Além do bem e do mal – em 40 frases

O livro “Além do bem e do mal”, do explosivo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, questiona o que é o “bom” e o que é o “mal”. Segundo ele, essas definições variam de acordo com a moral utilizada.

Ele introduz o conceito de “moral dos senhores” e “moral dos escravos”. O que é “bom” para o senhor é “ruim” para os escravos, e vice-versa. Ele defende que as civilizações começaram com a moral dos senhores, até o surgimento da moral dos escravos.

É como pegar uma tabela de valores e preencher os campos bons e maus. A moral dos escravos vira a tabela de cabeça para baixo, é uma inversão completa de todos os valores.

É uma leitura densa, pesada, demorei vários meses para conseguir terminar o livro, apesar de ter menos de 200 páginas. As frases resumidas abaixo correm o risco de simplificar demais os pensamentos polêmicos do autor. Então, fica a recomendação do livro, antes das 40 frases (mais ou menos).

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É um livro que causa fascínio em uns e repulsa em outros. É encantamento ou desespero, sem meio-termo!

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Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos entendem pouco de mulheres?

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Com o risco de desagradar a ouvidos inocentes eu afirmo: o egoísmo é da essência de uma alma nobre; aquela crença inamovível de que, a um ser “tal como nós”, outros seres têm de sujeitar-se por natureza e a ele sacrificar-se.

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Toda elevação do homem foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e escravidão em algum sentido.

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Digamos, sem meias palavras, de que modo começou na Terra toda sociedade superior! Homens, bárbaros em toda terrível acepção da palavra, homens de rapina, ainda possuidores de energias de vontade e ânsias de poder intactas, arremeteram sobre raças mais fracas, mais polidas, mais pacíficas, raças comerciantes ou pastoras. A casta nobre sempre foi, no início, a casta de bárbaros: sua preponderância não estava primariamente na força física, mas na psíquica.

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Numa perambulação pelas muitas morais, encontrei traços que se revelam dois tipos básicos. Há uma moral dos senhores e uma moral de escravos; acrescento que em todas as culturas superiores aparecem também tentativas de mediação entre as duas morais. No primeiro caso, os dominantes determinam o conceito de “bom”. A oposição “bom” e “ruim” significa tanto quanto “nobre” e “desprezível”. Despreza-se o covarde, o medroso, o mesquinho, o que rebaixa a si mesmo, o adulador que mendiga, e sobretudo o mentiroso.

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É diferente com o segundo tipo de moral, a moral dos escravos. Supondo que os violentados, oprimidos, prisioneiros, sofredores inseguros e cansados de si moralizem: o que terão em comum seus valores morais? Uma suspeita pessimista de toda a situação. O olhar do escravo não é favorável às virtudes do poderoso: é cético e desconfiado.

As propriedades que servem para aliviar a existência dos que sofrem são colocadas em relevo: a compaixão, a mão solícita e afável, o coração cálido, a paciência, a diligência, a humildade.

Aqui, “bom” e “mau”, no que é mau se sente poder e periculosidade, o “mau” inspira medo. O “bom”, é um homem inofensivo: é de boa índole, fácil de enganar, talvez um pouco estúpido, ou seja, um bom homem.

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A degeneração global do homem, descendo ao que os boçais socialistas veem hoje como o seu homem do futuro – como o seu ideal, essa degeneração e diminuição do homem, até tornar-se o perfeito animal de rebanho. Essa animalização do homem em bicho anão de direitos e exigências iguais é possível, não há dúvida!

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O amor ao próximo é sempre algo secundário, em parte convencional e ilusório, em relação ao temor ao próximo.

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Sobre a convicção do filósofo:

Adventavit asinus

Pulcher et fortissimus

[chegou o asno

belo e muito forte]

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Tudo o que ergue o indivíduo acima do rebanho é doravante denominado mau. A mentalidade modesta, equânime, submissa, a mediocridade dos desejos obtém fama e honra morais. 

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Os judeus, o povo eleito entre as nações, realizaram esse milagre da inversão dos valores, graças ao qual a vida na Terra adquiriu um novo e perigo atrativo por alguns milênios. Os seus profetas fundiram rico, ateu, mau, violento e sensual numa só definição. Nessa inversão dos valores, onde cabe utilizar a palavra pobre como sinônimo de santo e amigo, reside a importância do povo judeu. Com ele começa a rebelião escrava na moral.

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Demonstramos profunda incompreensão do animal de rapina e do homem de rapina (César Bórgia, por exemplo), incompreensão da natureza, ao procurar por algo doentio no âmago desses mais saudáveis monstros e criaturas tropicais, ou mesmo por um inferno que lhes seria congênito, como sempre faz todo moralistas.

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Sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, igrejas) e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram -, é justo supor que, via de regra, é inata em cada um a necessidade de obedecer, como uma espécie de consciência formal que diz, você deve absolutamente fazer isso, e se abster daquilo.

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O surgimento de Napoleão é a história da superior felicidade que este século alcançou em seus homens e momentos mais preciosos.

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Todo espírito profundo necessita de uma máscara: mais ainda, ao redor de todo espírito profundo cresce continuamente uma máscara, graças à interpretação perpetuamente falsa de cada palavra.

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Como podem ser maldosos os filósofos! Não conheço nada mais venenoso do que a piada que Epicuro fez às custas de Platão e os platônicos: chamou-se de dionysiokolakes. Significa, em primeiro lugar, “aduladores de Dionísio”, ou seja, clientes de tiranos e puxa-sacos servis; além de tudo quer dizer que “são todos atores, nada neles é autêntico” (pois dionysokolax era uma denominação popular para ator).

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Independência é algo para poucos: é prerrogativa dos fortes. Quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, demonstra que é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele entra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência.

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É inevitável que nossas mais altas intuições pareçam bobagens, delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não são feitos para elas.

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As religiões soberanas estão entre as maiores causas que mantiveram o tipo homem num degrau inferior. Destroçar os fortes, debilitar as grandes esperanças, tornar suspeita a felicidade da beleza, dobrar tudo que era altivo, viril, conquistador, dominador, todos os instintos próprios do mais elevado e mais bem logrado tipo homem, transformando-os em incerteza, tormento de consciência, autodestruição, mais ainda, converter todo o amor às coisas terrenas e ao domínio sobre a Terra em ódio a tudo terreno – esta foi a tarefa que a igreja se impôs.

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Foi uma sutileza que Deus aprendesse grego quando quis se tomar escritor – que o aprendesse melhor.

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Um povo é um rodeio que a natureza faz para chegar a 6 ou 7 homens.

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Tudo que é grande talvez tenha sido loucura no início.

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Ouço, com prazer, que o nosso Sol se dirige velozmente à constelação de Hércules: espero que o homem desta Terra siga o exemplo do Sol.

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Entre os chineses existe um provérbio que as mães ensinam às crianças de berço: “Faz pequeno o teu coração!”. Esta é, de fato, a tendência fundamental das civilizações tardias: não tenho dúvida de que a primeira coisa que um grego antigo observaria em nós, europeus modernos, seria também a autodiminuição.

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O homem que aspira a uma coisa grande considera todo aquele que lhe cruza o caminho, ou como um meio, ou como um obstáculo, ou descanso temporário.

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Os maiores acontecimentos e pensamentos são os últimos a serem compreendidos. As gerações que vivem no seu tempo não vivenciam tais acontecimentos – passam ao largo deles.

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Todo pensador profundo tem mais receio de ser compreendido do que de ser mal compreendido. Neste caso talvez sofra sua vaidade; mas naquele sofrerá seu coração.

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Devemos nos despedir da vida como Ulisses de Nausícaa – bendizendo mais que amando.

Nota: Referência à Odisseia. Ulisses parte para o caminho de casa, agradecendo à bela Nausícaa, princesa de um reino na qual ele se abrigou após um naufrágio.

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A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma.

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Apesar daquele filósofo que, como autêntico inglês, tentou difamar o riso entre as cabeças pensantes – “o riso é uma grave enfermidade da natureza humana, que toda cabeça pensante se empenharia em superar” (Thomas Hobbes) – eu chegaria mesmo a fazer uma hierarquia dos filósofos conforme a qualidade do seu riso, colocando no topo aqueles capazes da risada de ouro.

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Eu, o derradeiro iniciado e último discípulo do deus Dionísio, talvez eu pudesse enfim, caros amigos, lhes dar de provar um pouco dessa filosofia, tanto quanto me é permitido.

Nota. Dionísio (ou Baco, para os romanos) é o deus grego do vinho, natureza, fertilidade e alegria. Representa o Caos, o êxtase, embriaguez… Nietzsche sempre se diz discípulo de Dionísio. Afinal, é do caos que nasce uma estrela.

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Posfácio

O livro “Além do bem e do mal” foi recusado por várias editoras, sendo publicada às custas do próprio autor, em 1886. A tiragem foi de 300 exemplares. Em um ano, apenas 114 tinham sido vendidos, e 66 enviados para jornais e revistas. Talvez por isso, Nietzsche tenha dito que “somente encontraria leitores por volta do ano 2000”.

Hoje, este é considerado um dos grandes livros do Século XIX, segundo o crítico Walter Kaufmann; e Nietzsche, um dos mais polêmicos filósofos de todos os tempos.

Para mais conteúdo explosivo, vide:

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O Amor Fati no mundo atual

Amor Fati é um dos conceitos mais interessante do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Significa, simplesmente, “Amor ao destino”. Amar a sua vida, hoje, agora, do jeito que ela é, e não do jeito que você gostaria que fosse.

Estoicismo

A fórmula do amor fati é semelhante aos pensamentos do Estoicismo, escola de pensamento greco-romana.

“Não procure que tudo aconteça como você deseja, mas sim que tudo aconteça como realmente deve acontecer – então sua vida será serena”.

O único momento da vida que realmente vivemos é o agora. O passado já foi, o futuro não existe ainda.

Então devemos aceitar tudo?

Há um questionamento recorrente à este tipo de filosofia. Devemos então aceitar passivamente a nossa vida, sem questionar e sem querer mudar nada?

Sobre este ponto, gosto da visão de Nassim Taleb, dos livros Cisne Negro e Antifrágil.

Ele cita que o filósofo antigo Sêneca era bastante criticado. Por um lado, ele pregava o estoicismo. Por outro lado, ele ocupava posição importante na política e não se refreava em desfrutar do melhor que o dinheiro poderia comprar.

Taleb argumenta que Sêneca era antifrágil. Se a vida dava a ele condições, por que não a aproveitaria? Se ele viesse a perder tudo o que tinha, ele simplesmente daria de ombros e continuaria a tocar a vida daquele ponto em diante, sem ficar lamentando a má sorte e as agruras do destino.

Sêneca era, portanto, um praticante do Amor Fati.

“Lembre-se que tudo que temos nesta vida está emprestado para nós pelo Destino. Este pode reaver tudo sem nos avisar. Portanto, devemos amar nossos entes queridos, mas sempre lembrando que não há promessa que podemos cumprir para sempre.” – Sêneca, o jovem.

Vide também:

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https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

https://ideiasesquecidas.com/2020/08/16/a-natureza-probabilistica-heisenberg-e-o-eterno-retorno/


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

A natureza probabilística, Heisenberg e o Eterno Retorno

Um dos resultados mais interessantes da física quântica é o de a natureza ser probabilística por princípio.

Até meados dos anos 1900, a física clássica reinava absoluta. Parecia explicar todos os fenômenos possíveis que ocorriam ao nosso redor.

A física clássica é determinística por natureza. As Leis de Newton, num espaço e tempo absolutos, governavam os movimentos de todos os corpos.

Isso levou o matemático Pierre de Laplace a pensar num “computador” ou “demônio de Laplace”. Se eu souber a posição e velocidade de todos os átomos do universo e jogar neste computador, poderei utilizar as leis de Newton para calcular a posição futura de tudo: todos os corpos do universo, todas as colisões, explosões e interações entre partículas.

Mais ainda. As Leis de Newton são reversíveis. Não há nenhuma seta do tempo, dizendo o que é passado ou futuro. Se eu filmar uma bola de bilhar batendo em outra, e reproduzir o filme ao contrário, vou ter outra interação possível entre corpos.

Deste modo, o computador de Laplace poderia calcular todo o futuro, e todo o passado, a partir do tempo presente.

O cálculo tradicional de probabilidades apenas reflete a nossa ignorância. Num jogo de cara ou coroa, por exemplo, se soubéssemos exatamente as interações de cada átomo da moeda, do ar, e as forças aplicadas, poderíamos predizer com certeza o resultado cara ou coroa. Só não conseguimos porque não sabemos as variáveis.

Outra ideia é a do Eterno Retorno, do filósofo Friedrich Nietzsche. Se existe uma quantidade de átomos finita, eles podem se recombinar de maneira finita (embora o número de combinações seja estratosférico, mas finito). Num tempo infinito (e o infinito é muito, muito grande), um dia a configuração de todos os átomos do universo será exatamente igual à configuração de hoje. Jogando no computador de Laplace, todo o presente vai se repetir exatamente da mesma maneira, por incontáveis ciclos, pela eternidade…

Um pouco de cultura pop: a série Dark explora o Eterno Retorno, com uma história completamente insana de pessoas viajando para o futuro e para o passado, tendo filhos que serão os seus próprios pais, encontrando os seus “eus” antigos, em ciclos que se repetem infinitamente.

Para furar o ciclo do Eterno Retorno, o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Em meados de 1900, algumas rachaduras na física clássica levaram à física quântica, que é o modelo que melhor descreve o mundo desde então: o problema da radiação do corpo negro, o efeito fotoelétrico, entre outros.

O Princípio da Incerteza é um dos pilares deste novo conhecimento. Este diz que não é possível saber ao mesmo tempo a posição e a velocidade (momento) de uma partícula, com uma precisão menor do que uma constante (a constante de Planck). Se eu sei a posição, perco precisão no momento, e vice-versa.

Para medir uma partícula subatômica, é necessário jogar uma luz, um fóton sobre este. A energia do fóton muda a posição e momento da partícula, de modo que a observação muda o experimento.

Isso de o observador mudar o experimento dá margem à várias interpretações exotéricas exploradas em cursos de autoajuda e afins: a consciência altera a realidade, basta desejar que o universo se molda em conformidade, etc. Menos… Uma coisa é mudar um partícula subatômica, outra, o universo!

Apesar de Werner Heisenberg ser uma pessoa real, talvez ele seja mais conhecido hoje, na  cultura pop, como o codinome de Walter White, da série Breaking Bad.

Pensando em elétrons nas camadas de um átomo, é como se fosse abelhas numa colmeia. Temos uma nuvem de probabilidades de encontrar uma determinada abelha ao redor da colmeia, porém não dá para dizer exatamente onde ela vai estar em dado momento.

Portanto, a natureza é probabilística. No menor nível de decisão possível, não vamos saber exatamente onde está o elétron, ou o fóton, ou qualquer outra partícula elementar. Este pode estar numa infinidade de lugares, vez por outra até atravessando barreiras de energia impossíveis de serem transpostas (que é o princípio do microscópio de tunelamento eletrônico).

Nem o computador de Laplace, com capacidade de computação infinita, conseguiria prever todo o futuro, pois há uma quantidade infinita de possibilidades.

Ao assumir a física quântica como pilar da ciência moderna, o Eterno Retorno fica sendo um conceito mais distante.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!

Nietzsche em Gaia a ciência

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O MARTELO FALA

O post anterior, sobre frases de Napoleão, me traz à memória o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

No “Crepúsculo dos Ídolos” o posfácio tem o conto a seguir. Quando ele diz que “criadores são duros”, um dos seus inspiradores é exatamente Napoleão Bonaparte.

Outra coisa: Nietzsche definia os seus próprios pensamentos como a “filosofia do martelo”: derrubar crenças e destruir ídolos.

O MARTELO FALA

“Por que tão duro!” -falou ao diamante um dia o carvão: “não somos afinal parentes próximos?”

Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal – meus irmãos?

Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações?

Tão pouco destino em vossos olhares? E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como
poderíeis um dia vencer comigo?

E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?

Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, –

Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre.

Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros!

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Napoleão em 40 frases

Napoleão Bonaparte foi um dos maiores gênios militares da história, um mestre da Arte da Guerra. Conquistou quase toda a Europa, sendo descrito como “um gigante com seus saltos esmagando muito as flores inocentes, destruindo pela força muitas coisas, indiferente ao sofrimento que causava”.

Segue um pouco de seus pensamentos, em (mais ou menos) 40 frases:

É muito melhor ter inimigos declarados do que amigos velados.

Ou abatemos o outro ou o outro nos abate.

Um ato de clemência do rei é como um jogo numa loteria, é raríssimo que ganhemos qualquer coisa.

A aristocracia tem a vantagem de concentrar a ação do governo nas mãos menos perigosas e menos inaptas do que a de um povo ignorante.

A verdadeira felicidade social consiste na harmonia e no uso pacífico das satisfações de cada indivíduo.

Um rei é às vezes forçado a cometer crimes; são crimes de sua posição.

Não há subordinação nem temor que prevaleça nos estômagos vazios.

A sorte é uma mulher, se a deixar fugir hoje, não espere encontrar amanhã.

Quando um príncipe está resolvido a punir, deve punir muitos ao mesmo tempo.

Os mais fortes não negociam, mas sim ditam as condições e são obedecidos.

Não há nada mais tirânico do que um governo que pretende ser paternal.

A glória e o bem do cidadão devem ser silenciados quando assim o requerem o interesse do Estado e o bem comum.

A liberdade civil depende da segurança da propriedade.

As revoluções são como o mais repugnante estrume que favorece o crescimento dos mais belos vegetais.

Em todos os países a religião é útil ao governo, e precisa fazer uso dela para agir sobre os homens.

Não pode existir rei sem finanças, sem meios seguros de recrutar o seu exército e sem frota.

O trono é um pedaço de madeira coberto com veludo.

É muito mais fácil fazer bravatas e ameaçar do que vencer.

Toda árvore produz o seu fruto e só se colhe o que foi plantado.

Não me ofendo quando me contradizem, mas procuro que me esclareçam.

É preciso aceitar as coisas como elas são, e não como gostaríamos que fosse.

Os discursos passam, as ações ficam.

A consciência é o refúgio inviolável da liberdade humana.

Homens superiores são crianças tantas vezes ao dia.

Os homens são tão maus que precisamos estar vigilantes em tudo.

Grandes homens são parecidos com meteoros que resplandecem e se consomem para clarear a terra.

Somos fortes quando estamos decididos e prontos para morrer.

A sabedoria requer prudência.

Por acaso o próprio Sol não tem as suas manchas?

Assim como as conspirações, as surpresas devem surgir como um raio.

Não se deve julgar um homem pela fisionomia, mas colocando-o à prova.

A coragem e a virtude conservam os Estados, os vícios o arruínam.

A vida de um cidadão pertence à pátria.

É muito melhor para o povo ter uma ordem insatisfatória do que não ter ordem nenhuma.

Os homens têm um coração, as leis, não.

Na vida tudo é sujeito a cálculo. É preciso fazer o balanço entre o bem e o mal.

Não sou feito para meia-medidas.

Com os especialistas, as coisas mais simples do mundo se tornam as mais difíceis.

Na guerra como na política, o mal só se justifica quando absolutamente necessário.

Fonte: Napoleão, Aforismos, máximas e pensamentos. Uma curiosidade: é um livrinho fino, impresso em papel jornal barato. Comprei num sebo de S. José dos Campos, por R$ 2,00, há uns 20 anos atrás.

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O mundo é regido pelos fracos

Como uma introdução ao pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche, gosto desta aula do prof. Clóvis de Barros Filho.

Pinçando alguns comentários abaixo, mas claramente a aula é muito mais poderosa na forma, no conteúdo e no humor.

  • O mundo é regido pelos fracos, pelas forças reativas.
  • Deus é o universal saciador, aquele que recompensará todas as mazelas do mundo. Quanto pior aqui neste mundo, melhor no próximo, onde tudo é perfeito.
  • Quando o pregador fala que há uma vida boa após a morte, ele tira das suas costas o peso da finitude e da morte, e assim ele exerçe poder sobre você.
  • “Mais fácil um camelo passar no buraco da agulha do que um rico entrar no céu” é um pensamento para aqueles que não se dão bem neste mundo – porque quem se dá bem não está nem aí com isso.
  • Como quase todo mundo se ferra, quase todo mundo se volta a este pensamento transcendental.
  • As pessoas sempre falaram em Deus, isto não é prova de que Deus existe, e sim que as pessoas sempre foram tristes.
  • Quem é forte no mundo da vida não precisa de ajuda transcendental. Não a vida ascética de virgens no céu. Quem se dá bem neste mundo, tem o seu carrão, fortuna e prostitutas coreanas, quer o seu quinhão nesta terra, agora.
  • Força ativa é a que age, e reativa é a que se contrapõe à ativa. Força ativa: um Ronaldinho Gaúcho, que vai, dribla. Força reativa: um jogador sarrafeiro, um Felipe Melo.

Ex. O caso Sócrates. Sócrates é o baixinho, corcunda, feio, miserável, que fica enchendo o saco. O sofista é a força ativa, ele está lá gritando, colocando o que ele acha da vida, da beleza, com a sua potência, foda-se se está certo ou errado.

  • Ninguém que faz regras é da força ativa, quem faz regras é a força reativa. O ativo não vai limitar a própria potência.
  • A força ativa é o tesão, são os gigantes geniais contra as forças reativas, um monte de “cagadinhos” – um exemplo da vitória deles é a democracia.
  • A vitória é das forças reativas, porque há um número maior destes.

São palavras fortes, bem compatíveis com o estilo de Friedrich Nietzsche.

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O gráfico da felicidade

O gráfico a seguir retrata a “crise da meia-idade”. É como um “U”: grande bem-estar quando criança, declinando até uns 40-50 anos, onde atinge o mínimo, e voltando a crescer a seguir.

Este gráfico é suportado por várias pesquisas e estudos. Porém, gosto mais da minha interpretação.

Quando criança, somos 100% expectativa e 0% realidade. Temos toda a liberdade do mundo para sonhar, sem compromisso algum, com toda a vida pela frente.

À medida que envelhecemos, a dura realidade vai tomando o lugar da doce esperança: faculdade, casamento, casa própria, boletos, mercado de trabalho, filhos.

Mais ou menos na meia-idade, nos damos conta que poucos dos sonhos se tornaram realidade, e não temos mais tempo para grandes novos sonhos…

Porém, a partir deste ponto mínimo, a percepção muda de novo. O negócio é aproveitar a vida, da forma que ela é. O que vier é lucro.

O grande filósofo alemão Nietzsche chamaria isto de “Amor Fati”: amor ao destino, a aceitação integral da vida.

Trilha sonora: In my life – The Beatles

Alguns links:

Quando – Daniel Pink

https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_fati

A caneca da sabedoria

A caneca da sabedoria é aquela na qual ficamos mais sábios a cada gole que tomamos. Existe isso?

Existe. A caneca filosófica. Ela contém a caricatura de vários gigantes do pensamento, na ordem cronológica em que estes deixaram sua marca neste planeta.

A filosofia é um campo do conhecimento misterioso. Ao mesmo tempo que não tem aplicação nenhuma, ela é o embasamento de tudo.

Se ela começa a ter aplicação, vira um outro campo do conhecimento – digamos física ou química, que antes eram especulações no mundo das ideias.

Por outro lado, a ciência não consegue explicar tudo. Sempre há hipóteses, na fundação de qualquer modelo. Hipóteses podem ser atacadas, e a filosofia se encontra na fundação das fundações das hipóteses.

Modo de utilização: Todas as vezes que tomar água, escolher aleatoriamente uma das figuras, e pensar nas reflexões que este trouxe à luz. Não conhece a pessoa? Melhor ainda, a tarefa é procurar a respeito…

Olho para Aristóteles e lembro que ele criou a lógica. E também, a ética aristotélica – onde o máximo da felicidade é a pessoa conseguir dedicar todo o seu pleno potencial ao seu talento, o momento de eudamonia!

Olho para Albert Camus e lembro do mito de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra enorme morro acima, só para chegar ao cume e ver a pedra rolar ladeira abaixo, para começar tudo de novo, um martírio existencialista!

Olho para Arthur Schopenhauer e vejo um velho ranzinza, misógino e pessimista, dizendo que o homem está fazendo da Terra um inferno para os animais, e que a ganância é como a água do mar, quanto mais bebemos, mais queremos.

Olho para Karl Popper e lembro que a ciência só evolui por ser falsificável – ou seja, uma teoria é apenas a melhor teoria até agora, ela não é absoluta. Uma teoria absoluta é uma pseudo-ciência, uma religião, que explica tudo sem possibilidade de constestação. Na ciência, sempre existe a chance de destruir a teoria atual por uma melhor, e é assim que o conhecimento evolui.



O meu preferido é Friedrich Nietzsche, o dinamitador, que contestou a ética, os costumes, o cristianismo, os filósofos clássicos, chamando-os de ídolos de pés de barro. Ele é um criador, e criadores são duros e fortes. Ele é uma força dionísica, do caos, contra as forças apolônias da ordem.

É do caos que nasce um estrela.

Um brinde ao mundo das ideias!

Para quem quiser comprar:
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Uma vida pacata e longa ou cheia de aventuras e curta?

Quando Aquiles era jovem, a sua mãe fez uma profecia.

O garoto iria para a Guerra de Troia, teria uma vida cheia de aventuras, seria um herói lembrado por inumeráveis gerações, porém, teria uma vida curta com uma morte brutal.

Ou, se ficasse em casa, ele seria um camponês com uma vida longa, feliz e pacata, se casaria e teria filhos, os seus filhos teriam filhos, o seu nome seria lembrado por poucas gerações e depois, esquecido para sempre…

Qual a vida que você escolheria?

Não há certo ou errado.

“Que importa que a vida seja longa! Que guerreiro quer ser poupado?”
Friedrich Nietzsche.


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

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O Anticristo, de Nietzsche, em 40 frases

Resumo em uma frase

O próprio subtítulo já diz tudo: “Maldição ao cristianismo”

Anticristo.jpg

Introdução

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), é, segundo suas próprias palavras, “Dinamite pura”. É alguém que faz filosofia com o martelo. E, neste livro, ele martela o cristianismo, com frases como “as três virtudes cristãs são as três espertezas cristãs”, “o sacerdote gosta mesmo é do pedaço mais saboroso da bisteca”, “devemos usar luvas ao ler o Novo Testamento”.

O Anticristo foi publicado em 1888, na Alemanha.

Nietzsche afirma o diametralmente oposto do senso comum: a compaixão é ruim, o cristianismo é fraqueza, o cristianismo inverteu todos os valores da sociedade (transvaloração de todos os valores).

 

Independente de concordar ou não, esta é a opinião de Nietzsche. Por despertar fortes emoções assim, ele ganhou uma legião de admiradores, e também uma legião de inimigos.

 

Seguem alguns trechos do livro, para serem amados ou odiados, sem meio-termo. Conteúdo explosivo a seguir, lembrando, “As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.”

Resumo em 40 frases (mais ou menos)

 

Este livro é para pouquíssimos. E talvez eles não existam. Apenas o depois de amanhã é meu. Alguns nascem póstumos.

 

Tenho uma predileção por perguntas para as quais ninguém hoje tem a coragem, a coragem para o proibido.

  • O que é bom? Tudo o que eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
  • O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.
  • O que é felicidade? o sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

 

Os fracos e malogrados devem perecer: primeiro princípio de nosso amor aos homens.

 

O que é mais nocivo do que qualquer vício? A ativa compaixão por todos os malogrados e fracos – o cristianismo.

 

O cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando a perceber como pecaminosos os valores supremos do espírito.

 

O cristianismo é chamado de religião da compaixão. A compaixão se opõe aos afetos que elevam a energia do sentimento de vida: ela tem efeito depressivo.

 

A compaixão se opõe à lei da evolução, que é a lei da seleção.

 

A compaixão é a prática do niilismo. É instrumento multiplicador da miséria e conservador de tudo o que é miserável – a compaixão persuade ao nada.

 

O sucesso de Kant é apenas um sucesso de teólogo, ele foi um freio a mais na retidão alemã.

 

Kant inventou uma razão expressamente para o caso em que não é preciso preocupar-se com a razão.

 

Nem a moral nem a religião, no cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade. São causas imaginárias (Deus, alma, livre-arbítrio) e efeitos imaginários (pecado, salvação, graça, castigo). Um comércio entre seres imaginários (Deus, espíritos). Um mundo de pura ficção, que falseia, desvaloriza e nega a realidade.

 

Eles não se denominam fracos, denominam-se “bons”. Deus-de-gente-pobre, Deus-de-pecadores, Deus-de-doentes.

 

Antes ele tinha apenas seu povo, seu “povo eleito”. Ele partiu em andança para o exterior, até estar em toda parte.

 

Cristão é o ódio ao espírito, ao orgulho, coragem, cristão é o ódio aos sentidos.

 

Quanto às três virtudes cristãs, fé, amor e esperança, eu as denomino três espertezas cristãs.

 

O conceito de Deus falseado, o conceito de moral falseado. Os sacerdotes traduziram em termos religiosos o próprio passado de seu povo.

 

Simplificaram a psicologia, reduzindo-a à fórmula de “obediência ou desobediência a Deus”.

 

O sacerdote formula até as taxas a lhe pagar, não esquecendo os mais saborosos pedaços da carne, pois o sacerdote é um comedor de bisteca.

Deus perdoa quem faz penitência – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.

 

(Um estudioso da época chamou Jesus de “gênio”).
Nada de conceito de “gênio” tem algum sentido no mundo de Jesus. Falando com o rigor do fisiológico, caberia uma outra palavra – a palavra “idiota”.

 

A palavra “cristianismo” é um mal-entendido. No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” é o oposto do que ele viveu, um “disangelho”.

 

Paulo era o gênio em matéria de ódio, na lógica implacável do ódio. Simplesmente riscou o ontem, inventando uma história. Falseou a história de Israel para que ela aparecesse como pré-história: todos os profetas falaram do seu “Redentor”.

 

O cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno.

 

 

Paulo foi o maior dos apóstolos da vingança.

 

Que resulta disso? Que convém usar luvas ao ler o Novo Testamento.

 

O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência – a sadia noção de causa e efeito.

 

O pecado foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda elevação e nobreza do homem; o sacerdote domina mediante a invenção do pecado.

 

O bem-aventurado não é provado, mas apenas prometido: a bem-aventurança é ligada à condição de “crer” – a pessoa deverá ser bem-aventurada porque crê.
A “prova da força” é, no fundo, apenas fé.

 

A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem.

 

O cristianismo necessita da doença, como a cultura grega necessita de uma abundância de saúde.

 

Todos os caminhos retos, honestos, científicos têm de ser rejeitados como caminhos proibidos pela igreja. “Fé” significa não querer saber o que é verdadeiro.

 

Não nos enganemos: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético.

 

A necessidade da fé, de um sim ou não, é uma necessidade de fraqueza.

 

A “Lei”, a “vontade de Deus”, tudo apenas palavras para as condições sob as quais o sacerdote chega ao poder e o sustenta.

 

As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.

 

A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos.
Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-ses apanas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada.

 

O cristianismo foi o vampiro do Império Romano.

 

Todo espírito no Império Romano era epicúrio, então surgiu Paulo… Paulo, o ódio chandala a Roma, ao “mundo”, feito carne, feito gênio, o judeu.

 

Com isso chego ao final e pronuncio a minha sentença. Eu condeno o cristianismo, faço à Igreja cristã a mais terrível das acusações que um promotor já teve nos lábios. Ela é, para mim, a maior das corrupções imagináveis. A Igreja cristã nada deixou intacto com seu corrompimento, ela fez de todo valor um desvalor, de toda verdade uma mentira, de toda retidão uma baixeza de alma.

 

Guerra mortal ao vício: o vício é o cristianismo.

Link do livro:

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O Crepúsculo dos ídolos, é um livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1889.

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O subtítulo “ou Como se filosofa com o martelo” já diz tudo: ele usa o martelo para atacar a filosofia, a razão, a moral, os costumes, destruir tudo.
“Ídolo com pés de barro” se refere a uma história bíblica: uma estátua, um ídolo, com a cabeça de ouro, peito de prata, pernas de ferro e pés de barro. Apesar de todo o seu resplendor, uma pedrinha rolando morro abaixo atingiu o seus pés de barro, e derrubou o ídolo. E é isto que Niezsche mais gosta de fazer: derrubar ídolos atacando os seus pés de barro, principalmente os maiores ídolos de seu tempo.

Gosto muito de Nietzsche, por ele ser provocativo e politicamente incorreto.

Segue abaixo alguns excertos do livro.


Prólogo

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.


Parte 1. O problema de Sócrates

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Ele trouxe uma variante no combate entre homens jovens e adolescentes. Sócrates também era um grande erótico.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Sócrates fez da razão um tirano, e não é pequeno o perigo disto.

O modo com que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um salvador. É engano dos moralistas achar que é possível sair da decadência ao fazer guerra contra ela. Sair da decadência está fora de sua força, é novamente a mesma expressão de decadẽncia.


Parte 2: A “razão” na filosofia

Tudo o que há séculos os filósofos manejaram foram conceitos-múmia, nada de efetivamente vivaz veio de suas mão.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

Quatro teses:
1 – As razões pelas quais este mundo foi classificado como aparente fundamenta, muito mais, sua realidade. Uma espécie diversa de realidade é absolutamente indemonstrável
2 – As características que se deu ao “verdadeiro ser” das coisas são características do não ser, do nada. O mundo é aparente na medida em que é apenas ilusão ótico-moral.

3 – Fabular sobre “outro” mundo distinto deste não tem absolutamente qualquer sentido.

4 – Dividir o mundo em “verdadeiro” e “aparente”, seja da maneira do cristianismo, seja da maneira de Kant é apenas uma sugestão de decadência.


Como o “mundo verdadeiro” se tornou fábula

Abolimos o mundo verdadeiro: Que mundo restou? Talvez o mundo aparente? Mas não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!


Moral como contranatureza

Todas as paixões possuem uma época em que são meramente nefastas, em que puxam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez.

Atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a práxis da Igreja é hostil à vida.

O que é mais venenoso contra os sentidos não foi dito pelos impotentes, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que haviam tido a necessidade de serem ascetas.

Para uma nova criação, como o novo Reich, ter inimigos é mais necessário que amigos: somente no antagonismo ele se torna necessário.

É ingenuidade dizer “assim e assim o ser humano deveria ser”.


Os quatro grandes erros

Não há erro mais perigoso do que confundir a consequência com a causa: é a autêntica corrupção da razão.
A fórmula mais universal que está na base de toda religião e moral, reza: “faz isso e aquilo, não faça isso e aquilo”. Este é o grande pecado da razão, a mortal irracionalidade.

Erro do espírito como causa, confundido com a realidade! E convertido em medida da realidade! E denominado Deus.

Erro das causas imaginárias – partir do sonho a uma determinada sensação, imputa-se retrospectivamente uma causa.

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

Qual é a nossa teoria? Ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele próprio. Ninguém é responsável pelo fato de existir. Nós negamos a Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente dessa forma é que redimimos o mundo.


Os “melhoradores” da humanidade

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.


Sentenças

É preciso ser um animal ou um deus para viver sozinho – diz Aristóteles. Falta o terceiro caso: é preciso ser ambos – um filósofo…

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Torna-se caranguejo quando se procura pela origem. O historiador olha para trás; por fim, acaba acreditanto também no para trás.

Desconfio de todos os sistemáticos e fujo do caminho deles. A vontade de sistema é uma falta de retidão.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

O psicólogo tem de afastar a vista de si mesmo para poder enxergar algo.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

És alguém que só olha? Ou que se põe ao trabalho? Ou alguém que desvia o olhar, pondo-se de lado?

Queres caminhar junto? Ou à frente dos outros? Ou seguir o próprio caminho? É preciso saber o que se quer e que se quer.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?


O MARTELO FALA

“Por que tão duro!” -falou ao diamante um dia o carvão: “não somos afinal parentes próximos?”
Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal – meus irmãos?
Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações?
Tão pouco destino em vossos olhares? E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como poderíeis um dia vencer comigo?
E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?
Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, –
Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre.
Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros! –


Nota: Resumos têm uma utilidade resumida. Recomendo a leitura do livro inteiro para uma visão mais completa.

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Conhecimento Tácito x Explícito

Para cada unidade de conhecimento explícito em livros, há 1000 unidades de conhecimento tácito, não escrito em lugar algum.

O conhecimento está nas pessoas – e pouquíssimas pessoas têm o talento, a paciência e dominam os meios para se comunicar de forma explícita, seja por texto, vídeo ou artigo.

As ideias estão no ar.  

Um erro comum é achar que as ideias explícitas inspiraram as ações efetivas. Na verdade é o contrário. Normalmente, a ação inspira o registro.

Muitos dos grandes pensadores da história são bons escribas e bons analistas.

Não foi depois que Adam Smith escreveu “A riqueza das nações”, em 1776, que as economias do mundo passaram a enfatizar o livre-mercado, a mão invisível e a divisão do trabalho. Tudo isto já estava acontecendo, e Smith foi o primeiro que analisou e registrou o mesmo.

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O mesmo ocorre com o pensador italiano Nicolau Maquiavel, nos anos 1500. Não foi ele que inventou o conceito de que “Os fins justificam os meios”. Ele era um grande estudioso e pesquisador histórico, e se baseou fortemente nos poderosos de sua época (como César Bórgia) e de épocas antigas para escrever os seus tratados políticos.

Os acadêmicos se fecham em seu mundo do conhecimento explícito, deixando para trás um universo de informações tácitas, do mundo real.

 


 

A espiral do Conhecimento

 

Gosto muito do ciclo SECI de gestão do conhecimento, de 2003, dos autores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Este ciclo reflete quase exatamente as ideias acima.

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Eles dividem o conhecimento em quadrantes.

  • Tácito – Tácito: Uma pessoa ensinando outra, ou uma pessoa aprendendo com a convivência num meio. Aprendemos a falar imersos numa sociedade, e não através da leitura dos livros de gramática.
  • Tácito – Explícito: são os Adam Smiths que reportam o conhecimento tácito de forma explícita. Ou os consultores de empresa que analisam um business e geram relatórios e planos de ação. Ou os professores que escrevem os livros didáticos.
  • Explícito – Explícito: é o mundo das combinações e informação, gerando outras informações e insights. Manuais, livros, planos. O mundo acadêmico mora aqui.
  • Explícito – Tácito: é a internalização do conhecimento, estudar, ler, aprender.

 

Na verdade não é apenas um ciclo. É um ciclo virtuoso, é uma espiral – a espiral do conhecimento.

Conhecimento tácito sendo externalizado, explicitado, possibilitando a combinação de outras análises, facilitando que outras pessoas internalizem o  mesmo, gerando um conhecimento tácito melhor e mais avançado, e assim sucessivamente, e de forma crescente.

A minha contribuição é no tamanho dos quadrantes. O quadrante tácito-tácito é muito maior do que os demais. Representá-lo com a mesma área no quadro subestima o tamanho e a importância do conhecimento tácito.

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O mundo explícito-explícito é o domínio do deus Apolo,  da ordem, do conhecimento perfeito, da beleza, do rigor exato.

Já o tácito-tácito é  o domínio do profeta Dionísio, o do caos, o das combinações esparsas, da embriaguez, do bate-papo informal. É onde nasce uma supernova, parafraseando o grande Friedrich Nietzsche.  É no tácito-tácito onde realmente ocorrem as revoluções.

 Para fazer revoluções, mergulhe no mundo tácito.

 

 

 


Anexo: A biblioteca de Lucien

A biblioteca de Lucien contém todos os livros não-escritos do mundo. Todas as ideias que nunca foram para o papel, todos os sonhos que desapareceram da memória, todos os projetos engavetados.

 

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Um único detalhe: esta biblioteca existe apenas no reino dos sonhos, do personagem Sandman, de Neil Gaiman.