O estágio na Telesp

Durante o terceiro ano do segundo grau, um terço da turma fazia estágio na antiga Telesp. À época, o nome era “estágio”, hoje em dia eu acho que o termo correto é “menor aprendiz”, porque tínhamos nossos 16 ou 17 anos e nem estávamos na faculdade ainda…

Sou grato ao estágio por ser o primeiro que fiz em minha carreira, mas só. Era um trabalho com pouquíssimo valor gerado, e que também ensinou pouco tecnicamente.

Já existiam computadores, e creio que eles eram utilizados, porém, eram novidade (estamos falando do meio da década de 90).

Pois bem, o nosso trabalho era o de receber uns papéis informando que alguma rota telefônica tinha mudado, procurar a rota dentro de um fichário dentro de uma caixa dentro de um armário e atualizar a informação deste. Dia após dia, era só isso.

Tinha erros à beça, já que era um processo totalmente manual. Se não encontrássemos o fichário, a solução era criar outro, em branco. Se alguém fizesse algo errado, nunca seria descoberto – como auditar um negócio desses? E como consertar alguma informação conflitante? A sorte é que ninguém nunca precisava da informação arquivada, pelo menos eu nunca presenciei isso.

Mas se já existiam computadores, para que fazer o trabalho que um deles faz de forma extremamente mais rápida, barata e precisa? Eu desconfio que, pelos anos 90, não se confiavam muito nos computadores. Ou a nossa área ali existia por pura inércia, por ter existido antes, e deve ter continuado a existir até que algum diretor questionasse “para que serve essa área?”.

Pois bem, eu e vários outros colegas fazíamos estágio ali. Saíamos da escola ao meio-dia e íamos, de metrô, ao estágio, que era meio-período, à tarde. Era mais ou menos cada um por si, só que, de vez em quando, eu ia com outros.

Uma vez, fui com um colega, já descrito em outro post, do aperto de mão flácido. Andava devagar, parecia divagando sobre a vida. Íamos almoçar num shopping ali perto, e era uma demora eterna para chegar lá, sentar, finalizar e sair. Depois, ir até o metrô, devagarzinho, se arrastando. Com muito custo, enfim chegávamos ao estágio.

Recebíamos por hora, e o controle era através de cartão de ponto. Pegar uma ficha, colocar para carimbar na máquina, e ficava o dia e hora registrados. Na saída, o mesmo. A área de RH, no final do mês, deveria ter o trabalho chatíssimo de digitar esses carimbos e calcular as horas a serem pagas.

Era comum um colega chegar e registrar a entrada de meia dúzia de amigos. Um grupo de meninas fazia isso: uma chegava cedo, batia o ponto de todas e vazava o quanto antes. Outra chegava tarde e saía tarde, batendo o ponto das amigas. Portanto, tinha gente que aparecia, ficava pouquíssimo tempo e certamente ganhava mais do que eu, pelo esquema acima – mas não que o valor fosse grande coisa, no final das contas.

Eu acho que a Telesp já tinha sido privatizada nesta época, porém, ainda estava numa fase de transição.

Nosso curso técnico no segundo grau era de Telecomunicações. Matérias como eletrônica, rádios AM e FM, antenas, esse tipo de coisa. Daí, parecia uma boa o estágio na Telesp, afinal, uma empresa de telefonia. Porém o nosso trabalho era apenas o de arquivar papéis. Da área técnica, nada agregou.

Recebíamos um ticket refeição também, e tinha um rapaz que comprava o mesmo com desconto. Daí tinha gente que comia pouco para vender o ticket. Não era o meu caso, pela primeira vez na vida eu tinha algum dinheiro para comer em restaurantes, e fazia questão de zerar o ticket.

Para nós, bem ou mal, era algum aprendizado, uma novidade. Para outros, nem tanto. Tinha gente ali naquele setor que trabalhava há 10 anos, era tipo “analista sênior em arquivar papelzinho”. Certamente não era uma atividade promissora, ainda mais com a chegada iminente dos computadores e da privatização.

Pois bem, algumas coisas boas do estágio. Tinha uma biblioteca no prédio, e dava para pegar livros emprestados. Levei para casa e li vários da Agatha Christie, narrando as aventuras de Hercule Poirot. Tenho um carinho especial pela autora e pelo personagem até hoje.

Outra coisa boa foi que éramos todos muito jovens, descobrindo tudo, pela primeira vez no mercado de trabalho. E como já nos conhecíamos, com a mesma idade, eram ótimas conversas.

Não existia internet, Whatsapp e redes sociais, de modo que, naturalmente, cada um seguiu o seu rumo depois da formatura. E sim, tenho saudades, não de arquivar papéis, mas da aventura do primeiro estágio, das conversas com as pessoas, e até do passeio involuntário no shopping para almoçar!

O Compêndio de Ideias do Prof. Arnaldo: https://asgunzi.github.io/Compendium/

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