Duas alternativas

Entre duas alternativas, a primeira já conhecida, e outra desconhecida, porém potencialmente melhor, escolha a segunda.
Novos conhecimentos vêm de experiências descorrelacionadas com experiências passadas.
Entre um livro original em inglês e sua tradução em português, escolha sempre o em inglês, para treinar uma segunda língua.
Entre um restaurante conhecido, e um desconhecido, escolha o segundo.
Uma vez fui até Quebec, no Canadá, e almocei no McDonalds. Que perda de oportunidade! Poderia ter almoçado em qualquer lugar, menos num restaurante que tem em qualquer esquina de São Paulo.
Numa reunião ou festa, tente falar com pessoas desconhecidas, não com a mesma panelinha de sempre.
Esta é uma forma simples de treinar o hábito de assumir riscos controlados.

A artificial inteligência artificial

A história da inteligência artificial tem alguns marcos importantes. Um deles é em 1996, quando o computador “Deep Blue” da IBM venceu o grande campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos.

https://blogs-images.forbes.com/davidewalt/files/2011/05/garry-kasparov-deep-blue-ibm.jpg?width=960

Mas, há tempos, a inteligência artificial fascina os seres humanos. Seremos sobrepujados por máquinas e algoritmos? A skynet vai nos dominar? As leis da robótica de Asimov serão suficientes para nos proteger?

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O Deep Blue não foi a primeira tentativa de criar uma IA de xadrez. Há outro marco histórico, de mais de 200 anos atrás: o Turco Mecânico.

 


 

O Turco Mecânico

O Turco Mecânico é um dispositivo automático para jogar xadrez, inventado em 1770 pelo húngaro Wolfgang von Kempelen. É um Deep Blue mecânico.

https://i0.wp.com/www.uh.edu/engines/Tuerkischer_schachspieler_windisch4.jpg

O Turco Mecânico fez vários tours pela Europa, derrotando vários jogadores (humanos) experientes e performando outros malabarismos enxadrísticos, como o “tour do cavalo” – percorrer todas as casas do tabuleiro com um cavalo, sem repetir posição. Durou mais de 80 anos.

Realmente, impressiona ver o interior do dispositivo.

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O único problema é que a inteligência artificial era fake, de mentirinha. Esta tinha na realidade uma pessoa, habilidosa em xadrez, escondida no interior do equipamento. Era uma inteligência artificial artificial. Era tipo um truque de mágica, um ilusionismo barato.

https://blog.beeminder.com/wp-content/uploads/2016/12/mturk-s.jpg

 


O Turco Mecânico da Amazon

Duzentos anos depois, e inspirado pelo turco mecânico original, a Amazon criou um serviço chamado Amazon Mechanical Turk (doravante AMT).

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A ideia é focar em problemas difíceis de serem resolvidos por computadores, como transcrever discursos, reconhecer caracteres ambíguos, encontrar humanos em vídeos, reconhecer letra de médico em receitas…

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A AMT divide esses problemas em pedacinhos e disponibiliza cada pedacinho ao mercado (pessoas comuns como nós). Essas pessoas gastam o seu tempo, digamos alguns minutos, para ler o problema, resolver e enviar o resultado para a AMT.

Desta forma, é bom para quem quer a análise humana do trabalho, e para as pessoas, que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, em horas vagas, e receber uma fração de dólares pelo trabalho (não espere que seja um trabalho bem remunerado).

Para minimizar erros, imagino que a AMT faça o trabalho com redundância, digamos mande o mesmo pedacinho de trabalho para duas ou três pessoas confirmarem. E também, imagino que a AMT premie os humanos que trabalham consistentemente bem, e expulse quem performa mal.

Note que o AMT é uma fonte poderosa para treinamento de uma inteligência artificial de verdade.

https://s3.amazonaws.com/re-work-production/post_images/120/grid_render_tsne_reduced/original.jpg?1448643307

Uma rede neural para reconhecer objetos em imagens, precisa de:

  •  Um banco de dados imenso, digamos 10 milhões de imagens
  • Classificação correta das imagens deste banco de dados: isto é um gatinho, isto é um carro, etc

 

Rotular 10 milhões de imagens é um processo chato, lento e caro. Mas isto vai ajudar a melhorar os sistema de reconhecimento futuros.

Da mesma forma, a transcrição de linguagem falada vai ajudar a treinar a IA que vai fazer isto automaticamente no futuro.

Os turcos mecânicos do mundo de hoje ajudam nisto, a criar as bases de dados para possibilitar os deep blues de amanhã.


Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Turk

https://www.mturk.com/mturk/welcome

 

 

O loop infinito das Leis da Robótica

Nos anos 90, li pela primeira vez sobre as 3 leis da robótica no livro “Eu, Robô” de Isaac Asimov.

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Não levei o livro nem um pouco a sério, afinal era apenas ficção científica. Estávamos muito longe de ter robôs inteligentes. E o livro também tinha passagens que poderiam parecer futuristas em 1950, mas em 1995 já não eram. Por exemplo, um dos personagens tinha um taquígrafo de bolso – um taquígrafo é tipo uma máquina de escrever que permitia uma digitação super rápida. Porém, em 1995 as máquinas de escrever já estavam em seu suspiro final.

 

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Nunca imaginei que reencontraria os conceitos de Asimov, e dessa vez seriamente, mais de vinte anos depois.

E há um motivo forte para isto. A singularidade está próxima.

 


 

The end is nigh

A singularidade é o momento em que os computadores serão mais inteligentes do que nós. Este é um termo cunhado por Ray Kursweil, um pesquisador futurista. Kursweil prevê que isto deva ocorrer por volta de 2045.

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“O fim está próximo” – personagem Rorschach

 

Mas, profecias à parte, o que é relevante para nós é que está havendo um avanço tecnológico imenso. Os algoritmos estão sendo cada vez mais parte de nossas vidas.

Em um futuro não tão distante, aplicações de internet das coisas, veículos autônomos, computação avançada, inteligência artificial, robotização de processos, estarão presentes em nossas vidas. O avanço exponencial destas tecnologias é traduzido pela Lei de Moore, que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, para o mesmo custo de produção.

Moore

Portanto, não precisamos atingir a singularidade para termos problemas com tal escalada tecnológica. Este futuro trará não apenas problemas técnicos, mas verdadeiros problemas éticos.


 

A ética robótica

Algumas perguntas esparsas:

  • De quem é a responsabilidade em caso de acidentes com veículos autônomos?
  • Um robô pode ferir um ser humano?
  • O que acontece se um texto, ou um chatbot, ofender um ser humano?
  • Haverá perda de autoridade humana, caso os robôs fiquem melhores do que nós no prognóstico de doenças (exemplo: médicos x autodiagnóstico no Google)?
  • Uma máquina pode mentir se for para um bem maior? E como uma máquina poderia avaliar o que é um “bem maior”?
  • Como evitar problemas afetivos com robôs? Este caso pode parecer bizarro, mas, no Japão há pessoas que se apaixonam por personagens em quadrinhos, porque não haveriam pessoas que se apaixonem por robôs?

 

A ficção científica está se encontrando com a realidade. Há alguns pesquisadores renomados, atuando no assunto “Ética robótica”. Tive a sorte de ver a palestra de um deles, o prof. Edson Prestes, da UFRGS.

O prof. Prestes faz parte de um grupo do IEEE (Instituto de engenheiros elétricos e eletrônicos), que está estudando um série de normas para guiar o desenvolvimento no assunto.

Esta é a “Iniciativa global por considerações éticas em inteligência artificial e sistemas autônomos”.

IEEE.png

É onde a filosofia encontra a tecnologia.

É onde a Eudamonia de Aristóteles (práticas que definem o bem-estar da humanidade) de 3000 anos atrás, encontra-se com alguns dos maiores engenheiros eletrônicos do mundo atual. Literalmente. Vide o print do sumário executivo do grupo.

Eudamonia.png

A ética, mesmo para humanos, é extremamente complexa, um assunto sem fim. Com a participação de robôs, e interações humano-humano, humano-robô, robô-robô, abre-se um leque inimaginável de possibilidades e dilemas éticos.

Espera-se que iniciativas como a do IEEE ajudem a humanidade a projetar um futuro em que os robôs realmente sejam parte de nosso ecossistema. Para maiores informações sobre os temas de trabalho do IEEE, vide links ao final do documento.


 

As Três Leis da Robótica

Retornando ao início, é impossível falar de ética robótica sem falar das três leis de Asimov. Coloque tal tema em discussão, e com certeza alguém vai levantar este ponto.

Asimov, no conto Runaround (algo como “correndo em círculos”) do livro “Eu, Robô”, expõe as três leis da robótica.

 

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir, por omissão, que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 

As 3 leis são hard-coded nos circuitos positrônicos (termo de Asimov, seja lá o que for) dos robôs, de forma que não há possibilidades deles não cumprirem tais diretrizes.

As três leis parecem muito boas. Entretanto, sendo um excelente escritor, Asimov dá um jeito de criar um situação em que as leis se contradizem. Ele cria um bug, um bug lógico.

Quem sabe programar conhece bugs lógicos. Algo como:
i := 1
while (i >0) do:
i++
i – –
print i
end

Tal programinha nunca vai parar, fica em loop infinito.

E é impossível, de antemão, saber se um programa vai ou não parar (este é o Halting Problem, provado por Alan Turing e que foi uma das pedras fundamentais para o início da computação).

 

O bug lógico de Runaroud é mais ou menos assim:
– humanos mandaram o robô (chamado Speedy) coletar selênio, essencial para a sobrevivência deles
– entretanto, o humano não colocou muita ênfase na importância da ordem
– Speedy, sendo um robô muito avançado e caro, tinha ênfase especial na lei 3 (ele mesmo sobreviver)
– o local para coleta de selênio era extremamente perigoso, quando Speedy se aproximava da fonte, ele recuava para se proteger (lei 3)
– quando ficava longe o suficiente para ficar seguro, a lei 2 (obedecer à ordem humana) tinha peso maior, e ele tentava retornar à fonte
– Speedy ficou horas nesse loop infinito, se aproximando e se afastando da fonte de selênio.

O selênio estava acabando, e os astronautas (humanos) iriam morrer. Eles foram atrás de Speedy, detectaram o problema. Como Speedy era rápido demais (daí o seu nome), eles não conseguiam alcançá-lo para dar outra ordem. Os astronautas tentaram uma solução: enfatizar a lei 3. Jogaram umas substâncias tóxicas (para o robô) no trajeto – assim tinham a esperança de quebrar o loop e fazer ele retornar à base.
Não deu certo. Speedy encontrou outro ponto de equilíbrio: ia até o local onde as substâncias tóxicas estavam, recuava, e tentava de novo, infinitamente.

https://i1.wp.com/www.asimovreviews.net/BookCoversFullSize/002Bantam.jpg

Numa tentativa desesperada, eles imaginaram uma forma de utilizar a lei 1, especialmente a parte que diz que um robô não deve permitir que um humano sofra algum mal por omissão. Esta era a última esperança, o selênio da base estava acabando e não havia mais tempo.

Teriam os astronautas se safado? Ou não?

A história original é interessante demais, e recomendo a leitura, para saber o final da história.

 


Conclusão

Fica a provocação final: mesmo estudando profundamente todo o comportamento robótico e humano, e mesmo estabelecendo regras éticas a serem seguidas rigidamente pelos robôs pós-singularidade, não haverão bugs impossíveis de serem descobertos a priori?

A lei Zero da robótica: “Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal” – Isaac Asimov.

 

“Se o nosso cérebro fosse tão simples a ponto que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos” – Lyall Watson, biólogo.

 

“Me desculpe, Dave, mas receio que não posso fazer isso” – HAL 9000, no filme 2001, uma odisseia no espaço.

 


Links

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/ficcao-cientifica/eu-robo-42747426

http://standards.ieee.org/develop/indconn/ec/autonomous_systems.html
http://www.inf.ufrgs.br/~prestes/site/Welcome.html
https://futurism.com/kurzweil-claims-that-the-singularity-will-happen-by-2045/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lançamento do Plano de Ação de Internet das Coisas

A Internet das Coisas terá certamente um efeito imenso num futuro não tão distante. Uma excelente notícia é que o Brasil tem um plano para acelerar a implementação dela. Este estudo foi liderado pelo BNDES, e se chama “Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil”.

Estive no lançamento oficial do plano, na Futurecom 2017, agora em 03 de outubro de 2017.

A seguir, um breve resumo do resultado deste plano. O estudo final, que é público, pode ser acessado neste link.

https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

 


 

O que é Internet das Coisas?

 

Se hoje temos a internet, que conecta pessoas, no futuro teremos sensores cada vez menores e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, locais de interesse.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT):

Internet das Coisas é uma infraestrutura global para a sociedade da informação, que habilita serviços avançados por meio da interconexão entre coisas (físicas e virtuais), com base nas tecnologias de informação e comunicação.

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Casos considerados no estudo do BNDES

Segundo Michael Porter, a IoT é “a mudança mais substancial na produção de bens desde a Segunda Revolução Industrial”.

Nota: a Revolução Industrial é o momento em que a humanidade passou a utilizar, cada vez mais, máquinas para automatizar o serviço humano. Sempre há uma tecnologia disruptiva por trás dessas revoluções:

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Há várias tentativas de mensuração do efeito da Internet das Coisas. Pela McKinsey, o ganho potencial é de 4% a 11% do PIB do planeta em 2025, o que significa 4 e 11 trilhões de dólares.

 


 

Benefícios à sociedade

Mas, somente conectar dispositivos por conectar não leva a nada. Isto tem que servir para alguma finalidade, e tem que servir preferencialmente às pessoas.

O estudo teve como guia os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Estes são uma espécie de sonhos globais. Como são muitos, destaco alguns como: cidades sustentáveis, energia limpa e acessível e educação de qualidade.

http://www.itu.int/en/sustainable-world/Pages/default.aspx

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“The United Nations’ Sustainable Development Goals (SDGs) and associated targets will stimulate action until 2030 in areas of critical importance for humanity”

O papel da Internet das coisas dentro do contexto de desenvolvimento sustentável está descrito no quadro a seguir:

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Frentes prioritárias verticais

O estudo analisou oportunidades de negócios para IoT no Brasil e no mundo por ambientes, e identificou 4 frentes prioritárias de atuação:

  • Cidades
  • Saúde
  • Rural
  • Indústria

 

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Tais frentes foram chamadas de verticais.

 


 

Frentes prioritárias horizontais

As frentes horizontais envolvem barreiras comuns a todos os ambientes verticais. Também são 4 frentes, e representam os maiores gargalos para a implementação de IoT no Brasil:

  • Capital Humano,
  • Inovação e inserção internacional,
  • Ambiente regulatório, segurança e privacidade
  • Infraestrutura de conectividade

 

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Ações

O estudo se aprofundou nas priorizações horizontais e verticais, chegando a

  • 48 iniciativas, e
  • 3 projetos mobilizadores

 

detalhados nos tópicos a seguir.

 


 

Iniciativas

 

O estudo levantou, juntamente a especialistas e representantes dos setores, cerca de 200 iniciativas. Após refinamento com BNDES e MCTIC e Câmera IoT, chegou-se a 48 iniciativas.

 

As iniciativas mapeadas serão foco de aprofundamento nos próximos 5 anos, cada qual com a sua governança e detalhamentos específicos.

As iniciativas foram divididas em três tipos: Ações estruturantes, Medidas e Elementos catalisadores.

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Por alto:

  • Ações estruturantes: alto impacto, decisões pelo alto escalão dos órgãos do estudo
  • Medidas: Médio impacto, decisões no nível gerencial
  • Elementos catalisadores: alto impacto, não estão sob a governança do projeto (ex. melhoria da educação básica)

Como são muitas iniciativas, vou colocar algumas somente para ilustrar.

 

Iniciativa A1: Estruturar 4 Redes de Inovação em Rural, Saúde, Cidades e Indústria

Iniciativa M1: Promover congressos e eventos sobre IoT nos ambientes priorizados e fomentar a discussão de IoT em conferências, congressos e fóruns de discussões já existentes dos ambientes priorizados

Iniciativa A8: Fomentar bolsas mestrado, doutorado e pós-doutorado em parceria com empresas que estejam desenvolvendo IoT

Iniciativa A17: Priorizar soluções que se valham de protocolos e interfaces de comunicação padronizados por órgãos reconhecidos como ITU, IEEE, ETSI, etc

A lista completa encontra-se no site do BNDES.

 


 

Projetos Mobilizadores

Além das iniciativas, foram elencados três projetos mobilizadores: Formação de ecossistema de inovação, Observatório de IoT, IoT em Cidades

 

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  • Ecossistema de inovação: rede de empresas consolidadas, startups e centros de competência
  • Observatório de IoT: Acompanhamento de iniciativas e acesso à informação sobre mecanismos de fomento
  • IoT em Cidades: Apoio técnico e financiamento para a adoção de IoT em cidades

 


 

Conclusão

A IoT tem um potencial disruptivo enorme. O pano de fundo desta nova revolução é o desenvolvimento tecnológico, resumido pela Lei de Moore, conforme este link.

Com muita probabilidade, alguma solução que será disruptiva no futuro nem está sendo contemplada atualmente.

Está havendo uma autêntica corrida armamentista global pelos provedores de solução IoT – um exemplo são os novos protocolos de redes SigFox x Lora x LTE-M. Quem vencerá? Ninguém sabe…

O BNDES acerta na mosca ao dar um empurrãozinho para que o IoT decole no Brasil, tentando eliminar gargalos  e fomentando o desenvolvimento de novas tecnologias.

Vamos acompanhar (de perto) as cenas dos próximos capítulos.

 

 

 

 

Nietzsche e van Gogh: loucos geniais

O pano de fundo deste espaço são telas de Vincent van Gogh. Isto não é mero acaso.
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Tela: Ponte Langlois
Gosto muito dos traços fortes e cores vívidas de suas paisagens. Quando olho para uma tela de van Gogh, não deixo de pensar: “uma obra bonita… e muito louca”.
https://www.thetapestryhouse.com/media/transfer/img/fa195_starry_night_van_gogh_large.jpg
Tela: Noite estrelada
O mesmo acontece com Friedrich Nietzsche. Ideias fortes, sem meio-termo. Provocações que fazem, no mínimo, refletir.
“Deus está morto”. “A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”,
– em críticas ao cristianismo.
“Sou um discípulo do profeta Dionísio”,
– em alusão à dualidade ordem-caos, em que ele prefere o lado do caos.
“Sócrates é feio. Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo”,
– fazendo filosofia com o martelo, como ele mesmo diz.
“A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos. Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-se apenas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada”,
– criticando a democracia.
“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla”,
– não sei o que significa esse negócio de abismo, mas é uma frase bem legal.
Não deixo de pensar: “uma obra bonita… e extremamente louca”.
Nietzsche
Há várias semelhanças na vida desses dois gênios.
Foram contemporâneos. Ambos viveram na Europa do final do séc. XIX. Nietzsche na Alemanha, van Gogh na Holanda, e morreram jovens e insanos mentalmente. Os pais de ambos eram pastores, e a família, religiosa.
Ambos dedicaram períodos imensos de suas vidas ao trabalho, mas tiveram zero sucesso em vida: van Gogh vendeu um apenas um quadro. Van Gogh não parava em emprego algum. Ele foi sustentado financeiramente pelo seu irmão mais novo Theo, a vida toda.
A man is scattering seeds in a ploughed field. The figure is represented as small, and is set in the upper right and walking out of the picture. He carries a bag of seed over one shoulder. The ploughed soil is grey, and behind it rises a standing crop, and in the left distance, a farmhouse. In the centre of the horizon is a giant yellow rising sun with emanating yellow rays. A path leads into the picture, and birds are swooping down.
Tela: O semeador
Nietzsche foi professor na Universidade da Basileia, mas se aposentou muito cedo por motivos de saúde. Passou o resto da vida ganhando um salário bastante modesto, e tendo uma vida também muito humilde. Ele dedicou vários anos escrevendo as suas obras, mas ninguém quis publicá-las. Ele bancou as próprias publicações, mas não obteve reconhecimento algum.
https://mydailyartdisplay.files.wordpress.com/2012/01/vincent_van_gogh_00191.jpg?w=811&h=669
Tela: A colheita
O amor também lhes foi negado.
Van Gogh apaixonou-se algumas vezes, mas recebeu respostas como “nunca, nunca, nunca”. O mais próximo de casamento que chegou foi com uma prostituta chamada Sien, que já tinha uma filha grande e estava grávida de outro filho.
A obra “Sorrow” (tristeza)
Van Gogh fez vários desenhos dela.
Sien tomando conta do bebê
Porém, a família de van Gogh rejeitou este relacionamento, e eles romperam alguns anos depois.
Nietzsche interessou-se por algumas mulheres, mas nunca foi correspondido. Uma, em especial, lhe foi muito cara. Lou Salomé foi a mulher que mais se aproximou de Nietzsche. Ela tinha um nível intelectual muito alto, e talvez fosse a única que compreendesse a profundidade de seu pensamento. Passavam horas caminhando e discutindo filosofia.
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Entretanto, o interesse dela era pelo filósofo, não pelo homem. Nietzsche tomou um fora da qual nunca se recuperou direito.
Dizem que van Gogh cortou a própria orelha, após um acesso de fúria. Outros dizem que ele cortou a orelha porque não estava conseguindo pintá-la em seus quadros. De qualquer forma, van Gogh passou vários anos em hospitais psiquiátricos, onde ficava o dia inteiro pintando.
Van Gogh morreu aos 37 anos, com um tiro no peito – talvez causado por ele mesmo, talvez não.
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Já Nietzsche perdeu completamente a sanidade ao tentar impedir um homem de chicotear o seu cavalo. Viveu os 11 anos seguintes completamente louco, alheio à realidade, sob os cuidados da irmã – esta era partidária do partido nazista e reinterpretou várias das obras de Nietzsche sob a sua ótica particular. Morreu aos 55 anos.
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Tanto van Gogh quanto Nietzsche tiveram casos de sífilis, provavelmente por conta de bordéis baratos.  Muitos atribuem os problemas mentais de ambos à sífilis.
Prefiro pensar que a genialidade deles era maior do que qualquer cérebro humano poderia suportar. E que eles viveram o tempo mínimo suficiente para deixar as suas marcas: eles estavam à frente de seu tempo.
Alguns homens já nascem póstumos – Friedrich Nietzsche.

 


Links

Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil

Participei recentemente de uma reunião no BNDES sobre Internet das Coisas, representando a minha empresa. As reflexões a seguir são um misto do material do BNDES (público), com ideias minhas.

 


Tecnologias disruptivas

Hoje, em 2017, há uma série de tecnologias que prometem ser disruptivas num futuro próximo: mobilidade, automação, cloud, veículos autônomos, impressoras 3D. A Internet das Coisas é uma dessas aplicações disruptivas, em qualquer lista de tecnologia que se preze.

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O que é a Internet das Coisas?

A computação evolui tremendamente nas últimas décadas.

Nos anos 1920, o matemático Alan Turing pensou sobre computação, o que poderia ou não ser computado, e provou resultados importantes: uma máquina de Turing universal era capaz de calcular qualquer coisa computável, ou seja, o mesmo computador poderia fazer uma tarefa, digamos somar, e trocando os estados internos, poderia executar outra tarefa, digamos dividir. Foi um trabalho totalmente teórico, mas embasou o salto posterior, o do computador eletrônico.

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Até os anos 1950, pioneiros como John Von Neumann desenvolveram os primeiros computadores, somente para aplicações militares como cálculo de trajetória de mísseis, simulação de Monte Carlo para o projeto da Bomba H. Os computadores eram em substituição às “computadoras”, que nada mais era do que uma sala cheia de mulheres, fazendo contas com lápis e papel, com a supervisão do trabalho final por um matemático.

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Na década de 60 e 70, surgiram os mainframes, computadores gigantes, ocupando grandes salas de corporações, e os usuários com um terminal “burro” de tela verde (curiosamente, com a ideia atual de “cloud”, estamos de volta a este modelo dos supercomputadores e terminais burros).

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Nos anos 80 e 90, tivemos a revolução dos computadores pessoais. Ao invés de um computador do tamanho de uma sala, surgiram computadores pequenos o suficiente para termos em casa. O famoso Apple II foi um dos primeiros PCs da história, rivalizando com a arquitetura da IBM. Também tivemos a explosão do software, dos sistemas operacionais Windows e Apple, Bill Gates x Steve Jobs.

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No final dos anos 90 e anos 2000, tivemos a explosão da internet. Os computadores pessoais agora passaram a ser conectados em rede. Uma pessoa poderia criar conteúdo novo e divulgar numa página, que seria indexada por um buscador como o Google. As pessoas podiam se comunicar facilmente com outras, via e-mail, chat. Podíamos trocar arquivos através de protocolos específicos.

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Nos anos 2000, 2010, tivemos uma explosão de mobilidade: celulares, tablets, dispositivos portáteis. Mais comunicação ainda, não estávamos mais presos a um computador num local fixo, agora podemos acessar o Facebook e o Google de qualquer lugar. A comunicação não estava mais restrita a voz, agora podemos ter conexão via texto, vídeo, imagens, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

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O pano de fundo disto tudo é o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, traduzido elegantemente pela Lei de Moore: a cada 18 meses o número de transístores num dispositivo dobra (ou seja, a capacidade de processamento dobra) ao mesmo custo. Na prática, temos dispositivos cada vez menores, cada vez mais poderosos, cada vez mais baratos. Um celular moderno, que cabe no bolso, é mais poderoso que um PC antigo (que cabe numa mesa), é mais poderoso que um mainframe antigo (que cabe numa sala).

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Ilustração da Lei de Moore

Hoje em dia e nos próximos anos, haverá cada mais sensores pequenos e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, talvez pessoas.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

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O estudo do BNDES

O estudo do BNDES ainda está sendo realizado, porém há alguns resultados parciais. Este estudo entrevistou uma miríade de pessoas, coletou dados e fatos, analisou também o posicionamento de outros países, para levantar as principais oportunidades, desafios e áreas prioritárias para fomentar o desenvolvimento da IoT no Brasil.

Este material é público e está disponível em: http://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

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As áreas prioritárias do Brasil são indicadas no mapa acima. Pelo Brasil ser um país exportador de commodities, o setor Rural desponta com muito potencial de ganho. A seguir, o setor de Saúde e o de Cidades. Para essas frentes prioritárias, em conjunto vem o papel das fábricas e indústrias de base.

 


Oportunidades

Na prática, quais as aplicações úteis?

Os infográficos a seguir contém várias ideias interessantes.

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Há uma história atribuída a Henry Ford, o empresário que fundou a companhia de veículos de mesmo nome. Ele teria dito que “se os usuários de carroça fossem questionados sobre melhorias futuras, eles desejariam carroças mais rápidas”.

 

É mais ou menos isso que ocorre hoje, só somos capazes de visualizar soluções no framework mental de quem já vive o presente: mais monitoramento, mais controle, mais forecast, mais decisões autônomas. Ninguém sabe exatamente qual será a verdadeira aplicação disruptiva que surgirá da evolução da IoT. A história é não linear. Ninguém conseguiu prever com dez anos de antecedência o surgimento de um Google, um Facebook, um Waze, um Uber, entretanto estes surgiram e revolucionaram nosso modo de ver o mundo.

 


Alguns desafios

Nem tudo são flores, obviamente. Alguns dos desafios são tão grandes que não conseguem ser resolvidos pela tecnologia em si.

  • Mão de obra qualificada. Por um lado, o Brasil tem 13 milhões de desempregados. Por outro, há uma dificuldade imensa na contratação de pessoas qualificadas, principalmente no interior do Brasil.
  • Infraestrutura de conexão: é muito caro conectar esses dispositivos à rede (GPRS, satélite, wi-fi, etc), ainda mais no setor rural, onde as distâncias são enormes e a infraestrutura, precária
  • Ambiente regulatório e de negócios: como devem ser os mesmos, a fim de permitir ganhos?
  • Fomento de pesquisa sobre o tema: como incentivar os mesmos?
  • Segurança e Privacidade: a disponibilidade de dispositivos em rede pode trazer outros problemas, como invasão por hackers. Como evitar este tipo de coisa?
  • Padronização de tecnologias?
  • Custos dos sensores?

Detalhando o aspecto sobre a mão de obra. Cada vez mais, a tecnologia vai substituindo os trabalhos braçais e rotineiros. Os primeiros alvos: aqueles trabalhadores que são verdadeiros autômatos humanos, como os operadores de telemarketing, que não são pagos para pensar: estes seguem um script ditado pelo sistema. Ou motoristas, que simplesmente levam cargas e pessoas de um ponto A para um ponto B.

Há 100 anos, quando o mundo era muito mais agrário, a produtividade do melhor lavrador do mundo não era tão maior do que o do pior lavrador do mundo. Cada braço a mais contava muito, porque não havia escala. Hoje em dia, um trator com um operador produz muito mais do que 50 pessoas conseguiriam no passado.

Cada vez mais, uma minoria altamente qualificada vai produzir muito, e uma massa gigantesca de pessoas terá pouco valor a contribuir.


Conclusões
Há um potencial disruptivo gigantesco em IoT. Porém, este não é um fim em si. O fim é utilizar a IoT para aumentar a produtividade, diminuir custos, melhorar o meio-ambiente e o bem estar final da sociedade. Ainda há um longo e tortuoso caminho a percorrer.

Toda tecnologia segue a curva tecnológica a seguir.

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Quando a tecnologia surge, no começo da curva, é o sonho, a sensação, vai dominar o mundo, vai provocar a paz mundial (ou a destruição da humanidade).

Depois de um tempo, descobre-se que a tecnologia tem limites. É muito boa, gera ganhos elevados, mas não vai destruir o mundo nem fazer a gente alcançar o Nirvana.

Chega uma fase de maturidade, onde esta tecnologia já não é mais sensação. E vão surgindo ondas de evolução desta tecnologia cada vez mais madura.
É análogo à dialética Hegeliana, de tese-antítese-síntese.

Áreas como a Pesquisa Operacional, Estatística, Eletrônica e Computação tradicional já passaram por esses ciclos, e hoje são tecnologias bastante maduras. São elas que dão resultado no mundo de hoje, são as vacas leiteiras, enquanto tecnologias como o IoT, cloud, são os sonhos potenciais.

Há uns 100 anos atrás, as tecnologias disruptivas que passaram por este ciclo eram a eletricidade, os veículos, as locomotivas.

Há uns 200 anos, a revolução industrial: máquinas a vapor, máquinas de tecer.

Há uns 500 anos, eram os navios, a conquista dos mares.

Há uns 3 mil anos, era o arco e flecha.

Há uns 10 mil anos atrás, a tecnologia disruptiva era a agricultura e a tração animal.

Com a IoT será a mesma coisa: haverá um bom caminho de promessa para realidade, e quando esta chegar, veremos que vai servir para muita coisa, mas não promoverá nem a paz mundial, nem exterminará a humanidade.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2017

 

Veja também:

Lançamento oficial do plano de ação de Internet das Coisas

 

 

 

 

 

 

​ ​O livro de receitas de 1 gigabyte

A fascinante história do DNA é daquelas histórias que merecem ser contadas e recontadas.

 

O DNA é como se fosse um livro de receitas. Só que ao invés de ensinar a preparar arroz, feijão, macarrão e carne, são receitas de como fazer um ser humano: células da pele, do pulmão, do olhos, hormônios, etc. É um livro que passa de pais para filhos.
 
Este livro de receitas é dividido em 23 capítulos. Cada capítulo é chamado de “cromossomo”. São 23 pares de cromossomos: metade vem do pai, e a outra metade vem da mãe, totalizando 46 cromossomos. O pai passa metade do livro, a mãe passa a outra metade.

 

 

Os macacos são 98% similares a nós em termos genéticos. Mas uma grande diferença é que eles têm 24 pares de cromossomos. No ser humanos, dois dos cromossomos dos macacos estão fundidos em um só. E essa é uma das razões para sermos espécies diferentes: um cruzamento de gameta com 23 cromossomos e outro com 24 cromossomos não dá match.

 

Este livro de receitas tem cerca de 1 gigabyte de conteúdo. Cabe num pen drive. Atualmente um vídeo digital, ou um livro cheio de figuras, pode ter mais do que isso de tamanho (isto demonstra que tamanho não significa qualidade). Mas dá para escrever um monte de coisas com um giga. Se for só texto, uma biblioteca de 5.000 livros de 300 páginas cada.

  


DNA, Cromossomos e Genes
 
 

Para ficar mais claro. O nome DNA (ácido desoxiribonucleico) refere-se à molécula em dupla hélice descoberta por Francis Crick e James Watson em 1953. Um cromossomo é feito de uma molécula de DNA.

  

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Se o genoma humano é o livro, e os 23 cromossomos são os capítulos, cada capítulo contém milhares de receitas diferentes – chamamos cada receita individual de “gene”. Há mais de 300 mil genes, cada gene com uma instruçãozinha específica: uma para produzir insulina, outra para produzir as células da pele, etc.

 
 

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Temos pares do mesmo cromossomo, o que leva a termos duas receitas para fazer a mesma coisa. Digamos que a receita do pai ensine a fazer olhos castanhos, e a receita da mãe, olhos azuis. Chama-se alelos esses pares de genes que têm o mesmo objetivo final.

  

Algumas instruções dos genes podem ser dominantes em relação ao outro alelo. Digamos, o gene de azul simplesmente diz que não há pigmento, já o gene de castanho diz que precisa de pigmento castanho. A soma de não pigmento com pigmento castanho dá castanho.

  

As ideias de genes ligados à características, genes dominantes e recessivos, tiveram origem com os experimentos de Gregor Mendel com ervilhas, lá pelos anos de 1860.

  


As letras e palavras do livro da vida
  
O livro de receitas do DNA é escrito com 4 letras: A, G, C, T. Cada letra é uma nucleobase molecular formada de carbono e mais alguns outros átomos.

  

  

  

O “A” liga-se com o “T” e o “G” liga-se com o “C”.

  

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Um grupo de três letras forma uma palavra: o aminoácido. Há 20 aminoácidos.

  

Assim como utilizamos letras do alfabeto formando palavras, e com palavras escrevemos qualquer livro possível, as letras e palavras do DNA descrevem qualquer ser vivo: desde vírus, passando por bactérias, células, peixes, aves, mamíferos, até chegar ao ser humano.
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Ex. O aminoácido Isoleucina pode ser feito das nucleobases ATT

 

O livro do genoma humano utiliza 1 bilhão de nucleobases, ou letras na nossa analogia. Um bilhão dá um gigabyte, arredondando.
 
Uma analogia irresistível é a com os computadores. Num computador, temos os bits, valores binários 0 ou 1. Um grupo de 8 bits forma um byte. Esses bytes armazenam qualquer coisa que pode ser traduzida em números: palavras, imagens, sons, vídeo.

  

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As nossas bases nucleicas são estruturas complexas de carbono. No computador, as estruturas são feitas de silício. O silício é da mesma família do carbono, uma linha abaixo, na tabela periódica de elementos. Não é coincidência. Ambos tem 4 elétrons na última camada, o que mostra uma certa similaridade.

  

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As letras do alfabeto da vida ficam dispostas sequencialmente, um atrás do outro, como um cordão. Na verdade, um cordão duplo, porque a base oposta se junta, como se fosse um zíper, na elegante forma de dupla hélice. Quando necessário, este zíper se abre e as cópias são feitas. Depois de copiado, o zíper de DNA se fecha novamente.
 

 

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O nosso DNA carrega um monte de informação que não é utilizada para nada, até onde se sabe. Alguns pesquisadores dizem que 90% do nosso código genético seja deste “junk DNA”. Talvez tudo isso seja código legado, ou seja, um dia já serviu para alguma coisa, ficou obsoleto, mas como não faz mal e dá um trabalhão limpar, foi ficando. Todo processo vivo, em constante inovação, acaba gerando um monte de código legado – para fazer uma analogia, o Internet Explorer antigo teve que ser reescrito, porque tinha um milhão de linhas de código que eram obsoletas.

  


Como transformar o DNA num osso?

  

Para transformar uma receita de bolo num bolo de verdade, há um ser humano que executa os passos para tal.

  

Num computador, as instruções do software dizem o que alguns equipamentos elétricos e eletrônicos devem fazer: movimentar o cabeçote de leitura, ler um dado, comparar com o estado dentro da memória.

  

Como isto é feito no interior do corpo humano, somente com bioquímica?

  

Quando um gene é transcrito, é feita uma cópia a partir do DNA. Esta cópia é como uma linha de aminoácidos. E ela começa a se dobrar em si mesmo. Alguns dos aminoácidos são hidrofílicos, outros hidrofóbicos, e também há as forças de atração e repulsão entre eles, de modo que a linha começa a se dobrar e formar uma peça, como se fosse um Lego. O nome desta peça de Lego é proteína. E este Lego tem um formato certinho para encaixar uma molécula de cálcio, no caso do osso. Portanto, o gene é uma receita para montar um Lego, e o Lego vai se montando pelo formato 3D e por forças bioquímicas, algo como uma impressora 3D bioquímica.

  

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De pecinha em pecinha, utilizando forças de atração e repulsão, e respeitando o formato do “Lego”, o corpo humano vai sendo montado. Dá-se o nome de dobramento de proteínas a esta formação da estrutura 3D a partir da base nucleica, e é uma das áreas de muito estudo no mundo atual.

  


Porque a necessidade de alelos?

  

Um último questionamento. Por que há duas receitas para o mesmo bolo? Gastar o dobro de páginas, o dobro de material e energia, para cada celulazinha do corpo humano. Não seria mais barato ter apenas um cromossomo, ao invés de um par dos mesmos?

  

Eis aqui a eterna briga entre a otimização e a redundância.

  

Embora as empresas de hoje tentem sempre otimizar, fazer mais com menos, a sábia natureza diz que otimizar demais não é bom. É melhor ter alguma redundância, um backup de segurança para casos de emergência.

  

Digamos que surja um vírus, a varíola. Aliás, um vírus nada mais é do que um DNA protegido por uma parede de proteínas.

  

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Digamos que este vírus seja letal, e a humanidade tenha tido um trabalhão para desenvolver os genes para vencer o mesmo.

  

Uma vez vencida a varíola, não há a necessidade de ter tais genes. E, talvez, este gene evolua para combater algum outro vírus.

  

Mas, imagine que a varíola volte, e volte mais virulenta ainda (e esses vírus vão e voltam comumente). A humanidade teria que desenvolver de novo os genes para combater a varíola.

  

O fato de ter dois alelos, dois backups para o mesmo gene, é um seguro para que os genes úteis não evoluam depressa demais e não sumam com o tempo. Ter duas cópias do gene aumenta a probabilidade de que alguém, em algum lugar, tenha as chaves para combater a varíola, mesmo que escondidas num gene recessivo.
 

 

Esta é uma das razões pelas quais o corpo humano é antifrágil, tomando emprestado o termo do pensador contemporâneo Nassim Taleb. Ele tem seguros, alternativas, planos B. E vejo muitas empresas do mundo moderno descartando planos alternativos e segurança (como estoques, capacidade ociosa de equipamentos), pois são custos no curto prazo, ficando vulneráveis a longo prazo. Elas deveriam aprender com a natureza…

 
 


 

Exceções

  

Este texto tem a intenção de ser uma introdução leve, interessante, cheia de analogias, sobre o fascinante mecanismo de transmissão de informação de geração em geração. É claro que tudo o que está escrito aqui são teorias, e teorias  mudam com o tempo, há contra-teorias e  exceções para todas as regras.

  

Conforme diz Shakespeare, em Hamlet:
“Há muito mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia”

 


Referências:

 

The Red Queen – Matt Riddley
Genome: the autobiography of a species in 23 chapters – Matt Ridley
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É do caos que nasce uma estrela

“Sou um discípulo do profeta Dionísio” – Friedrich Nietzsche

 

Recomendações da TI sobre estrutura de dados: quanto mais estruturado, limpo e padronizado, melhor. Aumenta a produtividade, aumenta a organização. Menor será o retrabalho, menor será a confusão com dados. Planilhas em Excel são a pior coisa do mundo, porque o usuário vai criar colunas, inserir linhas vazias, mudar o cabeçalho: vai dar tudo errado.
 
Parece perfeito.

 

Mas, também como discípulo do profeta Dionísio, digo que NÃO.
     

  • Quanto mais caótico o banco de dados, melhor.
  • Quanto mais sujo, melhor.
  • Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 


Apolo x Dionísio

 

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha a notável capacidade de aliar ideias filosóficas com um estilo poético. Uma de suas metáforas mais conhecidas é o contraste entre os deuses gregos Apolo e Dionísio.

 

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Apolo é o deus do Sol, da Harmonia, da Medicina. Ele representa a Ordem: o deus bonito, alto, forte, simétrico, organizado. É o deus das artes, dando formas precisas às esculturas, colocando ordem no caos.

 

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Tela: o triunfo de Baco

 
Dionísio é o deus do vinho. Representa o Caos. Baixinho, gordo, feio, bêbado, torto, tudo de ruim. Representa a êxtase, embriaguez. Nascido da fome e da dor, renasce a cada primavera e espalha alegria por onde passa.

 


Ordem x Caos

 

Parece bom ter ordem ao invés do caos. Mas o fato é que podemos ordenar apenas um pedaço muito pequeno do mundo. O universo, infinitamente maior, nunca será conhecido pelo ser humano.

 

Imagino os dois deuses como dois braços: um braço do caos e outro da ordem, se complementando. Devemos ordenar o mundo tendo a humildade de reconhecer que há premissas que sempre estarão fora de qualquer modelo.

 

Tenho um lado apolônio muito forte, pela minha formação em engenharia, olimpíada de matemática, etc. Mas também tenho um lado dionisíaco muito forte, o que me leva ser muito cético com tudo o que quer organizar demais, otimizar demais, dando pouca margem a imprevistos.
 


Por que gosto de estruturas de dados caóticas?

 

Trabalho bastante com inovação, no sentido de criar novas ferramentas, novos processos, novas ideias.
 
Quando trabalhamos com um novo projeto, o cliente não tem a mínima ideia do que quer. Ele sabe apenas o sintoma (digamos, os analistas perdem tempo demais para gerar o relatório), e assume que sabe a solução (gerar um relatório automaticamente).

 

Mas qual o problema real? Ninguém sabe, este deve ser descoberto.

 

Às vezes, ele nem precisa do relatório que ele achava que precisava. De qualquer forma, em 100% dos casos, não adianta estruturar bases de dados para tentar resolver com eficiência o problema errado.

 

Como diria Peter Drucker:

 

Não há desperdício maior do que resolver com grande eficiência um problema que não precisava ter sido resolvido.

 

A recomendação das bases de dados estruturadas serve somente para processos maduros, já estabelecidos e que vão mudar pouco.

 

Para inovações, quanto mais protótipos, melhor. Quanto mais quick-wins, simples,  rápidos, flexíveis e portanto, caóticos, melhor. Quanto mais excel sujo, melhor. Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 

Nenhuma nova música surge da ordem. Nenhum novo quadro surge da ordem. Nenhuma nova ideia surge da ordem. Somente do caos.

 

“É do caos que nasce uma estrela” – Friedrich Nietzsche

 
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​ Três táxis em duas cidades

Hoje tomei três táxis (ou uber) em duas cidades diferentes.
 

Com dois dos três motoristas, eu informei a minha localização, o destino desejado, e chamei o carro. Disse “Bom dia” ao motorista e só.

 

O motorista apenas seguiu a indicação do Waze, Gmaps ou equivalente. Chegamos sem maiores problemas e nem precisei desembolsar dinheiro, pois foi no cartão de crédito.

 

O motorista não precisou saber o destino. Não precisou traçar o melhor caminho. Não precisou nem conversar comigo. Ele foi apenas um autômato humano conduzindo o carro. Tal situação era impensável, há alguns poucos anos.

 

Lamento informar que, em poucas décadas, nem isso ele precisará fazer. Com muita probabilidade, os carros autônomos farão este papel.

 

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O terceiro motorista também começou com um “Bom dia”. Mas este não usou GPS. Disse que o caminho normal tinha muito trânsito, e foi por um alternativo. Deu uma volta imensa, maior do que o necessário. Talvez tivesse sido por ignorância do melhor caminho. Talvez má fé. Mas, de qualquer forma, tenho convicção de que ele “perderia” para o Waze, ou seja, inteligência humana perdendo para algoritmos computacionais.

 


Como ficarão os empregos do futuro? Hoje, há uma quantidade gigantesca de pessoas trabalhando com transporte de pessoas e de cargas, mas os tempos estão mudando.

 

Há uma quantidade maior ainda de pessoas trabalhando em empregos de escritório que são rotineiros, e portanto, passíveis de serem substituídos por algo minimamente (ou artificialmente) inteligente.

 

Tudo o que é puramente mecânico, como apertar parafusos, já foi substituído por máquinas. Agora, tudo o que é rotineiro, repetitivo, e envolve pouca decisão humana tende a ser substituído por softwares.

 

Há uma série de economistas, como George Zarkadakis e Tyler Cowen, que apontam para um aumento da desigualdade econômica. No futuro, cada vez menos pessoas terão capacidade de fazer o seu salário valer o valor adicionado ao produto ou serviço. Os poucos que conseguirem serão tremendamente mais produtivos que hoje. E haverá uma massa cada vez maior de “perdedores” deste jogo, que terão que se contentar em empregos em serviços (cabeleireiro, jardineiro, padeiro), que são muito difíceis para uma máquina e também são economicamente inviáveis de serem substituídos.

 

Bom, ninguém sabe exatamente como vai ser o futuro, mas podemos nos precaver de cenários possíveis.

 

As máquinas (ainda) não conseguem substituir a criatividade e a eficácia. Alguém precisa dizer a elas o que deve ser feito, e como ser feito, para que elas simplesmente façam com eficiência. As máquinas são mais eficientes do que o ser humano em fazer  muito bem a mesma coisa. Mas os seres humanos são e serão, por um bom tempo, mais eficazes.

 

E como ser mais eficaz? Estudando muito, trabalhando muito (e com qualidade), buscando aperfeiçoamento contínuo, questionando tudo, lendo os artigos deste blog – não há uma fórmula perfeita.

 

Quem sabe, daqui a uns 15 anos, eu entre num táxi, com uma identificação via smartphone, com a rota escolhida pelo Waze. E eu nem precise mais falar “Bom dia”…

 


Trilha sonora: Bob Dylan, “Os tempos estão mudando” – “The times they’re a-changing”.

​Por que escrevo tão bem?

Prelúdio. Por que escrevo tão bem?

Mas que sujeito arrogante! Afirmar que escreve tão bem!

Na verdade, a frase acima é da autoria do grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ele tem um estilo poético, aliado a ideias contundentes. É um artista que usa uma martelo, e cuja habilidade é a de destruir as mais profundas convicções que temos: a moral, a bondade, a filosofia, o cristianismo.

ecceHomo

Nietzsche escreveu capítulos como “Por que sou tão inteligente” e “Por que escrevo bons livros”, num livro autobiográfico chamado “Ecce Homo”. Ecce Homo vem do latim, algo como “Eis o homem”. Em bom português, imagino que ele quis dizer “Esse é o cara”. Nota-se que Nietzsche é alguém para ser extremamente amado ou extremamente odiado, não tem meio-termo.

O título real deste ensaio seria “Por que escrevo este blog”.


Ato 1. Por que escrevo este blog

Por que escrevo este blog, e por que escrevo tão bem (adotando a provocação de Nietzsche)? Há algumas respostas. Uma delas: tenho algo a dizer.

Há tantas ideias porcarias espalhadas por este mundo, que as pessoas às vezes podem se deixar levar por elas, somente pelo fato de não terem a chance de ouvir ideias antagônicas.

lighthouse

Ideias são como faróis luminosos. Há faróis grandes e brilhantes, que alcançam um grande número de pessoas. E há faróis retransmissores, menores, menos brilhantes, que têm menos alcance. Até mesmo o maior e mais brilhante farol precisa da ajuda desses retransmissores, porque a luz se dissipa no tempo e no espaço. Cada um de nós é um desses faróis, temos o nosso valor ao retransmitir ideias que valem a pena ser compartilhadas.


Ato 2. Ensinar e aprender

Outro motivo para escrever é o de aprender. A melhor forma de aprender não é estudando, mas sim fazendo, praticando, ensinando. E a minha forma de ensinar é através da palavra escrita.

Para tentar criar bons argumentos, tenho um checklist. Alguns dos critérios:

  • Sempre agregar valor em textos curtos
  • Inserir alguma história que aconteceu comigo ou alguma ideia minha, para criar um ponto de vista inédito
  • Criar um “Flow”, um fluxo, um encadeamento natural de ideias do início ao fim.

Citando o grande professor Otávio Manhães (do ITA):

“Se eu não conseguir ensinar física quântica para uma empregada doméstica, não sou um bom professor”.


Ato 3. Ilhas de conhecimento

Minhas anotações em cadernos sempre foram tão bagunçadas que não serviam para nada. Ao contrário, escrever aqui é uma forma de organizar e registrar ideias. Indexar conhecimento.

Cada texto é como se fosse uma ilha, uma ilha de conhecimento. E cada comentário das pessoas que leem esses textos são novas ilhas de conhecimento. Conectar ilhas diferentes leva a novos insights. Com isso, estarei preparado quando preciso. Por exemplo, quando surgiu um convite da revista Opiniões (aqui neste link) para falar sobre planejamento florestal, eu já tinha um texto-base para guiar o texto final.

Eu gosto da imagem de ilhas de conhecimento, se conectando através de pontes de imaginação, formando novas ilhas de aplicações e continentes de inovações. Já o pesquisador Steven Johnson criou o termo “possível adjacente”. A ideia é que inovação não ocorre em saltos, mas expandindo os limites do conhecimento existente.

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Epílogo.

Para fechar, uma citação adaptada de Carl Sagan, dedicada às pessoas com quem discuti conceitos, ideias, teorias, percepções, aplicações.

Diante da imensidão do tempo e da vastidão do espaço, foi um prazer encontrar cada um dos meus amigos nesta época, neste planeta.

​Não bastava uma cena boa. Tinha que ser espetacular

Uma das cenas mais memoráveis da história do cinema é a abertura do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. O filme data de 1968 e desde então tornou-se um dos clássicos do cinema.
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A abertura citada é tão poderosa que ficou uma semana ecoando na minha cabeça.
E até hoje, ao relembrar dela, vejo a estrela surgindo atrás do planeta, e a trilha sonora ecoando em meus ouvidos.
Uma história curiosa. O ultra perfeccionista diretor Stanley Kubrick tinha encomendado a trilha sonora do filme ao compositor Alex North, com quem tinha trabalhado anteriormente em Espartacus.
Alex North era um compositor extremamente talentoso. Por exemplo, ele é o autor de  “Unchained melody”, aquela do filme “Ghost, do outro lado da vida”.
Pois bem, North deu o melhor de si para fazer o soundtrack do filme.
Eis a abertura do filme com a composição de North.

Porém, ao assistir à premiere do filme, North teve uma surpresa. Kubrick não tinha usado nenhuma de suas músicas na versão final do filme. O diretor preferiu utilizar as músicas “guia” indicadas para inspirar a composição da trilha sonora. North ficou completamente devastado…
Kubrick poderia ter sido um pouco mais humano, é claro. Mas, certamente, fez a escolha certa. O bom não bastava. Tinha que ser espetacular. Ele utilizou a pouco conhecida (na época) música “Assim falou Zaratustra”, do compositor alemão Richard Strauss. Tons grandiosos, fortes. Apenas cinco notas, mas que notas! Ao fundo, uma estrela ascendente no espaço infinito.
Não adianta explicar. Tem que assistir, de preferência ao filme todo:

2001 é frequentemente citado como um dos 50 melhores filmes de todos os tempos. Criou uma legião de admiradores em todo o mundo desde então.
Até no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) tem uma menção ao filme de Kubrick. O salão negro tem um mural, onde tem um astronauta, uns planetas, e um… monolito voando…
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Notas
“Assim falou Zaratustra” é um livro espetacular de Friedrich Nietzsche, um dos gigantes do século XIX, obra que inspirou a composição de Richard Strauss. Ou seja, é gênio atrás de gênio.
Outra cena fabulosa é a “valsa das estrelas”, que utiliza outra música clássica, a valsa Danúbio Azul. É hipnotizante.

​ A resposta correta no fim do livro

Do primeiro dia do pré primário até o último dia da pós-graduação, tive um único modelo de ensino: há uma resposta errada (a minha) e há uma resposta correta, aquela no fim do livro.
 

O professor está sempre correto, e a resposta do fim do livro é sempre perfeita. Se a minha resposta for diferente, tenho que rever os cálculos até chegar na mesma resposta.

 

Mesmo se a resposta for igual, mas a minha técnica for diferente, tenho que aprender a chegar ao final pelo mesmo caminho.

 

Mas, e se resposta correta do fim do livro estiver errada?

 

O mundo muda. As hipóteses mudam. As regras mudam. O futuro será diferente do passado. 99% dos pensadores que escreveram as respostas corretas dos livros já estão mortos.
 
O mundo dos livros é o das regras explícitas. No mundo real, as regras são implícitas – não estão escritas em livro algum, devem ser descobertas. Para cada regra explícita há 1000 regras implícitas.
 
Todo o conhecimento contido nos livros está no passado. Já era. Já funcionou e não vai funcionar de novo. O próximo Google não virá de um sistema de busca melhor. A próxima Amy Whinehouse não terá o mesmo estilo musical. O próximo Einstein não descobrirá a Teoria da Relatividade (e nem o paradoxo do pretérito imperfeito complexo com a Teoria da Relatividade, rs!).

 

O desbravador deve explorar o mundo até o limite do mapa. A seguir, jogá-lo fora e partir por um caminho nunca d’antes trilhado, o seu caminho.

 

Em uma frase: Encontre a resposta certa que não está no fim do livro.

 

Inovadores são os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados.
Steve Jobs.

 

 
Navegadores antigos – Fernando Pessoa
 

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso;  viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário;  o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.