O Tao da Guerra, do general Er-Hu

Nos mais de 5.000 anos da cultura chinesa, ocorreram diversos períodos extremamente conturbados, com reinos combatentes lutando pela supremacia de seu vasto território e população humana. Por conta disto, a Guerra foi elevada à posição de Arte, sendo a obra de Sun Tzu a mais conhecida, porém, longe de ser a única.

Apresento abaixo um resumo do Tao da Guerra, obra descoberta em tabuletas de bambu no túmulo do grande mestre estrategista Er-Hu. Este foi escrito por volta de 370 a.C., por Er-Hu, um dos mais brilhantes generais da dinastia Zhao.

Seguem alguns trechos desta obra extraordinária. Atenção: contém afirmações fortes.

O general que sabe fazer a guerra é movido pelo Tao. Suas manobras são eficazes, sua técnica precisa, seus planos indecifráveis, sua vontade, impenetrável. Conhece tudo o que se relaciona com o inimigo e com o seu propósito, conhece plenamente o terreno, o tempo atmosférico e o cronológico, é cauteloso no planejamento e magnânimo na execução.

Tu, a quem o destino permitiu decidir sobre a sorte dos grandes impérios, deves pretender a paz para governar com sabedoria. Para tanto, deves ser pacífico e calmo, e ao mesmo tempo implacável!

Se desejas a paz, deves se preparar para a guerra.

Para suportar o fardo do poder é preciso conhecer o calor do inferno que arde nos olhos dos guerreiros e sentir o odor do solo manchado de sangue no rigor das campanhas executadas com a coragem de mil mortes.

O inimigo não deve temer apenas as tuas armas, mas o teu nome!

A arte da guerra consiste em dominar e não apenas em derrotar o inimigo!

Sobre o Tempo. A eternidade caminha todos os dias com o ancião dos anos, mas a morte é fato consumado. Que ninguém se iluda, o tempo de todas as coisas chegará.

Apenas uma coisa para alcançar a eternidade: saber usar o tempo. Uma única maneira de usar o tempo: seja pleno em tudo que fizer! Quando digladiando com armas, acabe com o inimigo. Se deitado com uma mulher, ama-a. Em audiência com teu príncipe, sê pleno. Em campo de guerra, sereno.

O primeiro passo para alcançar a graça é a inteligência, o segundo é a cautela, e o terceiro, a ousadia.

  • A inteligência deve ser utilizada para adestrar o talento e elevar a capacidade.
  • A cautela deve ser empregada a fim de criar projetos audazes e ambiciosos.
  • A ousadia deve ser empregada a fim de executar manobras impossíveis de serem contidas.

Jamais confio na aparência das coisas que me são apresentadas ou nas circunstâncias que ainda não estão cristalizadas. Jamais confio nas palavras de um homem.

Sobre o planejamento tático. Planejar com cautela e executar com ousadia é o talento do general. A vitória primeiro acontece na mente potencialmente superior em táticas. Perspassa pelo espírito altamente capaz e encerra sua sentença na agudeza de propósito.

Os antigos combatentes treinavam seus exércitos todos os dias. É preciso adestrar o exército na disciplina. Deve-se estimular os soldados a manejar armas segundo os seus talentos individuais, até que se tornem peritos.

Saiba sondar as profundezas daquilo que o inimigo deseja previamente. A maestria consiste em adaptar-se a qualquer circunstância e vencer sem usar a força.

A palavra é como uma lâmina afiada que corta o vento e penetra facilmente no ouvido de um homem. E uma arma que penetra no ouvido de um homem poderá matá-lo.

Sobre inteligência. A altura e a espessura das muralhas não podem ser consideradas o sustentáculo da vitória ou da derrota. O general deve se valer dos relatórios de inteligência para definir seus movimentos antes de executar a sentença de guerra.

Capturar armas e provisões é a melhor coisa, destruir é a segunda melhor. Cativar a confiança e apoio dos camponeses é a melhor coisa, rendê-los, a segunda melhor. Determinar o resultado da guerra e dominar o inimigo sem desembainhar a espada é o verdadeiro ápice da excelência.

Como uma lança afiada indo ao encontro do peito do inimigo, tuas intenções devem ser firmes, tuas manobras, absolutas, e o resultado das mesmas, definitivo!

Paciência e autodomínio inabalável são recursos essenciais. Devem, portanto, ser o fundamento que move o general.

O general deve ter um nome e um rosto. Um rosto para os que estão perto o seguirem, e um nome para os que estão longe o temerem. A palavra do general é uma ordem! Os oficiais devem demonstrar respeito na presença do general, firmeza no cumprimento de ordens e economia nas palavras ao anuciar seus interesses.

O verdadeiro poder não é motivado pela ambição, não é reconhecido pela ganância e não é testado pela vaidade. O verdadeiro poder não é controlado por forças externas.

Opera sempre no secreto, mas com tal firmeza de propósito que nem o mais hábil comandante saiba deslindar os mistérios de tua mente. A sagacidade está em evadir para dominar, recuar para avançar, simular fraqueza quando forte, demonstrar força quando fraco.

Quando chegar o momento em que todos os critérios do que desejas executar estão satisfeitos, cumpre que sejas tão rápido e preciso quanto o falcão que se precipita em direção à sua caça.

Não há misericórdia para quem é mensageiro da morte. É a sua natureza que o conduz a ter domínio do céu, e não apenas a sua vontade!

Trabalha duro para adquirir destreza. Aprende tudo e esquece para usar o instinto.

Se queres conhecer um homem, considera a sua montaria, as suas roupas e o seu olhar, não apenas as suas palavras. Quando os homens movem os lábios, posso ouvir-lhes as palavras, e quando lançam o olhar, compreendo suas verdadeiras intenções.

Defesas impenetráveis não são feitas de pedra, mas de astúcia. Certifique-se de que o inimigo verá o mais temido exército que já pisou sobre a face da Terra.

Um mestre da estratégia é discreto, não precisa atestar a sua arte, jamais se gaba de suas habilidades. Suas façanhas se eternizam e suas palavras brotam dos confins da vaidade.

A mais antiga de todas as armas é a beleza. Aquilo que parece ser tão belo pode ser tão letal.


Links:

https://www.saraiva.com.br/o-tao-da-guerra-os-fragmentos-perdidos-da-dinastia-zhao-3048339.html

A Arte da Guerra antiga e moderna

Resumo: Um pouco da Arte da Guerra dos livros antigos, e o que encontrei na China atual.


 

Parte 1 – A Arte da Guerra

A minha fascinação pela China é de longa data.

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Tudo começou com a Arte da Guerra, de Sun Tzu – um tratado pequeno, simples, mas poderoso:

“Toda a guerra é baseado no logro (em enganar o inimigo)”,

“Na defesa, seja impassível como uma montanha. No ataque, atue como uma águia ataca uma presa”,

“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho”.

 

Lembro que este foi uma recomendação de um executivo que estava palestrando para alunos do segundo grau, eu incluso – e por isso, hoje estou sempre aberto a conversar e recomendar livros para os outros.

 

Napoleão Bonaparte, sem dúvida um dos maiores generais de todos os tempos, carregava a Arte da Guerra para onde quer que fosse.

A “Arte da Guerra” me fascinou tanto que tenho umas dez versões do mesmo em minha biblioteca: diferentes traduções, diferentes interpretações, versão em quadrinhos, etc… A foto a seguir é da minha biblioteca.

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Depois de ler as notas desses livros, descobri outro tratado igualmente poderoso, capaz de alterar os rumos de uma batalha, decidir o destino de uma nação inteira: “Os trinta e seis estratagemas secretos“. É outro livro muito simples, direto:

 

“Observe o fogo do outro lado do rio”,

“Roube um bode pelo caminho”,

“Dê tijolos para obter jade”.

 

Tenho outros como o “Livro do Mestre Chang”, “A arte da guerra de Sun Pin”, e mais um monte, mostrando que a China passou por milênios de guerras entre os seus estados e contra estrangeiros (mongóis por exemplo). Estamos falando de 5 mil anos de história, é profundo, pesado – para efeito de comparação, o Brasil tem 500 anos de história.

Nesta jornada, descobri algo muito mais fascinante do que todos os livros acima juntos. Se juntar todo o conhecimento e histórias acima, não dá nem um terço deste último, que deixo aqui como o ponto alto desta exposição: O Romance dos Três Reinos.

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O maior estrategista da história da China não é Sun Tzu. Longe disso. O maior estrategista da história da China chama-se Zhuge Liang Kong Ming, o “dragão agachado”, e suas inúmeras estratégias e artimanhas que fariam Ulisses, da Odisseia, parecer um amador.

O nome “Três reinos” está errado, na verdade eram três impérios. Haviam muito mais reinados menores, que foram sendo consolidados (ou seja, derrotados), até sobrarem apenas os três reinos de Wei, Wu e Shu Han. Foram dezenas de anos de batalhas entre esses, até chegar ao vencedor que consolidou a China como um todo.

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A Arte da Guerra na China moderna

Vim para a China achando que encontraria diversas mênçãos à sua gloriosa história, e que as minhas referências como Sun Tzu e Zhuge Liang Kong Ming seriam populares e conhecidos por aqui.

Ledo engano.

E este é o motivo:

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A partir da revolução comunista de 1950, Revolução cultural nos anos 70, parece que o passado foi deletado, e tudo recomeçou do zero.

Ainda é possível encontrar sobre os mais de 5000 anos de história da China preservados em tradições e no estilo de vida chinês, porém, para estudar sobre isto, só no museu. Nas ruas, observa-se claramente o controle do Estado em todas as vidas deste país – mas isto é tema de outro assunto, mais detalhado.

 

Não encontrei a Arte da Guerra antiga, somente os efeitos da Arte da Guerra moderna. E, dizem as lendas, que Mao Tsé Tung sempre carregava uma cópia do Romance dos Três Reinos com ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sitiar Wei para salvar Zhao

Estratégias Chinesas e a Arte da Guerra

Conta-se que  o poderoso exército de Wei estava em marcha para atacar o pequeno de Zhao, que dificilmente resistiria ao ataque. O rei de Wei pediu ajuda ao estado de Qi, que tinha como general Sun Bin, o “Aleijado”. Sun Bin era descendente de Sun Tzu.

Porém, ao invés de marchar para confrontar os inimigos de Wei, o “Aleijado” colocou seu exército em direção à cidade do inimigo. Uma vez que Wei tinha mobilizado mais de 100 mil homens, a sua capital estava desprotegido.

Isto obrigou que o exército de Wei voltasse correndo para a sua capital, salvando Zhao da invasão sem disparar um tiro.

O exército de Wei, voltando a toda velocidade, foi facilmente emboscado pelo “Aleijado”.

Esta foi uma batalha vencida pelo posicionamento e inteligência, superiores à força.

 

Nota: Este blog mudou-se para https://ideiasesquecidas.com/.

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Foco x Visão 360 graus

Mais ou menos em 2009, quando Eike Batista estava no auge, eu li o livro dele, chamado “O X da questão”.

Conta a historinha básica da vida de todo vencedor: que começou cedo, começou vendendo de porta em porta, etc. Este tipo de biografia é sempre enviesado a puxar a sardinha para o lado do biografado. Até aí, tudo bem.

Achei o livro interessante. Mas tinham dois itens que me incomodaram bastante.

O primeiro: ele citou que o controle de risco incluía desistir da “mão-podre” antes que contaminem o resto, ou seja, abandonar projetos que fracassaram sem dó nem piedade. Pensei: Mas e os tantos acionistas minoritários que entraram junto nesta empreitada, vão ficar com o prejuízo? Anos depois, a resposta: vários negócios foram vendidos, dívidas foram convertidas em ações, credores assumiram empresas, minoritários foram diluídos em 90%…

 

O segundo ponto que me incomodou muito foi a tal “Visão 360 graus”. É a filosofia dele que dizia que tinha que se preocupar com TODOS os aspectos à sua volta: logística, economia, jurídico, engenharia, etc. Em resumo, olhar para todos os lados, estar preparado para se defender de tudo. Parece bonito, mas é uma típica bravata de valentão querendo se impor na força.

Lembrei imediatamente de Sun Tzu, o estrategista autor da Arte da Guerra. “Se o inimigo se defender à direita, ele estará vulnerável à esquerda, se ele se defender à esquerda, estará vulnerável à direita. Se ele se defender em todos os pontos, estará vulnerável em todos os pontos”.

Não é possível ao ser humano estar atento a tantas direções ao mesmo tempo.Ele deve focar naquilo que sabe bem, e contar com alianças com outras pessoas naquilo que estes têm de melhor. Deve fazer o básico, o arroz com feijão primeiro, para depois construir os outros aspectos relevantes. Afinal, de que adianta um poço de petróleo com marketing, engenharia, portos, navios, advogados, cientistas da computação, etc, se o poço não tem petróleo?