O país que não aceita cartão de crédito

Um aviso aos turistas: ninguém aceita cartão de crédito na China!

 

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Fui à China, todo confiante que os meus cartões Visa e Mastercard seriam aceitos em muitos lugares. Qual nada. O mesmo vale para outros cartões americanos, Amex, Dinner’s club.

 

Primeiro, quem aceita cartão de crédito: Os hotéis aceitam. Grandes lojas, idem. Alguns restaurantes. Mas a chance de ficar na mão é enorme!

 

O comércio, em geral, não aceita cartão. O táxi não aceita. Restaurantes, em geral, não aceitam, mesmo em cidades gigantescas como Beijing e Shanghai. E, a tendência não é boa. A cada dia que passa, menos lugares estão aceitando cartão de crédito. Chega a ser desesperador!

 

 

Desisti de passar o cartão após este ser recusado 4 vezes seguidas. Em metade das vezes, o atendente nem sabia o que fazer com o cartão – ele não sabia se era só para aproximar, ou passar ao lado da máquina, ou inserir na máquina. O rapaz inseriu, apareceu uma mensagem, coloquei a senha, mas deu algum erro bizarro, uma mensagem em chinês. Fiquei com medo de bloquear o cartão (ainda tinha hotel a pagar) e passei a usar só dinheiro. Procurei uma casa de câmbio e troquei dólares de reserva por um bolo de yuans. Pelo menos, eles aceitam dinheiro vivo (por enquanto).

 


 

Então, se não usam cartão, usam o que?

 

A resposta é simples. Usam WeChat. Ou AliPay. Ou alguma outra modalidade de pagamento via celular de mesma natureza.

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Pelo que entendi, olhando as pessoas e conversando com o pessoal da Missão China StartSe, é o seguinte.

 

– O caixa registra as compras
– O comprador abre o WeChat (ou algum outro), e pelo celular gera um código QR
– O caixa escaneia o código QR
– Confirma e pronto, acabou.

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Vídeo mostrando várias aplicações.

 

Eu tentei abrir uma conta de pagamento no WeChat, mas não consegui. É necessário ter conta em um banco chinês, de modo que um estrangeiro nunca vai conseguir usar tão facilmente.

 

Os chineses nunca chegaram a ter cartão de crédito. Eles pagavam tudo em dinheiro. Pularam a etapa do cartão de crédito e foram direto para a era do dinheiro pelo celular.

 

Segundo minhas fontes (nota sobre fontes*) esta tecnologia de transação por celular surgiu para preencher uma necessidade. No e-commerce, como o vendedor e o comprador vão poder confiar uns nos outros, se um dos dogmas daqui é desconfiar primeiro? A solução dada pelo Tao Bao (site de vendas, do grupo AliBaba) foi ele mesmo intermediar isto. O site recebe o pagamento do comprador, segura até o vendedor entregar, e só depois libera a verba.

 

Ora, mas se toda a transação já era eletrônica, não era necessário um banco, o próprio AliBaba poderia ser o banco. Daí, criaram o AliPay.

 

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O WeChat é uma espécie de Whatsapp chinês, muito comum no Império do Meio. Também passaram a intermediar transações, concorrendo com o AliPay.

 

As taxas das transações por celular são baixíssimas. Os teraytes de dados de consumo gerados são fonte inestimável para Big Data. Toda esta informação possibilitou dezenas de outros produtos financeiros adicionais.

 

 

Tendo tantos dados, dá para calcular com acurácia o risco de calote, o que possibilita o empréstimo em segundos. São 3 segundos para cadastrar, 1 segundo para aprovar, e zero intervenção humana (frase esta conhecida pelo número 310).

 

Outro produto interessante. Como a carteira é 100% digital, é muito fácil uma pessoa emprestar dinheiro para outra. Ou fazer doações, digamos de centavos, a cada vez que a pessoa quiser recompensar um bom artista.

 

Hoje a China lidera de forma incontestável o ranking de transações on-line do mundo, com mais de 12 trilhões de dólares em transações on-line, contra menos de 1 trilhão nos EUA .
Todo este ecossistema só foi possível devido à infraestrutura de conexão e ao baixo custo dos aparelhos celulares – até mendigos estão aceitando esmolas em WeChat!

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(https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655)

 

Há dois pilares maiores que sustentam as transações por celular: conexão e smartphones.

 

Um dos pilares é a conexão com a internet, para realizar a transação. E há muita cobertura celular na China, até debaixo da terra, no metrô, pega celular, o governo chinês investe muito na infraestrutura.

 

Outro pilar é o baixo custo de smartphones. Na China, uma marca conceituada (digamos a Apple) vai ser cara, por conta de impostos. Mas uma marca chinesa vai ser barata, de modo que cada pessoa tem o seu smartphone.

 

Quanto aos bancos tradicionais. Pelo que deu para perceber, não é que os bancos vão morrer, até porque há diversos produtos financeiros diferentes da aplicação no varejo. O que pode acontecer é de eles terem suas margens reduzidas devido à esta competição. No Brasil, em que há um oligopólio de bancos e muitas barreiras à inovação, os bancos ainda vão reinar por um bom tempo…

 

Na China, quem sabe daqui a alguns anos, talvez nem o dinheiro vivo seja necessário.  O resultado é este: o país com mais transações on-line do mundo. Ponto para o Império do Centro!

 

Nota: o NFC (tecnologia que permite comunicação através do contato) não pegou. Talvez por cada fabricante ter a sua especificação, o que pode causar incompatibilidade de hardware. Já o QR code é universal, tira uma foto e pronto.

 

*Sobre fontes utilizadas. A China divulga pouquíssimos dados oficiais. As informações aqui descritas foram com base em conversas com pessoas, portanto, não são totalmente confiáveis. Além disso, como a China muda muito rápido, provavelmente essas informações estarão obsoletas em poucos meses…


Links:

https://www.statista.com/statistics/226530/mobile-payment-transaction-volume-forecast/

https://www.scmp.com/tech/apps-gaming/article/2134011/china-pulls-further-ahead-us-mobile-payments-record-us128-trillion

https://www.ft.com/content/00585722-ef42-11e6-930f-061b01e23655

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/01/why-chinas-fintech-will-change-how-the-world-thinks-about-banking/#167c6c5621ba

https://www.forbes.com/sites/zennonkapron/2016/03/06/china-banks-lost-22b-to-alibaba-and-tencent-in-2015-but-thats-not-their-biggest-problem/#1eec07d36094

 

Sobre idiomas na China e no Brasil

Sobre o idioma inglês

Quase ninguém fala inglês na China. No aeroporto e hotéis, sempre tem alguém que fala inglês. Executivos de cargo mais alto nas empresas também sabem falar inglês, alguns deles, muito bem. Analistas menores das empresas até arranham uma palavra ou outra, mas não são fluentes. O povo, em geral, não fala absolutamente nem uma palavra em inglês. Pensando bem, é mais ou menos como no Brasil, mas numa escala gigantescamente maior.

 

O jeito é se virar na mímica. Nas lojas, apontar para o que quiser. Nos restaurantes, apontar para o prato no menu. Teve uma vez que a moça perguntou se eu queria apimentado ou não (eu acho), e não consegui responder, nem ela entendeu nada. No final, fiz que sim com a cabeça, e veio um noodles bem apimentado…

 

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(Foto: cardápio de uma das lojas. Tudo na base da mímica)

 

O ser humano é muito bom em linguagem corporal, melhor do que a gente imagina. Dá para sobreviver na China, sem falar uma palavra em chinês – tendo dinheiro, é claro. De vez em quando aparece alguém para ajudar, mas é raro, bem raro.

 

A diferença no Brasil é que as pessoas são mais abertas, é muito mais fácil aparecer algum voluntário para ajudar um gringo.

 

 


Sobre o idioma chinês

 

 

Estudei chinês por um ano, e parei por falta de tempo, após nascer a minha filha número 2 (hoje tenho 3). Mas sei meia dúzia de palavras, bom-dia, boa-noite, e uns 100 hanzi (caracteres chineses) – e isto ajudou muito.

 

A gramática do chinês é fácil, e a tonalidade, aprende-se. O difícil mesmo são os caracteres. Há uns 20 mil caracteres, e para minimamente se virar, tem que dominar uns 3 mil. O efeito disto é que, para alguém ser alfabetizado na China, precisa gastar várias dezenas de anos estudando. Poucos são ricos o suficiente para tal, e o efeito é que há (e sempre houve) uma massa gigantesca de pessoas analfabetas na China.

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(Foto: caracteres chineses antigos. Foto tirada de exposição dentro da Cidade Proibida)
Caso:  Vimos um velhinho, na estação do trem-bala em Hangzhou. Ficamos uns 50 minutos na fila, infernal, uma desgraça, porque havia muita, muita gente querendo pegar os trens.

 

A estação de trens de Hanganzhou é a maior da China. É maior do que muitos aeroportos brasileiros. Exemplo, é maior do que o terminal de passageiros de Congonhas. Na China, é tudo big, mega, gigante.

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Tínhamos que pegar a fila, porque éramos estrangeiros e precisávamos apresentar passaporte para comprar o ticket. Do lado, havia uma série de maquininhas de auto-serviço. Um velhinho ficou ali, numa das maquininhas, este tempo todo. Meu amigo, Roberto Farina, pediu ao Manuel Netto, que fala chinês fluente, para ajudar o velhinho. Ele foi lá, perguntou se precisava de ajuda, e o velhinho foi embora. Um minuto depois, ele voltou, e lá estava ele de novo, mexendo nas maquininhas.

 

 

Provavelmente o velhinho não sabe ler. E pior, não confia em ninguém, não quer ajuda de ninguém, e também não vai ajudar ninguém.

 

 

Esta desconfiança, dizem alguns, tem as bases nas revoluções políticas ocorridas na segunda metade do século passado (Grande Salto para a Frente e Revolução Cultural), em que qualquer pessoa poderia denunciar atividades suspeitas de qualquer outra pessoa. O governo estimulava inclusive que pessoas da própria família denunciassem outras, de forma que o Partido era mais importante do que a família.

 

 

No ocidente, a princípio a gente confia em quem não conhece, e só desconfia quando esta não cumpre o prometido. Na China, é o oposto, a princípio desconfia, só depois de muito tempo é que se ganha a confiança da pessoa. Eu diria que no Japão é mais ou menos neutro, nem confia demais nem desconfia.

 

 

Em comum a todos os lugares, a confiança é muito importante. Não consigo trabalhar com quem quebrou a minha confiança.

 

 

Há uma palavra especial em chinês, Guanxi, que descreve relações de conhecimento e confiança.

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Sobre o idioma do futuro

Há muitas pessoas que dizem, “não sei por que pedem inglês no currículo, nunca usei inglês na empresa”. Ok, saber ou não outra língua é escolha de cada um, entretanto, sem outra língua, fecham-se duas portas: conhecimento e relacionamento.

 

A porta do Conhecimento: toda produção científica, política e cultural relevante está em inglês. O profissional que espera um livro ser traduzido para o português vai esperar três anos. Uma aula simples, digamos Álgebra Linear, vai ter 20 vezes mais opções de cursos e vídeos em inglês do que em português. O profissional que não sabe inglês vai sempre ficar muitos anos atrás de quem sabe e corre atrás.

 

A porta do Relacionamento: há 200 milhões de pessoas no Brasil, e 7 bilhões no mundo. O idioma universal é o inglês, qualquer reunião de alto nível entre pessoas de diferentes países será em inglês. Não é possível ter relacionamento sem comunicação, e o inglês é ferramenta básica.
Sobre o chinês como língua do futuro. Talvez não ocorra, porque os chineses de alto nível falam inglês. Mas, a cada ano em que a China ressurge como um império, cada vez mais eles verão com bons olhos aqueles que sabem o idioma deles.

 

O hanzi de China significa “país do meio”, e a cada ano, eles estão cada vez mais no centro do mundo. E têm tudo para ficarem mais milhares de anos como um dos maiores impérios do mundo.

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Gosto muito de um livro chamado Maus, que conta a história de Vladek Spiegelman. Sendo um judeu na Alemanha de Hitler, ele acabou num campo de concentração. Uma das coisas que o salvou, destacando-o da multidão, foi que ele sabia inglês. Perto do fim da guerra, estava evidente que os EUA venceriam a guerra. Um tenente alemão queria aprender inglês, e Vladek foi o professor de inglês dele. A sobrevivência, em troca das aulas de inglês. Conclusão: tem vantagem quem fala a língua do vencedor.

 

Linguagem é hábito. Linguagém é convivência e uso, se não usar, certamente a gente esquece. Por isso, é muito mais vantajoso usar o inglês como primeira língua: e-mails em inglês, livros em inglês, sistema operacional em inglês (ou na língua escolhida para estudar).

 

 

Outra coisa, é que a língua é apenas a forma de transmitir a mensagem. O conteúdo é milhares de vezes mais importante do que a forma. Tendo conteúdo, dá-se um jeito de fazer a comunicação. Não adianta falar inglês fluente, se não tiver o que falar.

 

Agora, imagine competir com alguém que tem o conteúdo e também a forma. Este estará numa vantagem competitiva enorme, difícil competir. Prefiro eu ser a pessoa com o conteúdo e a forma.

 

Conclusão: Inglês é o básico. Um executivo de alto nível tem que ter inglês fluente. Uma segunda língua é muito bom, ajuda bastante a abrir a cabeça e a fazer relacionamentos novos.

 

Foto tirada na Nanjing Road, um dos pontos turísticos mais legais de Shanghai. À noite, há uma multidão enorme de pessoas indo e vindo, como a rua 25 de março em São Paulo. A diferença é que a 25 de março vende só porcaria, enquanto a Nanjing Road é só artigo de luxo.

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China, o país das contradições

Assaltos e furtos

 

Na China, não há problemas com assaltos ou furtos. Sequestro-relâmpago, arrastão, são palavras que nem tem como traduzir para esta realidade. Dá para andar sossegado na rua, ir a qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem problemas.

 

Dizem que um dos motivos para tal comportamento é o rigor das punições. Se pegarem o ladrão, ele estará completamente ferrado. Será penalizado com um rigor excessivo, e até onde sei, aqui não tem a onda de direitos humanos do ocidente.

 

Entretanto, se roubar ativamente não é permitido, é permitido enganar os outros, ser levemente desonesto.

Alguns casos que passei:

– O taxista quer cobrar o dobro do valor da corrida, principalmente aqueles que correm sem taxímetro. Se custa 100 yuans, ele quer cobrar 200 yuans. Daí, você pechincha, pechincha de novo, e chega em algum valor não abusivo.

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– Nas lojas de rua, o mesmo. Ao comprar qualquer coisa, algum presentinho, o atendente vai jogar um preço alto, principalmente se entender que você tem dinheiro.

 

– Troco errado.

O atendente vê que você é estrangeiro, fala em chinês quanto deu, e te devolve o troco errado. Na primeira vez, é possível até dar o benefício da dúvida, erro humano. Mas a linguagem corporal diz tudo: o rapaz que me atendeu baixou a cabeça, fugiu para outro canto da loja, e tive que chamá-lo.

 

Por incrível que pareça, até no aeroporto internacional de Shanghai isto acontece. Desta vez, fiquei olhando com atenção. A moça disse que faltavam 10 yuans. Sei que estava errado, mas queria ir até o fim para ver o que aconteceria. Dei os 10 yuans. Fitei os olhos dela, que desviou o olhar e não se atreveu a levantar a cabeça. Ok, pensei, mais uma desonestidade para a lista. Aí, quando eu estava indo embora, ela me deu uma coleção de postcards, disse que era presente. Obviamente, ela percebeu, bateu um sentimento de culpa e me deu algo para compensar.

 

Foto dos postcards que “ganhei”:

 

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– Muitos taxistas são analfabetos. Não lêem nem em inglês, nem em chinês. Tem muitos analfabetos na China. E, por isso, você tem que ler o endereço para o taxista, o que é impossível para um estrangeiro.

 

Resultado: vira e mexe, o taxista aceita a corrida, te larga num lugar aleatório, no lugar que ele entendeu, errado, e você tem que pegar outro táxi. Como andei muito pouco de táxi, isto ocorreu apenas uma vez comigo, mas outras pessoas do grupo relataram ocorrências do tipo.

 

Em geral, essas desonestidades ocorrem nas lojas de rua, táxis, em que os funcionários são de baixo nível econômico – é claro que em hotéis de alto nível, isto não vai ocorrer. E, mesmo nas lojas de rua, não é regra geral, nem todas as pessoas fazem isto.

 

As desonestidades existem em todo lugar do mundo – no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, já tentarem me passar a perna várias vezes.

 

O que é diferente é a proporção. A probabilidade é muito alta, de pessoas que praticam tais desonestidades. Tentar ser trapaceado meia dúzia de vezes em uma semana, isso porque o tempo de turismo foi pouquíssimo, é muita coisa. Mas também, é cultural. Para eles, isto não deve ser totalmente errado. Não sei como é ser gringo turista no Brasil, mas suponho que haja muito mais transações honestas – e também, assaltos, arrastões, etc…

 


Chinês gosta de dinheiro

 

A frase acima, “Chinês gosta de dinheiro”, é clássica. Ouvi umas 5 vezes de várias pessoas diferentes. E é verdade.

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Como não dá para usar cartão de crédito (Visa, Master, nenhum), fui obrigado a andar com um bolo de dinheiro. Muitos chineses, quando viam uma carteira cheia de grana, ficavam de olhos bem abertos, dava para ler no rosto deles. Duas das desonestidades acima foram depois que os caras viram a cor do dinheiro. Depois disto, passei a esconder o grosso do dinheiro em outra carteira.

 

 

É cansativo ficar pechinchando. Entrar na loja, o atendente pedir 150 yuans, você dar 70, e ir barganhando. Eu não tenho muita paciência para isso. Enquanto o fulano dá a vida por 10 yuans, para mim isto significa 6 reais. Prefiro desistir logo, fica com o troco, do que perder tempo e energia barganhando. Porém, não sei direito o que isto significa do ponto de vista cultural (meus amigos chineses, quem quiser comentar, fique a vontade). Não sei é motivo de orgulho barganhar ao máximo. Ou o chinês vê a gente como alvo fácil (um vendedor chinês ficou me seguindo a rua toda). Não sei as respostas, mas sei que é verdade, o chinês gosta muito de dinheiro, muito mais do que qualquer outro povo que já conheci.

 

 

Isto certamente é efeito do sofrimento de um povo que, poucas décadas atrás, estava entre os mais pobres do mundo. E, na verdade, a grande massa da população continua pobre, analfabeta, na área rural, pouco assistida. Para muitos deles, assim como para muitos brasileiros, um real significa a diferença entre almoçar ou não no dia.

 

Se o Brasil é cheio de contradições, a China é contradição a um nível exponencial. Na mesma cidade em que há pessoas dispostas a ficar uma hora barganhando 1 real, há inúmeros carrões como Mercedes, BMW, Tesla, Ferrari. Ao mesmo tempo em que é possível andar sem medo de assaltos, ninguém confia em ninguém. Uma cidade gigantesca e belíssima, como Shanghai, possui as pessoas mais ricas e as mais pobres do mundo ao mesmo tempo.

 

Se o Brasil não é para principiantes, não dá para entender a China nem sendo profissional.

01_Shanghai.JPG(Foto minha na belíssima Shanghai)

 

 


Nota sobre a tradução
Dirão os puristas que o plural de “yuan” é “yuanes”, e não “yuans”. Porém, fazer isto é aportuguesar demais a experiência – e este post é sobre a China. Portanto, dane-se o português correto.

A Arte da Guerra antiga e moderna

Resumo: Um pouco da Arte da Guerra dos livros antigos, e o que encontrei na China atual.


 

Parte 1 – A Arte da Guerra

A minha fascinação pela China é de longa data.

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Tudo começou com a Arte da Guerra, de Sun Tzu – um tratado pequeno, simples, mas poderoso:

“Toda a guerra é baseado no logro (em enganar o inimigo)”,

“Na defesa, seja impassível como uma montanha. No ataque, atue como uma águia ataca uma presa”,

“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho”.

 

Lembro que este foi uma recomendação de um executivo que estava palestrando para alunos do segundo grau, eu incluso – e por isso, hoje estou sempre aberto a conversar e recomendar livros para os outros.

 

Napoleão Bonaparte, sem dúvida um dos maiores generais de todos os tempos, carregava a Arte da Guerra para onde quer que fosse.

A “Arte da Guerra” me fascinou tanto que tenho umas dez versões do mesmo em minha biblioteca: diferentes traduções, diferentes interpretações, versão em quadrinhos, etc… A foto a seguir é da minha biblioteca.

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Depois de ler as notas desses livros, descobri outro tratado igualmente poderoso, capaz de alterar os rumos de uma batalha, decidir o destino de uma nação inteira: “Os trinta e seis estratagemas secretos“. É outro livro muito simples, direto:

 

“Observe o fogo do outro lado do rio”,

“Roube um bode pelo caminho”,

“Dê tijolos para obter jade”.

 

Tenho outros como o “Livro do Mestre Chang”, “A arte da guerra de Sun Pin”, e mais um monte, mostrando que a China passou por milênios de guerras entre os seus estados e contra estrangeiros (mongóis por exemplo). Estamos falando de 5 mil anos de história, é profundo, pesado – para efeito de comparação, o Brasil tem 500 anos de história.

Nesta jornada, descobri algo muito mais fascinante do que todos os livros acima juntos. Se juntar todo o conhecimento e histórias acima, não dá nem um terço deste último, que deixo aqui como o ponto alto desta exposição: O Romance dos Três Reinos.

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O maior estrategista da história da China não é Sun Tzu. Longe disso. O maior estrategista da história da China chama-se Zhuge Liang Kong Ming, o “dragão agachado”, e suas inúmeras estratégias e artimanhas que fariam Ulisses, da Odisseia, parecer um amador.

O nome “Três reinos” está errado, na verdade eram três impérios. Haviam muito mais reinados menores, que foram sendo consolidados (ou seja, derrotados), até sobrarem apenas os três reinos de Wei, Wu e Shu Han. Foram dezenas de anos de batalhas entre esses, até chegar ao vencedor que consolidou a China como um todo.

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A Arte da Guerra na China moderna

Vim para a China achando que encontraria diversas mênçãos à sua gloriosa história, e que as minhas referências como Sun Tzu e Zhuge Liang Kong Ming seriam populares e conhecidos por aqui.

Ledo engano.

E este é o motivo:

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A partir da revolução comunista de 1950, Revolução cultural nos anos 70, parece que o passado foi deletado, e tudo recomeçou do zero.

Ainda é possível encontrar sobre os mais de 5000 anos de história da China preservados em tradições e no estilo de vida chinês, porém, para estudar sobre isto, só no museu. Nas ruas, observa-se claramente o controle do Estado em todas as vidas deste país – mas isto é tema de outro assunto, mais detalhado.

 

Não encontrei a Arte da Guerra antiga, somente os efeitos da Arte da Guerra moderna. E, dizem as lendas, que Mao Tsé Tung sempre carregava uma cópia do Romance dos Três Reinos com ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Missão China

Os próximos posts deste espaço serão dedicados à “Missão China”, minha viagem ao país do meio, para conhecer um pouco mais da cultura local e de empresas de tecnologia deste país. Aliado a isto, colocarei temas de vários anos estudando sobre a cultura chinesa, que me fascina.

Serão meia dúzia de posts, mais ou menos.

Adiantando alguma coisa. O framework mental para entender um país diferente tem que mudar completamente.

Uma coisa é ouvir falar, outra sentir de verdade. Só assim para entender.

– O Estado é muito mais forte e presente do que é possível imaginar num país ocidental. E isto não é de agora, há milênios é assim.

– Pouquíssimas lojas aceitam cartão de crédito, o que dá até um certo desespero. Não aceitam Visa, MasterCard, nada. Eles usam dinheiro ou meios de pagamento móveis, via celular, como WeChat Pay e AliPay.

– Beijing é gigantesca, blocos com um quilômetro de extensão, megablocos residenciais, e só tem vias expressas. Há muitos shoppings, maiores e mais imponentes do que qualquer coisa que eu tenha visto em São Paulo (que é enorme). Lembra um pouco New York, pelo gigantismo das lojas, mas é diferente: enquanto nos EUA essa moda de shoppings e mega lojas está passando, aqui está começando.

– A comunicação é bem difícil. Poucas pessoas falam inglês. Falam mais nos aeroportos, hotéis grandes e pontos turísticos, mas o cidadão comum não fala. Mais ou menos que nem no Brasil, se abordar alguém aleatoriamente na rua, dificilmente ela vai saber inglês. A gente se vira com mímica, apontando para as coisas. O ser humano é bom em linguagem corporal, dá para sobreviver – mas não dá para fazer negociações complexas, claro.

Zaijian!

As 36 Estratégias Secretas Chinesas

A China tem mais de 5 mil anos de história, e muito desta história é de guerras.

O tratado chinês de guerra mais conhecido é a fabulosa “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, entretanto, não é o único. Muito pelo contrário, há vários tesouros escondidos…

O livro “36 estratégias secretas de guerra” é uma valiosa compilação de vários ensinamentos de guerra. O autor desta obra é desconhecido, assim como o período em que foi escrito, e também há mais de uma versão deste tratado.

As 36 Estratégias dos Chineses

O número 36 não é por acaso.

Seis multiplicado por seis dá 36, na aplicação da estratégia, é necessário cálculo cuidadoso, e através dos padrões, a pessoa encontrará a estratégia (1).

 

Comumente, divide-se os 36 estratagemas em 6 grupos de 6, mostrados a seguir.

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Segue a seguir um resumo das estratégias.


 

Estratégias vantajosas (1 a 6)

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1 – Enganar os céus para atravessar o oceano. A origem é uma história em que um exército temia atravessar o oceano. Um conselheiro bolou um plano: combinou uma grande festa com um homem rico, e o exército inteiro se embebedou na casa deste. Quando esses acordaram, viram que a casa do homem rico era um barco, e que estavam no meio do oceano! A estratégia significa criar algo falso para distrair o inimigo, e atingir o objetivo sem que o mesmo perceba.

2 – Sitiar Wei para salvar Zhao. O exército de Wei atacou, venceu e sitiou o estado de Zhao. O exército de Qi, aliado da cidade sitiada, veio em socorro a Zhao. Mas isto significava batalhar diretamente com o poderoso exército Wei. Entretanto, ao invés disso, marcharam em direção à cidade de Wei, que estava desprotegida de seu exército. Assim que isto ficou claro, o exército de Wei teve que retornar à sua base, as pressas. Zhao foi libertada sem batalha alguma! A estratégia significa evitar o ponto forte do inimigo, e atacar o ponto fraco.

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3 – Matar alguém com uma faca emprestada. Quando não se tem força suficiente para se opor ao inimigo, utilizar a força de aliados ou de grupos para tal. Induzir alianças para destruir o inimigo.

4 – Poupar energia enquanto o inimigo se cansa. Saber quando utilizar o tempo e o espaço corretos. Um exemplo é chegar cedo ao palco da batalha, escolher o melhor lugar – que tenha a vantagem natural da altura e do espaço de manobra – e esperar o inimigo vir lutando contra o tempo e contra o terreno.

5 – Saquear uma casa em chamas. Aproveitar a oportunidade de saquear um lugar quando há caos e confusão. Quando o inimigo está numa grande crise, este é o momento para atacar.

6 – Simular um ataque ao leste, mas atacar a oeste. A dissimulação está na essência da estratégia. O inimigo não pode concentrar forças em todos os lugares. A estratégia consiste em ocultar as suas verdadeiras intenções e fazer o inimigo concentrar forças no local errado.

 


Estratégias Oportunistas (7 a 12)

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7 – Criar algo do nada.  Uma sucessão de blefes pode dar certo, se os atores envolvidos acreditarem neste. Um bom exemplo é a história (fictícia) do genro do Bill Gates:

Pai: – Filho, escolhi uma ótima moça para você casar.
Filho: – Mas pai, eu prefiro escolher a minha mulher.
Pai: – Ela é filha do Bill Gates…
Filho: – Bem, neste caso, eu aceito.

Então, o pai vai encontrar o Bill Gates.
Pai: – Bill, eu tenho o marido para a sua filha!
Bill Gates: – Mas a minha filha é muito jovem para casar!
Pai: – Mas este jovem é vice-presidente do Banco Mundial…
Bill Gates: – Neste caso, tudo bem.
Finalmente, o pai vai ao Presidente do Banco Mundial.
Pai: – Senhor Presidente, eu tenho um jovem muito bem recomendado para ser vice-presidente do Banco Mundial.
Pres. Banco Mundial: – Mas eu já tenho muitos vice-presidentes.
Pai: – Mas senhor, este jovem é genro do Bill Gates.
Pres. Banco Mundial: – Neste caso ele pode começar amanhã mesmo!

8 – Fuga secreta por Chen Can. Atingir o inimigo pela retaguarda, onde ele estiver desprotegido, e de forma inesperada. Esta estratégia deriva de uma história de Lui Bang, 200 a.C., que viria posteriormente a ser imperador da China. O exército de Liu Bang estava em retirada, e mandou destruir todas as pontes que acessavam o seu acampamento. Meses depois, ele ordenou que reconstruíssem as pontes. O inimigo, desconfiado, passou a se preparar para um ataque iminente pela pontes. Mas, para surpresa do inimigo, Liu Bang utilizou a passagem secreta de Chen Can, contornando as montanhas por um longo caminho, para um ataque-surpresa.

9 – Observar o fogo do outro lado do rio. Quando houver desordem e lutas internas entre as forças do inimigo, deve-se esperar enquanto este se enfraquece.

10 – Uma adaga atrás de um sorriso. Conquistar a confiança do inimigo, para desarmá-lo. O que parece fraco (macio) por fora, pode ser forte (duro) por dentro.

Na Arte da Guerra de Sun Tzu, há uma frase memorável a respeito:

Quando capaz, finja incapacidade; quando ativo, finja inativo. Quando perto do objetivo, finja estar muito longe; quando muito longe, faça com que pareça perto.

11 – A ameixeira morre no lugar do pessegueiro. Fazer sacrifícios quando perdas são inevitáveis. É o popular “perder os anéis para salvar os dedos”. O poema significa que essas duas árvores são tão íntimas que uma está disposta a morrer pela outra.

12 – Roubando um bode pelo caminho. Aproveitar uma oportunidade de ganho fácil, por menor que seja. Aproveitar as vantagens que surgem pelo caminho.

 


 

Estratégias Ofensivas (13 a 18)

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13 – Bater no capim para assustar a cobra. Ao invés de capturar a cobra, deve-se assustá-la dando batidas no capim, e fazer a captura quando ela aparecer. É uma estratégia ofensiva, para fazer o inimigo revelar as cartas que tem na manga. Um exemplo é fazer um lance inicial alto num leilão, para testar quem quer realmente bancar a concorrência.

14 – Tomar um cadáver emprestado para ressuscitar uma alma. Uma pessoa fraca pode requerer sua assistência para ficar forte e conseguir se opor ao inimigo. Por outro lado, mesmo o exército forte precisa da ajuda de vários exércitos fracos para chegar aos seus objetivos.

Um exemplo muito bom é o Natal. Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. O Natal no dia 25/dez só surgiu no século IV, aproveitando que vários povos já comemoravam esta data como sendo o solstício de inverno. Ou seja, tomaram um cadáver (data comemorativa de povos conquistados pelo Império Romano) para ressuscitar uma alma (tomar para si esta comemoração).

Outro exemplo: fazer de Tiradentes um herói nacional, um século depois de sua morte.

15 – Atrair um tigre para fora de sua toca. Um tigre é muito forte em seu estado natural, mas vai se retrair em ambiente desconhecido.

Uma estratégia de negociação é chamar o outro lado para uma reunião, e colocar muita gente do seu time por muito tempo para fazer pressão em cima do oponente.

Para quem gosta de futebol, um tigre fora de sua toca é como jogar fora de casa, com a torcida contra, com os gandulas contra, com todo o ambiente desfavorável.

16 – Soltar um inimigo para recapturá-lo depois. Há situações em que é melhor não encurralar o inimigo, e sim soltar e perseguir de perto até este se cansar.

Numa pescaria, puxar bruscamente o peixe vai fazer a linha arrebentar. É melhor tensionar e liberar seguidas vezes, até o peixe esgotar suas forças.

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Outro exemplo. Recapturado e solto 7 vezes.

17 – Dar tijolo para obter jade. Abrir mão de algo de pouco valor, para obter algo de muito valor. O comércio tem dezenas de casos assim: itens grátis para degustação (que levam a compra por impulso ou retribuição), compras com “frete grátis”, desconto ao comprar mais de um produto, ganhar de brinde algum produto encalhado, etc…

18 – Capturar o líder dos bandidos. Quando o centro de gravidade orbitar fortemente no líder, e este for capturado, a organização toda irá desmoronar.

 


 

Estratégias de Confusão (19 a 24)

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19 – Tirar a lenha de debaixo do caldeirão. Ao invés do confronto direto, utilizar táticas para minar a moral do inimigo. A estratégia vem da seguinte frase.

Retire a lenha, para evitar que a água ferva, corte a grama destruindo as raízes.

 

História: o grande Confúcio era conselheiro do imperador de Lu, o que fazia com que este tivesse força e sabedoria. A fim de atacar Lu, o inimigo primeiramente tirou Confúcio da jogada. Ele fez oferendas de ouro, presentes, bebidas, cavalos e oitenta beldades para o imperador de Lu. Este aceitou as oferendas e passou a levar uma vida de libertinagem, ignorando Confúcio, que pediu exoneração do cargo meses depois. Sem a sabedoria de Confúcio, o império Lu foi facilmente manipulado e conquistado, anos depois.

20 – Tornar as águas turbulentas para pegar um peixe. Fazer um lamaçal para o peixe ficar confuso e capturá-lo. Um exército confuso proporciona a vitória ao inimigo.

Algumas dicas para evitar a confusão:

  • Canais de comunicação eficientes
  • Procedimentos claros
  • Feedback preciso

21 – Mudar de pele como uma cigarra dourada. Escapar sem ser percebido, como a cigarra que muda de pele. Adaptar-se à mudanças que ocorrem constantemente no meio-ambiente.

22 – Fechar as portas para pegar o ladrão. Quando o inimigo é fraco, ele perde o espírito de luta ao se ver cercado como o ladrão preso na casa. Sun Tzu diz, quando a vantagem for de 10 para 1, cerque-o por todos os lados.

23 – Fazer amizade com o distante e atacar o próximo. Formar alianças estratégicas com sócios distantes para atacar um concorrente local.

Exemplo: uma companhia pode fazer parte de uma aliança internacional com outras companhias, e com isso obter vantagem sobre o concorrente local.

 

24 – Passagem emprestada para atacar Guo. Utilizar algum recurso de outrem, como uma passagem por dentro do território, para atacar o inimigo. Na estratégia 3, matar com uma faca emprestada, é o terceiro que faz a ação, agora na estratégia 24, sou eu que faço a ação, e o terceiro apenas empresta recursos.

Exemplo: vender o seu produto com a marca de outra companhia, para “pegar emprestado” o nome desta.


 

Estratégias de Dissimulação (25 a 30)

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25 – Substituir vigas e pilares por outros inferiores. Alterar estruturas importantes, como vigas e pilares, por materiais de qualidade inferior, e com isso enfraquecer o inimigo.

Exemplo: Uma vez comprei um carro, que tinha uma lataria muito bonita. Alguns meses depois, problemas começaram a acontecer. O carro ficava acelerado, por conta de uma pecinha que tinha quebrado. A vidro elétrico também quebrou. Depois, o para-brisa. Debaixo da aparência, peças inferiores.

26 – Apontar para a amoreira, mas repreender a acácia. Consiste em repreender indiretamente, utilizar alguém fraco para mandar a mensagem para alguém forte. Uma variação desta estratégia é “Matar a galinha para assustar o macaco”.

A galinha é muito mais fraca do que o macaco, e matar a galinha tem como objetivo controlar o macaco.

27 – Fingir-se de louco, mas manter-se são. É melhor fingir que não sabe e não tomar providência do que fingir que sabe tudo e se meter em um situação que não é possível contornar. Melhor fingir-se tolo numa situação difícil e se preparar para um momento posterior.

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O imperador romano Cláudio era figura pouco destacada. Era coxo e gago. Não demonstrava nenhuma aptidão política.

Quando os legionários assassinaram o seu predecessor Calígula, encontraram Cláudio escondido atrás de uma cortina. Cláudio foi poupado, porque parecia bobo, inepto, daria um imperador fantoche perfeito.

Mas, por trás da aparência, Cláudio era um homem estudado, bem educado, brilhante governante e estrategista, retomando o poder quando as circunstâncias foram favoráveis.
O seu governo foi brilhante na parte política e militar.

28 – Tirar a escada depois que o inimigo subir no telhado. Utilizar iscas para atrair o inimigo para uma armadilha. Quando ele estiver subido no telhado, tirar a escada, deixando-o sem saída.

29 – Cobrir a árvore de flores. Melhorar a imagem de algo, para passar uma impressão diferente da real. Popularmente, enfeitar a noiva para o casamento.

Um exemplo muito comum é o IPO de companhias. Os executivos, muito interessados em fazer a abertura de capital e embolsar uma pequena fortuna, fazem de tudo para que a imagem e as contas da empresa pareçam boas, muitas vezes cortando gastos de curto prazo e criando problemas de médio e longo prazo com isso.

30 – O convidado no papel do anfitrião. Quando o anfitrião é fraco, e o convidado, forte, este assume o papel de anfitrião e conduz a cerimônia.

Exemplo. Entrevistas com políticos experientes. Independente da pergunta que o jornalista faz, o político vai responder o que for melhor para ele.


 

Estratégias Desesperadas (31 a 36)

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31 – A trama da beleza. De forma geral, significa focar no ponto fraco do inimigo. Até mesmo os mais poderosos generais (homens) são muito manipuláveis por mulheres bonitas e charmosas.

Exemplos abundam na história. Sansão derrotado por Dalila, Betsabá conquistando o coração de Davi – e colocando o seu filho Salomão no trono, Cleópatra, Helena de Troia, etc…

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32 – A trama da cidade vazia. É uma estratégia desesperada, para confundir o inimigo.

Vem de uma história ocorrida com o grande estrategista Zhuge Liang KongMing. Ele estava encurralado pelo inimigo, e fez algo completamente inesperado: simplesmente abriu os portões da cidade, e passou a varrer a entrada, calmamente.

O oponente, que já tinha caído em várias armadilhas de KongMing, desconfiou de alguma trama, e desistiu do ataque.

Para esta estratégia funcionar, deve-se ter bastante conhecimento psicológico sobre o oponente.

33 – A manobra do agente duplo. Utilizar o próprio espião do inimigo para disseminar informações falsas.

Sun Tzu dedica um capítulo inteiro da Arte da Guerra para o conceito de espionagem. Aqui nas 36 estratégias, não é diferente, informação e contra-informação são a forma de saber o que está acontecendo e planejar ações.

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34 – O método da autolesão. Causar dano a si mesmo, como forma de ganhar a confiança do inimigo. Exemplo de um general chinês, que amputou o próprio braço para dizer que tinha sido traído, mas na verdade era apenas um engodo para se infiltrar entre os oficiais do inimigo.

35 – Manobras interligadas. Utilização conjunta, serial ou paralela, das estratégias descritas acima. Saber cada uma das estratégias é bom, mas saber qual utilizar, quando, onde e como, é a verdadeira Arte da Guerra.

36 – Fuga – a melhor trama. Se nada mais dar certo, fugir é uma excelente opção. Não há nada de errado em se retrair hoje, para poder batalhar amanhã.

 


Conclusão

Os 36 estratagemas é um dos tratados de guerra que são referência na história da humanidade. Fiel ao estilo chinês, as estratégias são descrições simples (originalmente escritas em 4 caracteres), metafóricas, mas de significado profundo se compreendidas  em sua essência, e devastadoras quando aplicadas.

Há inumeráveis outros exemplos de uso, que abordo de quando em quando neste espaço, e continuarei abordando, pelo tema ser muito rico, e pelo ser humano ser extremamente complexo.

 


Links e notas de rodapé:

(1) As 36 estratégias dos chineses – Wee Chow Hou & Lan Luh Luh

(2) https://super.abril.com.br/historia/jesus-nasceu-no-dia-25-de-dezembro/