Nenhuma lição é para sempre

A frase “Há lições que ficam para sempre” está errada. Não há lições que durem para sempre.

 

 

É exatamente o contrário. Toda solução tem um prazo de validade, por melhor que esta seja.

 

 

Isto ocorre porque o mundo muda. As pessoas mudam. Os processos mudam. As regras do jogo mudam.

 

Além disso, há a entropia.

 

A Segunda Lei da Termodinâmica diz que, num sistema isolado, a entropia tende a aumentar. “Entropia” pode ser entendida por “desordem”.

 

Um “sistema isolado” é um sistema que não recebe nem perde calor.

 

 

Por outro lado, se o sistema não for isolado (ou seja, colocando energia), é possível manter a entropia sob controle.

 
Portanto, é sempre necessário estar aprendendo de novo, ensinando de novo, treinando de novo, de tempos em tempos…

 

 

 

Vide também:

Dinheiro e termodinâmica

Matéria, onda, energia, bola de futebol e prof. Weis

 

 

Que língua estrangeira devo aprender?

Após a série de posts sobre a China, várias pessoas me perguntaram se estudar o mandarim seria uma boa estratégia para a carreira.

 

A resposta é: depende.

 

Há tantas outras línguas estrangeiras a dominar, como o inglês, espanhol, alemão, japonês. O gargalo é o tempo e recursos, não dá para aprender tudo. E o mito de que algumas línguas são mais fáceis do que outras não é verdade. Não é só saber a língua, é entender a cultura, a história e costumes, o que consome muito tempo.

 

Além disso, há outro custo, um custo mais alto do que o dinheiro, que é o custo de oportunidade: poderíamos estar estudando outra coisa mais importante, digamos finanças, projetos, certificações, linguagens de programação, passar mais tempo em casa com a família, etc – tudo concorre com o nosso recurso mais escasso, o tempo.

 
Para ajudar a responder a tal questão, seguem alguns modelos de pensamento.

 

Imagine que temos as habilidade principais (core competence), e todas as habilidades auxiliares (diferenciais).

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O core é aquilo em que somos realmente bons, que gostamos muito, e que têm valor para o mercado.

 

O core tem que ser profundo, focado. O limite é a nossa própria capacidade de tempo, esforço e inteligência.

 

Já as habilidades auxiliares são todas habilidades que ajudam, porém não são essenciais para o nosso core. Seria algo mais amplo e superficial, digamos, saber opinar sobre política e economia geral de determinado assunto.

 
É algo como o modelo atômico, um núcleo duro, pequeno, pesado, e órbitas enormes, dispersas, leves. E, assim como no modelo atômico, podemos ter várias camadas, habilidades diferenciais mais importantes do que outras.

 

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Saber a língua por saber não leva a nada. Há 1,5 bilhões de pessoas que sabem falar mandarim. Já dominar um assunto altamente especializado, digamos novos algoritmos de inteligência artificial, é algo que pouquíssimas pessoas conseguem. Se, além do core em inteligência artificial, soubemos inglês, é um diferencial a mais, esta é a ideia.

 
O inglês é muito mais importante do que o mandarim, no contexto em que vivemos no Brasil. O inglês estaria no nível 1, e o mandarim, no nível 2, ou seja, se você não domina o inglês, deve começar por este. Se já se vira bem em inglês, gosta da cultura chinesa e planeja fazer negócios por lá, aí sim faz sentido pensar no mandarim.

 
Este modelo atômico consiste em preencher as colunas de competências core, auxiliares níveis 1 e 2, e com isto saber identificar gaps e alocar os nossos escassos recursos.

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Outro conceito importante é o de possível adjacente, proposto pelo pesquisador de inovação Stuart Kauffman. Ele estudou toda a história da inovação, e chegou à conclusão de que podemos apenas dar um passo por vez. Tentar dar passos maiores do que a perna não vai dar certo.

 

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Para fechar, uma frase popular que sintetiza o possível adjacente:

“Cabeça nos céus e pés no chão.”

 

 

 

Aforismos diversos – cérebro, felicidade, ser quem somos

Uma coletânea de frases curtas e pensamentos

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Consumo de energia do cérebro. O cérebro humano é extremamente desenvolvido, e isto custa caro. Os 100 bilhões de neurônios gastam 25% das calorias do corpo humano. Isto, com um órgão que pesa 1 quilo e meio, em digamos 70 quilos totais. É como uma fornalha de calorias.
Mas pensar, ler, estudar, usar a cabeça, não gasta mais calorias do que não pensar em nada. Se não fosse assim, Einstein precisaria comer tanto quanto o nadador Michael Phelps.
O uso de energia do cérebro é mais ou menos igual a deixar um carro ligado. Vai consumir gasolina ficando parado ou não.
Portanto, melhor usar este carro para ir para lugares nunca d´antes navegados, do que ficar parado no mesmo lugar observando a paisagem.
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Será só eu que prefiro um dia trabalhando do que um dia na praia?
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Somos feitos de Tempo. Nosso limite para fazer qualquer coisa não é o dinheiro, habilidade física, qualidade de ensino. O limite final é o tempo disponível. Tempo = Vida. Administre bem o seu tempo.
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Ambição infinita
Não fomos feitos para sermos felizes. Fomos programados biologicamente para
querer algo, conseguir e no momento seguinte, querer algo novo. É só pensar em
como seria se fosse o contrário. Uma espécie que se contentasse facilmente
seria rapidamente ultrapassada por outra com ambição infinita.
Portanto, não é um iate, uma casa na praia ou uma viagem à França no futuro que vai nos fazer mais felizes.
O único jeito de ser feliz é ser feliz hoje, agora, com o que temos e com a vida que levamos.
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Odeio questoes do tipo “a internet emburrece, sim ou não?”. Porque é um tipo de questão que leva a nada. A internet é uma ferramenta extremamente poderosa.
Assim como toda ferramenta, pode ser bem utilizada ou não. Quem souber utilizar o seu poder para se aperfeiçoar acima da média vai levar vantagem.
Quem ficar o dia inteiro jogando, chateando e entrando em discussões fúteis, vai emburrecer.
Na média, talvez emburreça, talvez não. Mas a média não interessa. A média não serve para coisa alguma. O que interessa é o que cada indivíduo faz. E espero
que os indivíduos aproveitem este nível de conexão sem precedentes na história para criar aplicações também sem precedentes na história.
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Dinossauros são sinônimos de algo velho, ultrapassado, extinto há muito tempo. Entretanto, os dinossauros dominaram a Terra por 150 milhões de anos! O Homo sapiens existe há menos de 500 mil anos. Muito improvável que a nossa espécie consiga sobreviver por tantos milhões de anos assim. Não temos moral de dizer que os dinossauros foram um fracasso.
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Seja como Elon Musk. Ou não? Vi um anúncio assim:
“Elon fundou o PayPal porque queria fazer transações e não tinha como,
Anos depois não estava contente com as missões espaciais e fundou o Space X, depois o Solar City e a Tesla.
Seja como Elon.”
Discordo. Seja quem você é. O pior erro que podemos cometer é querer sem quem
não somos. Ou, como diria Nietzsche: Torne-se aquilo que você é.
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Xixi nas calças e o tempo presente

Sendo pai de três crianças, consigo fazer algumas afirmações por experiência própria.

Logo depois que a criança desfralda, ela não sabe a hora de fazer xixi. Você pergunta: quer fazer xixi? Ela responde: Não. Cinco minutos depois, ela sai correndo: xixi! xixi! E acaba fazendo nas calças.

E o pai fica pensando: porque ela não fez xixi quando eu pedi? A resposta é que, na hora, ela não queria, mas cinco minutos depois, sim.

Alguns meses mais velha, ela consegue antecipar que vai precisar fazer xixi no futuro.

 

Quanto mais nenê, mais a pessoa vive no presente. O passado não interessa, e o futuro não existe. Quanto mais velha, mais ela consegue perceber o tempo.

À medida que envelhecemos, ocorre o inverso. Damos mais valor ao passado em que bons momentos ocorreram, e mais antecipamos o futuro que vai ocorrer.

Viver no futuro causa ansiedade, e viver no passado causa depressão… que tal voltar a ser criança, e viver no presente? Mas sem xixi nas calças, claro.

 

 

 

Os juros compostos são mais poderosos do que o VPL

Plantar x Colher

Existe uma assimetria importante entre plantar e colher. E o que está no meio da assimetria é um fator extremamente pesado, que se chama Tempo.

Esta semana, eu e equipe envolvida estamos completando um trabalho muito importante. Mas este trabalho não começou ontem. Começou há mais de dois anos atrás, na forma de uma ideia amplamente debatida. Esta ideia gerou os primeiros passos, que envolviam obter e tratar dados. Este primeiro passo sozinho consumiu mais de 6 meses de trabalho só para deixar tudo corretamente encaminhado.

Um segundo passo foi a criação de um protótipo que fizesse exatamente o que a gente queria. E lá se foram mais alguns meses desenvolvendo, e outros tantos testando. Por fim, finalmente traduzir este trabalho para uma plataforma mais completa, final, que envolveu outros tantos meses pensando, trabalhando, aperfeiçoando.

As pessoas chegam e saem no meio do caminho. E, quem não sabe, pode dar o crédito somente ao elo final do trabalho. Mas, para tal elo final existir, foram necessários muitos elos básicos, desde o início até o fim.

Pode-se vender a mesma ideia para duas pessoas, mas ter resultados completamente diferentes no final das contas. As coisas que dão certo, não são por acaso. Não se pode olhar apenas para o resultado final.

 


 

O EBITDA trimestral

O mundo está cada vez ficando imediatista. Mede-se o desempenho do presidente de uma empresa pelo EBITDA trimestral, da mesma forma que se mede um técnico de futebol pelo placar da rodada: se perder três jogos seguidos, troca-se o técnico. Desta forma, contanto que o EBITDA continue bom, tudo está correndo bem, mesmo que uma empresa mal intencionada esteja empurrando para debaixo do tapete uma bola de neve de adversidades que vão cobrar o seu preço num futuro não tão distante.

O grande problema do tempo é que quem planta não é necessariamente quem colhe. Aliás, os melhores investimentos são os de longo prazo, onde certamente quem colhe não é o mesmo que plantou.

O Brasil de Lula colheu os resultados do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, que domou o dragão da hiperinflação e finalmente colocou o país no rumo que ele merece trilhar. O Brasil de hoje, que quase saiu dos eixos, é fruto de 13 anos de políticas populistas, imediatistas e sem fundamento. Neste exato momento, estamos novamente entrando nos eixos, aos poucos, com um gestão muito mais responsável.

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O ser humano tem extrema dificuldade de conviver com o tempo. Nós valorizamos muito mais o presente do que o futuro. Isto é bastante justificável, uma vez que não existe o longo prazo para quem não sobreviver ao curto prazo. O homem de neandertal precisava comer hoje, ao invés de guardar para um inseguro amanhã. Quem garantiria que o neandertal iria sobreviver para viver o amanhã? E quem garantiria que um lobo não acharia a refeição escondida? Quanto mais incerto o futuro, mais valor tem o presente.

O economista John Keynes diria que, a longo prazo, todos nós estaremos mortos.

 


VPL

A ferramenta matemática que comprova o poder do tempo presente é o tal do Valor Presente Líquido. Uma maçã hoje vale muito mais do que uma maçã amanhã. Tanto maior a taxa de desconto, mais vale o presente ao futuro.

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Quanto maior a inflação, menos consigo saber o valor do dinheiro no futuro, portanto mais ênfase no agora. Quanto mais violenta a sociedade, menos ênfase no futuro – para que investir em estudos e num trabalho honesto, se tudo pode acabar de uma hora para outra? Melhor desfrutar do presente.

Mas o VPL não mede tudo. E o prazo de tempo além do VPL? E todo o resto que não está na conta?


 

Juros Compostos

Foi justamente a capacidade do ser humano de conseguir planejar o futuro que fez dele o que é hoje. A capacidade de poupar em tempos bons para sobreviver a tempos adversos, a capacidade de se sacrificar no presente para obter quantidades muito maiores no futuro. Estudar hoje para agregar mais valor amanhã. Um trabalho honesto e compassado ao invés de um atalho perigoso e incerto. Investir em tecnologia, sofrer um bocado por um tempo, para obter resultados muito melhores. Plantar hoje para colher amanhã.

Em contraponto ao pobre do VPL, a ferramenta que demonstra o poder do longo prazo são os Juros Compostos. Novamente, o Tempo, aquele elemento tão difícil de domar.
Os juros compostos dão retorno exponencial. Um pouquinho melhor hoje, um pouquinho melhor amanhã, passos pouco perceptíveis. Depois de um tempo, teremos um resultado centenas de vezes melhor do que aquele que ficou parado.

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Admiro muito a filosofia oriental, japonesa e chinesa, de dar muita importância ao longo prazo. Eles preferem uma solução que dê resultados melhores no futuro, mesmo sendo mais cara hoje. Eles não se importam com perdas pequenas, contanto que isto esteja alinhado com o objetivo final de longo prazo da empreitada.

Segue um pequeno texto de Akio Morita, fundador da Sony, sobre o tema Longo Prazo.

Espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

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Os juros compostos são tão poderosos que sobrepujam a condição inicial, dado tempo suficiente. Um burro esforçado pode se dar muito melhor do que alguém inteligente, mas preguiçoso.

Keynes está muito errado. O longo prazo inevitavelmente chega. No longo prazo, nossos filhos colherão os frutos que estamos plantando hoje.

Resumo em uma fórmula:

1,01^100 >>>  0,99 ^100

 

Resumo em uma frase:

Os juros compostos são a força mais poderosa do universo – Albert Einstein.

Por que um crime prescreve?

Em 2010, Paulo Maluf livrou-se de uma acusação de superfaturamento de obras durante a sua gestão na prefeitura de São Paulo, em 1996. Crimes desta natureza prescrevem em 12 anos.
 
Diante de um fato desses, vem a pergunta. O que é a prescrição? Por que ela existe?

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Um crime prescreve quando passa muito tempo para se julgar e condenar o criminoso, tanto tempo que o Estado não pode mais punir o mesmo pelo crime.
 

Ocorre no Brasil o sentimento de que a prescrição do crime é algo injusto. Realmente, casos como o ilustrado são lamentáveis.
 

Mas será que a prescrição é algo ruim na sua essência?

 
Este é um tema polêmico, e não manjo absolutamente nada da parte jurídica. A minha análise aqui é quanto à parte humana do tema, e especialmente no que se refere ao Tempo, este ente tão poderoso que influencia a todos nós, como o Cronos que devora seus filhos.

 


 

Presente, passado e futuro

O que é mais importante, o presente, o passado ou o futuro?
 

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É claro que está tudo interligado. Não dá para esquecer o passado nem ignorar o planejamento do futuro. Mas arrisco a dizer que o presente é o mais importante, simplesmente porque só podemos viver em um desses três tempos: o presente. O que fazemos no presente vira o passado. O futuro é construído a partir das ações do presente.

 
E coisas que aconteceram há muito no passado vão perdendo a importância. Imagine um fato que ocorreu há 80 anos. Seja lá o que ocorreu, passaram-se tantas coisas desde então que a influência deste diluiu-se com outros fatos.

 
Além disto, entre o passado e o futuro, prefiro focar no futuro. O passado já ocorreu e não pode mais ser mudado, mas o futuro, sim.

 

Em termos puramente econômicos e práticos, chega uma hora em que o esforço de manter o aparato jurídico do Estado ativo para um tema sai mais caro do que o efeito benéfico da punição do infrator.


Se é para ter um julgamento e uma punição, que isto seja logo, e não depois – a lei beneficia quem corre atrás, em detrimento daquele que espera demais para tomar uma ação.


A prescrição também é um instrumento que obriga as pessoas a colocarem uma pedra no passado e enterrar de vez o que ocorreu há muito tempo atrás. É um instrumento de esquecimento, que pode ser prejudicial a um indivíduo particular, mas é necessário à sociedade como um todo. Porque uma sociedade tem que olhar para frente, não pode ficar travada discutindo coisas que ocorreram no tempo de nossos avós.
 

Uma vez vi um filme, em que duas famílias russas estavam brigando, havia gerações. Uma família fazia alguma coisa, a outra retaliava alguns anos depois, e assim sucessivamente, por décadas. Chegou uma hora que eles se odiavam sem nem saber porque. Aí, um deles se cansou e disse. Chega, cansei disto. Eu perdi. A minha família vai se mudar. Pode me matar, e estamos quites. O outro pensou, e respondeu: ok, eu venci. Mas não vou te matar. Vou perdoar tudo o que aconteceu, e se você perdoar também, podemos recomeçar do zero. Quem sabe assim os nossos filhos possam viver em paz.


 

O terceiro item bom da prescrição é que o indivíduo infrator não pode ficar para sempre com uma “espada de Dâmocles” na cabeça. Um dia, ele tem que ficar livre do peso da vigilância do Estado. Se não houve capacidade de julgá-lo e condená-lo até hoje, seria uma espécie de prisão perpétua o sujeito viver esperando por uma condenação de seus erros.


 

Tribunais de fantasmas

 
Imagine um mundo em que a prescrição não existisse. Os tribunais de hoje poderiam estar abarrotados de julgamentos de fantasmas do passado, prejudicando os casos do presente.
 

Imagine que ainda estivéssemos julgando o caso do bandido da luz vermelha, de 50 anos atrás. O mesmo até já morreu, mas imagine que alguma de suas vítimas poderia ter aberto um processo contra o Estado por negligência, por exemplo. Seria um caso absolutamente legítimo, se o passado tivesse o mesmo peso do presente. Este caso fantasma estaria tomando tempo do judiciário, que poderia estar julgando casos do presente.

 
Outro problema. O direito é algo vivo, sujeito a interpretações que dependem da sociedade, e que dependem da época. Seria justo condenar alguém com o direito de hoje, sendo que este deveria ser sido julgado com o direito de 50 anos atrás?


 

Problemas e distorções

Especialmente no Brasil, parece que há crimes que prescrevem depressa demais, dando a impressão de impunidade.

E há outros crimes que não prescrevem, como os de racismo e crimes contra a humanidade.

 
O problema das prescrições não é o conceito, e sim a aplicação deles. O tempo de prescrição curto demais para alguns casos, e a demora do judiciário, tudo isto causa a sensação de injustiça na sociedade.

 
E talvez a não-prescrição seja pior que a prescrição. Há partidos políticos movidos por ideologia que querem reescrever o passado. Eles querem reabrir e reinterpretar casos há muito esquecidos, alegando que há crimes que não prescrevem, e assim reinterpretar a história.


 

Prescrição não é perdão.
 

Quando um crime prescreve, não quer dizer que o infrator é perdoado, e sim, que o Estado não tem mais instrumentos legais para puni-lo.
 


 

Aplicação prática

Normalmente, estamos muito longe do meio jurídico. Mas podemos aplicar a prescrição às nossas vidas comuns. E de duas formas:
 

1 – Com relação aos outros: Que tal perdoar (prescrição não é perdão no meio jurídico, mas que tal pensar como perdão no meio pessoal?) pessoas com quem você esteve chateado há um bom tempo atrás? Que tal recomeçar do zero algumas coisas, zerando dívidas e esquecendo ofensas?
 

2 – Com relação à si mesmo: Que tal perdoar alguns erros que você cometeu no passado? Muita gente fica se remoendo por erros cometidos. E alguns erros podem travar o futuro, como um processo antigo que não acaba, uma ferida que não sara. Que tal deixar esses erros prescreverem? Que tal mudar o comportamento e partir para construir o futuro, começando hoje, começando agora?

 

Arnaldo Gunzi
Out 2015

 


Notas:
Outros posts sobre Tempo.
https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2015/06/28/seja-pleno-em-tudo-o-que-fizer-mesmo-com-multas-de-transito/

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2015/02/15/pouco-tempo-a-solucao-e-ter-menos-tempo-ainda/

Maluf :
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=160942

Espada de Dâmocles:
http://direitopenal.awardspace.com/ed.htm

 

Cronos: Cronos (o Tempo) era um titã que foi o pai de vários deuses gregos. Mas, temendo ser destronado por um de seus filhos, ele os devorava um a um. É uma metáfora do Tempo que cria e destrói a todos.

 

 

 

 

Seja pleno em tudo o que fizer, mesmo com multas de trânsito

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Há uns 10 anos, li uma frase de um chinês chamado Er Hu, que dizia “Seja pleno em tudo o que fizer. Se é para guerrear, destrua o adversário, se é para amar, o faça com toda a intensidade”. Achei esta frase um tanto poderosa, mas logo a ignorei por ser absorvido pela difícil tarefa de sobreviver ao dia-a-dia.

 
Esta ideia de viver plenamente o agora lembra o Carpe Diem, lema de alguma escola de filosofia. Mas, para mim, até então era mais uma ideia, apenas outra teoria filosófica que não servia para nada. Nunca tinha tentado viver desta forma.
 


 

Isto até o dia em que tive uma aula, com o prof. Carlos Viveiro. Este me passou um conceito e uma tarefa.

 
O conceito é que viver o presente é extremamente difícil.

 
1. O presente é o aqui e o agora. Não é o futuro, não é o passado. Não é antecipar sofrimento ou felicidade. Não é reviver bons momentos ou lamentar maus momentos. Não é pensar no que poderia ter sido ou o que vai ser, e sim, no que sou e estou agora. Ser feliz agora.
 

2. Se o presente é o mais importante, a pessoa com quem eu estiver falando agora é a mais importante do meu mundo atual. Seja quem for, só consigo afetar a pessoa com quem eu consigo me comunicar agora,
 

3. Se consigo apenas influenciar quem está a minha frente e agora, o meu objetivo sempre deve ser fazê-la mais feliz.

 
Pode parecer simples, mas quantas vezes nos vemos conversando com a esposa/ marido/pai/mãe sem dar a menor atenção verdadeira?


 
Depois da aula, dediquei-me plenamente à minha família (enquanto tive energia). Embora ninguém tenha percebido nenhuma grande diferença, por dentro eu estava muito feliz de finalmente seguir o conselho de Er Hu.

 
No dia seguinte, peguei o carro para o trabalho. Peguei um caminho diferente porque fazia tempo que não ia por este, e fui mudando a estação de rádio. Ouvi uma música bonita, que fazia anos que não escutava. “I’m not in love”, dos Pretenders. Prestei plena atenção na música, e me deliciei com cada segundo dela, como nunca antes eu fizera, ignorando a batalha do trânsito.
 

O restante do dia também foi neste ritmo.
 

Mais um menos umas 16h, percebi que era o dia do rodízio do carro. E que eu tinha andado pela cidade de SP no horário do rodízio, e que o caminho que eu fizera tinha um radar chato que com certeza me pegou. Esta é a primeira vez na vida que simplesmente esqueço do rodízio – normalmente sou tenso demais para esquecer disto.

 
Fiquei chateado? Não. Desfrutar de verdade da companhia de pessoas queridas, admirar a beleza de um passeio de carro sem o stress do trânsito e ouvir a uma boa música com o coração valem muito mais do que qualquer multa pode valer.


 
Dois exercícios:
a) Apenas escute a música, com plena atenção. É a ilustração do quanto pode-se fazer em 1 segundo.

b) Escolha uma pessoa, hoje, e dedique-se plenamente a ela (e comente o resultado aqui no blog, é claro).
 

Arnaldo Gunzi
Jun 2015


 
Link do Prof Carlos Viveiro:
http://www.negociarte.com.br/