Resumo da entrevista de Paulo Guedes, na Expert XP 2020

Highlights

Reforma tributária:

– imposto sobre transação: estudando base ampla

– imposto dividendos: sim

– imposto renda pessoa jurídica: vai diminuir

Retomada à vista

Renda Brasil ao final do auxílio emergencial

Acelerar programa de privatizações

Fica até o final do mandato? Só sai abatido à bala.

Reforma tributária

Está pronta. O plano era entrar no começo do ano, o COVID atrapalhou.

Tem imposto sobre valor agregado – IVA.

O esforço na calamidade pública do COVID foi do tamanho de 10% do PIB.

A democracia brasileira andou. Talvez um pouco lenta, mas andou. Recursos foram disponibilizados. Não faltaram recursos para a saúde.

Sobre Retomada

Há sinais interessantes:

– consumo de energia elétrica só 4% abaixo de junho do ano passado

– notas fiscais eletrônicas 70% acima de junho do ano passado

– exportações praticamente iguais no primeiro semestre

– construção civil contratando 5.000 pessoas

– deve vir boom imobiliário de uns 10 anos, por conta de baixos juros. Outro efeito é o alongamento de prazos, atualmente 20, 30 anos para financiar imóvel, pode subir para 40, 50 anos

– melhor mês para Caixa Econômica Federal, em liberar recursos para construção

– o consumo em geral, bens duráveis, voltando

Sobre velocidade de recuperação

É muito cedo para ser pessimista.

Com COVID, caiu rápido, mas deve ter retomada constante, um pouco mais lenta. Um símbolo como o da Nike, V da vitória.

Ele vê crédito finalmente chegando e destravamento de investimentos.

O programa social de R$ 600 deve diminuir, até se consolidar no programa Renda Brasil.

Pergunta sobre impostos de transação

Na reforma política, existe a economia e a política. Os tempos são diferentes para cada.

Tem que começar sobre o que une a política, e não sobre o que desune.

Os impostos atuais são terríveis, mal formulados, regressivos. Ele quer imposto sobre valor adicionado.

Impostos sobre transações eletrônicas: é o setor que mais cresce, é interessante.

Pergunta: qual a sustentabilidade da dívida?

É um tema muito importante. Compromisso com controle de gastos. O descontrole levou à desindustrialização, juros enormes, corrompeu e estagnou a economia.

Este foi um ano excepcional por conta do combate à pandemia.

Ano que vem volta ao normal.

As três principais despesas foram derrubadas: privilégios da previdência, os juros da dívida, salários do funcionalismo congelados por dois anos.

Historicamente, a parte fiscal era frouxa, levando Brasil a se endividar como uma bola de neve.

Também foi feita uma desalavancagem dos bancos públicos.

Tudo isso levou os juros a desabarem.

A relação dívida PIB reduziu de 76,5% para 75,8% no primeiro ano.

Os gastos ano que vem estão relativamente contidos.

Tem que mostrar ano que vem. O que vai destravar a economia é o investimento privado.

Sobre Renda Brasil

A ajuda da pandemia atinge 38 milhões de pessoas.

No máximo 10 milhões serão incluídos no Renda Brasil.

Este vai pegar vários programas e focalizar num só. Atualmente o Bolsa Família é de R$ 30 MM, o Renda Brasil já encontrou recursos para R$ 50 MM.

Ex. de programas canalizados para o Renda Brasil: isenção para gastos de classes alta, desonerações.

Tem muito ralo em Brasília, escapa muito dinheiro em programas duplicados e defasados.

O congresso quer fazer, extremistas são minoria.

Tributação de dividendos? Mudança no imposto de renda PJ?

Desce imposto de renda pessoa jurídica, sobe imposto de dividendos.

O imposto de renda pessoa jurídica chega a 34%. As empresas desistem de criar empresas e vão para fora do BR. O país cresce quando há acumulação de capital e educação.

– imposto transação: estamos estudando ampla base

– imposto dividendo: sim

– imposto renda pessoa jurídica: vai cair

Sobre teto de gastos

Fizeram o teto e não fizeram as paredes.

Várias despesas indexadas: salários, benefícios da previdência, gastos de alguns ministérios.

O piso sobe todo ano. Com o teto fixo, vamos ser esmagados entre o piso e teto.

Duas alternativas. Ou sobe o teto ou não sobe o piso.

Se sobe o teto, causa inflação descontrolada, conforme já vimos antes.

Ou quebra o piso. E é bom, porque alocação de recursos é a essência da atividade política.

Atualmente, 96% estão carimbados, os políticos só decidem sobre 4%.

Brasil é gerido por um software, que somente corrige as despesas todos os anos.

As paredes são a reforma da previdência, administrativa, controlar trajetórias futuras e funcionalismo público.

É difícil, ministros e parlamentares querem manter recursos, tem gente defendendo furar o teto.

Sobre privatizações

Não basta apenas a vontade econômica, tem o lado político.

Vai acelerar nos próximos 90 dias, para não desmoralizar o programa de privatizações. O objetivo é aprovar 3 ou 4 grandes privatizações.

Se puder pegar o dinheiro das privatizações, vender reservas, isso ajuda a quebrar a dinâmica, a bola de neve de dívidas.

Não tem essa de toma lá dá cá, aparelhamento do centro. É uma agenda de reformas. A crise exige reformas.

Paulo Guedes fica até o final do governo?

Só sai a bala, abatido à força. Ele tem uma missão a cumprir.

A agenda da centro direita é liberal democrata. Não quer aumentar impostos, prefere regular os gastos.

Ampliar a base para mais gente pagar, porém, pagar menos.

Hoje em dia, há R$ 300 MM em desonerações. Quem tem poder político consegue ser desonerado.

Quem tem poder econômico vai para o contencioso: prefere pagar R$ 100 MM para advogados do que R$ 1 BI de impostos.

O BR historicamente é o paraíso dos burocratas, contenciosos, rentistas, e isso tem que acabar.

Enquanto tiver a agenda, ele continua.

Se o Presidente e o Congresso não quiserem a agenda, não tem o que fazer, aí ele vai para casa.

Tesla vale mais do que a Toyota?

De um lado, a Tesla. Fabricante revolucionária de veículos elétricos, inovadora, com o top de tecnologia disponível no mercado. Começou a dar lucro recentemente.

Do outro, a Toyota. Veículos tradicionais, com matriz energética convencional. Carros de altíssima qualidade e durabilidade, diga-se de passagem.

O valor de mercado da Tesla, que vem subindo enormemente faz alguns anos, superou o da Toyota neste mês.

A Tesla com valor de mercado de US$ 190 bilhões, e a Toyota, US$ 180 bi.
Receita anual da Tesla: US$ 7 bi. Toyota: US$ 250 bi.

A Tesla fabrica 360.000 veículos por ano. A Toyota, 10.000.000 de veículos por ano.

Seria este um sinal do valor da inovação e tecnologia em nossas vidas?

Ou seria uma bolha especulativa do mercado financeiro, inflada pelos sucessivos quantitative easings desde 2008, e juros abaixo de zero no mundo todo?

Eu sou do tipo chato, cético, mala, retranqueiro.

Essa injeção de dinheiro não virou hiperinflação, como alguns pregavam. Mas criou bolhas.

O mundo está muito esquisito. Algumas bolhas estouraram, como a do WeWork. A pandemia mudou o jogo de diversos negócios. Porém, ainda existem diversas distorções.

Não se sabe como será o futuro.

Talvez a Tesla quebre todas as montadoras tradicionais num futuro elétrico.

Talvez não.

https://insideevs.uol.com.br/news/428094/tesla-mais-valiosa-mundo/

Algumas previsões

“É difícil fazer previsões, especialmente em relação ao futuro”, dizia o célebre técnico de baseball Yogi Berra.

Ele está certo. Fazer previsões corretas é muito complicado.

Contudo, ouso fazer algumas previsões aqui neste espaço. Não são previsões de verdade, são apenas algumas macrotendências.

1 – O mundo está muito esquisito, e uma grande crise mundial (talvez do tamanho daquela de 2008) se aproxima para um futuro próximo (provavelmente após a reeleição de Trump).

2 – O Brasil está saindo de vários anos ruins, e começará a decolar de novo nos próximos anos (no contra ciclo do mundo).

3 – Carros autônomos são uma questão de tempo. Começarão funcionando em nichos muito específicos, aos poucos ganharão a confiança das pessoas. Porém, demora ainda uns 10 anos para começar a fazer parte do nosso cotidiano, e uns 15 ou 20 para serem comuns no dia-a-dia.

4 – A China terá um PIB maior do que os EUA, daqui a uns 10 anos.

5 – A Índia será a terceira maior economia do mundo.

6 – A computação quântica continuará inútil por mais uns 40 anos. Até que, finalmente, terá alguma aplicação em algo que ninguém nunca imaginou hoje.

7 – Não será necessário aprender inglês ou chinês para conversar. Os tradutores eletrônicos ajudarão a derrubar esta barreira. Entretanto, ainda assim continua válido estudar mais da cultura, porque há barreiras que tradutor algum consegue quebrar.

Não vou detalhar muito cada uma delas, porque ninguém sabe se será por aí.

Daqui a uns 5 anos, vou revisitar esta lista, e ver se realmente fez sentido (ou não).

Giro um simples compasso com todos os aviões do mundo

O aplicativo Flight Radar é bastante útil, para quem viaja de avião frequentemente.

Este apresenta todos os aviões do mundo em tempo real, na palma do seu celular. Numa folha qualquer eu desenho um avião de partida…

Por exemplo, a figura mostra um avião partindo do Aeroporto de Guarulhos, em SP. Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená..

A grande utilidade para o usuário é que dá para ver quais aviões estão realmente chegando no seu aeroporto. Isso é uma informação excelente, porque a companhia aérea nem sempre é transparente com a informação dos voos (principalmente se vai atrasar muito).


É lúdico dar um menos zoom e olhar o Brasil todo. Mesmo sendo muito cedo (7 da manhã de sábado, momento do print), há muito movimento aéreo no eixo Rio-SP, Brasília, e outros estados como MG, PR, SC, alguns no nordeste, etc.

Focando na Venezuela, nota-se nenhum voo indo para Caracas, sua capital, o que demonstra o “sucesso” do socialismo do séc. XXI.

Passando de uma América a outra num segundo, a do Norte parece um formigueiro, tão repleta de aviões.

Voando, contornando a imensa curva norte-sul, viajando Havaí, Pequim ou Istambul, passamos pela África e pela Europa. A discrepância econômica entre tais continentes é notória.

Giro um simples compasso e num círculo chegamos ao leste asiático, com intenso movimento no eixo Oriente Médio – Índia – Indonésia – China – Japão, e menos movimento na Ásia Central e arredores.

Um zoom nas Coreias do Sul e do Norte. A do Sul é um dos países mais desenvolvidos do mundo, o que reflete no intenso tráfego aéreo com a China, Japão, Taiwan e arredores.

A do Norte é o espaço vazio entre a Coreia do Sul e a China. Nem um único avião, o que demonstra o “sucesso” do socialismo do séc. XX.

Chegamos ao fim de nossa volta ao mundo num segundo. E o trecho da música que eu mais gosto mesmo é o seguinte:

“Numa folha qualquer
Eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida”

Trecho de Aquarela – Toquinho e Vinícius



Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com

Forgotten Math: https://forgottenmath.home.blog/

A próxima crise do Euro

A próxima crise a chegar, a da Itália, pode dar um fim definitivo ao sonho da moeda única europeia.

Vide por exemplo:

https://www.express.co.uk/news/world/1037766/italy-financial-crisis-recession-credit-crunch-budget-brussels-eu-euro-eurozone

https://www.express.co.uk/news/world/1038293/Eurozone-news-latest-growth-figures-italy-crisis-EU-news

 


 

Para mim, o Euro nunca fez sentido. É uma utopia, tanto quanto o estado de bem estar social. Utopias funcionam por um tempo, mas não a longo prazo.

 

Embora bonito, como toda utopia, há falhas seríssimas no conceito.

 

Os bancos centrais de cada país perdem consideravelmente sua independência, em termos de taxas de juros, possibilidade de desvalorizar a moeda, gerar inflação.

 

 

A Grécia, que tem uma economia minúscula, quase levou o Euro ao fim, em 2010.

 

 

A Itália, uma das maiores economias do mundo, precisará de um esforço absurdo para equilibrar contas.

 

 

No final das contas, a economia a longo prazo é como se fosse a economia doméstica.

 
Algumas pessoas têm alta capacidade de produção, recebendo proporcionalmente a isto. Outras têm menos capacidade.

 
Quando o forte e o fraco se juntam num grupo, ocorrem distorções.

 
Se o padrão de salário é nivelado por baixo, todos ficam mais pobres.

 

 

Se o padrão de salário é nivelado por cima, o menos produtivo torna-se caro demais – o efeito é um desemprego elevado na Itália, Espanha, Grécia.

 

 

O fraco acaba em débitos constantes até que um dia está em vias de não pagar a conta do aluguel e do restaurante.

 
Então o forte diz para o fraco: vou emprestar dinheiro, mas você tem que gastar menos, viver na austeridade. Parar de ir na pizzaria e tomar vinho. Passar a comer pão velho amassado e água torneiral. Mas vai continuar sem emprego porque os salários vão continuar altos para alguém tão improdutivo quanto você.

 

 

Em relação à taxa de juros, é como pegar dinheiro emprestado. O forte não precisa de dinheiro, então vai pagar poucos juros. Já o fraco precisa de dinheiro para investir em algo novo e sair do ciclo vicioso, então vai prometer juros maiores. Mas, se os juros estiverem atrelados ao forte, o fraco não vai conseguir crédito no mercado.

 

 

Efeitos: o forte fica fulo da vida por emprestar o seu suado dinheiro, e o fraco também fica fulo da vida por comer pão velho e continuar sem saída deste ciclo vicioso.

 
Se o mundo tiver sorte, o Euro acaba agora, com consequências terríveis no curto prazo, mas voltando ao que sempre deveria ter sido.

 

 

Se o mundo tiver azar, dão um jeito de remendar o Euro, via emissão de dinheiro, empréstimos, promessas de austeridade. Isto vai dar um alívio no curto prazo, mas vai empurrar o problema com a barriga, numa bola de neve que um dia vai explodir muito feio.

 
O meu palpite é que o Euro não vai acabar agora, porque vão dar um jeito de salvar.

 

É como um casamento. Brigam, mas a separação é muito forte para ocorrer de fato.

 

Porém vão continuar brigando e brigando por um bom tempo, pelos motivos diversos.

 

Por trás de tudo isto, está que a Europa está cada vez menos relevante, principalmente os países periféricos – onde falta pão, todos ralham sem ninguém ter razão.

 
Nota: Este é um tema confuso, e é claro que muita gente não concorda com os pontos acima (como o amigo Marcos Melo, que tem mais otimismo no Euro).

Mas, de qualquer forma, o mundo está numa fase estranha, desconhecida para todos.

Que fase…

 

 

Testamos a Rappi, o serviço de entregas

Cheguei em casa, já na hora da janta, e a fralda do nenê tinha acabado.

Em outros tempos, seria necessário pegar o carro, ir a algum supermercado ou farmácia e torcer para que tenha o produto, já que não sabemos mais viver sem fraldas descartáveis…

Hoje, eu testei o Rappi (https://www.rappi.com.br/).

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O conceito deste é bem interessante: entregar tudo.

É algo como Uber de motoboys + varejo online. Vira em mexe, tem algum motoboy com uma caixa de entregas laranja berrante pelas ruas de SP. O interessante é que já vi várias pessoas de bicicleta também.

Baixei o app do Rappi, criei minha conta, cadastrei o cartão.

Escolhi a fralda exatamente nas especificações de tamanho e marca que a minha esposa recomendou (óbvio que não sei nem o tamanho nem a marca).

O Rappi mostrava em tempo real os passos do motoboy: está se dirigindo à farmácia,

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Está realizando a compra,

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Está indo entregar o pedido…

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Em uns 40 minutos, terminado o jantar, a fralda estava em casa.

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Deixei um real de gorjeta pelo aplicativo e mais dois reais em moedas. Bastante eficaz.

Não à toa, o Rappi é um unicórnio (que tem valuation maior do que US$ 1 bilhão)…

Na China existe um conceito parecido. Alguns serviços (como a do supermercado Hema) entregam tudo em qualquer lugar em pouquíssimo tempo. Para tal, contam com um exército logístico: veículos, motoboys, ciclistas, etc…

Essas são as marcas da nova economia, em especial, o novo varejo.

 

Vide também:

 

https://ideiasesquecidas.com/2019/03/21/a-rappi-vai-concorrer-com-o-itau

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

Tribo comunista x tribo capitalista

Imagine duas tribos, uma comunista (o Bananistão) e outra capitalista (o Trumpistão), cada qual com, digamos, 100 pessoas.
Imagine também que a renda de todos os membros de ambas as tribos seja a mesma: um punhado de frutas e dois peixes por dia.

 

 

Num belo dia, em ambas as tribos, surge um empreendedor com uma ideia brilhante: usar uma lança para caçar javalis.

 

 

Com o poder da lança, a distribuição de renda tinha mudado drasticamente. Uma única pessoa passou a ter muito mais renda do que as demais.

 

 

A tribo comunista era governada pela grande líder Barba. Vendo a situação, este criou um discurso de luta de classes. Era a “elite” contra o “povo”. Seria esta elite que estaria por trás dos infortúnios do povo. A elite não queria que o pobre comesse carne de javali, por isso o preço deste ser tão alto.

 

 

Com isto, eles exigiram que a lança do empreendedor pertencesse ao povo. Coletivização dos meios de produção, porque se o povo produz, a tudo ele pertence.

 

 

Ao coro de “Povo bom, rico mau! Povo bom, rico mau!”, o empreendedor entregou a primeira lança aos governantes. Algumas semanas depois, produziu e entregou a segunda lança, sem remuneração alguma, é claro. Depois da terceira lança confiscada, o empreendedor desistiu e voltou para a dieta à base de peixes.

 

O povo não fez muito bom uso das lanças. Um membro da tribo tentou caçar com a lança. Após uma batalha extenuante, finalmente conseguiu. Ao chegar à tribo, dividiu o javali com todos os outros integrantes, ficando apenas com uma fração da recompensa. Nos meses seguintes, este não mais se voluntariou a ir caçar, e nenhum outro o fez.

 

Já no Trumpistão, a desigualdade de renda também aumentou tremendamente. Porém o empreendedor teve a liberdade de fazer o que quisesse com os frutos de sua caçada. Trocou por muitos peixes e ainda sobrou. Contratou mão de obra para produzir lanças e ajudar na perigosa caçada ao javali.

 

 

Quanto mais pessoas aprendiam sobre a lança, mais o conhecimento se difundia, e mais as técnicas de produção e de caça eram aperfeiçoadas. Vendo o sucesso do empreendedor original, vários outros concorrentes surgiram, com tecnologias ainda melhores.

 

 

Como consequência, maior era a desigualdade social, porque uns poucos tinham mais do que o restante. Porém, a desigualdade sozinha nada significa, porque todos os integrantes da tribo se beneficiaram, mesmo que indiretamente, da fartura trazida pelas novas técnicas. O mais pobre não ficou mais pobre, pelo contrário, todos ganharam.

 

Outro fator, não menos importante. O empreendedor do Bananistão, ouvindo falar que teria aos seus meios de produção respeitados, migrou para para o Trumpistão, mais especificamente, um lugar chamado Vale da Areia, onde havia o tecnologia de ponta de lança. Sendo um engenheiro brilhante, contribuiu ainda mais para o desenvolvimento desta.

 

O Bananistão, agora com 99 membros, continua igual, com seu punhado de frutas e dois peixes por dia. Na verdade, está pior, já que as poucas lanças que existiam enferrujaram devido à falta de manutenção.

 

Já a tribo capitalista vem crescendo 7% ao ano. Novas técnicas foram sendo criadas: a rede de pesca, machadinha, novos modelos de fogueira e tantos outros. Frutas, legumes, peixe, javali, galinhas e iguarias de todo lugar estão à mesa dos habitantes de Trumpistão.

 

Por fim, o grande dirigente Barba afirmou que as condições de vida estagnadas do Bananistão são culpa do imperialismo.

 

“Povo bom, rico mau! Povo bom, rico mau!”

 

, gritavam as pessoas ao fundo.

 

 

 

Um Cisne Negro paira sobre a China

O todo-poderoso império chinês foi apresentado em uma série de posts (vide aqui, aqui e aqui). Este último post fecha a série.
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A China é segunda maior economia do mundo, caminhando fortemente para ser a primeira. Um bilhão e meio de habitantes. País que mais cresceu nos últimos 30 anos, retirando da pobreza absoluta 500 milhões de pessoas e dobrando o PIB per capita. A China tem programas internacionais de bilhões de dólares, como o One Belt One Road e o Made In China 2025…. perfeito, não?

Não, não é perfeito. O colosso chinês é reluzente, porém tem rachaduras em suas fundações. É como um castelo magnífico, alto o suficiente para eclipsar todos os outros prédios: suas portas são da melhor madeira nobre, o mármore de seu piso é da mais alta qualidade, os detalhes são feitos de ouro e de pedras preciosas. Porém, tudo isto suportado por fundações mal executadas, erguidas às pressas e cheias de falhas estruturais.

Um Cisne Negro gigantesco paira no ar…

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Cisne Negro é um evento de baixa probabilidade e impacto enorme, como um terremoto, ou como a crise mundial de 2008. Para saber mais sobre o assunto, recomendo este link, ou este.


Motivo?

São vários motivos. Em poucas linhas:

O Estado chinês está presente em tudo, incluindo as empresas.
Apesar de privadas, a presença do Estado é muito forte. O Estado injeta uma quantidade absurda de dinheiro em suas campeãs nacionais.

Esta oferta de dinheiro abundante e barato faz com que os riscos sejam mascarados, e investimentos que nunca se pagariam tornem-se viáveis.
Isto também estimula a formação de mega empresas, que se tornam rapidamente too big to fail.

A pressa em investimento do governo nas últimas décadas levou à capacidades de produção assombrosas, sem maiores preocupações com a qualidade e a excelência técnica (atualmente estão correndo atrás do prejuízo, melhorando a técnica, diminuindo a capacidade, olhando para a poluição).

Efeito: A China produz, anualmente, 50% do aço do mundo! Sua produção é 10 vezes maior do que a dos EUA. Há assombrosos 150 milhões de toneladas de capacidade ociosa que eles querem cortar!

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Com relação ao cimento, mais da metade do cimento do mundo é produzido na China. Em três anos, a China consumiu mais cimento do que em 100 anos nos EUA!

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Há obras extravagantes e duplicadas. Um exemplo é uma réplica da Torre Eiffel e complexo residencial, construído em Hangzhou para 10 mil pessoas, mas que atualmente está esparsamente ocupada.

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Outro exemplo. A cidade de Wuhan planeja construir metrô, dois aeroportos, um novo distrito financeiro, um distrito cultural e uma torre comercial tão alta quanto o Empire State, a um custo de 120 bilhões de dólares…

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Capitalismo de Estado, empreendimentos megalomaníacos, lembram os malfadados investimentos de Eike Batista e suas empresas X: OGX, CCX, e outras, só para fazer uma analogia.

Obesidade: Fazendo uma analogia, imagine alguém que passou por subnutrição por toda a infância e adolescência. Na idade adulta, este enriqueceu, e agora pratica o exato oposto, a supernutrição, mesmo já obeso além da conta. Tanto a subnutrição quanto a supernutrição são nocivas a seu modo.

Shadow Banks
Para financiar tais empreendimentos, há os bancos oficiais, mas também há uma série de bancos que atuam de forma pouco transparente, os chamados “shadow banks”. Estes seguem poucas regras claras, o que permite que financiem  empreendimentos de retorno duvidoso.


O que fazer com tal capacidade ociosa?

O ciclo vicioso está em não deixar a economia desacelerar, por conta da ameaça de desemprego. Isto significa mais investimentos, já que o consumo interno não é suficiente. Coloco mais dinheiro em estradas, portos, ferrovias e cidades, para que estes possam produzir mais, e com isto tenho capacidade para produzir mais outras estradas, portos, ferrovias e cidades.

Porém, investir por investir não faz sentido, o investimento tem que valer a pena. Os retornos dos investimentos estão cada vez menores, o que é natural, porque as frutas mais acessíveis já foram colhidas: a primeira estrada tem muito mais valor do que a segunda estrada no mesmo lugar.

No fechar do dia, o investimento tem que se pagar. É como alguém que toma emprestado hoje com a promessa de um bom investimento, e quer pagar amanhã. Chega amanhã, toma outro empréstimo, e assim sucessivamente, uma bola de neve.

Faz pelo menos uns 10 anos que economistas vêm falando de uma crise na China, que nunca ocorreu. Aqui, cabe o problema do Peru, que ilustra a noção de que o passado não explica o futuro:

Um peru é alimentado por 999 dias consecutivos, e nada de mal lhe ocorreu até hoje. Ele está seguro e confiante de que o dono gosta dele. Porém, amanhã, o dia 1000, é o dia do Natal. Adivinha quem vai para o forno?

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Falando em Peru, quem vai pagar o pato?

O risco de crise bancária mundial é remoto, devido à elevada poupança interna chinesa, atualmente por volta de 40% do PIB. Outro fator é a impossibilidade de os poupadores chineses investirem suas economias em outros países.

Pelo motivo acima, dificilmente haverá uma crise internacional de grandes proporções.

Entretanto, causas geram consequências. É difícil imaginar que não haverá efeito algum, dado tamanho desbalanço de contas.

Provavelmente, quando o inevitável ajuste chegar, as famílias chinesas serão chamadas a cobrir o rombo. Provavelmente não haverá uma explosão, afetando o mundo todo, mas sim algo parecido com uma implosão, causando problemas internos.

Este processo pode ser bem conduzido, minimizando danos, ou não, ferindo ou não vários no caminho. Não é possível prever como será. Talvez um destino como o do Japão, saindo de um crescimento exponencial para duas décadas de economia patinando sem sair do lugar (mas mesmo assim, é a terceira economia do mundo).

O que sei é que ninguém gosta de ter a poupança de uma vida toda afetada por decisões de outrem. Isto pode causar distúrbios na Harmonia, que é um dos pilares de sustentação do país, causando problemas aos governantes chineses e em seu mandato dos céus.

O que leva à conclusão: não é nada fácil ser um chinês

Mas, pensando bem, também não é nada fácil ser brasileiro. A hiperinflação dos anos 80 foi um aspirador da poupança das famílias brasileiras, e por consequência, do futuro do país. O Plano Collor dos anos 90 foi mais direto e radical, prendeu a poupança das famílias nos bancos. (Vide o Índice X-Men de hiperinflação dos anos 80). Daqui para a frente, pós eleições, sabe-se lá o que virá…

E, outra coisa, não há para onde correr. O colosso americano também tem as suas rachaduras estruturais, assim como os europeus, japoneses, etc…

Conclusão final: Não dá para ganhar, não dá para empatar e não dá para sair do jogo. O negócio é deixar a vida te levar, um dia após o outro.


Fontes:

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

Livro: Economia Chinesa, Roberto Dumas Dantas, editora Saint Paul

https://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2018/07/06/china-produces-more-cement-than-the-rest-of-the-world-combined-infographic/#1c7b11ef6881

https://www.nbcnews.com/news/photo/eiffel-tower-replica-looms-over-chinas-parisian-style-ghost-town-flna6C10833193

http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html

https://qz.com/699979/how-chinas-overproduction-of-steel-is-damaging-companies-and-countries-around-the-world/

https://www.nytimes.com/2011/07/07/business/global/building-binge-by-chinas-cities-threatens-countrys-economic-boom.html

https://www.worldsteel.org/media-centre/press-releases/2018/World-crude-steel-output-increases-by-5.3–in-2017.html

https://www.nytimes.com/2016/02/23/world/asia/china-economy-overcapacity.html

http://www.chinadaily.com.cn/business/2014-08/04/content_18243657.htm

http://www.global-labour-university.org/fileadmin/GLU_conference_2016/papers/3A/Xingguo.pdf
http://www.eiiff.com/savings/china/rates.html
https://www.businessinsider.com/fake-chinese-buildings-that-look-like-the-world-famous-originals-2015-7#one-development-company-started-building-a-fake-paris-back-in-2007-in-hangzhou-in-the-zhejiang-province-complete-with-a-scaled-eiffel-tower-although-it-was-designed-for-10000-people-the-development-is-sparsely-populated-and-is-now-considered-a-ghost-town-according-to-reuters-6

​ O que é a “Tragédia dos comuns”?

Resumo em uma frase: “O que é de todos, é de ninguém”.

É um termo muito comum em economia, e descreve a situação em que um bem público (que é de todos) acaba completamente esgotado exatamente por ser de todos – e consequentemente, de ninguém em particular.
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O exemplo clássico é um campo de pastagem, livre para que vários pastores a usem livremente. Como o uso é liberado, o incentivo de cada pastor é usar o máximo possível do campo para as suas ovelhas e gastar o mínimo possível de seu tempo na manutenção do campo. Todos acabam fazendo o mesmo, e o campo acaba completamente devastado. O ganho é privado, as despesas são compatilhadas.
O paradoxo da situação é que, se é público e é de todos, todos deveriam cuidar do mesmo. O que acontece, entretanto, é o exato contrário: ninguém vai cuidar do bem público como se fosse o seu próprio.
Ilustra dois conceitos fundamentais da Economia:
  • Escassez, e
  • Pessoas respondendo a incentivos.
Foi inicialmente proposto com este nome pelo ecologista Garrett Hardin (1915 — 2003), num artigo de 1968.

Posts da série Iniciantes – aproveitando que a Wikipédia já não explica nada de forma simples e objetiva.

​Por que não peço descontos?

Uma regra informal neste mundo em que vivemos é: compre o máximo possível de coisas, sempre tentando obter o máximo pelo mínimo de gastos – e isto inclui sempre pedir descontos na hora do compra.
Exemplo:
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Permita-me subverter esta regra. Eu compro somente o necessário, prezando a qualidade, e, por gostar dos bons fornecedores que prestam o inestimável serviço de disponibilizar os poucos produtos de que gosto, nunca solicito desconto.

 


Fluxos
Pensando num fluxo de energias, comprar é como passar a informação ao mercado de que este produto ou serviço é útil para alguém, e de que vale a pena a cadeia de fornecedores alocar sua energia nisto.
O dinheiro “não existe”, é apenas um intermediário, que materializa a troca de serviços entre as partes. No final das contas, somos pessoas trocando serviços entre pessoas.
Se uma loja de que gosto não tem receitas suficientes para se manter, as pessoas que nela trabalham vão alocar o seu tempo em outra atividade.
Querer somente o mais barato é uma corrida para o fundo do poço: ganha aquele que fornecer o produto mais barato, que pagar mal seus funcionários, sufocar os fornecedores, não prestar um bom pós-vendas, cometer irregularidades legais e ambientais, por fim, prejudicando a todos.
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Exigir qualidade, e pagar o preço justo, cria um ciclo virtuoso: estimula que as pessoas talentosas continuem no mercado, boas práticas sejam mantidas, e que a cadeia como um todo se aprimore.
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Alguns pensam: “ah, mas a empresa tal já ganha muito”.
Porém, quero sim que o empreendedor do trabalho que admiro tenha muito sucesso, ganhe muito dinheiro, e com isso consiga financiar produtos ou serviços cada vez melhores.
Ação: ao invés de pedir descontos, peça qualidade.

 

O seu Raul entende muito de economia

O seu Raul é um tiozinho que vende pacotes de amendoim na saída de uma das fábricas em que trabalho.

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O preço do pacotinho permaneceu em R$ 2,50 por um bom tempo, até que, um dia, ele aumentou para R$ 3,50.

– O que houve, seu Raul?
– É a inflação, meu filho. É a inflação.

Na semana seguinte, o preço caiu para R$ 3,00.

– O que houve, seu Raul?
– Eu não estava vendendo nada. É o livre-mercado, meu filho. O mercado.

Tenho certeza que o seu Raul entende muito mais de economia do que muito economista formado!

 

“I é letra de índio que todos julgam iletrado, mas índio é mais sabido do que muito doutor formado” – Mário Quintana.