Muri, Mura, Muda

Mesmo após tantas décadas, há conceitos do Sistema Toyota de Produção que são importantes, belos, e ignorados por muitos.

Muda-Mura-Muri

Um deles é o Muri Mura Muda. São três palavras em japonês, que querem dizer o seguinte.

Muri – sobrecarga, esforço além do suportável
Mura – desequilíbrio, desbalanço
Muda – trabalho que não agrega valor

Nota: essas palavras são oxítonas. A pronúncia é na última sílaba, mais ou menos assim: Murí, Murá, Mudá.


Muri

O “Muri” é uma carga de trabalho excessiva sobre uma pessoa. É comum em bancos, mercado financeiro e consultoria uma cultura em que trabalhador fique na empresa mais de 12 horas por dia, e de vez em quando vare algumas noites (com orgulho). Em alguns momentos específicos, talvez nem tenha problema, mas viver constantemente assim não parece ser algo saudável. A longo prazo isto não é bom para a pessoa.

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Conheci um fulano que fazia questão de ficar sempre até muito tarde na empresa: meia noite, madrugada adentro. E usava doses maciças de estimulantes tipo Red Bull e muito café. Durante o dia, as vezes parecia um zumbi, mas fazia questão de ficar presente sem agregar valor algum. Isto pode impressionar a curto prazo, mas deve causar problemas graves a longo prazo.

 


Mura
O “Mura” é o desequilíbrio entre processos: algo ou alguém fazendo muita coisa, enquanto outro fazendo pouco. Isto pode surgir de várias formas. Basta imaginar que num maquinário industrial há diferentes equipamentos com idades diferentes. Máquinas novas tendem a ser mais produtivas, mas podem depender de máquinas mais velhas que engargalam o processo. Desequilíbrios de tempo, espaço, produtividade e informação sempre existem e sempre vão existir, mas a ideia aqui é encurtar este gap, tornar o aproveitamento dos recursos o melhor possível.

 

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Muda
O “Muda” é o trabalho que não agrega valor, no final das contas. Pela cadeia produtiva ter muitas etapas, e pelo processo ser algo em eterna mutação, também sempre vai ocorrer que alguém vai estar fazendo algo que não agrega valor, no final das contas. Algumas perguntas, como “Para que estou fazendo isto”, ajudam a eliminar este tipo de coisa.

 

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Já trabalhei num setor público, onde via muita gente que não agregava valor algum e nem tinha intenção de o fazer. Um dia, teve uma avaliação de desempenho do setor de RH, e distribuíram um punhado de pessas para eu avaliar. Um dos avaliados era uma pessoa que chegava pontualmente as 8 da manhã e saía as 17h, mas fazia absolutamente nada neste período. Já tinha passado muito serviço para ele, que respondia com educação mas não entregava nada. Eu queria dar nota 0 (zero) para ele. Estava disposto a isto, e realmente dei nota zero. Mas fui barrado pelo meu chefe, o comandante da área. Se eu desse nota zero para o indivíduo, aconteceriam algumas coisas: primeiro, a nota baixa dele iria levar para baixo a média do setor, o que era ruim. Segundo, eu não posso simplesmente dar zero para alguém que tem décadas de “bom serviço público” prestado, eu teria que ter uma justificativa muito boa para isto (ele não entregar nada não era uma boa justificativa). Terceiro: não ia adiantar nada, porque ele estava a três anos de se aposentar, e estava ali contando os minutos para isto. No final das contas, mandei o sistema à merda e dei nota dez para o pior funcionário de todos.

 


Muri, Mura e Muda como fonte de inovação

Identificar falhas de processo que não agreguem valor, desequilíbrio de processos e excesso de trabalho são oportunidades para a melhoria do trabalho. São fontes de inovação.

A ideia é atacar as causas e fazer com que as pessoas agreguem valor, tornar processos equilibrados e justos para os trabalhadores.

O que deve ser feito? O que é o correto?

Por que não fazer diferente? Pelo menos tentar fazer diferente?


 

Conclusão
Estendendo o conceito para a vida pessoal, acho muito importante o equilíbrio entre a vida pessoal, profissional, equilíbrio financeiro, metas de longo e curto prazos. É extremamente difícil, extremamente difícil mesmo, equilibrar tudo isto o tempo todo e ainda manter a saúde.
O tempo é o recurso escasso do ser humano. Não é o dinheiro, não é o maquinário.

Não por acaso, a filosofia da Toyota considera o maquinário já depreciado no momento da compra, e busca otimizar o tempo das pessoas.

Ser produtivo é agregar o maior valor possível para a sociedade, para a família, no escasso tempo útil que temos. Ser produtivo não é ficar 15 horas na empresa fingindo trabalhar.
Ser eficaz é fazer o trabalho correto, agregar valor de verdade. Fazer coisas que realmente serão úteis para quem receber o trabalho, encontrar soluções que funcionem efetivamente.

 


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Obs.

O “Mu” das três palavras (Muri, Mura, Muda), é um ideograma que quer dizer “Não”.

Mais ou menos assim: não poder (excesso), não equilíbrio, não valor.


 

Arnaldo Satoru Gunzi
Maio/2015

 


 

 

4 comentários sobre “Muri, Mura, Muda

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  3. muito bom texto. não conhecia esses conceitos. estou passando por um momento em que trabalho tantas e tantas horas e no final do dia a sensação é de que não fiz nada, não que eu não tenha feito de fato. porém, a realidade é que minha necessidade nesse momento, pelo menos do meu ponto de vista, é descobrir o que é o “mais importante” de ser feito, quais são as prioridades… e a partir disso fazer aquilo que trará os resultados que desejo obter. obrigada por compartilhar conhecimento. abraços.

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