Tradição oral nas lendas antigas

Muita gente elogiou o post anterior, sobre Telêmaco Borba e as aventuras de Ulisses na Ilíada e Odisseia. Principalmente quem conhece a cidade citada.

Aproveito para fazer um gancho.

Dizem que essas histórias faziam parte da tradição oral antiga muito antes de serem transcritas para o papel, por Homero. Mais especificamente, a Ilíada verdadeira teria acontecido por volta de 1200 a.C., e a transcrição de Homero, em 800 a.C. Ou seja, uns 400 anos de diferença (a história do Brasil tem 500 anos). Neste meio tempo, a história foi transmitida de geração em geração, contada e recontada de cabeça.

Mas a Ilíada tem umas 700 páginas, dezenas de capítulos, centenas de personagens e interligações entre eles (fulano é filho de alguém que é irmão de outro, etc). E a Odisseia, idem, dezenas de capítulos com tramas intrincadas.

Fico me imaginando, como seria possível alguém decorar tanta coisa?


Outras histórias da tradição oral

Há diversas outras obras monumentais que também foram passadas de geração em geração antes de serem transcritas. Dizem que as histórias infantis dos irmãos Grimm, são uma compilação de tradições orais. A história dos três reinos, obra monumental da literatura chinesa, é outro exemplo.

Em geral, lendas antigas de culturas milenares têm esta característica, de serem passadas por tradição oral, de geração em geração, já que o papel ou não existia ou era muito caro ou muito trabalhoso para escrever. Lendas judaicas, germânicas, nórdicas, persas, mesopotâmicas, japonesas, chinesas, aborígenes, incas, maias, africanas, etc.

Portanto, contar toneladas de histórias de geração em geração não é exclusividade dos gregos.


Contos ao redor da fogueira

Em tempos antigos, não havia internet, televisão, rádio, jornal, nada. Fico imaginando as pessoas sentadas ao redor de uma fogueira, após o jantar. E um contador de histórias, narrando a jornada de Odisseus contra o Cíclope, depois contando como ele se amarrou ao mastro do navio para não ceder ao canto das sereias.

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E também imagino muitas crianças, ouvindo cada parte da história com atenção, noite após noite, ano após ano. Crianças estas que crescerão, terão filhos, e recontarão as histórias antigas, acrescentando um pouquinho aqui, tirando um pouco acolá.

Provavelmente, estas histórias tiveram origens em fatos reais, numa guerra que realmente ocorrera algum dia, com pessoas reais. Mas, talvez por estimularem melhor a imaginação humana, talvez somente as versões mais fantasiosas tenham sobrevivido, com um Aquiles invulnerável com exceção do calcanhar, ou com a deusa Calipso tentando seduzir Ulisses com promessas infindáveis, ou um cavalo de madeira com guerreiros escondidos dentro dele.

Com o passar dos milênios, com o aperfeiçoamento e barateamento de tecnologias como o lápis e o papel, algumas pessoas foram transcrevendo algumas destas histórias, a fim de não esquecer, ou enviar para alguém, por exemplo.

Até chegar em um momento onde algum escriba, com meios suficientes (tempo, dinheiro, capacidade intelectual, influência) pegou dezenas de manuscritos diferentes, juntou com centenas de outros relatos orais divergentes, e compilou numa história coerente do início ao fim. Estes escribas são Homero (Ilíada e Odisseia), Irmãos Grimm (Contos de Grimm), Luo Guanzhong (O Romance dos Três Reinos), e outros Homeros equivalentes da história.

Por isso, sempre digo que o lápis, o papel e a imaginação são tecnologias muito mais importantes do que o computador, a internet e a inteligência artificial!

https://en.wikipedia.org/wiki/Iliad
https://en.wikipedia.org/wiki/Homer
https://en.wikipedia.org/wiki/Oral_tradition

Telêmaco Borba

Neste momento, estou saindo da cidade de Telêmaco Borba, no Paraná.

Não sei quem foi este tal de Telêmaco Borba, nem quando viveu, nada.

Mas conheço outro Telêmaco. De uma história de 3000 anos atrás. Telêmaco, filho do grande heroi grego Ulisses e de sua esposa Penélope.
Telêmaco nasceu no dia em que Ulisses partiu para a guerra de Troia, segundo a Ilíada de Homero. Ulisses, o mais astuto dos mortais, era o rei do pequeno estado de Ítaca, na Grécia. Imagine que nesta época, não havia um grande governo central, mas sim dezenas de cidades-estado pequenas, que viviam por si só, mas se juntavam em caso de necessidade.

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E este era um caso especial. O rei de Esparta, Menelau, convocava as cidades-estado aliadas para a guerra contra Troia.

O motivo: o príncipe Páris, troiano, tinha feito algo inimaginável. Numa visita oficial de Troia à Esparta, Páris roubou Helena, esposa de Menelau.

Helena era casada com Menelau, o rei de Esparta. E Menelau, com a ajuda do irmão Agamenon (rei de Micenas), já tinha quebrado o pau com meio mundo para ficar com Helena.

Aliás, Helena não era qualquer mortal comum. Zeus, o deus dos deuses, costumava dar uma escapadinha da esposa Hera de vez em quando, e fazer alguns filhos na Terra. Helena era filha de Zeus. A mais bela mulher que já tinha andado na face da Terra. A mais pura perfeição em pessoa. Bruna Marquezine é nota zero se comparada com Helena…

Mas acabou sendo seduzida por Páris, com a ajuda de Afrodite, a deusa do amor.

Esta história também merece um parêntesis. Numa festa de casamento de dois deuses, Éris, a deusa da discórdia, jogou um pomo de ouro no meio do salão, bem na hora em que todo mundo estava dançando. O pomo tinha um bilhete, escrito, “Para a mais bela deusa da festa”. Três deusas começaram a brigar pelo pomo de ouro: Atena, Hera e Afrodite (daí surgiu o termo “pomo da discórdia”). Como não havia consenso, deixaram o abacaxi (ou o pomo?) nas mãos de Zeus, para ele decidir. Como Zeus não é bobo, ele repassou o abacaxi para frente. Chamou um mortal, que no caso era Páris, para decidir, e ponto final.

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Páris deu o pomo para a Afrodite, deusa da beleza e do amor. Em troca, Afrodite prometeu a Páris o amor da mais bela mortal da face da Terra. E é por isso que Helena embarcou com Páris para a cidade de Troia…

Toda esta confusão para dizer que a Grécia inteira estava em guerra com Troia. Os navios partiram. O recém-nascido Telêmaco ficou aos cuidados da mãe, Penélope.

Além de Ulisses, diversos outros reis e heróis participaram da guerra. Ajax, Agamenon, Aquiles pelo lado dos gregos. Hector, Páris, rei Priam pelo lado troiano.

E a guerra de Troia foi uma tremenda guerra. Troia estava protegida por muros altos e impenetráveis. Os gregos não conseguiam estratégia que funcionasse. Foram 10 anos de guerra, com baixas pesadíssimas para ambos os lados.

Tudo parecia acabado quando Aquiles, o maior e mais poderoso dos gregos, morreu atingido por uma flecha no calcanhar, o famoso calcanhar-de-Aquiles. Dizem que a mãe de Aquiles, a ninfa Tétis, banhou-o no rio Styx, deixando-o invulnerável. Exceto num ponto, o calcanhar, que foi por onde ela o segurou.

No décimo ano de guerra, os gregos estavam exaustos e a ponto de desistir. Mas Ulisses arquiteta a primeira grande estratégia da história: o famoso cavalo de Troia. Os gregos fingem desistir da guerra e ir embora, deixando apenas um cavalo, em homenagem aos deuses. Deixaram um “presente de grego”.

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Os troianos levam o cavalo para a cidade, como um troféu, e comemoram fartamente a vitória, após tanto tempo de guerra.
À noite, os gregos descem do cavalo, e abrem os portões da cidade para a entrada do exército grego, que estava preparado e escondido. Finalmente, eles conseguiram entrar em Troia. Vitória da Grécia. Troia é varrida do mapa, não sobra pedra sobre pedra.

Helena retorna com Menelau para Esparta. Todo mundo volta para casa. Termina a Ilíada. Começa a Odisseia.

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A Odisseia tem este nome porque Ulisses era chamado de Odisseus na mitologia grega. E o livro narra a sua volta para casa, a volta para Penélope e Telêmaco.

Ulisses embarca num navio com os companheiros. A primeira parada é numa ilha. O azar foi que esta ilha era habitada por cíclopes, criaturas monstruosas com apenas um olho. Um dos cíclopes, um tal de Polifemo, aprisiona os homens de Ulisses e diz que vai devorar um por dia. Ulisses, utilizando de suas artimanhas, consegue enganar Polifemo e cegar o seu único olho. Ulisses e seus homens aproveitam a chance e vão embora rapidinho.

O problema é que os Cíclopes são filhos de Posseidon, o deus dos mares. Posseidon não fica nada feliz com a atitude de Ulisses, e faz de tudo para atrapalhar a volta do mesmo.

Ulisses passa pelas sereias (onde ele é amarrado ao mastro para ouvir o famoso canto da sereia sem se deixar levar por ela), pela feiticeira Circe (que transforma seus homens em porcos), criaturas medonhas chamadas Cilla e Caridbe, depois vai até o inferno para perguntar o caminho que ele deveria seguir. Neste momento, todos os seus homens já estão mortos, e sobra só ele.

Ulisses vai parar na ilha de Calipso. Calipso não é uma banda de música, mas um deusa que se apaixona pelo heroi. Ulisses fica 7 anos nesta ilha, onde tem tudo: o afeto de Calipso, comida e bebida à vontade, diversão, serviçais à disposição para qualquer trabalho. Mas Ulisses não estava feliz. Todos as noites, chorava na praia, querendo voltar para casa.

Zeus ordenou que Calipso ajudasse Ulisses a voltar para casa. Ela obedeceu, mas antes, fez uma proposta. Se ele aceitasse ficar com ela, Ulisses teria vida eterna e juventude eterna, além de continuar a viver como um deus em sua ilha.

A resposta de Ulisses: “Prefiro passar poucas décadas da minha vida no lugar correto do que viver a eternidade em um lugar que não é o meu”.

Assim, Ulisses deixa a ilha de Calipso. Mais algumas dezenas de dificuldades depois, Ulisses finalmente retorna para Ítaca, para os braços de Penélope, e para o seu filho Telêmaco. Foram 20 anos (10 na guerra de Troia e 10 no retorno).

E, finalmente, Ulisses conseguiu completar a sua missão. Encontrou o seu lugar na cidade de Telêmaco Borba e passou o resto de seus dias na companhia da mulher e filho, às vezes indo encontrar os amigos no bar Terapia, outras jogando vôlei no clube Harmonia. O almoço, normalmente na Tec’s. Em algumas quartas-feiras, uma pizza na Torre. E, para fechar as suas aventuras, de vez em quando um futebol na Lagoa.

Arnaldo Gunzi
Fev 2016

 

 

 

O algoritmo de Feynman para resolver qualquer problema  

Richard Feynman foi um dos maiores físicos da história. É reconhecido pela extrema criatividade com que abordava e resolvia problemas.

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O algoritmo de Feynman para a resolução de problemas afirma o seguinte:
1 – Formule a Pergunta
2 – Pense arduamente
3 – Escreva a resposta

 

Esta afirmação ficou famosa, por ser um pouco lúdica, um pouco simplista. Meio brincadeira, meio séria. Ao mesmo tempo muito verdadeira e muito falsa – ou seja, genial.

 
A primeira parte, “formule a pergunta”, pode parecer trivial, porém não é. Fazer a pergunta correta é quase já fornecer a resposta.

 

O foco de um bom resolvedor de problemas não é encontrar a resposta, e sim fazer a pergunta correta. Reformular as perguntas existentes, de forma a permitir que a resposta resolva algum problema do mundo real, aproveitando as assimetrias de espaço, tempo, cultura, informações e oportunidades em geral.

 

Uma pergunta genérica demais (como resolver o problema da fome no mundo?) não serve para nada, uma pergunta específica demais não serve para nada (como resolver o meu problema de fome?). Uma pergunta óbvia não leva a nada, uma pergunta esdrúxula também não.

 

A Casas Bahia, nos anos 80 e 90, não se perguntou “Como vender móveis mais baratos para a classe C?”, e sim “Como financiar a classe C para permitir que eles comprem móveis?”.

 

Ulisses, na Ilíada, não se perguntou “Como vencer a Guerra de Troia?”, e sim “Como fazer para abrir os portões de Troia de dentro dos muros?”

 

Já dizia Picasso: “Computadores são inúteis, eles só sabem dar respostas”.

 

A segunda parte, pensar arduamente, também pode parecer trivial. Mas, se é tão trivial assim, por que tantas pessoas desistem sem nem ao menos tentar responder?

 

A maior barreira de todas reside na própria cabeça do ser humano. Muita gente já assume que não consegue responder, que tem que buscar a solução na internet e copiar a resposta que alguém elaborou. Errado. Vale muito mais desenvolver a própria resposta do que copiar as ideias de outrem.

 

Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele – Henry Ford

A terceira parte, “escrever a resposta”, também é muito importante. Porque as pessoas esquecem os detalhes das respostas, e somente podem avaliar precisamente se estão certas ou erradas se tiverem algo escrito: a pergunta, a resposta com todos os detalhes, a data, as pessoas envolvidas. Assim, pode-se ter um feedback das perguntas e respostas e consequente evolução das mesmas.

 

 

O Pomo da discórdia

Todos os deuses do Olimpo foram convidados para uma festa, exceto Eris, a deusa da Discórdia.

Furiosa, ela esperou a festa atingir o seu ápice, para lançar no meio do salão uma maçã dourada, dizendo que o pomo era para a mulher mais bonita presente.

Três deusas em especial lutaram pelo pomo: Hera, esposa de Zeus, Afrodite, a deusa do amor, e Atena, que embora seja a deusa da sabedoria, entrou na onda da discórdia.

Elas pediram a Zeus arbitrar. Este, a fim de evitar problemas, pediu para um camponês troiano, Páris, fazer a escolha. Este escolheu Afrodite, que lhe prometera a mulher mais bonita da Terra.

O problema é que a mulher mais bonita da Terra era Helena, esposa de um poderoso rei grego.

Assim começou a guerra de Troia.