre a China

O todo-poderoso império chinês foi apresentado em uma série de posts (vide aqui, aqui e aqui). Este último post fecha a série.
castelo01.jpg

 

A China é segunda maior economia do mundo, caminhando fortemente para ser a primeira. Um bilhão e meio de habitantes. País que mais cresceu nos últimos 30 anos, retirando da pobreza absoluta 500 milhões de pessoas e dobrando o PIB per capita. A China tem programas internacionais de bilhões de dólares, como o One Belt One Road e o Made In China 2025…. perfeito, não?

 

 

Não, não é perfeito. O colosso chinês é reluzente, porém tem rachaduras em suas fundações. É como um castelo magnífico, alto o suficiente para eclipsar todos os outros prédios: suas portas são da melhor madeira nobre, o mármore de seu piso é da mais alta qualidade, os detalhes são feitos de ouro e de pedras preciosas. Porém, tudo isto suportado por fundações mal executadas, erguidas às pressas e cheias de falhas estruturais.

 

Um Cisne Negro gigantesco paira no ar…

BlackSwan.jpg

 

Cisne Negro é um evento de baixa probabilidade e impacto enorme, como um terremoto, ou como a crise mundial de 2008. Para saber mais sobre o assunto, recomendo este link, ou este.

 


 

Motivo?

São vários motivos. Em poucas linhas:

 

O Estado chinês está presente em tudo, incluindo as empresas.
Apesar de privadas, a presença do Estado é muito forte. O Estado injeta uma quantidade absurda de dinheiro em suas campeãs nacionais.

 

Esta oferta de dinheiro abundante e barato faz com que os riscos sejam mascarados, e investimentos que nunca se pagariam tornem-se viáveis.
Isto também estimula a formação de mega empresas, que se tornam rapidamente too big to fail.

 

A pressa em investimento do governo nas últimas décadas levou à capacidades de produção assombrosas, sem maiores preocupações com a qualidade e a excelência técnica (atualmente estão correndo atrás do prejuízo, melhorando a técnica, diminuindo a capacidade, olhando para a poluição).

 

Efeito: A China produz, anualmente, 50% do aço do mundo! Sua produção é 10 vezes maior do que a dos EUA. Há assombrosos 150 milhões de toneladas de capacidade ociosa que eles querem cortar!

 

steel.jpg

SteelCapacity.JPG

 

Com relação ao cimento, mais da metade do cimento do mundo é produzido na China. Em três anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos nos EUA!

 

https _blogs-images.forbes.com_niallmccarthy_files_2018_07_201806706_Cement_Production.jpg

 

Há obras extravagantes e duplicadas. Um exemplo é uma réplica da Torre Eiffel e complexo residencial, construído em Hangzhou para 10 mil pessoas, mas que atualmente está esparsamente ocupada.

 

 

eiffel.jpg

 

Outro exemplo. A cidade de Wuhan planeja construir metrô, dois aeroportos, um novo distrito financeiro, um distrito cultural e uma torre comercial tão alta quanto o Empire State, a um custo de 120 bilhões de dólares…

 

wuhan-jump-3-jumbo.jpg

 

Capitalismo de Estado, empreendimentos megalomaníacos, lembram os malfadados investimentos de Eike Batista e suas empresas X: OGX, CCX, e outras, só para fazer uma analogia.

 

 

Obesidade: Fazendo uma analogia, imagine alguém que passou por subnutrição por toda a infância e adolescência. Na idade adulta, este enriqueceu, e agora pratica o exato oposto, a supernutrição, mesmo já obeso além da conta. Tanto a subnutrição quanto a supernutrição são nocivas a seu modo.

 

Shadow Banks
Para financiar tais empreendimentos, há os bancos oficiais, mas também há uma série de bancos que atuam de forma pouco transparente, os chamados “shadow banks”. Estes seguem poucas regras claras, o que permite que financiem  empreendimentos de retorno duvidoso.

 


O que fazer com tal capacidade ociosa?

 

O ciclo vicioso está em não deixar a economia desacelerar, por conta da ameaça de desemprego. Isto significa mais investimentos, já que o consumo interno não é suficiente. Coloco mais dinheiro em estradas, portos, ferrovias e cidades, para que estes possam produzir mais, e com isto tenho capacidade para produzir mais outras estradas, portos, ferrovias e cidades.

 

Porém, investir por investir não faz sentido, o investimento tem que valer a pena. Os retornos dos investimentos estão cada vez menores, o que é natural, porque as frutas mais acessíveis já foram colhidas: a primeira estrada tem muito mais valor do que a segunda estrada no mesmo lugar.

 

No fechar do dia, o investimento tem que se pagar. É como alguém que toma emprestado hoje com a promessa de um bom investimento, e quer pagar amanhã. Chega amanhã, toma outro empréstimo, e assim sucessivamente, uma bola de neve.

 

Faz pelo menos uns 10 anos que economistas vêm falando de uma crise na China, que nunca ocorreu. Aqui, cabe o problema do Peru, que ilustra a noção de que o passado não explica o futuro:

 

Um peru é alimentado por 999 dias consecutivos, e nada de mal lhe ocorreu até hoje. Ele está seguro e confiante de que o dono gosta dele. Porém, amanhã, o dia 1000, é o dia do Natal. Adivinha quem vai para o forno?

 

turkey.jpg

 


 

Falando em Peru, quem vai pagar o pato?

 

O risco de crise bancária mundial é remoto, devido à elevada poupança interna chinesa, atualmente por volta de 40% do PIB. Outro fator é a impossibilidade de os poupadores chineses investirem suas economias em outros países.

 

Pelo motivo acima, dificilmente haverá uma crise internacional de grandes proporções.

 

Entretanto, causas geram consequências. É difícil imaginar que não haverá efeito algum, dado tamanho desbalanço de contas.

 

Provavelmente, quando o inevitável ajuste chegar, as famílias chinesas serão chamadas a cobrir o rombo. Provavelmente não haverá uma explosão, afetando o mundo todo, mas sim algo parecido com uma implosão, causando problemas internos.

 

Este processo pode ser bem conduzido, minimizando danos, ou não, ferindo ou não vários no caminho. Não é possível prever como será. Talvez um destino como o do Japão, saindo de um crescimento exponencial para duas décadas de economia patinando sem sair do lugar (mas mesmo assim, é a terceira economia do mundo).

 

 

O que sei é que ninguém gosta de ter a poupança de uma vida toda afetada por decisões de outrem. Isto pode causar distúrbios na Harmonia, que é um dos pilares de sustentação do país, causando problemas aos governantes chineses e em seu mandato dos céus.

 
O que leva à conclusão: não é nada fácil ser um chinês

 

Mas, pensando bem, também não é nada fácil ser brasileiro. A hiperinflação dos anos 80 foi um aspirador da poupança das famílias brasileiras, e por consequência, do futuro do país. O Plano Collor dos anos 90 foi mais direto e radical, prendeu a poupança das famílias nos bancos. (Vide o Índice X-Men de hiperinflação dos anos 80). Daqui para a frente, pós eleições, sabe-se lá o que virá…

 

E, outra coisa, não há para onde correr. O colosso americano também tem as suas rachaduras estruturais, assim como os europeus, japoneses, etc…

 

 

Conclusão final: Não dá para ganhar, não dá para empatar e não dá para sair do jogo. O negócio é deixar a vida te levar, um dia após o outro.

 

 


 

 

Fontes:

 

Livro: Economia Chinesa, Roberto Dumas Dantas, editora Saint Paul

https://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2018/07/06/china-produces-more-cement-than-the-rest-of-the-world-combined-infographic/#1c7b11ef6881

https://www.nbcnews.com/news/photo/eiffel-tower-replica-looms-over-chinas-parisian-style-ghost-town-flna6C10833193

http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html

https://qz.com/699979/how-chinas-overproduction-of-steel-is-damaging-companies-and-countries-around-the-world/

https://www.nytimes.com/2011/07/07/business/global/building-binge-by-chinas-cities-threatens-countrys-economic-boom.html

https://www.worldsteel.org/media-centre/press-releases/2018/World-crude-steel-output-increases-by-5.3–in-2017.html

https://www.nytimes.com/2016/02/23/world/asia/china-economy-overcapacity.html

http://www.chinadaily.com.cn/business/2014-08/04/content_18243657.htm

http://www.global-labour-university.org/fileadmin/GLU_conference_2016/papers/3A/Xingguo.pdf
http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html
https://www.businessinsider.com/fake-chinese-buildings-that-look-like-the-world-famous-originals-2015-7#one-development-company-started-building-a-fake-paris-back-in-2007-in-hangzhou-in-the-zhejiang-province-complete-with-a-scaled-eiffel-tower-although-it-was-designed-for-10000-people-the-development-is-sparsely-populated-and-is-now-considered-a-ghost-town-according-to-reuters-6

China, o país das contradições

Assaltos e furtos

 

Na China, não há problemas com assaltos ou furtos. Sequestro-relâmpago, arrastão, são palavras que nem tem como traduzir para esta realidade. Dá para andar sossegado na rua, ir a qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem problemas.

 

Dizem que um dos motivos para tal comportamento é o rigor das punições. Se pegarem o ladrão, ele estará completamente ferrado. Será penalizado com um rigor excessivo, e até onde sei, aqui não tem a onda de direitos humanos do ocidente.

 

Entretanto, se roubar ativamente não é permitido, é permitido enganar os outros, ser levemente desonesto.

Alguns casos que passei:

– O taxista quer cobrar o dobro do valor da corrida, principalmente aqueles que correm sem taxímetro. Se custa 100 yuans, ele quer cobrar 200 yuans. Daí, você pechincha, pechincha de novo, e chega em algum valor não abusivo.

Image result for taxi beijing

 

– Nas lojas de rua, o mesmo. Ao comprar qualquer coisa, algum presentinho, o atendente vai jogar um preço alto, principalmente se entender que você tem dinheiro.

 

– Troco errado.

O atendente vê que você é estrangeiro, fala em chinês quanto deu, e te devolve o troco errado. Na primeira vez, é possível até dar o benefício da dúvida, erro humano. Mas a linguagem corporal diz tudo: o rapaz que me atendeu baixou a cabeça, fugiu para outro canto da loja, e tive que chamá-lo.

 

Por incrível que pareça, até no aeroporto internacional de Shanghai isto acontece. Desta vez, fiquei olhando com atenção. A moça disse que faltavam 10 yuans. Sei que estava errado, mas queria ir até o fim para ver o que aconteceria. Dei os 10 yuans. Fitei os olhos dela, que desviou o olhar e não se atreveu a levantar a cabeça. Ok, pensei, mais uma desonestidade para a lista. Aí, quando eu estava indo embora, ela me deu uma coleção de postcards, disse que era presente. Obviamente, ela percebeu, bateu um sentimento de culpa e me deu algo para compensar.

 

Foto dos postcards que “ganhei”:

 

IMG_1320.JPG

– Muitos taxistas são analfabetos. Não lêem nem em inglês, nem em chinês. Tem muitos analfabetos na China. E, por isso, você tem que ler o endereço para o taxista, o que é impossível para um estrangeiro.

 

Resultado: vira e mexe, o taxista aceita a corrida, te larga num lugar aleatório, no lugar que ele entendeu, errado, e você tem que pegar outro táxi. Como andei muito pouco de táxi, isto ocorreu apenas uma vez comigo, mas outras pessoas do grupo relataram ocorrências do tipo.

 

Em geral, essas desonestidades ocorrem nas lojas de rua, táxis, em que os funcionários são de baixo nível econômico – é claro que em hotéis de alto nível, isto não vai ocorrer. E, mesmo nas lojas de rua, não é regra geral, nem todas as pessoas fazem isto.

 

As desonestidades existem em todo lugar do mundo – no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, já tentarem me passar a perna várias vezes.

 

O que é diferente é a proporção. A probabilidade é muito alta, de pessoas que praticam tais desonestidades. Tentar ser trapaceado meia dúzia de vezes em uma semana, isso porque o tempo de turismo foi pouquíssimo, é muita coisa. Mas também, é cultural. Para eles, isto não deve ser totalmente errado. Não sei como é ser gringo turista no Brasil, mas suponho que haja muito mais transações honestas – e também, assaltos, arrastões, etc…

 


Chinês gosta de dinheiro

 

A frase acima, “Chinês gosta de dinheiro”, é clássica. Ouvi umas 5 vezes de várias pessoas diferentes. E é verdade.

Image result for china money

 

Como não dá para usar cartão de crédito (Visa, Master, nenhum), fui obrigado a andar com um bolo de dinheiro. Muitos chineses, quando viam uma carteira cheia de grana, ficavam de olhos bem abertos, dava para ler no rosto deles. Duas das desonestidades acima foram depois que os caras viram a cor do dinheiro. Depois disto, passei a esconder o grosso do dinheiro em outra carteira.

 

 

É cansativo ficar pechinchando. Entrar na loja, o atendente pedir 150 yuans, você dar 70, e ir barganhando. Eu não tenho muita paciência para isso. Enquanto o fulano dá a vida por 10 yuans, para mim isto significa 6 reais. Prefiro desistir logo, fica com o troco, do que perder tempo e energia barganhando. Porém, não sei direito o que isto significa do ponto de vista cultural (meus amigos chineses, quem quiser comentar, fique a vontade). Não sei é motivo de orgulho barganhar ao máximo. Ou o chinês vê a gente como alvo fácil (um vendedor chinês ficou me seguindo a rua toda). Não sei as respostas, mas sei que é verdade, o chinês gosta muito de dinheiro, muito mais do que qualquer outro povo que já conheci.

 

 

Isto certamente é efeito do sofrimento de um povo que, poucas décadas atrás, estava entre os mais pobres do mundo. E, na verdade, a grande massa da população continua pobre, analfabeta, na área rural, pouco assistida. Para muitos deles, assim como para muitos brasileiros, um real significa a diferença entre almoçar ou não no dia.

 

Se o Brasil é cheio de contradições, a China é contradição a um nível exponencial. Na mesma cidade em que há pessoas dispostas a ficar uma hora barganhando 1 real, há inúmeros carrões como Mercedes, BMW, Tesla, Ferrari. Ao mesmo tempo em que é possível andar sem medo de assaltos, ninguém confia em ninguém. Uma cidade gigantesca e belíssima, como Shanghai, possui as pessoas mais ricas e as mais pobres do mundo ao mesmo tempo.

 

Se o Brasil não é para principiantes, não dá para entender a China nem sendo profissional.

01_Shanghai.JPG(Foto minha na belíssima Shanghai)

 

 


Nota sobre a tradução
Dirão os puristas que o plural de “yuan” é “yuanes”, e não “yuans”. Porém, fazer isto é aportuguesar demais a experiência – e este post é sobre a China. Portanto, dane-se o português correto.