China, o país das contradições

Assaltos e furtos

 

Na China, não há problemas com assaltos ou furtos. Sequestro-relâmpago, arrastão, são palavras que nem tem como traduzir para esta realidade. Dá para andar sossegado na rua, ir a qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem problemas.

 

Dizem que um dos motivos para tal comportamento é o rigor das punições. Se pegarem o ladrão, ele estará completamente ferrado. Será penalizado com um rigor excessivo, e até onde sei, aqui não tem a onda de direitos humanos do ocidente.

 

Entretanto, se roubar ativamente não é permitido, é permitido enganar os outros, ser levemente desonesto.

Alguns casos que passei:

– O taxista quer cobrar o dobro do valor da corrida, principalmente aqueles que correm sem taxímetro. Se custa 100 yuans, ele quer cobrar 200 yuans. Daí, você pechincha, pechincha de novo, e chega em algum valor não abusivo.

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– Nas lojas de rua, o mesmo. Ao comprar qualquer coisa, algum presentinho, o atendente vai jogar um preço alto, principalmente se entender que você tem dinheiro.

 

– Troco errado.

O atendente vê que você é estrangeiro, fala em chinês quanto deu, e te devolve o troco errado. Na primeira vez, é possível até dar o benefício da dúvida, erro humano. Mas a linguagem corporal diz tudo: o rapaz que me atendeu baixou a cabeça, fugiu para outro canto da loja, e tive que chamá-lo.

 

Por incrível que pareça, até no aeroporto internacional de Shanghai isto acontece. Desta vez, fiquei olhando com atenção. A moça disse que faltavam 10 yuans. Sei que estava errado, mas queria ir até o fim para ver o que aconteceria. Dei os 10 yuans. Fitei os olhos dela, que desviou o olhar e não se atreveu a levantar a cabeça. Ok, pensei, mais uma desonestidade para a lista. Aí, quando eu estava indo embora, ela me deu uma coleção de postcards, disse que era presente. Obviamente, ela percebeu, bateu um sentimento de culpa e me deu algo para compensar.

 

Foto dos postcards que “ganhei”:

 

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– Muitos taxistas são analfabetos. Não lêem nem em inglês, nem em chinês. Tem muitos analfabetos na China. E, por isso, você tem que ler o endereço para o taxista, o que é impossível para um estrangeiro.

 

Resultado: vira e mexe, o taxista aceita a corrida, te larga num lugar aleatório, no lugar que ele entendeu, errado, e você tem que pegar outro táxi. Como andei muito pouco de táxi, isto ocorreu apenas uma vez comigo, mas outras pessoas do grupo relataram ocorrências do tipo.

 

Em geral, essas desonestidades ocorrem nas lojas de rua, táxis, em que os funcionários são de baixo nível econômico – é claro que em hotéis de alto nível, isto não vai ocorrer. E, mesmo nas lojas de rua, não é regra geral, nem todas as pessoas fazem isto.

 

As desonestidades existem em todo lugar do mundo – no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, já tentarem me passar a perna várias vezes.

 

O que é diferente é a proporção. A probabilidade é muito alta, de pessoas que praticam tais desonestidades. Tentar ser trapaceado meia dúzia de vezes em uma semana, isso porque o tempo de turismo foi pouquíssimo, é muita coisa. Mas também, é cultural. Para eles, isto não deve ser totalmente errado. Não sei como é ser gringo turista no Brasil, mas suponho que haja muito mais transações honestas – e também, assaltos, arrastões, etc…

 


Chinês gosta de dinheiro

 

A frase acima, “Chinês gosta de dinheiro”, é clássica. Ouvi umas 5 vezes de várias pessoas diferentes. E é verdade.

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Como não dá para usar cartão de crédito (Visa, Master, nenhum), fui obrigado a andar com um bolo de dinheiro. Muitos chineses, quando viam uma carteira cheia de grana, ficavam de olhos bem abertos, dava para ler no rosto deles. Duas das desonestidades acima foram depois que os caras viram a cor do dinheiro. Depois disto, passei a esconder o grosso do dinheiro em outra carteira.

 

 

É cansativo ficar pechinchando. Entrar na loja, o atendente pedir 150 yuans, você dar 70, e ir barganhando. Eu não tenho muita paciência para isso. Enquanto o fulano dá a vida por 10 yuans, para mim isto significa 6 reais. Prefiro desistir logo, fica com o troco, do que perder tempo e energia barganhando. Porém, não sei direito o que isto significa do ponto de vista cultural (meus amigos chineses, quem quiser comentar, fique a vontade). Não sei é motivo de orgulho barganhar ao máximo. Ou o chinês vê a gente como alvo fácil (um vendedor chinês ficou me seguindo a rua toda). Não sei as respostas, mas sei que é verdade, o chinês gosta muito de dinheiro, muito mais do que qualquer outro povo que já conheci.

 

 

Isto certamente é efeito do sofrimento de um povo que, poucas décadas atrás, estava entre os mais pobres do mundo. E, na verdade, a grande massa da população continua pobre, analfabeta, na área rural, pouco assistida. Para muitos deles, assim como para muitos brasileiros, um real significa a diferença entre almoçar ou não no dia.

 

Se o Brasil é cheio de contradições, a China é contradição a um nível exponencial. Na mesma cidade em que há pessoas dispostas a ficar uma hora barganhando 1 real, há inúmeros carrões como Mercedes, BMW, Tesla, Ferrari. Ao mesmo tempo em que é possível andar sem medo de assaltos, ninguém confia em ninguém. Uma cidade gigantesca e belíssima, como Shanghai, possui as pessoas mais ricas e as mais pobres do mundo ao mesmo tempo.

 

Se o Brasil não é para principiantes, não dá para entender a China nem sendo profissional.

01_Shanghai.JPG(Foto minha na belíssima Shanghai)

 

 


Nota sobre a tradução
Dirão os puristas que o plural de “yuan” é “yuanes”, e não “yuans”. Porém, fazer isto é aportuguesar demais a experiência – e este post é sobre a China. Portanto, dane-se o português correto.

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