Sobre livros e livrarias

Estamos em junho de 2018. Livros em papel e livrarias já morreram. Isto nem é um forecast, é uma realidade. É tão óbvio quanto falar que a TV a cabo, jornais em papel, revistas em papel tradicionais morreram com as novas tecnologias.

Só comento sobre este assunto por uma única razão: este post seria mais um capítulo da série de forecasts, porém é um forecast que já aconteceu. Eu adoro livrarias e livros, e sinto demais esta perda.

Um dos meus passeios favoritos é o de ir à Livraria Cultura do Conjunto Nacional, que ostenta milhares de títulos, numa área com três andares, café, e que provavelmente é a maior livraria da América do Sul.

 

Ou andar pela Saraiva MegaStore, do Shop. Ibirapuera ou do Shop. Center Norte.

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Ou a loja fantástica da Fnac em Pinheiros, com arquitetura ousada, pensada para ser um ponto de encontro entre amantes das letras, numa região cult da cidade… opa, a Fnac Pinheiros acabou de fechar as portas… a empresa Fnac, que vendia eletrônicos e livros, está saindo do Brasil.. (https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/caminhadas-urbanas/o-fechamento-livraria-da-fnac-pinheiros-um-raro-exemplo-de-arquitetura-comercial-a-favor-do-espaco-publico-na-cidade)

 

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As grandes livrarias nacionais estão sofrendo, há anos, com estagnação e declínio, a olhos vistos. A razão é simples. A informação não precisa mais do papel para ser transmitida. Ela está à disposição para ser produzida, consumida e atualizada em qualquer tela, seja a TV, o celular, o notebook, o ereader, o tablet.

A informação virou commodity. Antigamente, para estudar Cálculo, eu precisava de um livro de Cálculo. E era comum recorrer à famosa xerox do livro, porque o original normalmente custava caro demais para um estudante universitário bancar.

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Hoje em dia, há dezenas de sites sobre o assunto, vídeos do Youtube, tutoriais, exercícios resolvidos, tudo de graça e num excelente nível, como por exemplo, na Khan Academy.

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A xerox dos dias atuais são os serviços de torrent, ou troca de pdfs dos livros, ou alguma outra forma de copiar digitalmente o assunto.

Além disso, para tópicos avançados, posso consultar direto o blog do autor que é o papa do assunto. Ou, talvez, enviar um e-mail direto para este autor. Ou discutir a questão com outros amantes do assunto, num fórum. Ou pegar os artigos mais relevantes no Arxiv.

 

Um exemplo. Vi o excelente livro “Linear Programming”, do autor Robert Vanderbei, na Livraria Martins Fonte. R$ 399,00. Tenho a mesma versão em pdf, a um custo zero, que leio num dos meus ereaders (tenho um Kindle e um Kobo Reader) – mas poderia ler num iPad, ou no computador, ou imprimir a parte que interessa.

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O preço de R$ 399,00 é porque o livro é impresso nos EUA (livros físicos têm que ter uma demanda mínima para justificar a impressão), transportado ao Brasil, incluindo todos os trâmites da importação e deve pagar o custo físico da loja ao expor o mesmo fisicamente (aluguel, salário dos atendentes).

A versão eletrônica do mesmo ocupa 1 MB de espaço em disco, e não acarreta custo logístico algum, nem de importação; por mais que eu goste das livrarias e do livro, é um disparate pagar R$ 399,00 por algo virtualmente grátis.

Exemplos abundam, e mesmo se o livro custar R$ 50,00 ou mesmo R$ 30,00, não dá para competir com a versão digital.

O efeito é que atualmente as livrarias pagam para existir, e algumas ainda teimam em tentar se reestruturar.

A LaSelva, que era bastante presente em aeroportos, está fechando as portas.

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A Saraiva está há muitos anos mal das pernas, e é uma questão de tempo até sofrer alguma reestruturação dramática.

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A Fnac já saiu do Brasil, sendo adquirida pela Livraria Cultura.

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A Livraria Cultura não está muito bem das pernas.

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Este fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em todo o mundo, o mesmo. A fantástica Barnes e Noble da 5a avenida, em NY, uma das livrarias mais legais do mundo, fechou as portas em 2014. Lembro muito bem disto, porque foi entre a minha primeira e segunda visita aos EUA, então eu conhecia a mesma da primeira visita, e quando voltei para procurá-la, não a encontrei mais.

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O mesmo ocorreu com a Borders, uma rede tipo uma Saraiva americana, que fechou as portas.

Isto sem citar inúmeras outras redes de livrarias, que devem ter destino semelhante se já não o tiveram.

 

O que deve ocorrer é que somente lojas de nicho, extremamente enxutas, devem ser capazes de sobreviver. Ou versões mais on-line do que físicas de fato. Seja como for, a tendência é sobreviver com faturamento muito mais modesto do que nos anos de glória que jamais retornarão.

Os sebos, então, nem se fala. Se as livrarias estão obsoletas, os sebos, que comercializam livros usados, têm um futuro menos promissor ainda. Os que não fecharem as portas devem sobreviver apenas em nichos.

Talvez, num futuro não tão distante, uma prateleira de livros seja apenas para impressionar visitantes, e o comércio de livros seja algo como o comércio de LPs, algo que existe mais como nostalgia do que por necessidade.

 

O espaço do Conjunto Nacional já abrigou uma grande rede de cinemas, o cine Astor (fui lá uma vez, nos anos 80). Os cinemas de rua entraram em declínio, várias virando igrejas evangélicas. As do Conjunto Nacional deram origem ao espaço agora ocupado pela Livraria Cultura. O que será no futuro, não sei, cedo ou tarde os livros darão lugar a algo diferente. Mas, quando isto ocorrer, eu posso dizer que foi bom enquanto durou. Obrigado à livrarias e livreiros, e bola para frente.

 

 

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Mario Quintana

Forecasts – Parte 1

Em geral, não gosto muito de fazer forecasts. Prefiro estar preparado para eventuais cenários futuros, sejam quais forem. Entretanto, não dá para resistir a alguns.

Primeiro, as previsões. Depois, as justificativas.

 


 

Previsões

1. A China sempre foi uma potência mundial, e agora está voltando ao seu estado natural, onde permanecerá por muitas centenas de anos.

 

2. As Fintechs tendem a ferir mortalmente os bancos tradicionais. As Edtechs, idem, devem abalar de forma irreversível o modelo de educação tradicional.

3. As Agrotechs, por outro lado, serão complementares à agricultura tradicional. As Lawtechs também, apenas complementarão o trabalho dos advogados tradicionais.

 


 

Justificativas breves

 

1. Os últimos 200 anos têm sido difíceis para a China. Entretanto, se dermos um zoom out e pegarmos os últimos 5.000 anos, a China sempre foi uma potência mundial.
Ela foi ultrapassada desde a revolução industrial, que projetou a Europa como centro do mundo. O comunismo nos últimos 70 anos também não ajudou nem um pouco. Hoje, porém, as barreiras de conhecimento e de comunicação vêm sendo derrubadas.
A China, pelo seu imenso tamanho geográfico, sua quantidade maciça de pessoas, pela cultura confucionista de estudar muito, trabalhar muito e doar a si para o todo, ao estar nivelando o conhecimento, ganha disparado na força bruta. Mas note que ela só está voltando ao status natural, de uma das potências mundiais.

 

O gráfico abaixo mostra a % do GDP da China ao longo da história. Note que eixo do tempo não é linear, ressaltando os últimos 200 anos. Há 1000 anos atrás, a Europa era apenas um bando de tribos subdesenvolvidas.

The global contribution to world's GDP by major economies from 1 CE to 2003 CE according to Angus Maddison's estimates. Up until the early 18th century, China and India were the two largest economies by GDP output. (** X axis of graph has non-linear scale which underestimates the dominance of India and China)

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Economic_history_of_the_world

2. Fintechs* são empresas de tecnologia no setor financeiro.

 

Bancos são apenas duas coisas, na essência: informação e confiança. Dinheiro não tem valor intrínseco, é apenas um papel. Hoje em dia, nem papel é mais, é um número no extrato bancário. Porém, este número não pode ser criado do nada, ou sumir de repente, ou ser facilmente roubado – daí a necessidade de confiança.

 

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Os bancos tradicionais são dinossauros. Milhares de agências, milhares de funcionários, controles, burocracia, etc. No futuro, não será mais necessário ir fisicamente à uma agência para pegar papéis, entregar papéis e assinar documentos.

 

Tudo o que é apenas informação tende a desaparecer, como o jornal em papel.
O maior desafio das fintechs é a confiança, tema difícil de resolver: ataque de hackers, funcionários mal intencionados, dirigentes com má fé, etc… ora, mas este tipo de desvio já não ocorre hoje?

 

Com as Edtechs*, a mesma consideração: qual o sentido de dedicar cinco anos inteiros, full time, indo presencialmente à uma universidade? Este modelo tradicional tende a perder muita força.

Por exemplo, este blog é muito mais interessante e questionador do que 99% das aulas que já assisti!

 

3. As Agrotechs estão bem mais seguras. Agricultura não é informação. Não comemos bits, comemos carne, arroz, feijão. Há um limite físico e químico. Há uma quantidade de energia que deve ser gasta para derrubar uma árvore e colher uma plantação.
As agrotechs, utilizando tecnologias como imagem por satélite, conexão de dados no campo, telemetria de equipamentos, vão ajudar muito a aumentar o controle e a produtividade das operações tradicionais.

O IoT (Internet das Coisas), em geral, será extremamente disruptivo – imagine cada metro quadrado do solo monitorado em temperatura, umidade do solo, umidade do ar, pH, nutrientes químicos, etc…

As Lawtechs, por outro lado, vão ajudar bastante o trabalho do setor jurídico. Porém, como Direito não tem lógica (não lógica formal), os advogados nunca vão deixar de existir.

 

 


 

*Glossário: Fintechs, Agrotechs, Edtechs, são abreviaturas de tecnologia das finanças, tecnologia da agricultura, tecnologia da educação. Significam empresas de alta tecnologia que podem crescer exponencialmente nas respectivas áreas.

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Vide também:

O que é dinheiro para mim

Todos os grãos de arroz num tabuleiro de xadrez.

Sobre IoT

 

 

 

 

 

 

 

Experimento com lentes de microscópio

Tenho um microscópio ótico, daqueles de ciência caseira, que comprei há uns 15 anos atrás. Até funciona, é até legal, mas é completamente ótico, não dá para tirar fotos, por exemplo.

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Faz tempo que eu estava procurando algo similar, mas que utilizasse todo o poder do mundo digital moderno.

 

Até que conheci este fornecedor, Blips, indicado pelo meu amigo Rodrigo Coelho. É um kit com 4 lentes com zooms diferentes, e a ideia é transformar qualquer celular num microscópio.

 

Estes podem ser adquiridos em https://www.smartmicrooptics.com/.

 

Custou uns 50 euros, e chegou pelos Correios um mês e pouco após a compra.

 

É extremamente simples de utilizar, basta colar a lente na frente da câmera do celular e sair utilizando. Funciona em qualquer tipo de aparelho, porque basicamente é como colar com fita adesiva um pedacinho de vidro na frente da câmera.

 

Seguem dois testes realizados.

 

 

Neste primeiro teste, usei a asa de inseto do meu velho microscópio ótico.

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Há quatro níveis de zoom, uma para cada lente, mas testei apenas três.

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Como ocorre no microscópio ótico, quanto maior o zoom, mais difícil é focar a imagem.

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O zoom ultra é o maior de todos, porém, o mais difícil de focar.

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No caso, só tirei algumas fotos, mas é possível fazer vídeos, por exemplo. É como fazer uma foto ou vídeo qualquer do celular, porém olhando para um mundo nunca antes explorado pelos nossos olhos.

 

O teste 2 foi com uma formiga infeliz que cruzou o meu caminho, enquanto eu estava à busca de alguma cobaia.

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A proposta do Blips é muito simples, e o resultado impressiona.

Inovação é enxergar o mundo com novos olhos!

 

 

Steve Jobs em 40 frases

 

 

Steve Jobs em 40 frases (mais ou menos)

Sobre como conheceu a esposa, Laurene.

Eu estava no estacionamento, com a chave do carro, e me perguntei: ‘Se esta fosse a minha última noite na Terra, eu preferiria passar numa reunião de negócios ou com esta mulher?’ Atravessei correndo o estacionamento e perguntei se ela gostaria de jantar comigo. Ela disse que sim, andamos até a cidade e estamos juntos desde então.

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Steve Wozniak e eu gostamos muito da poesia de Bob Dylan e passávamos um bom tempo pensando no que ele dizia. Estávamos na Califórnia. Era possível passar a noite num banco com a namorada. A Califórnia tem um senso de experimentação e de abertura a novas possibilidades.

 

Se você cria algo que acaba ficando muito bom, deveria logo partir para outra coisa maravilhosa, não ficar estagnado naquilo por muito tempo. Simplesmente descubra o que vem a seguir.

 

Qualidade é mais importante do que quantidade. Um home run é muito melhor do que dois doubles.

 

Este tem sido um de meus mantras – foco e simplicidade. O simples pode ser mais difícil do que o complexo: é preciso trabalhar duro para tornar incrivelmente simples.

 

Somos organizados como uma empresa iniciante. A Apple é a maior empresa iniciante do planeta.

 

Olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

 

Muitas empresa escolhem cortar gastos e talvez seja a coisa certa para eles. Escolhemos um caminho diferente. Nossa crença é que de se continuássemos apresentando ótimos produtos aos clientes, eles continuariam abrindo a carteira.

 

Como se comunica às pessoas que elas estão num ambiente em que a excelência é esperada? Não se diz isso. Não se coloca no manual do empregado. Essas coisas são inúteis. Tudo o que importa é o produto que resulta do trabalho em grupo. Ele dirá muito mais do que qualquer coisa que venha de sua caneta.

 

Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

 

Faça o melhor que pode em todos os trabalhos. Sucesso gera mais sucesso, então seja faminto por ele.

 

Os botões do novo Mac estão tão bonitos que dá vontade de lambê-los.

 

 

E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar.

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Aqueles que são loucos o bastante para achar que podem mudar o mundo são aqueles que mudam.

 

Penso nas coisas da vida como uma música de Bob Dylan ou dos Beatles.

 

A simplicidade é a máxima sofisticação.

 

Sobre ligar os pontos:
Eu não tinha ideia do que queria fazer na minha vida. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado. E então decidi largar a faculdade e acreditar que tudo ficaria bem.

 

Sobre o iPhone tocar músicas, e acabar canibalizando parte da receita do iPod: ‘Se nós não canibalizarmos, alguém o fará’.

 

A missão da Apple é fazer algo ‘absurdamente bom’.

 

Inovação não tem nada a ver com quantos dólares se dedica a pesquisa e desenvolvimento. A IBM gasta cem vezes mais nisto do que a Apple. Tem a ver com as pessoas que temos, como nos conduzimos e o quanto entendemos do assunto.

 

Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.

 

 

Tínhamos acabado de lançar nossa maior criação – o Macintosh – e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido.

 

Isto é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados. Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discorda-los, glorificá-los ou difamá-los. A única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. (Comercial ‘Pense Diferente’, de 1984)

 

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Inovação provém de dizer não a mil coisas para garantir que não tomemos o caminho errado ou tentemos fazer demais.

 

Não leve tudo tão a sério. Se quiser levar sua vida de forma criativa como um artista, você não pode olhar muito para trás. É preciso estar disposto a pegar tudo o que já fez e já foi e jogar fora.

 

Há um DNA muito forte na Apple que se refere a pegar uma tecnologia de última geração e torná-la simples para as pessoas.

 

Ser o homem mais rico do cemitério não me interessa… Ir para a cama à noite dizendo que fizemos algo maravilhoso… Isso é o que importa para mim.

 

Cometemos muitos erros porque ninguém fez isso antes.

 

Picasso tinha um ditado: ‘Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.’ Nunca tivemos vergonha de roubar grandes ideias… Parte do que tornou o Macintosh ótimo foi que as pessoas que trabalharam nele eram músicos, poetas, artistas, zoólogos e historiadores, que também calhavam de ser os melhores cientistas de computação do mundo.

 

Ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo.

 

Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama.

 

John Sculley arruinou a Apple, e a arruinou por levar para o topo da Apple uma série de valores que eram corruptos e corromperam algumas pessoas importantes que estavam lá, afastou alguns dos que não eram corruptíveis, admitiu mais corruptos e lhes pagou coletivamente dezenas de milhões de dólares e se importava mais com as próprias glórias e riqueza do que com o que tinha construído a Apple = que era fazer grandes computadores para as pessoas usarem.

Comentário para entender: Sculley “puxou o tapete” de Steve Jobs, e assumiu a Apple, nos anos 90. Sculley era o executivo tradicional, o do corte de custos e margem de lucro, que fez a Apple multiplicar de tamanho nos primeiros anos de sua gestão – mas acabou falindo a empresa a longo prazo. A Apple tinha virado tipo uma Dell, de commodities e não de sonhos. A Apple acabou sendo resgatada posteriormente pelo próprio Steve Jobs.

 

O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar.

 

A morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se
tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.

 

 

Continuem famintos. Continuem tolos. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e são o novo, eu desejo isso para vocês.

 

 

Estamos aqui para deixar uma marca no universo.




 

Links e fontes

Steve Jobs em 250 frases – Alan Ken Thomas

Steve Jobs – as verdadeiras lições de liderança – Walter Isaacson

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-introducao/

https://ideiasesquecidas.com/2015/07/14/pense-diferente/

Comercial “Think Different”

 

Discurso de formatura de Stanford, em 2005

 

Bônus. Trilha sonora, “One too many mornings”, de Bob Dylan, interpretado por Joan Baez.

Jobs encontrou Bob Dylan próximo a Palo Alto, em 2004. “Sentamos no pátio fora da sala e conversamos por duas horas”, diz Jobs. “Eu estava realmente nervoso, porque ele era um de meus heróis. Tinha medo dele não ser tão esperto afinal, ser apenas uma caricatura dele mesmo, como acontece com muitos. Mas fiquei maravilhado. Ele era afiado.” Jobs disse que uma de suas canções favoritas era “One too many mornings”.

 

 

Escolha sempre a alternativa mais curiosa

O meu amigo Diego Piva, leitor deste espaço, fez um comentário de que eu gostei muito.

 

Diz ele que sempre senta em um lugar diferente em suas aulas de inglês, enquanto todos os outros ficam sempre nos mesmos lugares. Um dia, perguntaram o motivo disto. A resposta foi que ele gosta de ver as coisas sempre por um ângulo diferente.

 

Este é um tema recorrente aqui. É uma forma simples e barata de inovar, no sentido de adicionar novos conhecimentos, e sem muitos riscos.

 

– Entre duas alternativas, escolha sempre a mais curiosa.

– Entre duas máquinas de café, uma normal e outra que não conheço, vamos experimentar a que não conheço (aconteceu de verdade, no Chile, com outro amigo meu).

– Marcar encontro num restaurante desconhecido para ambas as pessoas.

– Quando alguém não entende a sua questão, a maioria das pessoas repete exatamente as mesmas palavras. Recomendo reformular a questão como um todo, sem mudar o significado.

– Mudar o caminho até o trabalho, seja uma rua, seja um outro meio de transporte (ônibus, metrô).

– Uma nova revista, novo livro, com temas interessantes mas desconhecido.

– Entre conversar com a mesma pessoa da mesma panelinha, conhecer outras.

– Novas músicas.

– Viagem para lugares diferentes.

 

 

São alterações pequenas, simples, mas que pode gerar um bom resultado.

 


 

Risco x Zona de conforto

 

Este é o caso de um conflito entre zona de conforto x risco. Um novo restaurante pode ou ser muito bom, ou ser muito ruim – afinal é desconhecido. O restaurante conhecido sempre vai ser bom – mas aqui o problema é o custo de oportunidade de não conhecer algum restaurante bom e diferente.

 

Em geral, costumo explorar essas novas alternativas quando há tempo e espaço disponíveis para tal. Quando a prioridade é chegar no horário, ou entregar um trabalho apertado, não há muita margem para divagar.

Em todo o caso, fica a dica.

 

 

Bitolas e histórias de bitolados

​A bitola refere-se à distância entre trilhos de trem. São duas linhas retas, paralelas, nunca saem do padrão.

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Um ser humano bitolado é exatamente isto: alguém que aceita somente uma resposta possível, nunca sai do padrão, nunca pensa diferente.

Compartilho três histórias sobre bitolas, provavelmente apócrifas, porém ilustrativas.


 

Bitolas desde o Império Romano

As bitolas de trem têm as dimensões atuais porque as bitolas do passado tinham essas dimensões. Mudar a bitola impacta na mudança do tipo de trem, estações, etc…

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As bitolas de trem do passado tinham a largura das estradas que já estavam abertas, facilitando a instalação. As estradas que já estavam abertas tinham as dimensões que tinham devido ao tamanho das carruagens que nelas passavam… e assim sucessivamente, até chegarmos à conclusão de que as dimensões das bitolas de trem de hoje são devidas às estradas e carruagens abertas no Império Romano, há mais de 2000 anos! Isso é ser bitolado, literalmente.

 


A árvore da praça

Um dia, uma árvore numa praça tinha sido vandalizada. Um general do exército viu aquilo, e ordenou que os soldados tirassem serviço ali naquele ponto, para proteger a árvore por um tempo. E assim foi feito: dois soldados tirando serviço por turno, três turnos por dia, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Troca de turno, briefing do oficial do dia, transporte até o quartel, etc… Com o passar do tempo, o general foi transferido para outra base, e os soldados continuavam a tirar serviço na praça porque sempre tinham tirado naquele lugar.

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Anos depois, chegaram à conclusão de que a árvore ali na praça estava atrapalhando a visibilidade deles. Portanto, cortaram a árvore, e mantiveram a guarda naquele ponto pelos anos a vir…

 


 

Porcos assados

Após um raio cair e incediar as árvores, uma tribo descobriu porcos assados na floresta queimada. Desde então, para fazer porco assado, eles isolavam uma região da floresta, colocavam o porco nela, e ateavam fogo na floresta toda. Esta receita foi passada de pai para filho, sempre com muita pompa e orgulho. Em algumas gerações, surgiu a figura do mestre-incendiário de porcos, posição que necessitava de anos de preparo e experiência.

 

Um dia, um inovador veio de uma tribo vizinha, com uma ideia extremamente simples: que tal se fizéssemos uma fogueira e colocássemos o porco sobre ela, ao invés de queimar uma floresta inteira? A tribo rejeitou a ideia, taxou o inovador como louco, e o condenou a morte na fogueira por propor tal heresia!

 


Bônus – teclado QWERTY

O teclado QWERTY, que é o teclado padrão de todos os desktops e notebooks do mundo atual, tem essa configuração por causa das antigas máquinas de escrever.

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Para quem nunca viu uma máquina de escrever, é como se fosse um teclado, porém o acionar de cada letra aciona uma espécie de alavanca, que atinge uma fita de tinta e imprime o caractere desejado numa folha de papel.

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O problema é que, se a pessoa datilografasse depressa demais, duas alavancas de duas letras diferentes poderiam colidir, travando a máquina. Para evitar este problema, os inventores dispuseram as letras do teclado de forma a desotimizar a velocidade de digitação – e dar tempo a tempo para que o mecanismo não travasse.

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Como o teclado não é disposto de forma intuitiva, dá trabalho decorar as posições das letras. Mudar um pouquinho a posição das letras obriga novo esforço de aprendizagem pelas pessoas.

Portanto, já que hoje milhões de pessoas dominam o teclado QWERTY, é improvável que alguém o mude no futuro – fazendo todos perderem tempo digitando de forma vagarosa.

 

 

 

 

 

 

 

Algumas palavras sobre Inovação

Reflexões sobre inovação, após vários trabalhos participando, executando, tentando mudar… A maioria das frases é óbvia, porém, é mais fácil falar do que fazer.

 

Inovar por inovar não quer dizer nada. O objetivo final deve ser agregar valor de verdade ao processo, produto ou serviço. Se não agregar valor, serão apenas palavras bonitas que todos querem ouvir.

Ter ideias é relativamento fácil. O gargalo está na execução: desenvolver as ideias, fazer acontecer de verdade, os 99% transpiração x 1% de inspiração de Thomas Edison.

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​Inovação pode ser algo tão pequeno quanto uma mudança simples no processo. Não é necessariamente ligado a tecnologias ou empresas futurísticas.

 

Erre sempre. Mas os erros devem ser pequenos e rápidos. O erro nunca pode ser fatal. E, obviamente, devemos aprender com os erros, corrigir a rota para o resultado final. Erros são inerentes ao processo de inovação. Neste sentido, gosto muito do conceito de prototipagem rápida do Design Thinking. O protótipo é uma forma simples, rápida e fácil de testar conceitos, serve como um MVP (minimum viable product).

A inovação está nos olhos de quem sente. Pode ser algo conhecido no mundo todo, mas se melhorou o processo da pessoa, é uma inovação para ela.

Quase nenhum grande invento veio de um inovador solitário. Normalmente, são redes de inovação: muitas pessoas, trabalhando em vários aspectos da cadeia de suprimentos ao mesmo tempo. Até mesmo o exemplo da lâmpada elétrica, que é atribuída a Edison, na verdade contou com centenas de colaboradores, um network de inovação.

Somente as inovações dentro do possível adjacente são possíveis. São aquelas que estão na fronteira, à sombra, do que já existe atualmente e do que temos domínio. Estão a apenas um passo de onde estamos – não tente dar um passo maior do que a perna, ou dois passos de uma só vez.

O computador eletrônico já tinha um protótipo, 100 anos atrás, construído por Charles Babbage. Mas de nada adiantou, já que não existiam fornecedores, nem técnicos. A ideia tem que estar madura para ser colhida.

Uma forma de ter boas ideias é ter muitas ideias, e um network que consiga filtrar, discutir e melhorar as mesmas.

 

O inesperado é uma grande fonte de inovação. Se esperávamos um comportamento, e na prática encontramos outro, esta pode ser uma grande fonte de oportunidade. Um fracasso inesperado, um sucesso inesperado. Ao invés de tentar justificar o que deu certo ou errado, devemos aproveitar a oportunidade que se abre.

Peter Drucker lista sete fontes de inovação:

  1. Inesperado
  2. Incongruências
  3. Necessidades de processo
  4. Estruturas da indústria e mercado
  5. Mudanças demográficas
  6. Mudanças na percepção
  7. Conhecimento novo

 


Algumas fontes:
· De onde vêm as boas ideias, Steven Johnson
· Inovação Operacional – Robson Quinello
· Innovation and Entrepreunership – Peter Drucker

 

Reinventar a roda e outros aforismos

Reinventar a roda

Um consenso geral é de que é perda de tempo tentar reinventar a roda. É melhor usar a roda e construir em cima desta do que tentar recomeçar do zero.

Estão errados. O único jeito que consigo aprender realmente a fundo alguma coisa é reinventando a roda. É claro que em 99% das vezes realmente vou usar o que está pronto. Mas, nos assuntos em que realmente quero trabalhar e estudar profundamente, tenho que reinventar a roda, ou seja, entender a fundação das fundações.

Não tenho vergonha de reinventar a roda.

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É por isso que, de vez em quando, saio com algumas rodas originais.

 

 


 

Duas metades

História do teatro grego de Aristófanes, de 2500 anos atrás: no início dos tempos, éramos perfeitos. Perfeitos como uma esfera. Os deuses dividiram a esfera perfeita em duas partes, incompletas em si mesmas. Desde então, temos que procurar uma outra metade para nos completar.

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Lavar as mãos

Nunca uma pessoa salvou tantas vidas e foi tão desprezado quanto o médico húngaro Ignaz ​Semmelweis. Em 1847, ele notou que a taxa de mortalidade de mulheres grávidas nos hospitais era maior do que se estas dessem a luz em casa. A medicina fazia mais mal do que bem. Semmelweis sugeriu uma medida extremamente simples: que os médicos lavassem a mão.

​Semmelweis foi desprezado pelos seus pares. Na época, a microbiologia era um assunto desconhecido. Apesar dele afirmar que lavar as dava reduzia bastante os problemas, ele não conseguiu explicar cientificamente o motivo disso dar certo ou não.

Somente anos após a sua morte, e com os estudos da teoria de germes de Louis Pasteur, é que houve aceitação geral de que realmente lavar as mãos era a forma mais básica de prevenção contra infecções.

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Estados fazem guerra e vice-versa

Uma citação interessante, atribuída ao cientista político ​Charles Tilly: “a guerra faz o estado, e estados fazem guerra”. A necessidade de se proteger de outros estados bélicos faz com que haja a necessidade de um estado forte, e um estado forte ajuda este a partir em busca da aquisição de outros estados, num ciclo sem fim.

 


O demônio de Laplace

Um experimento mental de 1814, do matemático Pierre de Laplace.

Imagine um super mega computador, ou como não existiam computadores na época, um demônio. Este computador tem o conhecimento de todas as leis da física, e também tem sensores espalhados em cada átomo do universo, ou seja, conhece a posição, velocidade, momento de inércia, temperatura de tudo o que existe.

Este supercomputador seria capaz de aplicar as leis da física e prever todo a posição futura de todas as partículas do mundo, daqui a um milhão de anos. E, da mesma forma, seria possível voltar no tempo, e dizer como foi o universo há um milhão de anos atrás.

Este experimento reflete bastante o modelo de mundo mecanicista, determinístico, linear, da época.

Há vários furos nesta teoria.

– Leis da termodinâmicas são irreversíveis, notadamente por conta do fator chamado entropia. Digamos, dá para estimar que uma percentagem da energia para mover um pêndulo vai se perder na forma de calor, mas não dá para saber exatamente qual átomo vai liberar calor – e a partir do calor, não dá para rastrear de volta a sua origem.

– Em nível quântico, também não sabemos a posição exata de um elétron – na verdade nem sabemos se existe uma posição exata. É tudo tratado de forma probabilística.

– A teoria do Caos foi um dos grandes avanços do século passado. Um matemático, Edward Lorenz, estava trabalhando em modelos de previsão do tempo. Um dia, gravou o resultado, desligou o computador, e recomeçou os cálculos no dia seguinte. O resultado da previsão deu completamente diferente do que ele tinha anteriormente. Intrigado, ele verificou o que tinha acontecido, e descobriu que uma diferença minúscula no arredondamento dos dados de entrada, digamos proporcional ao bater de asas de uma borboleta, tinha causado esta diferença abismal nos resultados (um furacão do outro lado do mundo).

Mesmo com poucas equações 100% determinísticas, uma variação pequena dos dados de entrada pode provocar alterações enormes no resultado final. Em resumo, o famoso efeito borboleta.

 

Para mim, faz muito mais sentido a afirmação diametralmente oposta: mesmo com todos os supercomputadores do mundo, e com milhões de sensores, não é possível prever o futuro.

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Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ignaz_Semmelweis

http://duckofminerva.com/2013/06/war-made-the-state-and-the-state-made-war.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Laplace%27s_demon

https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_theory

Duas alternativas

Entre duas alternativas, a primeira já conhecida, e outra desconhecida, porém potencialmente melhor, escolha a segunda.
Novos conhecimentos vêm de experiências descorrelacionadas com experiências passadas.
Entre um livro original em inglês e sua tradução em português, escolha sempre o em inglês, para treinar uma segunda língua.
Entre um restaurante conhecido, e um desconhecido, escolha o segundo.
Uma vez fui até Quebec, no Canadá, e almocei no McDonalds. Que perda de oportunidade! Poderia ter almoçado em qualquer lugar, menos num restaurante que tem em qualquer esquina de São Paulo.
Numa reunião ou festa, tente falar com pessoas desconhecidas, não com a mesma panelinha de sempre.
Esta é uma forma simples de treinar o hábito de assumir riscos controlados.

A artificial inteligência artificial

A história da inteligência artificial tem alguns marcos importantes. Um deles é em 1996, quando o computador “Deep Blue” da IBM venceu o grande campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos.

https://blogs-images.forbes.com/davidewalt/files/2011/05/garry-kasparov-deep-blue-ibm.jpg?width=960

Mas, há tempos, a inteligência artificial fascina os seres humanos. Seremos sobrepujados por máquinas e algoritmos? A skynet vai nos dominar? As leis da robótica de Asimov serão suficientes para nos proteger?

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O Deep Blue não foi a primeira tentativa de criar uma IA de xadrez. Há outro marco histórico, de mais de 200 anos atrás: o Turco Mecânico.

 


 

O Turco Mecânico

O Turco Mecânico é um dispositivo automático para jogar xadrez, inventado em 1770 pelo húngaro Wolfgang von Kempelen. É um Deep Blue mecânico.

https://i2.wp.com/www.uh.edu/engines/Tuerkischer_schachspieler_windisch4.jpg

O Turco Mecânico fez vários tours pela Europa, derrotando vários jogadores (humanos) experientes e performando outros malabarismos enxadrísticos, como o “tour do cavalo” – percorrer todas as casas do tabuleiro com um cavalo, sem repetir posição. Durou mais de 80 anos.

Realmente, impressiona ver o interior do dispositivo.

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O único problema é que a inteligência artificial era fake, de mentirinha. Esta tinha na realidade uma pessoa, habilidosa em xadrez, escondida no interior do equipamento. Era uma inteligência artificial artificial. Era tipo um truque de mágica, um ilusionismo barato.

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O Turco Mecânico da Amazon

Duzentos anos depois, e inspirado pelo turco mecânico original, a Amazon criou um serviço chamado Amazon Mechanical Turk (doravante AMT).

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A ideia é focar em problemas difíceis de serem resolvidos por computadores, como transcrever discursos, reconhecer caracteres ambíguos, encontrar humanos em vídeos, reconhecer letra de médico em receitas…

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A AMT divide esses problemas em pedacinhos e disponibiliza cada pedacinho ao mercado (pessoas comuns como nós). Essas pessoas gastam o seu tempo, digamos alguns minutos, para ler o problema, resolver e enviar o resultado para a AMT.

Desta forma, é bom para quem quer a análise humana do trabalho, e para as pessoas, que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, em horas vagas, e receber uma fração de dólares pelo trabalho (não espere que seja um trabalho bem remunerado).

Para minimizar erros, imagino que a AMT faça o trabalho com redundância, digamos mande o mesmo pedacinho de trabalho para duas ou três pessoas confirmarem. E também, imagino que a AMT premie os humanos que trabalham consistentemente bem, e expulse quem performa mal.

Note que o AMT é uma fonte poderosa para treinamento de uma inteligência artificial de verdade.

https://s3.amazonaws.com/re-work-production/post_images/120/grid_render_tsne_reduced/original.jpg?1448643307

Uma rede neural para reconhecer objetos em imagens, precisa de:

  •  Um banco de dados imenso, digamos 10 milhões de imagens
  • Classificação correta das imagens deste banco de dados: isto é um gatinho, isto é um carro, etc

 

Rotular 10 milhões de imagens é um processo chato, lento e caro. Mas isto vai ajudar a melhorar os sistema de reconhecimento futuros.

Da mesma forma, a transcrição de linguagem falada vai ajudar a treinar a IA que vai fazer isto automaticamente no futuro.

Os turcos mecânicos do mundo de hoje ajudam nisto, a criar as bases de dados para possibilitar os deep blues de amanhã.


Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Turk

https://www.mturk.com/mturk/welcome

 

 

O loop infinito das Leis da Robótica

Nos anos 90, li pela primeira vez sobre as 3 leis da robótica no livro “Eu, Robô” de Isaac Asimov.

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Não levei o livro nem um pouco a sério, afinal era apenas ficção científica. Estávamos muito longe de ter robôs inteligentes. E o livro também tinha passagens que poderiam parecer futuristas em 1950, mas em 1995 já não eram. Por exemplo, um dos personagens tinha um taquígrafo de bolso – um taquígrafo é tipo uma máquina de escrever que permitia uma digitação super rápida. Porém, em 1995 as máquinas de escrever já estavam em seu suspiro final.

 

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Nunca imaginei que reencontraria os conceitos de Asimov, e dessa vez seriamente, mais de vinte anos depois.

E há um motivo forte para isto. A singularidade está próxima.

 


 

The end is nigh

A singularidade é o momento em que os computadores serão mais inteligentes do que nós. Este é um termo cunhado por Ray Kursweil, um pesquisador futurista. Kursweil prevê que isto deva ocorrer por volta de 2045.

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“O fim está próximo” – personagem Rorschach

 

Mas, profecias à parte, o que é relevante para nós é que está havendo um avanço tecnológico imenso. Os algoritmos estão sendo cada vez mais parte de nossas vidas.

Em um futuro não tão distante, aplicações de internet das coisas, veículos autônomos, computação avançada, inteligência artificial, robotização de processos, estarão presentes em nossas vidas. O avanço exponencial destas tecnologias é traduzido pela Lei de Moore, que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, para o mesmo custo de produção.

Moore

Portanto, não precisamos atingir a singularidade para termos problemas com tal escalada tecnológica. Este futuro trará não apenas problemas técnicos, mas verdadeiros problemas éticos.


 

A ética robótica

Algumas perguntas esparsas:

  • De quem é a responsabilidade em caso de acidentes com veículos autônomos?
  • Um robô pode ferir um ser humano?
  • O que acontece se um texto, ou um chatbot, ofender um ser humano?
  • Haverá perda de autoridade humana, caso os robôs fiquem melhores do que nós no prognóstico de doenças (exemplo: médicos x autodiagnóstico no Google)?
  • Uma máquina pode mentir se for para um bem maior? E como uma máquina poderia avaliar o que é um “bem maior”?
  • Como evitar problemas afetivos com robôs? Este caso pode parecer bizarro, mas, no Japão há pessoas que se apaixonam por personagens em quadrinhos, porque não haveriam pessoas que se apaixonem por robôs?

 

A ficção científica está se encontrando com a realidade. Há alguns pesquisadores renomados, atuando no assunto “Ética robótica”. Tive a sorte de ver a palestra de um deles, o prof. Edson Prestes, da UFRGS.

O prof. Prestes faz parte de um grupo do IEEE (Instituto de engenheiros elétricos e eletrônicos), que está estudando um série de normas para guiar o desenvolvimento no assunto.

Esta é a “Iniciativa global por considerações éticas em inteligência artificial e sistemas autônomos”.

IEEE.png

É onde a filosofia encontra a tecnologia.

É onde a Eudamonia de Aristóteles (práticas que definem o bem-estar da humanidade) de 3000 anos atrás, encontra-se com alguns dos maiores engenheiros eletrônicos do mundo atual. Literalmente. Vide o print do sumário executivo do grupo.

Eudamonia.png

A ética, mesmo para humanos, é extremamente complexa, um assunto sem fim. Com a participação de robôs, e interações humano-humano, humano-robô, robô-robô, abre-se um leque inimaginável de possibilidades e dilemas éticos.

Espera-se que iniciativas como a do IEEE ajudem a humanidade a projetar um futuro em que os robôs realmente sejam parte de nosso ecossistema. Para maiores informações sobre os temas de trabalho do IEEE, vide links ao final do documento.


 

As Três Leis da Robótica

Retornando ao início, é impossível falar de ética robótica sem falar das três leis de Asimov. Coloque tal tema em discussão, e com certeza alguém vai levantar este ponto.

Asimov, no conto Runaround (algo como “correndo em círculos”) do livro “Eu, Robô”, expõe as três leis da robótica.

 

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir, por omissão, que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 

As 3 leis são hard-coded nos circuitos positrônicos (termo de Asimov, seja lá o que for) dos robôs, de forma que não há possibilidades deles não cumprirem tais diretrizes.

As três leis parecem muito boas. Entretanto, sendo um excelente escritor, Asimov dá um jeito de criar um situação em que as leis se contradizem. Ele cria um bug, um bug lógico.

Quem sabe programar conhece bugs lógicos. Algo como:
i := 1
while (i >0) do:
i++
i – –
print i
end

Tal programinha nunca vai parar, fica em loop infinito.

E é impossível, de antemão, saber se um programa vai ou não parar (este é o Halting Problem, provado por Alan Turing e que foi uma das pedras fundamentais para o início da computação).

 

O bug lógico de Runaroud é mais ou menos assim:
– humanos mandaram o robô (chamado Speedy) coletar selênio, essencial para a sobrevivência deles
– entretanto, o humano não colocou muita ênfase na importância da ordem
– Speedy, sendo um robô muito avançado e caro, tinha ênfase especial na lei 3 (ele mesmo sobreviver)
– o local para coleta de selênio era extremamente perigoso, quando Speedy se aproximava da fonte, ele recuava para se proteger (lei 3)
– quando ficava longe o suficiente para ficar seguro, a lei 2 (obedecer à ordem humana) tinha peso maior, e ele tentava retornar à fonte
– Speedy ficou horas nesse loop infinito, se aproximando e se afastando da fonte de selênio.

O selênio estava acabando, e os astronautas (humanos) iriam morrer. Eles foram atrás de Speedy, detectaram o problema. Como Speedy era rápido demais (daí o seu nome), eles não conseguiam alcançá-lo para dar outra ordem. Os astronautas tentaram uma solução: enfatizar a lei 3. Jogaram umas substâncias tóxicas (para o robô) no trajeto – assim tinham a esperança de quebrar o loop e fazer ele retornar à base.
Não deu certo. Speedy encontrou outro ponto de equilíbrio: ia até o local onde as substâncias tóxicas estavam, recuava, e tentava de novo, infinitamente.

https://i0.wp.com/www.asimovreviews.net/BookCoversFullSize/002Bantam.jpg

Numa tentativa desesperada, eles imaginaram uma forma de utilizar a lei 1, especialmente a parte que diz que um robô não deve permitir que um humano sofra algum mal por omissão. Esta era a última esperança, o selênio da base estava acabando e não havia mais tempo.

Teriam os astronautas se safado? Ou não?

A história original é interessante demais, e recomendo a leitura, para saber o final da história.

 


Conclusão

Fica a provocação final: mesmo estudando profundamente todo o comportamento robótico e humano, e mesmo estabelecendo regras éticas a serem seguidas rigidamente pelos robôs pós-singularidade, não haverão bugs impossíveis de serem descobertos a priori?

A lei Zero da robótica: “Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal” – Isaac Asimov.

 

“Se o nosso cérebro fosse tão simples a ponto que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos” – Lyall Watson, biólogo.

 

“Me desculpe, Dave, mas receio que não posso fazer isso” – HAL 9000, no filme 2001, uma odisseia no espaço.

 


Links

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/ficcao-cientifica/eu-robo-42747426

http://standards.ieee.org/develop/indconn/ec/autonomous_systems.html
http://www.inf.ufrgs.br/~prestes/site/Welcome.html
https://futurism.com/kurzweil-claims-that-the-singularity-will-happen-by-2045/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lançamento do Plano de Ação de Internet das Coisas

A Internet das Coisas terá certamente um efeito imenso num futuro não tão distante. Uma excelente notícia é que o Brasil tem um plano para acelerar a implementação dela. Este estudo foi liderado pelo BNDES, e se chama “Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil”.

Estive no lançamento oficial do plano, na Futurecom 2017, agora em 03 de outubro de 2017.

A seguir, um breve resumo do resultado deste plano. O estudo final, que é público, pode ser acessado neste link.

https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

 


 

O que é Internet das Coisas?

 

Se hoje temos a internet, que conecta pessoas, no futuro teremos sensores cada vez menores e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, locais de interesse.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT):

Internet das Coisas é uma infraestrutura global para a sociedade da informação, que habilita serviços avançados por meio da interconexão entre coisas (físicas e virtuais), com base nas tecnologias de informação e comunicação.

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Casos considerados no estudo do BNDES

Segundo Michael Porter, a IoT é “a mudança mais substancial na produção de bens desde a Segunda Revolução Industrial”.

Nota: a Revolução Industrial é o momento em que a humanidade passou a utilizar, cada vez mais, máquinas para automatizar o serviço humano. Sempre há uma tecnologia disruptiva por trás dessas revoluções:

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Há várias tentativas de mensuração do efeito da Internet das Coisas. Pela McKinsey, o ganho potencial é de 4% a 11% do PIB do planeta em 2025, o que significa 4 e 11 trilhões de dólares.

 


 

Benefícios à sociedade

Mas, somente conectar dispositivos por conectar não leva a nada. Isto tem que servir para alguma finalidade, e tem que servir preferencialmente às pessoas.

O estudo teve como guia os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Estes são uma espécie de sonhos globais. Como são muitos, destaco alguns como: cidades sustentáveis, energia limpa e acessível e educação de qualidade.

http://www.itu.int/en/sustainable-world/Pages/default.aspx

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“The United Nations’ Sustainable Development Goals (SDGs) and associated targets will stimulate action until 2030 in areas of critical importance for humanity”

O papel da Internet das coisas dentro do contexto de desenvolvimento sustentável está descrito no quadro a seguir:

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Frentes prioritárias verticais

O estudo analisou oportunidades de negócios para IoT no Brasil e no mundo por ambientes, e identificou 4 frentes prioritárias de atuação:

  • Cidades
  • Saúde
  • Rural
  • Indústria

 

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Tais frentes foram chamadas de verticais.

 


 

Frentes prioritárias horizontais

As frentes horizontais envolvem barreiras comuns a todos os ambientes verticais. Também são 4 frentes, e representam os maiores gargalos para a implementação de IoT no Brasil:

  • Capital Humano,
  • Inovação e inserção internacional,
  • Ambiente regulatório, segurança e privacidade
  • Infraestrutura de conectividade

 

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Ações

O estudo se aprofundou nas priorizações horizontais e verticais, chegando a

  • 48 iniciativas, e
  • 3 projetos mobilizadores

 

detalhados nos tópicos a seguir.

 


 

Iniciativas

 

O estudo levantou, juntamente a especialistas e representantes dos setores, cerca de 200 iniciativas. Após refinamento com BNDES e MCTIC e Câmera IoT, chegou-se a 48 iniciativas.

 

As iniciativas mapeadas serão foco de aprofundamento nos próximos 5 anos, cada qual com a sua governança e detalhamentos específicos.

As iniciativas foram divididas em três tipos: Ações estruturantes, Medidas e Elementos catalisadores.

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Por alto:

  • Ações estruturantes: alto impacto, decisões pelo alto escalão dos órgãos do estudo
  • Medidas: Médio impacto, decisões no nível gerencial
  • Elementos catalisadores: alto impacto, não estão sob a governança do projeto (ex. melhoria da educação básica)

Como são muitas iniciativas, vou colocar algumas somente para ilustrar.

 

Iniciativa A1: Estruturar 4 Redes de Inovação em Rural, Saúde, Cidades e Indústria

Iniciativa M1: Promover congressos e eventos sobre IoT nos ambientes priorizados e fomentar a discussão de IoT em conferências, congressos e fóruns de discussões já existentes dos ambientes priorizados

Iniciativa A8: Fomentar bolsas mestrado, doutorado e pós-doutorado em parceria com empresas que estejam desenvolvendo IoT

Iniciativa A17: Priorizar soluções que se valham de protocolos e interfaces de comunicação padronizados por órgãos reconhecidos como ITU, IEEE, ETSI, etc

A lista completa encontra-se no site do BNDES.

 


 

Projetos Mobilizadores

Além das iniciativas, foram elencados três projetos mobilizadores: Formação de ecossistema de inovação, Observatório de IoT, IoT em Cidades

 

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  • Ecossistema de inovação: rede de empresas consolidadas, startups e centros de competência
  • Observatório de IoT: Acompanhamento de iniciativas e acesso à informação sobre mecanismos de fomento
  • IoT em Cidades: Apoio técnico e financiamento para a adoção de IoT em cidades

 


 

Conclusão

A IoT tem um potencial disruptivo enorme. O pano de fundo desta nova revolução é o desenvolvimento tecnológico, resumido pela Lei de Moore, conforme este link.

Com muita probabilidade, alguma solução que será disruptiva no futuro nem está sendo contemplada atualmente.

Está havendo uma autêntica corrida armamentista global pelos provedores de solução IoT – um exemplo são os novos protocolos de redes SigFox x Lora x LTE-M. Quem vencerá? Ninguém sabe…

O BNDES acerta na mosca ao dar um empurrãozinho para que o IoT decole no Brasil, tentando eliminar gargalos  e fomentando o desenvolvimento de novas tecnologias.

Vamos acompanhar (de perto) as cenas dos próximos capítulos.