Navegar é preciso

De todos os trabalhos que fiz, uns 50% não serviram para nada – só para gastar tempo e energia.

Outros 30% até serviram para alguma coisa, mas não tiveram impacto.

Já os 20% restantes, estão rodando até hoje, com grande impacto. É como se fossem a descoberta de uma nova rota para as Índias, em meio à tantas tentativas em vão.

É impossível saber, a priori, qual trabalho dará resultados. Um projeto promissor pode dar em nada – cometemos erros, ou não temos a competência necessária, ou simplesmente não é o momento dele. Por outro lado, um trabalho menor pode gerar inúmeras oportunidades. Só saberemos a posteriori.

O caminho é sempre fazer o melhor trabalho possível: transformar os projetos ruins em aceitáveis, os aceitáveis em memoráveis. Mesmo assim, sempre haverá os que não darão certo, e aí, bola para frente.

Depois, tratar com bastante carinho e orgulho aqueles que melhor performaram.

No fim do dia, podemos nos perguntar: Valeu a pena?

Fernando Pessoa tem a resposta:

Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador,

tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

mas nele é que espelhou o céu!

Todo projeto deve ter um “killer app”


Um erro comum que eu cometia quando jovem era o de listar todas as vantagens possíveis do meu trabalho e mostrar para o avaliador (professor).

Nesta lista, tinham alguns itens realmente úteis, e muitos itens acessórios, pouco relevantes.

Um projeto, qualquer seja ele, deve ter pelo menos um “killer app”. Ou seja, a aplicação mais desejável, aquela pela qual todo o trabalho se justifica.

É como a melhor faixa do disco. Talvez este comentário não faça sentido para as novas gerações, mas, antigamente, as músicas eram vendidas em discos. E, já que era necessário comprar um disco físico para ter a música, disco este que deveria ser produzido e impresso em escala, vinham umas 15 músicas no CD. Porém, era muito comum comprar o CD inteiro por causa de apenas uma música.

Já comprei o Acústico MTV da Legião Urbana por causa da música Índios. Note que que há outras canções igualmente belas e envolventes, porém a música Índios sozinha já justifica o investimento. Já comprei “Let it be” (álbum) por conta de “Let it be” (música) – note que o conceito da melhor faixa é tão forte, que já colocavam no título direto o que interessava.

Note também que a melhor música nunca é a primeira. Tem algumas preliminares antes, uma preparação para o clímax. E, excelente músicas depois, para fechar bem e dar um gostinho de “quero mais” (como Faroeste Caboclo e The long and winding road).

O Excel foi, por muito tempo, o “killer app” do computador pessoal. Afinal, numa época que não existia internet nem multimídia, o Windows vinha com o paintbrush, o bloco de notas, nada de muito útil. Com o Office, principalmente o Excel, aí sim era possível criar planilhas complexas e controles úteis para uma organização.

Com o advento da Internet e sua miríade de conteúdo, esta passou a ser o “killer app”. Um smartphone sem acesso à internet, por exemplo, nem merece o nome smartphone.

Como um roteiro, o trabalho deve ter um killer app, algumas boas preliminares, um excelente fechamento, e o mínimo possível de encheção de linguiça.

Ação: Qual o “killer app” do projeto? Que gargalo ele vai resolver? O que o cliente quer de verdade?

Trilha sonora: Índios – Legião Urbana

Let it Be – The Beatles


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

O quão excelente é o projeto?

Em diversas ocasiões, discuti ideias de projetos com o meu colega Cláudio Ortolan. Alguns de meus questionamentos eram do tipo “vai custar caro demais”, “temos orçamento para tal?”

  

A réplica dele sempre era:
 

 “Quão excelente é o projeto?”

 

Um projeto excelente, genial, que dá um retorno que o justifique, sempre vai conseguir recursos para se manter de pé.

 

Já um projeto fraco pode custar muito (ou pouco, independe do custo), mas não vai sair do lugar.
 
Para ilustrar esta afirmação, uma história, contada no livro “O imperador de todos os males – uma biografia do câncer”.
 
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Mary Lasker era uma mulher da alta sociedade americana, nos anos 1950. Após perder o marido, numa longa e difícil batalha contra o câncer, ela decidiu usar todas as suas forças para combater este mal. Ela tinha dinheiro, influência e conhecia toda a alta sociedade. Sabia fazer bem o marketing e a parte social para levantar fundos. Mas obviamente ela não tinha conhecimento da parte técnica. Ela precisava de um projeto.
 

Projeto 1
 

Ela procurou um pesquisador acadêmico famoso, explicou toda a sua história e perguntou sobre uma ideia para combater o câncer. Ele respondeu: “Eu preciso de um microscópio novo, de 300 dólares”. Vamos chamar este de “Projeto 1”.
 

 

Projeto 2
 
Depois, ela procurou um médico chamado Sidney Farber. Ele estava havia muitos anos trabalhando desesperadamente no combate ao câncer. Primeiramente com leucemia. Uma característica importante da leucemia é que, pelo câncer estar no sangue, daria para mensurar se algum tratamento teria ou não efeito. E assim, estudando, testando inúmeras alternativas, ele desenvolveu o primeiro tratamento de quimioterapia do mundo.
 
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Sidney Farber e paciente

 

E Farber tinha um projeto. Pesquisar programaticamente as novas drogas, variando dosagem, composição, tipos de câncer e anotar cuidadosamente os efeitos positivos e negativos. Além disso, criar um instituto de combate a câncer. Vamos chamar este de “Projeto 2”.
 

Qual dos dois projetos é melhor?
 
Evidentemente, o projeto de Farber.
 
Mary Lasker e Sidney Farber pareciam duas pessoas com metade do mapa cada uma. Ela conseguiu arrecadar fundos e colocar o câncer em evidência. Conseguiu que o Ato do Câncer de 1971 liberasse a soma sem precedentes de 1,59 bilhões de dólares para a pesquisa do câncer.

 

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Mary Lasker

 

Apesar da cura do câncer ainda estar muito longe de ser uma realidade, muitos dos avanços iniciais da pesquisa são devidos a esses dois. O instituto Dana-Farber existe até hoje (http://www.dana-farber.org), assim como o Lasker Foundation (http://www.laskerfoundation.org).
 
Imagine que o diretor geral da empresa venha à sua mesa e pergunte se você tem uma boa ideia para apresentar para ele. O que você responderia? Que precisa de um computador novo?

 


Links:

“Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo”

No mundo corporativo, em grandes empresas, a frase “Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo” surge com certa frequência. Normalmente, esta frase sai da boca de alguém de nível gerencial.
Acontece que projetos envolvem mudanças: de processos, de tecnologia, de mentalidade, talvez até de tradição. E os mais impactados pelas mudanças são pessoas do nível operacional.
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E, quase que por definição, não dá para garantir que um projeto vai dar totalmente certo. Às vezes, simplesmente não dá certo. Outras, dá certo parcialmente. Mesmo quando dá certo, mudanças de escopo, de cronograma e de custos, sendo normalmente para pior, são comuns.
Já vi muitos casos de mudança de tecnologia sem mudança de processos. Digamos, um software novo de otimização de rotas é implementado (custando, é claro, centenas de milhares de reais e centenas de horas de desenvolvimento). Depois da entrega do trabalho, o analista que realmente vai usar a mesma “engana” o sistema, fazendo as contas no Excel e fornecendo apenas a rota que ele quer que dê no final. Talvez isto ocorra por ele querer continuar a fazer as coisas do jeito dele, ou por não entender direito o novo modelo. Ou talvez por alguma restrição de processos que o novo software não cumpra (por exemplo, o cliente X precisa de produtos A e B juntos na entrega), e que poderia ter sido mapeada se o projeto fosse conduzido a nível mais bottom-up do que top-down.

Vai dar tudo certo
A pergunta “Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo” normalmente é respondida com “Tenho certeza de que vamos trazer os ganhos desejados”. Uma pergunta retórica sendo respondida por uma resposta retórica. Trocando em miúdos, “engana que eu gosto”.