O anel de Giges

O anel de Giges é uma das passagens mais famosas da discussão sobre moral e ética.

Giges é um pastor que obteve poderes mágicos através de um anel. Ele conseguia fazer o mal sem ser detectado, e com isso conseguiu glória e riquezas.

A narrativa da história ocorre num diálogo entre Sócrates e Glauco, irmão mais velho de Sócrates.

Glauco defende que qualquer pessoa que tivesse poderes semelhantes seria igual a Giges: pegaria tudo para si, sem medo de impunidade – e é mais ou menos o que acontece com as pessoas com muito dinheiro e poder político.

Já Sócrates argumenta o contrário, que o homem justo, com ou sem o anel, agiria da mesma forma.

Este debate é milenar, e vai continuar atual mesmo daqui a mil anos.

Alguns trechos do livro “A República”, de Platão, na narrativa de Glauco:

“Giges era um pastor que servia na casa do soberano da Lídia.
Devido a uma grande tempestade e um tremor de terra, rasgou-se o solo. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e com um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu.

Os pastores estavam reunidos, de maneira habitual, e Giges foi lá também. Estando ele, pois, no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, e ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel para fora, e tornou-se visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim tomou o poder.

Se houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses.

O supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser.
Até os deuses são flexíveis. Com suas preces, suas oferendas, libações, gordura de vítimas, os homens ruins tornam-se bons.”

Pergunta: um homem justo com poderes ilimitadores tornaria-se como Giges? Deixe sua opinião nos comentários.

Nota 1: Alguns pensadores defendem que moral é algo interno, enquanto a ética é do ambiente, da sociedade em que a pessoa está inserida. Uma pessoa com alta moral se comportaria igualmente com ou sem anel.

Nota 2: É impressionante a força do anel como símbolo. Anel de Giges, anel dos Nibelungos, o Senhor dos Anéis…


China, o país das contradições

Assaltos e furtos

 

Na China, não há problemas com assaltos ou furtos. Sequestro-relâmpago, arrastão, são palavras que nem tem como traduzir para esta realidade. Dá para andar sossegado na rua, ir a qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem problemas.

 

Dizem que um dos motivos para tal comportamento é o rigor das punições. Se pegarem o ladrão, ele estará completamente ferrado. Será penalizado com um rigor excessivo, e até onde sei, aqui não tem a onda de direitos humanos do ocidente.

 

Entretanto, se roubar ativamente não é permitido, é permitido enganar os outros, ser levemente desonesto.

Alguns casos que passei:

– O taxista quer cobrar o dobro do valor da corrida, principalmente aqueles que correm sem taxímetro. Se custa 100 yuans, ele quer cobrar 200 yuans. Daí, você pechincha, pechincha de novo, e chega em algum valor não abusivo.

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– Nas lojas de rua, o mesmo. Ao comprar qualquer coisa, algum presentinho, o atendente vai jogar um preço alto, principalmente se entender que você tem dinheiro.

 

– Troco errado.

O atendente vê que você é estrangeiro, fala em chinês quanto deu, e te devolve o troco errado. Na primeira vez, é possível até dar o benefício da dúvida, erro humano. Mas a linguagem corporal diz tudo: o rapaz que me atendeu baixou a cabeça, fugiu para outro canto da loja, e tive que chamá-lo.

 

Por incrível que pareça, até no aeroporto internacional de Shanghai isto acontece. Desta vez, fiquei olhando com atenção. A moça disse que faltavam 10 yuans. Sei que estava errado, mas queria ir até o fim para ver o que aconteceria. Dei os 10 yuans. Fitei os olhos dela, que desviou o olhar e não se atreveu a levantar a cabeça. Ok, pensei, mais uma desonestidade para a lista. Aí, quando eu estava indo embora, ela me deu uma coleção de postcards, disse que era presente. Obviamente, ela percebeu, bateu um sentimento de culpa e me deu algo para compensar.

 

Foto dos postcards que “ganhei”:

 

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– Muitos taxistas são analfabetos. Não lêem nem em inglês, nem em chinês. Tem muitos analfabetos na China. E, por isso, você tem que ler o endereço para o taxista, o que é impossível para um estrangeiro.

 

Resultado: vira e mexe, o taxista aceita a corrida, te larga num lugar aleatório, no lugar que ele entendeu, errado, e você tem que pegar outro táxi. Como andei muito pouco de táxi, isto ocorreu apenas uma vez comigo, mas outras pessoas do grupo relataram ocorrências do tipo.

 

Em geral, essas desonestidades ocorrem nas lojas de rua, táxis, em que os funcionários são de baixo nível econômico – é claro que em hotéis de alto nível, isto não vai ocorrer. E, mesmo nas lojas de rua, não é regra geral, nem todas as pessoas fazem isto.

 

As desonestidades existem em todo lugar do mundo – no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, já tentarem me passar a perna várias vezes.

 

O que é diferente é a proporção. A probabilidade é muito alta, de pessoas que praticam tais desonestidades. Tentar ser trapaceado meia dúzia de vezes em uma semana, isso porque o tempo de turismo foi pouquíssimo, é muita coisa. Mas também, é cultural. Para eles, isto não deve ser totalmente errado. Não sei como é ser gringo turista no Brasil, mas suponho que haja muito mais transações honestas – e também, assaltos, arrastões, etc…

 


Chinês gosta de dinheiro

 

A frase acima, “Chinês gosta de dinheiro”, é clássica. Ouvi umas 5 vezes de várias pessoas diferentes. E é verdade.

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Como não dá para usar cartão de crédito (Visa, Master, nenhum), fui obrigado a andar com um bolo de dinheiro. Muitos chineses, quando viam uma carteira cheia de grana, ficavam de olhos bem abertos, dava para ler no rosto deles. Duas das desonestidades acima foram depois que os caras viram a cor do dinheiro. Depois disto, passei a esconder o grosso do dinheiro em outra carteira.

 

 

É cansativo ficar pechinchando. Entrar na loja, o atendente pedir 150 yuans, você dar 70, e ir barganhando. Eu não tenho muita paciência para isso. Enquanto o fulano dá a vida por 10 yuans, para mim isto significa 6 reais. Prefiro desistir logo, fica com o troco, do que perder tempo e energia barganhando. Porém, não sei direito o que isto significa do ponto de vista cultural (meus amigos chineses, quem quiser comentar, fique a vontade). Não sei é motivo de orgulho barganhar ao máximo. Ou o chinês vê a gente como alvo fácil (um vendedor chinês ficou me seguindo a rua toda). Não sei as respostas, mas sei que é verdade, o chinês gosta muito de dinheiro, muito mais do que qualquer outro povo que já conheci.

 

 

Isto certamente é efeito do sofrimento de um povo que, poucas décadas atrás, estava entre os mais pobres do mundo. E, na verdade, a grande massa da população continua pobre, analfabeta, na área rural, pouco assistida. Para muitos deles, assim como para muitos brasileiros, um real significa a diferença entre almoçar ou não no dia.

 

Se o Brasil é cheio de contradições, a China é contradição a um nível exponencial. Na mesma cidade em que há pessoas dispostas a ficar uma hora barganhando 1 real, há inúmeros carrões como Mercedes, BMW, Tesla, Ferrari. Ao mesmo tempo em que é possível andar sem medo de assaltos, ninguém confia em ninguém. Uma cidade gigantesca e belíssima, como Shanghai, possui as pessoas mais ricas e as mais pobres do mundo ao mesmo tempo.

 

Se o Brasil não é para principiantes, não dá para entender a China nem sendo profissional.

01_Shanghai.JPG(Foto minha na belíssima Shanghai)

 

 


Nota sobre a tradução
Dirão os puristas que o plural de “yuan” é “yuanes”, e não “yuans”. Porém, fazer isto é aportuguesar demais a experiência – e este post é sobre a China. Portanto, dane-se o português correto.

Da natureza de Escorpião

Conheço há muito tempo uma senhora, que adotou uma menina.

A senhora gostava muito da menina, sempre a tratou com o carinho de uma filha. Já a menina, não tinha o mesmo comportamento, era só rebeldia e ofensas para com a mãe adotiva.

Passados uns 15 anos, fiquei sabendo que a agora moça abandonou totalmente a mãe adotiva, indo morar na favela. Não mantém relações, não tem mais contato. Sumiu da vida da pobre senhora.

Existe uma fábula que me veio à mente, sobre a situação acima.

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O sapo e o escorpião

O escorpião queria atravessar o rio, mas não havia como o fazer. Ele pediu a ajuda do sapo.

– Pode me levar ao outro lado, sapo?

O sapo, que não é bobo, retrucou.

– Mas você vai me picar com o seu ferrão venenoso

Respondeu o escorpião:

– Sapo, é claro que não. Se eu te picar no meio do rio, vou morrer também.

Como a resposta fazia sentido, o sapo concordou em levar o escorpião.

Porém, no meio do rio, o sapo sentiu o ferrão penetrando na sua pele.

– Você é maluco, escorpião? Agora nós dois vamos morrer.

– Pois é sapo. Não consegui evitar. Esta é a minha natureza.

O Crepúsculo dos Ídolos em 40 frases

O Crepúsculo dos ídolos, é um livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1889.

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O subtítulo “ou Como se filosofa com o martelo” já diz tudo: ele usa o martelo para atacar a filosofia, a razão, a moral, os costumes, destruir tudo.
“Ídolo com pés de barro” se refere a uma história bíblica: uma estátua, um ídolo, com a cabeça de ouro, peito de prata, pernas de ferro e pés de barro. Apesar de todo o seu resplendor, uma pedrinha rolando morro abaixo atingiu o seus pés de barro, e derrubou o ídolo. E é isto que Niezsche mais gosta de fazer: derrubar ídolos atacando os seus pés de barro, principalmente os maiores ídolos de seu tempo.

Gosto muito de Nietzsche, por ele ser provocativo e politicamente incorreto.

Segue abaixo alguns excertos do livro.

 


 

Prólogo

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.

 


Parte 1. O problema de Sócrates

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Ele trouxe uma variante no combate entre homens jovens e adolescentes. Sócrates também era um grande erótico.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Sócrates fez da razão um tirano, e não é pequeno o perigo disto.

O modo com que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um salvador. É engano dos moralistas achar que é possível sair da decadência ao fazer guerra contra ela. Sair da decadência está fora de sua força, é novamente a mesma expressão de decadẽncia.

 


 

Parte 2: A “razão” na filosofia

Tudo o que há séculos os filósofos manejaram foram conceitos-múmia, nada de efetivamente vivaz veio de suas mão.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

Quatro teses:
1 – As razões pelas quais este mundo foi classificado como aparente fundamenta, muito mais, sua realidade. Uma espécie diversa de realidade é absolutamente indemonstrável
2 – As características que se deu ao “verdadeiro ser” das coisas são características do não ser, do nada. O mundo é aparente na medida em que é apenas ilusão ótico-moral.

3 – Fabular sobre “outro” mundo distinto deste não tem absolutamente qualquer sentido.

4 – Dividir o mundo em “verdadeiro” e “aparente”, seja da maneira do cristianismo, seja da maneira de Kant é apenas uma sugestão de decadência.

 


 

Como o “mundo verdadeiro” se tornou fábula

Abolimos o mundo verdadeiro: Que mundo restou? Talvez o mundo aparente? Mas não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

 


 

Moral como contranatureza

Todas as paixões possuem uma época em que são meramente nefastas, em que puxam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez.

Atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a práxis da Igreja é hostil à vida.

O que é mais venenoso contra os sentidos não foi dito pelos impotentes, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que haviam tido a necessidade de serem ascetas.

Para uma nova criação, como o novo Reich, ter inimigos é mais necessário que amigos: somente no antagonismo ele se torna necessário.

É ingenuidade dizer “assim e assim o ser humano deveria ser”.


Os quatro grandes erros

Não há erro mais perigoso do que confundir a consequência com a causa: é a autêntica corrupção da razão.
A fórmula mais universal que está na base de toda religião e moral, reza: “faz isso e aquilo, não faça isso e aquilo”. Este é o grande pecado da razão, a mortal irracionalidade.

Erro do espírito como causa, confundido com a realidade! E convertido em medida da realidade! E denominado Deus.

Erro das causas imaginárias – partir do sonho a uma determinada sensação, imputa-se retrospectivamente uma causa.

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

 

Qual é a nossa teoria? Ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele próprio. Ninguém é responsável pelo fato de existir. Nós negamos a Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente dessa forma é que redimimos o mundo.


Os “melhoradores” da humanidade

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.


Sentenças

É preciso ser um animal ou um deus para viver sozinho – diz Aristóteles. Falta o terceiro caso: é preciso ser ambos – um filósofo…

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Torna-se caranguejo quando se procura pela origem. O historiador olha para trás; por fim, acaba acreditanto também no para trás.

Desconfio de todos os sistemáticos e fujo do caminho deles. A vontade de sistema é uma falta de retidão.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

O psicólogo tem de afastar a vista de si mesmo para poder enxergar algo.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

És alguém que só olha? Ou que se põe ao trabalho? Ou alguém que desvia o olhar, pondo-se de lado?

Queres caminhar junto? Ou à frente dos outros? Ou seguir o próprio caminho? É preciso saber o que se quer e que se quer.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?


 

O MARTELO FALA

“Por que tão duro!” -falou ao diamante um dia o carvão: “não somos afinal parentes próximos?”
Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal – meus irmãos?
Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações?
Tão pouco destino em vossos olhares? E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como poderíeis um dia vencer comigo?
E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?
Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, –
Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre.
Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros! –


 

Nota: Resumos têm uma utilidade resumida. Recomendo a leitura do livro inteiro para uma visão mais completa.

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/filosofos/nietzsche/crepusculo-dos-idolos-46580797

 

 

Jô, Rodrigo Caio, Maquiavel e Kant

O futebol não vive sem uma boa polêmica, não?

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Quem estará correto, o desonesto, trapaceiro e espertalhão jogador Jô, que deliberadamente meteu a mão na bola para fazer o gol, ou o bonzinho, honesto e otário jogador Rodrigo Caio, que num lance em que o adversário foi punido (por ironia do destino, o próprio Jô), assumiu a sua culpa e livrou um cartão amarelo para o espertão?

Levar vantagem sobre um erro ou não?

Esta discussão é antiga, e envolve algumas das maiores cabeças da história, numa discussão infindável sobre valores morais.

 


 

Nicolau Maquiavel

O gol de mão deliberado de Jô lembra uma frase antiga: “Os fins justificam os meios”. A autoria desta frase é atribuída ao pensador italiano Nicolau Maquiavel, 1469 – 1527. Ele escreveu o livro “O Príncipe”, inspirado na família Médici – poderosos nobres da época – e em outros personagens históricos.

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É possível que ele não seja o autor literal da frase “Os fins justificam os meios”, mas esta se encaixa muito bem em sua proposta. “O Príncipe” é como se fosse um manual para que um príncipe se mantenha no poder. O livro contém dicas como “seja benevolente, caridoso, religioso”. Contudo, o governante não precisava sê-lo de fato, apenas nas aparências, pois precisava do apoio da população.

Ele também diz que para o governante é muito mais seguro ser temido do que amado. Outra frase é a de não tentar vencer pela força, quando é possível vencer pela astúcia.

Por essas e outras, o termo “maquiavélico” se traduz em: que envolve perfídia, falsidade; doloso, pérfido.

Mas, antes de tacar pedras, lembre-se de que todos têm o lado Maquiavel. É o lado pragmático, de atingir um objetivo mesmo descumprindo algumas regras.

Maquiavel coloca ênfase total no resultado, e zero ênfase na causa que gerou o resultado. Ele é bastante prático, e aplaudiria o gol de mão de Jô.

Imaginemos outro dilema moral. Se eu voltasse no tempo e estivesse diante de Hitler nenê, eu daria veneno para ele? Por um lado, tirar Hitler do mapa ajudaria a evitar a Segunda Guerra Mundial, que devastou a Europa inteira e tirou a vida de milhões de pessoas. Por outro lado, eu estaria cometendo assassinato.

A resposta de Maquiavel seria bem simples. Acabe com o Hitler nenê. Salve o mundo. E durma tranquilo.

 


 

Immanuel Kant

 

O pensador mais Rodrigo Caio de todos é o grande filósofo alemão Immanuel Kant, 1724 – 1804. Ele tentou criar uma fundamentação moral perfeita, que constrastasse com a antiga moral grega e a moral da igreja católica.

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Kant criou um sistema moral que olha para as causas, e não para as consequências. Se eu me mantive fiel aos princípios ao executar a ação, fiz um bom ato. Rodrigo Caio tem um princípio de ser honesto e falar a verdade, então ele se denunciou.

O primeiro imperativo moral de Kant é uma espécie de Regra de Ouro, porém bem mais complicada: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” É mais ou menos assim. A regra de ouro “faça aos outros apenas o que faria a si mesmo” é bem legal, mas tem defeitos – digamos, um sadomasoquista pode causar dor nos outros porque também gostaria de sentir dor. Então Kant criou uma regra de ouro estendida: ao invés de envolver duas pessoas, envolveria todas, assim consertando a regra.

Uma derivação do conceito de Kant é a de que não devemos usar pessoas como um meio, apenas como um fim em si.

 

O que aconteceria no caso de Hitler nenê? Kant diria que não devemos assassinar o Hitler nenê, porque assassinato é ruim. Entretanto, causar a Segunda Guerra não é um ato pior ainda?

E se um ladrão entrasse em casa, e a vida da minha família dependesse de uma mentira, o que faria Kant? Manteria-se fiel ao princípio de não mentir e condenaria a família? O próprio Kant deu a sua resposta, quando perguntado sobre um dilema semelhante: contaria a verdade ao ladrão e condenaria a família, mantendo-se fiel ao seu princípio moral de ser honesto.

 

Nota-se claramente que a filosofia de Kant pode ser interessante para o Sr. Spock, o alienígena perfeitamente racional da série Star Trekk. Mas não reflete o comportamento do ser humano, que no final das contas é um hipócrita: fala como Kant, age como Maquiavel.

 


 

John Stuart Mill

Uma última linha de raciocínio: o Utilitarismo do pensador inglês John Stuart Mill, 1806 – 1873.

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O utilitarismos também olha para os resultados, como Maquiavel. Mas, ao invés de considerar o resultado para si mesmo, como no caso do Príncipe, considera o resultado para a humanidade inteira. É como fazer uma conta aritmética. Se a quantidade de pessoas felizes foi maior do que a quantidade de pessoas infelizes, o ato é bom.

No caso de Hitler nenê, como isto traria a felicidade de milhões de pessoas a mais, é um bom ato.

No caso de Jô, depende. Como ele joga no Corinthians, e este tem mais torcida do que o adversário, foi um bom ato o gol de mão. Se ele jogasse num time pequeno contra o Corinthians, seria um ato ruim, porque mais gente ficaria infeliz (coincidentemente, a Rede Globo e grande parte dos juízes também pensam assim, rs).

Sempre achei o Utilitarismo muito esquisito. Como mensurar algo abstrato como a felicidade, e tomar uma decisão baseada numa conta de maior ou menor? Entretanto, há muitas decisões que o ser humano toma, que são fortemente utilitaristas.

Se há uma vacina para uma doença terrível, digamos um Ebola de nível mundial, mas essa vacina cura 60% das pessoas e mata 40%? Mill diria para mandar ver, aplicar a vacina. Para Maquiavel, depende dos objetivos do Príncipe liberar ou não a vacina. Para Kant, não é moral liberar a mesma.

Mas e se for uma vacina que cura 99,999% das pessoas, e pode afetar 0,001%?

E se curar 99,99999% das pessoas?

 

O grau de utilidade pode afetar a decisão.

Para fechar o tópico, um livro bem interessante é de Dan Ariely, sobre desonestidade.

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Em resumo, diz que todos nós somos desonestos. Alguns mais, outros menos. A grande maioria é só um pouquinho desonesta, um pouquinho suficiente para levar alguma vantagem (digamos embolsar 1 real do troco que veio errado), mas não tão grande a ponto de perturbar o sono (digamos, se veio 100 reais a mais no troco, devolvemos).

 


 

Conclusão

A conclusão é que escrevi um texto enorme para dizer que não há conclusão absoluta. O legal de filosofia é que para cada argumento, há um argumento diametralmente oposto, mas igualmente válido. Ou seja, é da consciência de cada um decidir o seu lado Jô, o seu lado Rodrigo Caio. Ou melhor, o seu lado Maquiavel, o seu lado Kant, ou o seu lado Stuart Mill.

Mas, na prática, eu não compraria um carro usado do jogador Jô.

 

 

 

Por que dou esmolas?

Até os 30 anos de idade, nunca dei um centavo de esmola.

 

Moro em São Paulo e já morei no Rio de Janeiro. Nestas grandes metrópoles, o que mais se vê são pedintes: na rua, no trânsito, no ônibus, no metrô.

 

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Às vezes, dava pena. Um dia vi uma mulher de algum país latino com três filhos pequenos, próximo a uma feira-livre. Outro dia, um homem bem asseado parecia não estar mentindo quando pediu ajuda no metrô, para ele conseguir pegar um ônibus para casa – dizia que tinha sido roubado e esta era uma ajuda pontual. Mas eu mantinha a minha firme convicção de não dar esmolas.

 

Me perguntei de onde vinha tanta convicção. Era uma justificativa moral. Desde quando eu era criança, a minha mãe sempre dizia: “nunca dê esmolas”. “É ruim dar esmolas, porque acostuma o mendigo”. Esta mensagem, repetida à exaustão por inúmeros anos, era a minha base moral.

 

O interessante é que, para ratificar tal regra, juntei outras regras que surgiam. No metrô de SP, de tempos em tempos o alto-falante anuncia: “Não dê esmolas no metrô. Doe para uma instituição de caridade”. Além disso, vira e mexe algum especialista conta na TV alguma história de pessoas que não aceitam ajuda de instuições porque preferem ficar nas ruas, perpetuando o ciclo.

 

“Não darás esmolas” era uma regra moral no sentido de ser um tabela de condutas a serem seguidas, do que é certo ou errado. E era o metrô que dizia para não dar esmolas e eu só seguia as ordens, justificando que, no fundo, isto era melhor para o pedinte…

 

Contudo, com o passar do tempo, passei a questionar a moral vigente até então.

 

Qual o problema em dar esmolas? É claro que se o mendigo gastar em bebidas alcoólicas ou drogas, é ruim para todo mundo. Mas, e num caso em que a pessoa parece ser idônea? E se, a mãe fugiu do interior do Peru com três filhos e veio parar em São Paulo?

 

Doar para uma instituição de caridade é muito indireto, talvez a ajuda nunca chegue para a pessoa que precisa, da forma que precisa.

 
Não acho que haja uma regra absoluta, que valha para todos os casos, “Nunca doe” ou “Sempre doe”.

Passei a dar um pouquinho de esmolas, de pouco em pouco. No início, parecia que eu estava quebrando alguma regra, me tornando um “vilão moral”. Era um conflito entre convicções passadas e reflexões presentes. Eu tinha que trocar a tabela da verdade moral que me guiara por décadas. Apagar o mandamento antigo, “Não darás esmolas”, e escrever outro, “Darás esmolas sim”.

 

Das primeiras esmolas, percebi o seguinte. Para mim, felizmente, não faz a menor falta ter um ou dois reais a menos no bolso. Tive a sorte e condições de ter uma formação educacional forte e bons trabalhos em excelentes empresas. Entretanto, para quem não tem nada, um real pode significar muito: um lanche melhor, um suco, um pouco mais de conforto. Quem não tem nada está num ciclo vicioso de não ter qualificação e não ter potencial de empregabilidade, dificultando mais ainda a fuga deste ciclo. Como ensinar a pescar amanhã, se ele não tem como sobreviver hoje?

 

Minha nova regra é: dou o que tiver de moedas e notas pequenas, se a pessoa parecer ter um mínimo de idoneidade. Às vezes, também faço doações maiores para alguma instituição ou causa em que acredito. Dar esmolas não exclui contribuições para instituições de caridade, e vice-versa.

 

Não sei o que é certo ou errado, não tenho onisciência para saber se este ato vai ajudar ou prejudicar o pedinte. Não há certo e errado absolutos, e ninguém é onisciente. Portanto, sigo as minhas convicções.

 

Fiquei muito aliviado em ter esta nova regra moral quando, esperando o ônibus num ponto, passou um velhinho de uns 80 anos vendendo um plástico de guardar crachá. Ele não era um pedinte. Tinha dificuldades em andar, e vestia roupas amarrotadas. Provavelmente era alguém sobrevivendo humildemente com uma parca aposentadoria, tentando ganhar alguns trocados a mais, após passar a vida toda trabalhando. Pela regra moral antiga, eu simplesmente não compraria o plástico de crachá, afinal, eu não estava precisando. Pela nova regra, comprei o tal plástico. O velhinho disse: “Muito obrigado, filho”.
Reflexão 

Dar esmolas é bom ou ruim?

Por que dar esmolas ou não?