Ray Dalio na Expert XP

Ray Dalio, o “Steve Jobs” dos investimentos, apresentou suas ideias na Expert XP 2020. Foi a palestra mais esperada, do gestor do maior fundo de investimentos do mundo, a Bridgewater.

O ciclo do endividamento e a expansão monetária

O primeiro gráfico é o do débito do setor privado.

O segundo, é a taxa de juros americana (azul) e a base monetária (vermelho).

Alto endividamento, taxas de juros próximas a zero e base monetária crescendo – com picos na crise de 1929 e na de 2008.

Atualmente (2020), grande queda no PIB devido ao Covid. A resposta é a expansão monetária: impressão de dinheiro, redistribuição de ativos e falências.

Dinheiro em caixa é o pior ativo. Parece seguro por não parecer ter volatidade, mas é sujeita à inflação e não se multiplica como ações de boas companhias.

Pergunta sobre ouro e imóveis como diversificação. Dalio: Ouro sim, imóveis não. Ouro porque já foi a própria definição de dinheiro, e tem a escassez garantida por natureza. Imóveis não são transportáveis de um lugar para outro.

Disparidade econômica e divisão política

O segundo gráfico mostra efeitos da expansão monetária. Os 10% mais ricos concentram cada vez mais dinheiro, e os últimos 90% empobrecem. A disparidade é a maior desde 1930.

O efeito da distorção é uma grande insatisfação social, traduzida em votos para governos populistas.

Outra consequência é a divisão ideológica entre democratas e republicanos. O gráfico mostra o voto segundo a orientação do partido, e temos a maior disparidade desde 1900.

O dólar é moeda de reserva do mundo. Os EUA têm um grande poder e um grande privilégio, e estão abusando de seu status, com a impressão de dinheiro e um déficit gigantesco.

Sobre outras moedas que não o dólar: moedas locais só tem poder de compra local e estão sujeitas a medidas monetárias locais. Dinheiro local não tem o mesmo poder do dólar.

Ascensão de outra potência: China

O gráfico abaixo mostra um comparativo de grandes potências no tempo.

A China está subindo e quase numa posição de igualdade.

Os EUA ainda têm tecnologia superior. A China vem investindo pesado em tecnologia, para ficar em pé de igualdade.

Como será o equilíbrio do mundo? Dalio aponta conflito em 4 frentes: comércio, tecnologia, geopolítica e capital.

Ele também lembra que a China tem uma reserva de trilhões de dólares e os EUA, uma montanha de déficit.

Diversificação

 O Santo Graal dos investimentos é a diversificação em bons ativos.

Tenha 10, 15 ações de empresas boas (e outros ativos) descorrelacionadas.

O gráfico mostra a volatilidade da carteira para cada curva de correlação. Com zero correlação, há a menor volatilidade.

Em crises, o dinheiro não some, ele apenas se redistribui.

Um bom ativo deve transcender fronteiras nacionais e ter fluxos de caixa estáveis.

Conselho para os jovens:

 Sucesso = Sonho + Realidade + Determinação

Os 5 passos de Dalio para o sucesso:

– Saiba o seu objetivo,

– Problemas: no caminho, surgirão problemas. Abrace os problemas, aprenda com as falhas,

– Diagnóstico: encontre a causa raiz dos erros, de forma sincera. Pode ser uma fraqueza sua. Encare a realidade. Trace um plano,

– Faça o que você disse que faria, sem auto indulgência. Trabalho em equipe vai compensar as fraquezas,

– Faça do seu trabalho e da sua paixão a mesma coisa.

Não trabalhe por dinheiro. Não faça do dinheiro o seu objetivo. Não faça disso uma obsessão.

Ame o seu trabalho. Ame a sua vida.


Veja também:

Resumo dos Princípios de Ray Dalio https://www.youtube.com/channel/UCqvaXJ1K3HheTPNjH-KpwXQ

https://ideiasesquecidas.com/2020/02/29/como-ficar-rico-sem-ter-sorte/

https://ideiasesquecidas.com/2019/11/19/os-principios-de-ray-dalio/

Seria possível eliminar os ideogramas na China e no Japão?

(Baseado numa conversa com o Marcos Melo e depois de anos estudando essas línguas)

As línguas japonesa e chinesa são famosas pelos complicados ideogramas utilizados.

Na China, são chamados Hanzi:

English translation of 中国 ( Zhongguo / Zhōngguó ) - China in Chinese

No Japão, são chamados Kanji.

Japan | kanji symbol

Uma explicação para o surgimento desses ideogramas é que evoluíram da padronização de desenhos.

Digamos, este é o ideograma de rio:

River | kanji symbol

Este é de montanha:

The Kanji Symbol for Mounain

São formas que lembram vagamente o desenho dos substantivos em questão.

🎓 The Origin of Japanese Kanji : Awesome Conversation Topics and ...

Ideogramas de montanha, rio, árvore e Sol, na ordem.

Entretanto, nem todos os ideogramas são assim tão fáceis.

As ideias mais abstratas são montadas sobre composições de ideogramas simples. Por exemplo, amor, é um desenho composto que não remete diretamente a um desenho de um coração.

Matriz de bordado - Amor- Kanji no Elo7 | Rei Sol Bordados (AE7483)

O problema é que o número desses ideogramas é de enlouquecer. Na China, são uns 15 mil ideogramas, e no Japão, no mínimo uns 5 mil.

No ocidente, o alfabeto tem 26 letras. Faz uma diferença absurda. Em poucos meses, é possível alfabetizar uma pessoa no ocidente, já nos países citados, são necessários anos a fio decorando e utilizando os ideogramas.

A pergunta: é possível eliminar os ideogramas, utilizando apenas o alfabeto ocidental ou alguma alternativa simples?

Uma primeira resposta é que sim, há simplificações desses ideogramas hard.

Em japonês, há o hiragana e o katakana.

As diferenças entre Hiragana, Katakana, Kanji

Em chinês, a versão soft é o pin yin, ou seja, utilizar o alfabeto ocidental para descrever o fonema. 

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Um dos problemas é que a versão soft, digamos 100% pin yin, causa infinita ambiguidade.

O chinês é muito compacto, com poucas palavras dizendo muito. 

Ma pode significar mãe, cavalo, interrogação e mais uns 10 significados. A pronúncia diferencia alguns desses significados, porém, mesmo para a mesma pronúncia, há vários significados.

E é igual para vários outros hanzi. Tipo, shi, tem uns 20 hanzi para a mesma pronúncia. 

Na linguagem falada, o ser humano dá um jeito de se entender. Na língua escrita, não.

Imagine que usar hanzi é uma visão em 3d do mundo. Quando você usa 100% pin yin, você vê apenas uma dimensão. Há perda de informação.

Ou você reestrutura a língua inteira ou utiliza hanzi. Seria catastrófico simplesmente abolir o hanzi.

O kanji segue a mesma lógica – os kanji dizem infinitamente mais do que os hiragana e katakana sozinhos.

Uma historinha. Quando eu era criança, vi em algum lugar a palavra “Shinobi”. Perguntei para o meu pai, fluente em japonês, o que significava “Shinobi”. Ele respondeu: “não sei, tem que olhar o kanji”. Eu não entendi nada, porque no alfabeto ocidental, toda a informação está contida dentro da própria palavra. A explicação foi dada acima: “shinobi” sozinho pode ter inúmeros significados.


Escrever em ossos e concisão da linguagem

Não dá para entender essa explicação pelos parâmetros ocidentais que temos. Temos que entender todo o contexto. Por exemplo, a língua é compacta exatamente por ser difícil de escrever.

Os hanzi são todos curtos, monossilábicos: shi, ma, er, yi, e assim por diante.

Chinese Characters, Oracle Bones, and Calligraphy · Writing ...

A civilização chinesa é antiga. Imagine escrever um hanzi num pedaço de osso, numa pedra ou num casco de tartaruga, por exemplo. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, foi escrita em tiras de bambu, depois costuradas para formar um livro.

A bamboo version of 'The Art of War' (composed late 6th century ...

Portanto, não dava para ser prolixo. Um único caractere é difícil de escrever e tem que transmitir a maior quantidade de informação possível. Já na língua ocidental, como é barato escrever os caracteres, é mais barato escrever palavras como “interessantissimamente”. 

(O Marcos Melo contesta essa versão. A língua falada vem antes da escrita, e é a escrita que se adapta. Talvez seja uma convergência dessas duas coisas.)

O caso do Japão é muito mais evidente. A linguagem oral veio desde a origem das pessoas, e os ideogramas foram copiados da China muito tempo depois (uns 500 dC). Por isso, cada kanji tem duas ou mais pronúncias: a pronúncia japonesa original, a pronúncia chinesa, e pronúncias alternativas – e o hiragana e katakana complementam tempos verbais, sufixos, etc…

Japanese Calligraphy Of Tonkatsu Stock Illustration - Illustration ...

Um exemplo. O kanji acima, de “carne de porco”, pode ser lido como “ton” (tonkatsu). Mas também pode ser lido como “buta” (porco).

Das digressões acima, o que realmente aconteceu de verdade não sei e provavelmente nunca saberemos.

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/07/27/recomendacoes-de-livros-sobre-a-cultura-e-historia-da-china/

https://ideiasesquecidas.com/2015/10/31/os-japoneses-originais/

Macarrão com feijão

Xiaomi – a Apple chinesa

Uma fila imensa, dobrando o quarteirão, aguardando o lançamento de um produto de alta qualidade. Um público fiel, amante de tecnologia. Um produto com bela interface e ótimo desempenho.

Estamos falando da Apple?

Poderia ser, mas, no caso, é a Xiaomi, fabricante chinesa de celulares e outros produtos de tecnologia.

Talvez ela seja mais parecida com a Sony. Nos anos 60, o Japão era considerado um mero copiador barato dos originais americanos. A empresa de Akio Morita foi uma das primeiras a querer mudar isto, e o seu produto mais notável foi o walkman – na qual eles usaram o recém-criado transístor numa aplicação que nem os seus inventores tinham sonhado em fazer.

A Xiaomi também se espelha na Amazon. Pontos: enorme eficiência em custos e foco no cliente, para fornecer produtos a preços competitivos e com qualidade.

A Xiaomi foi fundada em 2010, por um grupo de pessoas que já tinha grande experiência na indústria de eletrônicos. Ela começou como uma empresa de software, apenas criando versões personalizadas e melhoradas do Android. Uma característica forte da empresa sempre foi interagir e ouvir muito o cliente, em especial os early adopters viciados no produto.

Logo, eles passaram a concorrer também no difícil mercado de hardware, contra dezenas de outros fabricantes.

Uma característica é que a Xiaomi não tem um produto altamente inovador, que muda o mercado em pouco tempo. Ela tem uma evolução contínua forte, que leva a um produto final de alta performance, user-friendly e com custo competitivo, passo-a-passo, gradualmente.

A loja da Xiaomi, no Shopping Ibirapuera em SP, tem de tudo: luzes inteligente, abajures, sensores de abertura de portas e janelas, speakers bluetooth, mochilas, squeeze de água, escova de dentes elétrica, guarda-chuva, patinete elétrico e até pote dobrável de água para cachorro!

Balança de bioimpedância da Xiaomi: mede peso e estima gordura visceral e idade óssea.

Quem compraria um guarda-chuva só porque é da Xiaomi? Os fãs da marca!

Ouvi um deles dizendo, espontaneamente: “a Xiaomi só faz coisa boa”.

A contar por essa paixão dos fãs, a Xiaomi tem tudo para ser a Apple da China.

Nota: Eu comprei um cubo mágico Xiaomi. Esta tem um clique viciante ao girar. É quase terapêutico. Nunca pensei que alguém fosse inovar num cubo mágico!

Links:

Sobre a Sony: https://ideiasesquecidas.com/2017/03/18/muro-de-tijolos-x-muro-de-pedras/

https://olhardigital.com.br/noticia/confira-os-produtos-mais-curiosos-a-venda-na-loja-da-xiaomi-no-brasil-atualizado/86419

Recomendação: AI Superpowers

Uma recomendação de leitura é o livro “AI Superpowers”, de Kai Fu Lee. É um livro que fala de tecnologia e negócios, como muitos outros, porém, este é diferente. Primeiro, pela perspectiva. Kai é taiwanês e trabalhou muitos anos com inteligência artificial, principalmente na China. E, segundo, porque ele enfatiza bastante o lado humano, além do tradicional AI-resolve-tudo.

A carreira de Kai-Fu começa como pesquisador, passa por responsável pela operação chinesa da Microsoft, até os dias atuais, em que é gestor de um fundo de tecnologia chinês.

Espírito empreendedor

Uma dificuldade das startups era fomentar o espírito empreendedor. Na China, desde tempos antigos o melhor trabalho era ser servidor público. Passar em algum concurso e viver para sempre sem grandes preocupações, num país onde a grande maioria veio de um passado muito sofrido.

Como convencer jovens chineses brilhantes a preferirem uma startup a um concurso público? Kai conta que visitou vários pais e mães, levou para jantares e demonstrações da empresa, a fim de explicar a lógica dos novos tempos. Era um trabalho ladeira acima.

A ascensão de Jack Ma e o AliBaba foram dois fatores que ajudaram, no quesito mudar a cabeça milenar das pessoas. Jack Ma é uma pessoa de origem humilde, sem formação, e com muito carisma. Mirando-se em Jack, muitos jovens viram que existia um caminho alternativo ao concurso público.

Ambiente regulatório

A China pode ser um ambiente ideal para o desenvolvimento de algumas novas tecnologias, como o carro autônomo. Este é um caso específico em que o ambiente regulatório conta muito. Nos EUA, por exemplo, podem surgir regulações impedindo carros autônomos. Ou, imagine a repercussão, no caso de acidente! Já na China, pela força maciça do Estado, os carros autônomos provavelmente teriam menos interferência.

Abordagem das empresas

Duas formas de uma startup abordar a AI. Uma, é tentar abordar o problema genericamente, sem se especializar em alguma área. Algo como um power grid, e tal qual a analogia, a empresa tem que ser grande e pesada para suportar uma abordagem dessas. A segunda é algo como carregar baterias. Seriam empresas para resolver um problema específico (digamos, reconhecimento de imagens no agronegócio), e seriam mais leves, por serem focadas.

IA geral e empregos

A inteligência artificial geral, aquela dos filmes de ficção onde os robôs tomam conta do mundo, está longe de se tornar realidade. Por enquanto, temos algumas aplicações específicas.

E, mesmo quando a AI geral começar a ficar mais próxima da realidade, o problema real não será o mundo ser destruído e a humanidade, escravizada. O problema real será a diminuição dos empregos.

Kai Fu cita outros autores, como o israelense Yuval Harari, que prediz o surgimento de uma nova classe social, a classe dos inúteis. Seriam aqueles que não têm a qualificação mínima para fazer algum trabalho de valor maior do que um algoritmo fará.

AI e o poder do amor

Kai Fu, neste ponto, cita que conheceu o poder do amor. Ele conta como dedicou o mínimo de tempo possível para a família, ao longo da carreira, a fim de otimizar o tempo para a busca de seu aperfeiçoamento profissional. Um exemplo: ele quase perdeu o nascimento da primeira filha, por conta de uma reunião importante!

Há alguns anos, Kai Fu foi diagnosticado com câncer. Isto mostrou a importância do ser humano, que o dinheiro e o sucesso não conseguem comprar.

Um exemplo, de algo que apenas o ser humano pode prover. Uma das empresas de Kai Fu lançou um aplicativo para idosos. Este tinha ícones grandes, interface simples, e permitia uma série de serviços a um clique: comprar insumos, encomendas de restaurantes, etc… Também tinha um service-desk, para falar com um atendente humano.

Qual foi o serviço mais acessado? O service-desk. Para uma boa parte dos atendimentos, os idosos nem tinham a necessidade de acessar algum serviço. Eles queriam apenas companhia, alguém com quem conversar. Esta é uma necessidade bastante grande entre os idosos, ainda mais nos tempos modernos.

Talvez a resposta para o desemprego estrutural crescente seja o amor. Recompensar interações sociais. Distribuir riqueza ao mesmo tempo em que se distribui atenção às pessoas necessitadas. Cuidar de quem precisa. Ter filhos.

Kai Fu Lee tem diversas publicações em chinês e é uma espécie de celebridade por ali. O livro AI Superpowers é a única obra em inglês, até o momento, e traz um background cultural oriental e reflexões bastante pertinente para os anos e décadas que viveremos.

Veja também:

Link da Amazon

https://ideiasesquecidas.com/2019/10/30/a-classe-dos-inuteis-veio-para-ficar/

https://ideiasesquecidas.com/2018/08/01/10-topicos-para-entender-a-china/

https://ideiasesquecidas.com/2019/07/27/recomendacoes-de-livros-sobre-a-cultura-e-historia-da-china/

Indústria Americana

Um documentário para este carnaval

“Indústria Americana”, vencedor do Oscar de melhor documentário, mostra o choque cultural entre chineses e americanos.

A história começa com uma fábrica da GM, em Ohio, que fecha as portas.
Anos depois, um grupo chinês instala uma fábrica de vidros automotivos, a Fuyao, nas instalações da GM. Com ela, vem a cultura do país oriental.

Um primeiro ponto é que o chinês comum trabalha longas horas, podendo ficar 10, 12 horas no expediente, com pouquíssimos feriados ao longo do ano. (nota: existe uma expressão na China, o “996”, significando que o chinês entra no trabalho às 9 da manhã, sai às 9 da noite, 6 dias por semana).

A empresa cobra empenho semelhante dos americanos, que claramente não acham justo uma carga dessas.

Um relato impressionante: um trabalhador chinês conta que veio aos EUA pela Fuyao, sem ganhar nenhum adicional no salário ou ajuda de custo extra. Ele vai ficar alguns anos longe da família, tudo isso pelo dever de estar servindo a companhia.

Uma cena ilustra como os chineses pensam: o gerente da fábrica, um americano, quer instalar um toldo, para a inauguração da fábrica. O presidente da empresa, chinês, diz: não coloque o toldo. O gerente retruca: Mas, e se chover? O presidente devolve: Não se preocupe. Não vai chover. (Um autêntico manda-chuva)

A empresa coloca metas muito fortes de produção, exigindo de todos um empenho além do normal para recuperar o investimento realizado (mais de 500 milhões de dólares). Comenta-se que os chineses querem produzir, ao custo de colocar em risco a qualidade do produto final.

Nota-se também pouco empenho em termos de segurança das pessoas. Numa das cenas, uma chinesa coleta cacos de vidro com as mãos nuas, sem a mínima proteção. Em outra cena, um chinês conta como o material é quente, e que ele tem cicatrizes em todo o corpo. Em outra, um americano conta como nunca tinha se acidentado no trabalho, até que aconteceu um acidente com ele, na Fuyao.

Em especial, há um foco na luta da Fuyao para os trabalhadores americanos não se sindicalizarem.

Na visão dos chineses, a fábrica toda é como um grande navio. Se o navio não for para frente, todos serão prejudicados, ocorrendo o fechamento da mesma (como a da GM).

Muitos funcionários, insatisfeitos com jornada pesada, salários baixos, riscos de segurança, se organizaram em pedir a sindicalização. Outros tinham medo de represálias e de não ter outra ocupação possível.

A Fuyao faz uma grande campanha para evitar o sindicato. Contratam uma consultoria americana, especializada em motivar os trabalhadores a não se sindicalizarem (esta consultoria custou US$ 1 MM). A empresa também passou a perseguir de forma indireta os maiores defensores do sindicato, demitindo-os. No final das contas, eles não se sindicalizam.

Indústria Americana está disponível na Netflix, e foi produzida pela empresa do casal Obama.

Ranking de educação PISA 2018

Hoje, Dezembro de 2019, foi publicado o resultado do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) referente a 2018 – principal avaliação de educação básica do mundo.

Fatos a notar:

1- A China está em primeiro nos três rankings (Leitura, Matemática e Ciências). Na verdade, a China dá uma roubadinha no ranking. Ela como um todo não compete, mas sim, somente algumas províncias (Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong).

2 – O impressionante mesmo é a evolução da China. No PISA 2015 (é realizado a cada 3 anos), a China estava em 6º em matemática, 27º em Leitura e 10º em Ciências (e com o mesmo critério de só ter algumas cidades na avaliação)

3 – Em geral, os países do extremo oriente são obcecados por educação, por tirar 10 em todas provas. Vide Matemática, por exemplo, os 7 primeiros são do oriente.

4 – Nota-se também que a Estônia, um país pelo qual ninguém dá nada, aparece em boas posições nos três rankings. A Estônia deu um salto de modernização, com uma mentalidade bastante moderna e digital nos últimos anos. Fiquem de olho. (Obrigado ao Marcos Melo por notar isto).

5 – Não é surpresa para ninguém, mas abaixo dos orientais, temos os países europeus, Canadá e outros do primeiro mundo.

6 – O Brasil continua sendo um destaque negativo, nas últimas posições e até caindo em relação ao estudo de 2015. Nenhuma surpresa.

7 – Um grande destaque negativo é a Argentina. Outrora vista como o país mais culturalmente avançado da América Latina, hoje foi superado pelo Brasil (no Pisa 2015, estava à frente). Superado não é a palavra correta, na verdade, afundou mais do que o Brasil no quesito educação.

Reproduzo abaixo o PISA 2015, por conveniência:

Links:

https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/12/03/brasil-cai-em-ranking-mundial-de-ciencias-e-matematica-e-empaca-em-leitura.htm

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/15/quem-esta-no-ranking-mundial-de-educacao/

Algumas previsões

“É difícil fazer previsões, especialmente em relação ao futuro”, dizia o célebre técnico de baseball Yogi Berra.

Ele está certo. Fazer previsões corretas é muito complicado.

Contudo, ouso fazer algumas previsões aqui neste espaço. Não são previsões de verdade, são apenas algumas macrotendências.

1 – O mundo está muito esquisito, e uma grande crise mundial (talvez do tamanho daquela de 2008) se aproxima para um futuro próximo (provavelmente após a reeleição de Trump).

2 – O Brasil está saindo de vários anos ruins, e começará a decolar de novo nos próximos anos (no contra ciclo do mundo).

3 – Carros autônomos são uma questão de tempo. Começarão funcionando em nichos muito específicos, aos poucos ganharão a confiança das pessoas. Porém, demora ainda uns 10 anos para começar a fazer parte do nosso cotidiano, e uns 15 ou 20 para serem comuns no dia-a-dia.

4 – A China terá um PIB maior do que os EUA, daqui a uns 10 anos.

5 – A Índia será a terceira maior economia do mundo.

6 – A computação quântica continuará inútil por mais uns 40 anos. Até que, finalmente, terá alguma aplicação em algo que ninguém nunca imaginou hoje.

7 – Não será necessário aprender inglês ou chinês para conversar. Os tradutores eletrônicos ajudarão a derrubar esta barreira. Entretanto, ainda assim continua válido estudar mais da cultura, porque há barreiras que tradutor algum consegue quebrar.

Não vou detalhar muito cada uma delas, porque ninguém sabe se será por aí.

Daqui a uns 5 anos, vou revisitar esta lista, e ver se realmente fez sentido (ou não).

Dia dos solteiros x Black Friday

Está chegando, neste mês de novembro, uma mega promoção do comércio. É o… Dia dos Solteiros! Também tem aquela outra, a Black Friday.

O dia dos solteiros é uma tradição chinesa. Ocorre dia 11/11 (data com mais “1” no ano). A ideia é a pessoa se presentear, já que está sozinha mesmo. Este ano, o AliBaba (AliExpress por aqui), promete fazer uma mega operação no Brasil, com descontos agressivos. Ano passado, o dia dos solteiros movimentou US$ 30 bilhões, em um único dia!

A Black Friday é uma tradição americana. O Dia de Ação de Graças é um feriado importante nos EUA, e ocorre na quarta quinta-feira do mês de novembro. A Black Friday ocorre no dia seguinte. Este ano, será no dia 29/11, e promete muitos descontos!

Em comum, ambas são tradições estrangeiras que estão vindo recentemente para o país. Poderio econômico vem acompanhado de tradições culturais, de forma proposital ou não. A tendência é vermos cada vez mais uma invasão cultural chinesa no mundo, da mesma forma que já temos muitas tradições americanas em nosso dia-a-dia.

Boas compras!

https://istoe.com.br/aliexpress-investe-para-trazer-dia-dos-solteiros-ao-pais/

Hangzhou

A foto a seguir foi tirada em Hangzhou, há cerca de um ano.

Hangzhou é uma cidade que fica a uns 150 km de Shanghai, a grande metrópole da região, com seus 20 milhões de habitantes. Eu imaginava que a relação seria algo como São Paulo e Jundiaí, a metrópole versus uma cidade muito menor.

Qual nada! Hangzhou é uma cidade gigantesca, com uns 8 milhões de habitantes. Ela é também a sede da gigante de comércio eletrônico AliBaba.

A foto não ficou boa, mas queria capturar o seguinte. Vi um prédio imenso, habitacional, sendo construído. Depois, notei outro, igualzinho. Depois, mais um, mais outro e outro… eram dezenas de prédios habitacionais imensos, em construção, enfileirados!

Já dizia Napoleão Bonaparte. “A China é um dragão adormecido. Deixemos assim, porque quando ela acordar, vai sacudir o mundo”. E sacudindo o mundo ela está.

Tik Tok e o ecossistema chinês de inovação

Uma nova rede social vem surgindo fortemente no Brasil. uma tal de Tik Tok.

Há mais de um ano, esta já era febre na China. São vídeos muito curtos, de 6 a 15 segundos. É só deslizar o dedo na tela e trocar para outro vídeo. Como são vídeos muito curtos, o foco é humor .

O modelo chinês é o de proteger o seu mercado, e normalmente há uma cópia chinesa para cada grande serviço americano original: o WeChat no lugar do Whatsapp, a Didi no lugar do Uber, o AliBaba no lugar da Amazon, a Xiaomi no lugar da Apple, etc…

Porém, com a Tik Tok é o oposto, é ela que está desbravando um território novo.

Visitei a ByteDance, fabricante da Tik Tok, há um ano, no programa Missão China da StartSe. Vi uma empresa de tecnologia gigantesca – uns 50 mil funcionários e 4 bilhões de dólares de receita, utilizando maciçamente inteligência artificial para fazer reconhecimento de imagens e melhorar os algoritmos de recomendação.

O resultado está aí.

O futuro é asiático.

Recomendações de livros sobre a cultura e história da China

É bastante difícil entender a cabeça de um povo com 5000 anos de história, tão distante e com um framework mental completamente diferente do nosso. Não basta apenas saber algo sobre a linguagem, entender um pouco da cultura é muito mais sutil e extremamente mais poderoso.

Um exemplo. Na família, o chinês chama o avô materno de um nome específico, o avô paterno com outro nome – enquanto por aqui é só avô e pronto, tanto faz se é da parte do pai ou da mãe. Outro exemplo, o irmão mais velho tem uma denominação, o segundo irmão tem outro nome, o terceiro, outro, etc… Para efeito de comparação, aqui temos um nome para o primeiro (primogênito) e o último (caçula). Isso tudo não é por acaso, e sim porque a hierarquia é bastante importante na cultura confuciana, e o avô por parte do pai é mais importante do que o avô por parte da mãe.

Divido os oito livros em duas seções: uma da cultura chinesa e outra sobre a história da China.

Parte 1 – Sobre cultura

1) O Romance dos Três Reinos. É um dos maiores clássicos da literatura chinesa e o meu livro favorito disparado desta lista. É um romance épico, uma espécie de Ilíada chinesa.

A história se passa quando a China era dividida em três reinos, cada qual guerreando com os outros pela dominação total da China e pela própria sobrevivência. É uma trama enorme, repleta de alianças, traições, reviravoltas, armadilhas, espionagem e contraespionagem, vitórias e derrotas.

Na China, conversei sobre este com algumas pessoas, e perguntaram qual o meu personagem favorito (lá, todo mundo tem um). O meu é o estrategista Zhuge Liang Kong Ming, que liderou várias das histórias mais épicas deste conto. A pessoa com quem conversei disse que a dela era o Cao-Cao.

Existem várias versões e interpretações do livro, em filmes, jogos, séries. Um que gosto muito é uma versão em mangá, adaptado por um autor japonês, por isso o nome Sangokushi (https://ww2.mangafox.online/sangokushi).

2) Os Anacletos de Confúcio. O confucionismo dominou a cena na China por vários milênios. Provas para concursos públicos eram baseados nas obras de Confúcio, um sábio que viveu há 2500 anos atrás.

Os Anacletos permeiam vários dos tópicos da sabedoria de Confúcio, entre eles respeito às tradições, ao imperador, aos governantes, aos pais, aos mais velhos – nesta ordem, daí a importância da hierarquia. Era por isso que os imperadores gostavam do confucionismo, porque dava uma razão moral para a sua própria atuação.

Um outro pilar é a importância dos estudos – e até por isso, os cargos públicos da era imperial deixaram de ser por aristocracia hereditária, para ser um concurso público por provas. Até hoje, tanto chineses quanto japoneses dão um valor enorme aos estudos, a ponto de exaustão física e emocional, para não dizer suicídio, ao tentar ingressar nas melhores faculdades.

Felizmente, podemos ler os Anacletos sem decorar palavra-por-palavra, letra-por-letra o que está escrito, porque eram assim as provas dos períodos imperiais: se trocasse a ordem de uma palavrinha, estava errado!

3) Jornada a Oeste. Outro livro épico da literatura chinesa. Conta a história de um macaco que faz uma jornada épica, onde encontra aliados, inimigos, passa por desafios, sempre permeado por mitologia, religião: taoísmo, confucionismo, budismo.

Também há dramatizações diversas, desenhos, mangás e outros.

Se o Romance dos Três Reinos é uma Ilíada, esta Jornada a Oeste parece uma Odisseia. Traduzindo, a Ilíada conta a história da Guerra de Troia contra os gregos, e a Odisseia, a jornada de Ulisses para voltar para casa.

4) O Tao-Te-Ching. O Tao é tudo. O Tao é nada. O Tao é um. Do Tao fez-se o Ying e o Yang, o positivo e o negativo, o cheio e o vazio, o tudo e o nada.

Uma casa é feita de algo, de paredes sólidas, mas ela só tem valor por casa do nada, do espaço vazio que ela contém.

O Tao-Te-Ching é um livrinho bem curto, cheio desses enigmas paradoxais, cheios de sabedoria.

5) A Arte da Guerra. Este é o livro mais famoso desta lista, e é muito conhecido no Ocidente. Contém lições valiosas sobre foco, planejamento, timing, importância da informação. Também é um texto bastante curto, no original (algumas versões ocidentais enchem com um monte de exemplos e divagações inúteis, ao invés de conservar a essência do texto).

É no estilo do Tao, dando importância aos métodos indiretos, e escrito também em forma de textos curtos, enigmáticos e paradoxais.

Um dos maiores generais de todos os tempos, Napoleão Bonaparte, era profundo estudioso da Arte da Guerra de Sun Tzu.

Parte II – Livros de História

6) The fall and rise of China. Brilhante série de aulas, do prof. Richard Baum, sobre a história da China, desde os primórdios até os dias atuais. Permeia passado e presente, pontuando os principais pontos da história, como o Grande Salto para Frente, a Revolução Cultural. Também inclui relatos pessoais, como a sua visão quando ocorreu o incidente da Praça da Paz Celestial.

O prof. Baum é extremamente didático, e esta é a minha recomendação para conhecer a história da China.

7) China’s Economy. O prof.  Arthur R. Kroeber fala da China, porém sob uma perspectiva mais econômica – porém também é necessário tocar nos assuntos de história que afetam e explicam a economia, como a política do filho único.

O legal também é que é um livro mais atual, então cita programas atuais como o Made in China 2025 e o Belt and Road, e problemas, como a supercapacidade produtiva ociosa, a necessidade de um “pouso suave”.

8) China in 10 Words. Relato pessoal do autor, um chinês, relatando o que ele viveu na pele quando criança e adolescente, e só passou a compreender muitas décadas mais tarde, adulto. Coisas pequenas, como um caso em

ele relata estar vacinando dezenas de pessoas com a mesma agulha amassada, costuradas com a explicação do contexto em que a China vivia na época (de novo, e nem ele sabia na época).

É um livro extremamente interessante, porém é necessário ter um bom background da história da China primeiro, para captar a essência do que o autor relata.

Conclusão

Dada a vastidão histórica e cultural da China, há uma quantidade infindável de bom material que ficou de fora (e que nem consegui conhecer).

Algumas dicas adicionais.

O Youtube chinês é o Youku https://www.youku.com/. O problema é que a pessoa tem que saber chinês.

Ninguém usa Whatsapp, todo mundo lá usa WeChat.

Ninguém aceita cartão de crédito.

10 tópicos sobre a China.

Um Cisne Negro paira sobre a China.

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China’s Economy: https://amzn.to/2xgsdgM

China in 10 words: https://amzn.to/2yNBdKC

A Xiaomi e os novos tempos

Fui hoje ao Shopping Ibirapuera, em São Paulo.

Vi uma fila enorme, virando a esquina do quarteirão. Hoje é a inauguração da loja da Xiaomi no Brasil. Marca chinesa, com celulares top a um preço bem abaixo de um iPhone.

A China começou copiando, entregando produtos falsificados ou pouco sofisticados a uma fração do preço dos americanos. Porém, há uma teoria econômica que diz que, quem faz muito, acaba dominando o processo de produção e aprendendo a inovar – foi assim com o Japão e os tigres asiáticos. Além disso, as empresas chinesas (e o governo, é indissociável) investem um caminhão de dinheiro para desenvolvimento de produtos, contratação das melhores cabeças e compra de empresas de ponta.

O Xiaomi Mi 9 tem especificações assombrosas: três câmeras, uma com 48 megapixel (!!), 64/128 GB de armazenamento (!!), tela 6.39 polegadas Amoled com resolução Full HD…

Pergunta: será que a Xiaomi já é melhor que iPhone?

Outro sinal dos tempos: A Saraiva MegaStore do Shopping Ibirapuera, o motivo pelo qual fui lá, fechou as portas.

Pra que um livro físico, se hoje é possível ler um digital num Mi 9 de ponta?

https://noticias.uol.com.br/tecnologia/noticias/redacao/2019/06/01/com-direito-a-fila-e-fas-animados-xiaomi-inaugura-a-sua-1-loja-no-brasil.htm