Bento Koike, o Samurai da Inovação

Um dia, eu estava no Porto de Paranaguá, fazendo uma visita. Neste dia, vi uma estrutura gigante – uns 80 metros – sendo transportada. A pessoa do porto me disse que eram pás eólicas. Elas vinham de Sorocaba e tinha que ter todo um processo especial de transporte para conseguirem chegar ao porto. Olhei bem, e realmente, parecia uma pá de ventilador. Mas era como um Gulliver olhando para uma pá de ventilador do país de gigantes.

BENTO-KOIKE


 

Anos depois, tive o privilégio de assistir a uma palestra de Bento Koike, no clube Nippon, da qual faço parte. Koike é simplesmente o criador da pá gigante que vi em Paranaguá. Ele é um dos inúmeros empreendedores que encabeçam a inovação e tornam este planeta um lugar melhor. Alguns pensadores, como Nassim Taleb, afirmam que os empreendedores são os grandes herois da humanidade. Empreendedores pensam diferente, têm a coragem de assumir riscos enormes. A grande maioria quebra no meio do caminho, e os poucos que são bem sucedidos normalmente permanecem anônimos. Além de tudo isto, depois de serem bem-sucedidos têm que sustentar uma carga tributária enorme e serem taxados de “exploradores”…
 

A Tecsis é uma empresa brasileira. É 100% baseada em inovação tecnológica, algo muito muito difícil num país como o nosso. Pegue as maiores empresas do país, vai ver ali minério de ferro, aço, petróleo, soja, bebidas, carne, etanol, celulose – ou seja, commotidies. 

 


Bento Koike e suas origens

Bento Koike nasceu numa família de descendência japonesa. O seu avô contava que era dono de pequenas posses de terras no Japão, mas veio ao Brasil correndo atrás de um sonho de um lugar melhor. Chegando ao Brasil, ele teve que trabalhar no campo, de enxada na mão. Ele teve que engolir o orgulho e o prestígio que tivera no passado, para começar a plantar as sementes do futuro.

BentoKoike_Divulgacao_Emdeavor

Décadas depois, Bento se formou no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e começou a carreira de pesquisador. Desenvolveu peças para a indústria aeroespacial no Brasil, ajudando o país a entrar no seleto grupo de países capazes de ter tal tecnologia.

Koike conta como passou por péssimos bocados na década de 80. A empresa de peças fornecia muita coisa para o governo. A inflação era galopante, chegando a 80% por mês. O governo atrasava os pagamentos, e ou era aceitar o pagamento sem correção ou brigar na justiça por mais um ano para receber. Por outro lado, sempre era necessário pagar tudo em dia. Foram tempos difíceis.


 

A Tecsis

A história da Tecsis começa numa viagem fracassada à Dinamarca. Depois de uma reunião não muito boa, Koike resolveu aproveitar o tempo na Europa para conversar com uma das autoridades mundiais da energia eólica, Aloys Wobben. Wobben disse que não estava contente com o atual fornecedor de pás, uma empresa alemã. Conversa vai, conversa vem, e três horas depois, Koike voltava da Europa com um capital de milhão de dólares e financiamento para compra de matérias primas. (Nota: é óbvio que para convencer um grande especialista a fazer isto em três horas, o cara tem que ser muito bom tecnicamente).

 
Olha só. Ele, que tinha ido à Europa apenas com um sonho na cabeça, voltava com a missão de construir do zero algo melhor do que uma empresa aeronáutica alemã já estabelecida. Além disto, tinha que enviar a pá para a Europa, e ser mais barato do que o concorrente alemão que estava ali do lado. Um desafio enorme.
 

Bento diz que o grande limite é aquele imposto a si mesmo. Devemos ter sonhos, e principalmente acreditar em nós mesmos para fazer este virar realidade.

 
Alguns meses de trabalho depois, a Tecsis entregava suas primeiras pás. O prof Wobben, ao ver o produto final, disse: “Não posso acreditar. Esta pá é a melhor coisa que já vi na minha vida. Tem a harmonia de um salão de dança”.

 
Uma pá de ventilador parece algo trivial. Mas o formato da pá é aerodinâmica pura. É a diferença entre um aproveitamento energético bom e um péssimo aproveitamento. A parte mais crítica do projeto do gerador eólico é a pá. Além da tecnologia, é necessária muita criatividade.

 
Hoje a Tecsis já forneceu pás para a geração de energia equivalente a duas usinas de Itaipu. Quase 100% das pás são para exportação, para países desenvolvidos. 50% das pás para os EUA. A pena é que, até a pouco, nenhuma das pás era para o Brasil. Só nos últimos anos é que tem havido encomendas nacionais.

 


Fechando o ciclo
Após muitos anos de trabalho e todo o reconhecimento mundial, Koike foi convidado a fazer uma apresentação no Japão. Ele contou a história do avô, citada acima. E ficou pensando. Por que nem o seu avô, nem outros conhecidos da época, voltaram ao Japão após passar por imensas dificuldades no Brasil? Talvez seja porque eles tivessem vindo atrás de um sonho. Não poderiam voltar para o país da onde saíram com as mãos abanando, sem trazer nada.
 

Sendo convidado a apresentar seu trabalho no Japão, ele se sentia como se estivesse fechando um ciclo, que começara há tanto tempo atrás. Ele vinha trazer o resultado de dezenas de anos de trabalho e de cooperação entre dois países tão distintos, com culturas tão fantásticas e pessoas tão diversas. E Koike pôs-se a chorar, agradecendo a oportunidade, e convidando todos os participantes a seguirem os seus sonhos, e a também fecharem os seus ciclos.

 

Arnaldo Gunzi

Ago/2015

 

2 comentários sobre “Bento Koike, o Samurai da Inovação

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  2. Pingback: Wolff Klabin, a trajetória de um pioneiro – Forgotten Lore

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