A Lei de Goodhart

“Uma métrica, quando se torna uma meta, deixa de ser uma boa métrica.” Essa é a Lei de Goodhart.

Uma métrica é um indicador, um número que mede alguma coisa: performance, nível econômico, termômetro indicando temperatura etc.

E uma meta é um objetivo claro, com prazos e responsáveis: atinja tal performance, chegue a tais indicadores até o fim do ano…

A Lei de Goodhart tem como pilar uma outra lei básica da economia: pessoas respondem a incentivos.

Além disso, nenhuma métrica consegue capturar todas as informações do mundo real. Uma métrica é apenas uma simplificação de alguns aspectos da realidade, possíveis de medir. A temperatura do corpo é um indicador importante e uma aproximação para a saúde de uma pessoa, mas nem toda doença causa febres no corpo.

E é esse o problema: se eu tenho incentivos para perseguir uma meta, e tenho uma medida para ela, eu vou atingir essa meta, independente das consequências de segunda e terceira ordem. Dessa forma, a sua métrica deixa de ser uma boa métrica.

Exemplos:

O atendente “burro”: um dia, comprei um pacote de leite que tinha 10 unidades. Notei que a atendente pegou uma caixa e passou o código de barra da mesma 10 vezes seguidas, ao invés de digitar 10 no computador e passar uma só vez. Perguntei por que razão ela fez isso. Resposta: “Sou medida pela velocidade com que passo os produtos, e essa é uma forma de aumentar a pontuação”. Ou seja, ela responde a incentivo (velocidade medida), só que a métrica acaba sendo ruim para o consumidor final (vou perder mais tempo na fila), de forma que essa meta deixou de ser uma boa métrica.

Criação de cobras: na Índia sob o comando dos britânicos, estava havendo um crescente problema com cobras. O governo então criou um programa para pagar pelo quilo de cobras mortas entregues pela população. Resultado: alguns indianos passaram a criar cobras em cativeiro, para vender ao governo. Quando as autoridades entenderam a fraude, acabaram com o programa. Sem incentivo, os criadores de cobra soltaram as mesmas na natureza, piorando o problema.

Uma métrica simples pode ser fácil de medir, porém vai deixar de fora inúmeros aspectos importantes da realidade. Já uma métrica complexa demais pode ser tão complicada de medir que não será atualizada, perdendo a razão de existir.

Há uma infinidade de incentivos perversos deste tipo, cujos resultados saem exatamente o oposto da intenção original. O link do apêndice conta vários casos.

Pesquisa de satisfação: em diversas compras que fazemos, vem depois uma pesquisa de satisfação, que é uma forma de medir a qualidade do serviço prestado. Um dia, recebi um e-mail mais ou menos assim: “Você receberá uma pesquisa de satisfação. Avalie o meu serviço, a minha remuneração variável está atrelada à sua nota”. Só faltou ela me ameaçar para que eu assinalasse nota 10.

Uma fábrica de pregos na era soviética era cobrada pela quantidade de pregos produzida. Passaram a produzir pregos cada vez menores e mais finos, inúteis para construção civil, na prática. O governo passou a cobrar pelo peso – e aí, passaram a produzir pregos cada vez maiores e mais gordos, tanto que também eram inúteis para a construção.

Na minha visão, indicadores são úteis, mas não são absolutos. É bom ter uma gama de indicadores medindo a realidade de formas diferentes. É como dirigir um carro, olhando para diversas informações no painel: velocidade, temperatura do motor, entre outros. Mas sempre tem que ter um fator humano para ponderar quais indicadores são importantes ou não, para guiar o carro pela estrada afora.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Perverse_incentive

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