Cardióides circulares

Cardióides circulares são figuras como as seguintes.

ccard01

 

É outra maneira de desenhar essas formas, em contraste com a versão linear apresentada em post passado:

CardiodLin.png

Fiz uns programinhas interativos no Javascript – pacote D3, para brincar. Segue links:

 

Implementação de Cardióides circulares:

https://asgunzi.github.io/CircularCardioids

 

Implementação de Cardióides lineares:

https://asgunzi.github.io/Cardioids/

 


 

Como traçar esses cardióides circulares no braço?

 

Comece dividindo um círculo em N pontos:

 

cardexp01.jpg

Depois, tome um ponto focal de referência (no caso, é o ponto mais à direita).

Trace um círculo com centro no primeiro ponto e raio tocando o ponto de referência:

cardexp02.jpg

A seguir, faça o mesmo com o segundo ponto:

cardexp03.jpg

E assim sucessivamente:

cardexp04.jpg

Até completar todo o círculo.

cardexp05.jpg

 

Mudando o ponto focal e o número de pontos, tenho várias versões para brincar:

ccard02.jpg

ccard04.jpgccard03.jpg

 

Novamente, seguem os links para manipular tais curvas:

Implementação de Cardióides circulares:

https://asgunzi.github.io/CircularCardioids

 

Implementação de Cardióides lineares:

https://asgunzi.github.io/Cardioids/

 

E há uma versão em Excel também:

https://ferramentasexcelvba.wordpress.com/2018/09/02/mil-cardioides-no-excel

 

 

 

Quem dá bola para as Olimpíadas… de Matemática?

No mesmo mês em que o Brasil sedia as Olimpíadas esportivas, as Olimpíadas de conhecimento (Matemática, Astronomia) têm verba cortada.

Corte verbas.JPG

Como medalhista olímpico de Matemática (medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática de 1997), tenho propriedade para dizer duas coisas sobre este corte:

1 – A matemática de ponta não será nem um pouco afetada.

2 – Entretanto, a se manter este quadro, os efeitos serão na matemática de base.


As Olimpíadas de Matemática

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Em 1996, fiz pela primeira vez na vida uma prova de Olimpíada de Matemática. Sempre gostei muito do assunto, e já tinha passado um bom tempo estudando matemática. Mas aquela matemática era diferente. Dezenas de vezes mais difícil. Eu não tinha a menor noção da onde começar para atacar as questões. Obviamente, não passei da primeira fase.

Mas participar das Olimpíadas gerou dividendos. Fiquei sabendo que o Colégio Etapa dava aulas gratuitas de preparação para as Olimpíadas. Era toda quinta a noite, aberto para o público.

Como era de graça, e com aulas de muita qualidade, me inscrevi. Na primeira semana, eu e mais umas 200 pessoas tivemos aula com o professor Edmílson Motta, um dos maiores especialistas em Olimpíadas de Matemática do Brasil. Era uma aula sobre paridade, e ele resolveu problemas aparentemente impossíveis com truques simples.

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Guardo até hoje os arquivos das aulas preparatórias

Na segunda semana, o público já tinha diminuído para umas 50 pessoas. Na terceira, umas 15 pessoas. Esta média, de umas 15 pessoas, se manteve até o final do curso.

A primeira dica, para quem quiser encarar: deve-se jogar fora o livro texto da escola, e estudar algo mais pesado. No meu caso, foram as 10 edições dos Fundamentos de Matemática Elementar. Cada livro aborda um tema da matemática com uma profundidade ordens de grandeza superior ao que se aprende na escola. Lembro que fui colecionando esses livros. Ia em sebos no centro de São Paulo procurar, e comprava por 10 reais na época.

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A segunda dica é que dominar toda a matemática do ensino médio não é suficiente. Não faz nem cócegas. Não chega aos pés do que é necessário. Isto porque as Olimpíadas, têm um foco muito forte em Teoria dos Números, o mais nobre (e possivelmente difícil) assunto de toda a Matemática. O prof. Edmílson e alguns outros, já na quinta ou sexta aula introduziram Teoria dos Números, e ficaram um bom tempo nisto.

 

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Eu era um dos mais despreparados nesta competição. Tinha gente que tinha aulas deste alto nível desde o primeiro ano do ensino médio, e duas vezes por semana – um privilégio dos alunos do Colégio Etapa. Tinha um colega da minha idade que já tinha ido para a Olimpíada Internacional de Matemática duas vezes, além das Olimpíadas Ibero-americanas, regionais, etc…

 

Portanto, as pessoas que realmente são top nesse negócio, e aspiram a alguma medalha, geralmente são de classe média para cima e já vem estudando matemática avançada de forma intensiva há muitos, muitos anos, e com colegas e professores do mesmo nível.

 

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O grande prejudicado com este corte de verba não é esse pessoal de ponta, mas sim os milhares de estudantes do ensino médio, que poderiam ter um contato maior com a matemática num nível mais elevado e evoluir com isto. Principalmente, aqueles que são mais pobres e que têm menos acesso à informação.

 

Quem sabe, se o Brasil sediasse as Olimpíadas Internacionais de Matemática, tivéssemos mais alunos que pudessem aprender uma fórmula a mais, que descobrissem que há problemas que não podem ser resolvidos com o arsenal que têm, que descobrissem que há colégios que dão bolsas para quem se interessa no assunto. Ou que encontrassem outras pessoas com a mesma paixão pela matemática. Quem sabe, talvez tivéssemos futuramente melhores profissionais, nivelando por cima o aprendizado.

 


 

Conclusão

Numa Olimpíada esportiva, o objetivo das pessoas que assistem não é se tornar um Michael Phelps ou um Usain Bolt. Mas sim, inspirar-se no exemplo deles para performar mais e melhor. Quem sabe, nadar com mais disciplina e determinação. Ou mudar o paradigma de que é impossível, para o de que pode ser possível, contanto que me esforce. Ou, quem sabe, de que é possível dominar este assunto rico, bonito e abstrato chamado Matemática.

 

 


 

Reflexão

Muitos me perguntam se eu uso o que aprendi nessas Olimpíadas.

Diretamente, pouco. As vezes, uso uma função módulo no Excel e ninguém entende.

Mas indiretamente, sim, bastante, demais. Não só pelo desenvolvimento no raciocínio. Se não fossem pelas Olimpíadas, talvez não tivesse conhecido o cursinho Etapa, talvez não tivesse ganhado uma bolsa de estudos integral nela. Sem isso, dificilmente entraria no ITA (vide post) ou em alguma outra faculdade de ponta. A minha carreira seria totalmente diferente da que é hoje.

Sou um grande fã das Olimpíadas de Matemática, e tenho convicção de que buscar o topo me fez alçar voos altos.

 
Premiados na Olimpíada Brasileira de Matemática de 1997:
http://www.obm.org.br/opencms/premiados/1997.html

 

 

Logaritmos neperianos

Tábua de logaritmos

Há uns 10 anos, estava limpando a casa de meus pais, quando encontrei um livro sobre Tábuas de Logaritmos. Eu queria jogar fora, porque hoje em dia qualquer calculadora ou computador faz conta de logaritmos, dispensando a tábua (tabela). Mas o meu pai não deixou jogar fora de jeito nenhum.


O livro era exatamente o da figura a seguir.

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Uma vez li no jornal alguém criticando o sistema de ensino, e dava como exemplo a inutilidade de se aprender logaritmos. Dizia que Logaritmos neperianos (de base e) pareciam coisas do Sr. Spock, de Star Trek.


Afinal, para que serve um logaritmo?

A grande maioria das pessoas não usa nem vai usar logaritmos. Mas, em engenharia e matemática, o logaritmo é uma ferramenta básica e essencial. E, historicamente, estaríamos centenas de anos atrasados não fosse o advento do logaritmo.

Um logaritmo é um operador matemático que transforma exponenciação em multiplicação, multiplicação em soma. Funciona a partir das próprias propriedades dos números, é apenas um ponto de vista diferente. Mas, reescrever a mesma coisa de forma diferente pode fazer toda a diferença.

Qual a conta mais fácil?

x = 98* (234 ^13)

ou

x = 1,99+13 * 2,36

?

Fazer multiplicação é muito mais difícil que somar. Fazer uma exponencial é muito mais difícil do que uma multiplicação. O logaritmo é útil porque torna o problema uma ordem de grandeza menor.

A segunda conta é muito mais fácil que a primeira, mas é a mesma coisa. Basta consultar log(98) e log(234) na tábua de logaritmos do meu pai:

log (x) = log (98*234^13)

= log(98) + 13 * log (234)

=  1,99+13 * 2,36

= 32,79

Consultando a tábua de logaritmos de novo, mas agora procurando a inversa:

x = 10^32,79 = 6,21 * 10 ^32

Conferi no Excel, para ver se dava a mesma coisa. O arquivo está aqui.


Logaritmos e Engenheiros Brilhantes

Hoje em dia temos computadores pessoais. Mas não era assim há 20 anos… As pessoas tinham que fazer a conta com calculadoras. E, antes das calculadoras, tinham que fazer a conta no braço.

Imagine o projeto de uma ponte. Ou de uma catedral. Ou de um avião. Os aviões não esperaram os computadores ficarem prontos para existirem. Os engenheiros tinham que resolver centenas de equações para projetar as maravilhas de nosso mundo.

E é aí que entra o logaritmo. É muito mais fácil tirar o log, transformar a multiplicação em soma, e fazer o log inverso (com a ajuda da tábua de logaritmos), do que fazer exponencial “na raça”.

O logaritmo poupou centenas de milhares de horas de trabalho dos mais brilhantes engenheiros, matemáticos e astrônomos da face da Terra, desde meados de 1600 até o surgimento de computadores eletrônicos. O logaritmo ajudou a construir as pontes, as catedrais, os carros e os aviões que existem hoje.

Ainda hoje, num era pós-computadores, todas as ciências exatas fazem uso da função exponencial e logaritmo, a fim de descrever e analisar fenômenos que possam ser modelados com tais funções.


A tábua de logaritmos do meu pai está guardada até hoje. Portanto, se houver uma terceira guerra mundial e a humanidade voltar para a idade das pedras, vou fugir com a tábua de logaritmos debaixo do braço, para ajudar a reconstruir a civilização.

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Saudações Vulcanas (ou neperianas)

Nota

Peter Thiel, empreendedor que ajudou a fundar o PayPal e o Facebook, diz que uma solução nova só funciona se for pelo menos 10 vezes melhor. Ou seja, se for uma ordem de grandeza melhor. Ou melhor, se for um logaritmo melhor.

Obs.
“Tábua” tem o significado de “tabela”.


Vide também:

Por que negativo vezes negativo é positivo?

Como resolver o dodecaedro mágico

Confesso que colei – sobre a cola numa das escolas mais difíceis do país.

Conjectura de Goldbach

A matemática contém algumas afirmações que são extremamente fáceis de serem formuladas, mas extremamente difíceis de serem resolvidas.

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A conjectura de Goldbach é um caso desses:

“Qualquer número par pode ser descrito como a soma de dois números primos”.

Números primos são aqueles que são indivisíveis por outros números, como 2, 3, 5, 7, 11. Alguns exemplos da conjectura.

4=2+2

6=3+3

8=3+5

10=3+7

100=53+47

É uma “conjectura” porque ninguém conseguiu prova-lo, em quase 300 anos. E a sua fama provém não da conjectura em si, ou da utilidade prática, mas porque grandes mentes já tentaram prova-la e não conseguiram.

Uma coisa irônica nisto é que o computador pode ajudar a provar alguns teoremas, mas o melhor computador do mundo não vai ajudar nada em outros. Isto porque as provas da matemática requerem que a validade seja para todos os números. Sempre vai haver um número impossível de ser computado (seja ele 10^100000, 10^1000000000). É possível escrever programas de computador para testar números muito grandes, mas não para testar todos os números. O computador serve mais para “desprovar”, no caso de achar um número que não atende a conjectura, ou para aumentar os indícios de que o caminho está correto, mas não para provar.