Como ler Shakespeare e como ler Álgebra abstrata

No meio dos anos 90, a primeira aula que tive no primeiro colegial (ensino médio) foi de português. Foi com a Dona Candelária, que já tinha quase 70 anos. Ainda me lembro muito bem dela: uma velhinha, com cara de conservadora. Era rigorosa, meticulosa. E suas aulas eram uma sucessão de nomes: Aluísio Azevedo viveu em (não sei quando), escreveu (não lembro o que) e foi importante (por algum motivo que não entendi até hoje). Gil Vicente escreveu o Auto da Barca do Inferno, onde tinha um personagem X que dava um passeio de barco no inferno. Foram 3 anos assim, com a mesma professora, ensinando desde Camões até Vinícius de Moraes neste ritmo.

 

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Bom, mais de 20 anos depois, posso dizer que a Dona Candelária cumpriu muito bem o objetivo que tinha em mente: fazer a gente decorar um monte de nomes e datas para passar no vestibular. E só.


 

A minha vida seria muito mais leve e as aulas muito mais interessantes se eu soubesse os seguintes truques.

 

Poemas e contos não foram feitos para serem decorados. Shakespeare não foi feito para ser lido da mesma forma que se lê uma equação matemática.

theater

Shakespeare é teatro. As falas são pronunciadas por pessoas: homens, mulheres. Mocinhos, vilões. Casais apaixonados. Reis traídos e traidores que apunhalam pelas costas. Plebeus trabalhadores e bobos da corte. Cada um com a sua personalidade e seu objetivo.
 

Shakespeare foi feito para atores interpretarem, e para transmitir emoção ao espectador. Amor e ódio. Medo e esperança.
 

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Ao ler Shakespeare, ou qualquer outra obra de literatura, deve-se: a) ler em voz alta, como se fosse o personagem, b) sentir a emoção, c) imaginar o cenário teatral
 

Convido a todos a fazer este exercício com o poema “Fear no More”: ler em voz alta e senti-lo de coração.
http://letras.mus.br/loreena-mckennitt/25253/traducao.html

 
Não temas mais o calor do Sol,
Nem a raiva dos invernos furiosos.
Não temas a ira dos poderosos,
Nem os golpes dos tiranos…

 


É diferente de álgebra, onde quanto menos emoção, melhor. Quanto mais lógica, melhor. Ou não.
Sen^2(x) + Cos^2(x) = 1
(O seno era casado com a tangente, mas o filho nasceu como 1. O cosseno era o carteiro. Precisa de teste de DNA?)

sen+cos

A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa (o capitão cateto quer matar o Rei hipotenusa, que está apaixonado pela bela cateto Cleópatra, num triângulo retângulo amoroso).

 


 

Por que citei Shakespeare? Porque é o autor de inúmeras obras de imensa qualidade, e também porque a D. Candelária me deixou traumatizado com literatura brasileira.

 

Epílogo.
Parafraseando o grande mestre Peter Drucker.
 

Alguém pode afirmar: mas é óbvio que poemas devem ser sentidos com emoção, e não decorados.

 

Réplica: mas, se é tão óbvio, porque todo o meu ensino médio foi uma sucessão de decorebas? Por que nunca ninguém tinha me ensinado isto? (Aprendi esses conceitos num curso do The Teaching Company, sobre como ler Shakespeare). Se é tão óbvio, porque milhares de outras escolas e professores continuam a inserir na cabeça dos alunos nomes, datas e decorebas, como se a cabeça destes fosse um banco de dados access? A cabeça humana é um banco de dados horrível. Mas a cabeça humana tem a capacidade inovadora de fazer as mais belas criações jamais vistas.

 

Arnaldo Gunzi

Jul 2015

 

 

 

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