George Soros e o seu verdadeiro método

Redesigning the International Monetary System: A Davos Debate: George Soros
George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos. Ficou famoso após ganhar 1 bilhão de dólares em um dia, em um ataque especulativo contra a libra esterlina.
Há dezenas de livros sobre ele, e milhares de páginas na internet a seu respeito. Ele mesmo tem um site, onde conta algumas de suas ideias e opiniões.
Ele mesmo diz que queria ser filósofo, mas não foi bem sucedido. Ninguém levou a sério suas ideias.  Conta que saiu em busca da verdade e encontrou o dinheiro.
Mas qual o seu verdadeiro método de atuar?
A resposta: ninguém sabe.

Nessas dezenas de livros e sites, sua principal (e única) ideia é uma tal de Reflexividade do mundo.
Imagine que o mundo está funcionando atualmente. Os atores que compõe o mundo não apenas observam o mundo, mas o comportamento desses atores mudam o jeito do mundo funcionar, afetando os fundamentos do mundo.
Então, se todo mundo acha que a Vale vai ficar ruim, a Vale realmente fica ruim, seja por conta de baixa produtividade, baixa de preços do minério, etc. Note que a teoria dele não diz que o preço na bolsa vai cair, e sim que os fundamentos vão ficar ruins, e por isso o preço vai cair.
E é só isso. Sua única grande ideia filosófica é esta. Todo o resto das ideias é recorrente a esta primeira ideia, ou é apenas opinião e blá blá infinito. São 2 páginas para colocar a ideia principal e 200 de lero-lero.  Lembre-se do lado filósofo dele, muito discurso com pouca aplicabilidade.
A ideia central de Soros é tão geral, e de certa forma tão óbvia, que é até decepcionante. É por isso que nenhum filósofo o leva a sério, não há nada novo ou diferente nessas ideias.

O Soros paradoxal
Mas o parágrafo acima não que dizer que filosofia de Soros não sirva para nada. Há muito a aprender com ele.
Nassim Taleb, em Fooled by Randomness, descreve Soros como um homem paradoxal, cheio de ideias e atitudes contraditórias.
Um vez, Soros estava jogando tênis com um amigo, e contou porque achava que haveria uma grande queda na bolsa de Nova Iorque na semana seguinte. Ele citou argumentos detalhados, com muitos raciocínios abstratos que o amigo não conseguiu entender.
Na semana seguinte, a bolsa subiu fortemente. No outro domingo do tênis, o amigo perguntou se a subida da bolsa o tinha afetado. Soros respondeu: “Fiz uma grana alta. Estava desconfortável com a posição que tinha assumido. Mudei de ideia”.
Soros é capaz de colocar uma grande verba sob responsabilidade de alguém e na semana seguinte simplesmente abortar a ideia. Tomar um posição extremamente crítica para depois apoiar veementemente.
Algumas de suas ideias têm viés socialista, o que é totalmente contraditório com alguém que pode ser descrito como o maior tubarão do capitalismo selvagem.

Conclusão
No final das contas, ninguém sabe o método verdadeiro de Soros, mas há algumas lições a extrair:
1 – Ele estuda muito aquilo que é do seu interesse, e embora a decisão seja meio técnica meio feeling, com certeza o inconsciente dele absorveu todo este conhecimento.
2 – Ele realmente acredita na ideia de Reflexividade, no sentido de que ele pode ajudar a mudar o mundo, e ele pode ganhar no mercado. Por isso, Quando é para ganhar dinheiro, ele joga para ganhar, quando é para falar de coisas como política, ele quer ajudar a mudar o mundo para melhor,  e não ficar falando o que todo mundo já sabe.
3 – Soros não teme tentar um monte de coisas. Se depois que ele tentar, ele acha que está errado, muda de ideia e ponto final. Nisto, ele é diferente de 99,9% das pessoas do mundo, que por teimosia, vaidade, ou só para não perder uma discussão, não querem mudar de ideia. No mundo financeiro, mudar de ideia significa perder o investimento que foi feito. Soros não teme aplicar o stop loss, perder alguns milhões para estancar um sangramento de dezenas de milhões, abortar uma ideia que deu errado para investir em outra que pode dar certo. Visto de fora é paradoxal, mas Soros não está nem aí para a sua ou para a minha opinião.

Epílogo: uma vez comprei um carro, e passado alguns meses, vi que ele não era tão legal assim. Mas, como tinha feito um certo investimento, continuei teimando em utiliza-lo. O resultado foi que este carro continuou dando dor de cabeça, e quanto mais eu colocava dinheiro e tempo nele, mais difícil ficava trocar. Fiquei quatro anos com este.
Fosse eu um Soros, teria trocado logo no terceiro mês, assumindo um prejuízo imediato, mas evitando um prejuízo maior ainda no longo prazo.
Perdeu valor, parte para outra.
Arnaldo Gunzi
Fev 2015

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