A magnífica Xanadu de Kublai Khan

“Vou contar para você sobre a grande e maravilhosa magnificência do Grande Kaan reinante, de nome Cublay Kaan, Kaan sendo o título que significa ‘O lorde dos lordes’, ou Imperador” – Marco Polo.

Estive a ler o livro “A brief history of Khubilai Khan”, da foto abaixo.

Este livro tem uma história muito particular. Comprei numa livraria na cidade de Toronto, Canadá. Estava voltando de um congresso, na companhia do meu grande amigo Diego Piva, faz uns 5 anos. O preço está na capa, 7 dólares canadenses – vide a foto. Naquela época, o real ainda tinha algum valor, o que tornava o livro barato.

Xanadu era a capital do império mongol de Kublai Khan, neto do legendário conquistador Genghis Khan.

Após unificar toda a Mongólia, o exército de Genghis Khan passou a devastar reinos vizinhos. O seu império chegou à parte da Rússia, Oriente médio, e norte da China.

O termo “horda”, normalmente em referência à falfeitores, veio do nome das tendas, ou sede do poder dos mongóis.

Após a morte de Genghis Khan, e brigas entre descendentes, chegamos à linhagem de Kublai Khan. Este é conhecido na cultura popular, porque é o império descrito por Marco Polo em sua viagem à China.

“Xanadu” não é um nome muito chinês. Numa transcrição mais moderna, seria “Shangdu”. Esta era a capital do império mongol de Kublai.

Kublai Khan. fonte: Wikipedia

A parte sul da China era dominada pelo Império Song. Herdando a voracidade expansionista de seu avô, Kublai empreendeu a conquista do Império Song e a unificação da China sob o seu comando, fundando a dinastia Yuan.

Fato curioso: o império Mongol conquistou a China militarmente, mas, culturalmente, os ritos e tradições chinesas continuavam a valer. É mais ou menos como Roma dominou a Grécia militarmente, mas a cultura grega era tão mais avançada que influenciou fortemente a primeira.

Império Yuan, pegando parte da Mongólia, China, Coreia e outros países atuais. Fonte: Wikipedia

A Coreia também acabou sendo dominada por Kublai Khan. Não houve invasão, eles apenas se submeteram ao comando mongol.

Após a queda da China, outros impérios da região eram o Vietnã e o Japão.

Kublai empreendeu duas tentativas de invadir o Japão. Por ser uma ilha, a invasão teve que ser pelo mar – num local extremamente distante da capital chinesa, logisticamente complicada, e, também, sem aparentar ter alguma riqueza espetacular para os invasores. Já os defensores tinham todo o interesse em rechaçar o ataque, e empreenderam resistência feroz.

O Japão teve um empurrãozinho dos deuses da guerra: em ambos os ataques, tempestades destruíram a esquadra chinesa no mar. Daí, surgiu o termo “Kamikaze”, o vento divino, o mesmo termo utilizado pelos soldados suicidas japoneses na Segunda Grande Guerra.

Este evento marcou o início do declínio da dinastia Yuan, também com diversos outros problemas: a rivalidade de outros descendentes mongóis, rebeliões chinesas, etc.

Há várias citações à Kublai Khan na cultura popular, além de Marco Polo.

O poema “Kubla Khan”, de Samuel Coleridge, é muito famoso:

In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
Down to a sunless sea.

Baseado nisso tudo, tem a música “Xanadu”, do Rush. Eu não conhecia, foi indicação do meu amigo Vinícius Ribeiro.

https://www.youtube.com/watch?v=SEuOoMprDqg

Há uma série da Netflix chamada “Marco Polo”, mas ela é bem ruim – não à toa, foi cancelada na primeira temporada!

Por fim, Xanadu é o nome de uma startup canadense, cuja missão é “To build quantum computers that are useful and available to people everywhere.”. Ela usa fotônica como arquitetura de computação. Confira aqui: http://www.xanadu.ai

Arnaldo Gunzi, Abril 2021

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

Veja também:
https://ideiasesquecidas.com/2017/10/31/%e2%80%8bbagda-a-mais-bela-cidade-de-todos-os-tempos/

Revolução à vista: BC libera WhatsApp Pay

O pagamento por celular será uma mudança disruptiva na forma com que convivemos com pagamentos e bancos.

Na China, o Ali Pay e o WeChat Pay já são realidade há uns 5 anos. TODO mundo usa pagamento por celular. Para comprar na vendinha de produtos, no táxi, no restaurante, tudo. Algumas vantagens: taxas mais baixas, facilidade no envio de dinheiro entre pessoas (como o tradicional presente de ano novo chinês). Novos produtos: microempréstimos, microdoações. Uma quantidade enorme de chineses nem tem cartão de crédito, mas tem o Ali Pay.

Até os mendigos chineses aceitam o Ali Pay!

Só turistas utilizam cartão de crédito. A maioria das lojas nem aceita cartão. Numa vez que tentei usar, o atendente nunca tinha visto um cartão de crédito!

Os grandes bancos que se cuidem!

https://www.techtudo.com.br/noticias/2021/03/whatsapp-pagamentos-banco-central-libera-servico-no-brasil.ghtml

Indústria Americana

Um documentário para este carnaval

“Indústria Americana”, vencedor do Oscar de melhor documentário, mostra o choque cultural entre chineses e americanos.

A história começa com uma fábrica da GM, em Ohio, que fecha as portas.
Anos depois, um grupo chinês instala uma fábrica de vidros automotivos, a Fuyao, nas instalações da GM. Com ela, vem a cultura do país oriental.

Um primeiro ponto é que o chinês comum trabalha longas horas, podendo ficar 10, 12 horas no expediente, com pouquíssimos feriados ao longo do ano. (nota: existe uma expressão na China, o “996”, significando que o chinês entra no trabalho às 9 da manhã, sai às 9 da noite, 6 dias por semana).

A empresa cobra empenho semelhante dos americanos, que claramente não acham justo uma carga dessas.

Um relato impressionante: um trabalhador chinês conta que veio aos EUA pela Fuyao, sem ganhar nenhum adicional no salário ou ajuda de custo extra. Ele vai ficar alguns anos longe da família, tudo isso pelo dever de estar servindo a companhia.

Uma cena ilustra como os chineses pensam: o gerente da fábrica, um americano, quer instalar um toldo, para a inauguração da fábrica. O presidente da empresa, chinês, diz: não coloque o toldo. O gerente retruca: Mas, e se chover? O presidente devolve: Não se preocupe. Não vai chover. (Um autêntico manda-chuva)

A empresa coloca metas muito fortes de produção, exigindo de todos um empenho além do normal para recuperar o investimento realizado (mais de 500 milhões de dólares). Comenta-se que os chineses querem produzir, ao custo de colocar em risco a qualidade do produto final.

Nota-se também pouco empenho em termos de segurança das pessoas. Numa das cenas, uma chinesa coleta cacos de vidro com as mãos nuas, sem a mínima proteção. Em outra cena, um chinês conta como o material é quente, e que ele tem cicatrizes em todo o corpo. Em outra, um americano conta como nunca tinha se acidentado no trabalho, até que aconteceu um acidente com ele, na Fuyao.

Em especial, há um foco na luta da Fuyao para os trabalhadores americanos não se sindicalizarem.

Na visão dos chineses, a fábrica toda é como um grande navio. Se o navio não for para frente, todos serão prejudicados, ocorrendo o fechamento da mesma (como a da GM).

Muitos funcionários, insatisfeitos com jornada pesada, salários baixos, riscos de segurança, se organizaram em pedir a sindicalização. Outros tinham medo de represálias e de não ter outra ocupação possível.

A Fuyao faz uma grande campanha para evitar o sindicato. Contratam uma consultoria americana, especializada em motivar os trabalhadores a não se sindicalizarem (esta consultoria custou US$ 1 MM). A empresa também passou a perseguir de forma indireta os maiores defensores do sindicato, demitindo-os. No final das contas, eles não se sindicalizam.

Indústria Americana está disponível na Netflix, e foi produzida pela empresa do casal Obama.

Ranking de educação PISA 2018

Hoje, Dezembro de 2019, foi publicado o resultado do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) referente a 2018 – principal avaliação de educação básica do mundo.

Fatos a notar:

1- A China está em primeiro nos três rankings (Leitura, Matemática e Ciências). Na verdade, a China dá uma roubadinha no ranking. Ela como um todo não compete, mas sim, somente algumas províncias (Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong).

2 – O impressionante mesmo é a evolução da China. No PISA 2015 (é realizado a cada 3 anos), a China estava em 6º em matemática, 27º em Leitura e 10º em Ciências (e com o mesmo critério de só ter algumas cidades na avaliação)

3 – Em geral, os países do extremo oriente são obcecados por educação, por tirar 10 em todas provas. Vide Matemática, por exemplo, os 7 primeiros são do oriente.

4 – Nota-se também que a Estônia, um país pelo qual ninguém dá nada, aparece em boas posições nos três rankings. A Estônia deu um salto de modernização, com uma mentalidade bastante moderna e digital nos últimos anos. Fiquem de olho. (Obrigado ao Marcos Melo por notar isto).

5 – Não é surpresa para ninguém, mas abaixo dos orientais, temos os países europeus, Canadá e outros do primeiro mundo.

6 – O Brasil continua sendo um destaque negativo, nas últimas posições e até caindo em relação ao estudo de 2015. Nenhuma surpresa.

7 – Um grande destaque negativo é a Argentina. Outrora vista como o país mais culturalmente avançado da América Latina, hoje foi superado pelo Brasil (no Pisa 2015, estava à frente). Superado não é a palavra correta, na verdade, afundou mais do que o Brasil no quesito educação.

Reproduzo abaixo o PISA 2015, por conveniência:

Links:

https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/12/03/brasil-cai-em-ranking-mundial-de-ciencias-e-matematica-e-empaca-em-leitura.htm

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/15/quem-esta-no-ranking-mundial-de-educacao/

Hangzhou

A foto a seguir foi tirada em Hangzhou, há cerca de um ano.

Hangzhou é uma cidade que fica a uns 150 km de Shanghai, a grande metrópole da região, com seus 20 milhões de habitantes. Eu imaginava que a relação seria algo como São Paulo e Jundiaí, a metrópole versus uma cidade muito menor.

Qual nada! Hangzhou é uma cidade gigantesca, com uns 8 milhões de habitantes. Ela é também a sede da gigante de comércio eletrônico AliBaba.

A foto não ficou boa, mas queria capturar o seguinte. Vi um prédio imenso, habitacional, sendo construído. Depois, notei outro, igualzinho. Depois, mais um, mais outro e outro… eram dezenas de prédios habitacionais imensos, em construção, enfileirados!

Já dizia Napoleão Bonaparte. “A China é um dragão adormecido. Deixemos assim, porque quando ela acordar, vai sacudir o mundo”. E sacudindo o mundo ela está.

Tik Tok e o ecossistema chinês de inovação

Uma nova rede social vem surgindo fortemente no Brasil. uma tal de Tik Tok.

Há mais de um ano, esta já era febre na China. São vídeos muito curtos, de 6 a 15 segundos. É só deslizar o dedo na tela e trocar para outro vídeo. Como são vídeos muito curtos, o foco é humor .

O modelo chinês é o de proteger o seu mercado, e normalmente há uma cópia chinesa para cada grande serviço americano original: o WeChat no lugar do Whatsapp, a Didi no lugar do Uber, o AliBaba no lugar da Amazon, a Xiaomi no lugar da Apple, etc…

Porém, com a Tik Tok é o oposto, é ela que está desbravando um território novo.

Visitei a ByteDance, fabricante da Tik Tok, há um ano, no programa Missão China da StartSe. Vi uma empresa de tecnologia gigantesca – uns 50 mil funcionários e 4 bilhões de dólares de receita, utilizando maciçamente inteligência artificial para fazer reconhecimento de imagens e melhorar os algoritmos de recomendação.

O resultado está aí.

O futuro é asiático.

Recomendações de livros sobre a cultura e história da China

É bastante difícil entender a cabeça de um povo com 5000 anos de história, tão distante e com um framework mental completamente diferente do nosso. Não basta apenas saber algo sobre a linguagem, entender um pouco da cultura é muito mais sutil e extremamente mais poderoso.

Um exemplo. Na família, o chinês chama o avô materno de um nome específico, o avô paterno com outro nome – enquanto por aqui é só avô e pronto, tanto faz se é da parte do pai ou da mãe. Outro exemplo, o irmão mais velho tem uma denominação, o segundo irmão tem outro nome, o terceiro, outro, etc… Para efeito de comparação, aqui temos um nome para o primeiro (primogênito) e o último (caçula). Isso tudo não é por acaso, e sim porque a hierarquia é bastante importante na cultura confuciana, e o avô por parte do pai é mais importante do que o avô por parte da mãe.

Divido os oito livros em duas seções: uma da cultura chinesa e outra sobre a história da China.

Parte 1 – Sobre cultura

1) O Romance dos Três Reinos. É um dos maiores clássicos da literatura chinesa e o meu livro favorito disparado desta lista. É um romance épico, uma espécie de Ilíada chinesa.

A história se passa quando a China era dividida em três reinos, cada qual guerreando com os outros pela dominação total da China e pela própria sobrevivência. É uma trama enorme, repleta de alianças, traições, reviravoltas, armadilhas, espionagem e contraespionagem, vitórias e derrotas.

Na China, conversei sobre este com algumas pessoas, e perguntaram qual o meu personagem favorito (lá, todo mundo tem um). O meu é o estrategista Zhuge Liang Kong Ming, que liderou várias das histórias mais épicas deste conto. A pessoa com quem conversei disse que a dela era o Cao-Cao.

Existem várias versões e interpretações do livro, em filmes, jogos, séries. Um que gosto muito é uma versão em mangá, adaptado por um autor japonês, por isso o nome Sangokushi (https://ww2.mangafox.online/sangokushi).

2) Os Anacletos de Confúcio. O confucionismo dominou a cena na China por vários milênios. Provas para concursos públicos eram baseados nas obras de Confúcio, um sábio que viveu há 2500 anos atrás.

Os Anacletos permeiam vários dos tópicos da sabedoria de Confúcio, entre eles respeito às tradições, ao imperador, aos governantes, aos pais, aos mais velhos – nesta ordem, daí a importância da hierarquia. Era por isso que os imperadores gostavam do confucionismo, porque dava uma razão moral para a sua própria atuação.

Um outro pilar é a importância dos estudos – e até por isso, os cargos públicos da era imperial deixaram de ser por aristocracia hereditária, para ser um concurso público por provas. Até hoje, tanto chineses quanto japoneses dão um valor enorme aos estudos, a ponto de exaustão física e emocional, para não dizer suicídio, ao tentar ingressar nas melhores faculdades.

Felizmente, podemos ler os Anacletos sem decorar palavra-por-palavra, letra-por-letra o que está escrito, porque eram assim as provas dos períodos imperiais: se trocasse a ordem de uma palavrinha, estava errado!

3) Jornada a Oeste. Outro livro épico da literatura chinesa. Conta a história de um macaco que faz uma jornada épica, onde encontra aliados, inimigos, passa por desafios, sempre permeado por mitologia, religião: taoísmo, confucionismo, budismo.

Também há dramatizações diversas, desenhos, mangás e outros.

Se o Romance dos Três Reinos é uma Ilíada, esta Jornada a Oeste parece uma Odisseia. Traduzindo, a Ilíada conta a história da Guerra de Troia contra os gregos, e a Odisseia, a jornada de Ulisses para voltar para casa.

4) O Tao-Te-Ching. O Tao é tudo. O Tao é nada. O Tao é um. Do Tao fez-se o Ying e o Yang, o positivo e o negativo, o cheio e o vazio, o tudo e o nada.

Uma casa é feita de algo, de paredes sólidas, mas ela só tem valor por casa do nada, do espaço vazio que ela contém.

O Tao-Te-Ching é um livrinho bem curto, cheio desses enigmas paradoxais, cheios de sabedoria.

5) A Arte da Guerra. Este é o livro mais famoso desta lista, e é muito conhecido no Ocidente. Contém lições valiosas sobre foco, planejamento, timing, importância da informação. Também é um texto bastante curto, no original (algumas versões ocidentais enchem com um monte de exemplos e divagações inúteis, ao invés de conservar a essência do texto).

É no estilo do Tao, dando importância aos métodos indiretos, e escrito também em forma de textos curtos, enigmáticos e paradoxais.

Um dos maiores generais de todos os tempos, Napoleão Bonaparte, era profundo estudioso da Arte da Guerra de Sun Tzu.

Parte II – Livros de História

6) The fall and rise of China. Brilhante série de aulas, do prof. Richard Baum, sobre a história da China, desde os primórdios até os dias atuais. Permeia passado e presente, pontuando os principais pontos da história, como o Grande Salto para Frente, a Revolução Cultural. Também inclui relatos pessoais, como a sua visão quando ocorreu o incidente da Praça da Paz Celestial.

O prof. Baum é extremamente didático, e esta é a minha recomendação para conhecer a história da China.

7) China’s Economy. O prof.  Arthur R. Kroeber fala da China, porém sob uma perspectiva mais econômica – porém também é necessário tocar nos assuntos de história que afetam e explicam a economia, como a política do filho único.

O legal também é que é um livro mais atual, então cita programas atuais como o Made in China 2025 e o Belt and Road, e problemas, como a supercapacidade produtiva ociosa, a necessidade de um “pouso suave”.

8) China in 10 Words. Relato pessoal do autor, um chinês, relatando o que ele viveu na pele quando criança e adolescente, e só passou a compreender muitas décadas mais tarde, adulto. Coisas pequenas, como um caso em

ele relata estar vacinando dezenas de pessoas com a mesma agulha amassada, costuradas com a explicação do contexto em que a China vivia na época (de novo, e nem ele sabia na época).

É um livro extremamente interessante, porém é necessário ter um bom background da história da China primeiro, para captar a essência do que o autor relata.

Conclusão

Dada a vastidão histórica e cultural da China, há uma quantidade infindável de bom material que ficou de fora (e que nem consegui conhecer).

Algumas dicas adicionais.

O Youtube chinês é o Youku https://www.youku.com/. O problema é que a pessoa tem que saber chinês.

Ninguém usa Whatsapp, todo mundo lá usa WeChat.

Ninguém aceita cartão de crédito.

10 tópicos sobre a China.

Um Cisne Negro paira sobre a China.

Livros na Amazon:

Three Kingdoms: https://amzn.to/2VJDMGO

Confúcio: https://amzn.to/3bOkpC4

Tao Te Ching: https://amzn.to/2KG5u0x

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China’s Economy: https://amzn.to/2xgsdgM

China in 10 words: https://amzn.to/2yNBdKC

A Xiaomi e os novos tempos

Fui hoje ao Shopping Ibirapuera, em São Paulo.

Vi uma fila enorme, virando a esquina do quarteirão. Hoje é a inauguração da loja da Xiaomi no Brasil. Marca chinesa, com celulares top a um preço bem abaixo de um iPhone.

A China começou copiando, entregando produtos falsificados ou pouco sofisticados a uma fração do preço dos americanos. Porém, há uma teoria econômica que diz que, quem faz muito, acaba dominando o processo de produção e aprendendo a inovar – foi assim com o Japão e os tigres asiáticos. Além disso, as empresas chinesas (e o governo, é indissociável) investem um caminhão de dinheiro para desenvolvimento de produtos, contratação das melhores cabeças e compra de empresas de ponta.

O Xiaomi Mi 9 tem especificações assombrosas: três câmeras, uma com 48 megapixel (!!), 64/128 GB de armazenamento (!!), tela 6.39 polegadas Amoled com resolução Full HD…

Pergunta: será que a Xiaomi já é melhor que iPhone?

Outro sinal dos tempos: A Saraiva MegaStore do Shopping Ibirapuera, o motivo pelo qual fui lá, fechou as portas.

Pra que um livro físico, se hoje é possível ler um digital num Mi 9 de ponta?

https://noticias.uol.com.br/tecnologia/noticias/redacao/2019/06/01/com-direito-a-fila-e-fas-animados-xiaomi-inaugura-a-sua-1-loja-no-brasil.htm

A Rappi vai concorrer com o Itaú

A placa abaixo, numa Starbucks da Av. Paulista, chamou a minha atenção.

É um pagamento pelo celular, utilizando um e-wallet. Serviço dentro do aplicativo da Rappi, o RappiPay.

Por que chamou a atenção? Porque já vi isto antes, na China, o país que não aceita cartão de crédito.

Na China, tudo quanto é pagamento é por QR code. Restaurante, paga com WeChat. Táxi, WeChat. Até os mendigos aceitam WeChat.

Qual a vantagem de um e-wallet sobre o cartão de crédito? Essas soluções tendem a ser bem mais baratas do que os cartões tradicionais. A transferência entre pessoas físicas no RappiPay, por exemplo, é gratuita.

O problema é virar hábito. Na China, as pessoas não tinham cartão, mas tinham celular. No Brasil, todo mundo usa cartão de débito ou crédito. Toda loja tem uma maquininha de cartão. Como é que um WeChatPay vai pegar no Brasil?

Esta é uma belíssima tentativa de responder a esta pergunta. A Rappi já é um sucesso, para entrega do almoço. Ao aplicativo normal, eles adicionaram vários outros serviços, como o patinete elétrico da Grin, passeio de cachorros, supermercado, etc…  Com o pagamento incluso no ecossistema, quem segura?

O WeChat é gigante na China. Fintechs abocanharam um fatia importante dos lucros dos bancos.

Te cuida, Itaú.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/10/29/testamos-o-servico-do-rappi-o-servico-de-entregas/

Como usar o VPN na China

Este post é um adendo às notas sobre cultura e economia da China.

Quase nenhum aplicativo do ocidente funciona na China. Tudo é bloqueado, incluindo o Google e seus serviços (como e-mail e maps), Facebook, Whatsapp, Uber, etc…

O governo chinês bloqueia esses serviços. Um primeiro motivo é facilitar que a China tenha os seus similares (Baidu para o Google, Tencent para o Facebook, AliBaba para a Amazon, WeChat para o Whatsapp, Didi para o Uber). Outro motivo é poder monitorar o conteúdo (exemplo, o WeChat é monitorado!), o que seria impossível se o app não fosse chinês.

De qualquer forma, é necessário utilizar um VPN (Virtual private network) para acessar os serviços.

E isto ajudou muito. Imagine andar sem o Google Maps no meio de Shanghai!

Eu utilizei dois VPNs, o Express VPN e o VPN Mestre.

Paguei a versão full do primeiro por um mês, e usei a trial do segundo.

É necessário baixar e acessar da primeira vez de fora da China, para funcionar. Se baixar de dentro da China, não vai dar certo.

O VPN faz o celular parecer estar acessando o site de outro país, liberando os acessos desejados.

É bem simples de usar. Vou focar no Express VPN, que foi o que mais usei, mas a ideia é similar.

Para usar, basta escolher um país na lista, e tentar acessar. Pode ser que não seja possível, por ter muita gente acessando o mesmo servidor, daí é necessário escolher outro local. A versão paga obviamente tem prioridade sobre a versão gratuita, em caso de fila.

Uma vez o VPN rodando, o ícone do aplicativo fica com o mundo coberto.

Para desfazer a conexão, é só desconectar – e o mundo fica descoberto no ícone.

Uma coisa interessante é que, acessando a internet do celular via roaming internacional, os serviços funcionam normalmente.
Só quando usando o wi-fi do hotel ou da empresa é necessário ativar o VPN.

Tudo muda muito rápido na China. Uma canetada do governo fortemente centralizado e tudo muda.

Mas sei que os apps funcionam, pelo menos até hoje, março de 2019.

Trilha sonora: Beyond the sea – Rod Stewart.




Links:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

10 Tópicos para entender a China

China, o país das contradições

Um rolezinho no Maglev chinês

O passeio de trem mais legal que já fiz na minha vida foi no Maglev, que parte do Aeroporto de Shanghai e vai até a cidade.

 

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Não foi pela paisagem, nem por passar em lugares exóticos, nada disso. Foi apenas pela tecnologia, o que se pode esperar de um blog nerd como este (vide também, posts sobre a China aqui e aqui).

 
O Maglev é um tipo de trem que levita sobre os trilhos. O conceito básico é muito simples. Um ímã atrai ou repele outro ímã, dependendo da polaridade. O negativo atrai o positivo, os negativos se repelem, assim como os positivos.

 

 

Colocando os ímãs para repelir, e com energia suficiente, é possível fazer um trem inteiro levitar. Sem o atrito com o solo, é possível fazer uma viagem a velocidades extremamente altas, gastando menos energia, com menos ruído e trepidação…

 

 

É claro que um ímã para colar um lembrete na geladeira é uma coisa, um ímã para levitar um trem inteiro, controlar velocidade e trepidação, garantir a segurança das pessoas, é algo extremamente mais caro e difícil.

 

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Viajei de Beijing a Shanghai. Pesquisando sobre como ir do aeroporto de Pudong até a cidade, descobri que tinha um trem Maglev, e fiz questão de pegá-lo.

 

 

E, quando digo que fiz questão de pegá-lo, é isso mesmo. O avião até Shanghai atrasou mais de duas horas. Pousei lá depois das 22h. Saí correndo do terminal até a estação do maglev. Felizmente, não havia fila e foi muito fácil comprar o ticket (50 yuanes, uns 30 reais), e peguei o último maglev do dia, às 22:40h.

 

 

Fiz este vídeo do interior do trem. Ele chega a uma velocidade máxima de 300 km/h. Tem um nível de trepidação mais ou menos parecido com a de um trem comum. O maglev não tem rodas, só os magnetos. Porém, como a plataforma dele é fechada, não dá para ver o mecanismo. Se não dissesse que é um maglev, não dá para distinguir se é ou não, somente do ponto de vista do passageiro.

 

 
Pelas pesquisas que fiz, parece que esta versão de trem consegue chegar até o dobro da velocidade, uns 600 km/h. Porém, não faz sentido chegar a esta velocidade no trecho citado, porque a distância entre o aeroporto e o destino final é muito pequena, apenas 30 km. A viagem como um todo dura 8 minutos.

 

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Detalhe da velocidade máxima

 

É mais ou menos assim: demora uns dois minutos para chegar a 300 km/h, anda uns 4 minutos nesta velocidade, depois começa a desacelerar para chegar ao destino. Nem dá tempo para desfrutar do “voo de cruzeiro”.

 
Outro problema é que o destino final fica numa cidade vizinha à Shanghai (provavelmente porque seria inviável financeiramente cruzar o rio entre as cidades). Tem um ramal do metrô até Shanghai, mas devido ao horário, estava fechado.

 

 

Procurei um táxi. E, quando encontrei o ponto de táxi, descobri que este fechava as 23h, exatamente no momento em que eu tinha chegado! Tive que pegar um transporte meio clandestino, esquisito, onde paguei mais de 100 yuanes, o dobro do preço comum. Seria muito mais simples sair do aeroporto e pegar um táxi direto ao destino, mas o espírito da coisa não era ser turista, e sim explorar a cidade o máximo possível.

 

 

O projeto do maglev de Shanghai como um todo não faz sentido. Um trem convencional talvez não chegue a uma velocidade tão absurda, mas digamos, a 80 km/h, faria o mesmo trecho em 20 e poucos minutos. Doze minutos de diferença. Talvez um trem convencional pudesse chegar direto à cidade de Shanghai e integrar ao espetacular sistema de metrô, o que é muito mais útil do ponto de vista do usuário.

 
Outra pergunta. Se a tecnologia maglev é tão superior assim, porque esta não é mais comum? Na verdade, o custo do CAPEX é monstruoso. Imagine o tanto de energia para levitar um trem. Para isto, deve-se construir uma rede elétrica dedicada, só para começar. Além disso, toda a infraestrutura tem que ser específica para o maglev, porque não dá para aproveitar a estrutura de um trem comum. Outro fator é que, se o trecho for muito curto, como no caso do aeroporto, não vale a pena, e se for muito longo, também não vale a pena, porque um avião vai ser muito mais efetivo. No final das contas, é mais barato e garantido aperfeiçoar o sistema de trems comuns.

 

 

Tanto é que a linha do maglev do aeroporto não dá lucro. Tem que ser subsidiado, para a conta fechar.

 

Mas, de alguma forma, esta tecnologia pode sim ser muito útil em algum momento no futuro.

 

E, já que deu tanto trabalho pegar o maglev, que este vire pelo menos um post divertido!

 

 


 

Links:

 

https://www.railway-technology.com/features/will-maglev-ever-become-mainstream/

https://en.wikipedia.org/wiki/Maglev

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maglev
https://www.travelchinaguide.com/cityguides/shanghai/getting-around.htm

https://www.theguardian.com/technology/2018/may/29/maglev-magnetic-levitation-domestic-travel

Por que o segredo da inovação está no ecossistema?

Já ouvi muitas palestras e discussões argumentando que o ecossistema é o segredo da inovação.

 

Sempre achei que isto fosse bullshit. Ecossistema, como assim? O que tem a ver alhos com bugalhos?

 

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Esta mentalidade mudou depois que fui até a China ver o que rola por ali. Ou, no caso dos meus grandes amigos Weber Pimenta e Felipe Allevato, ir ao Vale do Silício ver o que acontece por lá.

 

E, após várias ponderações, a conclusão é que o segredo da inovação está no…. ecossistema!

 

O ecossistema é o todo, a soma de todas as partes. É muito maior do que um indivíduo ou grupo de indivíduos consegue fazer com sua própria força.

 

A começar pelo capital humano. Além desses lugares terem universidades de ponta (como Stanford nos EUA e Tsinhua na China), as melhores cabeças do mundo migram para lá em busca de oportunidades para escalar o seu negócio.

 

 

É um ciclo virtuoso, a semente cresce melhor numa terra boa, e a terra é boa por ter as melhores sementes.

 

 

Cada nó deste network de excelência faz com que o poder da rede aumente exponencialmente, possibilitando que soluções diferentes se conectem e resolvam problemas cada vez mais difíceis.

 

Outro fator é o capital de risco. No Brasil, cada projeto tem que se pagar, gerar caixa positivo ao fim do pouco tempo de projeto. Em contraste, estes ambientes têm elevado capital de risco de verdade. Eles sabem que 99% dos empreendimentos vão falhar, mas o 1% que der certo vai ser o próximo Facebook ou Google.
É quase uma loteria. Se eu gastar todos os recursos em um bilhete, dificilmente este bilhete vai vingar. Tenho que comprar vários bilhetes, ao longo de muito tempo. Entretanto, o bilhete desta loteria do Venture Capital não custa 1 real como o da Mega Sena, mas sim dezenas de milhões de dólares a cada rodada…
Um terceiro fator é o tempo de retorno. Uma startup pode ficar anos e anos sem ter retorno algum. O objetivo é conseguir o monopólio. Vencer o território dentro da cabeça das pessoas, mostrando que a Amazon é a solução de e-commerce, ou o Google é a solução de buscador – entre dezenas de outras soluções de e-commerce e de buscador. Esta batalha pode facilmente durar 10, 15 anos. No caso de carros autônomos, até mais, a fim de superar os grandes problemas técnicos existentes (lembrando que o primeiro grande evento disto foi o Grande Desafio da DARPA, em 2006).

 

É relativamente fácil ter ideias. Difícil mesmo é fazer a ideia acontecer, e vencer a luta pelo monopólio do posicionamento.

 

Além de tudo isto, há fatores indiretos como a logística, infraestrutura, regulação, burocracia, e até fatores pessoais, como segurança, que ajudam o desempenho do empreendedor.
Sempre achei que eu fazia um bom trabalho, no Brasil. Porém, ao me deparar com a realidade destes lugares, me senti como um micróbio. O que consigo fazer com as minhas próprias forças é muito pouco. Não dá para competir. Não é um único indivíduo, ou uma única empresa, que vai fazer a diferença sozinho. A chave é o ecossistema inteiro, o mindset do lugar, a cultura.

 

 

O pesquisador de inovação Steven Johnson diz que os recifes de corais são o grande exemplo de ecossistema de inovação.
Os corais envolvem dezenas de milhares de formas de vida diferentes. Cada forma de vida modifica o ambiente e possibilita que outras formas de vida surjam, nas suas cascas vazias ou consumindo os seus subprodutos.

A área dos corais ocupa 0,2% do oceano, porém abriga 25% da biodiversidade. É como um oásis no meio do deserto.

Não dá para competir individualmente. A competição tem que ser sistêmica, como um ecossistema competindo com outro. Neste quesito, o Brasil está muito atrás.
O ecossistema brasileiro, ao invés de ajudar, atrapalha. Impostos altos para serviços ineficientes, mentalidade de objetivos a curto prazo, melhores cabeças indo fazer concurso público, infraestrutura pouco funcional, educação de baixo nível, mindset de se dar bem individualmente em detrimento do todo (traduzido na famosa Lei de Gérson), instabilidade jurídica regulatória e até sensação de insegurança são alguns dos pontos a citar.

 

Se isto é uma maratona, o Brasil está uns 10 quilômetros atrás do pessoal de ponta como os EUA, China, Israel. Além disso, enquanto os líderes continuam correndo em alta velocidade, o Brasil está engatinhando, e para trás!

 

 

Acorda, Brasil!

 

Ação: vamos ajudar a construir um ecossistema de excelência?

 

Links:

 

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https://ideiasesquecidas.com/2018/08/01/10-topicos-para-entender-a-china/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/25/algumas-palavras-sobre-inovacao/