Não podemos errar x Precisamos errar mais

Num projeto de inovação, um colega tem a opinião de que “não devemos errar”. “Tudo deve ser perfeito, para não causar problemas”. E usa este argumento para exigir um mapeamento completo do processo, desenvolvimento pleno da solução antes de testar, etc…

Sou da opinião contrária. Devemos errar. Devemos tentar e errar muito. E estarmos sempre dispostos a resolver rapidamente os problemas.
Na prática é impossível não errar. O único jeito de não errar é não fazer. Não podemos deixar que o medo de errar paralize a inovação.
Resumindo em uma frase: O ótimo é inimigo do bom.

O erro deve ser rápido, barato e fácil de consertar rapidamente. E, para isto, a metodologia do Design Thinking é uma boa aliada.
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Seus pilares são Empatia, Colaboração e Prototipagem rápida. Empatia é entender o que o cliente realmente quer. Colaboração entre áreas distintas e antagônicas para buscar ideias de diversas visões possíveis. E prototipagem rápida para testar conceitos, e permitir  aprendizado a baixo custo e em pouco tempo.
O protótipo pode ser algo tão simples quanto uma planilha Excel estruturada, um vídeo, uma página na internet somente com os pontos principais, uma ideia de produto feita de Lego ou canudos de construir.
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Erros
Já dizia Peter Drucker, o pai da Administração: “Aqueles que se arriscam cometem dois grandes erros por ano. Aqueles que não se arriscam, também cometem dois grandes erros por ano”.

Apenas mais um ferreiro na cidade

Um ferreiro como outro qualquer

Imagine-se na Idade Média. E imagine que a sua profissão é de ferreiro. É o ofício que você aprendeu desde pequeno, é o que você gosta e que sabe fazer. Imagine também que você mudou-se para uma nova cidade, e vai começar a exercer o seu ofício de ferreiro nela. O problema é que a cidade nova tem dezenas de outros ferreiros, e você será apenas mais um ferreiro na cidade.

 

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Um caminho possível é o de tentar fazer igual ao que todos os outros ferreiros fazem, e através de muito esforço ser reconhecido como um grande ferreiro após muitos anos ou décadas de trabalho.

Outro caminho é o ferreiro inovar. Criar novos produtos, para novas aplicações. Fazer produtos dezenas de vezes melhores do que os existentes. Uma carruagem melhor.  Uma espada mais forte e mais barata. Um processo produtivo com menos perdas.

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Se o ferreiro conseguir fazer isso, ele vai se tornar a referência da cidade nesta nova técnica. Será um ferreiro diferente, e o retorno virá em proporção direta ao valor que ele agregará com estas novas ideias.


 

Caminhos
Se você percorrer o mesmo caminho já trilhado por outros, vai chegar exatamente no mesmo lugar que outros já chegaram. Não dará um passo além disso.

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Ou, como diz o educador financeiro Bastter, “Como você espera chegar num resultado diferente se faz a mesma coisa que todo mundo?”


 

Como inovar de forma eficaz?

A inovação é a vantagem competitiva para o novo ferreiro. Este blog foi feito para os ferreiros que pensam diferente.
Há diversas ideias, ferramentas e metodologias sobre inovação. Gosto muito do visão de Design Thinking: centrada no usuário, divergência e convergência, prototipagem rápida, lean, etc.

Há diversos posts já publicados aqui, e muitos outros seguirão.

Arnaldo Gunzi

Jan 2016

 


 

Nota final

Nada haver com as ideias acima, mas a título de curiosidade.

O deus grego dos ferreiros era um cara chamado Hefesto. Feio, manco, tosco, mas extremamente competente no que fazia.

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Hefesto era casado com Afrodite, a deusa do Amor e da Beleza. Afrodite era linda, sensual, ardente, pecadora. Zeus fez Afrodite casar-se com Hefesto, muito feio e quadradão, como punição para ela. Ela gostava mesmo era de Ares, o deus da Guerra.

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Afrodite (Vênus), Zeus (Júpiter), Ares (Marte) eram protagonistas no Olimpo, e até viraram nomes de planetas. https://ideiasesquecidas.com/2014/05/22/planetas/

Hefesto era um coadjuvante importante.

 

 

 

A Mini-Encubadora do Abraço

Esta é uma das ideias mais legais que já vi na minha vida.

Imagine um grupo de estudantes, muito jovens, num curso de inovação. O produto que saiu deste curso é uma mini-encubadora, projetada para ser utilizada em lugares pobres e remotos, como Índia, Bangladesh, Somália. Esta mini-encubadora é o “Embrace Infant Warmer”, que já foi utilizada para salvar mais de 50 mil crianças no mundo todo.

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O Desafio

Existe um curso em Stanford, da Escola de Design Thinking, que se chama Extreme Affordability. O Design Thinking é uma metologia poderosa de inovação, e a finalidade deste curso é a de construir protótipos de soluções que ajudem pessoas em países em desenvolvimento. O protótipo tem que ser feito em algumas semanas, deve ser efetivo e de custo baixo.

O desafio da equipe do Embrace (Jane Chen, Rahul Panicker, Linus Liang, Naganand Murty, Razmig Hovaghimian)
era construir uma encubadora que custasse 1% do custo de uma encubadora tradicional. Eles não entendiam absolutamente nada de medicina ou das condições de vida de lugares pobres, mas correram atrás para entender.


Encubadoras
Encubadoras são utilizadas para aquecer e proteger bebês prematuros ou que nasceram muito magros.

Um bebê recém-nascido é extremamente frágil e requer muitos cuidados. Um bebê prematuro, ou que nasceu muito magro (o normal é nascer de 3 a 4 quilos, mas tem bebês que nascem com 2 quilos!) é tão pequenino que não consegue produzir calor suficiente para se aquecer. Uma das principais causas da mortalidade destes é hipotermia. Ficar à temperatura ambiente do ar para estes pequenos é como estar mergulhado num balde de água gelada.

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Figura: encubadora tradicional

A encubadora é um equipamento que mantém o bebê aquecido aos 37 graus. Em lugares pobres e distantes, sem encubadoras, a chance de sobrevivência diminui muito.


Abordagem

Portanto, se o desafio era construir uma encubadora de baixo custo, era só pesquisar materiais mais baratos e tecnologias mais eficientes, correto?

Errado.

Um dos pilares do Design Thinking é a Empatia, que significa fazer exatamente o que o usuário precisa. Para isto, um dos alunos do curso comprou uma viagem ao Nepal, para fazer uma pesquisa de campo sobre o assunto. E ele descobriu o seguinte: Vários hospitais da região tinham encubadoras, e estas estavam ociosas. Mas, por outro lado, os problemas da mortalidade infantil existiam.

Algumas causas desta discrepância

  • Falta de conhecimento dos pais sobre a importância de se ter cuidados especiais com crianças prematuras
  • O hospital ficava longe, digamos 50 km, do vilarejo. E os pais não conseguiam ir ao hospital e deixar a criança lá por várias semanas

Portanto, apenas uma encubadora mais barata não resolvia o problema de forma efetiva. Era necessário mudar o próprio conceito de encubadora – não era o bebê ir à encubadora, mas a encubadora ir ao bebê.


O Embrace Infant Warmer

O Embrace é como se fosse um saco de dormir muito pequeno. Na base do Embrace, tem uma sacola com um gel à base de parafina. Há um equipamento elétrico que aquece o gel aos 37 graus. O gel fica aquecido por 4 horas. O custo de um Embrace é irrisório, 25 dólares. Outra vantagem é a de que permite o contato direto entre mãe e filho.

Outro pilar do Design Thinking é a prototipagem rápida, a fim de testar e evoluir o conceito. Os primeiros protótipos foram feitos, e o grupo terminou o curso de inovação com um protótipo funcional. Mas a ideia era tão legal que eles não poderiam parar por aí. Eles partiram para implementar de verdade e aperfeiçoar a solução proposta.

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Eles fizeram parcerias com governos indianos e ONGs, e passaram a utilizar o Embrace em vilarejos distantes destes locais.
Outro passo, tão ou mais importante quanto, foi criar formas de conscientizar as mães sobre as causas da mortalidade infantil, ensinar sobre as posições corretas para aquecer o bebê com o corpo e ensinar a usar o Embrace. Ou seja, se fosse numa empresa, diria-se que eles trabalharam o produto e o processo.

O resultado é que até 2015 mais de 50 mil crianças foram ajudadas com o auxílio do Embrace, tendo potencial para ajudar milhões de outras crianças, nos lugares mais carentes do mundo.


O que eu posso fazer para ajudar?

Uma das coisas mais importantes é ter a noção de que podemos sim mudar o mundo. Uma única pessoa pode fazer a diferença, com vontade, determinação, correndo atrás. O mundo precisa de criatividade, de ideias boas, pessoas que inovem em processos, produtos, e no próprio trabalho.

No caso específico do Embrace, pode-se apoiar, acompanhar e divulgar o trabalho deles http://embraceglobal.org/embrace-warmer/.

Pode-se ajudar doando Embraces. A cada 50 dólares, pode-se doar uma Embrace e um curso de instrução para a mãe. https://giving.embraceglobal.org/checkout/donation?eid=30516


Resultados

Para um pai e para uma mãe, não existe nada mais bonito no mundo do que o sorriso do filho. Estas fotos foram tiradas do blog da Embrace.

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Embrace Débora.

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Embrace Nabwami

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Embrace Roopa

Fontes:
http://embraceglobal.org/embrace-warmer/

Confiança Criativa, Tom & David Kelley

Ressonância Magnética divertida

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Quem tem crianças pequenas sabe como é difícil lidar quando elas não querem fazer algo.

Por outro lado, basta alguma coisa ser lúdica para que todas as crianças se interessem. Por exemplo, em alguns lugares  há carrinhos de supermercado que imitam um carro, com volante e tudo. É 100% de certeza que a minha filha quer andar num desses, quando vê. E normalmente é muito concorrido, porque um monte de crianças também quer andar num simples carrinho de mercado lúdico.

Doug Dietz era designer de produtos da General Eletric.

Ele tinha orgulho das máquinas de ressonância magnética que ele tinha projetado, eram as mais avançadas do mundo. Mas, acompanhando alguns procedimentos reais, ele notou que as crianças ficavam aterrorizadas com o equipamento. Era um túnel frio, sombrio, estranho. 80% das crianças tinham que ser sedadas para fazer os exames.

Doug resolveu testar outra solução. Procurou pessoas da área educacional, e transformou a máquina de ressonância magnética em uma aventura na ilha pirata, conforme as fotos acima.

Funcionou. A taxa de crianças sedadas passou a ser de 10%. Algumas até achavam a aventura divertida, e queriam voltar outro dia.

Este é o valor de entender o cliente.

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Há outro princípio do Design Thinking envolvido aqui, o de Empatia.  Isto significa ir à campo, ver como as pessoas interagem com o seu trabalho e se colocar no lugar delas, ao invés de simplesmente entregar um trabalho. Pode até parecer algo óbvio, mas na prática as pessoas não fazem – e por isso, há tantos produtos e serviços mal projetados neste mundo.
A história da ressonância divertida foi contada no livro “Creative Confidence”, de Tom e David Kelley.


 

Veja também:

Design de Serviços

Little Bits

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