O Quadro do Inferno – Parte 1

Tradução livre da versão em inglês, da Penguim Modern Classics.

1.
Estou certo de que nunca houve alguém como o nosso grande Lorde Horikawa, e duvido que haverá um dia. Sua Majestade parece ter qualidades inatas que o distinguem de seres humanos comuns. E, por causa disto, seus feitos não páram de nos surpreender.

Em face de tal majestade esplendorosa, não é surpresa que todos os residentes da Capital Horikawa reverenciem Sua Majestade como reencarnação de Buda. Sua Majestade estava retornando de um banquete de florescer de cerejeiras no palácio quando o boi puxando sua carruagem se soltou e machucou um homem velho que estava passando. O velhinho se ajoelhou e juntou as palmas das mãos e agradeceu por ter sido pego pelos chifres do boi de Sua Majestade!

Há muitas histórias. Uma vez, quando a construção da Ponte Nagara parecia estar indo contra a vontade de um deus local, Sua Majestade ofereceu um garoto ajudante favorito como um sacrifício humano no pé do pilar. Oh, não há fim para estes contos! Mas em termos de puro horror, nenhum deles se compara com a história do quadro mostrando cenas do Inferno, que é agora uma relíquia de família valiosa.

Até Sua Majestade, normalmente tão imperturbável, ficou aterrorizado com o que aconteceu. Eu mesmo servi como um dos servos de Sua Majestade por vinte anos completos, mas o que testemunhei foi mais terrível que tudo que tinha experimentado.

Para contar a história do Quadro do Inferno, devo contar sobre o pintor que o criou. Seu nome era Yoshihide.
2.
Yoshihide era famoso como o maior pintor da nossa terra, mas tinha chegado à idade de talvez cinquenta, e ele parecia um pequeno velho desagradável, pele e osso. Ele se vestia suficientemente normal quando aparecia na mansão de Sua Majestade – em marrom avermelhado, robe de ceda com mangas largas, e um chapéu preto alto com uma dobra sutil à direita – mas como pessoa ele era tudo menos normal. Dava para ver que ele tinha um vestígio de avareza, e seus lábios, anormalmente vermelhos, davam uma impressão perturbadora, bestial. Alguns diziam que a vermelhidão vinha de misturar sua tinta com os lábios, mas não se sabe. Línguas más falavam que ele parecia e se movimentava como um macaco, e chegaram a dar a Yoshihide o apelido de “Macacohide”.

Ah, este apelido me lembra de um episódio. Yoshihide tinha uma filha, sua única criança – uma garota doce, amável bem diferente do pai. Ela tinha ido à mansão Horikawa como uma serva júnior da própria filha de Sua Majestade, a Jovem Senhorita. Talvez por ter perdido sua mãe muito cedo, ela tinha uma natureza unusualmente madura e profundamente compreensiva além de sua idade, e todos de Sua Senhoria abaixo gostavam da garota por sua rapidez em notar a necessidade dos outros.

Nesse meio tempo, alguém da província de Tamba presenteou Sua Majestade com um macaco domesticado, e o Jovem Mestre,que estava no auge de sua perversidade infantil, decidiu chamá-lo “Yoshihide”. O macaco era por si mesmo uma criatura cômica,mas associar com este nome fazia todos na casa rirem alto. Oh, se eles apenas ficassem satisfeitos por rirem! Mas o que o macaco fizesse, as pessoas encontravam uma razão para atormentá-lo, e sempre com um grito de “Yoshihide”!

Um dia, a filha de Yoshihide estava andando por um longo corredor, e o macaco Yoshihide entrou pela porta deslizante, em fuga de algo. O animal estava mancando e não conseguia subir no poste como sempre fazia quando assustado. Então quem apareceu procurando-o era o Jovem Mestre, com um chicote e gritando: “Volte aqui, seu ladrão de tangerina!”

O macaco se agarrou às saias da filha de Yoshihide com um choro de dar dó. Isto deve ter aumentado a sua compaixão, porque ela escondeu o macaco na manga macia de ser vestido. Então, fazendo uma pequena reverência ao Jovem Mestre, ela disse com claridade firme, “Desculpe-me por interferir, meu jovem lorde, mas ele é apenas um animal. Por favor o perdoe”.

Com temperamento ainda da caçada, o Jovem Mestre franziu e bateu o pé várias vezes. “Por que você está protegendo-o?” “Ele roubou minha tangerina!”

“Ele é apenas um animal” ela repetiu. “Ele não sabe”. E, sorrindo tristemente, ela adicionou, “O nome dele é Yoshihide. Não posso ficar parada e apenas assistir ‘meu pai’ ser punido”. E isto foi aparentemente suficiente para dobrar a vontade do Jovem Mestre.

“Então tudo bem”, ele falou com relutância óbvia. “Se você está suplicando pela vida do seu pai, deixarei ele ir desta vez”.

3.
Depois deste incidente, a filha de Yoshihide e o macaco se aproximaram. A garota tinha um sino de ouro que a Jovem Senhorita tinha dado, e ela colocou no pescoço do macaco. E ele, quase nunca deixa de ficar ao lado dela. Uma vez, quando ela estava acamada com um resfriado, o macaco ficava horas no travesseiro, mordendo suas unhas, e juro que com uma expressão preocupada.

Estranhamente, as pessoas pararam de atazanar o macaco. Um pouco depois disto, a Sua Majestade pessoalmente ordenou que a garota aparecesse a ele com o macaco nos braços – tudo porque ele tinha ouvido falar do acesso de fúria de seu filho e de como a garota veio a tomar conta do macaco.

“Admiro o seu comportamento filial”, disse o Senhor. “Aqui, pegue isto”. E ele a presenteou com um fino robe escarlate. Dizem que Sua Majestade ficou especialmente satisfeita quando o macaco, imitando a expressão de gratidão da garota, se curvou diante dele. A parcialidade de Sua Majestade pela garota se dá inteiramente pela sua devoção filial ao pai, e não, como diziam os rumores, pela atração física que ele poderia sentir por ela. Por ora, é suficiente dizer que Sua Majestade não é o tipo de pessoa que gasta sua atenção pela filha de um mero pintor, por mais bela que seja.

Chega da moça por ora. Vou continuar a história do seu pai, Yoshihide. Como eu disse, o macaco Yoshihide rapidamente se tornou querido de todos, mas o Yoshihide mesmo permaneceu objeto de escórnio universal, chamado pelas costas de “Macacohide” por todos. E não apenas na mansão Horikawa. Até um eminente budista como o monge de Yokara odiava Yoshihide, tanto que a mera mênção do seu nome era suficiente para fazê-lo ficar púrpura como se tivesse visto um demônio. (Alguns dizer que foi porque Yoshihide desenhara uma caricatura ridicularizando certos aspectos do comportamento do monge, mas isto era um mero rumor que circulava entre as classes baixas).

4.
Yoshihide era terrivelmente avarento, ele era rude no trato com pessoas, não tinha vergonha, era preguiçoso e ambicioso. Pior de tudo, ele era insolente e arrogante. Ele nunca deixava você esquecer que ele era o “maior pintor da região”. Um homem que foi seu aprendiz por muitos anos uma vez me contou esta história: Yoshihide estava presente na mansão de um certo cavalheiro quando surgiu uma mulher com espírito possuído. A mulher entregou uma mensagem horrível do espírito, mas Yoshihide não estava impressionado. Ele pegou um pincel e fez um rascunho detalhado da expressão selvagem dela como se ele visse a possessão como um mero truque.

Não impressiona que um homem como este cometesse sacrilégios no seu trabalho. Até os aprendizes estavam chocados. Conheço vários que, temendo por sua punição após a morte, imediatamente deixaram o trabalho.

Seu traço e cores eram muito diferentes dos demais. Tome como exemplo seu “Cinco níveis de renascimento no portão do templo Ryuogaiji”. “Quando eu passei pelo portão à noite”, uma pessoa disse, “Pude ouvir os celestiais mortos suspirando e chorando” “Isto não é nada”, clamou outro, “Eu pude sentir o cheiro da carne dos mortos apodrecendo”. “E sobre o retrato das serviçais que Sua Majestade pediu para Yoshihide pintar? Toda mulher que ele pintou caiu doente e morreu em três anos. Foi como se as suas almas tivessem sido sugadas pelo quadro”. De acordo com os críticos mais ferozes, esta era a prova final que Yoshihide praticava a Arte do Demônio.
Mas mesmo o Yoshihide, em toda a sua incrível perversidade, mostrava afeto humano quando se tratava de uma coisa.

5.
Yoshihide era verdadeiramente maluco pela sua filha única, a jovem serviçal do castelo. A garota era, como já dito antes, uma criatura bondosa muito devotada ao pai, e seu amor por ela não era menor que dela por ele. Ele provia a ela todas as necessidades sem objeção. Isto não é incrível para alguém que nunca fez uma única contribuição ao templo?

Quando Sua Majestade honrou ela com a posição de serviçal júnior em sua casa, Yoshihide estava longe de ficar feliz com isto, e por um tempo ele estava sempre com uma expressão ácida quando na presença de Sua Majestade. Não tenho dúvidas que as pessoas que testemunharam isto foram as mesmas que começaram a especular que Sua Majestade estava atraída pela beleza da garota.

Lembro da vez que Sua Majestade ordenou Yoshihide a fazer uma pintura de Monju (um buda) quando criança, e Yoshihide deixou-o muito feliz com um trabalho maravilhoso que usou um dos garotos favoritos de Sua Majestade como um modelo. “Você pode ter tudo o que quiser como recompensa”, disse Sua Majestade. “Qualquer coisa”. Você imagina o que ele pediu? “Se isto agrada a Sua Majestade, eu imploro que retorne a minha filha à posição antiga” Que impudência deste homem! Esta não era uma casa comum.
“Isto não acontecerá”, respondeu Sua Majestade.

Este não foi o primeiro nem o último incidente. Acho que foram quatro ou cinco. A cada incidente, Sua Majestade olhava Yoshihide com crescente frieza. A garota, por outro lado, parecia temer pelo bem-estar do pai. Frequentemente ela podia ser vista chorando encolhida em seu quarto, com os dentes apertados em sua manga. Tudo isto reforçava o rumor que Sua Majestade estava enamorado pela garota. Também diziam que o comando para pintar o quadro tinha algo com a rejeição dela aos avanços de Sua Majestade, mas isto, certamente, não pode ser possível.

De qualquer forma, este era um período em que Yoshihide estava em grande desfavor com Sua Majestade. Subitamente um dia, por qualquer razão, Sua Majestade ordenou que ele pintasse cenas dos oito infernos budistas.

6

Oh, aquele quadro! Quase posso ver as terríveis imagens do inferno na minha frente agora!

Outros artistas pintaram o que eles chamaram de imagens do inferno, mas nenhum de seus trabalhos era como o de Yoshihide. Ele colocou os 10 Reis do Inferno num canto e todo o resto – o quadro todo – estava envolvido em uma tempestade de fogo tão terrível que pareciam derreter a Montanha de Sabres e a Floresta de Espadas.
Os pecadores se contorcendo no fogo do inferno da pena poderosa de Yoshihide não tinham nada em comum com pinturas normais do Inferno. Yoshihide incluiu pecadores desde o mais brilhante círculo de Sua Majestade até o mais pobre mendigo. Um cortesão em vestimentas cerimoniais magníficas, uma dama jovem em robes, um monge entoando o nome sagrado de Amida: eles eram seres humanos de todo tipo, tormentados pelos demônios do Inferno, e em todas as direções como folhas de outono espalhadas. E todos eram os tormentos: um chicote de aço, uma rocha gigante, um pássaro monstruoso, uma serpente venenosa…
Mas certamente a imagem mais horrível de todas era de uma carruagem andando no espaço. Os ventos do Inferno levavam a carruagem, e havia uma moça tão linda nela que só poderia ser uma das consortes favoritas da corte. A alvura pura de seu pescoço nu enquanto agonizava nas chamas. Todos os detalhes da moça e da carruagem enchem o espectador de sentidos aterrorizantes dos tormentos do Inferno. Todo o horror do quadro estava concentrado nesta única cena. Todos os que viam o quadro podiam ouvir em suas mentes os gritos mortais da moça retratada.

Deixe-me contar como Yoshihide fez para pintar o Quadro do Inferno.

7
Por quase seis meses após receber a ordem, Yoshihide colocou todas as suas forças na tela, sem ser chamado uma única vez à residência. De acordo com o aprendiz mencionado anteriormente, Yoshihide sempre abordava o seu trabalho como se estivesse possuído por um espírito de raposa. Algumas pessoas diziam que Yoshihide só era capaz de fazer o seu nome em arte devido a ter dado a sua alma a algum deus da fortuna, e a prova era que sempre que ele estava pintando, era possível ver espíritos sombrios de raposa ao seu redor. Ele poderia passar dias e noites trancado em seu estúdio, e sua concentração parecia especialmente intensa para este trabalho.

Um dia, um de seus aprendizes estava ocupado dissolvendo pigmentos quando Yoshihide disse subitamente, “quero tirar uma soneca mas recentemente tenho tido sonhos ruins. Quero que você continue trabalhando ao meu lado enquanto durmo”. Yoshihide deitou e entrou no sono profundo de um homem bastante exausto. Nenhum tempo se passou quando o aprendiz começou a ouvir um som que ele não poderia descrever. Era uma voz, estranha e misteriosa.

8
A voz começou a murmurar, “O q-u-e-e-e? Você quer que eu vá junto contigo?… Onde? Onde você vai me levar? Para o inferno, você diz. Para o inferno do calor lancinante. Quem… quem é você, maldito? Quem pode ser você a não ser…”

O aprendiz, dissolvendo pigmento, sentiu suas mãos pararem. Ele olhou com medo para o rosto do seu mestre. Não apenas a pele ficou branca, mas gotas grandes de suor escorriam, e a boca seca ficou bem aberta como se preparasse para respirar. Ele viu algo se movendo, e era a língua de Yoshihide. A voz vinha de sua boca.

“Quem pode ser você – você, maldito! O que é isto? Você veio para me mostrar o caminho? Você quer que eu te siga. Para o Inferno! Minha filha está me esperando no inferno!”

O aprendiz desesperado, tentou acordar Yoshihide, e até jogou água em seu rosto, mas ele continuou, “Estou esperando por você. Depressa, pegue a carruagem. Venho junto ao inferno!”
Yoshihide acordou, e um tempo depois voltou a si. Sem uma palavra de gratidão, ordenou ao aprendiz, “Estou bem agora. Saia daqui”.

Isto não foi o pior de Yoshihide. Um mês depois ele chamou outro aprendiz. Yoshihide disse, “Desculpe, preciso que você fique pelado. Quero ver uma pessoa acorrentada. Lamento por isto, mas vai demorar só um pouco”.
O aprendiz me contou depois, “Achei que o mestre tinha ficado louco e que iria me matar”. Yoshihide arrastou um cadeado estreito de ferro e colocou nas costas do aprendiz, puxando os braços para trás e colocando-os na corrente. Depois deu um empurrão e jogou o jovem ao chão.

9
O aprendiz ficou jogado no chão como um barril de saquê caído. Estava com braços e pernas contorcidos. A corrente estava bloqueando a circulação sanguínea e em todo lugar – face, torso – ele ficou com a pele inchada e vermelha. Yoshihide não estava nem um pouco preocupado com o rapaz, ele apenas circulava observando de todos os ângulos e esboçando. Se nada tivesse interrompido, esta provação teria se estendido por mais tempo, mas felizmente (ou infelizmente) uma cobra começou a se mover no canto do quarto. Ela se rastejou na escuridão até quase chegar ao nariz do aprendiz, que gritou “Cobra, uma cobra!”. Até Yoshihide, em toda a sua perversidade, deve ter sentido o horror desta ocorrência. Ele pegou a cobra pelo rabo, e gritou “Você me custou uma boa pincelada, maldito seja”. Então, colocou a cobra numa jarra. Daí, com uma óbvia relutância, libertou o aprendiz das correntes sem dizer uma palavra de simpatia. Ouvi dizer que ele tinha guardado a cobra para rascunhá-la também.

Uma terceira história é a de um aprendiz que foi chamado ao estúdio. Yoshihide tinha um pedaço de carne crua e alimentava um pássaro desconhecido, que era do tamanho de um gato,e tinha olhos grandes, redondos e coloridos como âmbar. Os olhos também pareciam de um gato.
Continua…

 

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3 comentários sobre “O Quadro do Inferno – Parte 1

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