​ O olho da sabedoria

O deus máximo da mitologia nórdica é Odin, e ele é cego de um olho.

Como Odin perdeu o olho?

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Odin sempre buscou obsessivamente a sabedoria.

Nesta busca, ele chegou ao poço de Mimir, aos pés da árvore da vida YggDrasil. Lá vivia Mimir, um ser que tinha todo o conhecimento do cosmos, conseguido devido à água do poço.

Odin pediu para beber a água do poço da sabedoria. Mimir respondeu que havia um preço extremamente alto a ser pago.

“Qual o preço?”, perguntou Odin.

“Um de seus olhos”, disse Mimir.

Odin não hesitou. Arrancou um de seus olhos, sem se importar com a dor, e bebeu a água da fonte da sabedoria…

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Como conseguir o olho da sabedoria?

A sabedoria vem somente após muitos sacrifícios.

O mundo real não existe, existem interpretações do mesmo.

Quem enxerga o mundo com o olho da sabedoria enxerga muito além do que os olhos podem alcançar.

Com o olho da sabedoria vemos as linhas do código-fonte que formam a matrix de nosso mundo.

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Odin pelo mestre Jack Kirby

Vemos cadeias de relações causa-efeito, causa-efeito, a níveis profundos.

Vemos o presente, entendemos o passado e projetamos o futuro.

Vemos que há situações que não conseguirmos prever, para os quais é bom ter precauções, como seguros e opções.

Compreendemos o que as pessoas realmente pensam e o que querem.

Vemos o mundo em nível global e a longo prazo.

Qualquer um de nós pode conseguir o olho da sabedoria, mas o preço é alto, extremamente alto. É necessário muito mais do que o sacrifício de um olho. É necessário o sacrifício de sua vida.

Obter sabedoria significa uma busca incessante por novos conhecimentos: inúmeras horas estudando, lendo, procurando boas fontes de inovação.

Obter sabedoria significa trabalhar eternamente para gerar valor no mundo real, interagindo com dezenas de pessoas, ajudando, aprendendo e ensinando.

Obter sabedoria envolve inumeráveis tentativas e erros, empreender, ser bem-sucedido e falhar, cair e levantar, reconhecer erros, pedir desculpas e evoluir.

Odin perdeu um olho físico, mas ganhou um olho metafísico.

Com tal olho, ele enxergava mais do que qualquer outra criatura da face da Terra.

Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei.

Trilha sonora: assim falou Zaratustra, Richard Strauss

 


 

Fontes:

https://norse-mythology.org/tales/why-odin-is-one-eyed/

https://www.audible.com/pd/History/Great-Mythologies-of-the-World-Audiobook/B013KRSIVC?ref=a_a_search_c3_lProduct_1_2&pf_rd_p=e81b7c27-6880-467a-b5a7-13cef5d729fe&pf_rd_r=BZY0SQ8RHE1VHZPCR6R9&

O Cavalo de Troia das histórias

Já contei neste espaço sobre a “Verdade e o Conto”, ou seja, a verdade pode ser dura demais, mas com a ajuda do conto, ela consegue entrar no coração das pessoas.

Ouvi outra analogia do tipo. As histórias são como um cavalo de Troia, remetendo à famosa lenda do cavalo de madeira, que entrou pelos portões da cidade murada intransponível, com guerreiros escondidos em seu ventre, que abriram os portões de Troia ao exército grego.

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Contar diretamente o que queremos transmitir pode ser muito rápido, não dá tempo de imaginar uma situação, assimilar os dados e entender a ideia.

Exemplo:

– Você conhece o bar Gelo? É um lugar muito bom…

– (Comentário interno: E daí????)

Versus:

– Você conhece o bar Gelo, que fornece três tipos de gelo?
– Como assim, três tipos de gelo? Para mim, gelo é tudo igual…
– Há bebidas em que o gelo tem que ser maior, para derreter devagar. E há outras em que o gelo tem que derreter rápido, para a água se misturar à bebida na medida certa. E o terceiro tipo é para as bebidas que estão entre o derreter rápido e devagar.

Desta forma, ao contar toda uma história elaborada, mostra-se que o bar Gelo tem grande preocupação com a qualidade das bebidas servidas. Além de que é uma história curiosa, certamente vai ficar na memória das pessoas.

Na comunicação entre computadores, a informação redundante é inútil, apenas desperdício de bytes – segundo a Teoria da Informação de Claude Shannon. Entretanto, na comunicação entre pessoas, esta informação redundante aumenta a eficácia da mensagem (contanto que a redundância seja criativa).

Portanto, para aumentar o seu poder de comunicação, comece a contar histórias interessantes.

Para falar a Verdade, eu gosto muito de histórias de mitologia, sendo a Ilíada uma das minhas histórias favoritas. E só estou colocando este assunto para justificar o meu tempo gasto lendo mitologia…

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Fonte da história: The Teaching Company, How Ideas Spread

Tradição oral nas lendas antigas

Muita gente elogiou o post anterior, sobre Telêmaco Borba e as aventuras de Ulisses na Ilíada e Odisseia. Principalmente quem conhece a cidade citada.

Aproveito para fazer um gancho.

Dizem que essas histórias faziam parte da tradição oral antiga muito antes de serem transcritas para o papel, por Homero. Mais especificamente, a Ilíada verdadeira teria acontecido por volta de 1200 a.C., e a transcrição de Homero, em 800 a.C. Ou seja, uns 400 anos de diferença (a história do Brasil tem 500 anos). Neste meio tempo, a história foi transmitida de geração em geração, contada e recontada de cabeça.

Mas a Ilíada tem umas 700 páginas, dezenas de capítulos, centenas de personagens e interligações entre eles (fulano é filho de alguém que é irmão de outro, etc). E a Odisseia, idem, dezenas de capítulos com tramas intrincadas.

Fico me imaginando, como seria possível alguém decorar tanta coisa?


Outras histórias da tradição oral

Há diversas outras obras monumentais que também foram passadas de geração em geração antes de serem transcritas. Dizem que as histórias infantis dos irmãos Grimm, são uma compilação de tradições orais. A história dos três reinos, obra monumental da literatura chinesa, é outro exemplo.

Em geral, lendas antigas de culturas milenares têm esta característica, de serem passadas por tradição oral, de geração em geração, já que o papel ou não existia ou era muito caro ou muito trabalhoso para escrever. Lendas judaicas, germânicas, nórdicas, persas, mesopotâmicas, japonesas, chinesas, aborígenes, incas, maias, africanas, etc.

Portanto, contar toneladas de histórias de geração em geração não é exclusividade dos gregos.


Contos ao redor da fogueira

Em tempos antigos, não havia internet, televisão, rádio, jornal, nada. Fico imaginando as pessoas sentadas ao redor de uma fogueira, após o jantar. E um contador de histórias, narrando a jornada de Odisseus contra o Cíclope, depois contando como ele se amarrou ao mastro do navio para não ceder ao canto das sereias.

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E também imagino muitas crianças, ouvindo cada parte da história com atenção, noite após noite, ano após ano. Crianças estas que crescerão, terão filhos, e recontarão as histórias antigas, acrescentando um pouquinho aqui, tirando um pouco acolá.

Provavelmente, estas histórias tiveram origens em fatos reais, numa guerra que realmente ocorrera algum dia, com pessoas reais. Mas, talvez por estimularem melhor a imaginação humana, talvez somente as versões mais fantasiosas tenham sobrevivido, com um Aquiles invulnerável com exceção do calcanhar, ou com a deusa Calipso tentando seduzir Ulisses com promessas infindáveis, ou um cavalo de madeira com guerreiros escondidos dentro dele.

Com o passar dos milênios, com o aperfeiçoamento e barateamento de tecnologias como o lápis e o papel, algumas pessoas foram transcrevendo algumas destas histórias, a fim de não esquecer, ou enviar para alguém, por exemplo.

Até chegar em um momento onde algum escriba, com meios suficientes (tempo, dinheiro, capacidade intelectual, influência) pegou dezenas de manuscritos diferentes, juntou com centenas de outros relatos orais divergentes, e compilou numa história coerente do início ao fim. Estes escribas são Homero (Ilíada e Odisseia), Irmãos Grimm (Contos de Grimm), Luo Guanzhong (O Romance dos Três Reinos), e outros Homeros equivalentes da história.

Por isso, sempre digo que o lápis, o papel e a imaginação são tecnologias muito mais importantes do que o computador, a internet e a inteligência artificial!

https://en.wikipedia.org/wiki/Iliad
https://en.wikipedia.org/wiki/Homer
https://en.wikipedia.org/wiki/Oral_tradition

Atlas e Hércules

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Atlas carregava o mundo em suas costas.

Suas costas doíam, não tanto por causa do peso, mas pela responsabilidade. É sua a responsabilidade de sustentar muitas pessoas. Tensão demais para uma pessoa (ou um deus) só.

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Stress, dor de cabeça. Trabalho demais, 24h por dia, 7 dias por semana. Aspirinas e café. Não é possível relaxar, deve-se sempre se preocupar com o que vem a seguir. Não há hora para terminar, não há tempo a perder. Não há como dedicar-se a si mesmo, ou à família. Stress.

Um dia um visitante chegou à Atlas. Ele precisava urgentemente de um pomo dourado, para cumprir uma das 12 missões que ele tinha. O pomo dourado só existia no pomar da deusa Hera. Atlas era o único que tinha o know-how para obter o pomo.

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O visitante comprometeu-se a suportar o mundo enquanto Atlas buscava o pomo.

Atlas obteve facilmente o pomo do jardim de Zeus. Mas, no meio do caminho, ele sentiu novamente o gosto da liberdade. Não havia tensão. Não havia peso. Não havia responsabilidades. Não havia pessoas dependendo dele.

Atlas voltou ao visitante, e pediu que ele suportasse o peso do mundo por apenas mais algumas horas. Atlas disse que queria visitar a filha, para dar-lhe adeus.

O visitante prontamente concordou, disse que ele merecia essas horas como pagamento pela obtenção dos pomos. Só que o visitante pediu para Atlas segurar o mundo só um pouquinho, para que ele pudesse ajeitar a calça e segurar melhor. Depois disso, ele poderia ir visitar a filha.

Atlas segurou o mundo novamente. O visitante pegou o pomo e foi embora, para nunca mais voltar. Não falou uma palavra, nem olhou para trás, deixando novamente o peso do mundo para Atlas.

FIM.

Atlas e Hercules

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O 11o trabalho de Hercules era pegar 3 pomos das Hesperíades. Para tal, ele precisava da ajuda de Atlas.

Atlas é o titã que sustenta o mundo em suas costas. É por isso que os mapas do mundo se chamam atlas mundiais.

Somente Atlas poderia pegar os pomos. Então, eles trocaram. Hércules ficou carregando o mundo em suas costas, e Atlas ficou livre do pesado fardo de suportar o mundo por um tempo.

Atlas viu-se livre após milênios. Sentiu o delicioso sabor da liberdade, a leveza de poder respirar com tranquilidade e andar para onde quiser. Ele queria que este momento durasse infinitamente, mas em poucos minutos já tinha pego os frutos e estava de volta a falar com Hércules.

– Hércules, peguei os frutos.
– Ótimo

Mas Atlas hesitou, só de pensar em voltar a carregar o mundo em suas costas.

– Hércules, faz 3 mil anos que não vejo a minha filha. Estou com saudades dela. Estou até com saudades do marido dela, aquele vagabundo. Também queria saber que fim levou o meu cachorro. É rapidinho. Você pode carregar o mundo mais um pouco?

Hércules nem hesitou em responder.
– Claro, fica tranquilo. Você merece, depois de tudo o que fez por mim. Só que o meu calção está saindo do lugar. Você pode segurar o mundo por alguns instantes, só para eu arrumar o calção?

Atlas voltou a segurar o mundo para Hércules ajeitar a calça. E Hércules deu no pé, para nunca mais voltar.

O Pomo da discórdia

Todos os deuses do Olimpo foram convidados para uma festa, exceto Eris, a deusa da Discórdia.

Furiosa, ela esperou a festa atingir o seu ápice, para lançar no meio do salão uma maçã dourada, dizendo que o pomo era para a mulher mais bonita presente.

Três deusas em especial lutaram pelo pomo: Hera, esposa de Zeus, Afrodite, a deusa do amor, e Atena, que embora seja a deusa da sabedoria, entrou na onda da discórdia.

Elas pediram a Zeus arbitrar. Este, a fim de evitar problemas, pediu para um camponês troiano, Páris, fazer a escolha. Este escolheu Afrodite, que lhe prometera a mulher mais bonita da Terra.

O problema é que a mulher mais bonita da Terra era Helena, esposa de um poderoso rei grego.

Assim começou a guerra de Troia.