Bento Koike, o Samurai da Inovação

Um dia, eu estava no Porto de Paranaguá, fazendo uma visita. Neste dia, vi uma estrutura gigante – uns 80 metros – sendo transportada. A pessoa do porto me disse que eram pás eólicas. Elas vinham de Sorocaba e tinha que ter todo um processo especial de transporte para conseguirem chegar ao porto. Olhei bem, e realmente, parecia uma pá de ventilador. Mas era como um Gulliver olhando para uma pá de ventilador do país de gigantes.

BENTO-KOIKE


 

Anos depois, tive o privilégio de assistir a uma palestra de Bento Koike, no clube Nippon, da qual faço parte. Koike é simplesmente o criador da pá gigante que vi em Paranaguá. Ele é um dos inúmeros empreendedores que encabeçam a inovação e tornam este planeta um lugar melhor. Alguns pensadores, como Nassim Taleb, afirmam que os empreendedores são os grandes herois da humanidade. Empreendedores pensam diferente, têm a coragem de assumir riscos enormes. A grande maioria quebra no meio do caminho, e os poucos que são bem sucedidos normalmente permanecem anônimos. Além de tudo isto, depois de serem bem-sucedidos têm que sustentar uma carga tributária enorme e serem taxados de “exploradores”…
 

A Tecsis é uma empresa brasileira. É 100% baseada em inovação tecnológica, algo muito muito difícil num país como o nosso. Pegue as maiores empresas do país, vai ver ali minério de ferro, aço, petróleo, soja, bebidas, carne, etanol, celulose – ou seja, commotidies. 

 


Bento Koike e suas origens

Bento Koike nasceu numa família de descendência japonesa. O seu avô contava que era dono de pequenas posses de terras no Japão, mas veio ao Brasil correndo atrás de um sonho de um lugar melhor. Chegando ao Brasil, ele teve que trabalhar no campo, de enxada na mão. Ele teve que engolir o orgulho e o prestígio que tivera no passado, para começar a plantar as sementes do futuro.

BentoKoike_Divulgacao_Emdeavor

Décadas depois, Bento se formou no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e começou a carreira de pesquisador. Desenvolveu peças para a indústria aeroespacial no Brasil, ajudando o país a entrar no seleto grupo de países capazes de ter tal tecnologia.

Koike conta como passou por péssimos bocados na década de 80. A empresa de peças fornecia muita coisa para o governo. A inflação era galopante, chegando a 80% por mês. O governo atrasava os pagamentos, e ou era aceitar o pagamento sem correção ou brigar na justiça por mais um ano para receber. Por outro lado, sempre era necessário pagar tudo em dia. Foram tempos difíceis.


 

A Tecsis

A história da Tecsis começa numa viagem fracassada à Dinamarca. Depois de uma reunião não muito boa, Koike resolveu aproveitar o tempo na Europa para conversar com uma das autoridades mundiais da energia eólica, Aloys Wobben. Wobben disse que não estava contente com o atual fornecedor de pás, uma empresa alemã. Conversa vai, conversa vem, e três horas depois, Koike voltava da Europa com um capital de milhão de dólares e financiamento para compra de matérias primas. (Nota: é óbvio que para convencer um grande especialista a fazer isto em três horas, o cara tem que ser muito bom tecnicamente).

 
Olha só. Ele, que tinha ido à Europa apenas com um sonho na cabeça, voltava com a missão de construir do zero algo melhor do que uma empresa aeronáutica alemã já estabelecida. Além disto, tinha que enviar a pá para a Europa, e ser mais barato do que o concorrente alemão que estava ali do lado. Um desafio enorme.
 

Bento diz que o grande limite é aquele imposto a si mesmo. Devemos ter sonhos, e principalmente acreditar em nós mesmos para fazer este virar realidade.

 
Alguns meses de trabalho depois, a Tecsis entregava suas primeiras pás. O prof Wobben, ao ver o produto final, disse: “Não posso acreditar. Esta pá é a melhor coisa que já vi na minha vida. Tem a harmonia de um salão de dança”.

 
Uma pá de ventilador parece algo trivial. Mas o formato da pá é aerodinâmica pura. É a diferença entre um aproveitamento energético bom e um péssimo aproveitamento. A parte mais crítica do projeto do gerador eólico é a pá. Além da tecnologia, é necessária muita criatividade.

 
Hoje a Tecsis já forneceu pás para a geração de energia equivalente a duas usinas de Itaipu. Quase 100% das pás são para exportação, para países desenvolvidos. 50% das pás para os EUA. A pena é que, até a pouco, nenhuma das pás era para o Brasil. Só nos últimos anos é que tem havido encomendas nacionais.

 


Fechando o ciclo
Após muitos anos de trabalho e todo o reconhecimento mundial, Koike foi convidado a fazer uma apresentação no Japão. Ele contou a história do avô, citada acima. E ficou pensando. Por que nem o seu avô, nem outros conhecidos da época, voltaram ao Japão após passar por imensas dificuldades no Brasil? Talvez seja porque eles tivessem vindo atrás de um sonho. Não poderiam voltar para o país da onde saíram com as mãos abanando, sem trazer nada.
 

Sendo convidado a apresentar seu trabalho no Japão, ele se sentia como se estivesse fechando um ciclo, que começara há tanto tempo atrás. Ele vinha trazer o resultado de dezenas de anos de trabalho e de cooperação entre dois países tão distintos, com culturas tão fantásticas e pessoas tão diversas. E Koike pôs-se a chorar, agradecendo a oportunidade, e convidando todos os participantes a seguirem os seus sonhos, e a também fecharem os seus ciclos.

 

Arnaldo Gunzi

Ago/2015

 

Mais Gugol e Gugolplex

O termo “gugol” foi inventado por Edward Kasner, no seu livro “Matemática e Imaginação”.
 

Eu tenho este livro. É um dos tesouros de minha biblioteca. O original em português é de 1961. Foi relançado em 1976 e o comprei em meados dos anos 90, num sebo qualquer de SP. Sou uma das poucas pessoas que conheço que sabiam o que era gugol antes de existir o google, por conta deste livro.

matematica imaginacao 2 ed

 


Olha o que está escrito no original:

Sábias palavras são ditas pelas crianças, pelo menos tão frequentemente quanto pelos sábios. O nome “gugol” foi inventado por uma criança (o sobrinho do Dr. Kasner, com nove anos de idade) quando lhe pediram para pensar em um nome para um número muito grande, especificamente, 1 com 100 zeros depois dele. Ao mesmo tempo em que ele sugeriu “gugol”, deu o nome a um número ainda maior: “gugolplex”. Um gugolplex é muito maior que um gugol, mas ainda é finito.

A primeira sugestão era que um gugolplex deveria ser 1 seguido de tantos zeros quantos se pudesse escrever até cansar. Mas, assim sendo, como as pessoas se cansariam de modos diferentes para escrever um gugolplex, não seria conveniente considerar um lutador de boxe um matemático melhor que o Dr. Einstein só porque tem maior resistência. Então o gugolplex é 1 seguido de um gugol de zeros. Você pode ter uma ideia do tamanho deste número muito grande, mas finito, pelo fato de não haver espaço suficiente para escrevê-lo se alguém fosse até a estrela mais afastada, passando por todas as nebulosas, colocando zeros em cada centímetro do caminho.

 


 

Voltando ao post do blog.

Só para ter uma noção.

1 gugol = 10^100 =
= 10.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000

Maior do que qualquer coisa que conheço.


 

Pegando um número bem maior do que o gugol, por exemplo, 10^8.000

10^8.000 =
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Se não errei nenhum zero, é isto.

O número 10^8.000 é muito, muito maior do que qualquer coisa imaginável.


 

Mas o número 10^8.000, representado pela infinidade de zeros acima, é infinitamente menor do que um gugolplex (10^10^100). O 10^8.000 não é nem um milionésimo de milionésimo de milionésimo do googleplex.

10^8.000
(infinitamente menor que) 10^10.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000

Não vou tentar escrever este número aqui, porque iriam acabar os bytes do universo e ainda não iria finalizar a tarefa.

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2015

 

 

 

 

Elétrico e Eletrônico

Quando eu fazia curso técnico de Telecomunicações, perguntei a um amigo meu que manjava muito: “Qual a diferença entre eletricidade e eletrônica?”.
 
Ele respondeu “Eletricidade lida com resistores, capacitores, indutores. Eletrônica lida com diodos e transístores”. Uma resposta muito boa, suficiente para a época.

 

eletriceletronic
Passados 20 anos, posso responder a pergunta de outra maneira. Eletricidade lida com coisas do mundo físico, Eletrônica lida com informação.

Algo elétrico tem que ter potência para movimentar coisas que existem: mover o motor da batedeira, girar a centrífuga, secador de cabelos, etc. E, para isto, precisa de fontes, resistores, capacitores, indutores, cabos: gerar, controlar e aplicar a energia.

 
Já a eletrônica tem haver com controlar informação. Um transístor é um semi-condutor de silício que serve basicamente como uma chave. Pode estar ligado ou desligado. Se está ligado transmite corrente, se não está ligado, não transmite. Zero ou Um. Só isso. E é por isso que estamos vendo uma miniaturização crescente dos dispositivos eletrônicos: se o transístor serve apenas para controlar informação, independente da potência, quanto menor melhor. O limite é a confiabilidade que o dispositivo deve apresentar. A evolução dos dispositivos vem seguindo mais ou menos a Lei de Moore. Vai chegar um tempo que cada transístor vai ser de nanômetros, e que dê para contar os átomos dele.
 

Lei de Moore:

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/12/07/a-lei-de-moore-e-o-futuro-da-apple/

 


 

A informação só precisa assumir os valores 0 ou 1. Qualquer número pode ser descrito em notação binária. Qualquer letra ou símbolo pode ser codificado em números, e daí em 0 ou 1. Qualquer música pode ser decomposta em pedacinhos, cada pedacinho pode ser medido e virar número, e daí virar 0 ou 1. O mesmo é válido para qualquer foto ou vídeo ou informação mensurável.


 

O domínio da eletricidade no final do séc XIX, por Nicholas Tesla, Thomas Edison, George Westinghouse, gerou uma revolução no mundo: a corrente alternada, a lâmpada elétrica, motores elétricos, etc.

 
O domínio da eletrônica no final do séc XX, por companhias como Intel, AMD, IBM, gerou uma revolução exponencialmente maior no mundo, permitindo a invenção de computadores poderosos. Computadores tão poderosos que conseguiam abstrair o hardware do software, separar as coisas através de um sistema operacional. E o software gerou uma revolução da informação maior ainda, através de empresas como Microsoft, Apple, Google – são pura informação, nada mais do que isto!

 

Portanto, o seu chuveiro nunca vai evoluir tanto como o seu celular, porque o primeiro é elétrico, e o segundo é informação!

 

Google e Gugol

O que é um Google?
O gugol (ou googol) é uma unidade de medida, como um mili (10^-3) ou um kilo (10^3) ou um mega (10^6). O gugol representa 10^100.

10^100 é o número 1 seguido de 100 zeros. É um número tão grande que nem dá para imaginar o tão grande que é. 

O gugol foi inventado em 1938 pelo matemático Edward Kasner. Ele pediu ao sobrinho, com 8 anos, que inventasse um nome para um número gigante, e ele disse “gugol”. Dizem que Kasner tinha em mente aplicações em astronomia, que lida com números enormes. 

Já o famoso Google foi inspirado pelo tamanho gigante do gugol, e pelo nome esquisito. Dizem que Sergei Brim e Larry Page erraram a ortografia do gugol, por isso ficou google. Melhor assim.
Um googleplex é 10 elevado a um gugol… Nem quero tentar imaginar isto. Mas o Plex também é o nome da sede da empresa Google, e isto não é coincidência. 

Um mundo imortal

Imagine um mundo onde as pessoas não morressem. Um mundo onde as pessoas chegariam aos 30 anos de idade e parassem de envelhecer. Ficassem eternamente com o vigor físico e mental dos seus 30 anos…
Num mundo eterno como este, daria para fazer coisas fantásticas.
Imagine uma seleção brasileira com Pelé, Zico, Romário, Ronaldo e Neymar. Um filme com Marlon Brando atuando com Bradd Pitt e Leonardo de Caprio. Marilyn Monroe, Sophia Loren contracenando com Angelina Jolie e Jennifer Lawrence.

 

marilyn-monroe-3-andrew-fare

Jennifer_Lawrence_at_the_83rd_Academy_Awards_crop

 

Um congresso de gênios da física: Newton, Einstein e Stephen Hawking. Ou um encontro mundial de matemáticos: Arquimedes, Euclides, Fermat, Leibniz, Gauss, Euler, Hilbert, Godel, Turing, Von Newmann, Dantzig (nota-se que entendo mais de matemática que de filmes….).


 

Mas, pensando bem, desconfio de que o mundo não seria tão legal assim. Por dois motivos.

 
O primeiro, porque o mundo não é linear, e sim exponencial. Não é Normal, é Pareto. Traduzindo, existe o comportamento de “o vencedor leva tudo”, nas profissões escaláveis. Um número pequeno de pessoas detém muito do dinheiro do mundo. Dentre milhões de escritores, Paulo Coelho e meia dúzia de escritores respondem pela maioria das vendas. Sempre que há uma convocação da seleção, as pessoas só lembram dos tradicionais Kaka e Robinho, deixando de lado centenas de milhares de jovens aspirantes. É assim, é da natureza humana e não adianta tentar mudar, que será pior (vide o comunismo, por exemplo). A única coisa que obriga a mudança é o tempo, que força com que os Kakas e Robinhos da vida se aposentem.

 
Segundo, porque a inovação depende tanto de destruir o antigo quando de construir o novo. No último livro de Clemente Nóbrega, ele afirma que esquecer o velho é até mais difícil que aprender o novo. Se uma solução funciona, para que procurar outra? Para um martelo, tudo é prego. Mas o mundo muda, e com ele as perguntas e respostas mudam. Sem destruir o antigo, não haveria inovação, e sem inovação, a extinção é certa.


 

Portanto, no mundo imortal, seria muito mais provável que a seleção brasileira fosse a seleção de 1958, com Pelé, Coutinho, Garrincha, etc. Talvez nunca existisse um Romário, porque só cabem onze em campo, e na mente das pessoas a camisa onze já seria de Garrincha. Talvez nunca existisse um Ronaldo, e muito menos um Neymar.
Talvez Marlon Brando estivesse em ação, e Bradd Pitt fosse apenas mais um aspirante que fracassou no caminho da Broadway. Talvez Jennifer Lawrence nunca fosse conhecida, porque Marilyn Monroe era sensualidade pura. Talvez ainda estivéssemos andando de carroça, porque seria uma heresia um garoto de 20 anos falar que o grande Isaac Newton, com 400 anos de sabedoria, está errado (e sim, Newton, Einstein, e todos os seres humanos cometem erros). Talvez não tivéssemos computadores, porque a nossa matemática seria com régua e compasso, seguindo os Elementos de Euclides.


 

O pior é que provavelmente ainda teríamos seres como Stálin na Rússia e Mao Tsé na China, que não conseguiram ser vencidos por nenhum outro ser humano: só foram vencidos pela velhice.
 


O memorável discurso de Steve Jobs em Stanford dizia: a morte é a melhor invenção da vida. Ela limpa o velho, e dá lugar ao novo. Hoje, vocês são o novo. Mas algum dia, não muito distante de hoje, vocês vão envelhecer e sair de cena. Desculpe ser tão dramático, mas é a pura verdade.

https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-terceira-historia/
 


Portanto, aproveitem as poucas décadas que temos neste lugar para construir coisas boas. Para trabalhar, agregar valor de verdade, no pouco tempo útil que temos nesta vida. Inovar, contribuir para a evolução da humanidade. E é por isto que trabalho. Quero ser lembrado como alguém que contribuiu, de alguma forma, para a construção da sociedade, da nossa economia e que deu muito atenção à minha família e pessoas próximas.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2015

 

Soma Visual de Números

Qual o valor de 1+ 2 + 3 + 4 + … + n?
 

Das aulas de álgebra, a resposta é n*(n+1)/2. Normalmente, faz-se a prova por algum método algébrico como indução. Este tipo de método é poderoso, mas muitas vezes a pessoa não tem a menor noção do que está fazendo.

 

A Matemática, nos seus primórdios, era uma extensão de contagem de coisas que existiam de verdade: gado, carneiros, dedos. Na sua essência, é como contar pedras.

 


 

Vamos somar 1 + 2 + 3 + … + n colocando uma pedrinha para cada número e organizando por fileiras.

Soma1

 


 

O desenho é um triângulo, não? Unir dois triângulos dá um retângulo.

Então, faço uma cópia deste triângulo com pedrinhas brancas…

Soma2

 


 

Unindo os triângulos preto e branco, chego num retângulo.

Soma3

 

A área do retângulo é fácil de calcular: base * altura.

A altura é de n fileiras.

A base é de (n+1) fileiras, porque tem uma casinha a mais para encaixar o triãngulo branco.
 

Como o retângulo é formado de dois triângulos iguais, basta dividir por dois:

base*altura/2 = n*(n+1)/2.

 


 

Segredo

Nunca gostei de matemática abstrata. Sempre tentei traduzir ideias para coisas palpáveis, como pedras, áreas, desenhos.
 

O ser humano não foi feito para pensar numa fórmula. O ser humano evoluiu centenas de milhares de anos contando nos dedos, medindo áreas e volumes com mãos, braços e pernas. Aos poucos, vou publicando algumas ideias complicadas que se traduzem em coisas simples.

 

Fonte da prova a seguir: Math made Visual, Mathematical Association of America.

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2015

 

 

Logaritmos neperianos

Tábua de logaritmos

Há uns 5 anos, estava limpando a casa de meus pais, quando encontrei um livro sobre Tábuas de Logaritmos. Eu queria jogar fora, porque hoje em dia qualquer calculadora ou computador faz conta de logaritmos, dispensando a tábua (tabela). Mas o meu pai não deixou jogar fora de jeito nenhum.
 

O livro era exatamente o da figura a seguir.

livro-tabuas-de-logaritmos-7-decimais-irmos-maristas-5862-MLB5004702390_092013-O

Uma vez li no jornal alguém criticando o sistema de ensino, e dava como exemplo a inutilidade de se aprender logaritmos. Dizia o sujeito que Logaritmos neperianos (de base e) pareciam coisas do Sr. Spock, de Star Trek. 

 


 

Afinal, para que serve um logaritmo?

A grande maioria das pessoas não usa nem vai usar logaritmos. Mas, em engenharia e matemática, o log é uma ferramenta básica e essencial. E, historicamente, estaríamos dezenas de anos atrasados não fosse o advento do logaritmo.

 

Um logaritmo é um operador matemático que transforma exponenciais em multiplicação, multiplicação em soma. Funciona a partir das próprias propriedades dos números, é apenas um ponto de vista diferente. Mas, reescrever a mesma coisa de forma diferente pode fazer toda a diferença.

Qual a conta mais fácil?

x = 98* (234 ^13)

ou

x = 1,99+13 * 2,36

Fazer multiplicação é muito mais difícil que somar. Fazer uma exponencial é muito mais difícil do que uma multiplicação. O logaritmo é útil porque torna o problema uma ordem de grandeza menor.

A segunda conta é muito mais fácil que a primeira, mas é a mesma coisa. Basta consultar log(98) e log(234) na tábua de logaritmos do meu pai:

log (x) = log(98) + 13 * log (234) =  1,99+13 * 2,36 = 32,79

Consultando a tábua de logaritmos de novo, mas agora procurando a inversa:

x = 10^32,79 = 6,21 * 10 ^32

 

Conferi no Excel, para ver se dava a mesma coisa. O arquivo está aqui: https://drive.google.com/file/d/0B7qV4XXADYw2N0kxUTlaYUg5Ym8/view?usp=sharing

 


 

Logaritmos e Engenheiros Brilhantes
 

Hoje em dia temos o privilégio de termos computadores pessoais. Mas não era assim há 20 anos… As pessoas tinham que fazer a conta com calculadoras. E, antes das calculadoras, tinham que fazer a conta no braço.

 

Imagine o projeto de uma ponte. Ou de uma catedral. Ou de um avião. Os aviões não esperaram os computadores ficarem prontos para existirem. Os engenheiros tinham que resolver centenas de equações para projetar as maravilhas de nosso mundo.

 

E é aí que entra o logaritmo. É muito mais fácil tirar o log, transformar a multiplicação em soma, e fazer o log inverso (com a ajuda da tábua de logaritmos), do que fazer exponencial “na raça”. 

 

O logaritmo poupou centenas de milhares de horas de trabalho dos mais brilhantes engenheiros, matemáticos e astrônomos da face da Terra, desde meados de 1600 até o surgimento de computadores eletrônicos. O logaritmo ajudou a construir as pontes, as catedrais, os carros e os aviões que existem hoje.

 


 

A tábua de logaritmos do meu pai está guardada até hoje. Portanto, se houver uma terceira guerra mundial e a humanidade voltar para a idade das pedras, vou fugir com a tábua de logaritmos debaixo do braço, para ajudar a reconstruir a civilização.

 

live-long-mr-spock-tobias-woelki

Saudações Vulcanas (ou neperianas)

 

Arnaldo Gunzi

Ago 2015

 

 

Peter Thiel, empreendedor que ajudou a fundar o PayPal e o Facebook, diz que uma solução nova só funciona se for pelo menos 10 vezes melhor. Ou seja, se for uma ordem de grandeza melhor. Ou melhor, se for um logaritmo melhor.

 

Obs.
“Tábua” tem o significado de “tabela”.

 

Uma fábula de Esopo e um conto chinês

Tem uma fábula de Esopo que é assim. Tinha uma minhoca que invejava o tamanho de uma serpente. A minhoca esticou-se muito para ficar do mesmo tamanho da serpente. Só que esticou-se tanto que acabou se arrebentando em dois pedaços.

Isto me lembra um conto chinês, mais ou menos assim. Havia um rapaz que estava desiludido com a vida, porque não tinha casa, não tinha sucesso, e invejava aqueles que tinham. O mestre convidou o rapaz para ver a paisagem. 

– Olhe lá. Temos uma árvore grande e outra pequena. Você acha que a árvore pequena se importa com o tamanho da árvore grande?

– É claro que não. Cada uma é diferente da outra, e não importa o tamanho da árvore. 

– Sim. Cada um tem as suas características que vieram de nascimento e da natureza. E cada um segue o seu caminho, sem se importar com o outro. 

A moral da história é viver a sua vida, sem se importar com os sucessos ou fracassos dos outros. 

Eu sou o mestre do meu destino, eu sou o comandante da minha alma.

William Ernest Henley escreveu “Invictus” em 1875. Talvez a sua inspiração tenha sido a sua própria vida sofrida: passou boa parte da vida em hospitais devido a uma forte tuberculose. Uma alma forte num corpo fraco.

 

Eu sou o mestre do meu destino,
Eu sou o comandante da minha alma.

Henley


 

Tradução livre:

Invencível
 

Nas noites que me encobrem,
Negras como um poço, de ponta a ponta,
Eu agradeço a qualquer deus
Pela minha alma inconquistável.
 

Das garras impiedosas das circunstâncias
Não recuei nem chorei,
Sob os golpes do destino
Minha cabeça sangra, mas não se curva.
 

Além deste lugar de ódio e lágrimas
Há apenas o horror das sombras,
Entretanto a ameaça dos anos
Me encontra, e me encontrará, destemido.
 

Não importa quão estreito o caminho,
Quão castigado com punições a minha sina,
Eu sou o mestre do meu destino,
Eu sou o comandante da minha alma.

 

 

 

 

Rodrigo e o curso de japonês

O Rodrigo é hoje um cara que tem 5 línguas estrangeiras no currículo, estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro e faz parte de uma família rica. Parece bom, não?

Polyglot

Há dez anos, eu morava no Rio de Janeiro e fazia aulas de língua japonesa. O curso ocorria todos os sábados, das 9 as 12h.

Conheci pessoas que são amigos meus até hoje. Conheci também o Rodrigo.


 
O Rodrigo destoava completamente de todos os outros alunos. Enquanto todo mundo estava pagando a aula do próprio bolso e com interesse em aprender, o Rodrigo estava lá porque a mãe o tinha obrigado. Ele ainda era adolescente, estava no segundo grau.
 

O interesse de Rodrigo nas aulas tendia a zero. Tinha cara de alguém revoltado com a vida. Não queria aprender, nem incorporar nada da cultura, muito menos conhecer pessoas. Seu interesse era simplesmente passar para a próxima etapa do curso. Ele era inteligente o suficiente para simplesmente estudar e tirar uma nota mínima na prova, uma vez por mês.
 

Claramente tinha uma condição econômica muito boa. Estudava numa escola particular cara. Viajava para o exterior nas férias. O seu pai tinha prometido um carro quando fizesse 18 anos. Não fazia apenas japonês, mas 5 línguas: inglês, alemão, e outras duas que não lembro. Tanto que às vezes se confundia e respondia algo em alemão. Fazia 5 línguas porque a mãe achava importante. Os seus pais eram separados, e o pai era muito distante, pelo que dizia.
 

O Rodrigo estudou por lá uns três anos. E foi ficando cada vez mais irresponsável, com o passar do tempo. Passou a faltar e só vir nas provas, e depois a faltar nas provas e marcar prova de reposição.
 

Lembro-me de outro episódio. Um dia, a professora estava dando uma bronca nele. Isto porque ele tinha marcado um horário para reposição. Aí, ele faltou na aula de reposição que tinha marcado, sem avisar. A professora tinha vindo de Belford Roxo, e tinha perdido umas 2h só para vir. Em sua defesa, Rodrigo dizia a ela que ia pagar a aula de reposição, como se isto fosse compensar a falta de respeito à pessoa a sua frente.
 

Não é bom julgar as pessoas sem conhecer o background, mas sei que, ao final do terceiro ano no curso: a) ele realmente ganhou do pai o carro que tanto queria, e estava muito feliz neste dia. b) aprendeu muito pouco de japonês, porque passando o nível básico, não basta fazer prova e passar: a pessoa realmente tem que entender o que está fazendo.
 


Aí eu me pergunto. Ao invés de 5 línguas, não seria melhor fazer uma ou duas, mas com seriedade? Ou deixá-lo fazer outro tipo de curso que gostasse? Ou deixar o adolescente com mais tempo livre?
 

Ao invés de carro e dinheiro, há algo melhor que o pai poderia ter dado.
O pai poderia estar Presente, ajudando na formação do filho. A mãe também, ao invés de terceirizar a educação por meio de um monte de cursos, poderia ela mesma ajudar na formação. Este blog já abordou a importância de se estar presente. O mundo precisa de pessoas que estejam presentes.

 

Por fim, pessoas são complexas, e dependem tanto de si mesmas quanto do ambiente. Espero que, apesar de tudo, o Rodrigo tenha se tornado um bom ser humano, em complemento ao bom currículo que tem. Porque o mundo precisa de boas pessoas.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2015

Apendicite, Internet Explorer e Dinossauros

dinossauro

Qual a semelhança entre o código genético do ser humano e o Internet Explorer?

O ser humano tem uma série de “defeitos de fabricação”. Por exemplo, o apêndice é uma bolsa que fica perto do intestino, e que não serve para nada. Aliás, serve sim. Serve para inflamar e causar apendicite, que se não for tratada, pode até matar.


 

Qual o motivo do apêndice existir?

Dizem que o apêndice já serviu para digerir celulose, num passado muito distante.
 

O apêndice é um reminiscente evolutivo: algo que serviu para alguma coisa no passado, hoje não serve mais, porém continua existindo.

 
Há outros reminiscentes evolutivos além do apêndice. O último osso da coluna, chamado coccis, que é a base para um rabo, uma cauda.


 

Evolução X Criação

Esses defeitos tomam espaço do código genético e desviam um pouco da energia da pessoa, mas não são defeitos fatais. A pessoa que não tem apêndice não tem vantagem nenhuma sobre outra que não tem. Então, dá mais trabalho reescrever o código genético do que deixar assim mesmo.
 

A existência destes reminiscentes evolutivos é uma das evidências de que a evolução realmente existiu, segundo o paleontólogo Stephen Jay Gould. Afinal, se houvesse um criador onipotente, por que ele criaria pessoas com apêndice? Por que criaria galinhas com asas se elas não voam? Por que um ser perfeito criaria seres com defeitos?

 

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Reminiscentes biológicos e Código Legado

Por outro lado, no mundo da computação acontece exatamente a mesma coisa, só que com um nome diferente: código legado.

 
Todo sistema de computador é desenvolvido a partir de um código de programação. Mas sistemas são entes dinâmicos, vivos. Estão sempre evoluindo: incorporando novas ideias, novas tecnologias. Muitas dessas novas ideias não dão certo, e o programador acaba tendo que reescrever o código ou fazer uma adaptação no código existente. Um monte de código adaptado com “reminiscentes” de ideias antigas é um”código legado”.

 


Internet Explorer e Dinossauros

 

O Internet Explorer é um bom exemplo. Um browser antigamente só tinha que ler html. Depois, passou a ler algumas linguagens de programação como Javascript e Vbscript. Depois, a suportar soluções como Flash Player. Depois, novas versões de html, e assim sucessivamente. Além disso, tem que garantir a compatibilidade entre páginas feitas para versões anteriores do IE e do Windows. A cada nova ideia a mais, mais um “puxadinho” no código.
 

Acabou que o Internet Explorer ficou cheio de código legado, o que o tornava pesado e ineficiente. O IE virou um dinossauro, dando espaço para o surgimento de concorrentes.

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Recomeçar do zero
Até que a Microsoft resolveu simplesmente recomeçar tudo do zero. Reescreveram tudo, criando o Microsoft Edge, nova versão do browser. Dizem que removeram 220.000 linhas de código do IE antigo. http://gizmodo.uol.com.br/microsoft-edge-oficial/

http://www.theinquirer.net/inquirer/news/2407685/microsoft-edge-dumps-220-000-lines-of-code-including-activx-and-vml

 
Analogamente, o DNA, código genético dos seres vivos, tem um monte de lixo: um monte de código que não se sabe para que serve, mas está lá no DNA. É o “junk DNA”. No ser humano, isto chega a 98% do DNA. Mas não se sabe exatamente se é mesmo lixo ou se serve para alguma coisa que não foi descoberta ainda. https://en.wikipedia.org/wiki/Noncoding_DNA

 
A diferença é que não dá para “resetar” o ser humano e recomeçar do zero. A menos que caia um meteoro que destrua tudo. Opa! Será que Deus é um programador que achou os dinossauros ineficientes e resolveu recomeçar tudo do zero?

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2015

 

Mais Sonhos Profundos

 

 

Mais Deep Dreams, em homenagem a duas cidades fantásticas: SP e RJ.

Para criar seus próprios sonhos, uma dica é usar o site https://www.deepdreamit.com.

 

Av. Paulista

Paulista

 

Deep Av. Paulista

DeepPaulista

 

MASP

Masp

 

Deep MASP

DeepMasp

 

Pão de Açúcar

PaoAcucar

 

Deep Pão de Açúcar

DeepPaoAcucar