Strand, Borders, Cultura e a Livraria de Lucien

Ontem, sábado, fiz provavelmente a última visita da minha vida à outrora magnífica Livraria Cultura, da Av. Paulista.

O espaço continua semelhante, fora alguns anexos que fecharam. O conteúdo, mais pobre. Antigamente, as estantes bombavam de novidades, com muito mais vida. Hoje, vários dos títulos expostos são os mesmos de anos atrás. Livros hoje lembram os discos de vinil, algo que teve a sua época, mas passou. Vão sobreviver, assim como existem discos de vinil até hoje, porém, somente em volumes menores e para consumidores de nicho.

É uma questão de tempo, para fechar de vez. Ela não conseguiu se adequar aos tempos modernos. O mesmo ocorre com a Saraiva e tantos outros. O varejo agora é digital. Amazon, Magazine Luiza, Mercado Livre são os novos titãs do pedaço.

Este é um fenômeno mundial. Hoje, vejo a notícia que a outrora magnífica livraria Strand, de Nova Iorque, também está numa situação terrível (vide links abaixo).

Fiz visitas a ela nas duas vezes em que fui passear na cidade. Era o maior sebo de livros usados do mundo. E coloca grande nisso! Era possível ficar horas ali, percorrendo as estantes, folheando passagens diversas em busca de conhecimento esquecido e de barganhas. Foi ali que comprei um livro muito especial, a biografia de Steve Jobs por Walter Isaacson, que tenho até hoje.

Foto minha na Livraria Strand, em 2008

Os tempos modernos já fizeram outras vítimas. A Borders, uma espécie de Saraiva americana, já se foi faz tempo. Tenho excelente lembrança dela, pois tinha uma Borders em Brisbane, na Austrália, onde fiquei por três meses.

A mais magnífica livraria de todas que já visitei foi a Barnes & Noble da 5ª avenida. Uma loja imensa, com corredores intermináveis. Eu me senti na biblioteca de Lucien.

Lucien é um personagem da série Sandman. É o bibliotecário do reino dos sonhos, e ele toma conta de uma biblioteca infinita.

A biblioteca de Lucien tem todos os livros escritos e não-escritos do mundo. Contém todos os tópicos já imaginados, desde os mais ingênuos até os mais profanos, por todas as pessoas que já existiram e sonharam na face da Terra…

A loja Barnes & Noble da 5a avenida fechou faz tempo. A rede Barnes & Noble ainda existe. Da última vez que visitei uma, na Califórnia, vi que ela tinha se reinventado, incorporando brinquedos, papelaria, quebra-cabeças ao seu repertório. Porém, mesmo assim ela deve ter sentido o baque da pandemia e a perda do market share para o digital.

Contudo, Strand, Borders, Cultura, Saraiva e muitas outras continuarão existindo, para todo o sempre, nas nossas lembranças. A infinidade de corredores delas será incorporada à Biblioteca de Lucien, e todos os livros estarão ali, disponíveis para todo o sempre, no mundo dos sonhos.

Trilha sonora: Meditação – Maysa Matarazzo (letra: Tom Jobim)

Veja também:

https://www.theguardian.com/us-news/2020/oct/24/the-strand-bookstore-new-york-plea-for-help

https://www.dn.pt/cultura/a-ultima-livraria-da-4-avenida-luta-pela-sobrevivencia-12958918.html

https://sandman.fandom.com/wiki/Lucien

https://ideiasesquecidas.com/2020/10/18/o-que-aprendi-vendendo-livros-pela-amazon/

Sobre livros e livrarias

Estamos em junho de 2018. Livros em papel e livrarias já morreram. Isto nem é um forecast, é uma realidade. É tão óbvio quanto falar que a TV a cabo, jornais em papel, revistas em papel tradicionais morreram com as novas tecnologias.

Só comento sobre este assunto por uma única razão: este post seria mais um capítulo da série de forecasts, porém é um forecast que já aconteceu. Eu adoro livrarias e livros, e sinto demais esta perda.

Um dos meus passeios favoritos é o de ir à Livraria Cultura do Conjunto Nacional, que ostenta milhares de títulos, numa área com três andares, café, e que provavelmente é a maior livraria da América do Sul.

 

Ou andar pela Saraiva MegaStore, do Shop. Ibirapuera ou do Shop. Center Norte.

Image result for livraria saraiva shopping ibirapuera

 

Ou a loja fantástica da Fnac em Pinheiros, com arquitetura ousada, pensada para ser um ponto de encontro entre amantes das letras, numa região cult da cidade… opa, a Fnac Pinheiros acabou de fechar as portas… a empresa Fnac, que vendia eletrônicos e livros, está saindo do Brasil.. (https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/caminhadas-urbanas/o-fechamento-livraria-da-fnac-pinheiros-um-raro-exemplo-de-arquitetura-comercial-a-favor-do-espaco-publico-na-cidade)

 

Image result for fnac pinheiros

As grandes livrarias nacionais estão sofrendo, há anos, com estagnação e declínio, a olhos vistos. A razão é simples. A informação não precisa mais do papel para ser transmitida. Ela está à disposição para ser produzida, consumida e atualizada em qualquer tela, seja a TV, o celular, o notebook, o ereader, o tablet.

A informação virou commodity. Antigamente, para estudar Cálculo, eu precisava de um livro de Cálculo. E era comum recorrer à famosa xerox do livro, porque o original normalmente custava caro demais para um estudante universitário bancar.

Image result for calculo livro

 

Hoje em dia, há dezenas de sites sobre o assunto, vídeos do Youtube, tutoriais, exercícios resolvidos, tudo de graça e num excelente nível, como por exemplo, na Khan Academy.

Calculo.png

A xerox dos dias atuais são os serviços de torrent, ou troca de pdfs dos livros, ou alguma outra forma de copiar digitalmente o assunto.

Além disso, para tópicos avançados, posso consultar direto o blog do autor que é o papa do assunto. Ou, talvez, enviar um e-mail direto para este autor. Ou discutir a questão com outros amantes do assunto, num fórum. Ou pegar os artigos mais relevantes no Arxiv.

 

Um exemplo. Vi o excelente livro “Linear Programming”, do autor Robert Vanderbei, na Livraria Martins Fonte. R$ 399,00. Tenho a mesma versão em pdf, a um custo zero, que leio num dos meus ereaders (tenho um Kindle e um Kobo Reader) – mas poderia ler num iPad, ou no computador, ou imprimir a parte que interessa.

LivroVanderbei

O preço de R$ 399,00 é porque o livro é impresso nos EUA (livros físicos têm que ter uma demanda mínima para justificar a impressão), transportado ao Brasil, incluindo todos os trâmites da importação e deve pagar o custo físico da loja ao expor o mesmo fisicamente (aluguel, salário dos atendentes).

A versão eletrônica do mesmo ocupa 1 MB de espaço em disco, e não acarreta custo logístico algum, nem de importação; por mais que eu goste das livrarias e do livro, é um disparate pagar R$ 399,00 por algo virtualmente grátis.

Exemplos abundam, e mesmo se o livro custar R$ 50,00 ou mesmo R$ 30,00, não dá para competir com a versão digital.

O efeito é que atualmente as livrarias pagam para existir, e algumas ainda teimam em tentar se reestruturar.

A LaSelva, que era bastante presente em aeroportos, está fechando as portas.

LaSelva.jpg

A Saraiva está há muitos anos mal das pernas, e é uma questão de tempo até sofrer alguma reestruturação dramática.

Saraiva.png

A Fnac já saiu do Brasil, sendo adquirida pela Livraria Cultura.

Fnac.png

A Livraria Cultura não está muito bem das pernas.

Cultura.png

Este fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em todo o mundo, o mesmo. A fantástica Barnes e Noble da 5a avenida, em NY, uma das livrarias mais legais do mundo, fechou as portas em 2014. Lembro muito bem disto, porque foi entre a minha primeira e segunda visita aos EUA, então eu conhecia a mesma da primeira visita, e quando voltei para procurá-la, não a encontrei mais.

BarnesNoble.png

O mesmo ocorreu com a Borders, uma rede tipo uma Saraiva americana, que fechou as portas.

Isto sem citar inúmeras outras redes de livrarias, que devem ter destino semelhante se já não o tiveram.

 

O que deve ocorrer é que somente lojas de nicho, extremamente enxutas, devem ser capazes de sobreviver. Ou versões mais on-line do que físicas de fato. Seja como for, a tendência é sobreviver com faturamento muito mais modesto do que nos anos de glória que jamais retornarão.

Os sebos, então, nem se fala. Se as livrarias estão obsoletas, os sebos, que comercializam livros usados, têm um futuro menos promissor ainda. Os que não fecharem as portas devem sobreviver apenas em nichos.

Talvez, num futuro não tão distante, uma prateleira de livros seja apenas para impressionar visitantes, e o comércio de livros seja algo como o comércio de LPs, algo que existe mais como nostalgia do que por necessidade.

 

O espaço do Conjunto Nacional já abrigou uma grande rede de cinemas, o cine Astor (fui lá uma vez, nos anos 80). Os cinemas de rua entraram em declínio, várias virando igrejas evangélicas. As do Conjunto Nacional deram origem ao espaço agora ocupado pela Livraria Cultura. O que será no futuro, não sei, cedo ou tarde os livros darão lugar a algo diferente. Mas, quando isto ocorrer, eu posso dizer que foi bom enquanto durou. Obrigado à livrarias e livreiros, e bola para frente.

 

 

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Mario Quintana

Ascenção e queda do Cine Vitória – RJ

Morei por 8 anos no Rio de Janeiro, nos anos 2000. No Rio de Janeiro, há um lugar chamado “Cinelândia”. A razão deste nome é porque, no passado, havia uma grande variedade de cinemas na região. Mas, nos anos em que estive morando por lá, não havia nenhum cinema por ali. Aliás, havia sim alguns cinemas. Mas eram tão precários e decadentes que não dava para chamar de cinema.
 

Um destes cinemas decadentes era o Cine Vitória. Nos anos 80, era um lugar como na figura a seguir.

12.03.1981 - Frederico Secco - Fachada do cinema Vitóriana no Centro 12.03.1981 - Frederico Secco  - Front of  Cinema Vitória at downtown
12.03.1981 – Frederico Secco – Fachada do cinema Vitóriana no Centro
12.03.1981 – Frederico Secco – Front of Cinema Vitória at downtown

 

Já na década de 2000, ao andar pela rua Senador Dantas, o transeunte se deparava com um lugar horrível caindo aos pedaços, como o da figura a seguir.

CINE VITORIA 2009

 

Ainda assim, funcionava como um cinema, mas passando filmes pornográficos de última qualidade. E este era o mesmo destino de um punhado de outros cinemas remanescentes da região. Um triste destino para um lugar chamado Cinelândia.

 


Voando 10 anos no tempo.

 

Ano de 2015. Na mesma rua Senador Dantas, 45, o Cine Vitória dá lugar à Livraria Cultura. Moderna, bonita, com 9 andares cheios de livros, revistas, dvds, e café. É um resgate de um pouco do orgulho da cidade e um presente aos cariocas!

 

culturavitoria1

CulturaVitoria2

Há alguns anos, o Cine Odeon também passou por reformas, ficando muito bonito e majestoso. É a cinelândia recuperando parte do charme que um dia teve.


 

Dicas para um passeio na Cinelândia: o bar “Amarelinho da Cinelândia”, o Teatro Municipal, a Biblioteca Municipal, a Livraria Cultura Cine Vitória, e o Passeio Público.

Cinelandia-CCBY